A primeira coisa que vi ao abrir os olhos foi o teto branco do hospital, e a dor lancinante na minha perna partida.
O meu noivo, Lucas, estava ao meu lado quando o carro caiu da estrada da montanha.
Eu lhe perguntei onde ele estava, cheia de uma esperança agonizante.
A minha mãe, com os olhos inchados, hesitou.
"Ele... ele está a cuidar da irmã dele, a Joana."
Joana? A Joana que torceu o tornozelo a procurar um cão assustado?
Enquanto eu jazia ali, com os ossos esmagados, quase morta, ele estava com ela.
Agarrei no telemóvel e liguei-me.
A voz dele, cansada, sem uma sombra de preocupação verdadeira, confirmou: "Estou no hospital com a Joana. Ela magoou o pé. O Trovão também está muito assustado."
Foi então que eu perguntei, com uma calma assustadora: "Então, vais ficar aí com ela?"
"Sim, ela precisa de mim. Ela está sozinha, sabes como ela é sensível", respondeu ele, como se eu não fosse a sua noiva, a mulher que acabava de sobreviver a um inferno.
Sensível? E eu? O que era eu? A vítima de um acidente quase fatal?
A sua acusação veio rápida, como uma pedra: "Não podes ser um pouco mais compreensiva?"
Compreensiva? Eu tinha uma perna partida! Eu quase morri!
Ele alegou ter-me salvado, mas logo a seguir, abandonou-me.
Não bastava a traição, no dia seguinte, o pai dele, o Sr. Matias, e a própria Joana, vieram ao hospital.
Em vez de desculpas, fui confrontada com ameaças e acusações.
"Estás a ser egoísta, Clara. O casamento é sobre sacrifício. Não vais encontrar outro homem como o Lucas."
Eles fizeram-me sentir como se a culpa fosse minha, como se fosse eu a insensível e egoísta.
Até a Joana, em lágrimas dissimuladas, veio com a conversa de que manipulou Lucas, lançando a culpa sobre o coitado do irmão.
Eu não chorei. Eu estava vazia, mas uma raiva fria começou a ferver dentro de mim.
Era inacreditável. A minha dor era um inconveniente para a família Matias.
A exigência de devolver o anel de noivado e de os compensar pelos "danos emocionais" foi a gota d' água.
A ferida moral era ainda mais profunda que a física.
Mas eu não era uma vítima.
Com a minha mãe e um advogado ao meu lado, decidi lutar.
Não mais pela justiça, mas pela minha dignidade.
Era hora de mostrar-lhes que a fénix renasce das cinzas, e que a minha paz já não os incluía.
Quando abri os olhos, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital.
O meu corpo inteiro doía.
A minha mãe, Sofia, estava sentada ao meu lado, a sua cara estava pálida e os seus olhos vermelhos e inchados.
Ela segurou a minha mão com força.
"Clara, finalmente acordaste."
A sua voz estava rouca, cheia de preocupação.
Tentei sentar-me, mas a dor na minha perna direita era insuportável.
Olhei para baixo e vi a minha perna, do joelho para baixo, envolta numa espessa camada de gesso.
Lembrei-me do que aconteceu.
A derrocada.
O meu carro foi atingido por lama e pedras, caindo da estrada da montanha.
O meu noivo, Lucas, estava ao meu lado.
"Lucas? Onde está o Lucas?", perguntei apressadamente.
A expressão da minha mãe ficou ainda mais sombria, e ela hesitou antes de falar.
"Ele... ele está bem. Está a cuidar da irmã dele, a Joana."
Joana?
A minha mente ficou em branco por um momento.
"Porque é que ele está a cuidar da Joana? Ela não estava na cidade?"
"A Joana ouviu sobre o teu acidente e correu para cá, mas o cão dela, o Trovão, assustou-se com a tempestade e fugiu para a montanha. A Joana foi procurá-lo e torceu o tornozelo," a minha mãe explicou, a sua voz baixa.
Uma raiva fria começou a subir do fundo do meu coração.
Eu estava aqui, com uma perna partida, quase morta, e o meu noivo estava a cuidar da sua irmã que torceu o tornozelo enquanto procurava um cão.
Agarrei o meu telemóvel na mesa de cabeceira.
As minhas mãos tremiam.
Encontrei o número do Lucas e liguei.
Demorou muito tempo até ele atender.
"Clara? Como estás? Estás acordada?" A sua voz soava cansada, mas não havia muita preocupação.
"Lucas, onde estás?" A minha voz era calma, assustadoramente calma.
"Estou no hospital com a Joana. Ela magoou o pé. O Trovão também está muito assustado, não come nada."
"Então, vais ficar aí com ela?"
"Sim, ela precisa de mim. Ela está sozinha, sabes como ela é sensível."
Sensível.
E eu? A noiva dele, que acabou de sobreviver a uma derrocada. O que sou eu?
Respirei fundo, o ar do hospital frio e com cheiro a desinfetante.
"Lucas, vamos terminar."
Houve silêncio do outro lado da linha.
Depois, a sua voz explodiu, cheia de incredulidade e raiva.
"Terminar? Estás a brincar comigo, Clara? Tivemos um acidente! Eu também estou exausto! A Joana é minha irmã, ela precisa de mim! Não podes ser um pouco mais compreensiva?"
"Compreensiva?" Eu ri, um som seco e sem alegria. "A tua irmã torceu o tornozelo. Eu parti a perna. Eu quase morri, Lucas."
