3 ANOS TRÁS - Setembro de 2016
Você conhece uma garota sem identidade? Uma garota sem identidade que tem sonhos, planos e quer ter uma vida normal? Sou eu. Mas, eu não consigo. Quero saber quem eu sou.
Tentei fazer amizade com um, com outro, mas não consegui. Sempre me sentava quieta em meu canto na sala de aula. Até tentei participar das aulas, mas tinha vergonha de questionar meus professores, do que iriam pensar.
Em uma noite, o pessoal do colégio me convidou para ir a uma festa. Como eu não tinha amigos além de Sara, pensei ser a oportunidade perfeita para novas amizades. Quando cheguei, espiei pelas janelas e vi um grupo de pessoas da escola bebendo, dando uns amassos e fazendo tudo o que se espera de uma festa de adolescentes.
Por que ninguém nunca dava festas de leitura? Eu adoraria esse tema.
Os cômodos da casa começaram a ficar mais cheios, lotando conforme a noite avançava. Eu odiava o cheiro, odiava a agarração; odiava tudo neste lugar. E era por isso que eu era a menina que vivia com a cara enfiada nos livros. As festas nos livros sempre pareciam mais divertidas.
Olhei em volta e observei um grupo de meninas sentadas em uma mesa, jogando algum tipo de jogo de beber com alguns caras. O local estava cheio de pessoas conversando e rindo em voz alta. Todos estavam bebendo e se divertindo.
Nenhum sinal da Sara. Acho que ela ainda não chegou.
Encostei-me à parede do corredor e continuei a assistir as meninas bêbadas e como elas riam e agiam de forma estúpida. Olhando para elas, comecei a me sentir desconfortável. A maioria das meninas estavam vestindo pequenas saias ou vestidos curtos e salto alto. Eu me senti estranha com minha camiseta preta, um jeans velho, rasgado e desgastado e um par de all star preto.
- Quer uma cerveja? - O garoto que estudava comigo, Ryan, se aproximou e me ofereceu um copo. Sorri e aceitei, bebendo imediatamente. Pelo menos alguém que conheço apareceu para me fazer companhia.
Ryan se aproximou e colocou ambas as mãos na parede, me encurralando no canto da sala, fora da vista dos outros. Inclinando-se sobre mim, senti um cheiro forte de álcool em sua respiração. Quando ele se inclinou para me beijar, virei o rosto.
Senti um nó no estômago e me afastei da parede, empurrando seu peito.
- Que porra é essa? - diz ele, e vejo o olhar irritado em seu rosto. - Qual é o problema?
Arregalei meus olhos.
- Como assim, qual o problema? Eu nem sequer te conheço!
Ele riu da minha cara.
- Você já pode parar com o teatro de boa moça, Gracie.
Ryan disse meu nome com um tom gotejando em desdém. Ele agarrou firmemente meus ombros, empurrando-me para trás. Tropecei um pouco e bati na parede. Meu corpo se tornou frio, e senti a pele do meu pescoço formigar. Fiquei nervosa, e meu batimento cardíaco acelerou. O que ele pensa que está fazendo?
Eu só quero sair daqui. Eu só quero ir para casa e fingir que essa noite nunca aconteceu. Tem sido estranho desde o início, e só está ficando pior.
Meus ombros estavam tremendo sob suas mãos, e senti o nó na garganta crescendo, dificultando minha respiração. Ele empurrou seu corpo contra o meu e enterrou o rosto no meu pescoço, espalhando beijos ali.
Suspirei, busquei o ar e soltei um gemido estrangulado. Eu não queria chorar, mas minhas emoções estavam por todo o lugar agora. Um fluxo de lágrimas rolou pelo meu rosto, e comecei a empurrar o peito dele com força, mas ele não cedia.
- Ryan, pare! O que você está fazendo?
