Trinta segundos. Era o tempo exato que Jinx tinha antes que o firewall secundário reiniciasse e fritasse o sistema de segurança da Torre Vale, transformando a cobertura em uma fortaleza elétrica.
A chuva castigava o vidro panorâmico do prédio. Um caos sonoro perfeito para mascarar o zumbido do cortador a laser. Jinx ajustou a máscara de visão noturna. O vidro cedeu. Com um empurrão suave, ela deslizou para dentro como fumaça preta, as botas táticas aterrissando no tapete persa sem produzir um único decibel de ruído.
O ar do ambiente era gelado e o local tinha cheiro de pura riqueza.
Jinx ergueu os óculos, revelando olhos castanhos amendoados que brilhavam com a frieza de uma profissional. O reflexo no vidro mostrou brevemente seu rosto: a pele pálida e as sardas sobre o nariz - que geralmente lhe davam um ar de inocência juvenil -, agora estavam escondidas pelas sombras do capuz tático.
Ela consultou o mapa holográfico projetado na tela de seu relógio de pulso. O cofre com o chip "Coração de Titânio" deveria estar atrás da parede falsa no corredor leste. Valor estimado: três bilhões de dólares. Era a sua aposentadoria.
- Fácil demais - sussurrou ela, sentindo aquela coceira na nuca que sempre precedia o desastre. - Cadê a pegadinha?
Ela avançou pelo corredor, ignorando vasos da dinastia Ming que pagariam o PIB de um país pequeno. Jinx não era gananciosa; ela era cirúrgica. Ao chegar à porta indicada pelo hacker, seus dedos ágeis digitaram o código.
Uma luz verde piscou.
Click.
Ela empurrou a porta, esperando ver lasers vermelhos e placas de titânio. Em vez disso, deu de cara com nuvens pintadas à mão nas paredes, um móbile de planetas girando lentamente e o cheiro inconfundível de talco de bebê.
Jinx travou, o sangue gelando.
- Merda. A planta estava errada.
Ela girou os calcanhares, pronta para abortar. A regra número um do seu código era clara: Se o cenário mudou? Suma. Ela não era paga para improvisar em quartos de crianças.
Mas foi aí que ela ouviu.
Ghhhk.
Um som úmido, estrangulado. O som desesperador de ar sendo negado a um pulmão pequeno.
Jinx olhou para a cama no centro do quarto. Havia uma criança ali. Uma menina de uns quatro anos, sentada, agarrando a própria garganta com as mãozinhas trêmulas. O rosto dela estava mudando rapidamente para um tom aterrorizante de roxo.
- Ah, não. Nem fodendo.
Jinx jogou a mochila de trinta mil dólares no chão como se fosse lixo. O "modo ladra" desligou e o instinto humano assumiu o controle.
Ela correu até a cama. A menina estava em pânico absoluto, os olhos arregalados, a boca aberta num grito mudo. Jinx girou a criança, posicionando-se atrás dela. O corpo da menina era frágil demais contra o peito revestido de kevlar de Jinx.
- Cospe isso, vamos! - Jinx rosnou, fechando o punho sobre a boca do estômago da pequena e puxando para cima com força.
Uma vez. Nada. A menina estava ficando mole nos braços dela.
Não morre no meu turno, garota. Não ouse.
A segunda compressão foi mais forte. Jinx sentiu uma costela estalar sob a pressão, mas não parou. Era melhor uma costela quebrada do que um caixão branco minúsculo.
Na terceira vez, uma peça de brinquedo de montar vermelha voou da boca da menina e bateu no assoalho com um clack seco.
A criança puxou o ar com um chiado horrível, parecendo um aspirador entupido, e logo depois começou a chorar. Um choro alto, rouco e, o mais importante, vivo. Jinx caiu de joelhos ao lado da cama, as pernas subitamente virando gelatina, e puxou a menina para seu colo.
- Tá tudo bem... já passou - a voz dela saiu trêmula, a mão enluvada alisando o cabelo suado da criança.
BAAM!
A porta do quarto foi arrombada com violência, batendo contra a parede. A luz do corredor inundou o quarto, cegando Jinx momentaneamente.
- LARGUE ELA!
A voz era como um trovão. Jinx piscou, tentando ajustar a visão, e seu sangue parou ao ver a figura na porta.
Aeron Vale.
