A dor lancinante e o frio mortal foram as últimas sensações, a imagem final o sorriso satisfeito de Clara, minha irmã adotiva, e o marido, o Quarto Príncipe Lucas, desviando o olhar.
Fui traída e envenenada por eles, perdendo não só minha vida, mas também o bebê que carregava em meu ventre.
Morri sozinha, em uma poça de sangue, enquanto eles, a víbora e o ambicioso, viam o caminho livre para sua felicidade e poder.
Como pude ser tão cega? Como eles puderam agir com tamanha crueldade, apagando a vida que eu tanto ansiava?
Mas a escuridão não me engoliu por completo: abri os olhos novamente, de volta ao meu próprio quarto, dias antes da tragédia. Eu tinha renascido. Desta vez, a marionete quebrada se tornaria a tecelã do seu próprio destino.
A dor lancinante em meu ventre foi a última coisa que senti, um frio que se espalhou por todo o meu corpo antes de a escuridão me engolir por completo. A imagem final em minha mente foi o sorriso satisfeito de Clara, minha irmã adotiva, enquanto meu marido, o Quarto Príncipe Lucas, desviava o olhar, incapaz de encarar a tragédia que ele permitiu.
"Como posso deixar uma bastarda me dominar? A culpa é dela e daquele bastardo por estarem no meu caminho!"
A voz dela ecoava em meu crânio, uma maldição que me seguiu até o abismo.
Mas então, uma lufada de ar encheu meus pulmões.
Abri os olhos, atordoada. A luz do sol entrava suavemente pela janela, iluminando a poeira que dançava no ar. Eu estava em meu próprio quarto, na mansão do Quarto Príncipe. O cheiro familiar de sândalo pairava no ar.
Não havia dor. Não havia sangue. Não havia escuridão.
Toquei meu ventre, o coração martelando contra minhas costelas. Estava liso, sem o peso da vida que carreguei e perdi.
Lágrimas brotaram em meus olhos, mas não eram de tristeza. Eram de choque, de uma incredulidade avassaladora.
Eu estava viva.
Eu tinha voltado.
A memória da minha vida anterior me atingiu como um maremoto. Lembrei-me de tudo com uma clareza terrível. Clara, a doce e virtuosa filha biológica de meus pais adotivos, que rejeitou o casamento com o Quarto Príncipe porque estava apaixonada por outro homem, Miguel.
Eu, a filha adotiva, a bastarda sem nome, fui oferecida em seu lugar para manter a aliança e a honra da família. Aceitei meu destino. Casei-me com Lucas e, para a surpresa de todos, engravidei logo em seguida.
Foi então que o inferno começou.
Clara, arrependida de sua decisão ao ver o prestígio que eu ganharia como mãe do primeiro neto do Imperador, voltou. Ela chorou, disse que sentia minha falta e que, com seus supostos conhecimentos médicos, queria me ajudar durante a gravidez.
Ingênua, eu acreditei. Abri as portas da minha casa e do meu coração para a víbora.
Enquanto ela me servia "chás nutritivos" que me deixavam cada vez mais fraca, ela seduzia meu marido pelas minhas costas. Lucas, um homem ambicioso e superficial, caiu facilmente em seus encantos. Para ele, eu era apenas um degrau, e meu filho, uma ferramenta para o poder. Clara era a mulher que ele realmente desejava, a joia que ele sentia que merecia.
A "ajuda" de Clara culminou em um veneno lento que tirou a vida do meu filho e, em seguida, a minha. Morri em uma poça de sangue, sozinha e traída, enquanto eles celebravam o caminho livre que tinham pela frente.
Um nó de fúria se formou em minha garganta.
Levantei-me da cama, as pernas um pouco trêmulas. Andei até o espelho. A mulher que me encarava era mais jovem, o rosto ainda não marcado pela dor e pelo desespero dos últimos meses da minha vida anterior. Havia um brilho de esperança em meus olhos que há muito tempo não via.
