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O REI da Máfia e a Sombra Negra

O REI da Máfia e a Sombra Negra

Autor: LynneFigueiredo
Gênero: Máfia
Fernando Marazano, herdeiro e CEO de um império bilionário do petróleo, comanda também a máfia italiana, um reino de ferro construído sobre sangue e silêncio. Frio e calculista, ele nunca deixou um inimigo vivo. Mas agora, há um nome que atravessa suas noites: Sombra Negra, o assassino que destruiu seu irmão e ameaça o legado da família Marazano. Quando finalmente o encontra, Fernando se prepara para o acerto final. Só não esperava que, por trás da máscara, estivesse Valentina Castiê Bratva filha de seu maior rival e símbolo da organização que ele jurou exterminar. Valentina cresceu entre armas e alianças compradas com medo. Sempre foi tratada como herdeira, nunca como pessoa. Agora, exposta e cercada, carrega nas mãos o mesmo poder que a condena, e uma escolha que pode selar o destino de duas dinastias. Dois herdeiros de impérios construídos pelo sangue descobrem que existe uma força mais perigosa do que a vingança: aquilo que se torna inevitável quando dois inimigos deixam de lutar um contra o outro e passam a lutar contra o mundo inteiro. Entre segredos, mortes e traições, o inevitável se aproxima. Um deles vai cair. O outro vai governar. Mas nenhuma das duas famílias sairá ilesa.
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Capítulo 1 ⚔️A BATALHA NO GALPÃO

Quando o destino escreve a história, tudo se torna inevitável.

VALENTINA CASTIÊ BRATVA 👠

A noite desceu sobre Moscou como uma sentença. O céu estava pesado, tingido de aço, e o vento arrastava consigo o cheiro da chuva misturado à pólvora que sempre pairava nesta cidade amaldiçoada. Moscou dormia... mas o submundo estava acordado. E eu também.

O galpão da família Bratva um dos nossos mais valiosos arsenais parecia silencioso, mas por dentro fervia como o coração de uma besta. Era mais do que um depósito de armas; era símbolo de domínio. E todos os símbolos de poder atraem inimigos.

Eu já sabia quem viria.

⚜️REUNIÃO NA MANSÃO BRATVA

O relógio marcava 22h quando entrei na sala de reuniões. O cheiro de charuto e uísque envelhecido pairava no ar. Meu pai, Mikhail Bratva, estava à cabeceira, as mãos apoiadas na bengala, observando cada um de nós com aquele olhar que nunca envelheceu. O velho tinha 83 anos e ainda impunha medo. Mas até ele sabia, eu era o cérebro agora. E ele, apenas o nome que sustentava o império.

- Eles virão esta noite. Minha voz soou firme, fria, quase sem emoção. Todos os olhares se voltaram para mim.

- Os Marazano querem nosso galpão. E acham que podem invadir o território da Bratva sem pagar o preço.

Sergei, meu irmão mais velho, me lançou um olhar descrente.

- Tem certeza disso, Valentina? Essas informações podem ser armadilha.

- Não são, respondi, encarando-o de volta. Vieram direto do meu contato infiltrado na Itália. Fernando Marazano está liderando o ataque pessoalmente.

O nome dele cortou o ar como uma lâmina. Fernando. O herdeiro do império Marazano. O homem que jurou exterminar cada traço da nossa família.

Meu pai bateu com a bengala no chão, o som ecoou pela mesa.

- Então o inevitável chegou, murmurou ele. Que os lobos provem o gosto do sangue.

Olhei fixamente para ele.

- Vou liderar a defesa, anunciei. E desta vez, pai, não vai sobrar ninguém pra contar o que viu.

Mikhail me analisou por um longo instante. Sabia que eu não era como Sergei ou Dmitri. Eu não errava. Eu matava rápido, e fazia parecer arte.

- Então vá, disse ele, por fim. Mas lembre-se: os Marazano não lutam por poder. Lutam por orgulho. E orgulho é sempre mais perigoso que uma arma.

Um sorriso frio se formou em meus lábios.

- Eles que aprendam o que acontece quando desafiam a filha da Bratva.

⚜️ O GALPÃO

A madrugada nasceu coberta por nuvens grossas. Meu corpo estava vestido de preto, o cabelo preso e coberto pela touca e máscara preta, só meus olhos azuis de fora. Eu não era Valentina agora. Eu era Sombra Negra.