Ele era muito maior ao vivo do que nas capas da Forbes. Ele vestia apenas uma calça de pijama de seda preta, o peito nu e largo subindo e descendo em uma respiração raivosa. Mas o que prendeu a atenção de Jinx não foi o abdômen definido ou a cicatriz fina acima da sobrancelha direita que gritava "perigo". Foi a pistola 9mm prateada na mão dele, apontada diretamente para a testa dela.
Os olhos castanhos esverdeados dele eram gelo puro. Não havia humanidade alguma ali. Apenas um pai vendo uma figura vestida de preto tático segurando sua filha no escuro.
- Se você mover um músculo, eu estouro seus miolos - Aeron disse. A voz dele estava assustadoramente calma.
Jinx começou a levantar as mãos devagar. Ela sabia exatamente como aquilo parecia. Uma assassina pega no flagra.
- Eu não ia machucá-la - Jinx disse, a voz firme, embora o coração estivesse batendo na garganta. - Ela estava engasgada. Eu a salvei.
- Cala a boca. - Aeron destravou a arma com um clique metálico. - Afaste-se da minha filha. AGORA!
Jinx fez menção de se levantar, mas sentiu um peso na sua perna direita.
Era a menina. Ela não havia corrido para o pai. O rosto dela estava enterrado na perna de Jinx, os braços pequenos agarrados à coxa da ladra como se sua vida dependesse disso. Ela soluçava e se recusava a soltar.
Aeron vacilou. A arma em sua mão tremeu por uma fração de segundo. Uma dor crua, de ciúmes e confusão, brilhou nos olhos do CEO. A própria filha preferia o abraço de uma invasora mascarada do que o abraço dele.
- Luna? - Aeron chamou, a voz falhando. - Vem pro papai.
A menina negou com a cabeça e apertou mais a perna de Jinx.
Jinx viu a abertura para escapar. Era sujo e baixo manipular a ferida emocional de um pai, mas ela tinha um chip de três bilhões para roubar e uma vida para salvar: a dela mesma. Ela precisava de uma mentira, e precisava ser a melhor mentira de sua vida.
Ela olhou nos olhos frios de Aeron Vale, deixou os ombros caírem numa postura submissa e ativou sua arma secreta: a voz doce.
- Por favor, Sr. Vale, não atire - ela disse, injetando um tremor calculado na fala. - A agência mandou avisar que eu chegaria tarde por causa da tempestade. A porta da frente estava trancada... Eu entrei pela janela de serviço.
Aeron franziu a testa, a arma ainda travada no rosto dela.
- Quem diabos é você?
Jinx engoliu em seco e sorriu, nervosa.
- Eu sou Sarah. A nova babá.
[FIM DO CAPÍTULO]
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Nota da autora: MDS! O Aeron não hesitou um segundo em apontar a arma para a cabeça dela. Esse homem é um pai protetor ou um psicopata funcional? 🚩 E a Jinx teve a audácia de mentir olhando no cano da 9mm! Vocês teriam essa frieza ou teriam desmaiado ali mesmo?
Quero ver teorias: O Aeron acreditou nela ou só baixou a arma por causa da Luna?
Comentem "GATILHO" 🔫 se vocês sentiram a tensão! Adicionem o livro na biblioteca agora, porque o interrogatório vai começar e eu não me responsabilizo pelos danos cardíacos!
Ravenna V.
- Babá? - Aeron repetiu a palavra como se fosse um insulto.
O cano da 9mm continuou pressionado contra a testa de Jinx, frio e implacável.
- Você invade minha casa, burla um sistema de segurança militar vestida como uma terrorista e espera que eu acredite que veio trocar fraldas?
Jinx sentiu o suor escorrer pelas costas, encharcando o traje tático sob o kevlar. A pequena Luna ainda soluçava contra sua perna, usando o tecido grosso da calça de Jinx como escudo contra o próprio pai.
Na orelha direita de Jinx, um zumbido estático surgiu. A voz de Bit, seu hacker e olhos no céu, explodiu em seu ponto eletrônico, urgente e rápida.
- Jinx, não reage! Eu acessei o cronograma de serviço da casa. O sistema da portaria está alertando "Atraso de Funcionário" há duas horas. A agência 'Elite Nanny' deveria ter mandado uma substituta chamada Sarah Jenkins às 22h. Ela nunca deu baixa na entrada.
A informação foi como oxigênio puro para um cérebro morrendo asfixiado. Jinx agarrou aquele dado com todas as forças.