Comecei a bater em seu peito, tentando tirá-lo de mim. Mal podia ver através das minhas lágrimas, mas consegui bater com a testa na boca dele. Ele deu um passo para trás e limpou a boca. Estava sangrando. Ryan olhou para mim sem acreditar. Virei-me para a porta e corri. Meu coração estava batendo tão forte contra as minhas costelas enquanto me esforçava para respirar, que corri batendo nos ombros das pessoas e tropeçando sobre os meus pés trêmulos, até chegar à porta.
Quando finalmente saí, andei rápido e tentei compreender o que aconteceu, mas eu não conseguia limpar a minha mente o suficiente para me concentrar. Confusão nem sequer começava a descrever o meu estado de espírito.
- Grace! Espere! - ouvi a voz de Ryan atrás de mim. Olhei para trás com temor e corri. Corri rápido.
Percebi que ele estava correndo atrás de mim e tentei fazer minhas pernas se moverem mais rápido, mas elas não colaboravam. Minha garganta estava pegando fogo e eu não conseguia respirar. Não me virei para ver, mas eu sabia que ele estava perto.
Nos segundos iniciais que se seguiram, eu estava muito desorientada para compreender o que estava acontecendo. Em um momento, eu estava cortando o caminho em um atalho atrás de um prédio e no seguinte, eu estava caída com o rosto contra o pavimento, sem fôlego e imóvel.
Lutei para me levantar, mas não conseguia com o peso em cima de mim.
- Sai de cima de mim! Me solta! - Minha voz tremeu, mas eu tentei dar a ordem com a maior autoridade possível.
Eu podia sentir o cheiro de cerveja em seu hálito e algo mais forte em seu suor, e uma onda de náusea subiu e caiu no meu estômago. Ouvi o som inconfundível de um zíper se abrindo e ele riu no meu ouvido quando comecei a implorar.
- Ryan, pare! Por favor, você está bêbado e vai se arrepender disso amanhã. Por favor, não! Não, não, não! - Sob o seu peso, eu não conseguia respirar o suficiente e gritar ao mesmo tempo e minha boca estava amassada contra o chão, abafando qualquer protesto que fazia. Ryan então me vira e me coloca com as costas no asfalto. Meu rosto arde quando ele me dá um tapa.
- Cala a boca, putinha! - Ele pegou meu queixo e me forçou a encará-lo.
Mão direita livre.
Enquanto movia minha mão entre nós, agarrando e torcendo suas partes e puxando-as tão forte quanto eu podia, eu bati minha testa em seu nariz com força. E então ele gritou, e seu nariz começou a jorrar muito sangue.
Mão esquerda livre.
Ele se inclinou para o lado. Levantei meu joelho esquerdo e virei para ele, empurrando seu ombro com a mão esquerda e tirando ele de cima de mim. A sensação voltou para as minhas pernas, tremores correram através de mim quando me levantei e me preparei para correr. Mas, no mesmo instante, sua mão direita agarrou meu pulso. Girei e bati o punho sobre o ponto sensível em seu antebraço, polegadas para baixo da curva de seu braço, e ele me soltou, berrando com raiva e tentando ficar em pé.
Eu não esperei para ver se ele conseguiu.
Virei-me e fugi.
2 ANOS DEPOIS - Maio de 2018
"Viro-me depressa, abro o vidro da janela do carro depois que um tiro acerta o espelho lateral. Coloco metade do corpo para fora, e tento atirar neles. Harry está dirigindo rapidamente, tentando desviar dos disparos. Ele faz uma curva rápido demais e perco o equilíbrio.
- Cuidado, Grace - Harry avisa, focado na estrada. O vento sopra em meus ouvidos quando acerto um tiro em um dos pneus. Depois que atinjo o segundo pneu, volto para dentro do carro, respirando pesadamente. Três tiros são disparados na minha direção e eu me abaixo.
Há uma pausa. Volto meu olhar para trás e vejo o carro diminuir a velocidade.
- Harry... eles estão parando - comento.
- Você atirou nos pneus - murmura.
- Não. Eles só pararam - explico, confusa.