O codinome havia se espalhado como uma lenda entre as máfias, um fantasma que eliminava homens sem ser vista. E naquela noite, eu seria o pesadelo dos Marazano.

Pelo comunicador, dei a última ordem.

- Posições. Ninguém dispara até meu comando.

Meus homens, doze ao todo, se espalharam como sombras ao redor do galpão. O som distante de passos se aproximava. Estavam vindo.

A respiração ficou ritmada. Meus dedos acariciaram o gatilho com calma. E então, o som metálico do portão sendo arrombado cortou o ar.

Fernando Marazano apareceu. Frio, letal, com o mesmo olhar arrogante que eu lembrava de anos atrás, após eu ter o derrotado em outra batalha e em seu olhar havia um homem feito de ferro e ódio.

Ele achava que o ataque seria rápido. Que sairia daqui com nossas armas e a glória de humilhar os Bratva. Que pena.

- Agora, sussurrei.

O inferno se abriu.

As luzes explodiram com o primeiro disparo. O som dos tiros ecoou como trovões dentro do galpão, e as sombras se moveram com precisão assassina. Meus homens atiravam com sincronia perfeita. Um, dois, três... e os gritos começaram.

Vi um dos capangas de Fernando cair com um tiro na garganta. Outro tentou recuar, mas uma lâmina atravessou o pescoço antes que pudesse gritar. A fumaça enchia o ar, e eu me movia entre ela silenciosa, mortal, invisível.

- Merda, é uma emboscada! ouvi alguém berrar. E então o som de mais tiros, mais sangue, mais corpos no chão.

Fernando reagia, tentando comandar o caos, mas o caos já era meu. Meu território, minhas regras.

Atirei sem hesitar, atingindo o ombro de um dos seus tenentes. Vi o olhar de Fernando se voltar pra mim não de medo, mas de reconhecimento. Algo dentro dele pareceu entender, mesmo antes da máscara cair.

O confronto foi rápido, brutal, inevitável. Disparei. Ele desviou. Ele avançou. Eu chutei, atirei, errei. O metal frio da arma dele reluziu quando o impacto me atingiu no ombro.

A dor queimou, mas eu não gritei. Cair de joelhos, respirei fundo, e mirei novamente. Ele foi mais rápido. Num movimento seco, me desarmou e me jogou ao chão, o joelho pressionando meu peito.

O cheiro do sangue se misturou ao perfume do couro e pólvora. Ele respirava ofegante, o olhar cravado em mim como uma sentença.

- Quem é você, desgraçado? ele rosnou, arrancando a touca da minha cabeça.

Nossos olhos se encontraram.

Por um segundo, o mundo parou. A expressão dele mudou. Raiva... espanto... e algo mais escuro, indefinido. Mas eu não desviei o olhar.

- Valentina Castiê Bratva, declarei, a voz firme apesar da dor.

- O erro foi seu, Marazano. Sempre foi.

Ele apertou ainda mais, o rosto próximo do meu, o olhar frio e sem remorso.

- Vamos ver de quem foi o erro, princesa do inferno.

Ordenou que me amarrassem. E enquanto o sangue escorria pelo meu braço, eu o encarei em silêncio. Deixei que ele pensasse que havia vencido.

Mas eu sabia algo que ele não sabia. Eu nunca perco. Eu apenas mudo o campo de batalha.

Quando as portas do galpão se fecharam atrás de mim, arrastada pelos capangas dele, o cheiro da vitória e da vingança já queimava na minha garganta.

O inevitável havia começado. E eu seria o inferno dele.

Capítulo 2 🏝 A ILHA DO SILÊNCIO

O cárcere onde se testa o aço

FERNANDO MARAZANO 🔱

A noite era densa quando pousamos. O helicóptero cortou o ar como uma lâmina e, por um momento, eu senti o mundo se reduzir ao som do motor e ao peso daquela caixa humana nos meus braços. Valentina no saco, amarrada, imóvel e, por isso mesmo, ainda perigosa. A dor no ombro dela não me dava conforto; dava informação. Ela lutara. Sobrevivera. Isso significava que a ameaça continuava viva. E ameaças vivas exigem soluções definitivas.

Não falo de justiça sentimental. Falo de causa e efeito. Ela matou meus homens. Ela tentou destruir parte do que construí. Quem tenta me destruir precisa pagar e pagar de forma que a lembrança do preço sirva como aviso eterno.