- É roupa de motociclismo - mentiu Jinx, a voz trêmula, mas mentalmente agradecendo a Bit. - Minha moto pifou a três quadras daqui por causa dessa tempestade maldita. A agência ligou informando que era uma emergência... que a babá anterior tinha faltado. Eu não tive tempo de vestir aquele uniforme ridículo de algodão doce!
Aeron estreitou os olhos. Ele a escaneava como um laser, procurando falhas na história. A barba por fazer no rosto dele dava um ar perigoso, e as olheiras profundas denunciavam um homem que não dormia há dias.
- A agência nunca mandou funcionárias sem crachá. E muito menos mandou que entrassem pela janela.
- A porta estava trancada e o interfone, mudo! - Jinx retrucou, apontando para a menina agarrada a ela. - E agradeça aos céus pela minha falta de educação, Sr. Vale. Sua filha estava roxa. Se eu tivesse esperado lá fora tocando a campainha, o senhor estaria segurando um cadáver agora, não uma arma.
As palavras foram um soco no estômago de Aeron. Ele empalideceu, o olhar desviando da invasora para Luna. A garotinha agora respirava melhor, o peito subindo e descendo num ritmo saudável, mas ainda se escondia atrás de Jinx.
- Jinx, cuidado - Bit alertou no ouvido dela. - Os batimentos dele estão erráticos. Ele está instável.
A muralha de gelo de Aeron rachou por um segundo, mas voltou a se fechar rapidamente.
- Vamos ver se essa história se sustenta - disse ele, a voz áspera como lixa.
Ele tirou o celular do bolso do pijama com a mão livre, sem nunca desviar a arma do rosto de Jinx.
- Vou ligar para a diretora da agência. Se ela não confirmar seu nome em dez segundos... você vai sair daqui em um saco preto.
O coração de Jinx falhou uma batida. Se aquela ligação completasse para a agência real, a mentira cairia.
- Estou dentro - Bit sussurrou, o som de teclas frenéticas ao fundo. - Vou interceptar a chamada. Deixa comigo.
Aeron discou. O dedo dele pairou sobre o botão de chamar.
- Mãos onde eu possa ver! - ele rugiu quando Jinx moveu o braço sutilmente para ajeitar o cabelo (e cobrir melhor o ponto eletrônico).
- Só estou nervosa, caramba! - Jinx gritou, fingindo histeria.
O celular de Aeron tocou no viva-voz.
Tuuu... Tuuu...
Jinx prendeu a respiração. O silêncio no quarto era ensurdecedor.
- Agência Elite Nanny, plantão de emergência - uma voz feminina, calma e profissional, preencheu o quarto.
Era o modificador de voz de Bit. Perfeito. Sem falhas.
- Aqui é Aeron Vale - disse o CEO, a voz cortante. - Vocês enviaram uma babá chamada Sarah para minha casa agora? De madrugada?
Houve uma pausa do outro lado. Bit estava improvisando, usando o que tinha ouvido pelo microfone de Jinx nos últimos minutos.
- Sim, Sr. Vale. Sarah Jenkins. Pedimos desculpas pelo traje inadequado, mas foi uma convocação de crise. - A "diretora" fez uma pausa dramática. - O senhor sabe que a pequena Luna tem histórico de crises respiratórias noturnas. A Srta. Jenkins não é uma babá comum, ela é nossa especialista em primeiros socorros pediátricos e gestão de trauma. O sistema da casa indicou alteração nos sinais vitais da criança, por isso a enviamos com prioridade máxima.
Aeron olhou para Jinx. A confusão franziu a testa dele, destacando aquela cicatriz acima da sobrancelha.
A história batia. A habilidade médica que ela usou para desengasgar Luna batia com a descrição de uma especialista em trauma.
- Ela está aqui - Aeron disse, contrariado, baixando a arma lentamente até travá-la. - Mas entrou pela janela.
- Ah... Sarah é muito dedicada - a voz no telefone respondeu com uma ironia suave. - Às vezes, dedicada demais.
Aeron desligou a chamada. O perigo de morte imediata passou, mas a tensão física permaneceu.
- Consegui alterar a ficha dela no servidor da agência agora - Bit confirmou no ouvido de Jinx, soando exausto. - Você é oficialmente Sarah Jenkins nos últimos cinco minutos. Não me agradeça.
Aeron guardou o celular, mas não guardou a desconfiança.
- Tudo bem. Você é a babá. Mas isso não explica por que minha filha, que grita se qualquer estranho chega a dois metros dela, está agora grudada em você.
