Dias Atuais...
Fazia dois dias que havia chegado do internato e só vi meu pai no dia
em que ele foi me buscar no aeroporto, e nós mal nos falamos, nem
parecíamos pai e filha. Eu deveria estar acostumada, já que desde os meus
oito anos não convivemos. Nos falávamos apenas por videochamada, ou
quando me visitava na Inglaterra, e mesmo assim era por pouco tempo, no
máximo um fim de semana. Ficávamos em nossa casa na cidade de York, e
ainda assim quase não o via. Passei a metade do tempo sozinha, e quando
cheguei na adolescência, nossos encontros se restringiram aos hotéis da
cidade onde ficava o internato. Fazia um ano que não o via.
E é por isso que não entendo a ideia de um baile para me apresentar
aos seus amigos, não encontro motivos para tal exibição. E aqui estou, de
frente para o espelho, admirando meu corpo em um vestido que sempre
imaginei usar, pois no internato, mesmo já sendo uma moça, éramos
obrigadas a trajar uniforme convencional. O vestido azul-marinho, justo ao
meu corpo, ressaltou todas as minhas curvas, e estufou meus seios, tornando-
os muito maiores do que são.
Mesmo sendo um pouco decotado, gosto do que vejo. Eu tenho uma
pele clara e os meus cabelos castanhos com fios acobreados, deixa-os
brilhantes, sedosos e com reflexos dourados. Meus olhos cristalinos -
parecidos com os da minha mãe -, contrastam com meus cabelos, dando-me
um ar misterioso, elegante e lindo de se olhar. Eu sei que sou uma moça de
beleza estonteante. Cresci escutando isso, mesmo sem precisar usar
maquiagem, ou qualquer enfeite em meu corpo. Enfim, sou uma jovem
encantadora.
Devido a tudo isso, eu vivo dizendo a mim mesma que papai me ama e
me protege, por medo de que qualquer dia algum homem queira me
machucar. Segundo algumas meninas do internato, os homens só nos querem
para o sexo e dar-lhes filhos, pois não passamos de vacas parideiras e vasos
sanitários para que eles nos usem quando quiserem fazer suas necessidades
carnais... Entretanto, essa noite, papai queria me apresentar à sociedade, o
que contradiz tudo o que pensava.
- Oh, menina, você está tão bonita! - Paulina, nossa governanta ao
me vir, quase se desmancha em lágrimas. - Tão adorável! - Ela vem até
mim, pega minha mão e os seus olhos me avaliam com admiração. - Venha,
minha querida...
Sou tomada pela mão e atravessamos o grande corredor do andar de
cima da minha casa, de onde já posso escutar as vozes dos diversos
convidados. Por medo e nervosismo, puxo minha mão e estagno no lugar.
- Safira, os convidados lhe aguardam e seu pai já está soltando
fumaça pelas ventas. - Pauline começa a se impacientar ao perceber que
minha intenção é voltar para o quarto, sendo assim, me segura, tentando me
puxar. - Menina, seu pai vem planejando esse baile desde o dia que soube
que estava voltando definitivamente para casa, ele convidou pessoas de
todos os cantos do mundo só para conhecer sua única filha.
- E para que isso? Não quero conhecer ninguém, só quero ficar quieta
e recomeçar meus estudos na faculdade. É só isso que desejo.
- Meu Deus! Olhe para você, tão bonita! - exclama Pauline. - Não
desperdice sua juventude com livros, precisa encontrar um homem que a ame
e cuide de você. Mas isso só acontecerá enquanto estiver com o rubor da
inocência imaculada, após isso, você deixará de ser novidade e passará a
ser apenas uma moça comum no meio de tantas. Seja inteligente e conquiste
o coração daquele que se jogará aos seus pés com apenas um olhar.
- Que horror, Pauline, estamos no século vinte e um, os homens não
se importam mais com a inocência, muito pelo contrário, eles querem
mulheres cultas, inteligentes, independentes, não submissas que acatem suas
ordens. - Não acredito no que acabei de escutar. - Nem eu que fui criada
em um internato, sei que as mulheres se emanciparam e os homens não
querem mulheres que se dediquem apenas ao lar.
- Engana-se, minha filha, os homens só querem alguém para dividir
as despesas, casa arrumada, roupa limpa e sexo de graça, E as mulheres
emancipadas achando que conquistaram seus direitos e liberdade de
pensamentos, pobres coitadas. Ainda existem homens que necessitam cuidar,
mimar e amar uma mulher. E se eu estivesse em seu lugar, faria qualquer
coisa para conseguir um. E tem mais, seu pai jamais permitirá que se case
com um homem que não tenha um alto poder aquisitivo, ou que possua pelo
menos alguns milhões para gastar contigo.
- Isso é besteira, eu não passei treze anos da minha vida trancafiada
em um colégio interno para virar prisioneira de um marido. E tem mais, não
pretendo me casar tão cedo e isso só acontecerá se um dia eu me apaixonar,
o que eu duvido muito que aconteça.
- Pois acho melhor ir se acostumando com esta ideia, seu pai já tem
planos para você. Está na hora, e vá por mim, minha querida, você não terá
outra opção.
- Papai não me obrigaria a me casar com um desconhecido, ele pode
até não ser o melhor pai do mundo, mas jamais faria isso comigo.
- Safira, você viveu a maior parte de sua vida protegida pelos muros
do colégio, não faz ideia das coisas que aconteceram por aqui, não se engane
com todo esse glamour. Agora vamos, seus convidados estão lhe
aguardando.
Pauline envolveu a mão em meu pulso e saiu me puxando pelo imenso
corredor. Fiquei sem ação, não consegui assimilar as palavras que foram
jogadas em meu rosto.
Será que papai realmente procurava um marido para mim, um
homem excêntrico e muito rico, mas por quê?
Nós somos ricos, não precisamos do dinheiro dos outros!
