O acordo
Casamentos arranjados eram muito comuns antigamente,
famílias ricas se uniam com outras e formavam uniões para seus filhos.
Alguns se casavam por livre e espontânea vontade, sendo felizes na união, já
outros, detestavam seus cônjuges e suportavam a situação apenas pelo bem
de suas famílias.
Pensar desta maneira só mostrava o quanto o ser humano poderia ser
egoísta, antigamente isto era bem comum, mas hoje em dia não.
Só de Jorge Vargas pensar nisso, seu coração gelava mais do que o
normal e suas mãos molhavam de suor, tanto que poderia ter um infarto ali
mesmo, cair debruçado sobre a mesa a sua frente e simplesmente morrer, ou,
é claro, aceitar a proposta que seu "amigo" havia oferecido.
Na verdade, Jorge Vargas e Eduardo Brown nunca foram
completamente amigos. Ainda jovens, tiveram um pequeno desentendimento
por conta de dinheiro, é claro, e por outras coisas que Jorge levaria ao
túmulo se pudesse. Ambos estudaram juntos na faculdade e abriram seus
negócios, o problema, pelo menos para Jorge, é que seu "amigo" se tornou
muito popular e virou uma competição entre eles. Com isto, os dois travaram
uma guerra e acabou que, à beira da falência, Jorge se viu obrigado a pedir
ajuda à Eduardo.
Foi assim que a proposta surgiu.
- Você está mesmo querendo que nossos filhos se casem? -
questiona Jorge parado em frente ao Eduardo.
- Sim, vai ser bom para as duas famílias. Vocês poderão ser alguém
novamente e perdoo a dívida.
- E o que você ganha com isso, afinal?
- O resto das suas ações - dispara Eduardo. - Isso será o
pagamento que irei receber.
- Por que tem tanto interesse em ações que estão fodidas?
- Porque quero mostrar a você como se salva um império de
verdade, mas não se preocupe, você e sua família serão recompensados.
Terão uma boa fortuna e o melhor de tudo, sua filha será minha nora e meu
filho, o seu genro.
- E desde quando isso é bom para nós? Estaremos decidindo o
destino dos nossos filhos, e sabemos que não somos tão amigos assim, pois
temos nossas diferenças em relação ao passado.
- Sim, você está certo, temos as nossas divergências, mas nada tão
grave, pelo menos agora... Se passaram muitos anos, Jorge... Gael, se
casando, ao menos irá tomar jeito e deixará de viver em puteiros fuleiros,
sujando meu nome, já sua filha terá dinheiro para sobreviver. Você não quer
que sua família passe fome, quer?
Eduardo se debruça sobre a mesa, encarando o homem à sua frente,
com a fisionomia aflita. É claro que Jorge não queria que sua família
passasse necessidades, tão pouco obrigar sua filha se casar com um
completo estranho.
Mas, afinal, que escolha ele tem?
Sabia que se explicasse a situação para sua filha, ela entenderia,
afinal, Laureen sempre foi uma boa entendedora.
Será mesmo que ela entenderia o destino que ele estava dando a ela?
- Você tem certeza de que quer essas ações só para me humilhar e
mostrar como se salva um império?
- Sim, é isso mesmo, para alguns pode ser ridículo, já para mim,
vitória é sinônimo de poder.
Jorge coça o alto da sua cabeça careca e se posta em pé, fechando os
botões do seu paletó.
- Quanto tempo tenho para dar uma resposta?
- Um dia, é o que irei esperar. Aceite, é o melhor a se fazer.
Era visível o suor na testa de Jorge e seu pomo de adão subindo e
descendo vigorosamente.
- Entrarei em contato para dar uma resposta.
Eduardo assente e um sorriso nada convincente se forma em seu
rosto.
- Ótimo, espero que seja uma decisão sensata.
Jorge também esperava por isso.
Salvar o Império
Acordo com uma leve batida na porta e me sento bocejando
enquanto encaro o tempo do lado de fora que parece estar bastante
agradável, o que me deixa animada.
Me levanto, sigo em direção a porta e a abro dando passagem a
minha empregada, Lucy.
- Bom dia, senhorita Vargas.
- Bom dia, Lucy - respondo sorrindo.
Lucy é uma das empregadas da nossa casa e a escolhi como minha
confidente por nos identificarmos, além de termos muitas coisas em comum,
principalmente o amor pelos livros.
Por ser uma garota simples, Lucy, não tem muito recurso para
comprar livros e pelo que fiquei sabendo, ela envia para a mãe doente, que
mora na Alemanha, seu salário. Ela veio morar conosco, quando tinha
apenas dez anos, trazida por meu pai para ajudá-la. Nessa época, eu tinha
apenas seis anos, descobri que ela se interessava por livros, por isso permiti
que ela usufruísse da minha biblioteca e foi aí que nossa amizade começou.
Papai aceitou nossa amizade logo de início enquanto mamãe se opôs,
porém, com o tempo ela acabou aceitando. Por conta de morarmos na mesma
casa criamos algumas regras básicas, como não nos tratarmos com tanta
formalidade, pelo menos não quando estivéssemos sozinhas.
- Por que não trouxe meu café?
- Seu pai pediu para que viesse acordá-la porque quer muito falar
com você - diz cruzando os braços.
Vejo que ela assopra a mecha castanha que cai no seu rosto e suspira.
- E você sabe o que ele quer?
- Não consegui descobrir, mas pediu para sua mãe se reunir com
vocês no café, então acredito que deve ser algo importante.
- Com certeza é alguma coisa relacionada a empresa dele, talvez
queira que eu o ajude em algum discurso bobo, você sabe como papai é.
Lucy concorda sorrindo e se aproxima de mim, desmanchando o nó
das costas da minha camisola.
Me dispo e pego o roupão que está pendurado na porta do guarda-
roupa, o vestindo.
Lucy me segue até o banheiro luxuoso, prepara meu banho, enche a
banheira e coloca a colônia de jasmim que tanto adoro.
- Acredito que se fosse um discurso, ele não precisaria de você,
Laureen. - diz enfaticamente.
- Então terei que descer o mais breve possível para descobrir -
digo dando de ombros.
Damos risadas do meu jeito.
Entro na banheira me despindo completamente e esfrego minha pele
suavemente enquanto Lucy arruma meu quarto. Lavo meu cabelo, tiro o
embaraçado e analiso a situação.
O que papai quer de tão importante comigo?
Com certeza será algo e tanto, afinal, se não fosse, não iria pedir
para Lucy me chamar.
Para falar a verdade, vejo meus pais poucas vezes. Papai sempre
está na empresa, enquanto mamãe segue sua vida gastando com joias caras e
almoçando com suas amigas da alta sociedade.
Sempre achei isso tudo supérfluo, não que eu não gostasse de usufruir
dos bens que temos, mas preferia mil vezes pegar e dar a quem realmente
necessita, do que gastar com coisas fúteis.
