Por três anos, meu marido Alfa me forçou a tomar inibidores, alegando que minha linhagem era "fraca" demais para gerar seu herdeiro sem que eu morresse no processo.
Eu acreditei nele. Engoli os comprimidos e as mentiras para ser sua Luna perfeita e submissa.
Mas durante o ataque de renegados no Baile da Vitória, a verdade finalmente me estilhaçou.
Um lobo selvagem saltou na direção da minha garganta. Gritei o nome de Bernardo, paralisada de pavor, sem minha loba para me proteger.
Ele olhou para mim. Depois, olhou para sua amante, Ariana, que estava encolhida atrás de uma mesa, com sua loba totalmente acessível.
Ele me deu as costas.
Ele derrubou o renegado que a atacava, me deixando exposta para ser dilacerada.
Se o Beta dele não tivesse intervindo no último segundo, eu teria morrido ali mesmo, no chão do salão de baile.
Quando a luta acabou, Bernardo nem sequer olhou na minha direção. Estava ocupado demais mimando um arranhão insignificante de Ariana, ignorando a esposa que quase fora massacrada.
Percebi então que os comprimidos não eram para a minha segurança. Ele estava me mantendo estéril e dócil até que pudesse me substituir por ela.
Subi as escadas, passando pelos destroços do meu casamento, e joguei os inibidores na privada.
Então, peguei um papel timbrado da alcateia e escrevi as palavras que destruiriam o mundo dele.
"Eu, Laura Menezes, rejeito você, Bernardo Monteiro, como meu companheiro."
Deixei o bilhete na mesa de cabeceira, peguei meu passaporte e saí noite adentro, sem nunca olhar para trás.
Capítulo 1
POV Laura
A luz da lua se espalhava pelo chão do quarto como água parada, fria e indiferente.
Sentei na beirada da cama, meus nós dos dedos brancos enquanto eu agarrava os lençóis de fino algodão egípcio.
Uma dor surda pulsava no meu baixo ventre. O Cio.
Não era o fogo consumidor prometido nas histórias antigas. Era uma dor doentia, pesada, sufocada sob camadas de contenção química. Olhei para o frasco de pílulas na mesa de cabeceira. *Inibidores.*
Bernardo os colocou na minha mão pela primeira vez há três anos.
"Sua linhagem é fraca demais, Laura", ele dissera, sua voz gotejando aquela autoridade de Alfa que fazia meus joelhos tremerem e minha vontade desmoronar. "Se eu te atar, se meu sangue de Alfa se misturar com o seu durante o Cio, isso pode te matar. Tome isso. Para sua própria segurança."
Eu engoli a mentira junto com o comprimido.
Eu era a Luna da Alcateia da Serra de Prata. Era um título que impunha respeito dos territórios vizinhos, um título que significava que eu era a mãe da alcateia. Mas dentro destas paredes? Eu era um fantasma. Eu era a guardiã dos arquivos, a organizadora de festivais, o rosto sorridente ao lado do Alfa.
Mas eu não era marcada.
Três anos de casamento, e Bernardo nunca havia cravado os dentes na curva do meu pescoço. Ele nunca havia completado o laço.
Levantei-me, alisando a seda azul-gelo do meu vestido. Hoje à noite era o Baile da Vitória. Eu tinha que descer. Eu tinha que sorrir.
O salão de baile era sufocante. O cheiro de champanhe e carne assada se misturava com o almíscar pesado dos lobos se transformando. Fiquei na sombra de um pilar, meus olhos varrendo a multidão.
Lá estava ele.
Bernardo Monteiro. Meu companheiro. Meu Alfa.
Ele estava perto do centro do salão, segurando um copo de líquido âmbar. Parecia magnífico, seus ombros largos, sua mandíbula afiada o suficiente para cortar vidro. Mas ele não estava me procurando.
Seus olhos estavam fixos em Ariana Dias.
Ariana era filha do nosso Gama. Ela era pequena, com cabelos escuros em cascata e uma risada que soava como sinos de vento. Ela tocou o braço de Bernardo, seus dedos demorando em seu bíceps.
Inspirei bruscamente.
