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O Retorno de Maria: Sem Arrependimentos

O Retorno de Maria: Sem Arrependimentos

Autor:: Adolf Dunne
Gênero: Romance
Aos setenta anos, Maria chafurdava na solidão gelada de um hospital. O cheiro da morte era sufocante, misturado ao ranço de arrependimento e abandono. Seus ossos doíam, um lembrete constante de uma vida de sacrifícios por João e pelos filhos que a descartaram como lixo. A vaga na faculdade de medicina, o sonho de uma vida inteira, foi trocada por noites em claro cuidando de João após sua queda na montanha. Ele prometeu amor eterno, mas essas promessas viraram pó. Os filhos, criados com amor incondicional, a despacharam para aquele asilo disfarçado de hospital, roubando suas economias para luxos próprios. A punhalada final veio de João, seu marido por cinquenta anos. Ele veio pedir o divórcio, de mãos dadas com Sofia, sua "alma gêmea", a mesma mulher que ele sussurrava no delírio da febre. "Ele disse que devia a si mesmo ser feliz em seus últimos anos. E a felicidade dele não a incluía." Até os filhos o apoiaram, chamando-a de amarga, difícil, merecedora da solidão. Naquele momento, um ódio frio e profundo floresceu em seu peito, por todos eles e, acima de tudo, por si mesma, por sua estupidez e sua vida desperdiçada. "Se eu pudesse voltar...", ela sussurrou para o teto, as lágrimas secas. "Se eu tivesse outra chance, eu nunca... nunca mais cometeria o mesmo erro." A escuridão a engoliu, o monitor cardíaco silenciou. Então, um grito agudo cortou o silêncio: "Socorro! Alguém me ajude!" Maria abriu os olhos, ofegante. Ela estava de volta. Jovem, forte, viva. Na montanha. E lá estava ele, João, pendurado precariamente na beira do penhasco. "Maria! Pelo amor de Deus, me ajude! Eu vou cair!" Na vida passada, ela o salvara. Agora, vendo o pânico em seus olhos, ela se lembrou da traição, do desprezo. A garota ingênua queria salvá-lo. A mulher de setenta anos gritava: "Não faça isso. Deixe-o ir. Salve a si mesma." "Por que eu deveria?", ela perguntou, a voz firme e letal, seus olhos encontrando os dele, não vendo mais o garoto que amava, mas o monstro que a devoraria. O passado estava reescrito.

Introdução

Aos setenta anos, Maria chafurdava na solidão gelada de um hospital.

O cheiro da morte era sufocante, misturado ao ranço de arrependimento e abandono.

Seus ossos doíam, um lembrete constante de uma vida de sacrifícios por João e pelos filhos que a descartaram como lixo.

A vaga na faculdade de medicina, o sonho de uma vida inteira, foi trocada por noites em claro cuidando de João após sua queda na montanha.

Ele prometeu amor eterno, mas essas promessas viraram pó.

Os filhos, criados com amor incondicional, a despacharam para aquele asilo disfarçado de hospital, roubando suas economias para luxos próprios.

A punhalada final veio de João, seu marido por cinquenta anos.

Ele veio pedir o divórcio, de mãos dadas com Sofia, sua "alma gêmea", a mesma mulher que ele sussurrava no delírio da febre.

"Ele disse que devia a si mesmo ser feliz em seus últimos anos. E a felicidade dele não a incluía."

Até os filhos o apoiaram, chamando-a de amarga, difícil, merecedora da solidão.

Naquele momento, um ódio frio e profundo floresceu em seu peito, por todos eles e, acima de tudo, por si mesma, por sua estupidez e sua vida desperdiçada.

"Se eu pudesse voltar...", ela sussurrou para o teto, as lágrimas secas.

"Se eu tivesse outra chance, eu nunca... nunca mais cometeria o mesmo erro."

A escuridão a engoliu, o monitor cardíaco silenciou.