Minha mãe, a senhora Elizabeth Vargas, não gostava muito disso,
dizendo que eu deveria me envolver com mulheres do meu nível para que um
dia eu pudesse encontrar um homem à minha altura para me casar.
Bem, se ela acha que em pleno século XXI eu irei me casar por
contrato, está enganada.
Nunca fui de me apaixonar, na verdade, a única vez que gostei de
alguém foi na época da escola, onde conheci um rapaz bastante gentil.
Chegamos a ficar algumas vezes, mas não passou disso, já que ele queria
algo que, naquele momento, não poderia dar.
E para ser sincera, ainda não havia dado para ninguém e nem
pretendia.
***
Saio do banho e me troco às pressas, coloco uma calça jeans que
marca meu corpo, uma blusa escura de gola alta, deixo meu cabelo solto,
apenas o penteando e finalizo com uma maquiagem leve. Olho para o relógio
e percebo que já passou uma hora desde que Lucy anunciou que meu pai
gostaria de falar comigo, com certeza ele estará bravo devido minha demora.
Calço meus tênis, apanho meu aparelho celular e noto que não tem uma
mensagem sequer. Para falar a verdade, nunca fui de ter muitas amizades, as
pessoas na escola me encaravam torto por ser filha de Jorge Vargas, como se
ter dinheiro fosse um crime. Por conta disso, preferia me manter focada nos
estudos e nos romances de época que lia junto com minha amiga, Lucy.
Muitas vezes propus a ela para que deixasse o emprego de
empregada na nossa casa e que continuasse a morar conosco sendo apenas
minha amiga. Ofereci uma parte da minha mesada para que ela ajudasse sua
mãe, mas Lucy se negou, dizendo que preferia estar perto de mim
trabalhando do que ser um peso nas minhas costas. Claro que ela nunca seria
um peso, mas entendi a sua posição e concordei, pois não queria deixá-la
desconfortável.
Saio dos meus pensamentos e me encaro no espelho, o reflexo de
uma mulher magra, cabelo loiro, pele clara, lábios grossos e nariz arrebitado
me encara e um enorme sorriso se forma em meu rosto, o que me faz analisar
meus dentes brancos e limpos.
Sigo em direção à porta e a abro, saindo de frente para um corredor
comprido. Ando por ele em silêncio, ansiosa para saber o que meu pai quer
conversar. Desço a escada, passo pelo hall, seguindo em direção a sala de
jantar, onde vejo papai sentado na cabeceira da mesa, com mamãe ao seu
lado, segurando sua mão.
Percebo que o olhar de ambos é sério, como se algo de ruim tivesse
acontecido. De repente, sinto um aperto no meu coração e uma sensação
estranha cobre cada célula do meu corpo.
O que está acontecendo, afinal?
- Laureen, você demorou - diz papai suspirando.
- Estava no banho, me desculpe - digo de maneira ardilosa para
que o pedido fosse aceito.
- Tudo bem, querida, sente-se, precisamos conversar.
Concordo e me sento ao seu lado enquanto uma das empregadas se
aproxima e serve uma xícara de café para mim. Vejo sobre a mesa diversas
frutas, pães, queijos e outras coisas. Me sirvo e enquanto como, encaro
mamãe que continua séria, sem proferir nenhuma palavra.
- Aconteceu alguma coisa, mamãe? - questiono erguendo a
sobrancelha.
- Você já vai saber, minha filha - diz suspirando.
Concordo voltando a comer, logo em seguida encaro meu pai que
continua sério.
- Como os estudos estão, Laureen? - meu pai questiona.
- Estão indo bem, eu acho, ainda não decidi que curso na faculdade
irei fazer, por enquanto, estou estudando um pouco de cada área que me
chama a atenção.
Ele concorda e repousa sua mão sobre a minha, a segurando.
Aperto a sua mão de volta, como um sinal de acolhimento e vejo seus
olhos demonstrarem uma tristeza enorme.
- Precisamos conversar sobre um assunto bastante delicado -
começa a dizer acariciando meus dedos.
- Estou ouvindo.
- Filha, você se lembra do Eduardo Brown?
- Bem pouco, ele não é um dos sócios do senhor ou algo parecido?
- Na verdade, não... Fomos amigos por alguns anos, ele se destacou
bastante no mercado de ações e acabou construindo um império e tanto.
- Assim como o senhor - digo sorrindo.
Vejo seu sorriso vacilar e fico sem entender.
- Não basta criarmos um império, precisamos saber mantê-lo - diz
enfaticamente.
- Entendo, e o que o Eduardo tem a ver com isso, por acaso ele está
quebrado e procurou o senhor para pedir dinheiro?
A hipótese disso ser verdade me deixa confusa.
Por que papai me chamaria para falar sobre um antigo amigo seu?
Vi pouquíssimas vezes Eduardo Brown, na verdade, o seu destaque
maior é nos telejornais, sempre falando do seu amplo conhecimento e da sua
riqueza.
- Na verdade, sou eu que devo... Precisei pedir dinheiro a ele
emprestado alguns anos atrás.
- Entendo - respondo realmente sem entender. - Aonde o senhor
quer chegar, papai?
- Você se lembra que o Eduardo tem um filho?
- Bem, na verdade, não. Nunca o vi e seria difícil me lembrar de
alguém que eu sequer conheço. - Dou risada.
O silêncio se instala no local e ao perceber isso fico sem graça.
- Não queria envolvê-la nisso, querida, mas temos um grande
problema. Nossas empresas estão indo de mal a pior.
Reflito ao ouvir isso...
Papai se destacou no mercado de ações ao fazer algumas empresas
quebradas retornarem ao mercado.
Como pode um especialista neste assunto, conseguir deixar sua
empresa ir de mal a pior?
- Teremos que economizar, é isso? Não vejo problema algum,
posso cancelar alguns eventos que mamãe insistiu em marcar para mim e
Lucy me ajuda a fazer as unhas e o cabelo, já que é muito talentosa.
- Não é sobre isso que seu pai quer falar, Laureen - responde
mamãe me encarando.
- E o que é?
- Você terá que cancelar sim todos os eventos e evitar qualquer tipo
de gastos à toa, mas vai além disso - responde papai suspirando. - Devo
muito dinheiro à Eduardo e o que temos na conta não pagaria, tivemos um
corte enorme de funcionários na empresa e duvido que consigamos mantê-la
por muito tempo.
- E como isso aconteceu, papai, se os negócios do senhor estavam
indo tão bem? - pergunto me sentindo nervosa.
- Você precisa entender, minha filha, que às vezes necessitamos
fazer coisas que não nos agradam tanto, para conseguirmos outras.
- O que quer dizer com isso?
- Para chegar aonde cheguei, precisei derrubar muitos obstáculos,
entende? Pessoas são esses obstáculos.
- O senhor está me dizendo que chegou neste patamar porque
roubou de outras pessoas? - sussurro sem acreditar que possa ser verdade.