Meus sentidos, embora amortecidos pelos inibidores, ainda captaram. Por baixo do cheiro de Bernardo - que geralmente cheirava a chuva e pinho da floresta - havia algo mais. Algo doce. enjoativo. Como baunilha e podridão.
Era o cheiro dela. Estava por todo ele.
Fechei os olhos, memórias da nossa infância inundando minha mente. Brincávamos no riacho. Ele me prometeu o mundo. Ele me disse que éramos Companheiros de Alma. Eu acreditei nele. Acreditei tanto que aceitei um casamento sem marca, uma cama sem calor, um título sem poder. Aceitei ser uma Luna estéril porque ele disse que queria me proteger.
Abri os olhos e os vi se movendo em direção à varanda.
Eu os segui, mantendo distância, deslizando para o nicho perto das pesadas cortinas de veludo. Eu não queria ver. Eu só queria estar errada.
Estendi minha mente, tentando encontrar o fio do nosso laço. Estava fino, desgastado como uma corda velha. Forcei a barreira mental que ele geralmente mantinha.
*...ela é tão sem graça, Marcos.*
A voz de Bernardo ecoou no Elo Mental. A projeção não era para mim. Ele estava falando com seu Beta, Marcos, mas não a havia protegido adequadamente.
Minha respiração falhou.
*Ela é uma boa administradora*, a voz de Marcos respondeu, hesitante. *Ela mantém a alcateia funcionando.*
*Uma alcateia precisa de herdeiros, Marcos*, Bernardo zombou. Eu podia ouvir o tilintar de vidro em sua mente. *Laura é fraca demais. Ela é mansa demais. Eu preciso de uma Luna de verdade. Alguém com fogo. Ariana... ela está pronta. A Deusa da Lua pode ter cometido um erro com a Laura, mas eu posso consertar isso. Hoje à noite, sob a lua cheia, vou garantir que a alcateia tenha o herdeiro que merece.*
O mundo girou em seu eixo.
Ele não estava me protegendo de seu sangue de Alfa. Ele estava me mantendo estéril. Ele estava me mantendo dócil, pronta para ser descartada.
Minha Loba Interior, geralmente uma coisa quieta e adormecida, soltou um gemido baixo e lúgubre. Ainda não era raiva. Era o som de um coração se partindo.
Dei um passo para trás, com a intenção de fugir para o meu quarto, mas uma sirene estilhaçou o ar.
*RENEGADOS!*
O grito mental rasgou o Elo Mental.
O salão de baile explodiu em caos. Vidros se estilhaçaram. Gritos irromperam. As pesadas portas duplas se abriram, e lobos - desfigurados, selvagens, cheirando a enxofre e loucura - entraram.
"Bernardo!" gritei, minha voz humana falhando.
Eu o vi. Ele estava do outro lado do salão, se transformando. Suas roupas se rasgaram enquanto ele se transformava em um enorme lobo negro como a meia-noite.
Um renegado, espumando pela boca, avançou em minha direção. Eu congelei. Eu não tinha minha loba. Os inibidores tornavam a transformação quase impossível.
Olhei para Bernardo. Sua enorme cabeça de lobo se virou. Ele me viu. Ele viu o renegado no ar, garras estendidas em direção à minha garganta.
Então, ele olhou para a esquerda.
Ariana estava encolhida atrás de uma mesa, um renegado a circulando. Ela tinha sua loba. Ela podia lutar. Eu não podia.
Bernardo não hesitou.
Ele me deu as costas.
Ele se lançou contra o renegado que atacava Ariana, derrubando-o no chão, me deixando exposta.
O tempo não apenas desacelerou; ele se cristalizou. Observei os dentes amarelos do renegado estalarem a centímetros do meu rosto. Senti seu hálito podre. Percebi, com uma clareza mais fria que a lua, que eu ia morrer. E meu companheiro escolheu salvar sua amante.
Um borrão de pelo marrom se chocou contra o renegado, jogando-o para longe de mim.
Era Marcos.
Ele arrancou a garganta do renegado com um único movimento e voltou à forma humana, nu e ensanguentado, respirando com dificuldade. Ele olhou para mim, seus olhos arregalados de horror e pena.
"Luna... você está bem?"
