PARIS, FRANÇA
Era madrugada.
Os primeiros raios de sol iluminavam os telhados parisienses, tingindo o céu escuro de azul e escondendo as poucas estrelas. Atrás das portas de vidro fechadas da cobertura tradicional, as notas sinuosas da Aria de Bach dançavam pelo apartamento combinadas com uma respiração já cansada. O pincel deslizava com leveza e controle pela tela que há um ano não exibia nada, e agora completava o sorriso mais enigmático do mundo da Arte. Com visível cansaço, tomou a pequena lente, tão presente em seu dia a dia, para olhar mais de perto, analisar cada camada de tinta, cada entrelaçamento de pinceladas, qualquer correção de tonalidade feita pelo artista original e que precisaria ser cuidadosamente reproduzida por seu pulso experiente, mais de quinhentos anos depois.
No monitor de sessenta polegadas ao lado exibindo a imagem ultra definida, comparava cada centímetro do quadro como fizera desde os primeiros borrões de tinta. Precisava estar perfeito. Na companhia de Leonardo e Bach, passara muitas noites juntos tentando replicar a pintura mais fotografada e mais apreciada do mundo inteiro. Mais que perfeito, teria de ser o próprio Da Vinci na claridade precária de seu quarto, ou sob os fachos de luz de sol a entrar por sua janela há centenas de anos. Ele havia levado quatro anos para terminá-la, e com seu pincel nos dedos sujos finalizaria em bem menos tempo.
Era um dom, e o descobriu quando ainda era criança desenhando a clichê Noite Estrelada de Van Gogh no primário.
Reproduzir fielmente obras de arte centenárias não era o verdadeiro talento. Analisar os mais simples detalhes, divisar cada traço iniciado e terminado, cada linha quebrada e erro corrigido era onde sua habilidade morava. Enquanto seus colegas fizeram nada além de borrões azuis e amarelos com massas exageradas de tinta, havia levado uma reprodução absurdamente aproximada nas mesmas dimensões da pintura original. 74 por 92, pigmentação em padrões quase perfeitos, o mais ínfimo traço de tinta feito naquela tela comprada na feira do centro de Praga onde nascera e crescera.
- Como conseguiu fazer isso? - indagou a professora com voz suave, dirigindo-se ao "amontoado" de inocência de apenas onze anos diante de si.
- Vou levar zero? - Devolveu a pergunta esquivando-se de supetão.
- Não, claro que não... É que - uma pausa, encarou com aborrecimento a mulher muito mais velha e visivelmente desconcertada por seu trabalho - está muito bonito.
Mais tarde naquele mesmo dia, a professora estava exibindo seu desenho para o resto do corpo docente e dias depois, um homem de paletó de tweed veio fazer uma visita alegando ser um "especialista" que gostaria de ver sua pintura. Ele a examinou com a mesma pequena lente, emitiu alguns ruídos de análise e enfim virou-se para a professora com um sorriso afetado. Disse que a criança pintava muito bem, e que quando crescesse e decidisse fazer uma faculdade, ele estaria esperando para dar-lhe um lugar em sua sala de aula.
Se as coisas pelo menos tivessem sido tão simples depois disso...
Depois de mais quarenta minutos em seu silencioso e analítico presente, na companhia dos gênios mortos, deu um gole na taça de vinho e admirou por dois minutos inteiros um de seus melhores trabalhos.
- Vai acontecer, como você esperava. - Ele revirou os olhos no momento em que a palavra foi articulada para fora do celular, massageou o cenho dolorido e sentiu os ombros começarem a doer embora tivesse acabado de despertar de um sono pesado. Sabia o que significava ouvir aquela voz sucinta mesmo que pudesse contar as palavras nos dedos. - Em Roma, daqui a uma semana. É melhor se preparar. Entrarei em contato em dois dias.
A ligação foi cortada deixando-o novamente sozinho no quarto de hotel simples, mas elegante. Levantou-se nu da maciez dos lençóis e foi até a janela munido de um cigarro e um zippo de prata entalhada com fluido novo, seu companheiro mais antigo. Sentia os cabelos longos arrastarem por seus ombros largos, caindo lisos e escuros pelas laterais do rosto sério refletido na janela. Teria de cortá-los em alguma hora. Acendeu a ponta e ergueu o olhar para a colossal basílica de Santa Sofia plantada numa Istambul que aos poucos despertava para um dia frenético e quente, um cartão postal centenário atrás da fumaça sinuosa erguendo-se para o teto e um céu azul e dourado, clareando-se preguiçosamente. Por alguns segundos preciosos conseguiu esquecer o motivo de sua estadia naquela cidade, bem como os mais de uma década em que permaneceu sem um país para voltar, ou ao menos fingir chamar de"casa".