No silêncio que se seguiu, escutamos o barulho do vento, soprando fortemente. Mas esse silêncio foi mais curto do que eu esperava. Ouvimos um alto woosh, e então vejo uma chama brilhante vindo até nós. Eles nos lançaram um explosivo. E está vindo para o lado de Harry. Meus olhos se arregalam quando eu grito:
- Harry!
Mas é muito tarde. O carro é impulsionado contra uma árvore. Tudo acontece muito rápido. Meu corpo é lançado para frente e atinjo o painel com a cabeça. Minha visão borra. Engasgo com a falta momentânea de ar. Viro a cabeça devagar para olhar Harry. Está inconsciente, com a cabeça no volante. Não consigo ver o rosto dele. Suas mãos estão sangrando e vejo pedaços de vidro cravados em sua pele. Solto um gemido de dor e percebo o carro em chamas. A fumaça começa a me sufocar.
- Harry... - sussurro, tentando manter os meus olhos abertos. Sinto sangue quente escorrer do meu nariz.
A porta do meu lado é aberta. Eu grito o mais alto que posso. A força e a intensidade do meu grito queimam a minha garganta.
- Harry! - grito uma e outra vez, lutando contra as mãos desconhecidas que me puxam para fora do carro. Mas não faz diferença alguma. Sou arrastada para fora de um veículo em chamas e para longe de Harry. Ouço alguém dizer:
- Certifique-se de que ele esteja morto.
E um tiro é disparado. Meu grito ecoa no ar. Minha dor gradualmente começa a me dominar, me puxando para a inconsciência, um sono perigoso e indesejado."
- Não! - grito, acordando. Calma, digo a mim mesma, suando e tremendo. Foi só um sonho. Na verdade, foi um pesadelo, mas não é real. Enquanto inspiro e expiro, tentando controlar a minha respiração, meu celular toca.
- Pensei que você tivesse ido embora sem se despedir - Sara diz quando atendo. - Ocupada demais fazendo as malas para responder as minhas mensagens?
- O quê? Não! Você já está com saudades de mim? Eu não fui ainda - dou risada. Sara é minha única amiga aqui em Curitiba. Conhecemo-nos no colégio, anos depois que vim morar na capital, quando tínhamos quinze anos, e é minha melhor amiga desde então.
- O que houve? - O tom dela fica sério de repente. Ela sempre consegue perceber quando tem algo acontecendo. É muito irritante em alguns momentos. Suspiro.
- Sonhei com ele de novo. Só que desta vez não foi romântico... - conto para ela sobre a noite horrível que tive, vendo o amor da minha vida morrer tragicamente. - Sei que sou maluca por continuar pensando nele assim - digo rapidamente. - Você não tem que me dizer. Nós já tivemos essa conversa um milhão de vezes antes.
Sara suspira.
- É só que... você tem um novo começo se aproximando, Grace. Caramba, a sua vida vai mudar completamente! Pensa nisso. Talvez seja inteligente, sabe... namorar um cara com quem você pode, tipo, ficar de verdade, sabe? E talvez esses sonhos nunca mais voltem...
- Mas parece que é real, Sara... sinto que é.
- Sabe o que quero dizer. - Sara responde, impaciente. - Alguém que você possa ter de verdade. E apresentar para a sua família. Pensa bem! Você vai para Londres, amiga! E vai conhecer britânicos lindos! E vai poder beijar um deles num canto escondido da escola que você vai estar. Alguém que seja tipo, real.
Real. A última palavra fica se repetindo na minha mente. Ela tem razão. Não importa como eu me sinta em relação a Harry, ainda existe um problema: todas as noites com Harry, desde que me lembro, foram sonhos.
Porque Harry é o garoto dos meus sonhos, e só dos meus sonhos.
Ele não existe de verdade.
É claro que estou plenamente consciente de que soa cem por cento louco estar apaixonada por alguém que nunca conheci e que não é real. Mas, já que não consigo me lembrar de uma noite em que eu não sonhasse com Harry, pode ser difícil esquecer completamente. Os lugares e as histórias nos sonhos mudam, mas Harry é constante, me recebendo em cada sonho com seu lindo sorriso e seus olhos verdes deslumbrantes.
