Ponto de vista de Samantha Hale.
Cinco anos atrás...
- Tira logo esse vestido ridículo - o alfa Sebastian Adalwolf ordenou com frieza.
Dei um passo atrás, bati contra a parede e segurei a minha barriga. A minha loba uivava de dor e confusão. O vínculo que nos unira estava sendo destruído pela mão do alfa que, supostamente, era o meu predestinado.
Eu tinha apenas vinte anos quando Sebastian me obrigou a assinar o contrato e, logo em seguida, me arrastou até a suíte de convidados. Ele sequer me levou aos aposentos principais; estava claro que pretendia demonstrar a todos, incluindo ao pai dele, que eu não valia nada.
A porta se fechou com um estrondo e senti que o meu destino estava selado ali mesmo. De repente, a aura de Sebastian se expandiu; era opressiva, sombria e me tirava o fôlego.
- O que você está fazendo? - perguntei, trêmula. - O contrato era apenas político!
- Esse contrato é só um documento para os velhos do Conselho - respondeu ele, aproximando-se devagar. - Você é a minha predestinada e deixa o meu lobo fora de controle com esse cheiro. Vou tomar o que me pertence por direito, mas nunca vou te amar - enfatizou duramente, avançando contra mim.
- Mas, estou grávida! - exclamei, temendo o pior.
Eu havia engravidado na noite em que acasalamos, antes do ritual. Meses atrás, Sebastian era amoroso, meigo... Mas, por algum motivo, ele se tornou totalmente indiferente depois de conversar com o pai e me obrigar a assinar aquele papel.
Seus dedos se fecharam na minha pele como algemas. Com um puxão brusco, ele rasgou o meu vestido até que caísse aos meus pés. Fiquei nua diante dele, exposta não apenas fisicamente, mas até a alma.
- Você não passa de um erro - rosnou, levantando-me antes de me jogar com brutalidade sobre a cama.
Atirou-se em cima de mim, imobilizando meus pulsos acima da minha cabeça com uma só mão. O beijo e a mordida que me deu foram dolorosos e cruéis. Sebastian usou todo o peso de seus músculos e a sua força de Alfa para sufocar os meus gritos.
- Não é forte o suficiente para ser a minha Luna, nem sequer serve para cumprir a profecia - sussurrou no meu ouvido, enquanto me possuía sem piedade. - Eu te desprezo, Samantha Hale!
Senti o vínculo se romper violentamente no meio daquele ato, ao mesmo tempo em que uma pontada aguda atravessou o meu ventre. Não era só o meu corpo que doía; meu coração se estilhaçava pela rejeição do meu Alfa enquanto ele me tomava de forma selvagem.
Ele terminou com um rosnado, como quem recuperava o controle. Afastou-se de mim e saltou da cama. Tremendo, fiquei olhando para suas costas musculosas enquanto ele vestia o roupão, lançando-me um último olhar de desprezo.
- Pronto, terminamos - disse com rispidez. - Finja que esta noite nunca aconteceu.
Enquanto me encolhia na cama, senti uma umidade quente escorrendo entre as minhas pernas. Naquela noite, sofri um aborto espontâneo. Meu Alfa não havia apenas me rejeitado; ele tinha matado a última faísca de esperança que eu carregava no ventre.
Saí daquela cama manchada de sangue e humilhação, e então, eu coloquei o que restava do meu vestido e andei pelos corredores silenciosos durante a madrugada.
- Por favor, me ajude - pedi a uma das ômegas que se aproximava. - Estou perdendo os meus filhotes.
Ela passou direto por mim como se eu fosse invisível.
Cambaleei enquanto tateava as paredes da casa. Por mais que pedisse ajuda, todos me ignoravam. Quando dei por mim, já estava entrando na floresta no meio daquela escuridão.
Ao amanhecer, o som dos uivos dos rastreadores começou a soar. Não tinha dúvidas de que estavam me caçando. Pelo visto, o pai de Sebastian temia que eu abrisse a boca sobre a manipulação da profecia.