- Não, Pauline, isso é mentira, papai não faria isso comigo. Eu não
quero me casar com ninguém, sou muito jovem para isso, nunca namorei,
nunca beijei, como posso me casar com o primeiro que surgir em minha
vida? Isso é cruel!
Tento puxar meu braço de sua mão, eu queria fugir dali. Não serei uma
boneca, para apreciação dos velhos amigos do papai.
Imediatamente Pauline me detém.
- Acalme-se, Safira, seu pai só quer o melhor, ele sabe o valor que
você tem, não a entregará para qualquer um, e acredite, poderá até amar seu
futuro marido antes mesmo do casamento.
Então é verdade, papai pretende mesmo me casar com algum homem
que está presente nesta festa.
Eu já estava pronta para correr escada acima, quando escutei a voz
melosa de meu pai.
- Olha só como está belíssima, minha linda princesa. - Ele sobe as
escadas lentamente, olha-me com um sorriso esticado nos lábios. Logo em
seguida, toma a minha mão e seguimos as escadarias em direção ao
aglomerado de pessoas, que nos olham com admiração e sorrisos
estampados nos lábios.
- Papai, precisamos conversar - sussurro enquanto caminhamos
para o centro da grande sala. Papai se finge de morto, apenas sorri.
- Meus queridos amigos, silêncio, por favor! - Todos se calam. -
Esta é a minha linda filha, Safira Stuart, por treze anos a escondi de olhos
invejosos e ambiciosos, entretanto, não poderia escondê-la para sempre do
mundo, portanto, aqui está o meu bem mais valioso.
Minhas bochechas queimam de vergonha, estou me sentindo uma peça
cara de leilão.
Como papai pôde fazer isso comigo? Será que ele pensa que ainda
tenho quinze anos?
Sou apresentada à grande sociedade; senhoras elegantes, moças lindas
e sorridentes, algumas me olham com admiração, outras com ódio, e outras
com desdém. Os homens parecem lobos famintos, sem distinção alguma,
casados, solteiros, velhos, novos. Um a um, que aperta ou beija minha mão,
fazem meus pelos se arrepiarem, não de emoção, mas de temor. Só um dos
amigos do papai desperta a minha atenção, mas este não me foi apresentado.
Ele fica distante, apenas me observando.
Alto, elegante, lindo! Se parece um anjo demoníaco, com toda a
devassidão estampada em sua expressão facial.
Assim que se vira, meu coração começa a bater descompassadamente.
Não sei dizer exatamente o que estou sentindo, mas é um misto de
sentimentos: medo e fascínio.
Aonde eu vou, seus olhos me seguem, mesmo estando de costas eu sei
que ele me observa, sinto sua presença mesmo à distância. E é assim durante
toda a noite, até quando me sento e penso estar longe do olhar congelante do
tal homem, e tomo coragem e pergunto para o papai quem é aquele que me
devorou com o olhar, pois ele é o único a quem não fui apresentada.
- Papai, quem é o homem que está na última mesa próxima à porta de
vidro que leva ao jardim? - Papai sequer olha para o local que indiquei.
- É o senhor Lennox Feral Prysthon, mas todos o chamam de Feral.
Nossa! O nome faz jus à pessoa, desde que o vi, fiquei com uma
sensação diferente. E sabendo agora seu nome, é como fogo queimando por
dentro, algo naquele homem me diz para ficar bem longe.
- Ele é um dos homens mais ricos da Espanha, se não for do mundo.
- Ele é espanhol?
- Não, seus pais eram americanos, faz alguns anos que ele adotou a
Espanha como terra natal. Ele tem várias cidadanias, inclusive a nossa, só
não me pergunte como ele conseguiu, acho que dinheiro compra muitas
coisas.
- Ele dá medo... fica me olhando de um jeito...
- Ele dá medo a qualquer pessoa, principalmente se estiver frente a
frente com ele. Tem um olhar demoníaco, um olho de cada cor, uma íris é
azul e a outra dourada como as chamas do inferno.
- Pai, há pessoas com este tipo de anomalia genética, se chama
heterocromia, não é normal, mas acontece.
- Eu sei, mas nunca vi uma anomalia igual a dele, às vezes,
dependendo da luz, as írises, ou ficam completamente douradas, ou azuis, é
esquisito. Por isso ele ganhou o apelido de Feral.
Assim que papai termina de falar, olho na direção da mesa onde o tal
Feral está sentado, mas ele desapareceu. Por algumas horas o procuro com o
olhar, mesmo me sentindo observada, não o vejo mais.
CAPÍTULO 2
A semana passa rápido, e desde o baile de
apresentação não tenho visto o papai. Tenho
tentado me manter acordada, para esperá-lo
chegar e termos uma conversa definitiva a respeito
da faculdade que escolhi e do curso que pretendo
fazer, no entanto, sou vencida pelo sono e quando acordo, ele já não está
mais em casa.
Pauline, nunca me diz onde posso encontrá-lo, e sequer me deu o
número do seu celular, diz que o papai não gosta de ser interrompido e para
que eu tenha paciência, pois chegará a hora em que iremos conversar. Só que
este dia nunca chega.
Acordo com a cantoria dos pássaros em minha janela. A manhã de
domingo parece perfeita para um banho de piscina, a vantagem de se morar
em um país tropical é essa, o sol é quente e nos permite um mergulho ao ar
livre. Jogo uma água no corpo, visto um maiô que comprei há quase um ano,
em um dos passeios que fazíamos com as alunas, sempre supervisionados
pelas irmãs do internato. É bem-comportado e sei perfeitamente que não é
uma peça que as moças de minha idade usariam, mas é o que tenho e servirá
para um mergulho. Por cima da roupa de banho coloco um vestido leve de
algodão.
