Por três anos, eu fui o segredo do Alfa Caio. Meu toque era a única cura para a maldição do veneno de prata que devastava seu corpo com uma agonia torturante, e ele prometeu que, se não encontrasse sua companheira de alma até meu aniversário de vinte e cinco anos, ele me escolheria.
No meu aniversário de vinte e cinco anos, ele trouxe outra mulher para casa. Exigiu a chave de sua cobertura de volta e jogou um cartão de crédito sem limite na cama.
"Isso é pelo seu serviço", ele disse com uma frieza cortante.
Seu novo amor, Lila, era uma mestra da manipulação. Quando ela me incriminou por sequestrá-la, Caio quase afogou minha mãe doente em um pântano para me forçar a confessar. Quando ela me incriminou de novo por empurrar a avó dela, ele me esbofeteou na frente de toda a alcateia e exigiu que eu me ajoelhasse.
Eu não conseguia entender como o homem que um dia me protegeu pôde se tornar meu maior carrasco, cego por uma loba dissimulada.
A gota d'água veio quando sua maldição explodiu. Ele tentou me forçar, apenas para me acusar de tentar armar uma armadilha para ele quando Lila entrou. Naquele dia, eu rompi nosso elo e parti para uma alcateia rival, onde meu amigo de infância - meu companheiro de segunda chance - tinha acabado de acordar de um coma de seis anos.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Seraphina:
O ar na cobertura estava denso com o cheiro persistente de nossos corpos e a promessa fria de uma tempestade lá fora. Eu estava deitada nos lençóis de seda de sua cama king-size, minha pele ainda formigando onde suas mãos estiveram. O cheiro familiar dele - pinho depois de uma tempestade, terra escura e rica, e algo selvagem que pertencia apenas a ele - grudava em mim, um perfume que eu um dia acreditei ser um sinal do destino.
O Alfa Caio estava parado perto da janela que ia do chão ao teto, uma silhueta contra as luzes cintilantes de São Paulo. Por três anos, eu fui seu segredo, a única cura para a maldição do veneno de prata que periodicamente devastava seu corpo com uma agonia torturante. Meu toque era seu remédio. A maldição estava quieta agora, saciada. Mas o alívio em sua postura era ofuscado por uma distância arrepiante.
"Pegue suas chaves", ele disse, sua voz vazia, desprovida da paixão que o consumira momentos atrás.
Sentei-me, puxando o lençol sobre meu peito.
"Caio?"
Ele se virou, seus olhos cinzentos, geralmente da cor de um céu de tempestade, agora eram como lascas de gelo.
"A chave deste apartamento. A que eu te dei. Eu a quero de volta."
Um pavor gelado se infiltrou em meus ossos, mais pesado que a chuva que açoitava o vidro.
"Do que você está falando? Nosso acordo..."
"O acordo acabou, Seraphina", ele cortou bruscamente. "Nossos três anos terminaram."
Ele caminhou até a cômoda e pegou sua carteira, seus movimentos precisos e distantes. Ele não olhou para mim. Ele nem conseguia olhar para mim.
"Decidi ficar com a Lila", ele declarou, como se estivesse discutindo uma fusão de negócios. "Vou anunciá-la como minha companheira escolhida, minha futura Luna, na próxima cerimônia de lua cheia."
Lila. O nome era um gosto amargo na minha boca. Uma nova loba na alcateia, com apenas dezenove anos, com olhos grandes e inocentes que eu agora percebia que continham uma ambição astuta.
"Leve todas as suas coisas quando sair", ele continuou, sua voz fria o suficiente para congelar o sangue em minhas veias. "Não quero que a Lila encontre nada seu aqui. Isso a desagradaria."
Ele tirou um elegante cartão Black de sua carteira e o jogou na cama. Pousou suavemente na seda ao lado da minha mão trêmula.
"Isso é pelo seu serviço. Não tem limite."
Serviço. Três anos sendo seu conforto, seu remédio, seu consolo secreto... e ele chamava isso de serviço.
Ele finalmente olhou para mim, um brilho de algo indecifrável em seus olhos antes que eles endurecessem novamente.
"Você tem vinte e cinco anos agora. Deveria encontrar um Guerreiro decente para se estabelecer. Ter alguns filhotes. É para isso que as Ômegas servem."
Ele gesticulou vagamente para o pequeno vaso na minha mesa de cabeceira, onde uma única e delicada Flor-da-lua repousava.
"E livre-se disso. Lila prefere Rosas-de-sangue. O cheiro delas é forte, adequado para uma Luna. Não como essa bobagem fraca de Ômega."
