A noite estava fria, mas o clique da câmera do celular e as risadas grosseiras daqueles homens tornavam tudo pior.
Eles me despiram, fotografaram e publicaram tudo online, transformando um pesadelo em uma humilhação que queimava por dentro.
Juro que ouvi um deles sugerir: "Chefe, essa atriz é linda, que tal a gente se divertir um pouco com ela antes de entregar para o contratante?".
E então a risada baixa e perigosa do "chefe": "Ok! Mas limpem tudo depois!".
O terror me dominou, um grito silencioso preso na garganta enquanto eles me agarravam.
Acordei jogada na terra, um objeto quebrado, enquanto as fotos já se espalhavam como fogo pela internet.
Thiago, meu chefe e namorado, meu porto seguro, prometeu cuidar de mim e disse que superaríamos juntos.
Eu acreditei, me agarrei a ele como se minha vida dependesse disso.
Até que, em uma noite escura, acordei de um pesadelo e o encontrei na varanda, falando em videochamada.
A voz do assistente veio do celular: "Chefe, aqueles bêbados já foram pagos e enviados para uma área remota, como você pediu. Mas eu não entendo, a Joana está em ascensão, por que você quer arruiná-la?".
Meu coração parou enquanto Thiago, com uma frieza que eu nunca conheci, respondeu: "Se ela estiver no elenco, a Manuela não vai conseguir o papel principal em 'Luar'. Por isso, eu tive que fazer isso!".
Naquele instante, a verdade me atingiu com a força de uma avalanche: ele era o arquiteto da minha destruição.
Mas algo mais aterrissou em mim, gelado e absoluto: Thiago, assim como eu, também tinha renascido.
A noite estava fria e a escuridão da floresta parecia engolir todos os sons, exceto o clique da câmera de um celular e as risadas grosseiras dos homens. Joana, uma jovem atriz em ascensão, sentia o ar gelado em sua pele exposta, um contraste cruel com a humilhação que queimava por dentro. Eles a tinham despido, tirado fotos e as publicado online. O pesadelo, ela pensava, estava prestes a acabar.
Mas então, uma voz suja cortou o silêncio. "Chefe, essa atriz é linda, que tal a gente se divertir um pouco com ela antes de entregar para o contratante?"
O homem chamado de "chefe" riu, um som baixo e perigoso. "Ok! Mas limpem tudo depois, para que o contratante não perceba nada!"
O terror tomou conta de Joana, um grito silencioso preso em sua garganta. Vários deles a agarraram. A dor e a vergonha a consumiram até que a consciência se tornou uma bênção, um refúgio escuro. Eles a deixaram ali, jogada na terra úmida da floresta como um objeto quebrado.
Naquela mesma noite, as fotos se espalharam pela internet como um incêndio. As plataformas agiram rápido para removê-las, mas o dano já estava feito. Para uma atriz de 24 anos, no auge de sua carreira, essa mancha era uma sentença.
Sem precisar de um comunicado da agência, Joana se trancou em casa. O mundo lá fora era assustador, cheio de sussurros e olhares. Felizmente, seu chefe e namorado, Thiago, estava ao seu lado. Ele cancelou todos os seus compromissos para cuidar dela, seu porto seguro em meio à tempestade. Ele a abraçava, dizia que tudo ficaria bem, que eles superariam isso juntos. Joana acreditou nele, se agarrou a ele como se sua vida dependesse disso.
No entanto, em uma noite particularmente escura, Joana acordou de um pesadelo, o corpo tremendo e suando frio. As imagens do ataque voltavam sem parar. Ela procurou Thiago na cama, mas ele não estava lá. Desesperada por seu conforto, ela se levantou e foi até a varanda. A fumaça de um cigarro subia em direção ao céu noturno. Thiago estava lá, de costas para ela, falando em uma videochamada com seu assistente.
"Chefe, aqueles bêbados já foram pagos e enviados para uma área remota, como você pediu. Mas eu não entendo, a Joana está em ascensão, por que você quer arruiná-la?" disse a voz do assistente, vinda do celular.
O coração de Joana parou.
Thiago soltou uma longa baforada de fumaça. Sua voz era fria, desprovida de qualquer emoção que ela conhecia. "Se ela estiver no elenco, a Manuela não vai conseguir o papel principal em 'Luar'. Por isso, eu tive que fazer isso!"
