Os pés descalços andavam pelo piso limpo e frio. Seguiam em direção à janela principal. Tenso demais, o homem apertava o nariz do minúsculo palhaço de brinquedo que segurava na mão esquerda fazendo-o piscar. Não lembrava de quando passou a recorrer àquele objeto para aliviar a tensão, mas jamais esqueceria de quando o ganhou.
Ao parar em frente à janela central, concentrou-se na rua que gostava de apreciar desde a infância, onde sentava no parapeito para poder ver a casa branca, de muro baixo. Perdia horas do dia "vendo-a" brincar no quintal sozinha ou na companhia das irmãs. Ele tinha só cinco anos quando aquela casa passou a ser o centro de sua atenção.
Foi durante a volta de um passeio com sua mãe, os dois iam para casa e ela quis fazer outro trajeto por uma rua diferente, quando de repente parou em frente ao muro baixo de uma residência. Sua expressão era tão compenetrada que chamou a atenção do menino.
"Desce daí, filho!"
A bela jovem pediu ao garoto que começou a escalar o muro baixo.
"Quero ver também!" Ele insistiu continuando a subir até atingir o topo e sentar.
A primeira coisa que viu foi uma menina alguns anos mais nova brincando no meio do quintal. Ela usava tranças e estava com um vestidinho rosa com estampas de ursinhos coloridos. Ao vê-lo, a criança correu em sua direção e estendeu a mãozinha com o brinquedo.
"Aninha volte aqui!"
Um homem com expressão severa apareceu na porta da casa.
O som de uma arma engatilhando o trouxe de volta à realidade. Ele se voltou para o invasor de sua casa que agora apontava o revólver em sua direção. Encarou o rosto irado e alguns anos mais velho que aquelas lembranças.
- Cadê a minha filha, desgraçado?
Diana Pontes.
Ela passou em primeiro lugar na federal de medicina aos 20 anos. A primeira da família a fazer faculdade. Seu pai, Benedito Pontes, conhecido por toda Roseiral como Tio Dito, estava há 12 anos em um serviço público como motorista de ambulância da unidade de socorro da cidade. Leila, sua esposa, trabalhava há um tempo de caixa no mercado do bairro. De alguma forma a família Pontes tinha uma certa estabilidade, e as dificuldades não foram tão pesadas. Quando Diana passou em primeiro lugar na universidade, foi como se a família ganhasse na loteria.
O pai chorou muito.
Bebeu muito também.
Dito não estava acostumado a encher a cara, apesar de tomar sua cerveja, vez ou outra e quando soube da conquista da filha, literalmente chutou o balde.
Foi um início de dia divertido no quintal da casa dos Pontes. Alguns amigos mais chegados participaram da comemoração.
Diana conhecia todos, sem muita proximidade, mas aquele dia era especial não só para ela, então foi simpática com os amigos dos pais.
E estava feliz.
Ela também chorou demais.
Aquela conquista ia mudar sua vida.
Não se importou com o banho de farinha colorida preparada por Josy, a amiga de infância, Jéssica, a irmã do meio e Luana, sua irmã caçula.
A comemoração estava perfeita até que...
Um carro estacionou em frente à sua casa.
Um carro branco, muito limpo.
E aparentemente novo. Deveria ser, estava envolvido por um laço vermelho gigantesco, como um presente.
A rua parou.
De repente, a frente da casa dos Pontes estava cercada de vizinhos.
Diana paralisou.
Todos paralisaram.
Emocionada, ela tapou a boca virando-se para o pai.
Dito a encarou surpreso.
-Não, não fui eu, filha... - disse, tão perdido quanto ela.
Do carro saiu um jovem conhecido.
Filho do seu Formiga, dono do bar da esquina.
Filho perdido para o reino do crime.
Vitinho...
Ele todo sorridente foi até o portão.
- Seu Dito, dona Leila...
Começou todo cerimonioso.
- A felicidade de vocês se espalhou pelo nosso Roseiral e cativou nosso irmão e colaborador.
" Colaborador"
O adjetivo mais sutil para o maior traficante da cidade.
- Para parabenizar a conquista da filha de vocês, Diana, agora futura doutora do nosso bairro, que ela receba esse presente enviado com todo carinho por Randal Reis, seu grande admirador...
Vitinho estendeu a mão pela grade do portão segurando a chave do carro.
O gesto provocou um falatório geral.
- Nossa! Um carro! - Jéssica tentou ir até o portão, mas Leila segurou seu braço.
- Nem pense em ir até lá. - a mãe ordenou.
E Diana...
Bem, ela foi a primeira a dar as costas e entrar em casa sem dizer uma palavra.
Com uma expressão satisfeita, Dito fez o mesmo gesto.
- Vamos terminar de comemorar lá dentro pessoal, tem muita pizza e duas caixas de cerveja para esvaziar.
Mais tarde, após a comemoração, a maioria dos convidados já tinha ido embora. Dito estava na companhia de seu velho amigo Jorge. Os dois homens estavam sentados à mesa da cozinha.
- Acha que devo falar com esse cara? Ele precisa saber que eu o mataria se ousar se aproximar da minha filha.
Dito comentou antes de tomar um gole de cerveja.