Papai não faria isso, não é?
- Isso não é da sua conta - diz de maneira brusca. - Me perdoe,
minha filha, mas realmente não está sendo fácil.
- Certo, e o que o senhor quer que eu faça? No que posso ajudar?
- O encaro, depois encaro mamãe e vejo o olhar dela triste.
- Eduardo me propôs um negócio para liquidarmos a dívida, ele
ficará com as ações da empresa, irá assumi-la, mas continuarei tendo uma
boa porcentagem nos negócios. Isso com certeza nos salvaria.
- E o senhor aceitou, não é?
- Bem, em partes, porque... - Ele faz uma pausa dramática, fecha
os olhos por um segundo depois volta a me observar. - Lembra que eu citei
o filho dele?
- Sim, o que tem?
- Ele propôs um casamento... Disse que a união das nossas famílias
iria nos ajudar muito, sem contar que salvaria nosso império.
- Casamento, com quem? - pergunto aflita.
- Com você, Laureen... Eduardo quer casar você com o filho dele...
É a única maneira de salvarmos os negócios e nos salvarmos.
Uma decisão nada atraente
Casamento...
A palavra ecoa na minha mente me deixando um tanto quanto
atordoada.
Como uma pessoa poderia se casar com outra sem amor?
Só de pensar nisso, vejo o quanto a situação é um tanto ridícula.
É sério mesmo que papai cogitou esta hipótese?
- O senhor por acaso aceitou?
- Não, quero dizer, ainda não - diz suspirando.
Vejo papai se levantar e andar de um lado para o outro.
- Eduardo me deu um prazo de vinte quatro horas para responder se
aceitamos ou não, caso não o fizermos, ele fará de tudo para nos destruir.
- E por que para ele seria bom que seu filho se casasse com a filha
do devedor? Não faz sentido algum - digo também me levantando.
- Não seríamos mais rivais de mercado e ele conseguiria minhas
ações, teríamos um bom dinheiro, mas eu não seria mais dono da Company
Vargas.
- E eu estaria fadada a um casamento infeliz - respondo colocando
a mão sobre o peito.
- Não pense deste jeito, sei que é ridículo cogitar isso em pleno
século XXI, mas não temos escolhas. Se perdermos tudo, estaremos
condenados a uma vida de miséria. Ninguém nesta altura me daria um
emprego, jogariam na cara que eu quebrei minha empresa e as falcatruas
poderiam vir à tona.
- O senhor ao menos percebe a loucura que isso é? Não vivemos
mais em uma época em que os pais planejavam casamentos... Isso é ridículo!
- Laureen Vargas, olha como fala com seu pai! - mamãe me
recrimina se posicionando pela primeira vez no assunto. - Sabemos que
não é fácil e não queríamos chegar a este patamar, mas não temos escolha.
Se você não se casar com o filho do Eduardo, tenha em mente que tudo isso
que está à sua volta, não existirá mais. Nem mesmo Lucy poderá continuar
trabalhando conosco, você não quer prejudicar sua amiga ou a mãe dela, não
é mesmo?
- Isso que você está fazendo é chantagem emocional, mamãe, você
sabe que eu nunca iria querer prejudicar Lucy ou qualquer outro empregado
nosso. Mas vocês quererem me prejudicar, para o bel-prazer de vocês... Isso
é egoísta e nojento.
- Você não irá se casar com um homem qualquer, Laureen - diz
papai. - O filho de Eduardo é o CEO das empresas do pai, além de ser
muito respeitado na sociedade. Quase não o verá e nem vai parecer que é
casada.
- Claro, tirando o fato que terei que ter relações com ele, ou o
senhor acha mesmo que este homem aceitará se casar comigo apenas para
nos salvar?
O silêncio se instala no ambiente e suspiro sentindo vontade de
chorar.
- Você tem até às 6 da tarde para me dar uma resposta e se não
disser nada, entenderei como um sim.
- E mudará alguma coisa se eu disser não?
- Não, mas será muito mais fácil se você aceitar.
Fico em silêncio e balanço a cabeça em concordância, engolindo em
seco, como se algo estivesse dilacerando minha garganta.
- Então saiba que não irei aceitar e você está me condenando para
sempre... Eu nunca irei perdoá-los por isso. - Dou as costas para os dois e
saio ouvindo papai me chamar aos gritos enquanto mamãe o acalma.
Sigo em direção ao meu quarto em passos largos, entro batendo a
porta e passando a tranca, então me jogo sobre a cama e choro
descontroladamente, sem saber o que fazer para fugir deste destino que me
foi forçado.
***
Não desço para almoçar e tão pouco aceito comer no quarto. Fico tão
chateada com o que papai havia me dito que nem mesmo Lucy é capaz de me
animar.
Como ficar feliz em saber que você vai se casar com um homem
completamente desconhecido?
Pensar nisso me causa uma sensação estranha, como se algo
invadisse meu peito e arrancasse meu coração de dentro. É isso que está
acontecendo; papai usurpou meu coração e o entregou a uma pessoa que nem
mesmo sei como é.
Penso sobre o filho do tal Eduardo, tentando imaginá-lo, pego meu
celular, pronta para procurar no Google, no entanto, desisto no meio do
caminho, pois não quero ver o rosto do homem que supostamente vai ser meu
marido.
A ideia de fugir se instala na minha cabeça e crio um plano maluco;
eu poderia muito bem arrumar uma mala pequena, pegar algumas joias,
dinheiro no cofre, e sair por aí, sem rumo. Mas e se eu fizer isso, até quando
teria que me manter fugindo?
Com certeza meus pais iriam atrás de mim e não descansariam até me
encontrar.
"Não tem jeito, Laureen, a única opção é aceitar o que o destino
reservou a você..."
Destino, pensar a respeito disso me causa uma raiva enorme.
Como o destino pode ser tão traiçoeiro desse jeito?!
- Não adianta choramingar, Laureen - digo para mim mesma. -
Pelo jeito, papai estava decidido sobre o que fazer antes mesmo de me
contar. Ele apenas quis comunicar que minha vida acabou para sempre. -
Suspiro tristonha.
Se eu me casasse com este homem e depois de um tempo me
separasse dele?
Com certeza o tal acordo com meu pai seria anulado e estaríamos na
merda, ou até mesmo pior do que já estamos.
Reflito sobre o que papai havia me dito; para chegar até aqui, ele
havia derrubado muitas pessoas. Agora para ele, me casar com um
desconhecido é o de menos.
Ouço uma batida na porta e saio dos meus devaneios, ficando o
máximo possível em silêncio.
- Laureen, eu sei que você está aí, fui à biblioteca antes para me
certificar de que estava aqui - sussurra Lucy, mexendo na maçaneta. - Por
favor, abra a porta, vamos conversar um pouco, sei que precisa disso. Eu
trouxe sorvete e brigadeiro, seus doces preferidos.