"Mas a seleção de elenco para 'Luar' não é só amanhã? Chefe, como você sabia que a Manuela não conseguiria o papel contra a Joana?" o assistente insistiu, confuso.
"Você não entende...", disse Thiago, o tom final, encerrando a discussão. "Lembre-se, não conte a ninguém sobre isso, especialmente a Joana!"
Joana não ouviu o resto da conversa. Seu rosto ficou pálido como cera. Ela levou a mão à boca para abafar um soluço, o corpo tremendo violentamente. Ela recuou em silêncio, fugindo de volta para o quarto, e deslizou até o chão, as costas pressionadas contra a porta fria. O ar faltava em seus pulmões.
Todos os pesadelos, toda a vergonha, toda a dor dos últimos dias... foram causados por ele. Por Thiago. O homem que a abraçava e prometia proteção era o arquiteto de sua destruição.
O assistente não entendia, mas ela sim. Ela entendia perfeitamente. Naquele instante, uma certeza terrível e absoluta a atingiu, tão fria quanto o chão sob ela. Thiago, assim como ela, também tinha renascido.
As memórias de sua vida anterior vieram com a força de uma avalanche.
Naquela vida, Joana tinha sido feliz. Ela entrou na indústria do entretenimento aos 16 anos, uma garota sonhadora e cheia de esperança. Aos 22, ainda era uma figurante, lutando por pequenos papéis. Foi quando conheceu Thiago. Ele tinha 27 anos, um espírito livre e indomável, que atuava por hobby. Ele a perseguiu com uma paixão avassaladora, e ela se apaixonou perdidamente. Depois que ficaram juntos, ele decidiu sair dos holofotes para cuidar da carreira dela. Abriu uma agência de talentos só para ela, dedicando-se inteiramente ao seu sucesso.
Aos 24 anos, com sua atuação impressionante, Joana conseguiu o papel de sua vida no filme "Luar". No ano seguinte, ela varreu todas as principais premiações, tornando-se a mais jovem atriz a receber o prêmio de Melhor Atriz no Brasil.
Ela se lembrava daquela noite como se fosse ontem. Segurando o troféu, as lágrimas escorrendo pelo rosto, ela agradeceu a todos. Depois, desceu do palco e caminhou diretamente até Thiago, que a esperava na primeira fila, os olhos vermelhos de emoção. Na frente de todo o mundo, com a voz embargada, ela perguntou: "Thiago, você quer casar comigo?"
A resposta dele foi um abraço que a tirou do chão, girando-a no ar, seguido por uma pequena caixa de veludo. Dentro, um anel de diamante brilhava. Ele já o carregava no bolso, esperando pelo momento certo.
Só depois do casamento ela descobriu a verdade sobre ele. Thiago era o filho mais novo da poderosa família Silva, um verdadeiro gigante do cinema e da televisão no país. Mas essa identidade nunca afetou o amor deles. Ele não queria depender da família, e Joana não se importava com o dinheiro. Eram o casal perfeito, elogiados até pelos paparazzi mais venenosos.
Mas a felicidade não durou. No sétimo ano de casamento, Thiago morreu em um trágico acidente de carro.
O mundo de Joana desabou. Depois do funeral, ela voltou para a casa vazia, um mausoléu de suas memórias felizes. Ela se trancou no escritório dele, o cheiro dele ainda impregnado nos livros e nos móveis. A dor era insuportável, um vazio que nada podia preencher. Em um ato de desespero, ela pegou uma faca de papel da mesa dele e cortou os pulsos.
Enquanto o sangue escorria e sua visão escurecia, sua mão, por acaso, bateu na última gaveta da escrivaninha. A gaveta se abriu um pouco, revelando um diário de couro preto que ela nunca tinha visto. Com as últimas forças, ela o pegou.
Na primeira página, uma caligrafia que ela conhecia tão bem, mas palavras que eram completamente estranhas. Era uma ode a outra mulher. Manuela.
O nome a atingiu como um soco. Manuela era uma famosa atriz mirim que raramente atuava na vida adulta. Joana a conhecia. Por causa da semelhança em seus olhos e sobrancelhas, Joana tinha sido a dublê de Manuela no filme em que conheceu Thiago. Pouco depois das filmagens, Manuela se envolveu com o produtor do filme e se mudou para o exterior. Dois anos depois, a notícia chocou o mundo do entretenimento: Manuela havia cometido suicídio por causa de dificuldades financeiras.