Olhei por cima dele. Bernardo estava de pé sobre Ariana, roçando o focinho em seu pescoço, verificando se ela tinha arranhões. Ele nem sequer olhou para trás para ver se eu estava viva.
Minha Loba Interior silenciou. O gemido parou. A esperança parou.
"Estou bem, Marcos", eu disse. Minha voz estava firme. Aterradoramente firme. "Não se desculpe por ele."
Virei-me e saí do salão de baile. Caminhei pelo sangue e pelo vidro. Subi a grande escadaria.
Fui para o nosso quarto.
Tirei o colar de pedra da lua do meu pescoço - o símbolo da Luna. Coloquei-o na mesa de cabeceira.
Fui até o armário e peguei uma pequena bolsa escondida atrás dos casacos de inverno. Não coloquei roupas. Coloquei meu passaporte, meu caderno de esboços e um maço de dinheiro que eu havia economizado vendendo minha arte online sob um pseudônimo. Eu estava economizando para um dia chuvoso, nunca admitindo para mim mesma que a tempestade já estava aqui.
Fui ao banheiro e joguei os inibidores na privada. Dei a descarga.
Então, peguei o documento.
Era um "Acordo de Dissolução de Companheirismo" genérico que o pai de Bernardo, o antigo Alfa, havia elaborado anos atrás "para o caso de". Bernardo não sabia que eu tinha uma cópia.
Eu assinei.
Então peguei um pedaço de papel timbrado da Alcateia. Peguei uma caneta.
*Eu, Laura Menezes, rejeito você, Bernardo Monteiro, como meu companheiro e Alfa.*
Ainda não senti o rompimento do laço. Ele tinha que aceitar, ou eu tinha que estar longe o suficiente para que a distância o rompesse naturalmente.
Coloquei o bilhete em cima do colar.
Saí do quarto. Saí da casa da Alcateia. Saí da minha vida. O caos do ataque estava diminuindo, os guerreiros cuidando dos feridos. Ninguém olhou para a Luna deslizando para as sombras.
Disquei um número em um celular descartável.
"Corvo Negro", uma voz distorcida atendeu.
"É a Laura", eu disse. "Preciso da extração. Agora. E preciso que meu cheiro seja apagado."
"Destino?"
"Paris", sussurrei. "Leve-me para Paris."
Ao entrar no sedã preto que esperava na borda do território, olhei para trás uma última vez. A lua estava alta e cheia, indiferente à minha dor.
Bernardo, você acha que vai gerar um herdeiro esta noite. Mas você acabou de perder sua esposa.
Minha Loba Interior se mexeu. Sentia-se fraca, mas pela primeira vez em três anos, sentia-se livre.
POV Bernardo
O sol da manhã parecia menos uma saudação e mais uma dor de cabeça prestes a acontecer.
"Relatório", rosnei, pressionando a base das minhas mãos nas minhas têmporas latejantes. A limpeza do ataque dos Renegados era um pesadelo. Três guerreiros feridos, o salão de baile destruído.
"Nós garantimos o perímetro, Alfa", disse Marcos. Ele parecia cansado. Pior, ele parecia... decepcionado. Ele estava me olhando daquele jeito desde a noite passada. "Mas temos um problema."
"O quê?"
"A Luna. Ela não está no quarto dela."
Acenei com a mão, desdenhoso. "Ela provavelmente está escondida na biblioteca. Ou no jardim. Você sabe como a Laura é. Ela não aguenta violência. Provavelmente está tremendo em algum canto, esperando que eu vá acalmá-la."
"Bernardo", disse Marcos, sua voz abandonando o título honorífico, afiada como um aviso. "Você precisa ir lá em cima."
Franzi a testa com o tom dele. Subi as escadas, a irritação borbulhando sob minha pele como magma. Eu não tinha tempo para a fragilidade de Laura hoje. Eu tinha uma alcateia para liderar. Eu tinha que ver como Ariana estava - ela tinha sido tão corajosa na noite passada.
Abri a porta do quarto.
Estava vazio. Não apenas desprovido de pessoas, mas vazio de *vida*. O ar parecia viciado, imperturbável, como se ninguém o tivesse respirado por horas.