No entanto, sei que isso não pode durar para sempre. Então, tomei a decisão de sair do país e mudar minha vida.
Consegui uma vaga de au pair, vou morar na casa de uma família britânica trabalhando como babá e estudando durante a noite, e tudo já foi pago pela matriarca da família. O dinheiro que irei receber com o trabalho, irei enviar para a minha mãe aqui no Brasil. E, penso que, talvez, saindo da rotina e mudando praticamente tudo à minha volta, os sonhos parem e a minha mente possa, enfim, descansar.
Em outras palavras: estou fugindo, só que desta vez, os livros não serão a minha fuga como foram durante todos esses anos.
***
Minha mãe me levou até o aeroporto de Curitiba. Gabriel, meu irmão, estava triste no banco de trás do carro.
- Grace - ela me disse pela milésima vez antes de eu entrar no avião. - Você não precisa fazer isso. Eu já consegui um emprego, vai dar tudo certo.
Minha mãe não se parece comigo. Tem olhos e cabelos pretos, exceto pelas sardas no rosto. Senti um espasmo ao encarar os olhos dela. Como poderia deixar minha mãe? Ou meu irmãozinho? Claro que eles podem viver muito bem sem mim, mas ainda assim...
- Eu quero ir - digo com convicção.
Eu preciso ir. Precisamos desse dinheiro.
- Verei você logo - insistiu ela. - E pode voltar para casa quando quiser.
- Não se preocupe comigo - pedi - vai ser ótimo. Amo você, mãe.
Abracei os dois por um tempo, então fui para a área de embarque e não olhei para trás.
Quando o avião pousou em Londres, quinze horas depois, encontrei Hannah no portão do aeroporto. Tínhamos combinado esse ponto de encontro na última chamada de vídeo que fizemos. Ela estava tentando fazer malabarismos com duas filhas, três mochilas da Disney, um carrinho de bebê e uma barriga de grávida.
Ela é uma mulher de temperamento forte, independente, e não precisava de qualquer ajuda... até que o carrinho tombou e Katherine começou a chorar, Jenny deixou cair sua tiara com as orelhas do Mickey e, quando se abaixou para pegar, derramou seu milk-shake.
Eu tinha trazido poucas malas. Minha mãe me ajudou a comprar roupas melhores para trazer, mas ainda assim, tinha pouca coisa. Então, consegui ajudar Hannah e peguei o carrinho.
Caminhei com ela e as meninas até à Starbucks. Sentamo-nos em uma mesa enquanto a mãe delas entrou na fila para comprar outra bebida gelada para Jenny. Em questão de segundos, eu sabia que Katherine era tímida, e Jenny não era. Ouvi mais histórias sobre sua viagem para a Disney em cinco minutos do que eu pensava ser possível.
- A mamãe vai ter outro bebê. - Jenny diz enquanto coloca gominhas em sua boca. - Mas não temos um pai.
Eu não sabia como responder. Crianças geralmente não têm um filtro, elas dizem algumas coisas bizarras, então apenas respondi:
- Tudo bem. Nem todo mundo tem um pai.
Ela sorriu. Estava perdendo dois dentes da frente, o que tornou seu sorriso muito mais adorável.
- Isso é o que diz a mamãe - responde ela.
Hannah voltou para a mesa com a nova bebida da Jenny e um café para mim. Ela parecia exausta. Eu não poderia imaginar, estavam voltando de uma viagem para Disney hoje. Nos quinze minutos em que eu me sentei com elas, aprendi muito, principalmente de Jenny, e sua mãe estremecia quando ela abria a boca.
Hannah é editora executiva da revista Harper e ela está feliz solteira. Usou o mesmo doador para cada uma de suas gestações. Quando fez trinta anos, ela percebeu que não poderia esperar pelo homem certo, então decidiu fazer uma família por conta própria. Fiquei completamente admirada. Nunca conheci uma mulher tão independente.
