As luzes do palco deveriam ser meu refúgio e o caminho para salvar meus pais.
Eu era Sofia, uma bailarina que dançava com a alma, sempre beirando a vitória.
Mas a vitória nunca vinha. Sempre era Paula, a filha do coreógrafo famoso, vencendo por exatos 0.5 pontos.
Minha bolsa de estudos, a única chance de pagar o tratamento dos meus pais, me escapava repetidamente.
Naquela vida, vi meus pais definharem, a esperança se esvaindo a cada derrota, até que a última, a mais cruel, os levou.
Eles morreram, e eu, sem vida em meu apartamento, com o troféu de segundo lugar na mão, os segui.
Mas então, eu abri os olhos novamente.
Eu estava viva, um ano no passado, antes de todo o sofrimento começar. Meus pais, vivos!
Era uma segunda chance, não para vencer, mas para fazer justiça.
Tentei mudar o jogo, mas o sistema era mais profundo do que eu imaginava, e Paula continuava a vencer por 0.5 pontos, mesmo quando dançava horrivelmente.
Descobri que um amuleto "da sorte" que meu namorado e Paula me deram era um dispositivo de espionagem, roubando minhas coreografias.
Meus pais adoeceram novamente, e a ligação de Paula ao hospital, avisando da minha "derrota humilhante", quase os matou.
Foi então que percebi: não só Paula e seu pai eram corruptos, mas o hospital também.
Chegou a final, e eu não dancei. Meu "zero" e o "0.5" de Paula desmascararam a fraude, mas ela me atacou, usando a doença de meus pais.
Aquela foi a gota d' água; minha raiva se transformou em um plano frio e calculista.
A festa de gala da família de Paula, onde ela celebraria sua vitória fraudulenta, seria o palco da minha vingança.
Com um pendrive e a ajuda de um jornalista investigativo, revelei a todos as fraudes do pai de Paula, desmascarando a manipulação das competições e a corrupção no hospital.
O circo desmoronou: o pai de Paula foi preso, ela enlouqueceu, e eu, Sofia, a dançarina que não se curvou, obtive justiça.
Meus pais se recuperaram, e eu ganhei uma bolsa para a academia internacional, finalmente dançando por pura alegria e liberdade.
As luzes do palco queimavam minha pele, mas o frio vinha de dentro, um eco da minha vida passada.
Naquela vida, o roteiro era sempre o mesmo.
Eu dançava com a alma, cada movimento uma prece desesperada por um futuro melhor, pela saúde dos meus pais.
Em cada competição, eu chegava perto. Tão perto que podia sentir o cheiro da vitória.
Mas ela sempre escapava.
E sempre pela mesma margem.
Exatos 0.5 pontos.
A cada vez, a vencedora era Paula, a filha do famoso coreógrafo, cujo sorriso arrogante era um lembrete constante do meu fracasso.
"Sofia, você é boa, mas não o suficiente" , ela dizia, com uma falsa simpatia que não enganava ninguém.
Eu me esforçava mais, treinava até meus músculos gritarem por descanso, sangrava pelos meus sonhos.
Mas o resultado se repetia, uma e outra vez, como uma piada cruel.
A bolsa de estudos, a única chance de pagar o tratamento caríssimo dos meus pais, me era negada repetidamente.
Eles definhavam, a esperança em seus olhos se apagando a cada derrota minha.
A última competição daquela vida foi a mais dolorosa. Eu sabia que era a última chance. Dancei como nunca, uma performance que fez o público chorar, que fez os jurados me aplaudirem de pé.
Eu senti. Eu sabia. Tinha que ser meu.
Então o resultado saiu.
Paula, 98.5.
Sofia, 98.0.
Os mesmos 0.5 pontos.
Naquele dia, o telefone tocou. Era do hospital. Meus pais, ao saberem da minha derrota pela televisão, perderam a última centelha de vontade de lutar. Meu pai teve um ataque cardíaco fulminante, e minha mãe, com o coração partido, o seguiu horas depois.
O mundo desabou. A dança, meus pais, meus sonhos... tudo se foi.
A dor era tão grande, tão insuportável, que meu próprio corpo desistiu. Fui encontrada dias depois no meu pequeno apartamento, o troféu de segundo lugar na minha mão, sem vida.
Mas então, eu abri os olhos.
A luz do sol entrava pela janela do mesmo apartamento pequeno e simples. Meu corpo estava dolorido, mas era a dor familiar do treino excessivo, não o vazio da morte.
Olhei para o calendário na parede. A data era de um ano atrás.
Um dia antes da primeira grande competição que deu início a todo o meu sofrimento.
Eu estava viva.
Meus pais estavam vivos.
Eu tinha renascido.
Uma segunda chance. Não para vencer, mas para fazer justiça.
O telefone tocou, me tirando do transe. Era Gustavo, meu namorado.
"Sofia, você tá pronta pra amanhã? Ouvi dizer que a Paula tá com uma coreografia nova incrível. Vai ser difícil."
A voz dele, que antes me trazia conforto, agora soava vazia. Na minha vida passada, ele me consolou após cada derrota, mas sempre me incentivou a "aceitar" o resultado. Agora, eu entendia o porquê.