- Você sabe quem é que irá morrer se for brigar com o Rei não é? E aí quem ficará aqui para cuidar de sua família? Quem garante que elas, sua mulher e filhas estarão seguras?
As palavras de Jorge, seu amigo e esposo de Vera provocaram arrepios em Dito.
- A Diana vai estudar na cidade, não terá contato nenhum com o Rei... E outra, ele sabe que não tem a menor chance com ela, a garota é jogo duro, ninguém dessa rua tem a menor chance com ela.
Jorge finalizou e os dois riram.
- Que ousadia...
Disse Vera, sentada no sofá da sala.
Leila colocou a bandeja de suco sobre a mesinha à sua frente. A família Pontes não tomava refrigerante desde que Diana fez sua monografia na oitava série sobre os males da alimentação. Apenas Benedito seguia com sua cerveja aos finais de semana.
- Ainda bem que a minha filha vai embora para o centro da cidade assim que efetuar a matrícula. - Leila também estava tensa.
- E o Dito? Pensei que ia perder a linha.
- Eu também achei, Vera, mas ele está de boas conversando com o Jorge na cozinha.
- Leila, minha amiga, porque o Rei daria um carro para Diana? Ela praticamente não sai do quarto dela! De onde esse garoto a conhece?
A pergunta da amiga a fez suspirar. Vera e família não moravam mais em Roseiral há um bom tempo. Quando João Reis ainda "reinava" no bairro.
- O pai dele o matriculou na mesma escola da Di, eles só tiveram contato no último ano do ensino médio... Foi aí que nosso inferno começou.
- Mas ele não é mais velho?
- Dois anos apenas, ele havia se afastado da escola para competir fora no judô e perdeu uns anos de estudos, quando voltou caiu na mesma sala que ela.
- Mesmo morando fora daqui eu soube disso... Pensei que ele não seguiria o mesmo rumo que o pai, já que é um medalhista. - Vera lamentou - Dizem que tinha um futuro promissor.
- Pois agora ele toma conta de tudo!
- Sim! - Vera a olhou bem - Leila, nem quero imaginar o que possa acontecer.
Seu comentário fez cobrir uma sombra no rosto da amiga.
- Eu também, ele nunca escondeu que quer minha filha... E passou a mostrar isso quando um perturbado desavisado deu em cima dela na escola.
Alguns anos antes...
Diana sempre foi uma garota aplicada e dedicada nos estudos, e era uma estrategista de sobrevivência em sala de aula também. Sentava na primeira carteira, em frente a lousa e próxima a professora. Ali ninguém nunca a incomodou.
É certo por um azar no seu último ano do ensino médio.
E seu nome era Pedro.
O garoto veio de outra escola cursar o último ano na Escola Maria Cecília.
Diana era uma garota linda, mas fora do padrão de beldades do colegial. Nesse quesito, Jessica, sua irmã um ano mais nova, era uma das atrações. A beleza de Diana sempre foi discreta, usava óculos, camisetas, jeans, nada de maquiagem, cabelos com coques. Ao contrário de Jéssica que adorava uma vestimenta mais chamativa e maquiagem bem marcada. O jeito introvertido de Diana foi a primeira coisa que chamou a atenção do aluno novo. O que ele não sabia é que há anos aquele jeito dela também era alvo da atenção de outro colega de classe, Randal Reis, filho de João Reis. O Rei de Roseiral. E não era pelo sobrenome. Só que o jovem Pedro não tinha ciência disso, então Diana passou a ser uma das garotas das quais se interessou.
Ela sempre levava um livro nos intervalos, então dificilmente conversava com alguém. Sentava num canto livre qualquer e ali gastava seus vinte minutos de lanche.
- Oi.
Diana levou alguns segundos para se desconectar de sua história e erguer o rosto para o novato.
Pedro era um jovem de beleza facilmente popular, mas Diana não gostou de seu olhar, altivo demais.
- Oi. - respondeu sem entusiasmo.
- Você gosta de ler, eim! - o garoto reclamou com uma careta.
Ela arqueou as sobrancelhas e voltou os olhos para a leitura.
-Me dá isso aqui! - Pedro bruscamente tomou o livro de suas mãos. - Desde que entrei nessa escola você não larga esses livros e eles não tem nem figuras!
Diana sentiu as faces esquentarem de raiva.
- Devolve meu livro! - pediu ficando de pé.
- Vem pegar!
Pedro o agitou antes de sumir de suas vistas.
Ela chegou a dar um passo, mas parou. Era isso que ele queria, que ela se descontrolasse.
- Garoto esquisito!
Bufou irritada, por fim não daria o que ele queria. Já o viu mexer com outras garotas e a atenção delas o divertia.
Diana era de poucas palavras e inacessível também quando não queria socializar. Talvez Pedro encarasse isso como um desafio, então no dia seguinte, sua abordagem foi mais agressiva, ele a empurrou para sentar em seu lugar. Diana cambaleou e olhou para seu rosto debochado. Havia poucas pessoas na sala. Tomada de indignação, ela respirou profundamente e foi sentar-se o mais longe possível, escolheu uma das cadeiras livres nos fundos da fileira.
Aos poucos, a sala foi enchendo com a chegada do restante de alunos. Randal Reis era um deles e sentava naquela direção dos fundos. Ele estranhou ao ver Diana ali, com expressão aborrecida ao lado de sua carteira.
