Helena
Abro os olhos, mundo ainda gira. Minha cabeça pesa, dolorida. Ergo a cabeça devagar, tentando reconhecer onde estou, mas a escuridão é absoluta. Passo a mão pelo rosto, sentindo os dedos trêmulos. Sem firmeza nas pernas, tento me equilibrar, percebo que estou descalça. O chão é frio, úmido, há um leve gotejar em algum ponto do ambiente.
Toco meu próprio corpo, me dou conta de que o macacão de seda que eu usava na recepção do meu aniversário de dezoito anos desapareceu. Meus cabelos estão soltos e despenteados.
- Odeio lugares escuros - resmungo para o vazio.
Prendo o cabelo num coque firme, como minha mãe sempre faz quando precisa de foco, e vou tateando as paredes frias até encontrar a quina de uma mesa. Em cima dela, sinto o contorno metálico de uma luminária grande, mas não faço a menor ideia de como acendê-la.
Antes que eu possa procurar um interruptor, a porta se abre de golpe. A luz forte que invade o ambiente me cega por um instante. Instintivamente, cubro o rosto com o braço.
Uma mulher de meia-idade, vestindo um longo e vistoso vestido amarelo com bordados dourados, entra no recinto. Logo atrás dela, como sombras silenciosas, surge uma pilha de mulheres completamente cobertas. Elas usam tecidos brancos que envolvem todo o corpo e o rosto, deixando apenas os olhos à mostra. Estão tão caladas que parecem nem sequer respirar.
- Onde estou? - pergunto, com a voz falhando pelo sobressalto.
Ao me ouvirem falar, as mulheres cobertas dão um passo atrás, assustadas. Por acaso eu virei alguma assombração? Pergunto a mim mesma.
- Finalmente! - a mulher de amarelo exclama, abrindo os braços com entusiasmo, como se estivesse me esperando há um século.
A um comando silencioso, uma das criadas posiciona uma bacia grande no chão e outras duas despejam água quente dentro dela. Assim que terminam, todas se retiram em fila indiana, deixando apenas a primeira mulher a sós comigo.
Ela se aproxima sem pedir licença e segura meus ombros. Suas mãos são mornas, macias e incrivelmente lisas, mas o gesto é frio, como o de alguém que examina uma mercadoria.
- Hum... você me parece diferente das outras. Hum... Eu vou te chamar de Jasmine.
Olho fixamente nos olhos castanhos dela, trêmula de frio, enquanto o som monocórdico da goteira ecoa ao fundo.
- Me chamo Helena dos Santos Rodrigues Samartini. Filha de Juliana Rodrigues e Ricardo Samartini.
Falo trincando os dentes pelo gelo que corre na minha espinha. A mulher me encara com intensidade.
- Apesar de estar imunda, você é muito bonita, Helena. Vejo que ele vai ficar louco por você - diz ela, com um breve sorriso entusiasmado.
- Ele quem? Quem é ele? - pergunto imediatamente.
Em resposta, a mulher me gira de costas sem cerimônia e começa a desabotoar o vestido pesado que me vestiram.
- O meu senhor. Ele vai adorar você.
Ela abre o tecido e inspeciona minhas costas e nádegas, conferindo meu corpo como se avaliasse a qualidade de um animal de raça. Quando menos espero, sinto um tapa estalado em uma das minhas nádegas. Por sorte, a mão dela é pequena e leve, então o susto é maior que a dor.
- Nossa, você foi bastante abençoada! Que Alah te abençoe com muitos filhos.
Nego com a cabeça na hora. Ter filhos definitivamente não está nos meus planos. Sou profundamente grata à minha mãe por todos os sacrifícios que fez para nos manter vivos e bem após tantos problemas, mas não pretendo abrir mão da minha liberdade por ninguém. Não que eu ache a maternidade algo terrível, mas ter obrigações de família não é para mim. Entre a construção de uma família e a música, a música sempre virá em primeiro lugar.
- Que ele abençoe você! Eu não quero ter filhos - rebato.
A mulher se afasta de mim rapidamente, recolhendo as mãos como se estivessem queimando. O olhar que me lança é de puro repúdio.
- Não diga bobagens, garota. Agora vá para a água.
Ela aponta para a bacia. Entro sem resistir; a água está quente e deliciosa, um alívio imediato para o frio do calabouço.
- Isso é um sequestro? - arrisco, enquanto ela começa a passar algo gelatinoso e cheiroso nas minhas costas. - Meus pais podem pagar. Minha mãe tem dinheiro, meu pai também... até meu tio! Meu avô é um... é um embaixador!
A mulher solta uma risadinha debochada.
- Não se trata de um sequestro, Helena. Você irá morar aqui.
Viro o rosto para ela, o pavor finalmente rasgando minha compostura. Ninguém define a minha vida dessa forma. As lágrimas começam a descer quente pelo meu rosto. Não posso ficar longe da minha família; não imagino minha vida sem eles.
- Eu sei o número de telefone da minha mãe e de casa de cabeça! Se quiser, posso anotar - digo, me levantando da água em pânico.
Ela me empurra com firmeza pelos ombros para dentro da bacia novamente e diz algo ríspido em um idioma que não entendo.
- Aqui você não pode falar com sua família. Na verdade, não pode falar com ninguém. Pelo menos não por enquanto.
- Onde estamos? - insisto.
Ela se recusa a responder. Sei que não estamos mais no Brasil, nem no Chile, mas o paradeiro exato é um mistério.
Quando termina o banho, a mulher dá uma ordem em voz alta naquela língua estranha. A porta se abre no mesmo instante; as servas pareciam estar atrás da porta o tempo todo, escutando tudo. Uma delas traz um balde para recolher a água suja, enquanto outra me envolve rapidamente em uma toalha macia e uma terceira prepara a cama.
Veste-me com um vestido comprido e austero, muito parecido com as roupas que as beatas usavam na igreja onde minha avó Conça ia aos domingos. Em seguida, as servas saem e uma nova bandeja de inox prateada é trazida. Sento-me e como as frutas e os pãezinhos de formato estranho sob o olhar atento da mulher de amarelo.
Logo em seguida, a luz se apaga e sou deixada sozinha na escuridão novamente.
Passei a noite inteira em claro. No silêncio da casa, comecei a ouvir gritos abafados ecoando pelos corredores. Eram vozes de mulheres, vindas de diferentes direções, falando idiomas distintos. O máximo que consegui entender foi uma delas suplicando em inglês, entre gemidos altos: "More, please... more, Mr."