Já estou me aproximando da sala de jantar, quando percebo que alguma
coisa estranha aconteceu, os empregados estão de pé, perfilados, e outras
pessoas que eu não conheço estão reunidas em grupos, falando em voz baixa,
parecem assustadas e chocadas. Então assim que notam a minha presença no
ambiente, me encaram e olham em direção ao meu ombro esquerdo. Me viro
e congelo, sentindo meu coração apertar em meu peito. Meus olhos se fixam
no homem que desce as escadas com seu porte altivo, paro de respirar por
alguns segundos. Deveria ter corrido, mas sequer consigo me mover.
O tal Lennox caminha em minha direção e quanto mais se aproxima,
mais posso ver a cor dos seus olhos. Eles são frios, e à medida que me olha,
percebo que o tom de azul parece o céu sem nenhuma nuvem, e o dourado o
céu quando o sol está se pondo.
- Sinto muito, Safira, mas seu pai não se sentiu bem e...
Ele chega tão rápido perto de mim que, sequer percebo que sua cabeça
está levemente inclinada, bem próxima a meu rosto.
- Papai, o quê? Ele está bem? - Consigo finalmente desviar meus
olhos do rosto do homem que me deixa completamente hipnotizada e tento
seguir em direção às escadas. - Quero vê-lo!
- Não! Acho melhor o médico explicar o que aconteceu. - Sua mão
forte e quente consegue me deter.
- Solte-me, eu preciso ver meu pai. - digo, enfrentando-o e tentando
fugir do aperto de sua mão em meu braço.
- Não há mais nada a ser feito, seu pai teve um infarto fulminante. Eu
sinto muito!
- Morto! Como assim? - O empurro, e corro em direção às escadas,
subindo de dois em dois degraus com as palavras frias que aquele estranho
profere, ecoando em meus ouvidos, ferindo a minha alma, deixando-me
completamente desesperada.
- Safira, espere, não fará bem ver seu pai nesse estado... - Ele ainda
tenta me deter, mas é tarde demais, já entrei no quarto.
- Papai, por que o senhor fez isso? O senhor é tudo o que eu tenho, a
única pessoa que me restava! - Bati em seu peito com meus punhos
fechados, tentando sentir algum tipo de reação com meu desespero.
Grito, furiosa, até que o tal Feral me segura, carregando-me em seus
braços, me conduzindo para o meu quarto.
- Por que ele me deixou? Por quê? - Sussurro, com o rosto
escondido em seu peito, sentindo um cheiro gostoso, reconfortante. - Ele
não tinha o direito de me deixar, e agora? - Estou me sentindo como se
estivesse flutuando, mal consigo enxergar a muralha de músculos em minha
frente.
- Acalme seu coração, Safira, tudo ficará bem, eu garanto. - As
palavras dele chegam aos meus ouvidos sussurradas, e antes mesmo de
chegar a meu quarto, perco os sentidos.
Quando acordo, horas depois, estou na minha cama, com Pauline ao
meu lado, tentando me confortar.
- Querida, não fique assim, não havia mais o que fazer, seu pai sabia
que se continuasse vivendo aquela vida sem limites, seria fatal. Jogo,
bebida, mulheres... ele foi avisado pelo médico, mas não quis escutar.
- Por que você não me contou que ele estava doente? - Limpo as
lágrimas, que mal consigo contê-las.
- Porque seu pai não iria escutá-la, ele não escutava ninguém. Seu pai
tinha duas doenças incuráveis: a do coração e da jogatina, e olha no que deu.
Pauline me abraça, tentando me consolar, só então percebo que não
conheço meu pai, não sei nada sobre ele. Andrew Stuart é um completo
estranho.
- Ele parecia estar tão bem! Como foi acontecer isso de uma hora
para outra?
- Querida, seu pai já havia sofrido dois AVCs, não percebeu que ele
andava um pouco manco?
- Sim, mas eu pensei ser da idade.
- O médico o avisou que o próximo poderia ser fatal.
As lágrimas inconsoláveis saltam de meus olhos, descendo pelo meu
rosto.
- Minha linda, chore, chore sua dor, mas saiba que seu pai tentou ser
um pai cuidadoso, mesmo não demonstrando. Ele sempre se preocupou com
seu futuro, acredite nisso. E aconteça o que acontecer, saiba que o que ele
fez foi para seu bem, e você precisa honrar sua palavra, faça o que tem que
ser feito e aceite seu destino.
Não estou entendendo nada daquela conversa, Pauline fala coisas sem
nexo.
- Querida, não me olhe assim, você não é mais criança, já é uma
moça de vinte e um anos e precisa enfrentar a realidade da vida.
Eu não faço ideia do que ela quer me dizer com todas aquelas
palavras, eu só quero acordar, talvez esteja dormindo. Volto a chorar. Não
me conformo em ter perdido meu pai, mesmo que ele nunca tenha sido
presente, era minha única família. Sinto-me sendo puxada para a escuridão,
onde a solidão está me esperando, pronta para me devorar.
Os dias que se sucedem, são os mais terríveis de toda a minha vida.
Vejo os empregados indo embora, um por um, a única que fica é Pauline.
Dias depois, um homem vestido em um terno preto, vem inspecionar a casa e
diz estar a mando do novo proprietário. É então que descubro que herdei
apenas dívidas.
Papai devia muito mais do que tínhamos. O valor da sua dívida daria
para comprar um pequeno país. Resumindo, eu não tenho onde cair viva,
logo terei que deixar a casa. E o pior, com uma mão na frente e outra atrás, e
ainda devendo uma grande fortuna.
- Como tudo isso aconteceu? Nós tínhamos tanto dinheiro! E as
empresas da família da mamãe, o que aconteceu com elas? - Sabia que tudo
o que eu e o papai tínhamos, foi herança da mamãe. - O que é que eu vou
fazer agora? Para onde eu irei? - Pergunto olhando para Pauline.