Uma animação percorre meu corpo ao ouvir isso e sigo a passos
largos até a porta. A abro dando de cara com Lucy e um carrinho, onde
contém sorvete de diversos sabores, brigadeiro e calda de chocolate.
- Dessa vez você venceu - digo dando passagem.
Ela entra e rapidamente fecho a porta, voltando a trancar.
- Eu te conheço bem demais para saber que um pouco de doce a
faria abrir a porta e me permitir entrar - responde divertida.
- Você é boa mesmo - digo forçando um sorriso.
Ela faz o mesmo e começa a nos servir, me entregando uma taça com
sorvete de chocolate e bastante calda.
Levo o doce gelado até a boca e solto um gemido ao sentir o
delicioso sabor.
- Isso está deslumbrante!
- Eu sei, fui eu que fiz na noite passada - diz sorrindo de maneira
convencida.
Dou um cutucão nela e nos ajeitamos na minha cama.
- Fiquei sabendo da conversa com seus pais, sinto muito que tenha
que passar por isso.
- As notícias por aqui correm rapidamente - respondo suspirando.
- O que você acha disso tudo, eu devo aceitar este destino?
- E você tem escolha?
- Pensei em fugir, você poderia vir comigo, o que acha?
- Claro, assim quando formos pegas, eu seria demitida e você iria
se casar do mesmo jeito. Que plano sensacional!
- Debochada - digo rindo.
- Sei que não é fácil o que está passando e com certeza será
bastante difícil, mas você precisará ser forte.
- Forte, é claro. - Reviro os olhos e continuo comendo o sorvete,
me servindo de um pouco de brigadeiro. - Meu pai é tão egoísta que
sentenciou o meu destino sem ao menos pensar no que isso me causaria, ele
apenas quis me comunicar.
- Eu sei disso, e como disse, agora precisará ser forte, com certeza
ele vai dizer ao babaca do Eduardo que haverá casamento e os preparativos
serão feitos em um piscar de olhos. Sabe como são esses contratos.
- Nunca pensei que viveria uma coisa dessas - respondo me
lembrando dos diversos livros que eu já havia lido com o mesmo tema, a
diferença é que isso que estou vivendo é real e muito angustiante.
- Pense pelo lado bom, se esse futuro marido realmente é um
homem importante, como seu pai disse, ele quase não ficará em casa. Com
sorte, pouco se verão.
- O meu problema não é vê-lo e sim satisfazê-lo - respondo
envergonhada.
- Só por que você é virgem? Deixe de besteira, ele vai adorar isso.
- Aí que está, ele vai, mas e eu?
- Bem, não sei, se ele souber fazer, com certeza irá gostar -
afirma. - É muito gostoso, não se preocupe com isso.
- Você é uma safada, Lucy Connor.
- Talvez eu seja um pouco, mas agora falando sério, você precisa
usar isto ao seu favor.
- Como assim? - pergunto sem entender.
- Não dê o gosto ao seu pai de dizer que você aceitou, sendo que
você não disse nada, vá até ele, diga que aceita e pronto.
- Mas eu não quero aceitar.
- Eu sei, mas você dirá a ele que aceitará, porém, com algumas
condições.
- Condições... - Reflito sobre a palavra e a encaro. - Você é um
gênio!
Lucy sorri e concorda.
- Eu sei disso.
***
Olho no relógio e vejo que falta quinze minutos para as malditas seis
horas, então sigo em direção a saída do quarto e ando devagar pelo corredor,
olhando cada parte da nossa casa. Analisando o local grande, luxuoso e
ostensivo, percebo que realmente precisa de muito dinheiro para manter
tanto esta como as outras residências que papai tem em seu nome.
Desço a escada em espiral parando diante do hall e me lembro que
mais cedo estive aqui parecendo estar muito feliz. Agora, indo assinar minha
sentença final, é como se toda a alegria estivesse se esvaído do meu corpo
para sempre.
Dou um passo em direção ao som da voz do papai e noto que ele está
no escritório, então, sigo por um corredor claro, com algumas portas e
retratos nas paredes. Há diversas fotos de quando eu era criança, dos meus
pais se casando, entre outras e uma delas se destaca, mamãe vestida de
noiva. Seu cabelo loiro, igual ao meu, está solto, com um véu transparente
cobrindo seu rosto. O vestido cobre todo seu corpo, não deixando parte
sequer de fora e nas mãos há um buquê com rosas brancas.
Sempre achei este retrato lindo e quando mais nova, dizia que meu
sonho seria me casar deste jeito, mas ao analisar a situação que me encontro,
percebo que nunca terei a expressão de felicidade que meus pais têm nas
fotografias de casamento. Nunca irei colocar um vestido de noiva com
entusiasmo ou irei jogar o buquê com vontade para as outras convidadas. Eu
jamais iria amar o homem pelo qual estou sendo prometida e espero que ele
também nunca me ame, creio que assim será bem mais fácil.
- Filha?
Me viro e vejo mamãe me encarar.
Ela está vestindo uma calça social preta e um blazer simples, a
maquiagem é bem-feita e suas curvas se destacam em suas vestes.
- Oi, mãe - digo completamente desanimada.
- Aconteceu alguma coisa, meu bem?
- Papai, quero falar com ele - respondo cruzando os braços.
Ela concorda e entra no escritório, comigo a seguindo.
- Eu já disse, a situação vai ser resolvida, não se preocupe com
isso.
Ouço meu pai dizer assim que me vê.
Ele aponta o dedo me pedindo um momento.
- Te ligo mais tarde, tenho que resolver uma situação agora. - Ele
desliga o telefone e se vira para mim me encarando.
- Quero conversar com vocês dois - digo nervosa.
- Diga, querida - pede minha mãe.
- Eu vou aceitar o acordo de casamento - digo vendo a alegria e
alívio nos rostos dos dois. - Porém, tenho algumas condições que o senhor,
papai, vai acertar com Eduardo.
- Quais condições?
- Primeiro, eu quero que Lucy vá morar comigo e meu futuro
marido quando nos casarmos, pois somente ela sabe de tudo que gosto e que
preciso no meu dia a dia. Segundo, o salário dela deve aumentar, é claro, e
que ela possa visitar a mãe, já que em todos esses anos que trabalha aqui,
nunca conseguiu...
- Mais alguma coisa? - pergunta meu pai me cortando.
- Ainda não terminei... Quero que além disso, eu possa ter minha
liberdade, para ir aonde eu quiser, sem ser mandada por um homem que nem
o nome eu sei direito. Vou honrá-lo, como será prometido no altar, mas não
serei encarcerada por ninguém. Quero uma cerimônia simples, com poucos
fotógrafos, para expor sua conquista para o mundo. Também quero que ele só
me toque, com a minha permissão. Eu não estou preparada para este tipo de
coisa.
- Sim, minha filha, tenho certeza de que ele se casará com você e
irá respeitá-la.
- A propósito, este homem sabe que vai se casar, ou está
descobrindo assim como eu?