Levantei da cama e comecei a andar em círculos na penumbra. Como nunca enxerguei bem no escuro, esbarrava nos móveis, tonta de medo e insônia. Fiquei me perguntando se aquelas mulheres estavam sendo atacadas por algum tipo de monstro ou vampiro. Pensei comigo mesma: se eu tivesse que enfrentar um vampiro poliglota, nós dois teríamos que resolver essa situação na porrada.
Nas duas semanas seguintes, tentei decifrar a rotina do lugar. Quando traziam comida durante o dia, eu fingia dormir; à noite, prestava atenção às vozes. Identifiquei duas mulheres falando inglês (uma com sotaque fluente e outra derivado), uma falando francês, além de ecos em espanhol e italiano. Havia um homem com elas, e todas o chamavam de "Senhor".
Quando finalmente comecei a me acostumar àquele cativeiro subterrâneo, a mulher de meia-idade voltou. Mas, dessa vez, ela me conduziu para fora do calabouço e me levou até um quarto no corpo principal da casa.
Era a minha nova prisão, embora infinitamente mais luxuosa. O espaço era decorado em tons de rosa e dourado, com uma cama imponente de madeira escura cujas colunas iam até o teto, sustentando um mosquiteiro de seda puríssima. O colchão era incrivelmente macio.
Toquei cada detalhe daquele lugar, ainda chocada com o contraste, e notei que a mulher me observava atentamente pelas minhas costas. Viro-me de repente, pegando-a no pulo.
- Quando eu vou sair daqui?
Ela me examina com uma curiosidade quase ardente.
- Você já esteve com ele, não esteve? Está apaixonada também, como as outras?
- O quê? Não! Eu nem conheço esse homem - respondo, com a voz rouca. - Nunca estive com ele e nunca vou estar.
Ao ouvir minha resposta, a mulher sorri abertamente, e o brilho em seus olhos reaparece.
- Tudo bem. É assim mesmo que eu quero.
Ela permanece no quarto enquanto as servas cobertas de branco começam a organizar dezenas de vestidos elegantes em cabides. Eram peças refinadas, nada comparadas aos trajes de beata do calabouço.
- Eu quero que você seja a melhor! - a mulher fala alto, encarando-me de frente. - Você tem que se destacar entre todas, principalmente porque é a mais bonita.
Porra, onde foi que eu me meti?, penso, mantendo a boca fechada enquanto escuto.
- Coma pouco e mantenha esse corpo perfeito - ela continua com as instruções. - Sempre que tomar banho, passe o óleo do pote transparente. Escove os cabelos, esteja sempre arrumada, com dentes limpos, postura ereta e alinhada.
Ela tira de uma bolsa uma pequena vara de madeira e começa a usá-la para corrigir minha postura, tocando meus ombros e minhas costas.
Pronto, ferrou. Fui sequestrada por uma bruxa, penso, desesperada. Mãe, vem me buscar logo!, imploro em meu pensamento.
Quando a varinha chega à minha cintura, recebo uma batida firme na bunda que me faz dar um salto.
- Empina esse bumbum! Se ele te trouxe para cá, é porque gosta disso. E isso você tem de sobra, mais do que qualquer uma das outras.
Engulo o grito de dor, empino as costas e coloco o peito para a frente. Me sinto uma verdadeira pata - só falta começar a fazer quack, quack, quack.
Após a sessão de etiqueta forçada, me sento na cama, dolorida.
- Perfeita! Ele vai ficar louco - ela comemora com um sorriso esnobe.
- Como é o seu nome? - pergunto.
Ela hesita por alguns segundos antes de responder:
- Me chamo Hortência. Sou a governanta desta casa. Cuido de você e das outras, mas a minha atenção especial será sua.
Hortência segura meu queixo, avalia meu rosto mais uma vez e finalmente me deixa sozinha.
Vou direto até a janela. Lá embaixo, estende-se um jardim impecável de tulipas e, mais adiante, um portão alto de ferro escuro. O inferno pode até ser bonito, mas continua sendo o inferno. Olho para a altura; se eu pulasse, certamente quebraria as pernas, mas talvez saísse viva.
Na penteadeira de madeira, vejo uma escova de cabelo pesada. Pegando o objeto, me debruço na janela e o atiro com força lá para baixo para testar a reação dos guardas.
Poucos minutos depois, surge no portão um homem forte, loiro, vestindo uma túnica marrom. Droga, é claro que tinha segurança.
Antes que eu possa pensar no próximo passo, a porta do quarto se abre. É Hortência, trazendo a escova que joguei nas mãos.
Puta que pariu. E eu aqui esperando a resposta da escova, penso, congelando no lugar.
- Pensei que você fosse mais inteligente - Hortência diz, erguendo a escova. - Não fez escândalos, não gritou, não chorou, nem gemeu... e agora isso, Helena?
- Eu ia pentear os cabelos e a escova escorregou da minha mão - minto descaradamente, soltando o coque na hora para dar veracidade ao meu álibi.
Hortência nem sequer pisca.
- Se fizer isso novamente, o Senhor irá puni-la. E acredite: será muito doloroso.
Ela coloca a escova de volta na penteadeira enquanto outra serva traz uma bandeja de refeição. Sento-me para comer sob o olhar vigilante de Hortência. Desde que cheguei, sou forçada a comer com as mãos. Será que esse povo não conhece talheres?
- Helena, eu não estou aqui para ser sua inimiga. Quero ser sua amiga - ela diz, mudando o tom.
Solto uma risada debochada e me viro para ela.
- Se você é minha amiga, me ajuda a sair daqui! Minha mãe deve estar sem dormir, sem comer... Eu tenho família! Tenho irmãos, pai, avós, tios que devem estar loucos atrás de mim!
- Não posso ajudá-la com isso. Sou apenas uma serva - responde, fria.
- Então me leve até o seu patrão. Eu vou convencê-lo a me libertar.
Hortência me olha de cima a baixo com desdém.
- Você não vai até ele. Se ele quiser, e quando ele quiser, ele virá até você.
- Cara escroto do caralho - resmunguo entre dentes.
- Não fale palavrões! Aqui é terminantemente proibido.
- E se eu falar, o que vocês vão fazer comigo? Prefiro morrer a viver longe da minha família!