Só precisou uma viagem para levar todas as minhas coisas para o andar de cima. A casa é grande, bonita e aconchegante. Fiquei com o quarto que tinha janela para o jardim de trás. Com o piso de madeira, as paredes de cor azul claro, o teto branco e as cortinas cinza.
Deixaram-me sozinha para desfazer as malas e arrumar as coisas no quarto. Hannah me disse que ela e as meninas iriam descansar da viagem e que eu poderia fazer o mesmo. Quando terminei de colocar as minhas roupas no guarda-roupa, peguei minha bolsa e fui ao banheiro para um banho.
Olhei para meu rosto no espelho enquanto penteava meu cabelo embaraçado e úmido. Estava pálida, sem cor. Encarando meu reflexo, fui obrigada a admitir que estava mentindo para mim mesma. Não era só fisicamente que eu nunca me encaixaria. Se eu não consegui no Brasil, quais eram as minhas chances aqui?
Eu não me relacionava bem com as pessoas da minha idade. Talvez a verdade fosse que eu não me relacionava bem com as pessoas. Até minha mãe, que era a pessoa mais próxima de mim no planeta, nunca estava em harmonia comigo.
Não dormi bem naquela noite, mesmo depois de ter falado com Sara, com minha mãe e Gabe no telefone.
***
Uma semana depois e estou começando a aprender como é a rotina dessas garotas. São sete horas da manhã de segunda-feira e estou na cozinha preparando o café para elas. Depois de terminar, eu ainda tenho quinze minutos para ver se Katherine se vestiu. Ela está naquela idade que quer escolher suas próprias roupas. Na maioria das vezes, eu a deixo escolher, porque gosto da ideia da liberdade de expressão. Mas ela tem três anos e quer usar seu tutu em todos os lugares. Houve momentos em que tive que convencê-la do contrário.
Jenny geralmente se veste enquanto estou fazendo o café da manhã. Ela nunca consegue decidir, por isso temos um desfile de roupas em potencial entre colheradas de cereal. Aos sete anos, ela tem mais roupa do que eu poderia imaginar. O resto do dia é dividido entre aulas de balé, ginástica, aulas de natação, música e, no meio disso, o almoço. São crianças ocupadas. Elas têm um calendário social maior do que a maioria dos adultos.
Jenny senta-se na banqueta do balcão da cozinha e sorri para mim. Ofereço a taça de frutas para ela, que pega um morango e coloca na boca, sorrindo enquanto o suco escorre pelo queixo.
- Você escovou os dentes? - pergunto.
Ela pega uma fatia de pêssego e responde:
- Você sabia que a babá da Emily não a faz escovar os dentes?
Cruzo os braços e estreito os olhos para ela.
- Eu acho que vou ter que falar com a babá da Emily sobre a importância da higiene bucal.
- Mas a pasta de dentes faz as coisas terem um gosto estranho - Jenny faz um beicinho.
Coloco o iogurte para ela:
- Termine seu café da manhã e, depois, suba as escadas e escove os dentes.
Jenny franze a testa, mas continua comendo as frutas. Eu não sou rigorosa com a maioria das coisas, mas escovar os dentes é importante.
Eu estava colocando a minha tigela de cereais na máquina de lavar louça quando Hannah entra na cozinha com Katherine em seu quadril. Ela está grávida de quatro meses do terceiro filho, mas pelo tamanho da barriga, parece ser mais. Nós não sabemos se é um menino ou uma menina, e nós não vamos saber até o nascimento. As meninas estão muito firmes em ter uma irmãzinha, mas acho que Hannah quer um menino.
- Tem granola hoje? - Hannah pergunta antes de beija a bochecha de Jenny.
- Sim, eu fiz! - exclamo, alegre. - E já coloquei um pouco em sua lancheira com sua vitamina e o suplemento de ferro. Também coloquei nozes, porque você precisa de seus ômega-3. Ah, e há um cupcake porque, bem, todo mundo precisa de um cupcake.
- Eu não sei o que eu faria sem você, Grace.
Essa é a coisa favorita sobre esse trabalho: o fato de que eu sou necessária. Jenny e Katherine precisam de mim. Hannah precisa de mim. Eu gosto disso. Eu gosto de cuidar das pessoas.