- Eu não sei, isso é com o pai dele - diz meu pai.
- Certo, o meu último pedido é bem simplório... Nada de filhos, não
quero herdeiros, já basta eu ter que me casar sem amor, agora ter filhos com
um homem que não amo, seria o ápice da loucura.
- Mas filhos fazem parte da construção de uma família - diz papai
espantado.
- Sim, e a construção de uma família se começa com amor, amizade
e relacionamento, coisa que não temos aqui, não é mesmo? - Encaro os
dois e suspiro. - É só isso mesmo, você vai ter o casamento que deseja e
sua riqueza, está feito.
Vejo o sorriso de alívio dos meus pais, mas não consigo disfarçar a
tristeza que assola meu coração.
Eu irei me casar com um completo estranho.
Você conhecerá seu noivo no altar
Percebo que meus pais estão aliviados com minha decisão,
mesmo notando meu olhar de tristeza e desprezo, porém, decido que o
melhor a se fazer, neste momento, é aceitar de uma vez por todas o destino
que me foi traçado.
Me pego outra vez pensando no destino...
Como que, tão de repente, nossas vidas poderiam mudar tanto?
Hoje você está andando e amanhã, com sorte, está morto. É isso que
eu quero neste exato momento...
Morrer.
Suspiro melancólica me revirando na cama, olho para o relógio e
vejo que já passa das 10 da noite.
Me levanto, saio do quarto, sigo pelo corredor e paro no andar
debaixo, onde fica nossa biblioteca.
Meus pais e eu sempre fomos amantes da leitura, mas com o passar
dos anos e a vida dos dois ficando agitada por conta dos negócios, fui a
única que ainda continuo a vir aqui.
Entro no cômodo com as prateleiras cheias de livros de diversos
tipos e sorrio ao passar a mão em suas lombadas. Pego um qualquer,
pensando em como seria viver uma vida daquelas de romances, onde o casal
se apaixona fervorosamente e constroem uma linda família.
Eu seria assim?
No final de tudo, eu seria feliz ao lado desse homem até então,
desconhecido?
- Você deveria procurar uma foto dele na internet, Laureen, assim se
ele for feio, irá conhecê-lo preparada. - Dou risada das minhas próprias
palavras.
Coloco o livro no lugar de antes, apanho outro e me aconchego na
poltrona. Encolho meu corpo e começo a virar as primeiras páginas,
tentando ao máximo absorver o conteúdo do livro e esquecer o inferno que
está prestes a acontecer na minha vida.
***
Acordo com o barulho do livro caindo no chão e me assusto, não me
recordando o momento em que cochilei na biblioteca. Bocejo me
espreguiçando, levanto e pego o livro do chão.
Volto o livro para a prateleira e saio do local andando tranquilamente
até que próximo ao escritório do papai vejo uma sombra. Ando devagar a
fim de saber quem é, não entendo o motivo de fazer isso, mas sigo meus
extintos e faço o mínimo possível de barulho.
- Você acha que isso é uma boa ideia, Jorge? - pergunta minha
mãe. - Acha mesmo que este casamento vai ser bom para a nossa filha?
- Eu não sei, meu amor, mas não temos outra escolha a não ser essa,
se não fizermos isso, estaremos arruinados para sempre. Não posso permitir
que nossa família se afunde deste jeito.
Fico parada, ouvindo a conversa dos dois, com o coração acelerado
e o suor brotando na minha testa.
- E se Eduardo planejar alguma coisa contra nossa filha?
- Ele não faria isso. Eduardo pode ser tudo, menos um covarde -
responde papai suspirando. - Vamos ter que arriscar e mesmo não sabendo
a real intenção dele em querer que nossos filhos se casem, teremos que
permitir. Não gosto da ideia de ver minha filha casada com um homem que
não ama, mas infelizmente serei obrigado a tirar isso dela se quisermos nos
manter vivos.
- Você fala como se Eduardo fosse nos matar se essa dívida não for
paga - responde mamãe aflita.
- E você dúvida disso? Eduardo é capaz de matar, tenho certeza
disso.
- Assim como você - responde mamãe. - Jorge, o que foi feito
no passado... Aquele acidente... Eu sei que você tem a ver com ele, só não
assume.
- Fique quieta, Elizabeth! - profere papai. - Esqueça o passado,
lembrar dele não resolverá nada... Tudo não passou de um acidente, você
sabe disso...
- Se você não se deitasse com qualquer mulher por aí - responde
mamãe de maneira amarga. - Isso foi tudo culpa sua.
- Pensei que houvesse me perdoado por isto.
- Uma mulher perdoa uma traição sim, Jorge, mas esquecer, isso
nunca.
Fico surpresa ao saber que papai traiu mamãe e saio correndo
disfarçadamente para que eles não me vejam.
Entro no meu quarto e tranco a porta sentindo meu coração acelerado
com tamanha surpresa por descobrir que meus pais não são quem eu
imaginava.
Afinal, do que eles estavam falando?
Sobre qual acidente meus pais estavam se referindo?
Será que Eduardo realmente nos mataria se eu não me casasse com
seu filho?
E o principal, por que sinto que tudo isso está interligado?
***
No dia seguinte, fico pensando na conversa que meus pais haviam
tido e o que eu poderia fazer para descobrir sobre o que realmente
aconteceu.
De que acidente eles estavam falando?
Só de recordar as palavras de mamãe sobre meu pai ser capaz de
matar alguém, um calafrio sobe pela minha espinha.
- No que está pensando? - pergunta Lucy me ajudando a arrumar
minhas roupas.
No café da manhã, meu pai havia dito que era melhor começar a
arrumar minhas malas, pois conforme Eduardo havia dito, o casamento
acontecerá em pouco tempo.
- Nada demais, eu só não dormi muito bem.
- Você engana seus pais, Laureen, mas eu não - diz minha amiga.
- Ande, me diga, o que está acontecendo, além da loucura deste casamento?
- Ontem à noite eu saí para ir até a biblioteca e acabei ouvindo uma
conversa dos meus pais que me deixou bastante aflita.
Lucy me encara com os olhos arregalados.
- Que conversa?
Conto rapidamente para Lucy, que fica espantada com os segredos
cabulosos dos meus pais. Assim que termino, ela segura minha mão e a
aperta.
- Eu quero que você prometa que não vai tentar descobrir sobre o
que eles estavam falando.
- Por quê?
- Pode acabar sobrando para você - diz com a expressão
temerosa. - Há coisas que devemos deixar guardadas debaixo do tapete e
isso é uma delas. Você pode acabar se machucando ao tentar descobrir.
Reflito sobre isso e dou de ombros.
- Eu sei que é perigoso, mas realmente fiquei curiosa sobre a
conversa que eles tiveram.
- Eu sei que sim e confesso que também estou curiosa para saber
mais, contudo, vou pedir de novo, me prometa que não vai se meter em
encrenca para descobrir.