Não podia parar agora, não conseguiria mesmo se seu bigodudo chefe, Lance Morrison, o mandasse à merda. O que não estava longe de acontecer, de fato. Em noventa e seis meses, o agente Gideon Belmont havia gasto mais de quarenta milhões do orçamento da INTERPOL para pegar um fantasma. O mesmo que agora seus superiores pensavam que nem sequer era uma única pessoa tão meticuloso era seu modus operandi.
Mas Gideon sentia que sabia a verdade.
Há oito anos, o fantasma havia começado pequeno, mas ainda assim deu um passo que pareceu ser maior que as pernas só para confirmar-se um crime perfeito meses depois. Primeiro, "Os Trapaceiros" de Caravaggio, a equipe do museu de Kimbell no Texas só havia percebido que estavam exibindo uma falsificação cinco meses depois. Dois anos mais tarde, um salto extravagante rumo ao estrelato como gatuno conhecido atraindo os olhos de todas as corporações policiais do mundo. Lá se fora o inconfundível "O Almoço dos Barqueiros" de Renoir, também substituído com uma cópia perfeita que só foi desmascarada na vistoria de rotina do Phillips Memorial Gallery com um especialista.
E assim seguiu-se a odisséia do fantasma das artes. A cada dois anos, uma obra de arte valendo milhões era declarada falsa em locais aleatórios do mundo. Era como uma temporada de roubos que ninguém sabia como acabaria ou qual seria o próximo alvo. Com o passar do tempo, os museus procuraram se preparar cada vez melhor, instalando sistemas de segurança cada vez mais complexos com a esperança de manter o ladrão longe. Achava curioso como aquela série de sumiços milionários não havia caído na língua da imprensa internacional apenas de alguns entusiastas de arte para quem ninguém ligava, mas não questionaria os métodos de Morrison.
A ocasião pedira por um agente como Gideon Belmont quando a corporação recebeu uma ligação preocupante do Museu do Louvre no sexto ano de investigações. A "Cabeça de Mulher" de Leonardo Da Vinci original havia sumido às vésperas da abertura de uma grande exposição do artista no Napoleon Hall, sob a pirâmide de vidro. A terceira grande obra trocada com dedos leves e nenhuma assinatura. Abafaram o caso quase com desespero, exibindo a cópia idêntica colocada pelo ladrão e finalmente tiveram a decência de contatá-lo.
Poderiam tê-lo chamado muito mais cedo, porém devido ao seu currículo invejável, a corporação decidiu mantê-lo no Cazaquistão por um pouco mais, enfiado numa suposta célula terrorista que o acolheu com prazer depois de mostrar algumas habilidades com um rifle, ignorando suas feições nada nativas embora preservasse os cabelos escuros e a pele mais bronzeada. Sobrancelhas espessas e negras, nariz reto e proeminente que combinados aos seus olhos castanhos tornavam-no um homem extremamente atraente, combinados ao porte conferido por um metro e noventa e três de altura. Antes um pouco magro demais, arrastando-se pela desolação gelada cazaque, agora podia cultivar seus músculos a um tamanho que considerasse adequado para não ser morto. Fora uma época difícil, mas que o ensinara o poder da persuasão como ninguém poderia.
Só precisava parar com os malditos cigarros agora.
- Recebi uma informação - disse Gideon novamente ao telefone, desta vez com Morrison do outro lado e o cigarro entre os dedos. - Roma, daqui uma semana. Vou precisar de pelo menos cinco milhões para montar uma operação decente e que funcione.
- Você já estourou o orçamento da missão três vezes, Belmont - retrucou o homem com voz autoritária. - De onde você acha que eu tiro dinheiro?
Forçou-se a não dar uma resposta óbvia que o insultasse abertamente, apenas deu uma funda tragada no cigarro, deixando a fumaça escapar pelo nariz.
- Em uma semana acontecerá um dos maiores leilões de arte secretos da Europa nos porões de um prédio da Igreja, é burrice achar que nada vai dar errado com um inventário de mais de oitocentos milhões de euros em obras. - Tirou o telefone do ouvido para enviar um e-mail encriptado para Morrison com informações que julgou pertinentes. Havia algumas fotos, audios...
- Puta merda, você quer envolver o Vaticano nisso? - indagou o chefe.
