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O Sol Depois da Tempestade

O Sol Depois da Tempestade

Autor:: Mayra B
Gênero: Moderno
Quando acordei no hospital, depois de um acidente de carro que me deixou com uma perna partida e a memória em branco, a primeira coisa que perguntei foi pelo meu bebé de oito meses. O meu marido, Pedro, sentado ao meu lado, respondeu com um tom vazio: "O bebé não sobreviveu, Ana." A dor da perda era insuportável, mas o choque maior foi a sua frieza, a indiferença assustadora da minha sogra e da cunhada, que só se preocupavam com a segurança do Pedro. Senti-me descartável, como se a minha perda e o meu sofrimento não significassem nada para eles. Mas a semente do terror foi plantada quando a minha mãe me sussurrou: "Não foi um acidente simples. Os travões falharam." E que a Catarina, irmã do Pedro, os tinha ameaçado minutos antes. O airbag do Pedro abriu, o meu não. Ele saiu ileso, eu perdi o nosso filho e quase a minha vida. Quando o confrontei, ele hesitou, a sua calma quebrou-se, e vi a culpa nos seus olhos. Deitada naquela cama, com o coração despedaçado, percebi a verdade mais cruel: ele tentou matar-me e ao nosso filho. Não havia tempo para desespero. Liguei à minha mãe, a minha voz uma lâmina fria enquanto eu dizia: "Quero o divórcio, e quero justiça."

Introdução

Quando acordei no hospital, depois de um acidente de carro que me deixou com uma perna partida e a memória em branco, a primeira coisa que perguntei foi pelo meu bebé de oito meses.

O meu marido, Pedro, sentado ao meu lado, respondeu com um tom vazio: "O bebé não sobreviveu, Ana."

A dor da perda era insuportável, mas o choque maior foi a sua frieza, a indiferença assustadora da minha sogra e da cunhada, que só se preocupavam com a segurança do Pedro.

Senti-me descartável, como se a minha perda e o meu sofrimento não significassem nada para eles.

Mas a semente do terror foi plantada quando a minha mãe me sussurrou: "Não foi um acidente simples. Os travões falharam." E que a Catarina, irmã do Pedro, os tinha ameaçado minutos antes.

O airbag do Pedro abriu, o meu não. Ele saiu ileso, eu perdi o nosso filho e quase a minha vida. Quando o confrontei, ele hesitou, a sua calma quebrou-se, e vi a culpa nos seus olhos.

Deitada naquela cama, com o coração despedaçado, percebi a verdade mais cruel: ele tentou matar-me e ao nosso filho.

Não havia tempo para desespero. Liguei à minha mãe, a minha voz uma lâmina fria enquanto eu dizia: "Quero o divórcio, e quero justiça."

Capítulo 1

Quando abri os olhos, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital. O cheiro de desinfetante enchia o ar.

A minha cabeça doía, e o meu corpo sentia-se pesado, como se tivesse sido atropelado por um camião.

Tentei sentar-me, mas uma dor aguda na minha perna esquerda fez-me gritar. Olhei para baixo e vi-a, envolta numa camada espessa de gesso.

O meu marido, Pedro, estava sentado numa cadeira ao lado da cama, a olhar para o seu telemóvel com uma expressão sombria.

"Pedro..." chamei, a minha voz rouca.

Ele levantou a cabeça, os seus olhos encontraram os meus por um segundo, mas rapidamente desviou o olhar.

"Acordaste," disse ele, o seu tom de voz plano, sem qualquer emoção.

"O que aconteceu? Onde está a mamã?" perguntei, o pânico a começar a subir dentro de mim.

A última coisa de que me lembro é do carro a derrapar na estrada molhada, dos gritos da minha mãe, e depois, escuridão.

"A tua mãe está bem. Ela só teve alguns arranhões. Está a descansar noutro quarto," respondeu ele, ainda sem me olhar. "Tiveste sorte. O médico disse que a tua perna vai sarar em alguns meses."

Sorte? Eu não me sentia com sorte. Sentia-me vazia.

"E o bebé?" perguntei, a minha voz a tremer. Eu estava grávida de oito meses.

Pedro ficou em silêncio. Um silêncio pesado e terrível que encheu o quarto.

"Pedro, responde-me," insisti, a minha voz a subir. "Onde está o nosso bebé?"