Meu coração parecia estar sendo esmagado. Lembrei-me do começo, três anos atrás. Ele havia sido envenenado por uma lâmina de prata em uma batalha territorial e, em meio à dor, descobriu que meu toque era a única coisa que podia acalmar a maldição. Ele me prometeu então, sua voz rouca de desespero, que se não encontrasse sua 'verdadeira' companheira até eu fazer vinte e cinco anos, ele consideraria me marcar.
Eu fui tão ingênua. Pensei que era a Deusa da Lua nos dando uma chance. Mais tarde, descobri a verdade: eu era apenas uma ferramenta, um antídoto ambulante para sua dor.
A dor havia se tornado uma desculpa conveniente. Seis meses atrás, quando Lila chegou, ele ficou encantado. Começou a me afastar, preferindo suportar o tormento da maldição enquanto agarrava um lenço que ela havia deixado cair, inalando o cheiro dela em vez de me deixar tocá-lo.
Um som suave ecoou em minha mente, um toque mental gentil. Era minha mãe. O Elo Mental, a forma de nossa alcateia de falar de coração para coração, de mente para mente, era um conforto de que eu precisava desesperadamente.
"Seraphina? Você está bem, minha querida? Tenho notícias."
Sua voz mental era quente, um contraste gritante com o quarto gelado.
"O que foi, mãe?", respondi, tentando manter o tremor fora de meus pensamentos.
"É o Elias. Elias da Alcateia da Serra Prata. Ele acordou! Depois de seis longos anos, a Deusa da Lua o trouxe de volta para nós."
Elias. Meu amigo de infância. O Alfa gentil e amável da alcateia vizinha que havia sido colocado em um coma mágico lutando contra Renegados para proteger sua terra. Um calor se espalhou pelo meu peito, uma pequena faísca na escuridão esmagadora.
Era isso. Um sinal. Uma saída.
"Mãe", enviei, minha determinação se solidificando. "Caio... ele terminou tudo. Ele escolheu outra pessoa. Estou voltando para casa. Nós vamos embora. Assim que eu pegar meu certificado de maioridade da alcateia, iremos para a Alcateia da Serra Prata. Estaremos seguras lá."
Não esperei por sua resposta. Vesti-me, meus movimentos rígidos, e coloquei meus poucos pertences em uma pequena mala. Deixei o cartão Black nos lençóis brancos imaculados. Eu não queria o dinheiro dele. Eu não queria mais nada dele.
Arrastando minha mala, fui para o elevador privativo. Quando as portas se abriram no térreo, meu coração parou. Caio estava atravessando o saguão, seu braço possessivamente em volta da cintura de Lila. Ela olhava para ele com olhos de adoração.
Eles me viram. O rosto de Caio se contraiu.
"Ela é apenas uma das servas Ômega", ele disse para Lila, sua voz alta o suficiente para eu ouvir. "Acabei de dispensá-la."
O sorriso doce de Lila se transformou em um sorriso de escárnio. Ela caminhou em minha direção, seus quadris balançando.
"Oh, coitadinha", ela arrulhou, sua voz pingando falsa simpatia. "Deve ser tão difícil ser dispensada."
Ao passar, ela deliberadamente bateu o ombro no meu.
O impacto me fez tropeçar. O único item precioso que eu segurava em minhas mãos, uma escultura de cristal chamada 'Lágrima da Deusa da Lua' - um prêmio pela minha dança, um símbolo da minha maior honra na alcateia - escorregou de minhas mãos.
Atingiu o chão de mármore polido e se estilhaçou em mil pedaços brilhantes.
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Ponto de Vista de Seraphina:
O som da 'Lágrima da Deusa da Lua' se quebrando ecoou no saguão cavernoso, cada pequena rachadura um reflexo do meu próprio coração partido. Aquela escultura não era apenas vidro; eram meus anos de devoção, minhas orações à Deusa, meu único reconhecimento em uma alcateia que me via como pouco mais que uma função.
"Oh, minha Deusa, eu sinto muito!", Lila ofegou, sua voz uma imitação perfeita de angústia. Ela se ajoelhou, fazendo um show de juntar os cacos maiores, seus movimentos graciosos e delicados. "Eu sou tão desastrada."
Quando ela alcançou um pedaço particularmente afiado, soltou um pequeno grito teatral. Uma única gota de sangue brotou na ponta de seu dedo.
"Ai."
"Lila!" Caio estava ao seu lado em um instante, seu rosto uma máscara de preocupação frenética. Ele pegou a mão dela gentilmente, examinando o minúsculo corte como se fosse uma ferida mortal. "Você está bem? Dói?"
Ele tirou um lenço e limpou cuidadosamente o sangue, seu toque infinitamente terno. Ele nem sequer olhou para mim, ou para as ruínas da minha honra espalhadas pelo chão. Minha dor era invisível para ele. A performance dela era tudo o que ele conseguia ver.
Uma onda de fúria incandescente queimou através da minha dor. Eu a vi como ela era - uma predadora em pele de cordeiro.
