Eu renasci.
No momento em que abri os olhos, o cheiro de macarrão instantâneo e solidão invadiu meu quarto bagunçado, o mesmo que me custou a vida.
Era a véspera da apresentação da "startup de tecnologia" de Ricardo, o dia antes de ser traído, assassinado e ter meu sonho roubado.
Na vida anterior, Luana, minha namorada, e Pedro, meu melhor amigo, me convenceram a acreditar em Ricardo, um rival da faculdade com um suposto "investimento anjo".
Fui um tolo.
O investimento era um esquema de pirâmide, a startup uma farsa, e eles queriam apenas o código-fonte do meu jogo. Quando me recusei a entregar, Pedro segurou meus braços enquanto Luana, o amor da minha vida, me apunhalou.
Agora, eu estava de volta, mas com a mente clara como cristal.
Luana e Pedro apareceram para me apressar para a apresentação.
"Pronto para quê?", perguntei, minha voz mais calma do que eu esperava.
Eles falavam de "nossa grande chance", cegos para a armação.
Tentei alertá-los, gritei, revelei a fraude, mas fui silenciado.
"Ele está louco!", acusou Pedro.
Luana, com lágrimas falsas, implorou: "João e eu terminamos recentemente. Ele não está lidando bem com isso. Ele está... doente. Só quer atenção."
Fui arrastado para um depósito escuro, a mente tentando entender a audácia da traição.
Estavam invertendo a realidade, me pintando como o gênio manipulador por trás de tudo.
"Foi ele", Luana, com uma crueldade gelada, me acusou ao detetive.
Pedro se juntou à farsa, "É verdade! João é o cérebro por trás de tudo. Quando percebemos que era um golpe e tentamos pará-lo, ele surtou. Ele até nos trancou naquela sala!"
Então, algemado, fui socado e chutado pela multidão furiosa.
Minha gravação. A gravação secreta em meu celular poderia revelar a verdade.
"Está gravando", eu disse ao detetive, "Desde o momento em que eles entraram no meu quarto para me forçar a vir."
Eu tinha morrido uma vez, mas não faria isso de novo.
Desta vez, eu estava preparado.
Eu renasci.
No momento em que abri os olhos, a luz do sol poente entrava pela janela do meu quarto bagunçado, o mesmo quarto onde passei incontáveis noites em claro desenvolvendo meu jogo, o projeto que me custou a vida. O cheiro familiar de macarrão instantâneo e solidão pairava no ar, uma memória física de um passado que deveria ter acabado.
Olhei para o calendário no meu celular. Era a véspera da apresentação da "startup de tecnologia" de Ricardo. O dia antes de eu ser traído, assassinado e ter meu sonho roubado.
Na minha vida anterior, neste exato momento, eu estava animado, orgulhoso da minha namorada, Luana, e do meu melhor amigo, Pedro. Eles estavam indo para um evento que, segundo eles, mudaria nossas vidas. Eles me disseram que Ricardo, um rival meu da faculdade, tinha conseguido um investimento anjo para uma ideia revolucionária, e queria que eles se juntassem.
Eu acreditei neles. Fui um tolo.
O "investimento anjo" era um esquema de pirâmide. A "startup" era uma farsa. E a única coisa que eles queriam era o código-fonte do meu jogo para vender a Ricardo, que o usaria como "prova de conceito" para enganar mais investidores. Quando me recusei a entregar, eles me mataram. Pedro, meu melhor amigo, segurou meus braços enquanto Luana, o amor da minha vida, me apunhalou.
Agora, eu estava de volta. Com o coração pesado de memórias, mas a mente clara como cristal.
A porta do meu quarto se abriu com um rangido.
"João? Você ainda não está pronto?"
Era Luana. Ela estava linda, vestida com um vestido caro que eu sabia que ela não podia pagar. Seus olhos brilhavam com uma ambição que, na minha vida anterior, eu confundia com paixão.
"Pronto para quê?", perguntei, minha voz soando mais calma do que eu esperava.