- Eles se envolveram sozinhos, todo mundo precisa fazer dinheiro, principalmente os santos. Nada mais óbvio que vender alguns enfeites para pagar o aluguel no fim do mês. - "Não que você entenda alguma coisa disso sentado no colo do seu presidente", pensou Gideon.
Recentemente com uma denúncia escandalosa de um bispo fazendo "ótimos negócios" no ramo imobiliário, a Igreja foi obrigada a dispensá-lo e tentar diminuir os estragos com a pouca arrecadação. Algumas coleções valiosas guardadas às sete chaves e longe dos olhos dos fiéis não fariam falta.
Já havia reunido tudo o que precisava para penetrar naquelas sagradas paredes e cumprir seu propósito "divino" como um investigador fodido e obcecado, só precisava do item mais básico de todos e Morrison facilitaria muito se simplesmente lhe cedesse a quantia e parasse de resmungar.
- Oito anos nessa merda, Belmont... Já está todo mundo cansado.
- Então quer desistir de pegar o maior ladrão de arte dos últimos cem anos só porque precisa ceder alguns milhões?
Belmont estava assustado com a própria hipocrisia. Não tinha nenhuma ambição de reaver as obras, seria preciso mais algumas dezenas de milhões de dólares para rastreá-las até seus compradores finais no submundo, a única coisa que interessava era pegar o desgraçado que o vinha fazendo de idiota por oito anos. Analisara toda a rotina dos museus roubados procurando qualquer coisa minimamente fora de lugar e nunca achava nada! Com os quadros falsos, nenhuma assinatura que evocasse o desejo do ladrão de tornar-se conhecido ou esfregar seu sucesso na cara da lei como mandava o roteiro. Ele apenas entrava, roubava, e ia embora, essencialmente. Evaporava com um silêncio quase "humilde" e resignado. Nenhuma fibra, fio de cabelo, gota de suor, saliva... Nada! Aquele tipo de picareta implorava para ser pego, mas não ele.
- Dá um tempo, Belmont. Seu orgulho ferido está me custando o rabo!
- Vai custar ainda mais se eu não pegá-lo. Tá dentro ou fora?
O suspiro aborrecido de Lance Morrison fez chiar a ligação.
- Ótimo... - Gideon disse. - Tenho que pegar um avião.
Desligou e colocou-se em movimento, tirando a pistola .45 customizada em prata. Semiautomática e de rápida resposta, vinha sendo sua companheira mais fiel em sua caçada. Por vezes achou que deveria ter algo sobrenatural nela, pois nunca havia falhado. Enfiou as roupas na mala com uma máquina fotográfica Canon pequena, outra pistola Glock carregada e um pacote com quinze mil euros em espécie. Sua passagem na primeira classe para Roma.
Seis horas depois, o agente estava no parapeito de um cargueiro, agasalhado até os ossos com a maresia violenta soprando em seu rosto e um plano lentamente tomando forma na mente, olhando ao longe uma tempestade horrenda fazer um aceno a ele.
ROMA, ITÁLIA.
CINCO DIAS DEPOIS.
Já tocavam os sinos da Basílica de São Pedro enquanto várias pessoas por lá passavam para visitar ou fazer suas orações quando um homem alto, de terno caminhava por entre os turistas chamando tanta atenção quanto a própria construção atemporal, em direção ao seu BMW estacionado logo ao lado. Sua face era séria, estoica, enquanto falava ao telefone num tom pouco amigável. Ali poderia facilmente ser confundido com um executivo apressado para resolver suas questões e acumular seus milhões, mas nada era o que parecia quando se tratava dele. E aquele dia cinzento não seria diferente.
AO MESMO TEMPO.
Na outra ponta da cidade, saltos altíssimos chocavam contra o chão de mármore polido do Singer Palace Hotel enquanto a mulher que os calçava dirigia-se às portas para o Bentley prateado que a esperava na porta. A expressão gentil e extremamente disposta àquela hora da manhã chamava tanta atenção quanto o longo e justo vestido ameixa que usava. A última coisa que queria era chamar a atenção naquela noite, mas apenas daquele jeito se misturaria com facilidade ao lugar para onde se dirigia.
Estava indo para a Roma dentro de Roma, e tinha de estar apresentável se quisesse que tudo ocorresse sem grandes problemas. Andando sobre o chão impecável, poderia facilmente ser confundida com uma mulher de negócios apressada para resolver suas questões e acumular seus milhões, mas nada era o que parecia quando se tratava dela.
E aquela seria uma grande noite.