Ela Nunca esteve tão próxima.
Encarando-a, confuso, só então percebeu sua atenção para frente, para o novo aluno que estava sentado em sua cadeira. Ele também o havia notado lá, a carteira dela era a primeira coisa que olhava ao entrar na sala, então achou que tivesse faltado, mas Diana estava ali do seu lado, visivelmente zangada e nem o notava.
- Ei...
A chamou enquanto sentava e ela demorou tanto a responder que achou que não o tivesse escutado. Então Diana virou o rosto devagar e Randal pode ver sua expressão tomada de raiva.
- Está... Tudo bem? - perguntou surpreendido.
Diana ficou ainda mais aborrecida ao perceber que estava sentada ao lado do garoto que o pai pedia para evitar desde que ele foi transferido para lá no quinto ano e ela era da terceira série. Já era para ele ter se formado, mas saiu da escola no último ano do médio e agora estava há quase seis meses na sala dela.
Pela primeira vez perto dele pôde ver o seu rosto nitidamente, mas não lembrava de seu nome.
" Não faça amizade com esse aí, o pai dele não presta."
Seu pai avisava quando vez ou outra aquele garoto passava por sua rua.
- Sim. - ela finalmente respondeu voltando o rosto para frente sem saber que aquele seu estado perturbaria o colega de classe durante o restante do dia.
Quando o sinal de intervalo tocou, Diana apressou-se para a saída sob o olhar intrigado de Randal. Ele percebeu que Pedro também a acompanhou com os olhos e franziu a testa tentando imaginar o que teria feito para Diana.
-Aquele cara tá dando uma de doido provocando a Aninha, deixa o tio Dito saber disso.
O colega atrás dele, Marcão comentou também atento na movimentação.
- O que houve?
- Você não estava aqui ontem, o mané pegou o livro dela no intervalo e agora não a deixou sentar em seu lugar... Sabe aquela velha tática de quinta série pra chamar atenção.
Os olhos de Randal brilharam da forma que o colega conhecia bem.
O intervalo.
Em frente ao espelho do banheiro feminino, Diana olhava para seu rosto transtornado tentando imaginar por que o garoto novo cismou justo com ela.
- E aí...
Jéssica apareceu e percebeu sua aflição.
-Oi... – Diana colocou os óculos nervosamente.
- Você está bem? Tirou nota baixa? Só te vejo esquisita assim quando ganha menos que dez.
Diana encarou a irmã. Raramente Jéssica não referia a ela com ironia ou deboche.
- É só uma dor de cabeça...
"Que se chamava Pedro"
- Então se apresse pra sua sala que o sinal já tocou... – Jéssica seguiu para o sanitário.
Diana sobressaltou, havia passado o intervalo todo no banheiro que mal ouviu o sinal. Saiu às pressas e esbarrou em alguém ao seguir para o corredor de salas.
-Desculp...
Ficou eletrizada ao ver em quem trombou.
Pedro!
- Tá fugindo é?
-Céus!
- Calma aí...
Diana sentiu o coração disparar de desespero quando ele a pegou pelos ombros e a colocou contra a parede.
O horror tomou conta ao perceber sua intenção.
- Não...
Seu protesto foi abafado por lábios duros esmagando os seus, um beijo insistente que durou até Diana se desvencilhar dos braços de Pedro e correr para longe enquanto ele gargalhava.
- Quem disse que ninguém conseguia beijar essa garota?
Ela ainda o ouviu gritar entre os risos de seus colegas.
Entretido em uma conversa entre amigos, Randal viu a entrada desesperada de Diana na sala. Ela seguiu até a carteira, pegou seu material e correu dali, tudo aos prantos. Atordoado, ele a seguiu até o corredor e Marcão fez o mesmo. Os dois pararam ao vê-la se esquivar com um grito de "me deixe em paz" da provocação de Pedro que vinha pelo corredor.
-O vacilão... – Marcão estava prestes a avançar na direção do garoto, mas uma mão em seu peito o fez parar. O jovem ergueu o rosto para o perfil frio de Randal. Viu seus olhos brilharem feito duas esferas enlouquecidas e seu maxilar endurecer enquanto observava Pedro entrar na sala rindo, parecendo ter acabado de ganhar um prêmio.
Diana não contou para ninguém o que ocorreu naquele dia e durante a noite foi assombrada por aparições de Pedro cercando- a para onde quer que corresse. Às vezes seu rosto mudava para um outro que não conseguia identificar. Nunca em toda sua vida sentiu tanto ódio de alguém. E pela primeira vez também não queria ir para a escola no dia seguinte. Estava sem coragem de enfrentar a humilhação de ter sido beijada a força por um garoto insuportável que se achava o máximo.
Mas ela também não gostava de faltar. E no dia seguinte estava ali, parada em frente ao Maria Cecília enquanto os outros entravam. Todos que passavam, ninguém estava rindo dela pelo menos. Parecia um dia normal.
Nenhum sinal do Pedro.
Sentindo um alívio, Diana ajeitou a mochila nas costas e entrou.
Na sala, a maioria já havia sentado em seus lugares, o seu estava lá, vazio.
Pedro teria faltado ou chegaria depois para a atazanar ainda mais?
