Eu estava no meio de uma crítica furiosa a um livro online quando tudo ficou preto.
"Que enredo mais clichê! A filha trocada, a família rica malvada, a mocinha que só sabe chorar!"
Foi a última coisa que digitei.
Uma voz mecânica e fria soou na minha cabeça, como um GPS com defeito: [Host detectado com alto nível de insatisfação. Missão: Corrigir a "porcaria clichê".]
Fui designada como Maria, a babá, com uma missão absurda: Proteger a verdadeira herdeira, Ana Paula.
Fui jogada em uma sala gigantesca.
Lá, Juliana, a filha falsa e mimada, estava humilhando Ana Paula, a legítima herdeira, pálida e com roupas gastas.
"Você é surda ou burra, Ana Paula? Você faz tudo para me irritar, não é?"
A sra. Silva, a mãe adotiva insensível, não fez nada.
Meus olhos se encheram de uma raiva fria.
Ana Paula, a garota trocada, maltratada e esquecida, não merecia aquilo.
Senti algo ferver dentro de mim, uma indignação que não conhecia limites.
Aquela "porcaria clichê" precisava de alguém para acabar com a injustiça, e esse alguém seria eu.
Agarrei o pulso de Juliana.
Soltei com um empurrão e ajudei Ana Paula a se levantar.
Olhei para a família Silva e anunciei: "Fiquem longe dessa gente desprezível. Vamos ser cidadãs de bem e construir um Brasil forte!"
Eu não estava lutando apenas por Ana Paula, mas contra toda a hipocrisia e injustiça social.
Por 500 milhões de reais e pela justiça, eu não só construiria um Brasil forte, eu construiria um Brasil novo em folha para Ana Paula.
Eu estava no meio de uma crítica furiosa a um livro online quando tudo ficou preto.
"Que enredo mais clichê! A filha trocada, a família rica malvada, a mocinha que só sabe chorar. Quem ainda escreve uma porcaria dessas em pleno século XXI?"
Foi a última coisa que digitei.
De repente, uma voz mecânica e fria soou na minha cabeça, como um GPS com defeito.
[Sistema ativado. Host detectado com alto nível de insatisfação. Missão: Corrigir a "porcaria clichê". Mundo alvo: "A Herdeira Esquecida".]
"Que sistema o quê? Eu bebi demais?" murmurei, tentando me levantar, mas meu corpo não respondia.
[Personagem atribuído: Maria, a babá. Missão primária: Proteger a verdadeira herdeira, Ana Paula. Recompensa por conclusão: 500 milhões de reais.]
Antes que eu pudesse processar o valor absurdo, uma luz branca me cegou.
Quando abri os olhos, o cheiro de perfume caro e desinfetante encheu minhas narinas. Eu estava em uma sala gigantesca, luxuosa, e na minha frente, uma cena que parecia ter saído direto do livro que eu odiava.
Uma garota com um vestido de grife, que eu soube instintivamente ser Juliana, a filha falsa, apontava o dedo para outra garota, encolhida no canto.
Essa era Ana Paula. A verdadeira filha.
"Você é surda ou burra, Ana Paula? Eu pedi um suco de laranja, não essa água suja com limão! Você faz tudo para me irritar, não é?"
A voz de Juliana era estridente e cheia de desprezo.
Ana Paula, magra e pálida, com roupas visivelmente gastas que não combinavam com o luxo da casa, apenas abaixou a cabeça. Seu cabelo, comprido e sem brilho, caía sobre seu rosto, escondendo sua expressão.
"Desculpe, Juliana. Eu pensei que..."
"Você não pensa! Você não tem cérebro para isso! Papai e mamãe só te trouxeram de volta por pena. Você deveria ser grata por não estar mais naquele orfanato imundo!"
A voz do sistema voltou, pingando sarcasmo.
[Cena de bullying inicial. A protagonista deve intervir para proteger a personagem alvo. Ou não. Você pode só assistir. A escolha é sua, mas o desempenho afeta a avaliação final.]
Ignorei o sistema. Olhei para a mão trêmula de Ana Paula, segurando o copo com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos.
Senti uma raiva fria crescer dentro de mim. Dinheiro ou não, aquilo era simplesmente errado.
Juliana estava prestes a dar um tapa no rosto de Ana Paula.
Eu me movi.
Agarrei o pulso de Juliana com força. Ela era mais alta que eu, mas meu aperto era firme.
Ela se virou, chocada. "Quem é você? Me solta!"
Eu olhei diretamente nos olhos dela, depois para os pais falsos, o Sr. e a Sra. Silva, que assistiam à cena do sofá como se fosse um espetáculo de teatro, sem qualquer intenção de intervir.
Soltei o pulso de Juliana com um empurrão e caminhei até Ana Paula.
Ajoelhei-me na frente dela, peguei sua mão fria e a ajudei a se levantar.
"Ana Paula, certo?"
Ela me olhou com seus grandes olhos assustados, surpresa por alguém estar falando com ela com gentileza. Ela apenas assentiu.
Eu sorri para ela e depois me virei para a família Silva, que agora me encarava com indignação.