Caminhei até a mesa de cabeceira.
O colar de pedra da lua estava lá, enrolado como uma cobra adormecida. Ao lado, um pedaço de papel.
Eu li as palavras.
*Eu, Laura Menezes, rejeito você...*
Uma dor aguda, súbita e violenta como uma agulha cravada no meu coração, atingiu meu peito. Instintivamente, procurei pelo Elo Mental.
*Laura?*
Nada. Apenas estática. Um silêncio oco e ecoante onde sua presença quieta costumava estar.
Bufei, forçando a sensação para baixo, e joguei a carta de volta na mesa.
"Dramática", murmurei. "Ela está tentando provar um ponto porque ajudei Ariana primeiro. Ela sabe que Ariana é filha de um Gama e uma guerreira; ela estava no meio da luta. Laura estava segura no canto."
"Ela quase morreu, Bernardo", disse Marcos da porta. "Um renegado estava a centímetros da garganta dela. Você deu as costas."
"Eu sabia que você estava lá", menti. As palavras tinham gosto de cinzas. Eu não sabia. Eu apenas... reagi. Ariana estava gritando. Laura estava em silêncio. Eu sempre ia para o barulho.
"Embale as coisas dela", ordenei, virando-me de costas para a cama vazia. "Leve-as para o depósito. Se ela quer fugir e bancar a vítima, que vá. Ela voltará quando ficar sem dinheiro ou com medo do escuro. Ela não consegue sobreviver lá fora. Ela é fraca."
"E os aposentos da Luna?" perguntou Marcos.
"Dê-os para Ariana", eu disse. "Para a recuperação dela. Ela precisa do espaço."
*
POV Laura
O trem balançava ritmicamente, uma canção de ninar de aço e movimento.
Havíamos cruzado a fronteira horas atrás. A atração física em direção à Alcateia da Serra de Prata estava desaparecendo, substituída por uma dor surda que era surpreendentemente administrável - como um hematoma começando a cicatrizar.
Olhei pela janela para a paisagem francesa embaçada.
Meu corpo parecia... estranho. Quente. Frio. Vibrando. Sem os inibidores da alcateia suprimindo meu sistema, minha biologia estava despertando. Era aterrorizante. Era emocionante.
Abri o folheto de viagem para Paris. *A Cidade Luz.* Parecia clichê, mas agora, eu precisava de luz. Eu precisava estar em um lugar onde as sombras da alcateia não pudessem me alcançar.
"Mademoiselle?"
Olhei para cima. O condutor estava verificando os bilhetes.
"Paris, Gare de Lyon", ele disse, picotando meu bilhete.
"Merci", sussurrei.
Fechei os olhos. *Bernardo acha que é meu dono*, pensei. *Ele acha que amor é controle. Ele acha que segurança é uma gaiola.*
Respirei fundo. Pela primeira vez, o ar não cheirava a ele, a cedro e chuva. Cheirava a café, estofado velho e diesel. Cheirava a liberdade.
*
Dois Dias Depois
Eu estava no centro de um pequeno apartamento no 18º arrondissement. Era minúsculo, caro e perfeito.
Meu celular vibrou. Era uma notificação da página de mídia social da Alcateia. Eu ainda não os tinha bloqueado. Uma parte masoquista de mim queria ver.
Uma foto.
Ariana, de pé no *meu* quarto. Ela segurava uma taça de vinho, encostada na penteadeira onde eu costumava escovar meu cabelo. A legenda dizia: *Novos começos. Curando-se com o Alfa.*
Ao fundo, eu podia ver a parede. Minhas pinturas haviam sumido.
Eu passei anos pintando aquelas telas. Paisagens do território. Retratos dos anciãos. Elas haviam sido apagadas. Substituídas por um espelho grande e cafona que refletia o triunfo de Ariana.
Ela me apagou.
Eu não chorei. Em vez disso, uma pedra fria e dura se instalou no fundo do meu estômago.
Peguei meu casaco e saí. Eu precisava fazer alguma coisa. Eu precisava expurgar o último resquício deles da minha vida.