"Você fez isso de propósito", eu disse, minha voz baixa e trêmula.
Os olhos de Lila se arregalaram, enchendo-se de lágrimas de crocodilo.
"O quê? Não, eu nunca..."
"Eu quero ver a gravação de segurança", exigi, minha voz ficando mais forte. "O saguão tem um cristal de monitoramento mágico. Ele vai mostrar tudo."
A cabeça de Caio se ergueu bruscamente, seus olhos ardendo de fúria. Ele se ergueu em toda a sua altura, a força pura de sua presença Alfa pressionando-me, tornando o ar denso e difícil de respirar.
"Chega", ele rosnou, o som vibrando em meu peito. Não era um Comando de Alfa completo, mas estava perto, um aviso que fez meu lobo interior choramingar e abaixar as orelhas. "Peça desculpas à Lila. Agora."
"Eu não tenho nada pelo que me desculpar", retruquei, minha própria ousadia me surpreendendo.
"Ela é sua futura Luna! E você a acusa de ser maliciosa por causa de um lixo inútil?", ele gesticulou com desdém para o cristal quebrado. "Você sempre foi uma Ômega invejosa e rancorosa, Seraphina."
Ele se virou para Lila, sua expressão suavizando instantaneamente. Ele segurou o rosto dela, seu polegar acariciando sua bochecha.
"Não chore, meu amor. Não vou deixar que ela te aborreça."
Então ele olhou para mim, seu rosto se contorcendo de raiva. Ele levantou a mão, e por um segundo aterrorizante, pensei que ele ia me bater.
Ele se conteve, sua mão tremendo levemente, mas a intenção pairava no ar entre nós, tão feia e afiada quanto o vidro quebrado no chão.
"Saia", ele rosnou, sua voz um comando baixo e perigoso. "Saia do meu prédio. Saia do meu território. E nunca mais me deixe ver seu rosto."
A finalidade de suas palavras foi um golpe físico. O laço invisível que eu pensei que compartilhávamos, aquele que eu nutri por anos, se partiu. Uma dor lancinante, pior do que qualquer ferimento físico, rasgou minha alma.
Virei-me e fui embora, sem me preocupar em pegar um único pedaço do meu passado quebrado. Empurrei as pesadas portas de vidro e saí para a chuva torrencial, as gotas frias se misturando com as lágrimas quentes que escorriam pelo meu rosto.
Enquanto eu caminhava, as luzes da cidade se transformando em uma aquarela sem sentido, uma memória surgiu. Quatorze anos. Guerreiros mais velhos zombando de mim, quebrando uma pequena escultura de treinamento de madeira que eu havia esculpido. Caio, já irradiando autoridade, me encontrou chorando. Ele os afugentou, depois ficou acordado por horas, colando meticulosamente os pedaços quebrados do meu pequeno lobo de madeira.
Ele havia consertado o que estava quebrado então. Agora, era ele quem estava quebrando.
Finalmente cheguei à minha pequena casa designada para Ômegas na borda das terras da alcateia, encharcada até os ossos e tremendo incontrolavelmente. A dor da rejeição, a chuva fria, a pura exaustão emocional - tudo desabou sobre mim. Uma febre tomou conta, meu corpo queimando em um momento e congelando no outro.
Perdi a noção do tempo, flutuando em uma névoa de doença e miséria. Poderia ter sido dois dias depois quando minha porta foi arrombada com um estrondo ensurdecedor.
Eu me sentei na cama, minha cabeça girando.
O Alfa Caio estava na porta, sua figura preenchendo-a completamente. A chuva pingava de seu cabelo, seus olhos estavam selvagens com uma fúria aterrorizante, e sua aura Alfa era uma onda sufocante de pura ameaça.
Ele marchou até minha cama, me agarrou pela garganta e me ergueu dos travesseiros. Seu aperto era como ferro, cortando meu ar.
Ele se inclinou, sua voz um rosnado baixo e aterrorizante que era puro Comando de Alfa, compelindo uma resposta, arrancando a verdade da minha própria alma.
"Onde você a levou?", ele rosnou, seu hálito quente em meu rosto. "Onde você escondeu a Lila?"
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Ponto de Vista de Seraphina:
Seus dedos se apertaram em volta do meu pescoço, e pontos pretos dançaram em minha visão. A febre me deixou fraca, meu corpo mole em seu aperto poderoso enquanto ele me arrastava da cama. Meus pés descalços rasparam no chão de madeira áspero.
"Eu... eu não sei do que você está falando", engasguei, arranhando inutilmente seu pulso.
"Mentirosa!", ele rugiu, o som sacudindo a pequena casa. Ele me meio carregou, meio arrastou para fora na tempestade e me jogou no banco do passageiro de seu carro de luxo. O motor rugiu, e nós partimos em alta velocidade, os pneus cantando no asfalto molhado.
