Eu estava morta, mas minha alma decidiu que a morte não era o fim, especialmente quando meu ex-marido, Pedro, parecia seguir em frente tão facilmente com sua nova amante, Juliana.
Flutuando invisível em sua mansão, testemunhei a frieza de Pedro, suas novas paixões e o desprezo por uma receita de sopa que um dia criei só para ele.
Mas a verdadeira punhalada foi descobrir que meu pequeno Miguel, nosso anjinho, não morreu em um acidente. Ele foi vítima de negligência orquestrada pela própria Juliana, sob as ordens de "Pedro", que ele assinou inconscientemente.
A dor da traição se transformou em fúria quando percebi que Pedro, o homem que ele me fez acreditar que me amava, não só falhou em me proteger, mas tinha orquestrado a ruína da minha família anos atrás.
Então, em um capricho cruel do destino, um ritual de "exorcismo" de Juliana deu errado, e minha alma, arrancada da mansão, encontrou um novo lar no corpo de Beatriz, uma jovem designer à beira da morte em um acidente de carro.
Agora, de volta à carne e osso, com meu antigo rosto surpreendentemente refletido no de Beatriz, eu tinha uma segunda chance para a vingança.
Pedro, cego pela culpa e pela semelhança, me acolheu como sua Sofia ressuscitada.
Juliana, a víbora que me envenenou e destruiu minha vida, pagaria o preço.
E Pedro, ah, Pedro... ele descobriria que a morte nem sempre é o fim, mas sim um novo começo para a justiça.
Eu não era mais a frágil Sofia; eu era Beatriz, e meu renascimento era a sua perdição.
Eu estava morta, mas minha alma não encontrou a paz, em vez disso, ficou presa a Pedro, meu ex-marido, como uma sombra invisível, incapaz de me afastar mais de três metros dele. Flutuando em seu escritório luxuoso no topo de um arranha-céu, eu o observava, o homem que um dia amei mais que a própria vida, agora um estranho de coração frio. A doença terminal me levou, mas a dor da traição me manteve aqui, acorrentada a ele por uma força que eu não compreendia.
Ele estava ao telefone, sua voz era a mesma, profunda e autoritária, discutindo a aquisição de um novo terreno bilionário, e sua expressão era focada, impiedosa, a mesma que ele usava para destruir seus concorrentes. A luz da cidade entrava pelas janelas panorâmicas, mas para mim, tudo era cinza. Eu via o mundo, mas não podia tocá-lo, não podia sentir o calor do sol ou o frio do vidro. Eu era uma espectadora do meu próprio luto, um luto que ninguém além de mim parecia sentir.
Minha mente voltou àquele dia chuvoso, o dia em que nosso pequeno Miguel, nosso anjinho, escorregou e caiu na piscina. Eu gritei por Pedro, mas ele estava em uma chamada importante, trancado em seu escritório, e quando finalmente saiu, era tarde demais. A dor me consumiu, mas o que me destruiu foi o olhar dele, um olhar de acusação, como se a culpa fosse minha. Depois disso, ele me enviou para uma casa de repouso isolada, um exílio disfarçado de cuidado, onde a minha doença, agravada pela tristeza, finalmente me venceu. Ele nunca me visitou.
Eu estendi minha mão etérea, tentando tocar seu ombro, querendo gritar que ele estava errado, que eu nunca faria mal ao nosso filho, mas meus dedos atravessaram seu terno caro sem encontrar resistência. Era uma tortura, estar tão perto e ao mesmo tempo tão infinitamente longe. A frustração e a impotência queimavam dentro de mim, uma chama fria em meu peito fantasmagórico.
Uma batida suave na porta interrompeu meus pensamentos. Ricardo, o assistente leal de Pedro, entrou segurando uma bandeja com uma tigela de sopa. "Senhor, sua sopa de galinha com ginseng. A sua mãe insistiu."
Pedro nem sequer olhou para ele, seus olhos fixos na tela do computador. "Leve embora. Eu já disse que não quero." Sua voz era cortante. Aquela sopa... era a receita que eu criei para ele, para quando ele trabalhava até tarde. Ver sua recusa foi como levar outra facada, mesmo sem um corpo para sentir a dor física.
Ricardo hesitou, a preocupação evidente em seu rosto. "Mas senhor, o senhor não comeu nada o dia todo..."
"Eu disse para levar embora!" Pedro rosnou, e Ricardo recuou, saindo silenciosamente do escritório. Ele sempre foi um bom homem, leal a Pedro, mas com um olhar de simpatia para mim que eu nunca esqueceria.