Quando chamaram Alexandra Hester para curar uma "exposição" no Vaticano, ficara surpresa. Recebera a ligação de um Arcebispo da cidade-estado que não disse muito do que realmente queria saber. Jamais se permitiria aceitar um trabalho do qual conhecia tão pouco, porém as obras mencionadas por Manuel Camacho eram preciosas demais para que a oferta fosse ignorada. Tratava-se de peças de valor quase inestimável da coleção privada do Vaticano e se aceitasse, teria a honra de estar entre Botticelli, Rafael, e mais uma infinidade de artistas dos quais em toda a sua carreira como renomada curadora apenas vira as obras mais famosas, nunca aquelas subentendidas na fala do clérigo. Necessariamente, aquelas obras nunca vieram à público, eram originais guardadas a sete chaves no cofre papal por ordens dadas há centenas de anos.
Sua maior pergunta, no entanto, era: Por que a estão expondo agora? E por que ela?
Com um sorrisinho do outro lado do mundo, Camacho respondeu:
- Você foi a única que conseguiu desvendá-lo, senhorita Hester. A única que conseguiu ver o que estava errado. Não podemos correr riscos.
As coisas fizeram sentido depois daquela resposta. "Até o Vaticano tem medo de ser assaltado..."
Já tinham se passado dois anos desde "Cabeça de Mulher", já estava na hora de ouvir sobre ele outra vez. O ladrão sem rosto, sem digitais, sem DNA que simplesmente tirava quadros valiosíssimos e os repunha com réplicas quase perfeitas sem que ninguém visse. Alexandra conhecia bem o seu trabalho, nos últimos dois grandes roubos, nem mesmo um escaneamento a laser conseguiu determinar a falha. Foram os olhos atentos de Alexandra Hester que viram, quase microscopicamente, onde o ladrão havia escorregado no "Almoço dos Barqueiros".
Uma pincelada sobreposta diferentemente da pintura original. Tímida, de apenas milímetros, mas ainda assim... ali. Como uma pegada no cimento fresco.
Tirando aquilo, tudo batia, e ela ficara tão impressionada com a qualidade da cópia que passou dois minutos rindo sozinha na sala de restauração ao lado de seu colega e o diretor do museu. Os métodos de medição de "idade" da obra batiam, as condições da peça estavam perfeitamente alinhadas a algo feito em 1800, a padronização de cores era idêntica. Apenas uma pincelada errada o denunciou, e pelo modo como parecia, fora uma falta de atenção tremenda. O método... É impressionante.
- Ele não é um ladrão comum - determinou dois anos antes com a lupa quase tocando a réplica do Almoço Dos Barqueiros. - É um falsificador. Um muito bom.
- Como pegamos ele? Como recuperaremos a pintura?
Se conhecia bem o submundo das obras roubadas, já deveria estar perdida em trâmites escusos no mercado negro. Porém, se fosse o caso, a Polícia Internacional já estaria perto de pegá-la, ou recuperar alguma peça, o que certamente não foi o caso.
- Eu não sei. Mas é diferente de tudo que já se lidou no mundo em matéria de roubo de arte - respondeu tirando as luvas plásticas.
- Por quê? O que quer dizer? - perguntou o diretor do museu, com olhos arregalados.
- Porque ele não está atrás de glória.
- E o que esse desgraçado quer? - indagou outra vez o diretor, frustrado e enraivecido.
Aquele se tornaria o maior desafio de sua vida, e o mais eletrizante.
Caminhou para o Bentley Continental que a levaria para o Vaticano, e sentiu-se revigorada naquela manhã ao ligar o motor, ouvindo-o ronronando como uma fera obediente. Era sempre um desafio, uma deliciosa afronta quando se tratava do falsificador. Ninguém o via entrar ou sair, ninguém sabia como ele se parecia. Livros foram escritos sobre ele, apenas supondo como agia.
Um dos autores chegou a chamá-lo de "Loki", o deus nórdico da travessura. Quando questionado sobre a alusão, uma pergunta que confrontava a falta de arrogância do falsificador comparada a do deus, William H. Spencer - P.h.D. em História da Arte e mais uma infinidade de assuntos relacionados -, disse que era nesse detalhe que morava sua pretensão.
- Ele não quer ser pego, mas inevitavelmente sabemos quem foi - comentou Spencer, no lançamento. - Isso não lhe parece adequado o suficiente?