Desliguei o telefone e fui para o estúdio improvisado na minha sala. Olhei meu reflexo no espelho. A mesma garota de antes, mas com olhos que tinham visto o fim.
No dia seguinte, na competição, a atmosfera era elétrica. Eu estava nos bastidores, aquecendo, quando ela apareceu.
Paula, com seu traje de dança caríssimo e um ar de superioridade.
"Olha só quem está aqui. A rainha da rua" , ela disse, com um sorriso de escárnio.
"Pronta para ficar em segundo lugar de novo, Sofia?"
Seus olhos brilhavam com malícia.
"Dizem que seus pais estão bem doentes. Que pena. Essa bolsa de estudos realmente ajudaria, não é?"
Ela se aproximou, sussurrando para que só eu ouvisse.
"Mas não se preocupe. Eu vou ganhar. Por 0.5 pontos. Como sempre."
Eu a encarei, o fogo da vingança queimando em meu peito.
Desta vez, Paula, as coisas seriam diferentes.
A previsão de Paula pairava no ar como uma maldição.
Eu tentei ignorar, tentei focar na minha dança, na música que pulsava em minhas veias.
Subi ao palco e dei tudo de mim, cada gota de suor, cada batida do coração. A plateia aplaudiu de pé, um mar de rostos emocionados. Senti uma pequena chama de esperança. Talvez, só talvez, o talento puro pudesse quebrar o padrão.
Então, foi a vez de Paula. Sua performance foi tecnicamente perfeita, mas fria, sem alma. Era a dança de uma boneca, não de uma artista.
Fomos chamadas ao palco para o anúncio dos resultados. Meu coração martelava contra minhas costelas.
Os juízes anunciaram as notas. Primeiro as minhas. Uma pontuação altíssima, quase perfeita. A multidão vibrou.
Depois, as de Paula.
E então, o resultado final.
Apresentador: "E a vencedora, com uma pontuação final de 97.8, é... Paula!"
Meu sangue gelou. A tela gigante atrás do palco mostrava as pontuações.
Paula: 97.8.
Sofia: 97.3.
Uma diferença de exatos 0.5 pontos.
O sorriso de Paula era triunfante. Ela se virou para mim enquanto recebia o troféu, seus lábios se movendo sem som: "Eu te avisei."
O choque foi como um soco no estômago. Mesmo esperando, a confirmação era devastadora. Não era coincidência, era um sistema. Um sistema montado contra mim.
Nos bastidores, ela veio até mim, seu troféu brilhando sob as luzes.
"O que foi, Sofia? Parece que viu um fantasma" , ela zombou. "Eu te disse que você não tinha chance. Você é do lixo, e é lá que vai ficar."
"Como você faz isso?" , perguntei, a voz trêmula de raiva e confusão.
"Isso o quê? Dançar melhor que você? É talento, querida. Algo que o dinheiro pode comprar, e você não tem nenhum dos dois."
Eu ainda acreditava, ou queria acreditar, que havia alguma justiça. Que na próxima competição, se eu fosse ainda melhor, inegavelmente melhor, eles não poderiam fazer isso.
Passei as semanas seguintes treinando como uma louca. Mal comia, mal dormia. Só dançava. Meus pais me ligavam, preocupados, e eu mentia, dizia que estava tudo bem.
A segunda competição chegou. O padrão se repetiu.
Performance incrível. Aplausos. Esperança.
Paula: 98.2.
Sofia: 97.7.
A mesma diferença. O mesmo sorriso de escárnio.
A terceira. A quarta. Era uma tortura. A cada vez, a diferença era a mesma. 0.5 pontos. Nem mais, nem menos. Era uma precisão matemática que desafiava qualquer lógica de julgamento humano.
Na quinta competição, a última antes da grande final pela bolsa, Paula foi ainda mais cruel.
"Sabe, Sofia, ouvi dizer que a clínica onde seus pais estão internados é uma das acionistas do evento" , ela disse casualmente enquanto eu amarrava minhas sapatilhas. "Seria uma pena se eles perdessem um patrocínio tão importante porque a filha de um paciente fez um escândalo por perder."
Ela não estava apenas me sabotando, estava me ameaçando. Estava usando a vida dos meus pais para me manter na linha.
A raiva me deu forças. Subi naquele palco e dancei com o furor de um animal enjaulado. Foi a melhor performance da minha vida. Eu não deixei espaço para dúvidas.
Quando as notas foram anunciadas, senti um nó na garganta.
Apresentador: "Uma performance histórica de Sofia! Pontuação final: 99.5!"
A plateia explodiu. Era a nota mais alta da história da competição. Eu olhei para Paula. Pela primeira vez, vi uma sombra de pânico em seus olhos.
Então, as notas dela foram anunciadas. Uma performance boa, mas nada de especial.
E o resultado final apareceu na tela.
Paula, a vencedora, com 100 pontos.
Sofia, em segundo, com 99.5.
A diferença. A maldita e exata diferença de 0.5 pontos.
Foi a gota d'água. A esperança se estilhaçou em um milhão de pedaços. Caí de joelhos no palco, o som da multidão se tornando um zumbido distante. As lágrimas que eu segurei por tanto tempo finalmente vieram, queimando meu rosto.
Era um jogo de cartas marcadas. E eu estava destinada a perder, não importava o quão bem eu jogasse.