Hortência sai do quarto sem dizer nada e retorna minutos depois trazendo algumas folhas de papel. Ela começa a ler as regras da casa em voz alta, um conjunto de absurdos onde a palavra "Senhor" aparece no início e no fim de cada frase. Basicamente, eu teria que virar a servente particular dele e ficar de boca fechada.
- O quê? Ele acha mesmo que vai fazer isso comigo? - pergunto, chocada.
Hortência arqueia uma sobrancelha e sorri.
- Sim. Isso e tudo mais o que ele desejar.
Arranco os papéis da mão dela. Quando tento ler, vejo que são símbolos completamente estranhos para mim.
- Isso é árabe? Vocês são árabes?
Ela apenas balança a cabeça, enigmática.
- Pois pode dizer para esse árabe filho da puta que ele não vai tocar num único fio do meu cabelo! Se meu pai descobre isso, ele derruba esta casa e mata esse escroto!
- Helena, acalme-se. Não é assim que funciona. Ele não fará tudo de uma vez; ele vai testando seus limites aos poucos, até onde você aguentar.
- Ele que vá testar na puta da mãe dele! Então... é isso que ele faz com as mulheres que gritam a noite inteira?
Hortência assente com a cabeça, pega as folhas da minha mão e volta a ler com voz solene.
Terceira Regra: Não falar, não encarar os olhos dele e nunca beijar sua boca, nem mesmo se ele ensaiar um beijo.
Quarta Regra: Não atingir o êxtase sem a permissão dele. Sem permissão, haverá castigo.
Quinta Regra: Nunca gritar ou pronunciar o nome dele. Se alguém o disser, cubra os ouvidos.
Sexta Regra: Lembre-se: você é uma submissa. Não tem vontades nem desejos. Seus desejos são unicamente os que o seu dono determinar.
- Que porra de regras são essas, Hortência?! - coloco as mãos nos ouvidos, horrorizada.
Tomo os papéis de sua mão e os rasgo em vários pedaços.
- Helena, não faça isso! Você precisa aprender tudo! Se não aprender, será brutalmente castigada!
- Pois que me castigue! Eu não vou cumprir exigência nenhuma! - declaro, cruzando os braços.
Hortência me lança um olhar severo de advertência e deixa o quarto.
Volto para a janela. Para passar o tempo, passo a tarde toda provocando o segurança lá embaixo. Dou "psiu", dou tchauzinho e dou risada. O homem fica visivelmente sem jeito, envergonhado, e acaba trocando de posto com outro guarda.
- Covarde! - grito da janela, rindo ao vê-lo se retirar.
Mais tarde, uma criada traz o jantar. Hortência não aparece. Como apenas as frutas e me deito na cama para descansar.
Já é quase noite quando a porta se abre de novo. É Hortência. Ela faz um sinal para a criada recolher a bandeja e me encara.
- Me conta mais sobre essa história de ser submissa - peço, curiosa apesar de tudo.
Hortência sorri, satisfeita. Tira outro papel do bolso e me entrega. Este está escrito em inglês.
- Eu tenho que ler? Que coisa chata... Você não pode me contar?
Ela nega com a cabeça e se senta na poltrona. Começo a ler as regras em voz alta e, à medida que leio, nós duas começamos a conversar e até a rir das absurdidades ali escritas. Era tudo tão exagerado que eu estava curiosa para ver como ele aplicava aquilo nas outras mulheres, porque em mim, com certeza, não funcionaria.
- Você é bem mais interessante do que eu pensava, Helena. Menos encrenqueira que as outras - Hortência admite.
- Eu sempre fui assim - dou um sorriso mais leve. - Sou a mais tranquila dos meus irmãos. Na verdade, pela minha mãe somos Heloise, Saulo, eu e o Saymon. Da parte do meu pai, tem o Bryan.
- Você tem uma irmã com o seu nome? Que diferente.
- Na verdade, meu nome no documento é Helena, mas todo mundo me chama de Helen. Eu prefiro Helen. A outra Helena é filha do meu tio Júlio, mas minha mãe a cria desde pequena como se fosse filha dela. As duas são grudadas, explico, me lembrando de casa.
- Helen... Quanto mais eu te conheço, mais gosto de você - diz Hortência.
Aquela frase faz com que eu comece a vê-la de forma diferente. Nos dias seguintes, passamos a conversar com frequência. Os dias foram ficando mais toleráveis, embora a rotina continuasse a mesma: eu provocando os guardas da janela e os gritos noturnos se alternando com noites em que alguém tocava um instrumento suave pela casa.
Um mês se passou desde a minha chegada. Eu ainda não tinha visto o rosto do tal "Senhor Escroto". A mistura de ansiedade e medo continuava ali, mas minha resolução permanecia intacta: quando ele finalmente aparecesse, eu daria um jeito de fazê-lo me libertar. Aquilo só podia ser um engano. Esse tipo de coisa só funciona com quem quer ser submissa, e esse, definitivamente, não era o meu caso.
Estava distraída, encarando o teto do quarto rosa e dourado, quando ouvi o som diferente do de costume: não eram os passos leves de Hortência nem o andar silencioso das servas.
Eram passos pesados, firmes, ecoando pelo corredor e parando exatamente diante da minha porta.
A maçaneta dourada girou devagar.
Quando acordei, senti um leve aroma perfumado no ar. No primeiro segundo, minha mente tonta não conseguiu identificar o cheiro, mas eu o conhecia de algum lugar. Ele impregnava todo o quarto.
O som abafado da porta se fechando indicava que alguém acabara de sair. Já era dia novamente. Levantei me sentindo estranhamente descansada, fiz minha higiene matinal e, quando estava lutando contra a fila interminável de botões nas costas do meu vestido, a porta se abriu.
Hortência entrou ostentando um sorriso radiante e carregando uma bandeja de café da manhã exageradamente farta.
- Já vi que a sua missão aqui é me deixar gorda igual a uma porca - resmunguei, ajustando a gola.
Ela soltou uma risadinha suave:
- Queria que todas as mulheres nesta casa tivessem o seu bom humor, Helena.
- Também pudera! Vocês não dão o que elas querem - rebati na hora. - Elas passam a noite urrando, berram pedindo por mais e ninguém resolve nada. Pelo amor de Deus, deem um homem para cada uma daquelas mulheres!
Hortência continuou rindo enquanto colocava a bandeja sobre a penteadeira e se posicionava atrás de mim para terminar de fechar meus botões.
- Haverá uma cerimônia muito importante em breve - disse ela, com tom misterioso. - E o Senhor me perguntou se você está pronta para acompanhá-lo.