Encontrei um pequeno brechó de caridade na rua. Tirei a pequena bolsa de veludo do meu bolso. Dentro havia uma pulseira de diamantes que Bernardo me dera no nosso primeiro aniversário. Estava fria e pesada na minha palma.
"Quero doar isso", disse à mulher atrás do balcão em um francês quebrado. "Para o fundo dos artistas."
Ela olhou para os diamantes, os olhos se arregalando. "Tem certeza, Madame?"
"Sim", eu disse. "Dá azar."
Saí da loja, sentindo-me mais leve, como se tivesse largado um fardo pesado.
Fui em direção à estação de trem para comprar alguns suprimentos. A multidão era densa, um rio de corpos fluindo em todas as direções. Fui empurrada de um lado para o outro.
De repente, uma mão agarrou meu cotovelo para me firmar.
"Cuidado."
A voz era profunda, ressoando no meu peito como a corda de um violoncelo tocada em um quarto escuro.
Faíscas.
Faíscas literais, elétricas, subiram pelo meu braço onde sua pele tocou meu casaco. A sensação foi tão intensa que eu ofeguei, puxando meu braço para trás como se estivesse queimada.
Olhei para cima.
Ele era alto. Cabelo escuro, despenteado de um jeito que parecia natural, mas deliberado. Olhos da cor do Oceano Atlântico - um azul profundo e tempestuoso.
Ele olhou para mim e, por um segundo, suas pupilas dilataram. Ele inspirou bruscamente.
*Companheira?*
Minha Loba Interior acordou. Ela não gemeu. Ela rosnou. *Meu?*
Não. Não, não, não.
Dei um passo para trás, o terror inundando minhas veias mais frio que gelo. Eu não podia fazer isso de novo. Eu não podia ser aprisionada pela biologia novamente.
"Desculpe", gaguejei.
O homem piscou, balançando a cabeça como se estivesse acordando de um sonho. Ele sorriu, e era um sorriso gentil e torto. Não o sorriso arrogante de um Alfa.
"Culpa minha", ele disse. "Você está bem? Parece... assustada."
"Eu tenho que ir", eu disse.
Virei-me e corri. Não olhei para trás. Não o vi me observando, levantando a mão para encarar os próprios dedos onde havia me tocado.
Corri até meus pulmões arderem. Corri até ter certeza de que estava sozinha.
Eu não estava pronta para uma segunda chance. Eu ainda estava sangrando da primeira.
POV Laura
O céu sobre Paris era um cinza plano e inflexível, um espelho perfeito para a agitação em meu estômago.
Eu estava sentada na apertada sala de descanso da pequena galeria de arte onde havia encontrado um emprego varrendo o chão e organizando o estoque. Não era glamoroso, longe da vida que eu conhecia, mas era meu.
Peguei meu celular. Eu sabia que não deveria olhar. Era como cutucar uma ferida infeccionada, mas a compulsão era mais forte que minha vontade.
O vídeo era tendência na rede social dos lobisomens. *Gala de Caridade da Serra de Prata.*
Enfiei meus fones de ouvido.
A câmera passeou pelo salão de baile - o mesmo salão onde eu quase morri semanas atrás. Estava restaurado, brilhando sob os lustres de cristal, apagando qualquer vestígio da minha dor.
Ariana estava sentada na mesa principal, exatamente onde a Luna deveria se sentar. Ela segurava um microfone, suas bochechas coradas pelo vinho. Parecia presunçosa, se exibindo como um gato que pegou o creme.
"Ah, parem com isso", ela riu, acenando para alguém fora da câmera. "Todo mundo fica perguntando como Bernardo e eu somos tão próximos."
Ela se inclinou, baixando a voz conspiratoriamente, como se estivesse compartilhando um segredo com o mundo inteiro.
"A verdade é", disse ela, "que estamos conectados desde crianças. Antes *dela* aparecer."
Meu estômago despencou como uma pedra.
"Sabe aquele colar de couro que o Bernardo usa?" Ariana continuou, enrolando uma mecha de cabelo no dedo. "Aquele que ele diz ser uma herança de família? Fui eu que fiz para ele quando tínhamos dezesseis anos. Ele me prometeu naquela época que nunca o tiraria. E não tirou."