Pensou aflita e respirou fundo antes de se sentar em sua carteira. Ali era seu lugar, se aquele garoto se aproximasse dela de novo iria reclamar com a diretora.
Seu sossego durou só cinco minutos.
Pedro apareceu na porta.
Quando Pedro apareceu na porta a sala ficou toda agitada.
Diana o encarou com revolta, mas logo ficou surpresa como os demais. O rosto do garoto estava cheio de hematomas. O olho direito fechado de tão inchado.
Depois do burburinho, veio o silêncio enquanto ele andou devagar até a mesa dela e colocou um livro sobre sua mesa. Diana reconheceu a capa, era o livro que havia tomado de suas mãos...
- Eu... - ele tossiu e pôs a mão no peito como se aquilo doesse - Eu vim pedir desculpas por ter sido um... um...- Pedro hesitou erguendo os olhos para os fundos. - Um filho da puta com você. - completou provocando risos em toda classe. - Um filho da puta e um covarde.
Ele olhou mais uma vez рага os fundos e aparentemente numa relutância interna se ajoelhou diante dela provocando outra agitação de risos. Intrigada com aquela redenção, Diana virou o rosto para trás, o famoso fundão. La ficavam os garotos mais velhos e temidos de sua sala, entre eles, o menino que seu pai não gostava, o jovem sentado despojadamente na penúltima carteira da fileira da parede. Havia sentado ao seu lado no dia anterior, quando ele se dirigiu a ela pela primeira vez perguntando se estava bem. Via agora seus lábios curvados em um sorriso satisfeito, demonstrando que estava se divertindo como o resto da turma. Quando ele encontrou seu olhar, os olhos escuros se concentraram nela de forma intensa e enigmática. Um olhar que sempre lhe provocava arrepios ao cruzar com eles.
Era para ele que Pedro olhava cheio de medo?
Será que...
- Eu peço perdão... Por tudo que fiz. – Pedro disse em tom para que todos ouvissem.
- Seu vacilão... – Marcão gritou aplaudindo junto com os outros alunos. Rapidamente Pedro levantou-se e foi para o seu antigo lugar.
Diana não soube descrever a sensação que sentia no peito, ao mesmo tempo que parecia um alívio, também era algo perturbador. Alguém se vingou por ela. Temia só de imaginar quem seria e a confirmação veio no intervalo. Ela foi rodeada pelas garotas de sua sala. Mirela e Letícia. As duas andavam sempre juntas e pareciam clone uma da outra.
- Menina... Você tem um anjo protetor... E o nome dele é Randal...
Elas estavam eufóricas.
- Randal...
Diana repetiu tentando lembrar da chamada. Era sempre alguém do fundo que respondia.
- Você é muito desligada, cara!
Letícia a fez virar em direção ao palco de eventos, era um elevado que os garotos mais velhos gostavam de sentar e resenhar.
- Aquele lá, o garoto alto, forte, bonito e...
-Bandido.
Mirela completou sarcástica.
-Medalhista de judô, eu ia dizer medalhista! – Letícia esbravejou – O pai dele que é bandido.
- Não se iluda, miga, ele é filho do Rei do tráfico da região, viu o que ele fez com o chato do Pedro? O cara ta só com um olho!
A outra ainda rebateu.
Diana arqueou as sobrancelhas.
-Foi ele... - sussurrou. Seu pai sempre referia àquele garoto como "o filho do bandido".
- Sim, ontem na saída da escola. – Mirela confirmou e Letícia sorriu.
- Bem feito! O Randal disse que arrancará os dentes dele se olhar para você, chegar perto de você, tocar em você... Ele parecia possuído ontem.
-Agora o cara tá lá no banheiro com medo de encarar todo mundo. - Mirela completou aos risos.
No meio daquela conversa, Diana estava presa na vista do rapaz em outra parte do pátio.
Então ele era o Randal... O observou conversar distraidamente com seus colegas de costume. Tentava imaginar aquele garoto batendo em alguém.
Naqueles poucos meses de convivência em sala de aula, ela quase não ouvia sua voz e cruzou poucas vezes com seu olhar. Ele era silencioso demais e ela o ignorou tanto que nem dava conta de sua presença.
- Diana!
As meninas...
Voltou-se para elas.
-Você sabe que ele gosta de você, né?
- Coitada... - Mirela a encarou solidária.
- Quem dera ele gostasse de mim...
- Você é louca, Letícia!
- Vocês duas são loucas, não sou o tipo dele... E mesmo que fosse eu...
- Você... - Mirela a encarou bem - Você nunca notou ele lá atrás, aonde costuma ler né? Sentado do outro lado te observando.
Diana sustentou o olhar de Mirela com estranheza. Nunca percebeu nada daquilo. A única coisa que sabia sobre ele é que deveria evitá-lo.
-Pois então trate de prestar atenção e verá.
As palavras da colega de sala coincidiram com a aproximação de sua irmã, Jéssica na turma de garotos.
- Oi...
A jovem se dirigiu a Randal. De longe, Diana franziu o cenho, estranhando o fato da irmã conhecê-lo.
Randal encarou a garota com curiosidade.
- Oi... - ele respondeu baixo e pensativo - Eu conheço você...
Todas as alunas pareciam iguais de calça jeans e camisa branca, mas para serem diferenciadas elas ousavam na maquiagem e Jéssica gostava de se destacar.