Um estalo deu na minha cabeça.
- Eu? Vou pedir ajuda na primeira oportunidade que tiver de colocar os pés fora dessa casa! Com certeza! - falei animada, quase me engasgando no meu próprio entusiasmo.
- Sendo assim, irei considerar que você não está pronta, Helena - respondeu ela com serenidade.
Franzi as sobrancelhas, encarando-a pelo espelho. Eu tinha me esquecido por um segundo de que Hortência, acima de tudo, trabalhava para ele.
- Não! Por favor, não faça isso, Hortência - virei-me, segurando suas mãos em tom quase suplicante. Era a minha chance de ouro para escapar.
- Fique calma. Lá fora, ninguém irá reconhecer você, e você não conhecerá a ninguém. Mas, entre você e as outras, acho que você é a melhor escolha para acompanhá-lo. Ele achou estranho a princípio, mas eu o incentivei a aceitar sua companhia.
- Hortência! Você ficou louca?! - exgradei, sobressaltada. - Ele aceitar a minha companhia? Eu nunca iria querer ser acompanhada por esse sequestrador idiota! Quero mais é que ele se exploda. Ele vai achar que estou querendo cortejá-lo como as outras!
- Vejo que me enganei completamente a seu respeito - provocou ela, terminando o último botão. - Pensei que, entre todas, você seria a que mais o agradaria. É fina, culta, educada, divertida... Além disso, vocês falam línguas totalmente diferentes. Será bom para irem se acostumando um com o outro.
Pensar em línguas diferentes reacendeu minha chama. Ótimo. Posso xingá-lo de todos os nomes e ele não vai entender nada. Mas logo me veio a dúvida: E como diabo vou pedir socorro se ninguém me entender?
- As outras pelo menos são humanas? - ironizei. - Se eu sou tudo isso, nem quero imaginar o resto.
- Acho você mais bela que as demais - Hortência disse, ajeitando meu colar. - Você tem uma semelhança maior com as mulheres do nosso país do que as outras.
- Para mim tanto faz. Isso tudo tem horas contadas mesmo.
Sentei-me na cadeira da penteadeira e comecei a devorar uma fruta roxa estranha, mas incrivelmente saborosa, que sempre vinha no café. Hortência pegou a escova e começou a desembaraçar meus cabelos com movimentos suaves.
- Você gosta dele, não gosta? - perguntei de repente.
Ela parou a escova, confusa:
- De quem eu gosto?
Dei uma risada, me sujando levemente com o suco roxo da fruta. A expressão de dúvida no rosto dela era cômica.
- Do meu cabelo!
- Ah... - ela assentiu, voltando a pentear. - Acho seus cabelos lindíssimos. Sua mãe deve ter cuidado muito bem deles.
- Coff, coff! - me engasguei com o suco. - Minha mãe? Cuidar dos meus cabelos? Não! Eles são naturais e puxaram aos dela. O meu e o da Louise.
Não queria desmerecer a dona Juliana, mas a vida da minha mãe sempre foi uma correria louca para manter a casa funcionando; ela não tinha tempo para ficar fazendo penteados na gente.
- Louise? Nome bonito - comentou Hortência.
Sorri no automático. Tudo na minha irmã era bonito.
- É Heloise, mas chamamos de Louise. Sapeca igual a uma peste! Se ela estivesse aqui no meu lugar, este casebre já teria vindo abaixo faz tempo.
- Ela é pior que você?
Assenti, pegando um pedaço de pão recheado e falando com a boca meio cheia:
- Muito, mas muito pior! Sabe aqueles furacões de areia que dão no deserto e levam tudo pelos ares? - Vi Hortência levar a mão à boca, assustada. - A Louise é infinitamente pior!
- Que bom que o Salim escolheu você e não ela - Hortência suspirou aliviada. - Alah nos abençoou nessa escolha.
Parei com o pão no meio do caminho. Salim. Finalmente um nome para o homem que me mantinha naquele cativeiro de luxo.
- Ninguém aguentaria ter que recolher os cacos das coisas neste quarto todos os dias - continuou ela.
Tomei um gole do chá condimentado. Havia uns caroços e borras no fundo da xícara que eu costumava mastigar no final; com o passar dos dias, tinha começado a gostar daquilo.
- Na verdade, prefiro que ele tenha me trazido no lugar dela. Minha irmã é muito mais sensível e já passou por alguns traumas pesados. Eu aguento o tranco.
Hortência terminou de fazer uma trança embutida enorme no meu cabelo e sentou-se na borda da cama.
- Acho muito bonito o jeito como você fala da sua família, Helena. Vejo um amor verdadeiro nos seus olhos.
Olhei-me no espelho, admirando o penteado impecável.
- Linda é essa trança que você faz. Nossa, preciso aprender a fazer uma dessas!
- É fácil. As outras mulheres não gostam que eu prenda o cabelo delas; nem deixam que eu as toque. Fazem de tudo para chamar a atenção dele a qualquer custo. Com você é diferente... Como ainda não o conhece, posso continuar sendo sua amiga. Mas, quando as mulheres o conhecem, tudo nelas muda.
- Pois eu não faço a menor questão de conhecê-lo! Ele pode ficar todinho para elas. Faço questão de doar cada milímetro do corpo dele para cada uma daquelas malucas. - levantei-me dando de ombros.
Hortência riu do meu biquinho de deboche.
- Eu só quero sair daqui, ver minha família e tocar música para eles.
- Você dança? - perguntou ela, curiosa.
- Às vezes, nas festas de família - respondi, um pouco tímida. - Sou uma mistura de brasileira com chileno, sabe, Hortência? A festa está no sangue! Minha mãe é organizadora de eventos.
- E o que você dança?
- Samba, pagode, funk... O que tocar, eu tô dançando!
- O Senhor vai adorar saber disso...
- Oxe! Nem ouse abrir a boca sobre isso para ninguém! - coloquei as mãos nos quadris, igualzinha à minha avó Paula, baiana nata.
- Por que não? Os homens ficam felizes quando as mulheres dançam para eles. Eles dão muitos presentes!
- KKKKKK! Me poupe, Hortência! Dançar para ganhar presente? Eu tenho uma mãe bilionária, um pai milionário e ainda tenho o tio Júlio, que me dá o que eu quiser! Dançar para agradar homem? Tá doida?
Hortência se levantou, visivelmente desconfortável com minha resposta.