Eu congelei. O ar saiu dos meus pulmões.
O cordão de couro. Bernardo o usava todos os dias. Ele me disse que era do avô dele. Ele me disse que era um símbolo de proteção do Alfa. Eu o toquei, o reverenciei, tracei o couro gasto com as pontas dos dedos enquanto ele dormia.
Era um símbolo de amor de sua amante.
Era uma coleira.
Corri para o pequeno banheiro nos fundos da galeria, mal conseguindo chegar à pia antes de ter ânsia de vômito. Nada saiu além de bile e amargura.
Tudo era uma mentira. Não apenas o casamento. A amizade. A história.
Ele não apenas me negligenciou. Ele me zombou ativamente todos os dias, usando a promessa dela em volta do pescoço enquanto dormia na minha cama.
Joguei água fria no rosto. Meu reflexo parecia pálido, assombrado. Mas meus olhos... meus olhos estavam mudando. O avelã suave estava se transformando, engolido por uma maré crescente de prata derretida.
Minha loba estava com raiva. Ela estava arranhando as paredes da minha mente.
Voltei ao vídeo. Eu tinha que ver tudo. Tinha que beber o veneno até a última gota.
"Bernardo é tão leal", arrulhou Ariana. "Ele só se casou com a Laura porque o pai dele forçou a aliança. Ele me dizia todas as noites: 'Apenas espere, Ariana. Apenas espere até que a alcateia esteja estável. Então poderemos ficar juntos de verdade.'"
A câmera mudou. Bernardo entrou em cena.
Ele colocou a mão no ombro de Ariana. Ele olhou para ela com uma suavidade que eu nunca, jamais, vi dirigida a mim. Era um olhar de adoração.
"Ariana", ele repreendeu gentilmente, mas estava sorrindo. "Você está contando segredos."
Ele não negou.
Ele não disse: "Isso não é verdade." Ele não defendeu minha honra. Ele não defendeu nosso casamento. Ele apenas sorriu para ela como se ela fosse um cachorrinho travesso.
"O que quer que te faça feliz", ele disse, beijando o topo da cabeça dela.
Desliguei o celular. A tela ficou preta e, com ela, o último resquício da minha esperança.
A dor que me pesava, o cobertor pesado e úmido de tristeza, de repente evaporou.
Em seu lugar havia fogo. Fogo abrasador e purificador.
Eu não estava mais triste. Eu estava enojada. Senti-me suja por tê-lo amado. Senti-me tola por cada lágrima que derramei por um homem que estava brincando de casinha com outra mulher o tempo todo.
"Laura?"
Olhei para cima. Meu chefe, Monsieur Dubois, estava parado na porta, uma vassoura na mão. "Você está bem? Parece... intensa."
"Estou bem, Monsieur", eu disse. Minha voz soava diferente. Mais profunda. Ressonante. Vibrava no meu peito. "Estou apenas percebendo que li o livro errado a vida inteira."
"Perdão?"
"Cansei de ser a vítima", eu disse.
Peguei meu celular novamente. Abri meu e-mail. Redigi uma mensagem para o Conselho da Alcateia - não para Bernardo, mas para os Anciãos. Meus polegares se moveram com precisão letal.
*Assunto: Renúncia Formal e Abdicação.*
*Ao Conselho da Serra de Prata,*
*Com efeito imediato, abdico do cargo de Luna. Confirmo que o laço de companheirismo entre mim e o Alfa Bernardo Monteiro foi rejeitado por mim devido à infidelidade e falha no dever. Não reivindico pensão. Não reivindico laços. Deixo-o para sua verdadeira companheira e para as mentiras sobre as quais construíram sua fundação.*
*Atenciosamente,*
*Laura Menezes.*
Apertei enviar. A ação pareceu como jogar um fósforo na gasolina.
Caminhei até a janela e olhei para a Torre Eiffel perfurando as nuvens.
Minha Loba Interior se levantou dentro da minha mente. Ela era enorme. Ela era branca como a neve. E ela jogou a cabeça para trás e uivou, um som de raiva pura e inalterada que ecoou silenciosamente por toda a minha alma.
*Deixe que queimem*, ela sussurrou.