Pouco depois, a porta se abriu novamente, mas desta vez era Juliana, a nova parceira de Pedro, uma mulher cuja beleza era tão impressionante quanto sua ambição. Ela deslizou para dentro do escritório, seus saltos mal fazendo barulho no tapete felpudo. "Querido, ainda trabalhando?" ela murmurou, sua voz um mel venenoso. Ela se aproximou por trás dele, massageando seus ombros com uma intimidade que me revirou o estômago. Pedro relaxou sob seu toque, um contraste gritante com a forma como ele havia tratado Ricardo. Ela era a razão de tudo, a mulher que sussurrou veneno em seus ouvidos, que o virou contra mim e orquestrou minha ruína.
Mais tarde, do lado de fora do escritório, ouvi a conversa de duas secretárias. "Você viu? Ele nem perguntou sobre o funeral da senhora Sofia." A outra respondeu em voz baixa: "Ele a odiava. Desde o acidente com o filho, ele a culpou por tudo. A senhora Juliana é quem realmente o entende." O veneno delas confirmou minha solidão, meu fim trágico e esquecido, e acendeu a primeira faísca de um desejo frio e sombrio: vingança.
Como uma alma, eu não deveria sentir, mas a dor era mais real do que qualquer coisa que senti em vida. Era uma agonia constante, um eco da minha vida perdida, intensificada cada vez que via Juliana sorrindo para Pedro. Ela usava os vestidos que eu desenhei, sentava-se no meu lugar à mesa de jantar e dormia na minha cama. E Pedro permitia tudo, cego pela sua beleza e por suas mentiras.
Um dia, uma mulher alta e elegante entrou no escritório de Pedro sem ser anunciada. Era Gabriela, uma famosa dançarina que um dia também esteve nos braços de Pedro, uma de suas muitas amantes antes de Juliana consolidar seu poder. "Pedro," ela disse, sua voz carregada de raiva contida, "vim saber de Sofia. Onde ela está? Ouvi dizer que ela..."
Pedro levantou os olhos de seus papéis, sua expressão endurecendo. "Isso não é da sua conta, Gabriela."
"Não é da minha conta?" ela riu, um som amargo. "Aquela sua nova vadia, Juliana, armou para mim! Ela me acusou de vazar informações da sua empresa para a concorrência, e você acreditou nela! Você me descartou como se eu fosse lixo, mas eu sei que foi ela. Assim como sei que ela fez algo com Sofia."
Pedro se levantou, sua presença preenchendo a sala. "Já chega. Saia daqui antes que eu chame a segurança." Ele não queria ouvir a verdade, era mais fácil viver na ilusão que Juliana havia criado para ele. Gabriela o encarou por um longo momento, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas, e então se virou e saiu, batendo a porta atrás de si.
Mais tarde, escondida perto da copa, ouvi Ricardo falando ao telefone com Samuel, meu amigo de infância e o único que permaneceu leal a mim até o fim. "Foi a Juliana, Samuel, eu tenho certeza," dizia Ricardo, sua voz baixa e urgente. "Ela falsificou os e-mails para incriminar a Gabriela. O Pedro nem investigou, ele simplesmente acreditou nela. Ele está cego." Uma pausa. "Sim, eu sei. Eu também sinto muito pela Sofia. Ele a tratou tão mal... ela não merecia isso."
As palavras de Ricardo eram a confirmação que eu precisava. A teia de mentiras de Juliana era mais extensa do que eu imaginava. Ela não apenas me destruiu, mas eliminou todas as mulheres ao redor de Pedro que poderiam representar uma ameaça ao seu status.
Naquela noite, houve uma recepção na mansão. Vi Clara, outra ex-amante de Pedro, conhecida por sua gentileza e voz suave, tentando se aproximar dele. Ela era claramente outra substituta para mim, escolhida por alguma semelhança superficial. Pedro, no entanto, a ignorou completamente, seu rosto uma máscara de tédio e irritação enquanto outras mulheres tentavam chamar sua atenção. Ele parecia um rei entediado em sua corte de bajuladores.
Em um momento de silêncio, ele se virou para Ricardo e perguntou, quase como um pensamento tardio: "Como está a Sofia? A saúde dela melhorou?". Sua pergunta foi tão casual que me chocou.
Ricardo engoliu em seco. "Senhor, a condição dela... não é boa. O médico disse que ela está muito fraca."
Pedro apenas acenou com a cabeça, sua atenção já se desviando para um convidado de negócios que se aproximava. Ele não se importava. Para ele, eu já estava morta há muito tempo. A indiferença dele doeu mais do que o ódio. O ódio ao menos era uma paixão, um reconhecimento da minha existência. A indiferença era um vazio, um apagamento completo.