O véu branco esconde a verdade, mas não a dor.
Estava prestes a casar com Hugo Gordon, o magnata da comunicação, o homem que todos viam como a epítome do amor e da devoção.
O meu vestido de noiva, desenhado por ele, era uma obra-prima cravejada de gemas.
Deveria estar a flutuar de alegria, mas a minha voz soava estranhamente distante aos meus próprios ouvidos.
A farsa começou a desmoronar-se na noite em que o ouvi confessar: o seu "amor" por mim era apenas um ardil para afastar-me de Jacob e abrir caminho para a felicidade da minha irmã, Raegan.
Ele "salvou-me" com a doação de um rim, mas percebi que até esse sacrifício era para garantir que a futura "cunhada" da Raegan estivesse saudável.
Eu não era uma noiva, mas um peão no jogo deles.
Toda a minha vida, a minha família me tratou como um fardo, um ruído de fundo, enquanto a Raegan era adorada.
Os meus pais ignoravam a minha alergia a marisco, servindo-o no jantar, com Hugo descascando camarões para a Raegan, alheio a mim.
Quando a Raegan simulou uma queda, Hugo abandonou-me no meio da multidão, deixando a minha lanterna dos desejos por acender, correndo para ela.
Nas lanternas que ele comprara para mim, estavam escritos apenas desejos para a Raegan.
A aceitação da traição, da indiferença, da pura malícia, esmagou-me, mas trouxe uma clareza gelada.
Será que alguém alguma vez amou a Liza Hayes?
Seria eu apenas um fardo, uma sombra, um meio para os fins alheios?
A ilha esperava-me, a minha fuga estava traçada.
Eu ia desaparecer, renascer das cinzas deste mundo de mentiras e construir a minha própria paz, mesmo que a minha felicidade fosse comprada.
A minha vingança já estava em curso.
O advogado ao telefone confirmou com uma voz calma e profissional.
"Sim, Senhora Hayes, a transação da ilha nos Açores está concluída, a propriedade está agora em seu nome, o serviço de 'família personalizada' que solicitou também foi organizado, estarão à sua espera dentro de um mês."
"Obrigada," respondi, a minha voz soava estranhamente distante aos meus próprios ouvidos.
Desliguei a chamada e olhei para o meu reflexo no espelho de três faces da loja de noivas. O vestido, desenhado com a participação de Hugo, era uma obra-prima, cravejado com gemas raras da Madeira que brilhavam sob as luzes da boutique. Eu deveria estar feliz, deveria estar a flutuar de alegria. Afinal, ia casar com Hugo Gordon, o magnata dos media de Lisboa, o homem que todos viam como o epítome do amor e da devoção.
A porta da sala de provas abriu-se e Hugo entrou, os seus olhos brilharam ao ver-me.
"Liza, meu amor, estás... deslumbrante," disse ele, a sua voz embargada de emoção. Ele aproximou-se, os seus dedos roçaram suavemente no tecido de seda. "És a noiva mais bonita do mundo."
A assistente da loja, parada à porta, suspirou com um sorriso sonhador.
"O Senhor Gordon é tão dedicado, Senhora Hayes, ele supervisionou pessoalmente cada detalhe deste vestido, o amor dele por si é algo que só se vê nos filmes."
Sorri, um sorriso vazio que não alcançou os meus olhos. Eu sabia a verdade, eu sabia que tudo isto era uma farsa cuidadosamente construída. A sua devoção era uma performance, e eu era a sua audiência cativa.
Hugo ajudou-me a descer do pequeno pedestal, os seus gestos eram de um cuidado imaculado.
"Cuidado, querida, não quero que te magoes."
A sua mão segurou a minha, mas eu não senti nada, apenas o frio da sua pele contra a minha. Estava presa nesta farsa, pelo menos por mais um mês.
Enquanto saíamos da loja e entrávamos no carro, o telemóvel de Hugo apitou com uma notificação. Ele pegou nele, o seu rosto mudou instantaneamente ao ver o ecrã. Era uma publicação no Instagram da minha irmã, Raegan. Uma foto dos seus pés, um tornozelo inchado, com a legenda: "Oops, torci o tornozelo nas ruas escorregadias de Alfama, dói tanto."
