O cheiro de poeira e livros antigos preenchia meus pulmões, um aroma que eu pensei ter esquecido para sempre.
Abri os olhos e me vi deitada na minha antiga cama de solteiro da adolescência, ilesa.
Mas isso era impossível, a última coisa que lembrei foi o som ensurdecedor de metal se contorcendo e o gosto de sangue na boca de um acidente de carro que ceifou minha vida miserável.
Minha vida, destruída pela traição de Sofia, minha pseudo "melhor amiga" de infância.
Eu, Luana, chef talentosa, sonhava em abrir meu restaurante, e Sofia sempre ao meu lado, anotando meus segredos culinários com um sorriso de suposta admiração.
Que ingênua eu era, só percebi a verdade quando ela desapareceu com meu livro de receitas e, semanas depois, abriu o "Delícias da Sofia" no meu lugar, com minhas receitas, aclamada como gênio.
Tentei lutar, desmascará-la, mas quem acreditaria em uma cozinheira anônima contra a nova estrela?
Fui processada por difamação, perdi tudo, minha paixão esmagada, enquanto Sofia prosperava e seduzia o Chef Gabriel, que um dia demonstrou interesse em mim.
Eu me tornei uma sombra, pulando de emprego degradante, vendo-a sorrir vitoriosamente nas capas de revista.
Aquele acidente não foi um acaso, foi o ponto final de uma vida arruinada.
Mas agora eu estava aqui, viva, jovem, e o calendário na parede marcava dez anos antes, o ensino médio, o exato momento em que a inveja de Sofia começou a se enraizar.
O choro se transformou em gelo, e o gelo em uma fúria fria e cortante.
Eu não estava morta, eu renasci.
Desta vez, as coisas seriam diferentes, eu conhecia a cobra que dormia ao meu lado.
Eu não seria a vítima, e Sofia pagaria por cada lágrima que derramei.
O jogo havia virado: a caça agora era a caçadora.
O cheiro de poeira e de livros velhos encheu meus pulmões, um aroma familiar da minha adolescência que eu pensei ter esquecido para sempre. Abri os olhos lentamente. A luz do sol entrava pela fresta da cortina com estampa de girassóis, exatamente como eu me lembrava. Meu corpo estava ileso, deitado na minha antiga cama de solteiro.
Mas isso era impossível.
A última coisa que eu lembrava era o som ensurdecedor de metal se contorcendo e o gosto de sangue na minha boca. Eu estava dirigindo meu carro velho e cansado, voltando de um terceiro turno humilhante como lavadora de pratos, exausta demais para reagir a tempo quando os faróis de um caminhão desgovernado surgiram na minha frente.
Minha vida tinha acabado ali, na miséria, com o coração partido pela traição.
Tudo por causa da Sofia. Minha "melhor amiga" de infância.
As memórias da minha vida passada vieram como uma enxurrada. Eu, Luana, uma cozinheira apaixonada e talentosa, que sonhava em abrir meu próprio restaurante. Sofia, sempre ao meu lado, ouvindo meus planos, provando minhas criações, anotando tudo em seu caderninho com um sorriso que eu acreditava ser de admiração.
Que ingênua eu fui.
Lembro-me do dia em que meu mundo desabou. Eu tinha acabado de conseguir um investidor, a oportunidade da minha vida. Mas, uma semana antes da inauguração, Sofia desapareceu. E com ela, meu livro de receitas, o fruto de anos de trabalho árduo, cada segredo culinário que minha mãe me ensinou.
Duas semanas depois, o restaurante "Delícias da Sofia" abriu as portas no mesmo local que eu havia escolhido. As mesmas receitas. O mesmo conceito. A crítica gastronômica o aclamou como uma revelação, e Sofia, com seu rosto inocente e sorriso cativante, tornou-se a nova queridinha da cena culinária. Ela contou a todos que as receitas eram herança de sua avó. Uma mentira deslavada.
Eu tentei lutar, tentei expô-la, mas quem acreditaria em mim? Eu era apenas uma cozinheira desconhecida e desesperada. Ela era a estrela em ascensão. Fui processada por difamação e perdi tudo o que me restava. Minha reputação foi destruída. Minha paixão, esmagada.
Enquanto a carreira de Sofia decolava, a minha afundava. Ela se tornou a protegida do renomado Chef Gabriel, o homem que eu admirava e que, por um breve momento, demonstrou interesse no meu talento. Sofia o seduziu, usando minha comida, minhas histórias, minha alma. Eu me tornei uma sombra, pulando de emprego em emprego, cada um mais degradante que o outro, apenas para sobreviver, enquanto via o rosto dela em capas de revistas, sempre sorrindo aquele sorriso vitorioso e falso.
Aquele acidente de caminhão não foi um acidente. Foi o ponto final de uma vida arruinada.
Mas agora... agora eu estava aqui. Viva. Jovem.
Sentei-me na cama, o coração batendo descontroladamente. Olhei para o calendário na parede. A data era de dez anos atrás. Eu estava no último ano do ensino médio, no exato momento em que minha paixão pela culinária estava florescendo, e a inveja de Sofia começava a se enraizar como uma erva daninha.
Um som de choro me chocou. Era a minha alma, gritando com a dor da memória. Mas o choro não durou muito. A dor se transformou em gelo, e o gelo em uma fúria fria e cortante.