- Helena, hoje você poderá caminhar pelo jardim e pela casa. Apenas deste lado! O outro lado pertence às outras mulheres... por enquanto.
Meus olhos lacrimejaram no mesmo instante, como os de uma criança diante de um brinquedo novo. Fazia mais de um mês que eu não via a luz do sol sem ser através de uma janela.
Hortência pegou a bandeja e saiu do quarto. Eu a segui, observando a arquitetura imponente da casa: tons de preto, branco e cinza, com uma grande escadaria de mármore negro.
No corredor, ela entregou a bandeja com os restos do café para uma serva de cabelo coberto. A mulher me encarou com curiosidade, mas, ao perceber o olhar severo da governanta, baixou a cabeça imediatamente.
Hortência repreendeu a criada naquela língua estranha. Em seguida, outra serva apareceu trazendo um pedaço de cetim. Hortência o envolveu na própria cabeça como um lenço, prendendo-o sob o queixo.
- Hortência, por que as mulheres não podem mostrar o cabelo aqui?
A criada se retirou rapidamente. Em vez de responder, Hortência veio na minha direção com um lenço azul-celeste e fez o mesmo em mim. Ignorei o silêncio dela e saímos de braços dados.
Assim que passamos pela enorme porta de madeira, meus pés tocaram o caminho de pedras do jardim. O ar fresco foi um alívio. No entanto, ao longe, perto do portão da casa vizinha, duas mulheres cobertas me observavam. Uma tinha olhos verdes marcantes; a outra, olhos azuis.
- Quem são elas? - perguntei.
- Submissas - respondeu Hortência, com uma sombra de amargura no olhar.
As mulheres começaram a cochichar entre si na mesma língua que Hortência usava com os funcionários. O tom parecia agressivo.
- Por que ela fala como se estivesse brigando? Misericórdia, que idioma é esse?
Hortência guiou-me para o lado oposto, conduzindo-me até um canteiro espetacular de tulipas vermelhas. Lá estava o guarda loiro que costumava me vigiar. Ao me ver chegar com a governanta, ele baixou a cabeça imediatamente.
- Safado... - murmurei. - Homem é tudo igual. Quando estou na janela, ele fica me secando. Até mostrei minha calcinha para ele outro dia!
- Helena! Você não fez isso, fez?! - Hortência parou, chocada.
- Fiz! O problema é dele por ter olhado!
Deixei Hortência discutindo em voz alta com o guarda - descobrindo, inclusive, que o homem não era mudo coisa nenhuma, pois falava mais do que homem em mesa de jogo. Aproximei-me das tulipas, sentindo a maciez das pétalas no rosto e inalando o perfume doce das flores.
Hortência voltou aborrecida:
- Você nunca mais ouse olhar para ele! Está me ouvindo, Helena?
- E o que tem eu olhar? Deve ser tão feio quanto o seu Senhor. Nenhum dos dois me interessa, tenha certeza!
Ela resmungou algo que pareceu um xingamento em seu idioma, mas logo abriu um sorriso espontâneo. Caminhamos pelo jardim imenso. Corri pela grama, andei sob o sol e me deixei suar.
Ao meio-dia, uma serva trouxe uma nova bandeja de refeição. Hortência estendeu um tecido branco impecável sobre a grama e organizou o almoço.
- Que língua é essa que você fala com elas, Hortência? - perguntei, pegando uma fruta suculenta.
- Ainda é cedo para você saber dessas coisas, Helena. Mas me prometa que nunca mais vai se mostrar na janela para os guardas.
- Não se preocupe. Eu não gosto de homens! Se você é apaixonada pelo seu Senhor, pode ficar tranquila: eu nunca vou quere-lo para mim.
Hortência quase engasgou:
- Helena! Como assim não gosta de homens? Os homens são os únicos que podem dar uma vida digna para nós, mulheres!
- Isso é machismo pura bucha, Hortência! Eu posso ter a vida que eu quiser, com ou sem homem do meu lado!
Ela soltou uma gargalhada tão alta que o guarda olhou na nossa direção. Constrangida, ela disfarçou. Peguei uma fruta e a entreguei em suas mãos.
- Você nunca come comigo. Fica sempre do meu lado igual a uma estátua. Você come por acaso?
Hortência sorriu e deu uma mordida na fruta.
- Na minha casa, minha mãe sempre priorizou as refeições em família - comentei, nostálgica. - Sentamos todos na mesa enorme da sala de jantar. É sempre uma bagunça deliciosa.
- Acho que eu ia gostar de conhecer sua mãe. Parecer ser uma mulher muito sábia.
- A dona Juliana? Ela é fantástica! Estranho é ela estar demorando tanto para me achar aqui...
O sorriso de Hortência vacilou.
- Sua mãe não vai te encontrar, Helena. Desculpe te decepcionar, mas ninguém vai te achar aqui. E, mesmo se acharem, ninguém teria coragem de enfrentar o meu Senhor para resgatar você.
Engoli o biscoito a seco. Minha mãe sempre disse que eu era extremamente observadora, e agora eu precisava usar essa qualidade mais do que nunca para sobreviver.
Caminhamos mais um pouco, aproximando-nos da ala onde as outras mulheres ficavam. Elas se amontoavam nas grades para me ver, falando alto, apontando e lançando olhares cheios de raiva. A mulher de olhos verdes segurava as grades com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.
Se elas estavam com raiva, eu entendia. Estar preso contra a vontade é um inferno. Se para mim, com um mês, já era insuportável, me perguntei há quantos anos elas estavam ali.
Hortência trocou palavras ríspidas com elas. Senti uma onda de aperto no peito, abracei o braço de Hortência e dei as costas. Ao me virar, encarei o prédio principal. Não era uma casa; era um verdadeiro palácio, como os de filmes orientais.
- Gostou? - perguntou Hortência, vendo meus olhos passearem pela arquitetura.
- É lindo... Mas os dois lados da propriedade têm acesso entre si?
- Tinham. Mas o Senhor mandou selar as passagens há algum tempo. E acredite: você não iria gostar nada de conviver com elas do outro lado.
- Nem eu. Já me basta a Louise e o Saulo brigando o dia todo em casa. Aturar mulher ciumenta agora seria demais.
Um carro preto luxuoso, de vidros com insulfilm escuro, entrou na garagem lateral. O guarda no portão me encarou fixamente, fazendo um sinal discreto para que entrássemos.