Hannah saiu pouco depois que Jenny terminou o café da manhã. Ela tinha um motorista esperando para levá-la para uma reunião com almoço em algum hotel de luxo no centro de Londres. Isso significa que ela vai voltar para casa muito mais tarde que o normal.
Sábado chegou muito rápido e quase não percebi. As meninas me mantinham tão ocupada que quando chega a hora de dormir, despenco na cama e durmo imediatamente.
- Até que horas vamos ficar acordadas?
Jenny está olhando para mim com seus grandes olhos azuis. Estamos em uma loja de calçados infantis para encontrar um novo par de chuteiras para o jogo de futebol dela hoje à tarde.
- Eu acho que até às dez - respondo, inclinando-me sobre o carrinho para verificar se Katherine ainda está dormindo. Ela está; adormeceu depois de choramingar para comprar-lhe um urso novo, mesmo sabendo que sua mãe não aprovaria.
- Eu acho que onze horas é um pouco mais justo - Jenny argumentou.
- Ok - sorri.
Hannah a deixou ter uma festa de pijama com meia dúzia de suas amigas. Ela estava na minha cama a semana inteira fazendo uma lista de tudo o que ela queria fazer: cupcakes, maquiagens, desfile de moda, assistir filmes...
Às vezes eu esquecia que ela tinha apenas sete anos. Ela é muito falante, extrovertida e inteligente. Definitivamente tem uma queda para o drama e é mais feliz quando é o centro das atenções, mas há algumas raras ocasiões em que ela é tímida, como quando está cansada, ou quando está em torno de pessoas novas. Ela pode ficar um pouco arrogante, mas isso não acontece vezes suficientes para que eu tenha que lhe dar uma repreensão. Normalmente, sou capaz de resolver o problema com uma conversa, e ela entende.
Deixei Jenny escolher suas próprias chuteiras. Lembrei-me o quanto eu odiava quando minha mãe escolhia as coisas para mim, então eu lhe dei a escolha. Ela decidiu em um par azul metálico, com detalhes rosa e prata.
Quando estamos a caminho do elevador, Katherine acorda. Ela está exigente, infeliz e, obviamente, com fome. Eu estava tão ocupada com as meninas, que eu quase não percebi que um homem vestindo um terno cinza estava nos seguindo desde que entramos aqui. O elevador se abre e entro às pressas, com a porta fechando antes que o homem misterioso possa chegar mais perto. Fico tremendo. Isso não é normal.
Mas tento esquecer por enquanto, afinal, eu tenho uma Katherine com fome para cuidar. E ainda preciso ir ao mercado.
Provavelmente é coisa da minha cabeça. Fiquei paranoica depois de ter sido atacada por Ryan há dois anos. Depois daquilo, sinto que estou sendo seguida o tempo todo.
Meu telefone tocou enquanto eu estava escolhendo as frutas no supermercado. Eu não o ligava durante o dia, porque se eles me ligassem, eu sabia que iria chorar, e eu não queria explicar para Jenny e Katherine. Então, eu o deixava desligado até que Hannah e as meninas estivessem dormindo, e depois eu chorava no travesseiro enquanto eu lia as mensagens. Apesar da voz no fundo da minha mente me dizendo para deixar ir para o correio de voz, eu atendi a chamada.
- Alô?
Do outro lado da linha, eu o ouvi tomar uma respiração de surpresa.
- Grace?
O senhor da balança me entregou o saco plástico com minha fruta, e eu agradeci a ele com um sorriso antes de sair.
- Oi, Gab - respondo e ele suspira. Ele ainda deve estar na cama, olhando para as estrelas que eu o ajudei a colar no seu teto.
Está amanhecendo lá agora, logo após as seis da manhã.
- Eu não achei que você iria atender.
Meu coração se afunda ainda mais.
- Eu queria te ligar de volta, amor. Eu só... eu estive muito ocupada.