Estava no limite, sangrando e completamente sem forças, quando avistei uma estrada remota, onde tinha um carro antigo que, aparentemente, foi abandonado por algum caçador.
Sentia que o frio e a hemorragia iam parar o meu coração, mas então a minha loba Selene, que sempre tinha permanecido calada, deixando-se pisotear, despertou com uma raiva que me queimava por dentro.
Foi a Selene quem me deu forças para arrancar a fiação do painel e fazer uma ligação direta. O motor rugiu. Em seguida, ela me impulsionou a pisar fundo no acelerador, saindo em alta velocidade bem no momento em que os primeiros rastreadores romperam a linha das árvores.
Não olhei pra trás. Quilômetros se passaram até que eu estivesse longe o suficiente deles, mas uma tontura fez com que meu corpo cedesse. A minha visão escureceu por um segundo até que perdi o controle da direção na curva.
Meu corpo sacolejou quando o carro capotou uma, duas, três vezes, despencando pelo barranco. O metal se retorcia contra as árvores.
"Reage, Samantha" internamente, minha loba mandava. "Anda, vamos sair logo daqui!"
- Não consigo! - Eu murmurei fracamente conforme sentia o calor das chamas que começavam a lamber o painel.
Ponto de vista de Sebastian.
Uma sensação estranha de dormência me incomodava.
Eu fiz o que era necessário pela alcateia. Samantha tinha assinado o contrato. O problema estava resolvido.
Então, por que o meu lobo arranhava o meu peito de forma tão incômoda?
Estava de pé no escritório do meu pai quando senti o perfume adocicado de Vanessa, que me sufocava, mas, por algum motivo, meus instintos me forçavam a aceitar a presença dela ali.
- Onde está a garota? - meu pai perguntou, quebrando o silêncio. - Os guardas disseram que o quarto de hóspedes está vazio.
- Ela já assinou o documento - respondi. - Não se preocupe.
Vanessa sorriu, aproximando-se para tocar o meu braço. O toque dela me dava náuseas, mas minha mente me obrigava a permanecer imóvel.
- Avisei que Samantha aceitaria o destino dela - ela ronronou, olhando para o meu pai.
Antes que meu pai pudesse responder, a porta do escritório foi aberta. O chefe dos rastreadores entrou com a respiração entrecortada.
- Como ousa entrar dessa maneira?
Ele se ajoelhou imediatamente, sem conseguir me olhar nos olhos.
- Alfa, nós temos um problema.
- Fale de uma vez - ordenei, sentindo uma pontada súbita.
- Nós seguimos a Samantha até a estrada velha. Mas ela pegou um carro abandonado. Houve uma perseguição, mas a estrada estava escorregadia. Quando alcançamos, vimos o veículo capotar várias vezes antes de despencar pelo barranco.
- Cadê ela? - Dei um passo à frente, e uma rachadura começou a se abrir na névoa que nublava a minha mente. - Tragam a Samantha de volta!
- Não há o que trazer, Alfa - o rastreador engoliu em seco. - O carro explodiu com o impacto contra as árvores. O fogo consumiu tudo. Lamento, mas ela está morta.
No mesmo instante, um estalo violento ecoou na minha mente. Era como se uma corrente de ferro estivesse sendo partida. A névoa cinzenta que nublava meus pensamentos se desfez num segundo, até que foi substituída por uma dor dilacerante.
"Idiota! Olhe o que você fez!" A voz de Kael rugiu na minha cabeça, tão alta e furiosa que me fez cair de joelhos, pressionando as mãos contra as têmporas. Seu rosnado interno rasgava a minha sanidade. "A culpa! Você matou a nossa fêmea e os nossos filhotes!"
- Cala a boca! - sussurrei para o vazio, enquanto as memórias reais voltavam numa enxurrada esmagadora.