Dentro de casa, vi criadas correndo para se esconder de nós. Uma delas, que descia as escadas, deu meia-volta e se trancou em um quarto.
- Vamos para o seu quarto agora - disse Hortência.
- Ué? Você não disse que eu podia andar pela casa à tarde?
- É melhor ir para o seu quarto agora - sentenciou ela, num tom que não admitia réplica.
Subi as escadas pisando fundo. Na sala principal, havia um piano de cauda maravilhoso. Se as mulheres do outro lado podem tocar e cantar, por que eu não posso?
Entrei no quarto e me joguei na cama. O ambiente cheirava a lavanda fresca, bem diferente do aroma amadeirado e com toques de canela daquela manhã. Senti o lenço apertando meu pescoço, arranquei o pano e o arremessei longe.
Deitada ali, a ficha caiu. A saudade da minha casa, do abraço da minha mãe, dos meus irmãos, dos meus avós e tios veio como uma onda devastadora. As lágrimas rolaram sem controle. Peguei meu diário na gaveta e comecei a escrever desordenadamente, desabafando sobre a falta que todos me faziam.
Hortência entrou no quarto e me viu chorando.
- Helena... por que está chorando? É pelo que as outras disseram? Não se preocupe, elas não têm o amor dele...
- Eu quero que elas, ele e todo mundo neste lugar se danem! - gritei, copiosamente. - Eu quero ir para a minha casa! Eu não quero homem nenhum! Não nasci para bajular ninguém!
Hortência ficou estática, assustada com o meu surto. Quando percebeu a gravidade do meu colapso, aproximou-se e me acolheu em um abraço forte.
Mais tarde, tranquei-me no banheiro. Entrei debaixo do chuveiro de roupa e tudo, deixando a água quente misturar-se com minhas lágrimas. Hortência entrou logo em seguida trazendo uma xícara fumegante numa bandeja.
Ao me ver encharcada, ela se aproximou, desligou a água e começou a passar a mão carinhosamente pelos meus cabelos, cantarolando uma cantiga numa língua desconhecida. A melodia era suave, estranhamente familiar, e trouxe uma onda súbita de paz ao meu peito.
Ela me ajudou a me enxugar e me vestiu com um roupão rosa-bebê.
- Eu odeio rosa - resmunguei, fraca.
- Tem certeza? Todos nós sabemos que é a cor preferida de toda garota ocidental.
- Eu não sou como toda garota ocidental.
Ela me levou para a cama, fez-me beber todo o líquido quente da xícara e começou a massagear meus pés com um óleo essencial. Em poucos minutos, meus olhos pesaram e adormeci profundamente.
Tive um sonho confuso. Minha mãe estava sentada na plateia de um teatro enorme assistindo a um concerto. Ao lado dela estavam Saulo, Heloise, Helena, Saymon e meu pai. Procurei por mim na plateia e no palco, mas eu não estava lá. Havia apenas uma escuridão densa e vozes ecoando ao fundo.
Acordei sobressaltada, com o coração na boca.
Na penumbra do quarto, vi a sombra de alguém cruzando a porta de saída. O ambiente estava impregnado por um perfume marcante de canela e madeira. Sobre a penteadeira, havia um arranjo exuberante de tulipas vermelhas.
Fiquei sentada na cama, tentando recuperar o fôlego e processar o pesadelo.
Pela manhã, Hortência entrou trazendo o café.
- Bom dia, Hortência - cumprimentei, tentando parecer normal.
- Bom dia, minha querida. Como você está? Soube que teve pesadelos a noite toda...
Encarei-a imediatamente:
- Como assim "soube"?
- Coisas que um semblante cansado revela... - desconversou ela.
- Não inventa desculpas, Hortência! Você não quer me dizer que ele esteve aqui... não é? - olhei para o roupão amassado no meu corpo.
- Não se preocupe. O meu Senhor jamais faria o que você está pensando sem a sua permissão.
- Acho bom! Porque, na primeira oportunidade...
- ...você arrancaria as bolas dele - completou Hortência, sem piscar.
- Que bom que você já decorou!
- E depois se lamentaria por ele não poder lhe dar filhos - brincou ela.
- E quem em sanidade mental quer dar filhos a um sequestrador?! Aquelas malucas querem isso? - apontei para a janela.
- Sim. Elas querem. A primeira que engravidar dele se tornará a primeira esposa.
- Que idiotice! Pois de mim ele não ganha nem um dente de leite.
- Vá logo se arrumar, Helena, antes que Alah desça pessoalmente para te castigar por tantas blasfêmias!
Enquanto eu escovava os dentes no banheiro, vi pelo espelho uma serva trocar os lençóis da minha cama, substituindo a colcha rosa por uma de tom azul-claro.
Minutos depois, Hortência veio ao meu encontro. Pegou a escova da minha mão sem dizer uma palavra e começou a pentear meus cabelos em absoluto silêncio.
- O Senhor liberou a casa para você conhecer - disse ela finalmente. - Você pode andar por quase todos os cômodos... mas não ouse ir à cozinha. E não abuse, pois o castigo pode ser severo.
Abri um sorriso de orelha a orelha. Descemos as escadas e encontramos uma fileira de criadas a postos. Todas usavam lenços cobrindo os cabelos.
- Hortência, o que é isso?
- O Senhor quer que você conheça os criados. A partir de hoje, você não poderá mais ficar a sós comigo na casa; qualquer ordem para eles deve ser dada por meu intermédio.
- E por que isso?
- Acho que ele suspeita que temos algum envolvimento amoroso - Hortência deu de ombros. - Não sei o que passa na cabeça dele.
- KKKKKK! Eu e você?! Esse homem é completamente louco! - gargalhei.
Uma das criadas me encarou com desdém, avaliando-me de cima a baixo como garotas maldosas da escola. Logo em seguida, porém, todas se curvaram em uma reverência profunda.
- Quem são eles, Hortência? Meus súditos? - brinquei, apontando o indicador.
- Todos estão aqui para servir à vontade do nosso Senhor.
- Nosso não. Ele não é meu senhor e nunca será - afirmei com firmeza.
Hortência olhou para mim com um leve sorriso nos lábios e respondeu.
- Veremos.
Salim
Conheci a garota nova durante uma visita ao Chile na companhia de Mohamed. Ele havia me convencido com a ideia de expandir nossos negócios para lá em sociedade com o tenente Júlio Albuquerque. Ao analisar o folheto da proposta, vi que Júlio era um homem sério e com excelente reputação para os padrões ocidentais. Sua fortuna conjunta com a da esposa ultrapassava um trilhão e meio, algo raríssimo no mundo dos grandes negócios.