Eu não estava morta. Eu renasci.
Desta vez, as coisas seriam diferentes. Desta vez, eu conhecia a cobra que dormia ao meu lado. Eu não estava mais cega pela amizade e pela confiança.
Desta vez, eu não seria a vítima.
Olhei para minhas mãos, jovens e sem os calos do trabalho pesado da minha vida passada. Cerrei os punhos com força.
"Sofia", sussurrei para o quarto vazio, a voz carregada de um ódio que transcendia a morte. "Você me roubou tudo. Minha vida, meus sonhos, minha dignidade. Agora, eu vou pegar tudo de volta. E vou fazer você pagar por cada lágrima que derramei."
O jogo havia virado. A caça, agora, era a caçadora.
No dia seguinte, na escola, a vi pela primeira vez desde o meu renascimento. Sofia correu na minha direção pelo corredor lotado, seu rabo de cavalo balançando, o rosto iluminado por um sorriso que, para qualquer outra pessoa, pareceria a mais pura e sincera alegria.
Para mim, era a máscara do diabo.
"Luana! Eu te procurei por toda parte!"
Ela me abraçou com força. Senti meu corpo enrijecer com o contato. O cheiro do perfume floral dela, o mesmo que ela usava no dia em que anunciou a abertura do 'seu' restaurante, invadiu minhas narinas e ativou cada fibra de ódio em mim.
Afastei-me dela com uma calma que me surpreendeu.
"Eu estava na biblioteca", respondi, a voz neutra.
Sofia fez um beicinho, uma expressão que ela usava para parecer vulnerável e adorável.
"Puxa, você está sempre estudando. Fiquei tão preocupada ontem, você sumiu depois da aula."
Sua preocupação era uma mentira venenosa. Eu sabia exatamente o que ela queria.
"Ah, é mesmo? Parabéns por ter ganhado a bolsa de estudos de verão da prefeitura! Eu vi seu nome no quadro de avisos! Você é incrível, Luana! Tão inteligente!"
Ela disse isso em voz alta, atraindo a atenção de alguns alunos que passavam. Na minha vida passada, eu teria ficado vermelha de vergonha e felicidade, grata pelo apoio da minha melhor amiga.
Agora, eu via a verdade. Ela não estava me parabenizando. Estava marcando seu próximo alvo. Aquela bolsa de estudos, que me daria a chance de fazer um curso de culinária avançado, foi a primeira grande conquista que ela me roubou. Ela de alguma forma conseguiu que meu nome fosse trocado pelo dela na última hora, alegando um "erro administrativo".
Eu a encarei em silêncio, deixando o sorriso dela vacilar sob o meu olhar frio.
"Obrigada", eu disse, sem emoção.
Sofia pareceu desconcertada com a minha falta de entusiasmo. Ela estava acostumada com a minha gratidão, com a minha ingenuidade.
"O que foi, Lu? Você não parece feliz. Aconteceu alguma coisa?"
Ela tocou meu braço, a falsa preocupação escorrendo de sua voz.
"Você está tão distante ultimamente. Desde que você começou a se destacar nas aulas, parece que você não precisa mais de mim. Nós somos melhores amigas, Luana. Você pode me contar qualquer coisa."
A manipulação era tão óbvia agora. A acusação velada, a tentativa de me fazer sentir culpada por meu próprio sucesso. Ela estava me lembrando da nossa "amizade" para me manter por perto, vulnerável, fácil de ser explorada.
"Eu não estou distante, Sofia. Estou apenas focada."
"Focada demais para sua melhor amiga?", ela retrucou, a voz agora carregada de uma mágoa calculada. "Eu sempre te apoiei em tudo. Lembro de todas as noites que passamos sonhando com seu restaurante. Eu estava lá por você. Não é justo você me deixar de lado agora."
Cada palavra era uma faca, não em mim, mas na memória da garota tola que eu fui. A garota que compartilhava cada sonho, cada segredo, sem perceber que estava alimentando o monstro ao seu lado.
Eu olhava para ela, para seus olhos que tentavam parecer feridos, e tudo o que eu via era a ganância. Ela não me via como uma amiga. Ela me via como um recurso. Uma fonte de ideias, de talentos, de vida, que ela podia sugar até não sobrar nada.
Meus punhos se fecharam dentro dos bolsos da minha jaqueta.
Eu me lembrava de ter trabalhado incansavelmente para aquela bolsa. Horas de estudo, noites em claro. E ela? Ela passou o verão viajando com a família, e ainda assim, o prêmio foi dela. Na época, eu acreditei na história do "erro". Chorei no ombro dela, e ela me consolou, dizendo que eu teria outras chances, enquanto por dentro, eu sei agora, ela estava rindo da minha estupidez.
"Você tem razão, Sofia", eu disse, forçando um pequeno sorriso. "Eu não deveria te deixar de lado."
O alívio em seu rosto foi imediato e nauseante.
"Que bom que você entende, Lu! Fiquei com tanto medo de te perder!"
Ela me abraçou de novo. Desta vez, eu não enrijeci. Eu a abracei de volta, um abraço frio como o de uma serpente.
Em minha mente, a vingança começava a tomar uma forma clara e deliciosa. Ela achava que eu era a mesma Luana de antes. Ótimo. Deixá-la pensar assim era o primeiro passo do meu plano.