- Não se preocupe, querida, tudo na vida tem um jeito, seu pai não te
abandonaria, eu tenho certeza disso.
Acho que Pauline não entendeu, estou falida e cheia de dívidas.
Preciso aceitar que estou na lama, preciso ir à procura de algum
emprego e um lugar para ficar, antes que os novos donos me chutem daqui.
- Pauline não precisa ficar ao meu lado, pode ir, eu ficarei bem. Só
deixe o número do seu telefone caso eu precise falar com você.
- Não, eu ficarei ao seu lado, e se quiser, poderá vir comigo. Falo
com meus novos patrões, eles certamente a acolherão.
Pauline foi indicada para trabalhar em uma mansão de um dos amigos
de meu pai, e sei que certamente ele nunca me aceitaria em sua casa, já que
papai não ficou bem-visto perante à sociedade, após descobrirem o quanto
ele estava endividado.
CAPÍTULO 3
Duas semanas se passaram, e recebo a
visita do novo proprietário, ele comprou a mansão
do homem a quem papai era devedor. O senhor
simpático é até generoso, dando-me mais dois
dias para que eu arrume um lugar para ficar.
No entanto, preciso acordar para a realidade, de nada adianta ficar
postergando minha derrota, eu não pertenço mais a este lugar, então, é
chegada a hora de dizer adeus. Arrumo minhas poucas coisas, só tenho o que
trouxe do internato, ainda não havia saído para fazer compras, e enquanto
desço as escadas meu celular toca.
Mesmo sem saber quem era, pois o número não era identificado, eu
atendo.
- Alô! - respondo com um fio de voz.
- Safira? - A voz é profunda e a reconheço, mas não quero
acreditar. - Aqui é Lennox Prysthon.
Como ele sabe meu número de celular?
- Sim. Posso saber o que deseja? - Eu não o via desde o dia da
morte do papai. Ficamos em silêncio e isto começa a me incomodar, aliás,
ele me incomodava.
- Senhor, ainda está aí? - Pergunto, tentando quebrar o silêncio
constrangedor.
- Sim. - Ele limpa a garganta. - Estou indo buscá-la, não saia daí
até eu chegar.
- Senhor Lennox, não tenho nada para falar com o senhor, já estou
indo embora desta casa, os novos donos já estão vindo, então, passe bem...
- Safira, nem ouse sair daí, já estou chegando. - ordena com aquela
voz rouca e quente. - Temos alguns assuntos pendentes, não era para
acontecer desse jeito, mas infelizmente situações extremas exigem medidas
extremas, portanto, espere-me.
Será que papai lhe devia algum dinheiro e ele se acha no direito de
vir me cobrar?
- Senhor, se papai estava lhe devendo algum dinheiro, saiba que não
sou herdeira de nada, a não ser das suas dívidas. Acho que o senhor deve
estar sabendo, todos da alta sociedade já sabem. - digo com voz magoada.
- Sim eu sei, só fique onde está, em cinco minutos estarei a sua
frente. - ele fala com aquele tom de quem não está acostumado a ser
desautorizado.
Sento-me em um dos estofados que ficam em frente à grande porta de
entrada, e espero. Minutos depois ele se faz presente com sua postura altiva
e dominante, vestido em um terno azul-marinho. Caminha em minha direção,
eu permaneço sentada. De pé, diante de mim com aqueles olhos de cores
diferentes, me encara. Seu olhar frio, gela toda minha espinha e faz meus
pelos se eriçarem. É, ele parece mesmo uma sombra, fria e escura, me
cobrindo e sugando minhas forças.
- Vamos, vou levá-la para casa.
Casa? Que casa? Esse homem é maluco?
- Não irei a lugar algum com o senhor! - Lanço um olhar de desafio.
- Quem pensa que é?
- Sou seu futuro marido, o homem a quem seu pai devia muito
dinheiro e ele prometeu que você se casaria comigo, caso eu perdoasse
todas elas. Então, vai honrar a palavra dele, ou precisarei cobrar a dívida?
Sou tomada pelo choque! Encarando-o, quase que boquiaberta, fico
estática, tenho a sensação de estar sonhando, ou flutuando, isso não poderia
estar acontecendo.
Mas se isso for verdade, por que a mansão foi vendida?
- Não me olhe como se eu fosse um vilão, não tenho nada a ver com a
venda da mansão e das outras propriedades.
Ele pode ler meus pensamentos. É, esse homem, tem algo de muito
sombrio.
- Safira, seu pai me devia dinheiro, e se eu fosse somar, seria muito
mais do que o valor de todas as propriedades, inclusive a empresa. Nunca
aceitei imóveis como forma de pagamento, eu empresto dinheiro, e só recebo
em espécie. Seu pai me devia muito, e quando fui cobrar, ele aceitou meu
pedido de casamento em troca do perdão das dívidas.
- Meu Deus! O que sou, moeda de troca? E minha opinião não pesa?
- Lennox se inclina um pouco mais, e posso ver o brilho do seu olhar
contrastante.
- Acho que o que você acha ou deixava de achar não iria mudar a
situação. Ou seu pai pagava o que me devia, ou não ficaria vivo para contar
a história.
- Isso quer dizer que se não me casar com você, meu destino é a
morte, é isso? - Encaro seu olhar desafiador, acho que não se importou
muito com a minha atitude, pois sorri levemente e a ponta de seus dedos
tocam docemente meu queixo.
- Exatamente isso, gosto de mulheres inteligentes. Agora vamos, você
precisa se arrumar para o casamento.
- Não com tanta pressa, senhor Lennox...
- Feral, me chame de Feral, é assim que sou conhecido. E antes que
comece a ciscar como uma galinha no galinheiro, serei direto, você não tem
alternativa, aqui está a prova do acordo que tive com seu pai, cinco meses
antes de você voltar para o Brasil.