Descendente de portugueses, ele me pareceu o parceiro ideal para a extensão da nossa rede de hotéis. Não que eu precisasse aumentar meus bens; meus economistas garantiam que minha fortuna sustentaria até a sexta geração, além de eu já possuir sociedades nos Estados Unidos, Inglaterra e França. Mas aceitei os conselhos de Mohamed para não desdenhar da oportunidade.
No Chile, encontrei um cenário muito diferente do que esperava. O tenente Júlio era um homem respeitado, trajando farda repleta de medalhas, com um escritório coberto por fotografias da família, troféus e honrarias. Fechamos negócio na mesma tarde. Ele era direto, sem enrolações ou pegadinhas nas cláusulas contratuais.
Após a reunião, fomos a uma das boates localizadas em seus prédios comercialmente prósperos. Mohamed, sempre afeito a festas, me levou a um local repleto de mulheres vestidas com trajes sumários. Enquanto meu irmão, mesmo casado, saiu acompanhado por duas delas, fiquei no balcão bebendo a noite toda. Embora o álcool seja um pecado em minha terra, não me considero um homem estritamente religioso a esse ponto; transitar entre o Ocidente e o Oriente exige certa flexibilidade de costumes.
Naquela época, eu já mantinha seis submissas em meu castelo, cada uma de uma nacionalidade diferente: francesa, chinesa, italiana, americana, inglesa e jordaniana. No entanto, não me deitaria com nenhuma daquelas ocidentais da boate, pois as achava fúteis e esnobes. Meu pai quase enlouquecia quando eu rejeitava casamentos formais para viver com minhas submissas. A verdade é que não nasci para viver preso a ninguém sob as leis de outros; não sou como Mohamed, que se acomodou facilmente.
Enquanto tomava meu uísque, vi um grupo de garotas dançando e bebendo. Uma delas chamou minha atenção imediatamente: era belíssima e graciosa. Mandei o garçom servir uma bebida ao grupo, mas a garota mais bonita rejeitou a oferta. Ela procurou na multidão quem havia oferecido a bebida até o garçom apontar na minha direção. Ergui o copo em um cumprimento cortês, exatamente como os homens fazem no Ocidente, e ela veio feroz na minha direção. Sorri de leve, erguendo a sobrancelha. Não buscava sua companhia, apenas queria agradá-la, mas me pareceu aceitável que ela se aproximasse.
Uma mulher costuma ficar ainda mais bela ao ser agradada, porém aquela garota fez o oposto: jogou o líquido do copo diretamente no meu peito, me deixando impregnado pelo cheiro forte de álcool. Em seguida, girou nos calcanhares como um gênio retornando à lâmpada e voltou rindo para as amigas. Senti-me humilhado.
Fui ao banheiro masculino para me limpar e, no corredor, dei de cara com ela. Estávamos frente a frente. Desta vez, ela vestia uma blusa brilhante, menos espalhafatosa, com o cabelo negro solto na altura dos quadris, a calça jeans escura colada ao corpo e tênis brancos. Meu coração acelerou ao ver seus passos em minha direção. Quando nossos ombros se esbarraram, ela tocou meu terno manchado de álcool. Senti o calor de suas mãos e seu aroma leve de baunilha abafado pelo cheiro forte da bebida.
Olhamo-nos fixamente. Ela tinha sobrancelhas escuras, olhos pretos brilhantes, nariz afilado e lábios carnosos e rosados. Falou algo enquanto eu permanecia em êxtase, observando o movimento de sua boca e seus cílios. Ao sentir o cheiro forte de álcool, sua expressão mudou. Ela segurou meu casaco com cuidado e, hipnotizado por sua beleza, eu o tirei sem perceber o que fazia. Ela sorriu devagar. Meus olhos caíram involuntariamente para a blusa mais curta, imaginando seus seios redondos.
Ela tirou meus pertences dos bolsos do terno e entrou no banheiro feminino. Quando desapareceu pela porta, retornei a mim, arrepiado, encantado e excitado. Vinte minutos depois, ela voltou, entregou-me o paletó limpo e sorriu novamente antes de ser puxada por uma amiga pela multidão. Ao vestir o terno ainda morno, notei que seu perfume de baunilha havia ficado impregnado no tecido.
Ela era linda, mas me lembrava um gênio ruim. Voltei para a festa com o terno limpo, e lá estava ela de novo, exibindo um vestido longo brilhante. Às vezes me olhava, fazia caretas e chegou a me dedar o meio. Decidi ir embora, deixando Mohamed para trás. No estacionamento, enquanto procurava por Samar, vi a garota novamente. Ela chorava, batia no volante com raiva e abriu o capô do carro para tentar consertar algo. Ignorei a cena e fui para o hotel.
Na manhã seguinte, Mohamed chegou ao hotel em péssimas condições. Uma semana se passou rapidamente e fomos do Chile para o Brasil para negociar com o fazendeiro Ricardo Samartini, amigo de Júlio. Fomos atendidos no escritório do sogro do tenente Júlio, onde vi um quadro enorme na parede retratando uma mulher muito parecida com a garota que me humilhara. Na mesa, havia porta-retratos da própria garota segurando um instrumento musical, além de fotos de outros jovens. Mohamed explicou que a mulher no quadro era esposa de Júlio, e a garota parecida com ela era filha de Ricardo.
Instalados em um hotel em São Paulo, esbarrei sem querer com uma moça de cabelos negros longos na recepção. Quando Mohamed pediu desculpas, percebi que era ela de novo: a odalisca. Saí de perto para conter minha irritação, enquanto Mohamed conversava com ela. Ela vestia uma saia jeans justa que destacava suas coxas e pernas, e uma blusa que acompanhava o ritmo de sua respiração. Fiquei mordendo os lábios ao avaliar seu corpo, mas ela nem sequer me notou. Mohamed percebeu meu olhar e brincou: "Se controla, irmão. As brasileiras são bravas, mas muito boas de cama."
Eles passaram a tarde conversando e Mohamed sequer me apresentou. À noite, soube que era aniversário dela e haveria uma comemoração em uma boate. Mohamed foi; eu decidi ficar no quarto assistindo a um jogo de futebol. Quando a partida terminou, decidi ir até a festa para ver o ambiente. Ao sair do quarto, encontrei a garota no corredor vestindo um vestido vermelho. Descemos pelo elevador em silêncio; o perfume dela agora era diferente, mais forte.
