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O Tédio de um Bilionário, a Ascensão de uma Esposa

O Tédio de um Bilionário, a Ascensão de uma Esposa

Autor:: Xiao Hong Mao Meng Mei
Gênero: Romance
Por três anos, fui a esposa perfeita de Arthur Monteiro, o CEO de uma gigante da tecnologia. Abri mão da minha carreira como arquiteta para me tornar sua chef pessoal e a anfitriã impecável que ele exibia com orgulho. Meu mundo desmoronou no dia em que levei para ele um caldo de ossos que cozinhei por oito horas e o ouvi confessar a um amigo. "Eu só... estou entediado." O tédio dele rapidamente se transformou em um caso com sua ex-noiva, Isabela. Ele passava as noites no apartamento dela, depois voltava para casa e me culpava por sua infelicidade. Em uma festa de gala da família, quando finalmente reagi à humilhação pública, Arthur agarrou meu braço com tanta força que deixou uma marca roxa e profunda. Ele me traiu, me humilhou e me machucou, mas ainda assim se recusava a me dar o divórcio, desesperado para manter sua imagem de perfeição. Mas o avô dele viu o hematoma. Ele viu o vídeo de Arthur e Isabela. Depois de punir o próprio neto, ele me entregou um cheque. "Vá construir a vida que você merece." E foi o que eu fiz. Pedi o divórcio para reconquistar a vida, e a carreira, que sacrifiquei por ele.

Capítulo 1

Por três anos, fui a esposa perfeita de Arthur Monteiro, o CEO de uma gigante da tecnologia. Abri mão da minha carreira como arquiteta para me tornar sua chef pessoal e a anfitriã impecável que ele exibia com orgulho.

Meu mundo desmoronou no dia em que levei para ele um caldo de ossos que cozinhei por oito horas e o ouvi confessar a um amigo.

"Eu só... estou entediado."

O tédio dele rapidamente se transformou em um caso com sua ex-noiva, Isabela. Ele passava as noites no apartamento dela, depois voltava para casa e me culpava por sua infelicidade. Em uma festa de gala da família, quando finalmente reagi à humilhação pública, Arthur agarrou meu braço com tanta força que deixou uma marca roxa e profunda.

Ele me traiu, me humilhou e me machucou, mas ainda assim se recusava a me dar o divórcio, desesperado para manter sua imagem de perfeição.

Mas o avô dele viu o hematoma. Ele viu o vídeo de Arthur e Isabela. Depois de punir o próprio neto, ele me entregou um cheque.

"Vá construir a vida que você merece."

E foi o que eu fiz. Pedi o divórcio para reconquistar a vida, e a carreira, que sacrifiquei por ele.

Capítulo 1

Ponto de Vista: Elisa Dantas

Por três anos, eu fui a esposa perfeita de Arthur Monteiro, o CEO da TecnoCorp, famosa na alta sociedade de São Paulo por minha culinária gourmet. Então, do lado de fora da porta do seu escritório, ouvi as quatro palavras que estilhaçaram meu mundo meticulosamente construído: "Eu só estou entediado."

O aroma rico e saboroso do caldo de ossos que eu cozinhei por oito horas preenchia o corredor. Segurava a garrafa térmica, seu calor um conforto familiar contra minhas mãos. Este era meu ritual, meu dever, minha expressão de amor. Levar o almoço para Arthur era uma forma pequena e tangível de cuidar dele em meio ao caos de seu império corporativo.

Eu estava prestes a bater quando ouvi vozes lá de dentro; a porta estava entreaberta. A voz de Arthur, suave e confiante, era inconfundível. A outra era de seu amigo, Juliano.

"E aí, tudo bem entre você e a Elisa?", Juliano perguntou, em tom casual. "Vocês são tipo o casal perfeito, sério. Todo mundo tem inveja."

Inclinei-me um pouco, um sorriso tocando meus lábios. Claro que as coisas estavam bem. Eu havia dedicado minha vida inteira para garantir que estivessem.

Houve uma pequena pausa.

"Sim", disse Arthur, mas sua voz não tinha a convicção de sempre. Estava vazia. "Está tudo ótimo."

"Ótimo? Só ótimo?", Juliano insistiu. "Qual é, cara. Ela é uma santa. Uma deusa na cozinha. E, você sabe, ela é linda. Você tirou a sorte grande."

Outra pausa, desta vez mais longa. O silêncio se estendeu, pesado e desconfortável. Prendi a respiração, a garrafa térmica de repente parecendo mais pesada em minhas mãos.