Joana nunca tinha ligado os pontos. Mas o diário de Thiago... estava cheio dela.
"Não pude ficar com Manuela nesta vida, então vou procurar alguém que se pareça muito com ela."
"Que ódio! Por que eu não tentei impedir Manuela de terminar comigo naquele ano? Assim ela não teria morrido! Ela não teria me deixado para sempre! Manuela, me desculpe, na próxima vida eu vou te proteger bem! Vou fazer de você a maior atriz de todas!"
As lágrimas de Joana se misturaram ao seu sangue, manchando as páginas do diário. Ela folheou tudo, do começo ao fim, cada palavra uma facada em seu coração já partido. A história de amor que ela viveu era uma mentira. Ela era apenas uma substituta, um fantasma. Sua consciência se esvaiu, e suas pálpebras finalmente se fecharam.
Quando acordou, estava de volta em sua cama, o diário ainda em seus braços. A luz do sol entrava pela janela. Confusa, ela se levantou e olhou no espelho. A mulher que a encarava de volta não era a viúva de 31 anos, mas a Joana de 24. E Thiago... Thiago ainda estava vivo.
Ela tinha renascido. A princípio, ela não quis investigar o diário. Ter Thiago de volta era o maior presente que Deus poderia lhe dar. Ela guardou o diário e decidiu viver esta segunda chance ao máximo, esquecendo a dor da traição.
Mas as coisas não seguiram o curso que ela planejava. Primeiro, a agência de Thiago contratou Manuela, que estava praticamente aposentada. Joana sentiu um calafrio, mas tentou ignorar. Depois, na véspera da seleção de elenco para "Luar", o filme que a consagraria na vida passada, aconteceu o ataque. A cena inicial.
Agora, na varanda, tudo se encaixava. Eles realmente renasceram. Mas nesta vida, para compensar seus arrependimentos, Thiago escolheu Manuela. E para fazer isso, ele a destruiu. Ele a usou, a humilhou e a quebrou para pavimentar o caminho de outra mulher.
A exaustão tomou conta de Joana, uma fadiga profunda que vinha da alma. O amor que ela sentia por ele se transformou em cinzas. A dor da traição desta vida era mil vezes pior do que a da vida passada.
Com as mãos ainda tremendo, ela pegou seu celular. Discou um número que conhecia bem, um número que representava uma oportunidade que ela havia ignorado antes.
"Alô, Diretor Santos", sua voz saiu rouca, mas firme. "Sou eu, Joana. Eu gostaria de ir para Hollywood."
Do outro lado da linha, a voz do Diretor Santos soou surpresa, mas interessada. "Joana? Fico feliz em ouvir de você, mas pensei que... com tudo o que aconteceu..."
"Eu preciso sair daqui, Diretor", Joana o interrompeu, a voz carregada de uma urgência que ele não podia ignorar. "Aquela sua proposta... para a audição em Hollywood... ainda está de pé?"
Houve uma pausa. "Claro que sim. O talento que vi em você não desaparece por causa de uns idiotas. Mas você tem certeza? É um passo grande, e você acabou de passar por um trauma terrível."
"É exatamente por isso que eu preciso ir", disse Joana, olhando para a porta fechada do quarto, atrás da qual o arquiteto de seu trauma provavelmente dormia em paz. "Este lugar... me sufoca. Eu preciso de um novo começo."
"Entendo", disse o Diretor Santos, seu tom agora cheio de compreensão. "Vou fazer algumas ligações. A audição para 'Estrela Cadente' é em três dias. É um papel coadjuvante, mas o diretor é um dos grandes. Pode ser sua porta de entrada. Você consegue chegar a tempo?"
"Eu vou dar um jeito", Joana respondeu, a determinação solidificando sua voz. "Obrigada, Diretor. De verdade."
Desligando o telefone, Joana sentiu uma pequena faísca de esperança em meio ao deserto de seu desespero. Hollywood. Era uma chance de escapar, de se reconstruir longe de Thiago e de suas mentiras.
Na manhã seguinte, na audição para "Luar", a atmosfera estava carregada. Joana chegou sentindo os olhares e os sussurros. A notícia do ataque e das fotos vazadas pairava no ar como uma nuvem tóxica. Ela manteve a cabeça erguida, ignorando os comentários maldosos, focada apenas no que precisava fazer.