- Tudo bem, eu prometo, mas se por acaso chegar a ver alguma
coisa diferente, não irei ficar calada.
- Está certa, por enquanto apenas foque neste casamento que vai
acontecer.
Concordo e me assusto ao ouvir uma leve batida na porta.
- Filha, você tem visita - diz minha mãe do outro lado.
Me recomponho esquecendo a conversa que havia tido com Lucy, que
vai até a porta, a abre para mamãe, que entra e me encara.
- Que bom que está arrumada, seu futuro sogro está lá embaixo...
Ele quer conhecê-la.
- Me conhecer para quê?
- Para ver a futura nora, minha filha. Por favor, colabore.
Suspiro e concordo seguindo até a penteadeira onde encaro o
espelho. Passo um brilho labial, reforço o perfume e ajeito meu cabelo
colocando um sorriso no rosto.
- Satisfeita? - pergunto sarcasticamente.
- Vamos logo, vai ser rápido, eu prometo.
- Que eu leve um tiro no meio do caminho - sussurro.
- O que você disse?
- Que eu não vejo a hora de escolher meus padrinhos - respondo
segurando o riso.
Lucy disfarça uma risada e mamãe me encara.
- Bem, não havíamos pensado nisso, que tal Lucy ser sua madrinha,
hein?
- Me perdoe, senhora, mas sou uma empregada, não cairia bem -
Lucy diz.
- Não, mamãe está certa - respondo adorando a ideia. - Por
favor, Lucy, aceite, assim será mais fácil. - Encaro minha amiga e
empregada.
Ela concorda dando de ombros.
- Se isso não for prejudicá-los.
- Claro que não, você está conosco há anos e será bom ter um rosto
nesta loucura toda. Sem contar que quando Laureen se casar, você irá morar
com ela, deixando de ser empregada para ter um cargo mais importante.
- Cargo mais importante? - questionamos juntas.
- Sim, ontem quando você nos disse que só aceitaria o casamento se
Lucy fosse com você, eu fiquei pensando sobre isso... Vi que ela não
precisará ser uma empregada, já que com certeza na sua futura casa haverá
diversos.
- Mas, senhora, eu preciso do salário - diz Lucy com a voz
embargada.
- E continuará tendo, porém, pago pelo marido de Laureen. Você
será como uma governanta e ajudará minha filha em tudo que precisar,
entendeu?
Lucy e eu nos encaramos, sem entender aonde mamãe quer chegar.
- Sim, senhora.
- Obrigada. - Ela me encara e noto seus olhos marejados.
- Me perdoe por isso estar acontecendo, minha filha.
- Você não queria que eu me casasse, não é mesmo? - pergunto
próxima a mamãe.
- Não, é claro que não, mas como seu pai disse, é necessário e ter
Lucy ao seu lado será mais reconfortante para mim.
Concordo a abraçando.
- Obrigada, mãe, farei isso por você.
- Tudo bem, querida, agora vamos logo conhecer seu futuro sogro,
ele está esperando há bastante tempo.
Suspiro sem nenhuma opção.
Saio do quarto com mamãe, sigo silenciosamente o caminho até a
escada e desço em direção ao escritório. Assim que passo pelo batente da
porta, um homem um pouco mais velho que papai, de fisionomia dura, olhos
e pele clara me encara e fico sem graça. Sigo até ele devagar, como se
minhas pernas fossem gelatinas.
- Ela está enorme desde a última vez que a vi - diz Eduardo
formando um sorriso em seu rosto.
Forço um sorriso e estendo minha mão para ele.
- Muito prazer em conhecê-lo, me perdoe se não me recordo do
senhor.
- Não se preocupe com isso, minha jovem, na época em que a vi,
era muito pequena, com certeza não iria se lembrar.
Sorrio e ele dá uma risadinha seca, me causando repulsa.
- Me perdoe pela pergunta, mas onde se encontra seu filho, até
então, meu futuro marido?
Vejo meus pais me encararem e Eduardo sorri.
- Meu filho não pôde vir, muitos negócios para resolver, inclusive a
futura casa de vocês e as férias que irá tirar quando se casarem. Você
conhecerá seu noivo no altar, mas não se preocupe, garanto que é um homem
educado, gentil e muito bonito.
Fico perplexa ao ouvir isso.
Então eu só conheceria o homem que vou me casar, no dia da minha
sentença final?!
- Ah, compreendo - digo sem ter muito o que dizer.
- Eduardo está muito animado com a união de vocês, minha filha,
ofereceu até mesmo uma viagem especial para onde quiserem para passarem
a lua de mel.
- Muito generoso da parte do senhor - respondo fazendo o meu
melhor teatro. - Fico realmente encantada com isso.
- Você é um doce, minha jovem, assim como sua mãe, que é muito
educada - diz nos olhando. - Eu escolhi a noiva certa para meu filho.
Sinto uma fúria tomar conta de mim ao ouvir suas palavras, como se
eu estivesse sendo comprada para ser entregue de bandeja ao seu filho.
Analisando a situação, é isso que está acontecendo. Estou sendo comprada
para que meus pais possam ter dinheiro, poder, e não ter suas vidas ceifadas.
Saio dos meus pensamentos insanos, encaro Eduardo estendendo a
mão e com um enorme sorriso.
- Foi um prazer conhecer o senhor, tem alguma previsão de quando
ocorrerá o casamento?
- Em breve... Essa semana, tudo será preparado, os convites
enviados e a prova do vestido. Não poupe nenhum centavo, meu filho faz
questão de pagar tudo.
- Sendo assim, tomarei a liberdade de escolher um vestido
deslumbrante para o momento, afinal, será um marco em nossas vidas, não é
mesmo, papai? - Encaro meu progenitor e ele engole em seco,
concordando.
- Sim, minha filha, será um momento muito especial, agora se nos
der licença, Eduardo e eu temos alguns negócios para discutir.
- É claro, até mais, senhor, mais uma vez, foi um prazer conhecê-lo,
nos vemos em breve.
Me despeço do homem à minha frente e saio do escritório, sentindo
um nó se formar em minha garganta ao saber que esta loucura está cada vez
mais perto.
Preparativos
A semana passa em uma lentidão que chega a me dar náuseas.
Não saio do meu quarto para nada, chateada por conta de tudo que está
acontecendo. Evito meus pais o máximo possível, mesmo me conformando
com a sentença que me deram, não consigo aceitar e fingir que nada está
acontecendo.
Como antes, não consegui procurar no Google nada sobre o meu
futuro marido, a dúvida em saber como ele realmente é, me deixa mais
confortável com isso tudo.
Lucy faz de tudo para me animar, me enchendo de sorvete, doces e
meus pratos favoritos, sendo repreendida por mamãe, que alega que preciso
estar magra para entrar no vestido.
Fico ainda mais triste e desanimada quando os preparativos do
casamento começam, com degustação de bolos, doces e outras coisas. Papai
escolheu uma orquestra para a festa, mesmo eu insistindo que seria
completamente desnecessário.