Pisei na ilha e senti o cheiro úmido do mar; era quase irônico como a água que limpa também acaba por obscurecer pegadas. Conduzi-a pelo caminho de pedras até a casa antiga, um pesado monumento de pedra que parecia ter sido erguido para durar muito além de nós dois. A escuridão ao redor nos devolvia em ecos abafados. Ninguém chegaria aqui por acaso.

Quando a empurrei para dentro do quarto e ela foi forçada a sentar naquela cadeira dura, percebi que cada um de seus músculos tremiam de dor, de adrenalina, ou de raiva. Raiva é combustível. Raiva é previsível. Previsibilidade é perigosa. Eu precisava entender o que havia por trás da máscara que ela usara. Quem era Valentina além do nome? Quanto controle ela de fato exercia sobre a Bratva? Quais eram suas redes, seus contatos, suas fraquezas?

Coloquei sobre a cama uma caixa de primeiros socorros que, na verdade, servia para organizar o que eu precisaria dela: os cortes, os ossos quebrados, qualquer sinal de veneno mas também os fios de cabelo que contassem onde ela estivera, os sedimentos que falassem de viagens, as pequenas coisas que os tolos perdem quando estão ocupados demais com ódio.

Desamarrei-a com mãos rápidas e firmes. Ela tentou reagir chute, punho, desespero tudo com a mesma brutalidade retardada de alguém que pensa: se morrer tentando, ao menos morre lutando. Eu não me deixei mover. Não por crueldade gratuita. Por controle. Estabilidade. Acha que controlar outra pessoa é prazer? Não: é a única forma de garantir que as contas sejam fechadas do jeito certo.

Quando a touca saiu, ela me fitou. Olhos claros, rosto marcado pelo combate. Não era surpresa. A beleza nem sempre protege; muitas vezes é armadilha. Fiquei observando-a como quem inspeciona um mecanismo: onde se quebra, onde se mantém, que peças podem ser removidas sem que a máquina inteira deixe de funcionar.

Deixei a porta aberta para o banheiro. Não por clemência. Por logística. Ela precisava de água, precisava limpar o sangue que poderia atrair insetos, rastros, murmúrios. Racionalizei: um prisioneiro limpo é mais fácil de interrogar. Mas, antes de ir até a cama pegar o que precisava, resolvi testar. Testar arrojo, testar espírito de luta. O comportamento vale mais que a confissão.

Quando ela voltou do chuveiro, o vapor ainda subia. A água só tinha apagado a sujeira; a marca no ombro pulsava. Eu me aproximei e ela tentou o golpe previsível, primário. Fui mais rápido. Bloqueei, guiei, permiti que a raiva dela gastasse energia sem efeito. Quando a empurrei, torci os pulsos com força suficiente para lembrar, com menos força para machucar de verdade. Fiz isso para mostrar que eu poderia. Mostrar é às vezes o suficiente.

Com os braços contidos sobre a cabeça dela, a respiração em seu rosto, eu senti o foco da raiva feminina tão puro quanto sangue. Ela falou com ódio bruto palavras afiadas que não buscavam ferir tanto quanto marcar a pele.

- Vou te matar.

disse ela. Uma frase longa demais para quem não pode cumprir ali e então. Eu sorri por dentro. Palavras são gestos. Gestos podem ser usados para manipular. Eu era imune ao espetáculo; queria conteúdo. Queria a estrutura que sustentava aquele ódio.

Sai do quarto e tranquei a porta com o clique que anuncia determinação. Do lado de fora, organizei a logística: segurança rotineira, patrulha no perímetro, transmissões cortadas. Não podemos ter visitas indesejadas nem da polícia, nem de curiosos, nem de bandidos. Tudo precisa parecer perfeitamente natural. A normalidade é uma tela onde se desenha o espetáculo da violência.

Voltei ao quarto apenas para observar. Observação é método. Vi a sombra dela projetada na madeira do piso. Vi a mudança de expressão quando percebeu que o tempo corria contra ela. Valentina não era mera fogueira; era um incêndio de precisão. Organizada. Racional. Com a disciplina de quem aprendeu cedo que a vida é sempre uma conta a pagar. E assim, em silêncio, decidi que a lição de hoje deveria ser mais do que um ferimento.