Eu não gosto de mentir para ele, mas eu não quero dizer a verdade: que ouvir sua voz me faz escorregar para um lugar que eu não quero ir. Ouço seu bocejo pelo telefone. Eu não me importo com o silêncio repentino. Só ouvi-lo respirar já é suficiente.
Eu tinha nove anos quando ele nasceu, e eu sempre me esgueirava em seu quarto à noite para vê-lo dormir. Eu tinha tanto medo que ele parasse de respirar. Sempre o fazia dormir e ficava com ele quando minha mãe não podia. Lia histórias e brincávamos de carrinho. Eu teria parado o mundo se ele pedisse.
- Mamãe tentou fazer aqueles cookies de doce de leite. Não tem o mesmo gosto que os seus.
Respiro fundo, segurando o ar por alguns segundos, enquanto meu peito fica apertado.
- Como você está? - pergunto.
- Bem - suspira. - Lucas me pediu para ir jogar futebol com ele, mas eu não fui.
Fico surpresa, não porque ele decidiu não ir, mas por dizer não para o melhor amigo, que ele tanto admira.
- Por que você não foi? Você ama futebol.
Gabe fica quieto por um momento.
- Só não senti vontade.
Houve momentos que ele só iria se eu fosse junto para assisti-lo jogar. Sinto uma dor no peito.
- Como está a mamãe?
- Está bem - ele diz, calmamente. - Ela vem para casa do trabalho e, apenas se senta na frente da TV. - Isso não é surpreendente. Mas minha mãe era uma mulher de muitas palavras, antes da depressão. - E... ela chora às vezes, mas eu acho que eu não deveria saber disso. Eu a ouço à noite... Quando você vai voltar para casa?
Coloco as sacolas no porta-malas, depois das meninas terem entrado no carro, seguro o telefone com o ombro e entro no carro.
- Eu acho que vai demorar um pouco, Gabriel. - Eu odeio dizer isso a ele, mas eu não posso lhe dar esperanças.
- Não é o mesmo, Grace.
Sua voz engata, e isso quebra meu coração.
- Eu gostaria que não tivesse que ser assim.
Estou prestes a chorar. Já posso sentir as lágrimas se formando.
- Mas é.
Sua voz sai forçada, desesperada:
- Você poderia voltar para casa, e tudo seria melhor. Eu tenho certeza disso.
Tento sorrir.
- Bebê, não é assim tão fácil...
Ele fica em silêncio novamente. Meus olhos começam a lacrimejar, mas respiro fundo. Eu só tenho que
aguentar firme.
- Eu sinto sua falta - diz.
- Eu sinto sua falta também, bebê.
Eu quero desligar. Eu não posso suportar ouvir a sua voz mais.
- Se eu ligar de novo, você vai atender?
Eu nunca poderia dizer não à ele.
- Claro que eu vou.
Depois que ele desligou, me mantive firme até que eu cheguei em casa e desempacotei as compras. Coloquei Katherine na sua cama para um cochilo, enviei Jenny para casa de sua amiga ao lado e fiz para Hannah uma xícara de chá antes de me retirar para o meu quarto.
Eu mal fechei a porta antes de eu cair aos pedaços. Sentei no chão, abraçando meus joelhos, o rosto enterrado entre eles e chorei. Chorei por Gabriel, minha mãe e por mim.
* Junho de 2018 *
Katherine está em pé no meio do corredor, completamente nua, com um picolé na mão. Tem sido uma longa batalha para levá-la para o banho, e eu estou prestes a acenar a bandeira branca. Por alguma razão, as duas meninas têm uma aversão extrema para água e sabão.
- Katherine Mary Burton - ofego. - Estou pedindo a você com muito carinho...
Tiro o cabelo do rosto, e coloco as mãos na cintura. Se há uma lição nisso, é que eu estou fora de forma. Perseguir uma criança de três anos de idade por dois lances de escadas e em torno de uma sala de brinquedos não foi fácil. Eu fiz uma nota mental para colocar um lembrete em meu celular para ir para uma corrida na próxima semana, se houver tempo. Vou começar a estudar inglês hoje à noite – faz parte do pacote de intercâmbio.