Uma leve náusea subiu pela minha garganta.
Um arrepio percorreu minha espinha. Eu conhecia essa sensação.
Corri para o calendário de mesa. A data marcada confirmou minha suspeita. Era o exato dia em que, na minha vida passada, o médico da corte confirmou minha gravidez. O dia que deveria ter sido o mais feliz da minha vida, mas que se tornou o primeiro passo para a minha morte.
Desta vez, seria diferente.
Desta vez, eu não seria a vítima.
A porta se abriu e minha empregada pessoal, Lúcia, entrou com uma bacia de água.
"Senhora, já está de pé? Parece um pouco pálida. Está tudo bem?"
Ah, Lúcia. Na vida anterior, ela foi corrompida por Clara, trocando sua lealdade por algumas joias e a promessa de uma posição melhor. Ela foi cúmplice no meu envenenamento.
Forcei um sorriso frágil.
"Lúcia, acho que... acho que estou grávida. Sinto-me um pouco enjoada desde que acordei."
Os olhos de Lúcia se arregalaram, uma mistura de surpresa e cálculo brilhando neles. Ela sabia o que uma gravidez significava. Poder. Prestígio. E para ela, a empregada da futura mãe do herdeiro, significava mais oportunidades.
"Senhora! Isso é maravilhoso! Vou chamar o médico imediatamente!"
"Não", eu disse, minha voz firme, surpreendendo a nós duas. "Primeiro, conte ao Príncipe. Quero que ele seja o primeiro a saber."
Lúcia hesitou por um momento, mas a perspectiva de ser a portadora de uma notícia tão importante a fez sorrir.
"Sim, senhora! Claro! Vou agora mesmo!"
Ela praticamente correu para fora do quarto.
Eu me sentei, respirando fundo. O jogo havia começado.
Não demorou muito para que Lucas entrasse apressado no quarto. Seu rosto, que eu um dia amei, agora me causava repulsa. Ele era bonito, sim, mas sua beleza era vazia, uma casca que escondia um homem covarde e egoísta.
"Sofia! O que Lúcia me disse é verdade?"
Ele se aproximou, os olhos brilhando com uma excitação que eu sabia ser pura ambição. Ele não via uma esposa e um filho, via um caminho dourado para o trono.
Forcei-me a sorrir, a representar o papel da esposa feliz e devotada.
"Ainda não foi confirmado por um médico, meu senhor, mas... eu tenho certeza."
Lucas me abraçou, um abraço forte, quase teatral.
"Isso é fantástico! Um filho! Nosso filho! Você me fez o homem mais feliz do mundo, Sofia!"
Ele me beijou na testa, a boca fria contra minha pele. Senti um calafrio, mas mantive o sorriso no rosto.
"Estou tão feliz, Lucas. Mal posso esperar para contar a todos."
Ele se afastou, já planejando. "Vou enviar um mensageiro para o palácio imperial imediatamente! Meu pai, o Imperador, ficará exultante!"
"Espere", eu disse suavemente, segurando sua mão.
Ele me olhou, um pouco impaciente.
"O que foi?"
Eu baixei os olhos, fingindo timidez. "É uma notícia tão maravilhosa... Pensei que talvez... talvez você devesse contar a Clara pessoalmente."
O nome dela pairou no ar. Vi um brilho fugaz nos olhos de Lucas, um interesse que ele tentou esconder rapidamente.
"Clara? Por que eu deveria contar a ela pessoalmente?"
"Bem", comecei, a voz doce e inocente, "ela é minha irmã. Sei que ela ficaria incrivelmente feliz por nós. Ela sempre sonhou com a vida na realeza, e saber que a família dela está segura e próspera aqui... acho que isso significaria muito para ela, vindo de você."