A lista de convidados foi outra briga, já que metade era de sócios
dele e a outra parte, sócios de Eduardo, já que mamãe não tem família e nem
ele. Eduardo com certeza escolheu seus sócios para se enaltecer no
casamento.
A cerimônia seria realizada na igreja católica, outra coisa que
critiquei, afinal, acredito que devemos nos casar em altares divinos quando
há amor de verdade, coisa que não é o caso. Porém, me conformei e aceitei
isso.
A festa seria cheia de comida boa, diversos convidados e uma noite
regada a sorriso forçados, coisa que detestei. Tudo isso me incomoda ao
extremo, mas como não tenho escolha, acabo aceitando o que papai e mamãe
desejam, deixando-os bastante felizes.
O dinheiro de Eduardo é gasto com sucesso, meu pai faz questão de
comprar um carro novo para que eu vá até a igreja, já que a festa será na
nossa casa. Aliás, casa deles, porque em poucos dias, eu não pertencerei
mais aqui.
NA verdade, eu não pertencerei mais a lugar algum, somente a um
homem completamente desconhecido.
***
- Como se sente sabendo que agora não é mais uma empregada e
sim uma futura governanta? - pergunto para Lucy que está fazendo uma
trança embutida em mim.
- Bem, tirando as aulas chatas que sua mãe está me obrigando a ter
para entender como se governa uma casa, a sensação é boa. Não ter que
lavar privada é realmente bastante gratificante.
- Eu fico mais aliviada em ter você ao meu lado para enfrentar isso
tudo, assim poderei ter seu apoio nos momentos difíceis.
- Claro que terá, mas não se esqueça que muitas coisas vão mudar,
principalmente o fato de que não viveremos tão grudadas como agora. Você
terá um marido e precisará dar atenção a ele.
- Eu sei, mas só de saber que te terei por perto, é mais tranquilo
passar por isso tudo. - Sorrio e me encaro no espelho, analisando a trança
embutida. - Acha que ficaria legal este penteado para o casamento?
- Não, mas iremos cuidar disso no momento certo, anda, vá se
preparar, o jantar será colocado à mesa logo.
***
- Está animada, querida? - pergunta papai durante o jantar.
- Animada com o quê, papai? Seja mais específico, por favor.
Percebo que mamãe torce o nariz e continuo a comer enquanto os
ignoro como estou fazendo nos últimos dias.
- Pelo menos finja que está animada com este casamento - pede
me observando. - Por acaso vai se casar com essa cara de enterro?
- Se depender de mim, sim - respondo dando de ombros.
- Já chega, vá para o seu quarto agora!
Me levanto derrubando a cadeira para trás e o encaro.
- Sabe qual parte deste casamento vai ser boa, papai? É que não
irei mais conviver com senhor. - Saio antes mesmo de ouvir uma resposta
sua e apenas ouço os estilhaços dos pratos baterem na parede da sala de
jantar.
Me sinto completamente chateada com a situação e me tranco no meu
quarto, desejando que este casamento infeliz aconteça logo e que eu possa ir
embora de uma vez por todas desta casa.
***
Os preparativos continuam e sinto que está cada vez mais perto do
casamento acontecer.
Fico surpresa em saber que realmente meu noivo, que nem mesmo fiz
questão de saber o nome, não veio me conhecer e penso sobre a situação.
Será que ele também está infeliz com esta união?
Como foi para ele saber que se casaria com uma mulher
desconhecida?
Esqueço essas questões e finjo me concentrar no que a estilista fala
em relação ao vestido, dando dicas e mais dicas do que poderíamos fazer.
Disse a ela que poderia ser um vestido qualquer desde que fosse costurado
do zero.
Minhas medidas são tiradas e assim que tudo termina, me sento e
aceito a taça de champanhe que me é oferecida por um dos empregados. Vejo
a mulher negra gesticular, rir e conversar com minha mãe. Não presto
atenção em nada e nem faço questão disso tudo.
Como uma mente tão perturbada consegue desligar tudo que está à
sua volta?
Continuo degustando o champanhe e assim que termino, faço a prova
de um vestido simples para que a estilista tire o molde dele.
- Quero que tenha um decote frontal e que realce meus seios -
digo pela primeira vez em horas. - De preferência com pedras preciosas na
frente e que realce minhas curvas.
As duas me encaram e ficam espantadas, talvez por finalmente dar
palpite sobre algo.
- Certo, querida, você deseja mais alguma coisa nele? - pergunta
a mulher com um sorriso enorme nos lábios.
Analiso suas expressões e fico em silêncio.
Penso se ela sabe a verdade sobre eu não querer me casar de livre e
espontânea vontade.
- Acho que é só isso mesmo - respondo depois de um tempo. -
Tenho certeza de que você vai fazer o seu melhor, sem sequer pensar em
economizar.
- Bem, se a senhorita está me dando liberdade para isso, pode ficar
tranquila que farei o meu melhor - responde sorrindo.
Concordo e me troco encarando as duas.
- Se me derem licença e estiver liberada, irei para o meu quarto
descansar um pouco.
- Claro, fique à vontade, deve ser uma loucura preparar um
casamento assim às pressas - diz a mulher.
- Poderia ser pior, mas eu supero - digo forçando um sorriso.
Antes de dar as costas para sair, noto o olhar de desaprovação da
mamãe e me divirto com isso, indo o mais rápido possível para meu quarto e
me trancando lá dentro sem nenhuma perturbação.
***
Abro os olhos quando ouço a batida na porta e levanto, indo em sua
direção. A abro e vejo o olhar sério da mamãe me encarar.
- Posso? - pergunta apontando para o ambiente.
- A casa é sua - digo dando passagem.
Ela entra encarando detalhadamente meu quarto, vendo na
penteadeira as bonecas de porcelana que coleciono desde nova. Ela e vovó,
que já faleceu, me deram a minha primeira boneca quando tinha seis anos.
Desde então, todo aniversário, até os dezessete, eu ganhava uma boneca
dessas.
- Você cresceu tão rápido - diz pegando a primeira boneca. -
Lembro quando sua vó era viva e ela me ajudou a escolher este presente
para você.
- Sinto falta da vovó também - digo me aproximando e pegando a
boneca das suas mãos. - Ela faz muita falta.
- Sim, se estivesse viva, tenho certeza de que nos ajudaria a nos
livrar desta loucura de casamento.
- Eu te amo, mamãe, mas não finja que realmente se importa com
isso - digo observando suas expressões e o suor é visível em sua testa, que
está franzida. - Sei que está aliviada por eu ter aceitado este casamento,
mesmo que não seja minha vontade me casar com um desconhecido.
- Me perdoe, filha - diz cabisbaixa. - Não vejo outra opção a
não ser esta.
- Ouvi sua conversa com o papai - digo querendo ser sincera.
- Que conversa?