Não a deixei desarmada para sempre. Não sou sádico por vocação sou cirúrgico. Há prazer nisso? Não. Há eficiência. Tirei a touca novamente, conferi marcações, sujeira, indícios elementos que apareceriam como prova de barbaridade dos Marazano se contassem outra história. Precisávamos que a narrativa fosse nossa, não da propaganda inimiga.

Na mesa, escrevi o interrogatório em tópicos: quem a treinou; quem a financiou; quantos homens tinham sob seu comando; a rota de acesso ao arsenal; o nome do contato que fornecera a informação dos Marazano; por fim, o que soubesse sobre outros alvos porque eu desconfiava que o ataque não fora libertinagem cega. Ataques são sempre cartas de baralho estrategicamente jogadas.

Quando a convoquei para responder, ela respondeu com silêncio. Não por falta de palavras, mas por princípio. Princípio é a armadura da tola que não percebe quando a armadura é também uma prisão. Usei o tempo. Deixei as perguntas pairarem como facas. Em dois dias, com cabeça limpa e braços sem febre, a verdade sairia. Ou eu faria com que saísse.

Mas a guerra não é apenas respostas. É posicionamento. Enquanto ela limpa suas feridas, eu crio mapas, mando chamadas, agendo retratos mortais: patrulhas onde os Marazano menos esperam, infiltrações em segurança do inimigo, pequenos ataques que desarticulam a confiança deles. A guerra se ganha quebrando rotinas, e eu fazia disso uma arte.

Antes de deixá-la de novo no quarto, encarei-a e disse apenas uma coisa, sem dó:

- Você matou nossos homens. Isso não fica impune. Não há perdão no que faço. Só há soluções.

Meu tom foi simples, sem rodeios, sem pretensos jogos de sedução porque não quero isso. Quero dominação. Quero controle. Quero que ela compreenda, no corpo e na mente, que a narrativa dela termina onde eu decidir.

Ela fitou-me, os olhos como brasas que ainda poderiam incendiar.

- Que fofo! O que esperava? Invadir meu galpão, roubar nossas armas e sair impune?

- Ai! A gatinha selvagem fala! E quem te falou que queríamos suas armas?

Ela me encarou e sorriu, vi surpresa.

- Eu fui buscar você. Só não esperava perder tantos homens no processo.

Capítulo 3 🏠 A CASA DO INIMIGO

Onde o controle muda de forma

VALENTINA CASTIÊ BRATVA 👠

O sol mal havia nascido e o quarto ainda cheirava a maresia e ferro. Depois do banho, enrolei a toalha na cintura e fui até o guarda-roupa, uma caixa de madeira que mais rangia do que guardava. Abri as portas e só encontrei uma camisa masculina grande, grossa, com o cheiro dele: madeira, fumaça e arrogância. Era como se Fernando tivesse passado por ali e deixado um pedaço de si no tecido.

Revirei os olhos. Óbvio que o desgraçado não deixaria nada decente. Vesti a camisa por necessidade, não por submissão. Usei a lâmina da caixa de primeiros socorros para rasgar as mangas até os ombros, transformando o pano em algo mais prático. Cortei uma tira de uma das mangas e improvisei um curativo no ombro. Cada movimento doeu; a dor era um lembrete vivo: eu tinha sobrevivido. O espelho devolveu a imagem de uma mulher ferida, inteira em sua ferocidade. A camisa grande não me fazia vulnerável só, temporariamente, disfarçada.

Sentei na beira da cama. A madeira rangeu sob meu peso e o som das ondas atravessava a janela como uma batida de relógio: o tempo corria a favor de quem se movia pensando. Isolada, eu não tinha aliados; tinha apenas o mapa mental do que podia e devia fazer. Planejar havia sido sempre o meu talento mais letal. Ele podia me manter amarrada; não podia controlar meu raciocínio.

A porta rangeu e ele entrou com o moletom molhado. Trazia uma bandeja simples, o riso curto nos lábios como se toda a noite sangrenta fosse um detalhe que não tocava sua rotina. A naturalidade com que andava sempre me surpreendia ou talvez fosse a arma mais afiada dele.

- Desculpa, gatinha selvagem, disse, colocando a bandeja sobre a cama. Não é a casa mais luxuosa, então não espere café de hotel cinco estrelas.

- Não tem coragem de me enfrentar, então vai tentar me envenenar? respondi, direto. Tão previsível, Marazano.

Ele deu uma risada curta, sem calor.