Eu estava oferecendo a ele a isca em uma bandeja de prata. Eu sabia que ele se sentia atraído por Clara. Na vida anterior, a rejeição dela feriu seu orgulho. A oportunidade de ir até ela, não como um pretendente rejeitado, mas como um príncipe poderoso com um herdeiro a caminho, era irresistível para seu ego.
Ele ponderou por um momento, o conflito em seu rosto quase cômico.
"Talvez você tenha razão. Sim, seria um gesto... magnânimo."
Ele já estava se convencendo.
"Mas e você?", ele perguntou, lembrando-se de repente de seu papel de marido atencioso.
"Eu? Acho que vou visitar nossa mãe primeiro", eu disse, referindo-me a Dona Isabel, a mãe biológica de Clara e minha mãe adotiva. "Quero dar a boa nova a ela pessoalmente. Depois, posso descansar."
A sugestão era perfeita. Eu iria para a casa da minha mãe adotiva, um lugar onde eu sabia que seria recebida com frieza, deixando o caminho livre para Lucas ir até Clara.
O que não se tem é sempre idealizado. Na vida anterior, eles se uniram sobre a minha cova, cheios de paixão e arrependimento. Desta vez, eu mesma entregaria o que eles tanto desejavam.
Quero ver quanto tempo o amor deles dura quando não há mais nenhum obstáculo, nenhuma tragédia para romantizar seu caso sujo.
Lucas sorriu, um sorriso genuíno desta vez, não para mim, mas para a perspectiva que eu havia criado para ele.
"Excelente ideia, minha querida. Você é tão atenciosa. Vá, descanse. Eu cuidarei de tudo."
Ele me deu outro beijo rápido e saiu, os passos mais leves do que quando entrou.
Fiquei sozinha no quarto, o sorriso desaparecendo do meu rosto. Um calafrio de satisfação percorreu meu corpo.
Sim, Lucas. Vá até ela. Reacenda a chama.
Desta vez, eu serei a espectadora, e vocês dois serão os protagonistas da tragédia que estou escrevendo.
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Enquanto me preparava para sair, chamei Lúcia. Ela entrou, o rosto ainda iluminado pela excitação da notícia.
"Senhora, precisa de algo?"
"Sim, Lúcia. Você tem sido uma empregada leal e dedicada", comecei, observando a expressão dela se tornar presunçosa. "O Príncipe Lucas precisará de mais pessoal para ajudá-lo agora que a casa terá mais responsabilidades. Pensei em você."
Os olhos dela se arregalaram. "Eu, senhora?"
"Sim. Quero que você sirva diretamente ao príncipe. Ele precisa de alguém de confiança ao seu lado, e eu confio em você."
Na minha vida anterior, Lúcia me traiu por muito menos. Ela envenenou minha comida a mando de Clara, tudo por um par de brincos de ouro e a promessa de se tornar a criada chefe de Clara quando ela se tornasse a senhora da casa. Lúcia era ambiciosa e gananciosa, e eu usaria exatamente isso contra ela. Colocá-la ao lado de Lucas era o mesmo que colocar uma espiã no campo inimigo, uma espiã que pensava estar trabalhando para o outro lado.
Lúcia ficou em êxtase, mas tentou disfarçar.
"Oh, senhora, não sei se sou digna... Meu lugar é ao seu lado, especialmente agora que está grávida."
Que bela atuação.
"Bobagem", eu disse com um aceno de mão. "Cuidar do príncipe é cuidar de mim. E, com sua ambição, sei que você fará um bom trabalho."
A palavra "ambição" a fez hesitar, mas ela rapidamente a interpretou como um elogio.
"Farei o meu melhor para não decepcionar nem a senhora nem o príncipe!" ela disse, fazendo uma reverência profunda.
"Ótimo. Fale com o mordomo. Diga que é uma ordem minha."
"Sim, senhora! Obrigada, senhora!"