"Para a apresentação! Pedro já está lá embaixo esperando. Ricardo vai apresentar o projeto hoje, é a nossa grande chance!"
Ela se aproximou, o perfume dela enchendo o ar, o mesmo perfume que senti enquanto o sangue escorria do meu peito.
"Eu não vou", disse eu, simplesmente.
Luana franziu a testa, a impaciência aparecendo em seu rosto.
"O que você quer dizer com não vai? Nós conversamos sobre isso. É importante para mim, para nós!"
Pedro entrou no quarto logo atrás dela. Ele tinha o mesmo sorriso amigável e solidário que sempre usou para me enganar.
"Qual é o problema, cara? Não me diga que você está com ciúmes do Ricardo só porque ele conseguiu investidores antes de você."
O desprezo em suas palavras era sutil, mas para mim, que já conhecia o final da história, era ensurdecedor. Na minha vida anterior, eu teria ficado na defensiva, tentando explicar que minha preocupação era genuína. Desta vez, não.
"Ciúmes?", repeti, um sorriso frio se formando em meus lábios. "Não, Pedro. Eu não tenho ciúmes. Eu só acho engraçado. Um projeto de tecnologia tão inovador que ninguém sabe explicar o que faz, mas que promete retornos de 30% ao mês. Parece legítimo."
A expressão de Luana vacilou por um segundo. Um pingo de dúvida. Ela não era má por natureza, apenas fraca, ambiciosa e facilmente manipulada. Mas a dúvida desapareceu tão rápido quanto veio, substituída pela irritação.
"Você está sendo ridículo, João! Você só está dizendo isso porque está com inveja! Você passa o dia todo trancado nesse quarto com seu joguinho e não consegue aceitar que outras pessoas estão fazendo sucesso de verdade!"
"Sucesso de verdade?", eu ri, um som seco e sem humor. "Luana, você acha que sucesso é pegar dinheiro de estudantes desesperados e prometer a eles uma fortuna que não existe? Isso não é sucesso, é um crime. É um esquema de pirâmide."
"Como você ousa!", gritou Pedro, dando um passo à frente. "Ricardo é um gênio! Ele está construindo um futuro, e você está aqui, afundado na sua mediocridade, tentando nos arrastar para baixo com você!"
Eu olhei para Pedro, o homem que chamei de irmão. A inveja em seus olhos era tão palpável que chegava a ser sufocante. Ele nunca tinha me apoiado de verdade, ele apenas se mantinha por perto, esperando a minha queda.
"Sabe, Pedro," comecei, minha voz baixa e perigosa, "você mencionou algo sobre um 'investimento anjo' de um grupo de Hong Kong. O nome do grupo era 'Golden Dragon Ventures', não era?"
Pedro congelou. Seus olhos se arregalaram. Era um detalhe que Ricardo tinha inventado na hora para parecer mais convincente, um detalhe que eu só poderia saber se tivesse ouvido a conversa deles planejando o golpe.
Luana não percebeu a mudança em Pedro. Ela estava muito focada na própria raiva.
"E daí? Isso só prova que é um negócio sério! Você está com medo, João. Medo de que eu finalmente consiga algo por mim mesma, sem você!"
"Eu não estou com medo por mim, Luana", disse eu, levantando-me da cama. "Estou avisando vocês. Quando a polícia chegar, e eles vão chegar, não digam que eu não avisei."
Minha calma os desarmou mais do que qualquer grito faria. Eu não estava mais tentando convencê-los, estava apenas declarando um fato. Eu queria me afastar, deixá-los seguir para o próprio destino trágico. Eu já tinha morrido por eles uma vez, não faria isso de novo.
"Chega!", disse Pedro, recuperando a compostura, mas com um tom mais agressivo. "Você vai com a gente. Você não vai estragar a noite da Luana com seu mau humor."
Ele agarrou meu braço. Com força.
"Me solta, Pedro."
"Não. Você vai vir, vai sentar lá, vai aplaudir e vai fingir que está feliz por nós. É o mínimo que você pode fazer."