Finalmente, ele olhou para mim. Havia algo nos seus olhos que eu nunca tinha visto antes, uma frieza que me gelou até aos ossos.

"O bebé... não sobreviveu, Ana," disse ele, cada palavra a cair como uma pedra. "Perdemo-lo no acidente."

O meu mundo desabou. O teto branco começou a girar, e o som nos meus ouvidos transformou-se num zumbido agudo.

Não. Não podia ser verdade.

"Não... estás a mentir," sussurrei, abanando a cabeça. "Eu senti-o a mexer-se esta manhã. Ele estava bem."

"Foi o acidente, Ana. Não havia nada que os médicos pudessem fazer."

As lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas eu não conseguia fazer um som. Uma dor avassaladora, pior do que qualquer osso partido, rasgou o meu peito. O nosso filho, o nosso bebé tão esperado, tinha-se ido.

Pedro levantou-se e veio para o meu lado. Ele colocou uma mão no meu ombro, mas o seu toque era estranho, distante.

"Temos de ser fortes," disse ele. "Vamos superar isto juntos."

Mas as suas palavras soavam ocas, ensaiadas.

Nesse momento, a porta do quarto abriu-se e a minha sogra, Helena, entrou. O seu rosto estava vermelho e inchado de tanto chorar. Mas ela não olhou para mim. Em vez disso, correu para o Pedro e abraçou-o com força.

"Oh, meu filho! Graças a Deus que estás bem!" soluçou ela. "Quando soube do acidente, pensei que te tinha perdido!"

Ela agia como se Pedro fosse a única vítima ali.

"Estou bem, mãe. A Ana é que se magoou mais," disse ele, afastando-se gentilmente.

Helena finalmente olhou para mim, os seus olhos cheios de uma emoção que eu não conseguia decifrar. Não era simpatia. Era algo mais sombrio.

"E a Catarina? Onde está a Catarina?" perguntou ela de repente, a sua voz cheia de urgência. "Ela estava convosco no carro, não estava?"

Catarina. A minha cunhada. A filha perfeita da Helena.

"Ela não estava connosco," respondeu Pedro, a sua voz tensa. "Ela foi visitar uma amiga."

Helena suspirou de alívio, colocando a mão sobre o coração. "Oh, que bom. Fiquei tão preocupada."

Ela nem sequer perguntou pela minha mãe. Nem sequer mencionou o neto que acabara de perder. Era como se a nossa perda não significasse nada para ela.

Eu olhei para o Pedro, à espera que ele dissesse alguma coisa, que a defendesse, que me defendesse. Mas ele permaneceu em silêncio, o seu rosto uma máscara impenetrável.

Naquele momento, deitada naquela cama de hospital, com o corpo partido e o coração em pedaços, percebi uma verdade terrível.

Eu não era a sua família. O meu bebé não era o seu neto.

Éramos apenas... descartáveis.

Capítulo 2

Dois dias depois, a minha mãe, Sofia, veio ver-me. Ela tinha um grande penso na testa e o braço numa ligadura, mas os seus olhos estavam claros e cheios de preocupação por mim.

"Minha filha, como te sentes?" perguntou ela, a sua voz suave a quebrar o silêncio do quarto.

"Estou... a tentar," consegui dizer. A dor física era constante, mas a dor emocional era um abismo sem fundo.

Ela sentou-se na cadeira ao lado da minha cama, a mesma cadeira onde Pedro passava horas a olhar para o telemóvel.

"O Pedro contou-me que a Helena esteve aqui," disse a minha mãe, o seu tom cuidadoso. "Ela não te disse nada de mal, pois não?"

Eu abanei a cabeça. "Ela mal olhou para mim. Só estava preocupada com o Pedro e a Catarina."

A minha mãe suspirou, uma expressão de tristeza a passar pelo seu rosto. "Eu sabia. Aquela mulher nunca gostou de ti."

Ela pegou na minha mão, os seus dedos quentes a apertar os meus. "Ana, há algo que preciso de te contar sobre o acidente."

Senti um arrepio. "O que foi?"

"Não foi um acidente simples, querida. Os travões do carro... eles falharam."

Olhei para ela, confusa. "O que queres dizer? O carro era novo. O Pedro fez a revisão na semana passada."

"Eu sei. É isso que é estranho," disse a minha mãe. "A polícia está a investigar. Eles acham que alguém pode ter mexido nos travões."