- Eu soube o que você fez pela minha irmã.
O garoto estreitou os olhos com curiosidade.
- E quem é sua irmã?
Jéssica inclinou a cabeça para trás indicando onde estava Diana.
- A Diana da sua sala, a que o Pedro covarde beijou... Ele mereceu ficar com aquela cara amassada, obrigada, por isso...
Randal olhou sobre a cabeça dela e seu rosto suavizou ao ver Diana na outra parte do pátio. Viu seu olhar muito sério sobre eles.
- Você cresceu bem... Seu nome é Jéssica, né?
Ele voltou os olhos divertidos para ela.
-Sabe meu nome? - Jéssica perguntou animada.
-Eu saí daqui e você era só uma pirralha... - Randal olhou mais uma vez na direção de Diana.
-Ela não agradeceu você? - Jéssica acompanhou seu olhar - E nem vai, meu pai falou pra Diana nunca te dar atenção e sentar longe de você.
- Chiii...
Os amigos provocaram Randal que sorriu.
- E você já sabia disso... - Jéssica completou baixinho.
- E ele não disse isso pra você também? Pra ficar longe de mim?
- Sim ... - Jéssica fez uma cara marota - Mas a gente não é da mesma sala ...
Respondeu e virou-se afastando -se.
Randal a acompanhou com o olhar e sob a zombaria dos amigos.
- Essa mina é maluquinha, se o Tio Dito soubesse o que ela apronta por aí...
Um deles comentou.
- Migaaaa.
Uma das alunas alcançou Jéssica, amiga de infância, agora em transição de gênero. Seu nome de nascimento era Josias, mas as pessoas mais próximas a chamavam de Josy.
- O que você foi falar com o bonitão do Randal, eim?- ela perguntou enlaçando-a pelo braço. - Nem me chamou.
Josy usava os cabelos crespos curtos e sempre com uma tiara.
- Fui agradecer a ele por dar uma coça no chato do Pedro.
- O coitado ainda não saiu do banheiro...
- Que cagão! - Jéssica debochou e as duas riram.
- E aí, o que o bonitão disse?
- Nada demais, ué!
- Ele olhou a tua polpa quando se afastou.
Jéssica sorriu.
- Sério?
- Sério.
- Até que em fim me notou...
- Oh só, não quero te desanimar não, mas estão dizendo que ele é a fim da Di... Que gosta dela.
Josy comentou e ela fez uma careta.
- Ele nunca chegou nela... E a Di não faz o tipo dele.
- Todo mundo já percebeu que ele gosta dela, depois daquela surra no Pedro, agora todos tem certeza..
- Isso tudo é conversa, os dois não tem nada a ver.
- Também acho, a Di é a maior princesa... Ah, mudando de assunto, tenho que te contar. Fui convidada pela comissão de formatura do terceiro ano para cantar na festa deles e tu precisa me ajudar, queria ir de Beyoncé.
Josy estava animada.
- É claro que vou, sou sua maquiadora oficial.
- Preciso de uma lace nova.
- Vamos falar com a Carol, quem sabe a mãe dela dá um descontinho, vem!
Jéssica puxou o amigo para a lanchonete, onde a tal Carol era a atendente.
Diana ficou aliviada após a irmã se afastar de Randal e sua turma. Que o pai não soubesse que ela se aproximou do filho do Rei, aquilo ia dar muita confusão.
- Beijada a força!
Dito repetiu olhando para Diana com espanto.
Jéssica...
A própria cara da dissimulação.
-Ah, você não contou pro papai?- ela perguntou parecendo se divertir.
- Amanhã mesmo eu vou até aquela escola e...
-Pra quê? - Jéssica o encarou com estranheza. - Ele já pediu perdão pra Di de joelhos, né mana? Com a cara toda arrebentada...
Diana apertou os lábios, a irmã queria mesmo ver o circo pegando fogo.
- Se a escola não obrigasse a gente a guardar o celular, a essa hora a maninha estava famosa...
- O quê?
- O filho do Rei, foi ele quem deu uma surra no moleque.
Surpreso, Dito encarou Diana.
- Deveria ter me contado que um garoto estava te perturbando...
Diana fitou o pai arrasada.
- Não queria te aborrecer... - disse e virou-se para a irmã - Vocês sempre estão indo lá por causa da Jéssica.
- Ui... - Jéssica desdenhou.
- Esse... Esse filho do Reis, ele...
- Nunca dei motivo pra ele querer me defender...
- O cara só foi legal com ela, pai! Como seria com qualquer outra. - Jéssica interveio - E ele nunca deu em cima dela, a Di não faz o tipo dele.
- Que bom! - Dito a encarou firme - E tomara que nem você faça o tipo dele também, já avisei antes e vou reforçar, não quero nenhuma das duas perto desse cara, ouviram bem?
Na manhã seguinte, Dito estacionou o carro no lado oposto da escola. Os portões estavam abertos. Ainda havia alguns alunos em frente a escola.
- A partir de hoje, eu trago e busco vocês... - Dito olhou para Jéssica no banco detrás - Não quero nada de conversinha mole na entrada, é ir direto pra sala , ouviu Jessi?
- Palhaçada, parece que voltei pro pré!
- Pois será assim de hoje em diante.