"Foi um acidente! Eu não queria que isto acontecesse! Eu tirei-te do carro, não tirei? Chamei a ambulância! O que mais querias que eu fizesse? A Joana estava em pânico, eu tinha de a acalmar!"
As suas palavras eram como pedras, atingindo-me uma a uma.
Ele não entendia. Ele nunca entenderia.
"Não quero discutir, Lucas. Acabou."
Desliguei o telemóvel antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
Olhei para o ecrã escuro, e depois para a minha mãe.
Os seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela não disse nada, apenas me abraçou com força.
Eu não chorei.
Eu sentia-me vazia.
Completamente vazia.
Nesse momento, o meu telemóvel vibrou.
Era uma mensagem de um número desconhecido.
"Não penses que podes terminar com o meu irmão assim. Ele ama-te, mas a família vem sempre em primeiro lugar. Devias aprender o teu lugar."
Era a Joana.
Apaguei a mensagem.
Fechei os olhos.
A família vem em primeiro lugar.
Eu ia ser a família dele.
Mas, aparentemente, eu nunca seria tão importante como a irmã dele.
Ou o cão dela.
No dia seguinte, o pai do Lucas, o senhor Matias, veio ao hospital.
Ele era um homem sério, com um ar de autoridade.
Ele não veio sozinho.
A Joana estava com ele, a mancar ligeiramente, apoiada no braço dele.
Ela olhou para mim com uma expressão que misturava culpa e desafio.
"Clara, ouvi dizer que querias terminar com o Lucas. Isso não é uma decisão para se tomar de ânimo leve," disse o senhor Matias, a sua voz grave a encher o pequeno quarto.
A minha mãe, Sofia, levantou-se, colocando-se protetoramente ao meu lado.
"Senhor Matias, a minha filha acabou de passar por um trauma. Talvez esta não seja a melhor altura para esta conversa."
Ele ignorou a minha mãe, os seus olhos fixos em mim.
"O Lucas contou-me o que aconteceu. Ele salvou-te, Clara. Ele fez o que qualquer bom homem faria. E depois, ele foi ajudar a sua irmã. A família ajuda-se."
Eu olhei para a Joana.
Ela estava a olhar para o chão, a fingir estar arrependida.
"A sua perna está partida," eu disse, a minha voz sem emoção. "A minha também."
"Foi um acidente infeliz," disse a Joana, a sua voz um sussurro. "Eu estava tão preocupada com o Trovão, ele é como um filho para mim. O Lucas sabe disso."
Eu queria rir.
Um cão. Um cão era a justificação para tudo isto.
"O Lucas ama-te, Clara," continuou o senhor Matias. "Mas ele tem responsabilidades. A Joana é a sua única irmã. Eles perderam a mãe muito cedo. Eles só se têm um ao outro."
A sua voz suavizou-se, como se estivesse a contar uma história trágica para me fazer sentir culpada.
Não funcionou.
"E eu? Qual é o meu lugar nesta família?" perguntei diretamente.
O senhor Matias franziu a testa, apanhado de surpresa pela minha pergunta direta.
"Tu és a noiva dele. Em breve, serás a sua esposa. O teu lugar é ao lado dele, a apoiá-lo."
"A apoiá-lo enquanto ele me deixa para trás depois de um acidente quase fatal para cuidar de uma torção no tornozelo?"
O silêncio no quarto era pesado.
A Joana começou a chorar baixinho.
"Eu não queria causar problemas. Eu sinto muito, Clara. Se eu soubesse..."
"Chega, Joana," o senhor Matias interrompeu-a gentilmente. Depois, voltou-se para mim, a sua expressão endurecida. "Vejo que não estás a ser razoável. Estás a ser egoísta, Clara. O casamento é sobre sacrifício. Talvez não estejas pronta para isso."
Ele levantou-se, ajudando a Joana a fazer o mesmo.
"Pensa bem no que estás a fazer. Não vais encontrar outro homem como o Lucas."
Eles saíram do quarto.
A minha mãe fechou a porta atrás deles e virou-se para mim, a sua cara uma mistura de raiva e preocupação.
"Não lhes dês ouvidos, querida. Tu fizeste a coisa certa."
Eu assenti, mas uma parte de mim sentia-se fria.
Eles faziam parecer que a culpa era minha.
Que eu era a pessoa insensível e egoísta.
O meu telemóvel vibrou novamente.
Era o Lucas.
Ignorei.
Vibrou de novo. E de novo.
Finalmente, atendi.
"Clara, por favor, ouve-me. O meu pai falou contigo?"
"Sim."
"Olha, eu sei que estás chateada. Eu peço desculpa, ok? Eu devia ter ficado contigo. Mas a Joana estava a ter um ataque de pânico. Eu não podia simplesmente deixá-la."
A sua voz soava sincera.
Por um momento, vacilei.
Mas depois lembrei-me do olhar da Joana. Do tom do senhor Matias.
Lembrei-me de estar presa no carro, a dor a latejar na minha perna, a chamar por ele.
E ele não estava lá.
"Lucas, eu preciso de tempo."
"Tempo? Tempo para quê? Para deitar tudo fora? O nosso futuro? Nós íamos casar em três meses!"
"O futuro que eu imaginei não incluía ser uma segunda opção," disse eu, e desliguei.
Bloqueei o número dele.
Depois bloqueei o da Joana e o do senhor Matias.
Eu precisava de paz.
Precisava de curar.
Não só a minha perna, mas algo muito mais profundo.