Então, um grito agudo cortou o silêncio: "Socorro! Alguém me ajude!"

Maria abriu os olhos, ofegante.

Ela estava de volta.

Jovem, forte, viva.

Na montanha.

E lá estava ele, João, pendurado precariamente na beira do penhasco.

"Maria! Pelo amor de Deus, me ajude! Eu vou cair!"

Na vida passada, ela o salvara.

Agora, vendo o pânico em seus olhos, ela se lembrou da traição, do desprezo.

A garota ingênua queria salvá-lo.

A mulher de setenta anos gritava: "Não faça isso. Deixe-o ir. Salve a si mesma."

"Por que eu deveria?", ela perguntou, a voz firme e letal, seus olhos encontrando os dele, não vendo mais o garoto que amava, mas o monstro que a devoraria.

O passado estava reescrito.

Capítulo 1

Aos setenta anos, deitada numa cama de hospital fria e solitária, Maria sentia o cheiro da morte se aproximando, um odor rançoso de solidão e arrependimento que impregnava o ar ao seu redor. Seus ossos doíam, um eco constante dos anos de trabalho duro e sacrifício por uma família que a havia descartado como um objeto velho e inútil. Ela tinha dedicado cada gota de sua energia a João, seu marido, e aos filhos que ele lhe dera, mas no final, ficou sem nada.

Ela se lembrava vividamente de cada sacrifício, cada sonho abandonado. A vaga na faculdade de medicina que ela tanto almejava, trocada pela chance de cuidar de João depois que ele sofreu uma queda terrível na montanha. Ela passou noites em claro ao lado de sua cama, limpou suas feridas, o alimentou e o ajudou a se recuperar, enquanto via seu próprio futuro se esvair por entre os dedos. Ele prometeu amá-la para sempre, disse que ela era seu anjo salvador, mas as promessas se tornaram pó com o tempo.

Os filhos, criados com todo o seu amor, cresceram para se tornarem espelhos do egoísmo do pai. Quando ela envelheceu e sua utilidade diminuiu, eles a colocaram neste asilo disfarçado de hospital, com visitas cada vez mais raras e telefonemas cada vez mais curtos. O dinheiro que ela economizou durante toda a vida foi usado por eles para comprar carros novos e casas maiores, enquanto ela contava os centavos para comprar uma fruta.

A traição final veio como um soco no estômago, mesmo para seu coração já cansado. João, seu marido por quase cinquenta anos, aquele a quem ela salvara, apareceu um dia não para visitá-la, mas para pedir o divórcio. Ele segurava a mão de Sofia, sua "alma gêmea", uma mulher que ele conhecia há décadas, a mesma mulher cujo nome ele sussurrava em sonhos febris quando se recuperava da queda. Ele disse que devia a si mesmo ser feliz em seus últimos anos. E a felicidade dele não a incluía.

Os filhos apoiaram o pai. Disseram que ela era amarga, difícil, que merecia ficar sozinha. A dor daquelas palavras foi mais aguda do que qualquer doença física. Naquele momento, deitada na cama, Maria sentiu um ódio profundo e gelado florescer em seu peito, um ódio por João, por Sofia, pelos filhos e, acima de tudo, por si mesma, por sua estupidez e por sua vida desperdiçada.

"Se eu pudesse voltar...", ela sussurrou para o teto manchado, as lágrimas secas em seu rosto enrugado. "Se eu tivesse outra chance, eu nunca... nunca mais cometeria o mesmo erro."

Uma escuridão tomou conta de sua visão, e o som constante do monitor cardíaco ao lado de sua cama se tornou um zumbido distante, até silenciar por completo.

De repente, um grito agudo cortou o silêncio.

"Socorro! Alguém me ajude!"

Maria abriu os olhos, ofegante. O ar estava fresco e cheirava a terra molhada e pinheiros, não ao desinfetante do hospital. Ela estava de pé, suas pernas firmes e fortes, seu corpo jovem e cheio de energia. Ela olhou para as próprias mãos, lisas e sem manchas da idade. O sol da tarde filtrava por entre as árvores, aquecendo sua pele. Ela estava de volta à montanha.