Aeron se agachou, ficando na altura dos olhos da filha. Ele estendeu a mão grande e cheia de calos para a menina.
- Luna? - chamou suavemente, a voz mudando da água para o vinho. - Vem com o papai, querida. A Sarah precisa ir se trocar.
Luna olhou para a mão do pai. Depois olhou para cima, para o rosto de Jinx.
A menina soltou uma das mãos da perna de Jinx, pegou seu coelho de pelúcia encardido que estava no chão e o estendeu para cima. Não para o pai. Para Jinx.
Aeron travou. Jinx viu a mandíbula dele tensionar, um músculo saltando na bochecha.
- Ela... ela nunca empresta o Sr. Orelhas para ninguém - Aeron sussurrou, a voz carregada de uma mágoa profunda que fez Jinx sentir uma pontada rara de culpa. - Nem para mim.
Jinx pegou o coelho. Ela estava manipulando a carência de uma criança e a dor de um pai para encobrir um crime de bilhões, mas não podia recuar agora.
- Crianças sentem quem as salvou, Sr. Vale - Jinx disse, suave. - É instinto de sobrevivência. Vai passar.
Aeron se levantou. Ele parecia exausto e perigosamente atraente naquela vulnerabilidade momentânea. Ele olhou Jinx de cima a baixo, demorando nos lábios dela, depois subindo para os olhos, analisando o rosto cheio de sardas que parecia inocente demais para o traje tático que vestia.
- Você fica - decidiu abruptamente. - Período de experiência de uma semana.
- Ótimo - Jinx forçou um sorriso profissional, embora suas pernas estivessem tremendo. - Vou pegar minha mochila e...
- Não.
Aeron foi rápido como um ataque de cobra. Antes que Jinx pudesse reagir, ele se abaixou e agarrou a alça da mochila tática dela no chão.
O sangue de Jinx foi drenado de seu rosto. Dentro daquela mochila não havia apenas roupas. Havia decodificadores militares, explosivos plásticos C4 em miniatura e gazuas de titânio. Se ele a abrisse, a farsa acabava.
- Sr. Vale, isso é pessoal... - ela começou, dando um passo à frente, os músculos do corpo reagindo para o combate. Ela teria que derrubá-lo.
Aeron ergueu uma mão, parando-a. O olhar dele voltou a ser o do CEO paranoico.
- Eu não confio em você, "Sarah". Você invadiu minha casa. Até eu ter certeza absoluta de quem você é, seus pertences ficam sob minha custódia.
Ele jogou a mochila sobre o ombro largo. O som metálico das ferramentas lá dentro fez o estômago de Jinx revirar.
- Vou guardar isso no meu cofre pessoal - Aeron disse. Um sorriso de canto apareceu, cruel e dominante. - Se você é apenas uma babá, não vai se importar de ficar sem suas coisas de "motocross" por uma noite, certo?
Jinx cerrou os punhos ao lado do corpo, escondendo a raiva. Ele estava levando as ferramentas necessárias para abrir o cofre... para dentro do próprio cofre.
- Claro que não, Sr. Vale - ela respondeu com um sorriso doce que mascarava a vontade de chutá-lo na garganta.
Aeron assentiu e saiu do quarto, levando a mochila e a liberdade dela.
Jinx olhou para a porta fechada, depois para a menina que a observava com adoração.
- Merda - ela sussurrou para o coelho de pelúcia. - Agora eu sou a refém.
[FIM DO CAPÍTULO]
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Curiosidade: O Aeron tem essa barba por fazer não por estilo, mas porque trabalha 20 horas por dia no código de segurança. O homem é uma máquina (uma máquina muito sexy, convenhamos rs).
Nota da autora: A Jinx tem mais sorte que juízo! O Bit salvou a pele dela no último segundo, mas vocês viram o olhar do Aeron? Ele é um predador; ele sabe que tem algo podre nessa história. 👀
Vocês acham que ele engoliu a desculpa da "agência de emergência" ou está apenas mantendo os inimigos por perto para vigiar?
Deixem um 🕵️♀️ se acham que ele já sacou tudo!
Não esqueçam de votar no capítulo! O próximo jantar vai ser um campo minado e a nossa ladra vai ter que suar frio. Até lá!
Ravenna V.
Jinx encarou seu reflexo no espelho do banheiro de hóspedes e a vontade de socar o vidro foi visceral.