As duas saíram do carro sob os olhares dos que ainda estavam por ali. Dito prestou atenção na turma de rapazes próximos ao portão. Todos olharam para suas meninas quando elas entraram na escola. Mas um deles se deteve na sua mais velha. O filho de João Reis. Conhecia o jovem do campo de futebol, onde ele jogava às vezes com seus amigos e de suas caminhadas pelas ruas de Roseiral, muitas vezes na companhia de seu cachorro que levava a todo canto. Diana não olhou em sua direção ao entrar, e aquilo deixou o pai satisfeito. Quando o rapaz virou-se para ele, Dito sustentou impassivelmente seu olhar curioso, deixando evidente sua antipatia pelo filho do Rei.
As filhas de Benedito Pontes chamavam atenção de todas as formas, fosse pela beleza, inteligência ou pelo talento.
Diana despertava a curiosidade alheia em todas as atrativas, mas se diferenciava categoricamente da irmã do meio, Jéssica, apelidada de vermelha pelo pai por ter um gênio apimentado. Diana era tímida, introspectiva, nunca estava no chamado "fervo'' de eventos escolares ou atividades do bairro sem a presença dos pais. Dito e Leila sabiam como proteger as filhas dos "olheiros" de Roseiral.
Em uma manhã de domingo, Tio Roni, o conhecido diretor do Clube Comunidade Em Movimento estendia um folheto entre as grades do portão dos Pontes.
-O índice de aprovação nos vestibulares é muito alto, só no ano passado, oito alunos nossos foram aprovados com boa colocação.
Diana costumava atender as pessoas somente pela grade. Ela pegou o folheto para ler e não percebeu a aproximação de Luana, irmã caçula de nove anos que parou ao seu lado com curiosidade e de seu pai atrás de si.
-E aí, meu velho amigo. - Roni o cumprimentou -Estou convidando sua menina pra fazer o cursinho pré-vestibular na Comunidade.
-Boa tarde, Roni, ela já está matriculada no centro da cidade, muito obrigado.
Diana franziu o cenho erguendo o rosto, mas uma leve pressão das mãos do pai em seus ombros a manteve imóvel.
Ela não estava matriculada em nenhum cursinho.
-É mesmo, Ditão?- Roni sorriu parecendo saber o mesmo que ela. - Tá bom então, temos outros cursos também, modalidades de esporte, lazer, como pode ver no folheto, Diana.
Jéssica apareceu naquele momento, toda agitada.
-Quero fazer teatro, a Josy disse que a professora de lá fez novela.
Dito a encarou muito sério.
-Nem pensar!
-Ela apareceu só uma vez. - Luana riu da irmã.
-Fica quieta Lu, não me atrapalha! Tem dança lá também, eu quero fazer! - Jéssica foi até o pai. - Por favor pai, a Jô já está matriculada lá.
-Você e a Josy podem ter crescido juntos, mas não nasceram grudadas.
-Ah Pai...
-Não, e já tá decidido.
Minutos depois, a família estava reunida à mesa de café.
- Não é para nenhuma das três aceitarem convites dos cursos da Comunidade, lá não é lugar para vocês...
Jéssica fez uma careta.
- Que exagero!
-Você sabe muito bem quem é o dono desse clube.
Benedito se dirigia a ela, irritado.
-Só porque o filho do rei frequenta lá, não quer dizer que é deles, pai.- Jéssica defendeu.
Diana parou de mastigar e encarou a irmã.
-O filho do Rei... Randal Reis? - perguntou intrigada.
Jéssica a olhou com desdém.
-Sim, aquele que te livrou do Pedro covarde, sabiam que o garoto mudou até de escola por vergonha da surra?
-O imóvel do Clube pertence a eles, o Roni é só a fachada para atrair o pessoal do bairro.
-E se for? Qual o problema? O Randal é tricampeão interclubes, representando nosso bairro. Agora ele treina no Clube para o Regional.
- Garota! - Dito alterou a voz. - Eu já disse, não quero filha minha naquele antro de réu primário, secundário, que seja! Não quero vocês lá, entendeu?
Jéssica apertou os lábios.
-Pois quando eu fizer dezoito...
-Quando fizer dezoito, pode até arranjar outra casa pra morar, se quiser! - Dito a cortou, seco.
Cheia de revolta, Jéssica deixou a mesa a passos duros.
Leila suspirou recostando-se na cadeira.
-Ah, essa menina...
-Acho que terei que conversar com o Roni, tá muito pau mandado daquela gente!
-Não tem que falar com ninguém, Dito, a Diana já entendeu e a Jéssi vai entender também. Vamos continuar só cuidando das nossas meninas, sem ter contato algum com eles... Por favor...
Benedito sustentou o olhar da esposa.
-Tá bom... - ele concordou e sorriu - Mas pelo menos essa conversa toda deu idéia pra uma coisa boa... - ele olhou para Diana - Essa semana vou fazer a matrícula da Di em um cursinho, tem realmente um no centro da cidade próximo ao meu trabalho. Você quer, filha?
A expressão no rosto de Diana foi de espanto, em seguida a de alegria.
-Sim... Vai me ajudar muito...
-Né? Você vai comigo fazer a matrícula.
Xxx
-Então nós vamos fazer a matrícula amanhã, você deveria fazer também.