"Eu não sei, Juliano", Arthur finalmente confessou, sua voz baixa e carregada de um cansaço que eu nunca tinha ouvido antes. "Eu só... estou entediado."

A palavra me atingiu como um soco. Entediado.

"Ela faz tudo certo", ele continuou, e cada palavra era mais uma volta da faca. "Ela administra a casa perfeitamente, cozinha como uma chef com estrela Michelin, nunca reclama. É... perfeito. Perfeito demais. Previsível demais. Não tem... faísca. Nenhum desafio."

Suas palavras pairavam no ar, densas e sufocantes. Um pavor gelado tomou conta de mim, tão intenso que parecia que eu tinha sido mergulhada em água congelante. Minha vida meticulosamente construída, minha identidade como a esposa perfeita, desmoronou naquele único momento. Não era sobre algo que eu tinha feito de errado. Era sobre quem eu era. Ele estava entediado de mim.

Fiquei paralisada, a garrafa térmica agora parecendo um bloco de chumbo. Era um símbolo do meu esforço, do meu amor, do meu sacrifício. E para ele, era apenas parte da rotina previsível da qual ele havia se cansado. Eu havia desistido da minha carreira como arquiteta, uma paixão que um dia me definiu, para me tornar a Sra. Arthur Monteiro. Troquei plantas e canteiros de obras por receitas e festas da alta sociedade, acreditando que era o que ele queria, o que nossa vida exigia.

E ele estava entediado.

A verdade era um remédio amargo. Não estávamos mais na mesma página. Ele via minha devoção como algo tedioso, meu cuidado como algo sufocante. Ele estava cansado de mim.

Quando eu estava prestes a me virar e recuar, a desaparecer antes que minha presença fosse notada, uma nova voz cortou o ar, escorrendo uma doçura enjoativa.

"Arthur, querido, você vai se esconder aqui o dia todo?"

Isabela Sales. Sua Chefe de Gabinete. Sua ex-noiva. A mulher com quem minha sogra ainda desejava que ele tivesse se casado.

Ela empurrou a porta, abrindo-a mais, e seus olhos, afiados e calculistas, pousaram em mim instantaneamente. Um sorriso lento e triunfante se espalhou por seus lábios perfeitamente pintados. Ela sabia que eu tinha ouvido tudo.

"Ah, Elisa! Olha você aí", Isabela cantou, sua voz alta e teatral. "Trazendo o almoço do Arthur de novo. Você é a esposa mais dedicada do mundo, não é?" As palavras eram um elogio, mas seu tom era pura zombaria.

Arthur ergueu o olhar, sua expressão mudando de frustração desprotegida para um leve aborrecimento com a minha presença. Ele não encontrou meus olhos. Apenas estendeu a mão e pegou a garrafa térmica das minhas mãos, seus dedos roçando nos meus com uma frieza impessoal.

"Obrigado", ele murmurou, colocando-a em sua mesa sem um segundo olhar.

"Cheira delicioso", disse Isabela, inclinando-se sobre a mesa dele com uma fungada teatral. "Que obra-prima você criou hoje, Elisa? Outro dia, o Arthur estava me dizendo como às vezes sente falta das coisas simples, tipo uma boa e velha pizza. Sua comida chique pode ser um pouco... exagerada, sabe?"

Meu coração se apertou dolorosamente. Ele tinha dito isso? Reclamado da minha comida – a única coisa pela qual todos, incluindo ele, supostamente me elogiavam?

Isabela não esperou por uma resposta. Ela se sentou casualmente na beirada da mesa de Arthur, sua coxa a centímetros do braço dele, e abriu a garrafa térmica. Pegou a colher que eu havia embalado com cuidado e tomou um gole delicado da sopa.

"Mmm", ela cantarolou, embora sua expressão não demonstrasse nenhuma admiração. "Está... ótima."

A mesma palavra que ele usou para descrever nosso casamento. Ótima.

Senti uma dor aguda e física no peito, uma pressão se formando atrás dos meus olhos. Eu precisava sair dali.

Arthur deve ter notado a mudança na minha postura, a forma como meu rosto empalideceu. Ele se levantou e deu um passo em minha direção, sua mão buscando a minha. "Lili, você está bem?", ele perguntou, sua voz agora tingida com uma preocupação sintética que revirou meu estômago.

Puxei minha mão antes que ele pudesse me tocar.

Ele franziu a testa. "A Isabela está com hipoglicemia, ela precisava comer alguma coisa", disse ele, como se isso explicasse tudo. Como se as necessidades dela uma hora antes do almoço fossem mais importantes que o desrespeito flagrante. Ele estava me pedindo para ser compreensiva com a mulher que estava ativamente tentando me destruir.