Sem sua mochila tática, ela estava refém da governanta, a Sra. Potts - uma mulher com cara de buldogue que a olhava como se ela fosse uma praga bíblica. A velha lhe entregou uma caixa de roupas marcada como "Doação da Sra. Vale". O resultado foi uma catástrofe.
Jinx, a ladra que já invadiu o Louvre usando alta costura, agora vestia um vestido floral amarelo com babados excessivos que cheirava a naftalina e depressão. O tecido repuxava no busto e sobrava na cintura.
- Isso é um crime contra a moda - resmungou, ajeitando os óculos de grau falsos sobre o nariz sardento. - Se o cartel me vir assim, minha reputação vai pro lixo.
Ela respirou fundo, forçando o batimento cardíaco a desacelerar. Foco, Jinx. O plano era simples: sobreviver ao jantar, localizar o cartão de acesso do cofre (que Aeron certamente mantinha no corpo) e recuperar a mochila. Sem as gazuas de titânio trancadas lá dentro, ela era inútil.
Quando entrou na sala de jantar, o silêncio parecia uma entidade pesada vagando pelo ambiente.
Aeron estava na cabeceira da mesa de mogno, parecendo um imperador entediado e perigoso. Ele vestia uma camisa social branca, os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os cotovelos, expondo antebraços cobertos por uma leve penugem escura e veias que pareciam mapas de estradas.
Ao lado dele, Luna desenhava animada num caderno. Seu prato de comida, intocado.
Aeron levantou os olhos. Sua taça de vinho parou no meio do caminho quando viu Jinx. Ele engasgou com o álcool, tossindo discretamente, e passou a mão pelo queixo mal barbeado para esconder o choque.
- Escolha... interessante de vestuário - ele comentou, a voz pingando ironia. - Muito primaveril.
Jinx sentiu o rosto queimar.
- Era o que tinha na caixa, Sr. Vale - respondeu com a voz doce de "Sarah", puxando a cadeira ao lado de Luna. - A moda não é minha prioridade. Cuidar da sua filha é.
Aeron estreitou os olhos. Ele odiava quando ela usava a filha como escudo.
- Sente-se.
O jantar mais parecia um teste de resistência. Jinx cortava o filé mignon - que custava mais que seu antigo aluguel - mas seus olhos afiados mapeavam o corpo do alvo.
Ele não usava paletó, o que era ótimo. Observou mais um pouco, e percebeu como o tecido da calça social se esticava na coxa direita quando ele se movia. Foi então que ela notou um contorno retangular no bolso da frente.
Bingo. Era o cartão magnético. A chave para o escritório. A chave para sua mochila recheada de explosivos.
- Luna não comeu nada - Jinx falou, incapaz de aguentar o silêncio.
- Ela nunca come com estranhos - Aeron respondeu sem olhar, cortando a carne com precisão cirúrgica. - É teimosa como a mãe.
Jinx olhou para o prato da menina. Ervilhas e purê. Que tipo de psicopata serve isso para uma criança de quatro anos?
- Talvez ela precise de incentivo.
Jinx pegou o garfo de Luna. Rápida, ela reorganizou as ervilhas e o purê até formarem uma carinha sorridente tosca no prato.
Luna parou de desenhar. Olhou para a comida, e um sorriso minúsculo surgiu no canto da boca dela. Ela pegou o garfo e comeu uma das ervilhas que formavam o "olho".
Aeron parou de mastigar. Ele encarou aquela cena e sua cicatriz na sobrancelha franziu. Havia algo doloroso no olhar dele. Parecia ciúmes misturado com alívio.
- Você tem jeito com ela - admitiu a contragosto. - A última babá saiu chorando em duas horas.
- Sou mais resistente do que pareço, Sr. Vale. Já lidei com... situações piores que crianças birrentas.
- Veremos.
Aeron fez menção de levantar para pegar a garrafa de vinho no aparador atrás dele.
- Deixe que eu sirvo. - Jinx levantou num pulo. Era a chance. A "tática do esbarrão".
Ela pegou a garrafa e caminhou até ele. O cheiro dele a atingiu como um soco - sândalo, chuva e testosterona bruta. Era um cheiro que fazia o cérebro lógico dela desligar por um segundo.
Ela se inclinou para servi-lo.
- Mais um pouco, senhor?
Enquanto a mão direita servia o vinho tinto, a esquerda "escorregou" suavemente em direção à coxa dele, visando o bolso. Dedos leves como plumas. Ela sentiu a borda rígida do cartão. Peguei você.