Minha voz saiu alta e clara, enchendo o silêncio tenso da sala.
"Fique longe dessa gente desprezível."
Apontei para Juliana e seus pais.
"Vamos ser cidadãs de bem e construir um Brasil forte!"
Um silêncio chocado tomou conta do lugar. Ana Paula me olhou, os olhos arregalados. A família Silva parecia que tinha visto um fantasma.
O sistema apitou na minha cabeça.
[Declaração patriótica inesperada. Analisando... Relevância para o enredo: baixa. Nível de impacto: alto. Bônus por criatividade concedido.]
E então, para garantir que eu estivesse totalmente comprometida, uma imagem apareceu na minha mente: uma conta bancária com meu nome e um saldo de R$ 500.000.000,00.
Ok, sistema. Você venceu. Por quinhentos milhões, eu não só construiria um Brasil forte, eu construiria um Brasil novo em folha para Ana Paula.
A primeira a quebrar o silêncio foi a Sra. Silva.
Ela se levantou do sofá, o rosto uma máscara de ultraje.
"Quem você pensa que é para falar assim na minha casa? Você é a nova babá? Está demitida!"
Eu ri na cara dela.
"Primeiro, eu acabei de chegar, então tecnicamente não posso ser demitida. Segundo, você não me paga. O sistema paga."
Ela franziu a testa, confusa. "Sistema? Do que esta louca está falando?"
O Sr. Silva, um homem de aparência severa com uma barriga proeminente, finalmente se pronunciou.
"Olha aqui, mocinha. Nós damos um teto, comida e educação para a Ana Paula. Ela nos deve respeito e gratidão. E você, como empregada desta casa, também."
Eu cruzei os braços.
"Dão? Vamos falar sobre o que vocês 'dão'."
Caminhei até a mesa de centro, pegando um porta-retratos com a foto de Juliana em Paris, em frente à Torre Eiffel.
"Juliana viaja para a Europa nas férias. Onde Ana Paula passou as últimas férias?"
Silêncio.
"Juliana usa roupas de grife que custam mais do que o meu aluguel. A roupa da Ana Paula parece ter vindo de uma doação de caridade."
A Sra. Silva ficou vermelha. "Isso não é da sua conta! Nós damos a ela uma mesada generosa!"
"Ah, é mesmo?" eu disse, um sorriso se formando no meu rosto. "Que ótimo. Então vocês não se importarão de me mostrar os extratos bancários que comprovem essas transferências generosas para a conta da Ana Paula, certo?"
O casal se entreolhou, o pânico começando a aparecer em seus olhos.
"Nós... nós damos em dinheiro vivo," gaguejou o Sr. Silva.
"Claro que dão," eu disse, meu tom cheio de sarcasmo. "Ana Paula, você pode me dizer quanto você recebeu de mesada este mês?"
Todos os olhos se voltaram para Ana, que se encolheu sob o peso da atenção.
Ela sussurrou, tão baixo que quase não ouvi.
"Eu não tenho uma conta bancária. E... eu não recebo mesada."
A Sra. Silva explodiu.
"Sua ingrata! Depois de tudo que fizemos por você! Está mentindo para colocar a babá contra nós! Você é manipuladora igual à sua mãe biológica!"
Ela avançou em direção a Ana, a mão levantada, pronta para bater.
Dessa vez, eu não apenas a parei. Eu me coloquei totalmente na frente de Ana, meu corpo servindo como um escudo.
"Encoste um dedo nela," eu disse, minha voz baixa e perigosa. "E eu juro que sua cara de socialite vai precisar de mais plástica do que o seu cartão de crédito pode pagar."
Pedro, o irmão falso que até então estava quieto, se levantou. Ele era um jovem mimado, com o mesmo ar arrogante de Juliana.
"Quem você pensa que é pra ameaçar minha mãe?"
Ele tentou me empurrar para o lado para chegar até Ana.
Eu não me movi um centímetro. Em vez disso, agarrei seu braço e o torci ligeiramente para trás, o suficiente para causar dor.
Ele gritou. "Ai! Me solta, sua bruxa!"
"Bruxa?" Eu sorri. "Você ainda não viu nada."
Soltei-o com um empurrão que o fez tropeçar e cair de volta no sofá.
Virei-me para o Sr. e a Sra. Silva, que me olhavam com uma mistura de medo e ódio.
"Vamos deixar uma coisa bem clara."
Minha voz ecoou na sala silenciosa.
"Vocês tiraram Ana Paula de um ambiente simples, onde ela pelo menos não era maltratada, e a trouxeram para esta jaula de ouro para servir de saco de pancadas emocional para seus filhos mimados."
"Vocês a humilham."
"Vocês a negligenciam."
"Vocês a privam do básico enquanto cobrem Juliana de luxos."
"Vocês se dizem 'pais', mas a única coisa que deram a ela foi dor e sofrimento."
"A partir de hoje, isso acaba. Eu estou no comando da vida da Ana Paula. E a primeira ordem do dia é: vocês vão pagar por tudo que devem a ela. Com juros."