Permaneci em silêncio, minha garganta apertada demais para falar.

A mão de Arthur encontrou a minha novamente, desta vez fechando-se ao redor dela, seu polegar acariciando as costas da minha mão em um gesto que deveria ser reconfortante, mas que pareceu uma jaula. "Não seja assim", ele sussurrou, sua voz baixa e autoritária.

"Estávamos falando sobre o retiro da equipe neste fim de semana", anunciou Isabela com vivacidade, quebrando o silêncio tenso. Ela me lançou um olhar significativo. "Vai ser muito divertido. Trilhas, fogueiras... só a equipe principal."

Juliano e os outros caras na sala concordaram com entusiasmo.

"É, mal posso esperar!"

"Faz tempo que a gente não viaja junto."

Arthur olhou para mim, depois de volta para eles. "É", ele concordou, sua voz recuperando um pouco da energia anterior. "Vai ser bom."

Ele então se virou para mim, seu aperto em minha mão afrouxando. Pegou a garrafa térmica agora vazia e a tampa, colocando-as na minha outra mão. O gesto era claro. Eu estava dispensada.

"É melhor você ir para casa, Lili", ele disse, seu tom final. "Vou chegar tarde hoje à noite."

Senti uma estranha dormência tomar conta de mim, extinguindo o fogo da minha raiva e deixando apenas cinzas frias para trás. Eu não conseguia mais nem reunir energia para ficar furiosa.

Enquanto eu me virava para sair, a voz de Isabela, enjoativamente doce e escorrendo malícia, me chamou. "Ah, Arthur, por que você não convidou a Elisa para ir junto? É um retiro de casais, afinal."

Parei, minhas costas rígidas. Não me virei, mas podia sentir todos os olhos na sala sobre mim.

Arthur suspirou, um som de pura exasperação. "Você sabe como ela é, Isabela", disse ele, sua voz carregada de um tom condescendente que me cortou mais fundo do que qualquer outra coisa. "Ela não se encaixa muito bem com a equipe. Só deixaria todo mundo... desconfortável."

Meus pés pareciam enraizados no chão. Desconfortável. Eu os deixava desconfortáveis. Eu, a mulher que se contorceu em uma forma perfeita e agradável por três anos, era um inconveniente.

Levei cada grama da minha força restante para forçar minhas pernas a se moverem, para sair daquele escritório e descer o longo e silencioso corredor, deixando o som de suas risadas fáceis para trás.

Capítulo 2

Ponto de Vista: Elisa Dantas

Eu não esperei por ele. Os dias em que eu ficava sentada perto da janela, observando a entrada da garagem em busca do brilho de seus faróis, haviam acabado. Aquela versão de Elisa Dantas morreu no corredor do lado de fora do escritório dele.

A casa estava escura e silenciosa, um espaço cavernoso que antes parecia um santuário, mas agora parecia uma tumba lindamente decorada. Deitei em nossa cama king-size, o espaço ao meu lado frio e vazio, e encarei o teto.

Passava das duas da manhã quando meu celular vibrou na mesa de cabeceira. O nome de Arthur brilhou na tela. Deixei tocar, uma parte pequena e amarga de mim querendo que ele sentisse a ferroada de ser ignorado. Mas no quarto toque, cedi e atendi.

"Alô?"

Não foi a voz dele que respondeu. Foi a de Isabela.

"Elisa? Oi, é a Isabela." Sua voz era suave, tingida com uma preocupação fingida que me deu arrepios. "Me desculpe por ligar tão tarde."

Sentei-me, o telefone apertado em minha mão. "Isabela? Onde está o Arthur? Ele está bem?"

"Ah, ele está ótimo", disse ela com uma risada leve e desdenhosa. "Ótimo até demais, na verdade. Ele bebeu um pouco além da conta."

Meu coração martelava contra minhas costelas. "Onde ele está?"

"Ele está aqui. Na minha casa", disse ela, deixando as palavras pairarem no ar por um segundo a mais. "Não se preocupe", acrescentou rapidamente, seu tom escorrendo falsa inocência. "A equipe toda veio aqui para um último drink, mas todo mundo já foi embora. Ele apagou no meu sofá. Não achei seguro ele dirigir, e não queria te acordar com um carro deixando ele aí."

Cada palavra era um dardo cuidadosamente escolhido, mirando para ferir. Ela era uma mestra nesse jogo, pintando-se como a amiga responsável enquanto, ao mesmo tempo, exibia sua intimidade com meu marido.