Ele me entrega um documento, que tem por testemunhas os dois
advogados do papai e dois advogados do Lennox. No documento está escrito
o valor da quantia perdoada e o valor da quantia oferecida como
bonificação, uma espécie de dote, e o valor era duas vezes maior do que
papai devia. Não queria acreditar que meu próprio pai havia me vendido.
- É muito dinheiro, até mesmo para o senhor. - Digo, ainda
incrédula que estou no meio daquilo tudo.
- Não, minha linda mulher, isso não é nada para o tamanho do meu
patrimônio. Os cassinos são só um hobby, meu negócio são pedras
preciosas. Chega até ser engraçado, sou dono de muitas minas e encontrei
uma safira justamente em um lugar nada apropriado.
- Você não pode me obrigar! Meu pai já está morto, o que o faz
pensar que aceitarei tal absurdo? - Levanto-me, e o encaro. Eu sou pequena
e ele é um gigante, mesmo assim, tento disfarçar meu medo ao enfrentá-lo.
- Eu sei que honrará a palavra do seu pai, mas mesmo que não
queira, você se casará comigo. Eu serei seu marido, querendo ou não. - Ele
agarra meu braço, seus dedos em minha pele gelam até minha alma. Eu até
tento me livrar de sua mão, mas sou puxada com força de encontro ao seu
corpo. - Quer mesmo lutar contra mim? Pois tente, eu juro Safira, que tomo
o que é meu bem aqui, no chão frio desta casa. Não brinque com quem você
não conhece, você me pertence, acostume-se com isso. Agora vamos, o jato
nos espera, estou cansado do Brasil.
Como assim? Para onde ele pensa que vai me levar?
- Não irei a lugar algum, conheço meus direitos, sou livre e não
quero me casar, principalmente com você. Sequer nos conhecemos, você só
pode estar louco.
- Linda Safira, teremos algum tempo durante nossa viagem até a
Espanha para nos conhecermos, e não se preocupe, sentimentos e desejos
virão após nosso casamento. Sou um homem à moda antiga, só saboreio o
mel após a consagração de nossa união.
Ele não está brincando, sou intimidada a andar. É como ter uma
corrente em minhas mãos, e meu algoz me levando a força para ser torturada.
A porta se abre, e dou de cara com uma SUV preta, e três seguranças,
armados até os dentes, estão próximos ao carro, logo atrás vejo outra SUV,
também preta e mais cinco seguranças. Um frio percorre minha espinha, eu
sequer posso correr.
- Não se preocupe, esses seguranças não são para me proteger, eu
não preciso. - Ele abre o paletó e vejo uma arma no coldre. - São para
sua proteção, sou um homem visado, e tudo o que é meu também é, portanto,
pense duas vezes antes de fugir, meus homens não a machucarão, mas meus
inimigos sim, não importa se você me odeia ou não.
Tropeçando em meus próprios pés o acompanhei, entro no carro, ele
vem logo em seguida, atravessa o cinto de segurança em meu corpo. A cada
toque dos seus dedos na minha pele é como uma faísca de fogo, eu quero
matá-lo.
- A propósito, meus inimigos são coelhinhos perto de mim, caso você
tente escapar da minha proteção, não pensarei duas vezes em matá-la. Então
não fuja de mim, minha joia.
O que ele chama de proteção, eu chamo de cárcere privado.
CAPÍTULO 4
Já estamos na Espanha há quase dois dias.
A única informação que tenho do lugar é que
estamos na província de Guadalajara, e a cidade
mais próxima se chama Valverde de los Arroyos,
e nem é tão próxima assim. A cada segundo que se
passa sinto um medo assustador do meu futuro incerto, pois as poucas
pessoas que me conhecem não sabem onde estou, e mesmo se eu quisesse
fugir, seria humanamente impossível. O lugar é cercado por montanhas e a
residência de Lennox fica em uma região mais alta, um pouco distante do
vilarejo, e mesmo que eu tivesse a oportunidade de ir até lá, ninguém ousaria
ir contra o todo poderoso Feral. Acho que ele tem uma pequena cidade que
lhe pertence, onde ele é a lei.
Chegamos de jato, ele tem seu próprio campo de voo, acho que pode
ter tudo o que quiser. Lennox não brincou quando disse que tem muito
dinheiro. O lugar é perfeito, apesar de ser isolado, eu moraria aqui
tranquilamente, se não fosse prisioneira do diabo... No entanto, olhando do
lado real da coisa, tudo parece um pesadelo do qual eu sei que não
acordarei, nem que seja jogada do alto de algum penhasco.
- Senhora, está na hora. - Rosa, uma espécie de governanta da
grande casa, onde sequer posso sair se não for acompanhada por um
capanga, arrasta-me mais uma vez para minha cruel realidade.
- Na hora de quê? - Eu me viro, afasto meus olhos da linda
paisagem dos jardins e do de cara com a jovem senhora de sorriso amigável
e olhar terno.
- De se vestir para seu grande dia. - Mas que dia? Do que ela está
falando! - Senhora, hoje é o dia do seu casamento.
Por que me sinto surpresa? Eu já sabia que cedo ou tarde este dia
chegaria, só não pensei que fosse tão rápido. Como Lennox conseguiu uma
licença para se casar tão rapidamente? Outra pergunta idiota, ele tem
dinheiro, pode comprar quantas licenças quiser.
A coitada da Rosa me encara cheia de entusiasmo, acho que não sabe
que estou aqui contra minha vontade, que estou me casando à força.
Duas outras moças entram no quarto e logo atrás delas, uma outra
mulher bem estilosa fecha a porta atrás de si.
- Boa tarde, meu nome é Francisca e serei sua maquiadora e
cabeleireira. - Mal tenho tempo de dizer alguma palavra, pois as duas
moças começam a me despir e Rosa abre um dos armários que estava
trancado na chave.