- O que te faz acreditar que trata-se de apenas uma pessoa e não de um grupo? - perguntou um repórter atrás dos flashes naquela tarde em Manhattan em que Alexandra apenas figurou ao fundo. - É impossível estar em vários lugares ao mesmo tempo, os roubos são notificados quase na mesma hora em pontos variados do globo. É impossível. William Spencer, de setenta anos e elegância britânica inquestionável, respondeu enigmático:
- Não é impossível para um deus.
Ter visto seu mentor na faculdade de História da Arte chamar o falsificador de "deus" foi um grande indicativo para Alexandra do quão bom era o criminoso com o qual estavam lidando. Durante os oito anos em que os roubos aconteceram ao redor do globo, Spencer havia se tornado um entusiasta do caso "Loki" embora a mídia levasse a história como mais uma teoria da conspiração. Alexandra nunca pensaria que ele levaria essa "curiosidade" tão a sério a ponto de estudá-la a fundo e escrever um livro sobre o assunto. Quando ela o perguntou sobre sua pequena obsessão, ele apenas respondeu que havia estudado o bastante para saber que o panteão de qualquer cultura possuía deuses "escrotos", o falsificador um dia escorregaria, ele assegurou, e pensar nesse momento fazia as costas da moça se arrepiarem. Seria um dia histórico e cinematográfico.
Na primeira vez em que a chamaram para avaliar a cópia de "O Almoço dos Barqueiros", Alexandra recorreu primeiro a Spencer, ele a acompanhou no exame e compartilhou com ela aquele riso nervoso na sala de manutenção. Sempre fora a favorita dele na enorme classe de talentos de Oxford, e por isso tornou-se, doutora, mestre, bacharel e, convencida por Spencer, baseara sua tese de P.h.D. em vários aspectos descobertos na caça do deus de mãos leves. Ele também a havia ensinado coisas, era inegável. Confiando na capacidade incrível dela, William a levou a realizar esses feitos acadêmicos num espaço de apenas dez anos, conquistando a confiança das pessoas mais interessadas em pegar o criminoso e recuperar os tesouros da humanidade de suas mãos egoístas.
Desde então professor e eterna aluna mantinham contato regular, e do carro, mudando a rota para o sua cafeteria favorita em Roma, Alexandra ligou para ele.
O fuso horário entre Roma e Londres era de apenas uma hora, e o conhecia o suficiente para saber que estava acordado àquela hora da manhã
- Alex! Como está o dia na cidade do amor? - perguntou com sua voz jovial e animada.
- Nem um pouco romântico, acho que vai chover - respondeu dando uma olhada no céu além do parabrisa, dirigindo cuidadosamente pelas ruas estreitas, desviando de turistas.
- Está nervosa? - perguntou.
- Por que estaria? - Tentou disfarçar.
- Sabe que ele vai estar lá...
Tinha contado a ele sobre a "exposição" secreta do Vaticano. Com Spencer não corria o risco da notícia se espalhar, o professor queria pegar o Loki tanto quanto ela e sabia tanto quanto a própria sobre o método de falsificação do criminoso. Se havia alguém para chamar de parceiro naquela aventura, era William Spencer.
- Ele não vai atacar, ninguém além de você sabe o que vai acontecer - falou tomando outra rua, seguindo o trânsito lento e congestionado de Roma. - Sabe como as coisas funcionam na cidade do Vaticano.
- Exato. Ele não conseguiria chegar perto do cofre papal, não sozinho. Essa é a oportunidade perfeita, Alex, o momento perfeito. Melhor estar preparada, para tudo.
- Vou estar. Se algo acontecer, te ligo.
- Ou posso ligar no noticiário.
Alexandra deixou sair uma risadinha.
- Você nunca vai ver algo assim no noticiário.
- Quanto tempo você acha que as agências vão demorar para dar com a língua nos dentes?
- Espero que não tão cedo, isso atrapalharia o meu trabalho.
- Alexandra, "A Caçadora de Deuses"... - comentou com ares de misticismo.
- William Herman Spencer, "A Tiete" - rebateu divertida e ouviu a risada do homem do outro lado. - Te manterei informada, só queria dizer oi antes da loucura começar.
- Fez bem. Foi bom falar com você, querida. Boa sorte.
Desligou a chamada e suspirou fundo parando para que um casal atravessasse. Sabia que o arcebispo Camacho a esperava no Vaticano para um café, mas não estava com um pingo de pressa, e teria tempo para relaxar com um café da manhã "de verdade" no privativo Canta Paradiso, atrás da Piazza Navona. Um cantinho escondido próximo à Universidade da Santa Cruz onde teria um pouco de paz e um belo bolo de limão para degustar.
Seria uma grande noite... E muito, muito longa...