A ironia era esmagadora. Eles estavam me forçando a assistir ao prelúdio da minha própria morte. Eu tentei me soltar, mas Pedro era mais forte. Ele me arrastou para fora do quarto, com Luana nos seguindo, seu rosto uma máscara de ressentimento.
Enquanto era arrastado pelo corredor, virei minha cabeça para trás e olhei diretamente nos olhos de Luana.
"Luana, escute com atenção", eu disse, minha voz baixa e urgente. "Não invista todo o dinheiro que sua mãe guardou para a aposentadoria. Por favor."
Na minha vida anterior, a perda das economias da mãe dela foi o que a quebrou completamente, o que a tornou cúmplice no meu assassinato, desesperada para recuperar o dinheiro.
Ela me olhou com desprezo.
"Você não manda em mim, João. E não ouse falar da minha mãe. Eu vou investir tudo. E quando eu estiver rica, vou rir da sua cara patética."
Ela se virou e desceu as escadas na frente, sem olhar para trás.
Pedro me empurrou escada abaixo. A porta do apartamento se fechou atrás de nós, e eu soube, com uma certeza terrível, que a tragédia estava, mais uma vez, em movimento. E desta vez, eu estava sendo arrastado para o epicentro dela contra a minha vontade.
O carro de Ricardo, um sedã de luxo alugado para a ocasião, cortava as ruas da cidade. Eu estava espremido no banco de trás entre Pedro e outro "associado" de Ricardo, um brutamontes silencioso cuja única função parecia ser garantir que eu não fugisse. Luana estava no banco da frente, ao lado de Ricardo, rindo de algo que ele disse. Ela não olhou para mim uma única vez desde que saímos de casa.
Ricardo me encarou pelo espelho retrovisor, um sorriso presunçoso no rosto.
"Então, João. Ouvi dizer que você tem algumas... preocupações sobre o nosso empreendimento. É bom ser cético, mostra inteligência. Mas às vezes, você tem que dar um salto de fé."
"Eu prefiro saltar de um prédio", respondi, minha voz monótona. "As chances de sobrevivência são maiores."
O brutamontes ao meu lado me deu uma cotovelada nas costelas. Eu grunhi de dor.
"Ei, calma aí!", disse Pedro, mas não havia convicção em sua voz. Era apenas uma performance. "Ele só está estressado. O projeto dele não está indo bem."
Eu olhei para Pedro, para o rosto que um dia confiei. A inveja que ele sentia era como um veneno que havia apodrecido sua alma por dentro. Nesta nova vida, livre da minha ingenuidade, eu podia ver claramente. Ele não me odiava pelo meu fracasso, ele me odiava pela possibilidade do meu sucesso. Meu talento era um espelho para a sua própria mediocridade.
O carro parou em frente a um galpão reformado em uma área industrial da cidade. Luzes coloridas piscavam lá dentro e uma música alta pulsava, abafando o som da razão. Dezenas de jovens, a maioria estudantes universitários, entravam no local com os olhos brilhando de esperança e ganância. Eram as vítimas.
Enquanto Pedro e o outro homem me arrastavam para fora do carro, eu me virei para Luana uma última vez.
"Luana, por favor", eu disse, agarrando o braço dela. "Olhe para essas pessoas. Elas são como nós. Elas têm sonhos, famílias. Não faça isso. Não seja cúmplice disso."
Ela puxou o braço com força, como se meu toque a queimasse.
"Cúmplice? Eu estou garantindo o meu futuro! Algo que você nunca foi capaz de me dar!", ela cuspiu as palavras, o rosto contorcido de raiva. "Você teve sua chance de estar ao meu lado, mas preferiu ficar no seu mundinho de fantasia. Agora saia do meu caminho."
Ela se virou e entrou no galpão de braços dados com Ricardo, a rainha da noite caminhando para sua coroação em um castelo de mentiras.
Fui empurrado para dentro. O lugar estava lotado. Um palco improvisado havia sido montado em uma extremidade, com um telão exibindo o logotipo da "startup" de Ricardo – um nome genérico com um design chamativo que não significava nada. O ar estava quente e abafado, cheirando a suor, perfume barato e desespero. As pessoas gritavam, riam, brindavam com copos de plástico cheios de uma bebida energética barata que estava sendo distribuída gratuitamente.