"Eu tentei te avisar!" Kael continuava a me atacar internamente, arranhando as paredes da minha mente, uivando pelo luto. "A culpa é toda sua, Sebastian!"
Caí de joelhos no chão, segurando a cabeça enquanto o mundo ao meu redor parecia explodir.
- Sebastian! - Vanessa gritou, tentando me segurar. - Fique calmo, olhe para mim!
- Afaste-se! - rosnei, e a força da minha aura de Alfa a jogou contra a parede.
As barreiras da minha mente ruíram e as memórias reais vieram com força.
Lembrei-me do amor que sentia por Samantha. Do calor de seu corpo. E, logo em seguida, vi a monstruosidade que cometi horas atrás. Eu a machuquei de diversas formas. Ignorei os seus gritos, o seu choro desesperado... e o sangue nos lençóis.
Olhei para as minhas trêmulas, sentindo as lágrimas transbordarem dos meus olhos. Ergui o rosto e encarei o meu pai.
Ele vinha me aconselhando junto aos anciãos desde que me entregou o manto de Alfa, assim que completei a maioridade, quando foi obrigado pelas leis da nossa profecia.
- O que foi que eu fiz? - A minha voz saiu enrouquecida antes de se transformar num rugido que fez a mansão inteira tremer. - O QUE VOCÊS FIZERAM COMIGO?!
Ponto de vista de Samantha.
Com o rosto coberto de sangue e o braço quebrado, usei as últimas forças divinas que Selene me deu para me arrastar para fora da janela estraçalhada, caindo na lama da ribanceira.
Segundos depois, o veículo explodiu, formando uma bola de fogo.
Olhando para aquele inferno que consumia o carro, entendi o plano do destino. Minhas joias, os pedaços do meu vestido e o meu próprio sangue estavam impregnados nos destroços que eram consumidos pelas chamas.
Naquele dia, a Samantha Hale, que todos conheciam, morreu; mas renasci como Artemis Thorne, uma magnata forjada no fogo da perda e na promessa de uma vingança que destruiria todo o império do Alfa Sebastian.
Ponto de vista de Artemis.
Nova York nunca dorme, mas lá no alto, no topo do arranha-céu da Adalwolf Global, o silêncio imperava.
Eu não precisava de silêncio para me concentrar naquele ar carregado de ambição, o mesmo que se respirava em cada canto daqueles escritórios que, muito em breve, deixariam de ser de Sebastian Adalwolf.
Cinco anos se passaram desde que Samantha morreu. A mulher que contemplava a cidade a seus pés já não era aquela Luna derrotada que fugiu da humilhação.
Eu me tornei uma predadora e construí um império financeiro com o objetivo de desmantelar o do meu ex-marido.
- Senhora Thorne, a equipe legal já terminou a revisão final - a voz de Liam me tirou dos meus pensamentos.
Liam era o meu braço direito. Era o único humano que conhecia, mesmo que fosse um pedacinho do meu passado.
Eu me virei e fitei meu reflexo no espelho. Meu terno cinza-grafite estava impecável, igual ao meu coque.
- Alguma ponta solta, Liam?
Ele ajeitou os óculos antes de responder:
- Nenhuma. O acordo de fusão que apresentamos não tem nenhuma brecha. É uma jogada de mestre Ele vai ter que aceitar, ou vai ver a sua principal subsidiária afundar em menos de um mês. Estamos colocando a pressão certa.
Sorri de bocha fechada.
- A pressão sempre funciona, querido Liam, sobretudo quando a arrogância é o ponto fraco.
O Sebastian nunca esperaria uma jogada assim, tão silenciosa e tão inevitável. Ele jurava que só assinaríamos aquele contrato de fachada para acalmar os velhos do Conselho.
Aproximei-me da mesa e toquei o dossiê com o selo da Adalwolf Global.