Ela saiu, praticamente flutuando. observei suas costas, um sorriso frio se formando em meus lábios. Sim, Lúcia, vá. Aproxime-se do poder. Quanto mais perto você chegar, mais dura será a queda.
Cheguei à casa da minha família adotiva. A casa era grande, mas sempre pareceu fria para mim. Dona Isabel, minha mãe adotiva, estava na sala de estar, bordando com outras damas da sociedade.
Quando me viu, seu rosto não demonstrou alegria, apenas uma leve irritação pela interrupção.
"Sofia. O que a traz aqui a esta hora?"
"Mãe", eu disse, forçando um sorriso caloroso e fazendo uma reverência. "Vim trazer boas notícias."
Ela me olhou com desdém. Para ela, eu sempre seria a bastarda que manchava o nome da família, um lembrete constante de um erro do passado de meu pai adotivo. Ela só me tolerava porque meu casamento com a realeza trouxe prestígio.
"Fale de uma vez. Não vê que estou ocupada?"
As outras damas olhavam com curiosidade. Respirei fundo e anunciei, com a voz cheia de uma felicidade que não sentia:
"Estou grávida."
Houve um silêncio chocado na sala, seguido por um murmúrio de parabéns das outras damas. Dona Isabel, no entanto, apenas apertou os lábios. Vi uma centelha de algo feio em seus olhos – inveja. Inveja porque eu, a bastarda, estava conseguindo o que sua amada filha Clara havia jogado fora.
"Grávida?", ela repetiu, a voz gélida. "Tem certeza?"
"Sim, mãe. O príncipe ficou muito feliz."
A menção de Lucas a fez se recompor. Ela forçou um sorriso fino.
"Bem... isso é... uma bênção. Você deve se cuidar."
Era a resposta mais fria que uma mãe poderia dar, mas era exatamente o que eu esperava.
"Onde está Clara?", perguntei, inocentemente. "Queria compartilhar a notícia com ela também."
"Clara não está se sentindo bem. Está descansando em seus aposentos", disse Dona Isabel, a voz subitamente protetora.
Claro que ela estava. Na minha vida anterior, no momento em que soube da minha gravidez, Clara de repente ficou "doente" de arrependimento e inveja.
Enquanto isso, na mansão do príncipe, eu podia imaginar a cena. Lucas, em toda a sua glória, chegando para ver Clara. Ele lhe contaria a notícia da minha gravidez, não como uma alegria compartilhada, mas como uma demonstração de seu próprio valor, uma forma de dizer: "Veja o que você perdeu".
E Clara, mestre em manipulação, usaria sua "fragilidade" e seu "amor perdido" para puxá-lo de volta, plantando as sementes da discórdia que floresceram tão tragicamente na minha vida passada.
"Que pena", eu disse, minha voz cheia de uma falsa preocupação. "Espero que ela melhore logo."
A mãe de Lúcia, que também trabalhava como cozinheira na casa de Dona Isabel, passou por nós naquele momento. Ao me ver, ela abriu um sorriso largo e presunçoso.
"Princesa Sofia! Ouvi dizer que minha Lúcia foi promovida a serva pessoal do príncipe! A senhora é tão generosa! Minha filha é uma menina de sorte!"
Ela falou alto o suficiente para que todas as damas ouvissem. Dona Isabel franziu a testa, claramente irritada com a ousadia da empregada e com a notícia. Eu era a senhora da casa do príncipe, e minhas decisões, como promover uma criada, eram um lembrete de meu poder, um poder que ela sentia que deveria ser de Clara.
Eu sorri para a mãe de Lúcia.
"Sua filha é competente. Ela merece."
O olhar de Dona Isabel tornou-se ainda mais gélido.
O palco estava montado. As peças estavam se movendo.
Desta vez, eu não esperaria passivamente pelo meu destino. Eu o construiria com minhas próprias mãos, usando a ganância, a ambição e a inveja de todos eles como meus tijolos e argamassa.
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