Dia seguinte na sala de aula, Diana falava empolgada ao amigo Augusto que colocou a cadeira ao seu lado antes da chegada do professor.
-Meu pai quer me matricular no clube do bairro, tem um bom desconto na mensalidade. - o menino respondeu chateado. - Eu queria estudar na cidade com você...
- O tio Roni foi em casa para me oferecer uma vaga lá, mas meu pai não aceitou.
Augusto ajeitou os óculos.
-Seu pai não gosta dele... - ele interrompeu ao ver alguém parar diante deles.
Era nada menos que Randal Reis. Ele ficou bem de frente à carteira de Diana e com a mochila pendurada em um dos ombros olhava para os dois com expressão curiosa.
Ao vê-lo, Diana ajeitou sua cadeira mais próxima a de Augusto. Atitude que fez os lábios do filho do Rei curvarem num meio sorriso antes dele se afastar.
-Todo mundo tá dizendo que ele tá a fim de você, depois da surra que deu naquele cara...
Augusto sussurrou.
-Todo mundo tá doido.
Diana o imitou e o garoto riu chamando a atenção de Randal que sentou em seu canto olhando para os dois.
-Será que ela tá a fim dele?
Marcão questionou percebendo onde estava sua atenção.
Randal franziu o cenho. Desde que entrou naquela escola sempre via Diana na companhia daquele garoto. Nunca percebeu nada sério entre os dois, mas aquela aproximação constante do filho de uma das professoras da escola com ela, às vezes o aborrecia. Ele era o único cara que Diana deixava se aproximar.
- Fizeram até um meme deles no grupo da sala, o desenho dos dois transando em cima de livros.
Marcão recebeu um olhar cintilante.
-Quem postou?
-A... sabe que nem sei.
- Se não vi, então fui bloqueado...
Randal voltou os olhos para o casal à frente. Observou Diana bem à vontade ao lado de Augusto, talvez aquele moleque fosse a quem ela mais confiasse por ali.
A festa junina escolar unificada.
Ela acontecia no campinho do bairro por ser grande suficiente para a participação das escolas.
Era um dos eventos que a família Pontes gostava de frequentar, mas Diana evitava dançar em quadrilhas desde que saiu do jardim. Nunca mais participou de ensaios onde os alunos de sua sala tinham que interagir. Naquele dia da festa ela estava mais descontraída, vestida de macacão jeans com uma mini blusa de manga comprida que mostrava parte de sua barriga, uma vestimenta simples, mas que destacava suas curvas no jeans colado. Os cabelos soltos como uma coroa de cachos castanhos.
Com os pais trabalhando na barraca do seu Formiga, Diana assistia ao lado de Luana à apresentação de Jéssica.
Em todas suas participações, a irmã usava vestido caipira curto e um short do mesmo tecido. Provocante, recebia assovios dos que assistiam à dança. Josy também preferia usar vestido curto, conquistou esse direito na quinta série quando não quis mais se vestir como o restante dos meninos da quadrilha, pois já vestia roupas femininas no dia a dia. A participação de Jessica e Josy era uma atração à parte, capaz de delirar os espectadores com seus rebolados e passos variados misturados a dança.
Após a apresentação delas, Diana e Luana foram até a barraca de cachorro quente.
-Olá, por favor, um completo?
Luana pediu debruçando no balcão, balançando as pernas. Enquanto Diana tomava suco distraída olhando a última quadrilha que ia se apresentar. Riu ao ver o Marcão de sua sala prendendo Mirela e Letícia ali no meio e levando-as para o outro lado do campo, onde ficava a cadeia de madeira. Ele estava todo caracterizado de xerife.
-E sua irmã, vai querer também?
Aquela voz...
Diana se voltou e deparou com o atendente.
Randal do outro lado do balcão, de boné branco como os demais ali dentro, a olhava com aquele meio sorriso provocador. Então reparou na barraca. Ela representava o Clube Comunidade. Se o pai as visse ali...
-Nada... A gente vai comer outra coisa!
Diana pegou a irmã pelo braço e a puxou dali.
-Mas o que foi?
Luana perguntou sendo levada às pressas.
-Tem que escolher outro lanche, aquele pertence à família do Rei. Sabe que o pai não gosta deles.
- Afi Di, é só ali que tem cachorro quente...
-Sim, cada barraca tem sua especialidade, sem concorrência.
Luana olhou para trás. O rapaz as observava parecendo furioso.
-Então, ele deve ser o Randal... Bem que achei seu rosto conhecido, ele parece bem maior da última vez que o vi...
Diana voltou-se para a irmã.
-E de onde conhece ele? Você estuda em outra escola! - perguntou diminuindo os passos, já estavam bem afastadas da barraca.
Luana a encarou.
-Da nossa rua, ué! Ele passava lá com os cachorros nos finais de semana e ficava vendo a gente jogar bola, depois sumiu, nunca mais apareceu.
-Sim, ficou fora daqui durante dois anos e agora voltou e está na minha sala.
-Ele realmente bateu em um cara pra te defender?
Luana olhou para Diana cheia de curiosidade.
-Bem... Parece que sim...
-Nossa... Já pensou se vocês namoram? O pai morre.
- Que besteira!