Ela conhecia aquele lugar. Conhecia aquele cheiro, aquele som. Era o dia que mudou sua vida para sempre.

A poucos metros de distância, pendurado precariamente na beira de um pequeno penhasco, estava João. Ele tinha dezenove anos, o rosto pálido de pavor, as mãos escorregando na rocha úmida.

"Maria! Pelo amor de Deus, me ajude! Eu vou cair!"

Na sua vida passada, ela não hesitou. Correu, estendeu a mão, usou toda a sua força para puxá-lo para a segurança, machucando o próprio ombro no processo. Esse ato de heroísmo selou seu destino, acorrentando-a a ele por uma vida inteira de servidão disfarçada de amor. Ela o salvou, e em troca, ele destruiu cada parte dela.

Agora, olhando para ele, o pânico em seus olhos, ela se lembrou da dor, da traição, do abandono. Lembrou-se do rosto dele ao lado de Sofia, da frieza em seus olhos quando pediu o divórcio. Lembrou-se da solidão esmagadora de seus últimos dias.

Uma luta violenta aconteceu dentro dela. A garota ingênua que ela era queria correr e salvá-lo, o instinto de ajudar estava gravado em sua alma. Mas a mulher de setenta anos, a mulher que morreu sozinha e cheia de ódio, gritava em sua mente. Não faça isso. Deixe-o ir. Salve a si mesma.

Ele era o arquiteto de sua miséria. Sem ele, ela teria ido para a faculdade, teria se tornado médica, teria tido uma vida própria.

"Maria! O que você está esperando? Me ajude!" A voz dele estava cheia de uma urgência egoísta, a mesma urgência que ela ouviria por toda a vida.

A hesitação dela se transformou em uma calma fria e determinada. Ela deu um passo para trás, cruzando os braços. Seus olhos encontraram os dele, e pela primeira vez, ela não viu o garoto que amava, mas o monstro que a devoraria.

"Por que eu deveria?", ela perguntou, a voz firme, chocando a si mesma com sua própria força.

O som de passos apressados e vozes se aproximando a tirou de seu transe. Outras pessoas estavam vindo. Ela não precisava fazer nada, apenas se afastar. O destino, desta vez, não estaria em suas mãos. Ela não seria a salvadora nem a culpada. Seria apenas uma espectadora. Uma nova vida estava à sua frente, e ela não a sacrificaria por ele novamente. Nunca mais.

Capítulo 2

O som das vozes ficou mais alto, e logo um grupo de outros estudantes apareceu na trilha. Antes que Maria pudesse sequer processar a situação, um dos rapazes correu para a beira do penhasco e, com a ajuda de outro, puxou João de volta para a segurança. João caiu no chão, tremendo e ofegante, o rosto branco como cera.

Por um momento, ele apenas ficou ali, o peito subindo e descendo rapidamente. Então, seus olhos encontraram os de Maria, que o observava a uma distância segura, com uma expressão indecifrável. A gratidão que ela esperava ver, ou talvez o alívio, não estava lá. Em vez disso, uma fúria sombria tomou conta de suas feições.

Ele se levantou, cambaleando, e marchou em sua direção.

"Você ficou louca? Por que você não me ajudou? Você queria que eu morresse?"

As palavras dele a atingiram, mas não da forma que ele esperava. A acusação não trouxe culpa, mas uma clareza chocante. Ele não estava apenas falando sobre o acidente que acabara de acontecer. Ele estava falando de outra coisa, algo mais profundo. A raiva em sua voz era antiga, familiar. Era a raiva do homem de setenta anos que ela conhecera, não a do garoto de dezenove.

Ele também se lembrava.