O meu sangue gelou. Sabotagem? Quem faria uma coisa dessas?

"Quem... quem faria isso?" sussurrei.

A minha mãe hesitou, olhando para a porta como se tivesse medo que alguém estivesse a ouvir.

"Eu não sei, Ana. Mas... a Catarina ligou ao Pedro minutos antes do acidente. Eu ouvi a conversa. Ela estava a gritar com ele, a dizer que não ia permitir que tu e o bebé arruinassem a vida dele."

A imagem da Catarina surgiu na minha mente. Sempre sorridente, sempre simpática à minha frente, mas eu sempre senti uma corrente de frieza vinda dela. Ela sempre foi excessivamente protetora em relação ao Pedro.

"Ela disse isso?"

"Sim. E o Pedro estava a tentar acalmá-la, a dizer que te amava e que estava feliz por ser pai."

As palavras doíam. Ele estava feliz. Nós estávamos felizes. E agora... tudo se tinha ido.

"A polícia falou com ela?" perguntei.

"Sim. Ela tem um álibi. Estava com amigos do outro lado da cidade. Mas, Ana... eu não confio nela. Eu não confio em nenhum deles."

Um pensamento terrível começou a formar-se na minha mente, tão monstruoso que me fez sentir náuseas.

E se não fosse a Catarina? E se fosse alguém mais próximo?

"Mãe," comecei, a minha voz a tremer, "o Pedro... ele estava a conduzir. Ele não se magoou de todo?"

"Apenas alguns arranhões. O airbag dele abriu. O teu não."

O airbag do lado do passageiro não abriu. Os travões falharam. O nosso bebé morreu. Eu quase morri. E Pedro saiu praticamente ileso.

"Ana, o que estás a pensar?" perguntou a minha mãe, os seus olhos a perscrutar os meus.

Eu não conseguia dizer em voz alta. Era demasiado horrível. Mas a semente da dúvida tinha sido plantada. Uma semente feia e venenosa que começou a crescer rapidamente no solo devastado do meu coração.

Olhei para a minha perna partida, para a barriga agora vazia debaixo dos lençóis.

O meu marido. O homem que eu amava. O pai do meu filho morto.

Poderia ele...?

Não. Eu tinha de estar errada. Eu estava de luto, paranoica.

Mas quando Pedro entrou no quarto mais tarde naquele dia, com o mesmo olhar distante e vazio, eu não consegui deixar de ver as peças a encaixarem-se.

O seu alívio por a Catarina estar segura. A sua falta de emoção sobre a nossa perda. A sua fuga quase milagrosa do acidente.

Ele aproximou-se da cama. "Como te sentes?"

A mesma pergunta. O mesmo tom plano.

"Estou com dores," respondi, a minha voz fria.

"O médico disse que é normal," disse ele, sem oferecer qualquer conforto. "Trouxe-te umas revistas."

Ele colocou as revistas na mesa de cabeceira. Nenhuma delas era do tipo que eu gostava de ler.

"Pedro," disse eu, olhando-o diretamente nos olhos. "A minha mãe disse-me que os travões falharam."

Uma sombra passou pelo seu rosto, tão rápida que quase a perdi.

"Sim. A polícia está a investigar. Provavelmente um defeito de fabrico."

"Um defeito de fabrico," repeti, a minha voz sem inflexão. "E o meu airbag não abriu."

"Sim. Outro defeito," disse ele, a sua voz a ficar um pouco mais firme. "Tivemos muito azar, Ana."

Azar. Era essa a palavra que ele usava para descrever a morte do nosso filho e a minha quase morte. Azar.

"Onde estavas antes de nos ires buscar ao médico?" perguntei, a minha voz a cortar o ar.

Ele pareceu surpreendido com a pergunta. "Eu estava... no escritório. Tive uma reunião."

"Com quem?"

"Ana, que tipo de interrogatório é este? Já não passámos por o suficiente?" disse ele, a irritação a infiltrar-se no seu tom.

"Eu só quero saber, Pedro. Eu preciso de entender."

"Não há nada para entender! Foi um acidente trágico! Fim da história!" ele quase gritou, a sua calma a quebrar-se pela primeira vez.

Mas era tarde demais. Eu tinha visto. A culpa nos seus olhos. O medo.

Ele estava a mentir.

E naquele momento, eu soube. A dúvida transformou-se em certeza.

O meu marido tinha tentado matar-me.

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