No silêncio esmagador do quarto, eu podia ver sua estratégia com clareza perfeita. Aquilo não era uma ligação de cortesia; era uma demonstração de poder. Uma declaração.

"Passe o telefone para ele", eu disse, minha voz fria e firme.

"Ah, não sei se consigo acordá-lo-"

"Passe. O. Telefone. Para. Ele. Isabela."

Houve um momento de silêncio, depois um som abafado enquanto ela se movia. Ouvi sua voz melosa ao fundo: "Arthur, querido, acorda. A Elisa está no telefone."

Alguns segundos depois, a voz dele soou, arrastada pelo sono e pelo álcool. "Lili?"

"Onde você está, Arthur?", perguntei, embora já soubesse a resposta.

"Na casa da Isabela", ele murmurou. "A gente... a gente tava comemorando. Fechamos um grande negócio."

"Você não podia vir para casa?" A pergunta soou fraca, até para os meus próprios ouvidos. Patética.

"Está barulhento aqui", disse ele, sem responder à minha pergunta. "Não quero ir pra casa. É muito quieto lá. Muito... entediante."

Lá estava de novo. Aquela palavra. Entediante. Era eu a razão pela qual ele achava sua casa entediante? Minha presença quieta e constante era a fonte de seu profundo tédio?

"Você se arrepende?", perguntei, a pergunta escapando antes que eu pudesse impedi-la.

"Me arrependo do quê?", ele resmungou, confuso.

"De nós", sussurrei. "De ter se casado comigo."

Ele ficou em silêncio por um longo momento. Eu podia ouvir o som fraco de música ao fundo, o tilintar de um copo. "Não seja boba, Lili", ele finalmente disse, sua voz um eco vazio do homem com quem me casei. Não foi uma negação.

De repente, o telefone foi arrancado. Isabela estava de volta na linha, sua voz um contraste agudo com a névoa de embriaguez dele. "Ele está muito mal, Elisa. Acho melhor ele ficar por aqui mesmo."

Então, ouvi-a dizer algo longe do telefone, com um tom brincalhão e repreensivo. "Arthur, se comporte! Você está me fazendo cócegas."

Ouvi a risada dele em resposta, um ronco baixo que de repente soou nítido e sóbrio. Sóbrio demais para um homem que supostamente estava "apagado".

"Mande um beijo para a Elisa", disse ele, sua voz clara e provocadora. "Diga a ela para não se preocupar. Afinal, você foi minha noiva primeiro. Você sabe como cuidar de mim."

A linha ficou muda, mas suas palavras continuaram a reverberar em minha mente. Você foi minha noiva primeiro.

Era um pedaço da história que eu não soube até depois do nosso casamento. Um detalhe pequeno e significativo que a família Monteiro convenientemente omitiu. Arthur e Isabela, produtos de duas famílias poderosas e tradicionais, haviam sido noivos. Era um casamento arranjado, uma fusão de dinastias.

Então ele me conheceu. A jovem e promissora arquiteta de classe média. Ele me disse que se apaixonou pela minha paixão, minha independência, minha "autenticidade". Ele desfez o noivado com Isabela, desafiou sua família e se casou comigo em um romance relâmpago que parecia um conto de fadas.

Ele me amou naquela época. Eu sei que amou. Seus olhos costumavam me seguir pela sala, cheios de uma luz que agora eu percebia que havia se apagado há muito, muito tempo.

Três anos. Foi o tempo que levou para o conto de fadas azedar. Foi o tempo que levou para seu grande gesto romântico de desafio se tornar um fardo. Ele não apenas me escolheu; ele a rejeitou, e agora, parecia, ele estava passando cada momento tentando desfazer essa decisão. A vida tranquila e previsível que ele alegava querer comigo havia se tornado a jaula da qual ele estava desesperado para escapar. E Isabela segurava a chave.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Elisa Dantas

Ele não voltou para casa no dia seguinte. Nem na noite seguinte. Quando Arthur finalmente entrou pela porta na terceira noite, eu estava sentada à mesa de jantar, encarando um prato de comida para o qual não tinha apetite.

Nos primeiros dias do nosso casamento, depois da nossa primeira briga de verdade, ele chegou em casa com um buquê ridiculamente grande das minhas peônias favoritas e uma pequena caixa de veludo contendo uma pulseira de diamantes. Era o jeito dele de pedir desculpas, um grande gesto para suavizar as rachaduras.

Esta noite, ele chegou de mãos vazias.