A percepção a atingiu como um raio. João também havia renascido. O choque inicial deu lugar a uma raiva gelada. Então ele também se lembrava de tudo, de como a usou, a traiu e a abandonou, e mesmo assim, sua primeira reação foi exigir que ela o salvasse de novo? A audácia dele era inacreditável.

Um sorriso lento e sarcástico se formou nos lábios de Maria. A garota assustada e submissa de sua vida passada se foi. No lugar dela estava uma mulher que não tinha mais nada a perder e tudo a ganhar.

"Ajudar você?", ela repetiu, a voz calma e cortante. "Eu estava pensando. Por que eu deveria?"

João parou, pego de surpresa pela resposta dela. Ele esperava lágrimas, desculpas, talvez uma explicação confusa. Não esperava desafio.

"O que... o que você quer dizer com isso? Eu sou seu namorado! Eu quase morri!"

"Exatamente", disse Maria, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. "Você quase morreu. Mas não morreu, não é? Alguém te salvou. Parece que você não precisa de mim para isso, afinal."

A confusão no rosto dele se transformou em uma carranca feia. Ele a agarrou pelo braço, a mesma possessividade que ela tanto odiava.

"Não fale assim comigo, Maria. Você não é assim. Você vai ficar aqui comigo. Você precisa cuidar de mim. Eu estou em choque."

A hipocrisia era tão espessa que ela quase podia tocá-la. Ele queria que ela ficasse, que desempenhasse seu papel de cuidadora, de salvadora, o mesmo papel que a destruiu. Ele não a amava, ele a usava. Ele a via como uma ferramenta para seu próprio conforto.

Maria puxou o braço com força, libertando-se do aperto dele. O gesto o surpreendeu.

"Cuidar de você? Você parece bem para mim", disse ela, com um tom de escárnio. "Talvez um pouco assustado. Mas não se preocupe, João. O medo passa. Já o arrependimento... esse dura a vida inteira. Ou até duas, pelo visto."

Ela se virou, decidida a ir embora. Ela tinha um trem para pegar, uma vida para começar. A vaga na faculdade de medicina a esperava. Desta vez, nada a impediria.

"Onde você pensa que vai?", ele gritou, a voz cheia de pânico. "Não me deixe sozinho!"

Maria parou e olhou para ele por sobre o ombro.

"Eu vou para a capital. Vou para a faculdade. Sabe, aquela para a qual eu estudei tanto? Aquela oportunidade que eu perdi na última vez por sua causa."

A menção à vida passada o fez estremecer. A verdade estava exposta entre eles.

"Você não pode ir", ele disse, a voz mais baixa, quase um apelo desesperado. "E quanto a nós?"

Uma risada amarga escapou dos lábios de Maria.

"Nós? Não existe 'nós', João. Nunca existiu de verdade. Existia você, e a sua 'alma gêmea', Sofia. Eu era só a idiota útil no meio do caminho."

Ela se lembrou com uma clareza dolorosa de como, na vida anterior, a notícia de sua vaga na faculdade chegou na mesma semana do acidente dele. Ele e a família dele a convenceram de que o amor verdadeiro exigia sacrifício, que ela deveria adiar seus sonhos para cuidar dele. Enquanto isso, Sofia, que mal tinha nota para entrar em qualquer curso decente, conseguiu uma vaga em uma universidade local. Anos depois, Maria descobriu que João havia usado suas economias para ajudar a família de Sofia a "comprar" aquela vaga, embelezando a história como um ato de caridade de um amigo. A verdade era que ele sempre a amou, e sempre planejou descartar Maria quando ela não fosse mais conveniente.

"Essa vida", disse Maria, a voz cheia de uma determinação de aço, "será minha. E você não faz parte dela."

Sem esperar por uma resposta, ela se virou e começou a descer a montanha, deixando para trás um João chocado e furioso, o arquiteto de sua ruína passada, agora impotente para impedir sua ascensão. Cada passo para longe dele era um passo em direção à sua própria liberdade.

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