De repente, uma mão quente e enorme fechou em volta do pulso dela. Como uma algema de carne e osso.
O vinho respingou na toalha branca como sangue arterial.
Jinx travou.
Aeron não olhava para a taça. Ele olhava nos olhos dela, a centímetros de distância. A pupila dele estava dilatada. A mão dele apertava o pulso dela com força suficiente para deixar marcas, o polegar pressionando o ponto da pulsação acelerada dela.
A tensão na sala mudou de "estranha" para "elétrica".
Aeron puxou a mão dela para cima, virando a palma para a luz do lustre de cristal. Ele passou o polegar calejado sobre a base dos dedos de Jinx. A pele ali era grossa, calejada pelo atrito de cordas de rapel, gatilhos de pistola e manuseio de lâminas.
- Mãos curiosas para uma babá, Sarah - Aeron sussurrou, a voz vibrando baixa e perigosa. - E esses calos... não são de segurar giz de cera. São de quem segura coisas pesadas. Ou perigosas.
Ele ergueu o olhar, perfurando a alma dela.
- O que exatamente você fazia antes de cuidar de crianças?
Jinx sabia que ele estava procurando qualquer falha nela. Seu coração batia na garganta, mas ela não recuou. Em vez disso, inclinou-se ainda mais, invadindo o espaço pessoal dele.
- O senhor ficaria surpreso, Sr. Vale - ela respondeu, mantendo o contato visual desafiador. - Carregar crianças exige força. E eu pratico escalada indoor para desestressar. É um hobby um pouco bruto para uma dama, eu sei.
Aeron não a soltou. O polegar dele traçou a linha da veia no pulso dela. O toque era possessivo, investigativo e absurdamente quente.
- Escalada - ele repetiu, testando a mentira como quem testa uma nota falsa. - Isso explica a força. Mas não explica a audácia de tentar tocar no meu bolso.
- Eu ia pegar o guardanapo que caiu - Jinx mentiu sem piscar, a respiração misturando-se com a dele. - O senhor é muito tenso.
O ar entre eles crepitava. Aeron parecia prestes a dizer algo - ou fazer algo imprudente, como beijá-la ou estrangulá-la - quando...
CRACK.
O som de cera quebrando estalou no ar.
Ambos olharam para o lado. Luna havia partido seu giz vermelho ao meio com sua força. Ela olhava para o pai e a babá com os olhos arregalados, alternando o olhar entre as mãos unidas deles.
Aeron soltou o pulso de Jinx como se tivesse levado um choque. Ele pigarreou, fechando o botão do colarinho e recompondo sua máscara fria.
- O jantar acabou - anunciou, levantando-se bruscamente. - Leve Luna para a cama. O quarto dela é sua cela... digo, seu local de trabalho.
Jinx esfregou o pulso onde a pele ainda formigava pelo toque dele.
- E Sarah?
Ela parou na porta, com Luna no colo.
- Sim?
- Não tente sair de casa à noite. Os sensores de movimento do terraço ativam os cães robóticos. - Aeron abriu um sorriso sem humor, cruel. - São protótipos militares que criei. Eles não mordem, Sarah. Eles disparam 50 mil volts antes que você consiga gritar por socorro. E eles não têm botão manual de desligar.
Jinx engoliu em seco.
- Boa noite, Sr. Vale.
Ela saiu, sentindo o olhar dele queimando em suas costas como um alvo laser.
[FIM DO CAPÍTULO]
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Curiosidade do Aeron: O vinho que ele estava bebendo custa $5.000 a garrafa, mas ele mal sente o gosto. Desde o "acidente" que matou a esposa há 2 anos, ele perdeu parte do paladar. A única coisa que ele sente de verdade é a adrenalina. E a Jinx é pura adrenalina para ele. 🍷
Nota da autora: QUE TENSÃO FOI ESSA? 🔥 Ela tentou roubar o cartão e ele sentiu... mas não denunciou. Ele alisou a mão dela! Aeron Vale não é apenas perigoso, ele é territorial.
Pergunta polêmica: Ele segurou a mão dela para investigar os calos ou porque ficou excitado com a audácia?
Comentem "CAÇADOR" 🐺 se vocês acham que ele está gostando do jogo de gato e rato!
O aviso está dado: Adicionem na biblioteca! No próximo capítulo, a Jinx vai descobrir que a "jaula" do Aeron é muito mais vigiada do que ela pensa.
Ravenna V.