Sem uma palavra, Hugo largou a minha mão, ligou o motor e acelerou, deixando-me para trás na calçada. Ele nem sequer olhou para trás.
Abri o meu próprio telemóvel e vi a mesma publicação. A localização mostrava que ela estava a poucos quarteirões de distância. A traição dele foi tão rápida, tão instintiva.
Uma onda de memórias amargas invadiu-me. Jacob Contreras, o herdeiro da famosa adega de Vinho do Porto, o meu primeiro noivo. Eu amei-o com todo o meu coração, mas ele só tinha olhos para a Raegan. E quando o meu coração se partiu, Hugo apareceu, o salvador, o guardião que passou sete anos a curar-me com uma ternura paciente.
Mais tarde naquela noite, a verdade atingiu-me com a força de um golpe físico. Passei por uma casa de fados, a música melancólica a flutuar no ar, e ouvi a voz de Hugo, alta e alterada pelo álcool, vinda de uma mesa no pátio.
"Claro que tive de a conquistar," dizia ele a um grupo de amigos. "A Raegan estava apaixonada pelo Jacob, mas ele estava noivo da Liza, eu tinha de tirar a Liza do caminho para a Raegan ter a sua oportunidade, casar com a Liza é a única maneira de garantir que ela nunca mais volta para o Jacob, é para proteger a felicidade da Raegan."
O mundo à minha volta desmoronou-se. Ninguém amava Liza Hayes, todos amavam Raegan Hayes. Eu era apenas um peão no jogo deles.
Naquele momento, a minha decisão solidificou-se. A herança da minha avó, a fortuna secreta dos diamantes de Angola, não era apenas dinheiro, era a minha salvação. A ilha, a família personalizada, era a minha única saída. Eu ia desaparecer, apagar-me deste mundo de mentiras e construir um para mim, um onde eu seria amada de verdade, mesmo que esse amor fosse comprado.
O primeiro passo para apagar a minha existência foi voltar a casa, a casa onde cresci em Cascais, para recuperar documentos importantes. A minha certidão de nascimento, o passaporte, a escritura da propriedade da minha avó. Eram as chaves para a minha nova identidade, para a minha liberdade.
Quando cheguei, a porta foi aberta pela minha mãe. A sua expressão azedou assim que me viu.
"O que estás a fazer aqui? Não devias estar a preparar o teu casamento? Estás sempre a causar problemas."
O meu pai, sentado na sala de estar a ler o jornal, nem levantou a cabeça.
"Deixa-a, ela só sabe aparecer quando precisa de alguma coisa, nunca pensa na honra da família."
Eu ignorei-os, a indiferença deles já não me magoava, era apenas um ruído de fundo na minha vida. Subi as escadas em direção ao meu antigo quarto, focada apenas no meu objetivo.
Enquanto procurava os documentos na gaveta da minha secretária, ouvi o som de um carro a parar lá fora, seguido de vozes familiares. Desci e encontrei uma cena que fez o meu estômago revirar.
Hugo estava a ajudar a Raegan a sair do carro, o braço dela à volta do pescoço dele, o pé dela com uma ligadura vistosa.
"Oh, Liza, estás aqui!" disse a Raegan com uma falsa inocência. "O Hugo foi tão querido, insistiu em trazer-me a casa, o meu tornozelo está a matar-me."
Hugo sorriu-me, um sorriso tenso.
"Eu estava a passar por aqui, pensei em ver se a Raegan precisava de alguma coisa."
"Que coincidência," murmurei, a minha voz desprovida de qualquer emoção.
A minha mãe apressou-se a acolher a Raegan, tratando-a como uma rainha ferida.
"Oh, minha querida, entra, senta-te, o Hugo é um anjo, não é? Sempre a cuidar de ti."
A Raegan lançou-me um olhar triunfante por cima do ombro da minha mãe.
"Ele é o melhor, não é, mana? Tão atencioso, ele deixou tudo para vir ajudar-me."
A provocação era tão óbvia, tão infantil. Mas eu não reagi. A minha mente estava a milhas de distância, na minha ilha, no meu futuro.