Então, a porta se abriu e eles entraram. Thiago, com seu ar de poder e carisma, e ao seu lado, Manuela. Ela estava radiante, vestida com um vestido caro que realçava sua figura, segurando o braço de Thiago com uma familiaridade possessiva. Eles pareciam o casal perfeito, o centro das atenções. A cena era uma faca em seu peito, mas Joana não se permitiu desviar o olhar. Ela precisava ver, precisava sentir a dor para queimar qualquer resquício de amor que ainda pudesse existir.
Thiago a viu. Por um segundo, seus olhos se encontraram. Ela não viu culpa ou remorso, apenas uma frieza calculada. Ele caminhou em sua direção, Manuela ainda em seu encalço.
"Joana", disse ele, o tom profissional, como se falasse com uma mera funcionária. "Como você está se sentindo?"
"Estou bem", ela respondeu, a voz neutra.
"Ótimo", ele disse, sem um pingo de sinceridade. Então, seu olhar caiu sobre a pequena caixa de música que Joana segurava nas mãos. Era um presente dele, de sua vida passada, um objeto que ela guardava com carinho e que, por algum motivo, decidiu trazer hoje. "O que é isso?"
"Nada importante", disse Joana, apertando a caixa.
"Me dê", ele ordenou, a voz baixa, mas imperativa.
Joana hesitou. Aquele objeto era um dos poucos fragmentos que restavam do amor que ela pensou ser real.
"Joana, não me faça repetir", Thiago disse, o tom endurecendo.
Com o coração pesado, ela entregou a caixa. Ele a pegou e, sem uma palavra, a entregou a Manuela. "Acho que isso combina mais com você", disse ele, com um sorriso que não alcançou os olhos.
Manuela pegou a caixa com um sorriso vitorioso. Ela a examinou com um ar de desdém. "É bonitinha... um pouco antiquada, talvez?" Ela disse, olhando diretamente para Joana. E então, com um movimento deliberado, "acidental", a caixa de música escorregou de suas mãos e se espatifou no chão.
As peças de madeira se espalharam, a pequena bailarina de porcelana se quebrou em mil pedaços. Um silêncio chocado caiu sobre a sala.
"Oh, meu Deus! Que desastrada!", Manuela exclamou, cobrindo a boca com a mão em uma atuação patética de surpresa. "Joana, me desculpe! Eu sou tão estabanada. Era importante para você?"
A humilhação era palpável. Joana olhou para os cacos no chão, o último símbolo de seu amor destruído. Ela levantou os olhos, esperando, contra toda a esperança, que Thiago dissesse algo. Que ele a defendesse.
Mas ele não o fez. Em vez disso, ele colocou um braço protetor em volta dos ombros de Manuela. "Não foi nada, querida. Acidentes acontecem. Joana entende, não é?"
Ele se virou para Joana, o olhar frio como gelo. Não havia consolo, apenas uma ordem silenciosa para que ela aceitasse a humilhação e ficasse quieta. Naquele momento, Joana entendeu. Ela não era nada para ele. Era um obstáculo, um incômodo a ser descartado.
Foi então que o diretor do teste, um homem mais velho chamado Sr. Almeida, que observava a cena com desaprovação, pigarreou. Ele sabia que Manuela era sobrinha do principal investidor do filme. O poder dela, ou melhor, o poder por trás dela, era imenso.
"Bem", disse o Sr. Almeida, tentando quebrar a tensão. "Que pena. Mas o show tem que continuar." Ele olhou para os cacos no chão e depois para Joana. Uma ideia pareceu surgir em seus olhos. "Joana, já que seu... objeto de cena está arruinado, que tal um teste de improviso? Use a dor dessa perda. Mostre-nos o que você sente. Pegue os cacos e nos dê uma performance."
A sala inteira prendeu a respiração. Era um pedido cruel, quase sádico. Pedir a ela para atuar com os restos de seu coração partido. Manuela sorriu, um brilho de triunfo em seus olhos. Ela achava que Joana iria desmoronar, que ela não conseguiria.
Mas Joana viu a oportunidade na crueldade. Era uma chance. Uma chance de mostrar a todos eles, especialmente a Thiago, do que ela era feita. Ela respirou fundo, abaixou-se e, com as mãos trêmulas, começou a recolher os pedaços da bailarina quebrada.