Anos atrás, tinham me obrigado a assinar um papel ridículo numa mesa como essa. Um contrato sem alma que só servia para dar estabilidade a duas alcateias poderosas. Aquele documento me transformou na esposa invisível, a Luna sem voz, antes que o próprio Alfa me humilhasse e ferisse daquela maneira.
Meia hora depois, Liam e eu fomos no elevador privado em direção à cobertura da Torre Adalwolf. A reunião não era oficial, não estava em nenhuma agenda. Era uma emboscada para obrigá-lo a negociar antes da junta trimestral.
Quando as portas do elevador se abriram, olhei para o ambiente da cobertura, elegante e austera. Uma secretária pálida, que parecia saída de uma revista, olhou-me com uma mistura de surpresa e desconfiança.
- Tenho uma reunião urgente com o CEO Sebastian Adalwolf. Sou Artemis Thorne, da Thorne Acquisitions. Ele está me esperando - disse-lhe, usando um tom de voz baixo.
A moça hesitou, mas o sobrenome Thorne pesa muito neste mundo dos negócios.
- Um momento, por favor, senhora.
Mal se passou um minuto quando as portas se abriram.
E lá estava um homem alto, robusto, com aquela mandíbula quadrada e um rosto de quem nunca na vida perdeu uma batalha.
Cinco anos não tinham lhe tirado nada. Pelo contrário, os anos tinham afiado as suas feições e colocado mais frieza naqueles olhos dourados. Sua presença de Alfa era como um muro, uma força que eu recordava com uma amargura que me queimava.
- Thorne? Não tenho nada na minha agenda... - Ele resmungou.
Seus olhos se estreitaram enquanto escaneavam o meu rosto. Senti minha loba se agitar por dentro diante daquele reconhecimento antigo e selvagem.
Permaneci calma. Não me mexi nem um milímetro, apesar de tê-lo tão perto e de sentir o seu olhar em cima de mim. Tinha ensaiado minha postura mil vezes na frente do espelho para aquele momento.
- Alfa Adalwolf. É um prazer - disse-lhe, estendendo-lhe a mão com firmeza.
Ele ficou imóvel por um momento antes de me cumprimentar. Seus olhos desceram até a minha boca e voltaram a subir.
- Conheço esses olhos - murmurou num rosnado baixo, daqueles que só nós, os lobos, entendemos.
- É a primeira vez que nos vemos, senhor Adalwolf - respondi. - Aliás, muitas pessoas têm olhos azuis como os meus.
Ele soltou minha mão e se afastou para nos deixar entrar. Seu escritório era enorme, com um janelão que mostrava a cidade inteira.
- Sentem-se. - Sebastian apontou para a cadeira e olhou para o meu assistente. - Liam, certo? - falou com a mesma frialdade com que antes tinha se dirigido a mim.
Liam assentiu com um sorriso e estendeu a mão para cumprimentá-lo, mas Sebastian se recusou a cumprimentá-lo e olhou para mim.
Eu me acomodei no sofá de couro branco, cruzando as pernas sem nenhuma pressa, enquanto Liam colocava o dossiê sobre a mesa de centro de vidro.
- Estamos aqui pelo acordo de fusão. Sua equipe nos ignorou a semana toda, então pensei que uma visita pessoal fosse agilizar as coisas. Tempo é dinheiro, e soube que AlfaTech está perdendo muito.
Sebastian nem olhou para os papéis. Sentou-se na minha frente, recostando-se com uma calma que dava mais medo do que qualquer grito.
- A sua empresa é a minha maior concorrente em energia limpa. - Sebastian enfatizou. - Não faço negócios com quem tenta me arruinar.
- E quem disse que quero a sua ruína, Sebastian? Só busco uma sinergia. Minha subsidiária de energia eólica é a peça que falta na sua cadeia. Eu lhe dou a tecnologia e o senhor entra com a distribuição. É um trato justo.
Ele se inclinou um pouco para a frente e, por fim, vi que perdia um pouco o controle. Estava me analisando, procurando a fêmea submissa com quem tinha se casado.