Dirigimos pelo que pareceu uma eternidade, deixando as terras bem cuidadas da alcateia para trás e indo em direção à fronteira. Meu coração martelava contra minhas costelas quando percebi para onde ele estava indo: o Pântano das Águas Negras, um pântano traiçoeiro conhecido por ser um esconderijo de Renegados - lobisomens selvagens e sem alcateia.
Ele pisou no freio com força, me jogando para frente contra o cinto de segurança. Ele me arrastou para fora do carro, para a lama e a chuva torrencial. E então eu a vi.
Minha mãe.
Minha mãe Ômega, pequena e frágil, estava amarrada a um poste em um barquinho instável no meio da água turva e rodopiante. Seu rosto estava pálido de terror, suas roupas finas encharcadas.
"Não", sussurrei, o som engolido pelo vento. "Não, Caio, por favor."
"Ela vai ficar aí até você me dizer onde Lila está", ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção. Sua maldição era um zumbido baixo de dor sob sua pele, tornando seus olhos selvagens e seu temperamento curto. Ele era uma fera procurando alguém para culpar, e Lila lhe dera um alvo.
Ele enfiou um pequeno cristal de comunicação brilhante no meu rosto.
"Meus homens encontraram isso no quarto da Lila. Contém uma ameaça, uma exigência para que ela se encontre na velha cabana de caça. A frequência espiritual da mensagem é uma combinação perfeita com a sua."
Ele então gesticulou para seu Beta, seu segundo em comando, que segurava um membro da alcateia de baixo escalão pelo braço. O lobo era um dos poucos que já tinha sido gentil comigo.
"E este aqui", Caio zombou, "confessou tudo. Ele disse que você o pagou para ajudá-la a sequestrar minha futura Luna. Ele disse que você estava louca de ciúmes."
"Ele está mentindo! É tudo mentira!", gritei, o desespero me arranhando. "Estou doente na cama há dois dias! Não vi ninguém!"
O rosto de Caio era uma máscara de pedra.
"Você a odeia porque eu a escolhi em vez de você. Você a odeia porque ela é digna de ser uma Luna, e você não é. Agora, pela última vez, onde ela está?"
"Eu não sei!", solucei.
Ele deu um aceno brusco para seu Beta. O homem entrou na água escura, desamarrou o barco e, com um empurrão brutal, mergulhou a cabeça da minha mãe na água gelada e imunda do pântano.
Ela subiu engasgando, ofegando por ar.
"Pare! Por favor, pare!", gritei, lutando contra o aperto de ferro de Caio. "Os pulmões dela! Ela foi ferida anos atrás, ela não aguenta isso! Você vai matá-la!"
Ele me ignorou.
"Diga-me", ele ordenou.
Quando eu só conseguia balançar a cabeça, chorando histericamente, ele acenou para seu Beta novamente. Minha mãe foi submersa mais uma vez, desta vez por mais tempo.
"Última chance, Seraphina."
Meu mundo se reduziu à visão do rosto aterrorizado da minha mãe, ao som de seu engasgo e à chuva implacável. Eu não podia lhe dar uma resposta que não tinha.
Ele me olhou com total desprezo.
"Tudo bem", ele disse, sua voz mortalmente calma. "Corte a corda."
Seu Beta puxou uma faca.
"Não!", gritei, um som primitivo de pura agonia.
A corda foi cortada. O barco balançou, e minha mãe, amarrada e fraca, deslizou para baixo da superfície da água negra. O pântano a engoliu inteira.
Algo dentro de mim se quebrou. A dor, a traição, o desespero absoluto - acendeu um fogo que eu nunca soube que tinha. Meu lobo, a parte Ômega de mim que sempre fora submissa e quieta, ergueu-se com um rosnado selvagem.
Eu me lancei sobre ele, meus dentes cravando fundo na carne de seu pulso. Senti o gosto de seu sangue, quente e metálico, a primeira gota sua que eu já havia tirado com raiva.
Naquele momento, uma voz crepitou através do elo mental de Caio, alta o suficiente para eu sentir a urgência. Era seu Gama, seu chefe guerreiro.
"Alfa! Nós a encontramos! Encontramos Lila na velha cabana de caça. Ela está segura!"
Caio congelou, seus olhos se arregalando por uma fração de segundo enquanto ele olhava do meu rosto para o último local da minha mãe na água. Ele arrancou o braço das minhas mandíbulas, me empurrando com tanta força que caí de cara na lama.
Sem um olhar para trás, ele se virou e latiu ordens para seus homens.
"Vamos. Agora!"
Eles partiram. Eles simplesmente me deixaram lá, coberta de lama, com minha mãe se afogando em algum lugar nas profundezas escuras e implacáveis do Pântano dos Renegados.
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