- Quando este vestido chegou, eu quase chorei de emoção de tão
lindo que ele é, não via a hora de conhecer a moça que iria vesti-lo. -
Rosa, tira de dentro do armário um cabide envolvido em uma grande capa.
- Vejam que lindo!
E é mesmo. Nem em meus sonhos mais românticos poderia imaginar
um vestido assim, tão delicado e bonito. Branco como a neve, o tecido em si
já brilha imitando um céu estrelado. A saia ampla toda adornada com
pequenas flores de laranjeira e com uma calda longa. No decote estilo
imperial uma fita de seda que termina em um lindo laço. As mangas do
vestido são de tule transparente e justas com pequenos cristais, fico
pensando se aqueles cristais têm algum valor, já que o Lennox é dono de
minas de pedras preciosas.
- Como ele sabia o tamanho certo...?
- Seu pai me contou. - Lennox nesse momento entra no quarto. -
Saiam, quero um momento a sós com minha noiva. - Imediatamente todas
saem.
Desde que chegamos eu não o havia visto, pensei até que ele tinha me
esquecido, o que era um alívio, ficar próxima a ele me causa arrepios, eu
mal consigo respirar, quanto mais raciocinar.
- Meu pai jamais faria isso comigo, não tente me convencer que ele
me vendeu a você. - Tento disfarçar o tremor de minha voz e a raiva que
me domina, nesse momento eu quero muito socá-lo com toda a força do meu
punho.
- Não subestime um homem viciado, querida noiva, seu pai era um
desgraçado que venderia a própria mãe em troca de uns míseros centavos.
- O sinto se aproximar, seu cheiro másculo, sua presença sexy bem atrás de
mim, ativa todos os meus sensores. - Não estou aqui para enganá-la, minha
preciosa Safira, seu pai não tinha saída, ou ele aceitava meu pedido, ou
morreria com uma bala bem no meio da testa.
- Você é repugnante, Lennox Prysthon, meu pai nunca trocaria a
própria filha por uma dívida de jogo. O que você fez com ele, por acaso o
ameaçou? E o que estava fazendo no quarto dele, no dia em que ele morreu?
Pensei nisso desde aquele fatídico dia, o que Lennox estava fazendo
tão cedo em nossa casa, e justamente no dia em que papai faleceu?
- Se você quer saber se tive algo a ver com a morte de seu pai,
infelizmente não. Eu não gostava dele, isso é fato, não gosto de homens
fracos, homens que não valorizam a família, que se escondem por detrás da
beleza inocente, como a sua, Safira.
- Não fale mal do meu pai, seu calhorda! - Viro-me bruscamente e o
enfrento, e quando ele menos espera, o ataco. Minha mão aberta espalma em
sua face esquerda, o estalo do tapa é tão alto que ecoa no quarto.
- Menina idiota, acha mesmo que pode me enfrentar. - Sua forte e
áspera mão cerca meu pulso, e sinto meus ossos arderem com o aperto. -
Você tem sorte, pois não costumo bater em mulher.
Não, você as escraviza!
- Mas não se empolgue, posso mudar de ideia a qualquer hora. -
Ele segura um punhado dos meus cabelos logo atrás de minha nuca.
Sua mão forte faz minha cabeça ir para trás, e minha boca fica muito
próxima da sua. Começo a tremer, pois ele junta nossos corpos e sinto sua
ereção pulsando na altura do meu umbigo. Aqueles olhos de cores diferentes
brilham com o desejo expresso em seu riso debochado.
- Solte-me, eu tenho nojo de você, nojo, entendeu?
- Querida noiva, eu não estou nem aí para seu nojo, não me importo
se me odeia ou não, você é minha de qualquer jeito, e logo o sangue de sua
virgindade cobrirá meu pau, e farei um filho em você e depois outro, e
outro... vá se acostumando com meu toque, será o único que conhecerá.
Sua outra mão espalma em torno do meu queixo e sua boca bate furiosa
contra a minha. Não quero ceder, não quero abrir meus lábios, mais o aperto
em meu maxilar é tão forte que não tenho como resistir, então abro a boca e
deixo sua língua escorregar para dentro e se fundir com a minha. O beijo
grosseiro, ousado, pecaminoso, devora minha alma. Quando eu iria imaginar
que meu primeiro beijo fosse ser assim, tão cruel?
Mal consigo respirar, mal consigo pensar. Sua boca sobre a minha,
escorregando para todos os lados, seus lábios grossos e vorazes, sedentos
pelos meus. Seus dentes impacientes mordiscam a pele sensível de minha
boca, e sua língua afoita seduz a minha.
Não imaginava que um beijo pudesse fazer crescer tantas emoções
desenfreadas em uma pessoa. Eu odeio Lennox Prysthon e ao mesmo tempo o
desejo, e isso é perturbador. Ele só pode ter algum pacto com o diabo, ou ser
o próprio.
- É assim que a quero na cama, feroz e mansa ao mesmo tempo. -
Sua boca se afasta da minha por algumas polegadas, mas seus olhos me fitam
expressivamente, eu não sei se fecho os olhos ou se o empurro, de uma forma
ou de outra, eu mal consigo piscar meus olhos. - Eu sei que não era o que
esperava do seu primeiro beijo, acho que queria algo macio e lento, eu sinto
muito, querida, eu não sou nem macio, nem lento, e você vai aprender isso
em algumas horas.
Estou tremendo, não só meu corpo, mas minhas pernas também, e
assim que ele me solta eu caio de joelhos. Lennox sequer se mexe. Sua mão
segura um punhado dos meus cabelos e faz com que eu erga a cabeça.
- Acostume-se a esta posição, você a usará muito quando for chupar
o meu pau. - Ele empurra minha cabeça para frente de sua calça,
esfregando meu rosto na rigidez de sua ereção. Meu rosto sente o calor, a
umidade e o cheiro de sua excitação. Eu devia ficar enojada, mas meu corpo
me surpreende, estou molhada lá embaixo, e quero abrir a boca e abocanhar
sua dureza.