"Oi", disse ele, sua voz monótona enquanto tirava o paletó. Ele não olhou para mim.

Sentou-se à minha frente e pegou o garfo, cutucando o salmão grelhado em seu prato. O silêncio estava carregado de acusações não ditas.

"O que é isso?", ele perguntou, a testa franzida em desgosto. "O peixe está seco."

Eu o encarei, meu próprio garfo congelado a meio caminho da boca.

"Três anos, Elisa", disse ele, sua voz subindo com uma raiva súbita e desproporcional. "Você faz isso há três anos. É pedir muito por uma refeição decente?"

Sua raiva era confusa, chocante. Parecia imerecida, deslocada. Eu não o via há dois dias, ele passou pelo menos uma noite no apartamento de sua ex-noiva, e estava gritando comigo por causa de um peixe seco. Foi então que eu soube. Não era sobre o salmão. Este era o ponto de virada. O momento em que o ressentimento não dito finalmente transbordou em hostilidade aberta.

Nossa governanta, a Sra. Guedes, uma mulher gentil que estava com a família dele há décadas, saiu apressada da cozinha, o rosto marcado pela preocupação.

"Sr. Monteiro, senhor, me desculpe", disse ela, torcendo as mãos. "A culpa é minha. A Sra. Monteiro não estava se sentindo bem hoje, então eu preparei o jantar. Devo ter cozinhado demais."

A cabeça de Arthur se ergueu, seu olhar finalmente pousando em mim. Pela primeira vez, ele pareceu realmente me ver, notando meu rosto pálido e as olheiras sob meus olhos. Um lampejo de algo – culpa, talvez – cruzou suas feições antes de ser rapidamente suprimido. Ele ficou sem palavras.

Ele acenou com a mão de forma desdenhosa. "Tudo bem. Vamos comer assim mesmo", murmurou, sua raiva se esvaziando tão rápido quanto apareceu.

Mas ele não pediu desculpas. Nem por gritar, nem por sua falsa acusação, e certamente não pelas últimas duas noites.

Coloquei deliberadamente meu garfo e faca no prato com um leve tilintar. O som foi baixo, mas no silêncio tenso da sala, foi tão alto quanto um tiro.

Ele ergueu o olhar, seus olhos cautelosos.

"Arthur", eu disse, minha voz uniforme e calma. "Você me odeia?"

Sua cabeça deu um leve tremor, quase imperceptível. Seu olhar era indecifrável, uma máscara de neutralidade cuidadosamente construída. "Não seja dramática, Elisa."

"Então o que é?", insisti. "Você está com raiva, mas eu não sei por quê. Me diga."

"Eu só tive um dia longo", disse ele, empurrando a comida pelo prato. Ele suspirou, recostando-se na cadeira e passando a mão por seu cabelo perfeitamente penteado. Era seu movimento clássico, o gesto que ele usava quando tentava parecer razoável e paciente diante do que ele considerava minha emotividade. "Eu pedi desculpas por levantar a voz. Eu espero que você administre a casa. Isso inclui a cozinha. Não é pedir muito."

Olhei em seus olhos, procurando um traço do homem com quem me casei, o homem que me olhava com tanta adoração. Não encontrei nada. Apenas uma impaciência fria e cansada.

"Eu não sou sua governanta", eu disse, as palavras com gosto de liberdade na minha língua. "E não sou sua chef pessoal. Se você não gosta da comida, pode encontrar outra pessoa para cozinhar. A partir de agora, eu parei."

Empurrei minha cadeira para trás e me levantei.

"E para que conste", acrescentei, minha voz endurecendo, "se você prefere as 'coisas simples', tenho certeza de que a Isabela ficaria mais do que feliz em pedir uma pizza para você. Ou talvez ela mesma pudesse cozinhar."

A cor sumiu de seu rosto. Ele se levantou de um salto, sua cadeira arrastando ruidosamente no chão polido. "O que a Isabela tem a ver com isso?", ele exigiu, sua voz um rosnado baixo e perigoso.

"Tudo", eu disse simplesmente.

"Você está sendo irracional, Elisa", ele retrucou, sua compostura finalmente se quebrando. "Pare de colocá-la em todas as conversas!" Ele bateu a mão na mesa, fazendo os talheres saltarem. "É exatamente disso que eu estou falando! Esse drama! Eu não aguento mais isso!"

Ele se virou e saiu furioso da sala de jantar, deixando-me de pé, sozinha, no silêncio ensurdecedor, o cheiro do salmão seco e indesejado pairando no ar como uma coroa de flores para o funeral do nosso casamento.

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