-É nada, você pode se apaixonar por ele, sabia? E ele já deve estar por você, pra quebrar a cara de um garoto pra te defender.
- Ele só fez isso porque se acha o maioral do bairro por ser filho de quem é. Ele faria isso por qualquer garota.
- Pode ser... Mas ele te olhou de um jeito lá na barraca...
- Ah, vamos comprar seu lanche! Pode ser de churrasco?
Diana puxou novamente a irmã que riu de sua reação.
Enquanto a levava, girou a cabeça para trás e viu Jéssica debruçada no balcão da barraca do clube. Ficou boquiaberta com a ousadia da irmã sendo que os pais estavam ali por perto.
Jéssica não disfarçava o encantamento diante do filho do Rei. Enquanto empacotava os pedidos, ele a olhava de queixo erguido, olhos altivos e insondáveis sobre ela.
-Ei garotinha?
Alguém bateu no balcão a sua frente. Uma senhora jovem e bonita.
-Acho que seu pai não gostaria de vê-la aqui então vá caçar lanche em outro lugar!
Jéssica abriu a boca surpresa.
-Eles estão ajudando na barraca do tio Formiga... Não vão sair de lá tão cedo...
Jéssica justificou sem entender porque aquela mulher a olhava com antipatia.
-Escuta aqui, eu sei que seu pai proibiu vocês de chegarem perto do Randal, então obedece ele tá? Senão vou lá na barraca avisar quem fica ciscando pro lado do meu filho.
Tomada de vergonha e indignação Jéssica correu dali.
-Pra que tudo isso, dona Kátia, eu já disse que não tenho medo do Seu Dito.
-Essa menina... É mesmo verdade o que falam dela, viu como estava aqui feito uma boba te encarando? - Kátia o olhou firme - Promete pra mim que não vai se meter com ela...
- Quem estava aqui encarando o meu homem?
Uma garota vestida de cowgirl surgiu entre os clientes. Kátia sorriu para a bela amiga de sala da qual Randal pertencia antes de se afastar por dois anos. A turma se formou e ele teve que voltar para terminar o último ano.
-Oi sumida! Seu homem uma vírgula! - Kátia abraçou e beijou a face do filho - Só meu!
- Continua ciumentona, né tia?
- Sempre, fia e ó... - Kátia indicou os próprios olhos - De olho em vocês, sirigaitas.
Ela se afastou para atender os clientes, sob a gargalhada de Vanessa.
-E aí, lindo? Vai ficar só aí dentro trabalhando? Vamos dançar...
A jovem sugeriu, mas Randal estava distraído, olhava para a barraca de churrasco a alguns metros dali, estava tão movimentada quanto a deles. Leila e Dito pareciam muito ocupados ajudando o seu Formiga.
-Sim... Tô preso demais aqui...
Ele murmurou deixando a amiga confusa.
Diana e Luana comiam o lanche de churrasco que os pais serviam enquanto seu Formiga e esposa estavam na parte de preparação. Ele na churrasqueira e ela colocando a carne nos pães. A barraca estava lotada de gente esperando para ser atendida, por isso precisaram da ajuda dos amigos.
-Ei Diana, vem dançar!
Augusto se aproximou e a puxou para a pista.
Ela teve que deixar seu pão com Luana que gostou de ficar com dois lanches.
A dança era uma música caipira mixada com funk que agitava a pista no centro do campinho. Os dois riam com os movimentos propositalmente desengonçados de Augusto, já Diana não arriscava tanto. Depois de alguns minutos ali, alguém se aproximou deles, usava chapéu de cowboy e tinha no peito estrela de xerife.
-Mandaram te prender.
Diana riu reconhecendo o jovem alto e forte dos fundos de sua sala, Marcão.
-Sério?
-Sim, é a sua vez de ir pra cadeia.
- Ah... Mas a gente tá dançando...
Augusto reclamou desapontado vendo Marcão a levar para longe.
A cadeia ficava na parte reservada às barracas de brincadeiras, longe das de alimentação. Era feita de ripas imitando grade de celas, mas com frestas bem estreitas que não davam para ver quem estava preso.
-Aninha, você tem dez minutos aí dentro, só sai antes se alguém pagar a soltura, ok?
-Ok...
- Eu pago!
Augusto gritou se aproximando.
Marcão entortou a boca.
-Vai ter que esperar dez minutos, Guto.
-Mas você disse que pode pagar pra soltar antes!
-Falei errado, cara, desculpa aí. Vai dar um rolê e depois vem soltar ela, tá bom? - Marcão abriu a porta e empurrou Diana de leve para dentro, fechando em seguida e cruzou os braços encarando bem sério Augusto. O menino bufou e se afastou.
Diana voltou-se para a cela e seu sorriso descontraído rapidamente se desfez...
Não estava sozinha.
Havia um casal sentado contra a parede de frente à ela, observando-a.
A moça parecia confusa e curiosa.
Já o rapaz...
Com os braços apoiados sobre os joelhos e mastigando um pirulito, ele começou a medi-la tão lentamente, parecendo desnuda-la só com o olhar. Havia um misto intenso de fascínio e perversidade nos olhos escuros que a perturbaram de imediato quando finalmente cruzaram com os dela.
Meu Deus! Randal Reis...Mas o que ele fazia ali?
Seu coração disparou.