Deus! O que está acontecendo comigo?
- Tenho dentes, sabia? - Eu digo, quando sua mão afasta minha
cabeça e me faz encará-lo. Eu quero provocá-lo, quero que ele saiba que não
me intimida. Posso ser uma virgem sem nenhuma experiência, mas não sou
burra.
- E eu tenho uma mão, correntes, mordaças, plugs, vendas, chibatas,
chicotes e outros brinquedos que terei o prazer de usá-los em você, caso
queira me agradar com seus dentes em meu pau... - Ele solta meus cabelos,
o que é um alívio, pois já não sinto a minha nuca. - A propósito, a mão é
para socar a sua boca, caso pense em me morder, eu a deixarei sem dentes se
me machucar.
Continuo de joelhos, não consigo me levantar, a mão forte e decidida
dele permanece segurando o alto de minha cabeça.
- Levante-se. - Ele se inclina e me puxa para cima com uma mão em
meu braço. - Minha linda, não precisamos ser inimigos, acho que já
percebeu que a desejo, pois quando vi sua foto no gabinete do seu pai, eu a
quis para mim.
Eu não me livrei dele, ele continua perto, me avaliando com aquele
olhar sinistro, as lágrimas por mais que eu tente contê-las, não consigo, elas
saltam dos meus olhos, ferozes, igual às batidas do meu coração.
- Seu pai maravilha nem piscou quando fiz a proposta de me casar
com você em troca da dívida. E o cretino, ainda me pediu um dote, dizendo
que você valia bem mais do que alguns milhões de dólares. - Uma de suas
mãos segura meu queixo, enquanto a outra limpa minhas lágrimas. - Não
chore por aquele infeliz, ele não merece uma gota de suas lágrimas. E tem
mais, eu daria muito mais do que ele pediu por você. Agora sorria, eu a
quero rindo na hora de dizer sim.
Ele me solta e se afasta.
- Você é o satanás em pessoa, eu quero que queime no inferno, e eu
nunca serei sua, não de livre e espontânea vontade.
- Eu não ligo, Safira, você tem duas escolhas, ou faremos sexo
gostoso, ou eu a foderei como um animal no cio. Eu sei que você é uma
mulher inteligente e escolherá a melhor opção.
Ele se vai, e chego à conclusão que não tenho para onde correr. Serei
obrigada a me casar com um homem que mal conheço, alguém que me
comprou como se eu fosse uma mercadoria. E o pior, fui vendida pelo meu
próprio pai, que destino o meu. Nunca, nunca imaginaria que algum dia
estaria em um país estranho, ao lado de um homem demoníaco e sendo
obrigada a me casar com ele.
Onde está o romance dos livros que li? Onde está o homem que faria
qualquer coisa por mim, que desistiria até da própria vida para me fazer
feliz?
O que eu fiz a Deus para merecer esse destino?
O que eu fiz?
CAPÍTULO 5
As duas moças e a maquiadora já haviam
feito o trabalho delas e foram embora. E aqui
estou, vestida para o meu casamento. Analiso meu
reflexo através do espelho, sou a personificação
da pura beleza. Pareço um anjo, só me faltam as
asas. O vestido branco, o véu longo e fino, a grinalda de flores de laranjeira
me fazem parecer algo muito angelical. Segundo Rosa, só se casam com
flores de laranjeiras as moças que são realmente puras, e antigamente só era
permitido esse tipo de traje no casamento cristão se fosse comprovado em
documento a virgindade da noiva.
Acho que Lennox pensou em tudo.
- Você está tão linda, senhorita! Sabe, eu não via a hora de ver o
senhor Feral com aquele sorriso espontâneo nos lábios novamente. Desde
aquele maldito dia que ele não sorria. Aquela maldita roubou sua alegria,
sua vida...
- Como assim? - Me afasto do espelho e me viro para Rosa. O que
ela quer dizer com isso? Será que Lennox já foi casado? E o que aconteceu
com a outra mulher? Se ela estiver viva, ele não poderá se casar na igreja...
então...?
Ela só pode estar morta!
- Esqueça o que eu disse senhorita, pelo amor de Deus esqueça, e
não pergunte para o senhor Feral, para seu próprio bem. Não faça a pergunta
que está martelando em sua cabeça.
- O que aconteceu com ela? A mulher, o que aconteceu com ela?
- Esta muerta... muerta - ela responde rapidamente em espanhol.
- Foi ele! Ele a matou, não foi? Responda Rosa, ou perguntarei ao
Lennox.
- Sí...
Rosa já ia abrir a boca para me contar mais coisas, quando a porta se
abre e um dos seguranças surge me chamando. Este, que deveria ser o
momento mais feliz de minha vida, se transformou em um pesadelo. Acabo
de descobrir que meu futuro marido é viúvo e tudo indica que ele está
envolvido na merda toda.
Sigo entorpecida pelo caminho de pedras que leva até a pequena
capela que faz parte da propriedade. O vento bate em meu véu, fazendo-o
voar, como se quisesse se libertar de minha cabeça. Talvez ele estivesse
escutando meu grito silencioso e totalmente desesperado, pedindo em
pensamento para que um milagre acontecesse e alguém surgisse de repente
para me libertar desta prisão.
Não há uma alma viva em toda propriedade, acho que todos estão
dentro da capela, ou na parte de trás da casa, onde fica o jardim e a piscina,
onde certamente será realizada a recepção, estou supondo, pois logo cedo vi
uma grande movimentação fora da casa, só não sabia que era a preparação
do meu casamento.