- Se eu quisesse te matar, teria feito ontem. Acredite, seria mais rápido.

Seus olhos varreram o curativo no meu ombro e a camisa que eu adaptara.

- Rasgou minha camisa, comentou, com ar de curiosidade. Tudo bem, tenho outras.

- Posso tirar também, se preferir, retruquei, junto ao sarcasmo.

Abri os botões devagar. Um a um, o som do tecido soltando preencheu o quarto. Quando o último botão veio, deixei o pano cair dos ombros e permaneci nua por baixo. Não era submissão; era um desafio calculado. Queria ver até onde a máscara dele tremia. Queria medir o espaço entre o que ele dizia e o que ele fazia.

Fernando não se moveu de imediato. Depois ergueu-se, com lentidão fria, e pegou um morango da bandeja. Mordeu, o suco vermelho entre os dedos, e se inclinou, colocando o restante da fruta nos meus lábios com um gesto estudado.

- Não me provoca, gatinha, murmurou, os olhos implacáveis. Ou eu posso acabar gostando mais do que devia.

Ri baixo, surpresa por me permitir rir.

- Me parece que quem vai gostar é só você, Marazano.

Ele puxou a camisa de volta sobre os meus ombros e começou a abotoar. Os dedos dele eram precisos; o gesto, por mais que parecesse íntimo, tinha o ar de uma operação metódica. Não era carinho, era controle. Passou os dedos junto ao meu pescoço, firme e sem pressa, e então afastou-se, observando.

- Vista-se, Bratva. A partir de agora, você vai aprender o significado de território inimigo, disse, seco.

- Já aprendi, respondi, cortante. É onde idiotas se sentem seguros.

Ele sorriu, por um segundo quase humano, mas não havia ternura ali.

- Vamos sair daqui, anunciou. Vou te levar para o próximo ponto. Quero uma bebida decente e comida de verdade. E se quiser continuar nua, prometo não reclamar.

- Tá me levando como troféu? perguntei, irônica. Vai me desfilar como prêmio pela sua vitória?

- Fernando, gatinha selvagem, murmurou ele, com uma familiaridade estudada. Meu nome é Fernando. Se vai me odiar, ao menos saiba quem me chama.

Estendi a mão por cálculo, talvez por curiosidade. Olhar de perto o inimigo é a melhor forma de entender suas reações. Saímos do quarto lado a lado. O corredor tinha o cheiro úmido da madeira e do mar; o ar era denso com o que não foi dito.

Ao invés de descrever fachada alguma, concentrei-me nos detalhes que entregam mapas: a largura do corredor, o posicionamento das janelas, os trilhos que ouviam passos do andar de cima. Cada objeto no caminho dizia quem morava ali: garrafas antigas, um sofá com a curvatura de quem passa horas pensando, um quadro mal alinhado. Essas pistas alimentavam minha estratégia. O inimigo sempre revela seu padrão quando não percebe ser observado.

Ele parou perto de uma estante e pegou duas garrafas, abrindo uma com calma. Serviu os dois copos, ofereceu-me um e assentiu, como quem convoca para uma mesa de estudo e não para um encontro cordial.

- Não gosto de brindes, disse, entregando-me o copo. Mas essa é uma ocasião especial.

- Capturar uma mulher ferida e trancá-la numa ilha é o que você chama de especial? perguntei, a garganta ainda seca do combate.

- Não. Chamo de vitória, respondeu, curto.

Bebi de modo contido. O álcool queimou; acendeu uma clareza fria. Enquanto eu bebia, notei como ele observava. Não era interesse corporal era pesquisa. Cada movimento meu, cada gesto pequeno, ele anotava mentalmente. E eu também o estudava, registrando uma porção de dados que seria útil. Quem estuda um homem como Fernando não procura afetos; procura fendas, rotas, pontos de pressão.

- Você acha que me conhece, Marazano? perguntei, pousando o copo. Queria provocar uma falha.

- Fernando, corrigiu, com um sorriso nominal. E não acho, Valentina. Eu vou conhecer. Tudo.

- E quando souber o que você esconde, o inevitável vai parecer misericórdia, disse ele, insensível, como se pronunciasse uma sentença.

Ele indicou a saída.

- Vamos, disse, com simplicidade. Preciso de comida descente e uma bebida boa. Aqui não tem isso. E lá...

Ele se inclinou e sussurrou:

- Tem outras camisas e de outras cores.

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