- Agora, eu vou contar até três, e se você não entrar no banheiro, vamos descer e assistir aquele filme sobre a importância da higiene pessoal.
Ela sorri para mim. Seu picolé vermelho está derretendo sobre o queixo e escorrendo pelo seu peito, deixando uma poça de suco no chão. Ela está uma bagunça pegajosa com gosto de cereja, e eu tenho que conseguir tirar isso do piso de madeira antes que fique uma mancha.
- Um... dois... tr-
- Katherine. - Hannah sai de seu escritório, os óculos em uma mão enquanto ela segura o quadril com a outra. - Quando Grace lhe pede para fazer algo, você faz. - Hannah diz, com a voz firme.
Katherine lambe seu picolé e responde:
- Não banho.
Sua mãe franze o cenho e olha para mim.
- Amor, você não tem aula hoje à noite?
- Sim. Tenho que estar lá às sete.
Ela olha para o relógio no pulso. Eu sei que é apenas seis, porque Jenny tem estado em silêncio por meia hora, e isso significa que ela está em frente da TV assistindo seu programa favorito.
- Vá. - Hannah acena com sua cabeça em direção ao meu quarto. - Vá ficar pronta. Eu vou lidar com este muppet imundo aqui.
- Mas o médico lhe disse para ter calma e...
Dou um passo em direção à Kath, e ela dá um para trás, com o fluxo de picolé derretido seguindo-a.
- E eu ainda tenho tempo-
- Grace, quero que você vá e não se atrase. Não se preocupe conosco - Hannah sorri, andando até Katherine e a ergue em seus braços, ajustando-a em seu quadril, com um suspiro pesado.
- Tudo bem, mas se você precisar de mim, eu vou estar lá no meu quarto até-
- Vai ficar pronta, Grace Heinz.
A escola não é muito longe, por isso resolvi ir caminhando, chegarei lá em 15 minutos. A rua em que estou andando está muito deserta. Na verdade, Hampstead, o bairro onde Hannah mora, é um deserto depois que o comércio se fecha. Mas achei que tivesse mais pessoas aqui pela noite, assim como é durante o dia. Afinal, é um bairro turístico de Londres.
Estou andando tranquilamente, admirando a paisagem, quando um calafrio percorre minha espinha. Nunca tive medo de andar sozinha antes e eu sei me defender. Aprendi alguns golpes de defesa pessoal depois que fui atacada por Ryan.
Mas meu corpo fica tenso quando avisto o mesmo homem do shopping, usando um capuz dessa vez. Já notei que ele está me seguindo faz alguns dias. Ele está encostado em um muro a uns dez metros na minha frente, e está me encarando. Quando diminuo a velocidade da minha caminhada, ele começa a vir em minha direção.
Sinto um arrepio, daqueles que significa que você sabe que algo está errado. Continuo andando e fingindo que ele não está olhando para mim.
Quando ele se aproxima, meu coração começa a bater mais rápido, um tipo de nervosismo que normalmente só acontecia quando eu estava sobrecarregada ou em pânico.
Ele para na minha frente e agarra meu braço. Fico tensa. Ele está tão perto que posso sentir sua respiração no meu pescoço. Meu estômago dá um salto quando seu nariz encosta na minha orelha.
- Fique quieta e nada de ruim vai lhe acontecer - sussurra, sua voz rígida e grossa. O aperto no meu braço é forte.
Respiro fundo e lhe dou uma cotovelada nas suas costelas, me debato, solto-me do seu aperto no meu braço e tento correr, mas ele me alcança no mesmo instante, me puxando contra ele pelo pulso.
Rapidamente lhe dou um golpe com a palma da mão no seu nariz, fazendo-o cambalear para trás.
Corro, mas não por muito tempo. Algo atinge meu pescoço e caio no chão. Passo a mão no local atingido e retiro um pequeno dardo; ele atirou em mim. Antes que eu possa reagir, minha visão escurece e tudo se apaga alguns segundos depois.