A porta se abre, minhas pernas fraquejam, sinto meus joelhos
tombarem um pouco para frente quando sinto uma mão em minhas costas me
empurrando para dentro. Olho rapidamente para trás e vejo o segurança que
me acompanhou. Ele certamente tem ordens de me arrastar até o altar se for
necessário.
Eu não darei esse gosto para o satanás.
Então eu entro, e de onde estou, o vejo.
Lindo! Um deus grego em pessoa. Impecavelmente vestido em um terno
branco, o que contrasta com sua pele morena, seus cabelos pretos e seus
olhos de cores diferentes. Seus lábios esticados em um sorriso de orelha a
orelha, seu olhar não se desvia de mim. Se fosse outra ocasião, se ele não
tivesse me comprado de meu pai, e se eu não soubesse o que ele é capaz de
fazer, eu poderia sim, entregar meu coração, meu corpo e até minha alma
para ele.
Em determinado momento não consigo dar mais nenhum passo, penso
até que vou desmaiar.
Fecho meus olhos, respiro fundo, então sinto uma mão em meu braço.
Ao abrir os olhos e inclinar a cabeça, dou de cara com um rosto
perfeitamente esculpido.
Este homem é lindo demais, não existe sequer um único defeito, o que
poderia ser chamado de defeito para mim, é perfeito, o contraste entre o azul
e o dourado dos seus olhos é mágico, sedutor, hipnotizador.
Posso dizer que chega ser sombrio, mas é como transcender a minha
alma.
- Não pense que se desmaiar vai cancelar nosso casamento - Ele
articula, sorrindo, mas seu riso é frio como uma lâmina de aço. - Esperarei
você acordar, nos casaremos em nosso quarto com você deitada em nossa
cama se for preciso, portanto, respire fundo e aceite seu destino, você é
minha e está acabado.
Sua mão forte e quente como o inferno me guia até o altar. E daí por
diante, não consigo escutar e ver qualquer coisa. O sim foi dito de forma
mecânica, sem nenhum grau de emoção. O sim que saiu de sua boca soou
como posse, e meu coração quase explodiu dentro do meu peito.
Depois disso, só sinto o frio do aro dourado sendo empurrado em meu
dedo anelar esquerdo, e logo depois um anel com uma pedra azul, ladeada
de pequenos brilhantes. Sinto o toque dos seus lábios em meu dedo. Outra
argola dourada, pesada e larga é me dada, a aliança do Lennox, eu a coloco
em seu dedo e sou obrigada a fazer o mesmo, deixar um beijo sobre a
aliança.
"Em nome do nosso Deus glorioso, eu vos declaro, marido e mulher.
"
Esta é a frase que sela meu destino. Eu agora sou a esposa de Lúcifer.
O sol ainda brilha quase se escondendo atrás das montanhas quando
chegamos do outro lado da propriedade. Cortamos o bolo e fazemos todo o
ritual de um casamento normal. Sim, normal, porque este casamento não tem
nada de normal. O homem ao meu lado, não me ama, eu não o amo, ele me
tem como um troféu, como algo adquirido em um jogo. Então não temos nada
de normal.
- Senhora, vamos dançar! - Rosa, muito sorridente vem até mim,
estende a mão e espera minha reação. Fico quieta, será que eles não
perceberam que não estou aqui por vontade própria?
- Vá com ela, é tradição do nosso povo a noiva dançar com as
mulheres mais velhas.
Vou, não quero estragar o entusiasmo da jovem senhora que sempre
esteve sorrindo, alegrando meus dias neste inferno.
A lua já brilha no céu parecendo um enorme diamante refletindo suas
facetas, ela lá de cima e eu aqui embaixo, servindo de objeto de desejo e
admiração.
As mulheres me dão as mãos e começamos a dançar. Elas cantam uma
canção que não entendo o dialeto. Os tambores e instrumentos de sopro,
acompanham a cantoria, em dado momento sou jogada no centro da roda e
não sei muito bem o que fazer, então, começo a dançar. Rosa se aproxima e
leva para meus lábios uma taça de inox, um líquido doce desce por minha
garganta, bebo tudo. O sabor é gostoso, desce quente me aquecendo por
dentro, quando penso que acabou, outra taça toca minha boca e mais uma vez
bebo o líquido. Este é um pouco cítrico, mas tão gostoso quanto o outro.
- Seja bem-vinda, senhora, que a vida seja doce, quente, amorosa e
fértil.
Fico quente, e não entendo mais nada do que Rosa fala, eu só quero
dançar aquela música tão linda e mágica.
- Opa! Será que minha esposa não vai me deixar participar de tanta
alegria.
O rei do inferno chega, e me cerca com seus braços fortes. Seu corpo
másculo gruda ao meu, seu cheiro inebriante aguça meus sentidos, os mais
devassos e perturbadores que já pude sentir. Ele é tão lindo, tão gostoso, e o
desejo tanto. É como se ele fosse um ímã que me puxa para perto, se
impregnando em minha alma. Eu não posso desejá-lo, ele não é confiável,
ele me sequestrou, me obrigou a casar com ele...
- Eu a desejo tanto, Safira, desde o primeiro dia em que a vi.
Este homem é o próprio satanás, eu não posso estar atraída por ele,
não posso!
Empurro seu corpo forte e corro. Não sei bem para que direção eu
vou, me sinto tonta, acho que as mulheres do vilarejo me drogaram a mando
de Lennox. Tropeçando em meus próprios pés consigo me afastar o mais
distante do jardim, já não escuto o som da música.
O vento forte leva meu véu.
Onde estou?
- Safira! - Escuto um grito assustador e logo meu corpo é
arrebatado por uma muralha dura de músculos. - Por Deus, querida! Você
está bem? Nunca me perdoaria se algo te acontecesse.
- Lennox... - Olho para trás, e vejo o final do penhasco. Estamos na
beira, e se não fosse Lennox, meu corpo estaria completamente estilhaçado
no fundo do abismo.