A tela do meu celular mostrava 18 chamadas não atendidas.
Meu marido, Pedro, não me atendeu.
Eu estava presa no carro, a água da enchente subindo rapidamente, grávida de nove meses.
Meu filho, que deveria nascer em duas semanas, agora estava morto.
Liguei dezoito vezes, em pânico, pedindo ajuda.
A voz dele, do outro lado da linha, era irritada: "Não posso, Sofia. A Eva está com problemas, o cachorro dela foi atropelado. Você é adulta, ligue para os bombeiros."
Ele desligou. Ignorou meu desespero para salvar o cão de sua "amiga de infância", Eva.
Quando acordei no hospital, meu filho Lucas se fora.
Pedro ligou, aliviado: "A Eva está segura, mas o cachorrinho dela não sobreviveu. Ela está arrasada."
Ele não perguntou nada sobre mim, sobre NOSSO filho.
Quando revelei a verdade, o bebê morreu, sua reação fria foi: "O quê? Como assim? O que você fez?"
A culpa recaiu sobre mim.
Como pude ser tão cega?
Por que fui abandonada para morrer enquanto ele consolava outra mulher por um cachorro?
Como ele pôde me acusar depois de tudo?
Não havia mais "nós".
Peguei minhas coisas, vi o quarto do Lucas vazio.
Eu só queria sair dali.
"Quero o divórcio", disse a Pedro, cuja raiva agora era visível.
"Não pode fazer isso!", ele gritou.
Mas eu podia.
E faria.
Esta era a minha luta. Minha vingança silenciosa.
Meu novo começo.
A tela do meu celular mostrava 18 chamadas não atendidas, todas para o meu marido, Pedro.
Meu filho, que deveria nascer em duas semanas, agora estava morto.
Eu estava presa no carro, a água da enchente subindo rapidamente, quando liguei para Pedro pela primeira vez.
"Pedro, estou presa na Rua das Flores, a água está subindo, estou com medo."
A voz dele soou distante e irritada do outro lado da linha.
"Estou ocupado, Sofia. A Eva está com problemas, o cachorro dela foi atropelado e ela caiu, machucou o joelho. Estou a caminho para ajudá-la. Você é uma mulher adulta, ligue para os bombeiros."
Ele desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.
Eva. A amiga de infância dele. A mulher que ele sempre dizia ser como uma irmã.
Mas eu sabia que não era verdade. Ninguém olha para uma irmã daquele jeito.
A água continuou a subir. Bateu na janela do carro. Eu estava grávida de nove meses, presa pelo cinto de segurança, em pânico.
Liguei de novo. E de novo. E de novo. Dezoito vezes.
Cada chamada ia direto para o correio de voz.
A última coisa que me lembro é da água quebrando o vidro da janela e entrando no carro com uma força brutal.
Quando acordei, estava em uma cama de hospital. A primeira coisa que senti foi o vazio na minha barriga.
Meu filho. Meu pequeno Lucas. Tinha-se ido.
Uma enfermeira entrou no quarto, o rosto dela cheio de pena.
"Sofia, sinto muito. Fizemos tudo o que podíamos."
As lágrimas que eu não sabia que estava segurando começaram a cair. Elas escorriam silenciosamente pelo meu rosto, quentes e salgadas.
Eu não chorei alto. A dor era muito profunda para ruídos.
Meu celular tocou. Era Pedro.
Atendi, a mão tremendo.
"Sofia? Graças a Deus. Você está bem? Onde você está? A Eva está segura, mas o cachorrinho dela, o Biscoito, não sobreviveu. Ela está arrasada."
A voz dele estava cheia de preocupação. Pela Eva.
"Estou no hospital, Pedro."
Minha voz saiu como um sussurro, rouca e quebrada.
"Hospital? O que aconteceu? O bebê está bem?"
"O bebê morreu, Pedro."
Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio longo e pesado.
"O quê? Como assim? O que você fez?"
A acusação na voz dele foi a gota d'água.
"Eu? O que eu fiz? Eu estava presa em uma enchente, ligando para o meu marido, e ele estava muito ocupado salvando o cachorro da vizinha."
"Não fale assim da Eva! Ela estava em pânico! Ela não tem ninguém!"
"E eu? Eu não tinha ninguém? Eu estava carregando o seu filho!"
Minha voz subiu, finalmente quebrando.
"Isso não é justo, Sofia. Eu não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo."
"Você fez uma escolha, Pedro."
Desliguei o telefone. Bloqueei o número dele.
Olhei para a parede branca do hospital. Tudo parecia vazio. O mundo tinha perdido a cor.
Meu filho se foi. E meu casamento também.
Dois dias depois, recebi alta do hospital.
Meu corpo estava fraco, mas minha mente estava clara.
Fui para casa para pegar minhas coisas. A casa que dividi com Pedro por cinco anos agora parecia um lugar estranho.
Havia fotos nossas em todos os lugares. Sorrindo na praia, abraçados no Natal, cortando nosso bolo de casamento.
Parecíamos felizes. Talvez já tivéssemos sido.
Fui para o quarto que tínhamos preparado para o Lucas.
O berço estava montado, as paredes pintadas de um azul suave com nuvens brancas. Pequenas roupas de bebê estavam dobradas na cômoda.
Meu coração se apertou tanto que tive que me apoiar na porta.
Pedro não estava em casa. Melhor assim.
Comecei a colocar minhas roupas em uma mala. Meus movimentos eram mecânicos, robóticos.
Então, ouvi a porta da frente se abrir.
"Sofia?"
Era a voz de Pedro.
Fiquei parada, de costas para a porta do quarto.
Ele apareceu na entrada, o rosto cansado e preocupado.
"O que você está fazendo?"
"Estou indo embora, Pedro."
"Indo embora? Para onde? Não seja ridícula. Nós podemos superar isso."
"Nós? Não existe mais 'nós'."
"Claro que existe! Nós somos casados! Eu sei que você está magoada, eu também estou. Perdi meu filho também, sabe?"
Aquelas palavras me atingiram.
Virei-me para encará-lo, os olhos secos.
"Você não o perdeu, Pedro. Você o jogou fora."
"Isso não é verdade! Eu não sabia que era tão sério!"
"Eu disse que a água estava subindo. Eu disse que estava com medo. Você escolheu ignorar."
Ele passou as mãos pelo cabelo, um gesto de frustração que eu conhecia bem.
"A Eva precisava de mim! Ela estava sozinha e desesperada!"
"E eu? O que eu era? Um inconveniente?"
"Sofia, por favor. Vamos conversar. Não tome decisões precipitadas."
Ele deu um passo em minha direção. Eu recuei.
"Não me toque. Já decidi. Quero o divórcio."
O rosto dele se endureceu. A preocupação foi substituída pela raiva.
"Divórcio? Você está falando sério? Depois de tudo o que passamos?"
"Especialmente por causa de tudo o que passamos."
"Você não pode fazer isso. E o nosso futuro?"
"Que futuro, Pedro? O futuro que eu queria morreu com o meu filho."
Fechei a mala. O som do zíper foi alto e final no silêncio do quarto.
Passei por ele, sem olhar para o seu rosto.
Ele agarrou meu braço.
"Você não vai a lugar nenhum."
"Me solta, Pedro."
"Nós vamos resolver isso."
"Não há nada para resolver. Acabou."
Puxei meu braço com força. O olhar dele era uma mistura de raiva e súplica.
Não me importava mais.
Saí da casa sem olhar para trás.