Era um culto. E Ricardo era o messias.
Eles me forçaram a sentar em uma cadeira em uma das primeiras fileiras. "Para que você possa ver o sucesso de perto", zombou Pedro, antes de se juntar a Luana e Ricardo perto do palco.
Eu me sentia um prisioneiro na primeira fila da minha própria execução repetida. Minha mente estava acelerada. Eu precisava fazer alguma coisa. Eu não podia simplesmente sentar e assistir ao desastre acontecer de novo.
As luzes diminuíram e a música ficou ainda mais alta. Ricardo subiu ao palco sob aplausos frenéticos. Ele era carismático, eu tinha que admitir. Ele falava com uma confiança que beirava a arrogância, pintando um quadro de riqueza fácil e de um futuro sem preocupações. Ele usava jargões de tecnologia que soavam impressionantes, mas eram vazios de significado. "Sinergia blockchain", "disrupção de paradigma quântico", "monetização de dados descentralizada". Era um monte de lixo, mas a plateia estava comendo na mão dele.
Eu olhei para os rostos ao meu redor. Vi a esperança, o desejo de acreditar que um atalho para a felicidade existia. Vi o reflexo da minha própria ingenuidade anterior.
Não. Eu não ia deixar acontecer.
Enquanto Ricardo fazia uma pausa dramática antes de anunciar os "pacotes de investimento", eu me levantei.
"É UMA FRAUDE!", gritei, com toda a força dos meus pulmões.
A música parou. O silêncio caiu sobre o galpão. Todos os olhos se viraram para mim. O sorriso de Ricardo vacilou por um instante.
"É UM ESQUEMA DE PIRÂMIDE!", continuei, minha voz ecoando no silêncio repentino. "ELE ESTÁ PEGANDO O DINHEIRO DE VOCÊS PARA PAGAR OS INVESTIDORES MAIS ANTIGOS! NÃO HÁ PRODUTO, NÃO HÁ TECNOLOGIA! ACORDEM!"
Por um momento, pareceu que minhas palavras tinham surtido efeito. Vi confusão e dúvida nos rostos de algumas pessoas. Mas então, Pedro agiu.
"Ele está louco!", gritou Pedro, apontando para mim. "Ele é meu amigo, mas ele está passando por um momento difícil! Ele está com inveja do sucesso do Ricardo e está tentando sabotar tudo!"
Luana subiu no palco e pegou o microfone. Sua voz tremia, mas ela a forçou a ser firme.
"Por favor, não deem ouvidos a ele", disse ela, com lágrimas falsas nos olhos. "João e eu terminamos recentemente. Ele não está lidando bem com isso. Ele está... doente. Só quer atenção."
A multidão, que por um segundo esteve do meu lado, agora se virou contra mim. Murmúrios de pena e desprezo se espalharam pelo galpão. Eu não era mais um alerta, era um obstáculo para os sonhos deles.
"Tirem ele daqui!", gritou alguém do fundo.
O brutamontes que me trouxe e mais dois "associados" de Ricardo vieram em minha direção. Eu não resisti. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Enquanto eles me arrastavam para fora, passando por fileiras de rostos que me olhavam com raiva e pena, eu senti um desespero profundo. Eu tentei. Eu realmente tentei. Mas você não pode salvar pessoas que não querem ser salvas.
Eles me levaram para uma pequena sala nos fundos, um depósito empoeirado, e me jogaram lá dentro.
"Fique aqui e esfrie a cabeça", disse Pedro, sua voz fria e desprovida de qualquer emoção. "Quando você decidir parar de ser um idiota, talvez a gente te deixe sair."
A porta de metal bateu e a tranca girou. Eu estava sozinho na escuridão, ouvindo os aplausos e os gritos de comemoração do lado de fora. O som de pessoas entregando suas economias, seus futuros, para um mentiroso carismático. O som da história se repetindo.