No estacionamento da boate, ela desceu de seu carro branco e franziu o cenho ao me ver chegar. Entrei no local logo em seguida. Pouco depois, vi a garota subir ao palco usando um macacão bege-claro. Ela falou ao microfone, sob aplausos de todos, e sentou-se ao piano de vidro para tocar uma melodia impecável. Mais tarde, ela voltou ao palco com um vestido vermelho colado ao corpo e exibiram um vídeo com um rapaz que eu já tinha visto nas fotos do escritório.
Cansado da movimentação, fui para o estacionamento e vi Mohamed saindo acompanhado por uma mulher loira. Entendi que o caminho estava livre, pois ele não tinha interesse na brasileira. Voltei para o interior da festa e a encontrei perto do banheiro feminino. Ordenei a Samar que a pegasse. Ele agiu com rapidez, aplicando uma substância em seu nariz para fazê-la desmaiar, e a carregou para o porta-malas do carro. Saí tranquilamente pela porta da frente.
Com minha nova aquisição no veículo, pedi a Samar que providenciasse nosso retorno imediato para casa. Deixei apenas um bilhete para Mohamed avisando que estava voltando. No jato particular, a garota permaneceu adormecida sobre a cama de lençóis brancos. Toquei sua pele macia, inalei o cheiro de baunilha em seus cabelos e passei o dedo por seus lábios carnudos. Não resisti e a beijei devagar; seus lábios quentes e doces.
Ao chegarmos ao castelo, ordenei que a acomodassem em uma ala separada das outras submissas. Pouco depois, Mohamed ligou avisando que o negócio com Júlio e Ricardo havia sido cancelado devido ao desaparecimento de uma das filhas deles.
A presença da brasileira me deixava agitado. Tentei me satisfazer com as outras submissas, mas nenhuma me agradava; eu só pensava na garota nova. Na manhã seguinte, minha irmã mais velha, Latifa, entrou no quarto e se ofereceu para cuidar da brasileira. Concordei, pois ela falava a língua da garota. Passei o dia fora e, ao retornar, soube que a brasileira fora colocada no calabouço. Exigi que trocassem suas roupas ocidentais por trajes adequados.
Viajei para Dubai por um mês e, ao retornar, ordenei que a retirassem do calabouço e a levassem para um quarto confortável. Foi quando Latifa me procurou e pediu: "Ela ainda não está pronta. Dê mais tempo para ela se acostumar." Achei estranho minha irmã interceder por uma submissa, mas decidi atender ao seu pedido.
Com o passar dos dias, as duas conversavam no quarto como amigas. Cheguei a deitar ao lado da brasileira durante duas noites apenas para sentir seu perfume de baunilha enquanto ela dormia. Porém, o clima mudou quando uma das submissas me disse ter visto a brasileira no jardim sorrindo acompanhada de Ami. Tomado pela possessividade, saí do trabalho e voltei para casa. Encontrei a garota ao piano. Em um impulso, agredi-a e ordenei que os seguranças dessem uma surra de pau em Ami, expulsando-o da propriedade para trabalhar nas minas de pedras preciosas.
Passei cinco dias afastado de casa, hospedado com meu irmão. Durante esse período, soube que a família da brasileira estava mobilizando recursos políticos no Oriente para encontrá-la, tendo Dubai como destino final. Tratei de negar qualquer conhecimento a Mohamed; não pretendia abrir mão da minha nova aquisição.
Quando retornei ao castelo, ouvi a brasileira tocando piano na sala. Fiquei no sofá observando-a. Ela percebeu minha presença, encarou-me com seus olhos negros e subiu as escadas rapidamente. Fui atrás dela e entrei no quarto. Ela estava sentada perto da janela. Aproximei-me, peguei-a no colo e a joguei na cama. Ajoelhei-me sobre ela e a beijei com intensidade, apreciando a maciez de seus lábios. Mas, quando pensei que a teria por completo, senti um golpe certeiro e doloroso na minha genitália.
Gritei de dor ao ver sua risada desafiadora. Saí do quarto cambaleando e encontrei Latifa na porta, rindo e batendo palmas pela reação da garota. Recuperei-me no meu quarto e ordenei a Samar e Zafir que a levassem de volta ao calabouço. Latifa me ameaçou, dizendo que eu arderia no inferno, mas ignorei seus avisos.
Mais tarde, no escritório, recebi um relatório dos criados sobre os dias em que estive fora: a brasileira estava aprendendo nossa língua, tocava piano, ajudava Latifa nas tarefas diárias e mantinha um comportamento doce. Fui ao quarto dela e peguei seu diário. Pedi a Samar que traduzisse as páginas. O conteúdo alternava entre cartas para a família, poesias, desenhos e inúmeros xingamentos direcionados a mim. As cartas para os pais e irmãos me comoveram a ponto de ordenar que fossem entregues aos destinatários, exceto as dirigidas a outros homens da família, pois eu devia ser o único homem presente em sua vida.
À noite, ordenei a Samar que a tirasse do calabouço e a levasse de volta ao quarto. Ao caminhar pelo corredor, ouvi música vindo da ala dela. Olhei pela fresta da porta e vi Latifa ensinando a brasileira a dançar nossas músicas tradicionais. As duas riam enquanto a garota tentava acompanhar os movimentos dos quadris. Observei a cena em silêncio por um tempo e depois voltei ao meu quarto.
Mais tarde, entrei no quarto dela na ponta dos pés. Ela dormia calmamente. Deitei-me ao seu lado, soltei sua trança devagar e a puxei para perto, inalando o cheiro de baunilha. Pela manhã, beijei sua testa e saí antes que ela acordasse.
Fui até a ala das outras submissas, levei uma delas ao calabouço e amarrei seus pulsos e pernas para descarregar minha frustração. No entanto, no meio do processo, senti o aroma de baunilha pairar na minha mente e perdi totalmente o interesse, deixando a mulher amarrada e saindo do local.
Retornei ao meu quarto para tomar banho e me vestir. Ao sair, encontrei Latifa no corredor, radiante. Ela me deu um beijo na bochecha como costumava fazer na infância. Entrei no carro intrigado com o comportamento da minha irmã e com o impacto que aquela garota brasileira causara na rotina da casa, mas sorri ao ver algumas submissas se afastarem com respeito no portão.