- Sobre ele ter te traído - respondo devolvendo a boneca para o
lugar. - Mamãe, papai tem a ver com a morte da mulher que falavam?
- Não fale besteira, Laureen - diz impaciente. - Seu pai me traiu
sim, mas isso faz muito tempo e você nem era nascida. Esqueça isso e finja
que nunca tivemos esta conversa.
- A senhora não parece ter esquecido, já que jogou na cara dele
isso.
- Não interessa, é algo entre seu pai e eu... Não se intrometa e faça
o que eu disse; esqueça de uma vez por todas, entendeu? Não quero que se
meta em mais problemas, já nos basta este casamento.
- E se eu fugisse, mamãe? Por que a senhora vai permitir que meu
destino seja com um homem que eu não conheço?
- Fugir? - Percebo que a palavra soa desesperada na sua boca. -
Deixe de ser ingrata, garota, seu pai e eu sempre fizemos de tudo por você,
tem os melhores estudos, teve os melhores cursos, agora é sua vez de
retribuir isso.
Fico chateada ao ouvir suas palavras duras, é como se tudo que eles
tivessem feito por mim, fosse apenas para que depois tivesse que retribuir de
alguma maneira. Agora está explicado o motivo deste casamento estar
prestes a acontecer sem meu consentimento.
- Sinto muito - digo.
- Eu também, minha filha... Me desculpe, não quis jogar na cara o
que fizemos por você, pois é nossa obrigação como pais. Só peço que ao
menos finja estar feliz com este casamento, no final, pode ser que você acabe
se apaixonando pelo seu noivo.
- Como se apaixonar por uma pessoa que sequer vi? - questiono
me sentando na cama.
Minha mãe senta ao meu lado e segura minha mão.
- As melhores histórias de amor acontecem quando menos
esperamos.
Dou de ombros, pensando que não adiantaria reclamar, choramingar
e esbravejar.
O meu destino é este, certo?
Agora é só esperar o momento para que aconteça.
A prova do vestido
Os dias passam rapidamente, parecendo que duram minutos, o
que me deixa chateada a cada segundo. A cada hora que passa, o destino
escolhido pelos meus pais, está cada vez mais perto de acontecer.
Tento de tudo para ficar animada, visito a biblioteca, faço as provas
dos doces da festa, assisto filmes clichês na Netflix, mas nada me anima. Até
mesmo Lucy, que é a pessoa mais alto astral que conheço, não consegue me
animar nesses momentos tempestuosos que estou passando.
Meu pai e eu não estamos conversando, ele até tenta puxar assunto
comigo nas refeições, que é quando o vejo, mas o ignoro e deixo a mesa
antes mesmo de terminar de comer.
Pelo que venho observando, Eduardo cumpriu sua palavra, pelo
menos em partes. Mesmo que o casamento ainda não tenha acontecido, papai
está radiante em saber que, em poucos dias, não irá mais dever nada a
Eduardo Brown e terá dinheiro.
Esqueço isso e suspiro nervosa.
Decido tomar um banho desejando que a água leve todos os
pensamentos negativos da minha mente.
***
- Querida - minha mãe me chama.
Me viro e a vejo entrar no meu quarto.
- Sim? - digo prendendo meu cabelo em um coque frouxo.
- O vestido chegou, estão te esperando lá embaixo para prová-lo.
Fico quieta diante das suas palavras e apenas assinto sabendo que
não vai adiantar esbravejar, já se passou quase um mês desde o dia que
papai havia me sentenciado à morte.
É isso que me parece este casamento, a própria morte.
- Pensei que demoraria mais - digo fitando o chão.
- Então foi por isso que você pediu um vestido do zero - diz
mamãe nada surpresa. - Você queria tempo.
- Sim, mas não adiantou muita coisa, acho que é melhor irmos logo
provar o vestido.
Ela apenas concorda com um movimento de cabeça e sai.
Eu a sigo andando com lentidão e assim que chegamos na sala, o
local que escolheram para fazer a prova do vestido, fico nervosa ao ver a
mulher parada, com o vestido embalado.
Me aproximo devagar com medo de tropeçar nos meus próprios pés
e respiro fundo quando o sorriso dela se alarga ao apontar para o plástico,
que cobre o tecido claro.
- Bom dia, senhorita Vargas.
- Bom dia, é....
- Cayenne - diz seu nome.
Concordo sem sequer me lembrar dela.
- Cayenne - repito. - Você foi rápida, pensei que demoraria
mais.
- Bem, sendo quem é, achei melhor dar prioridade - diz de
maneira polida.
- Claro - respondo dando um sorriso amarelo.
- Vamos lá?
Cayenne tira o plástico do vestido e quando o vejo fico boquiaberta.
Não posso negar que o vestido é espetacular, do jeito que imaginei a
minha vida inteira. Na frente há um decote com as pedras preciosas que
havia pedido, nas costas o vestido é aberto, com um tule simples para cobrir
e sua cauda é enorme, dando ainda mais charme a ele.
Fico admirada e sorrio ao pensar que este será o vestido que irei
usar no meu casamento. Casamento este que terei sem amor, afinidade ou
qualquer outra coisa com meu suposto noivo.
Irei me casar esplendidamente, no entanto, do que adianta tanto
glamour se serei infeliz pelo resto da minha vida?
Afasto o pensamento melancólico e minha mãe se aproxima,
colocando o braço no meu ombro.
- Vamos lá, está na hora de prová-lo.
Concordo já me despindo, ficando apenas de lingerie. Cayenne me
ajuda a vestir e fico admirada em como ele se emoldurou em meu corpo.
Fecho os olhos, me sentindo apavorada e assim que ouço o fecho nas costas,
os abro, me analisando no espelho a minha frente.
Estou linda, o vestido realça minhas curvas e deixa meus seios
avantajados, me causando uma sensação na boca do estômago.
Sorrio para mim mesma e dou uma volta, feliz com o resultado.
- O véu - Cayenne diz se aproximando e para na minha frente.
Me abaixo um pouco e ela prende o véu no meu cabelo com um
enorme sorriso no rosto.
Me observo no espelho sentindo vontade de chorar, tenho que admitir
que mesmo não me casando de livre e espontânea vontade, estou magnífica.
- É lindo - digo com a voz embargada. - É realmente muito
lindo.
Vejo mamãe emocionada e continuo me observando.
Mesmo sabendo que não quero fazer isso, não há como voltar no
tempo e meu casamento está ainda mais próximo.
***
Quando estou prestes a tirar o vestido, ouço passos vindo na direção
da sala, me viro conseguindo ver o exato momento que papai entra no
ambiente e me encara com um enorme sorriso no rosto. Noto que seus olhos
estão marejados e sinto sinceridade neles, sabendo que se ele tivesse outra
escolha, a faria.
- Papai - digo sentindo minha voz rouca.
- Nos deixem a sós por um momento, por favor - pede.
Cayenne rapidamente sai da sala, assim como mamãe, que me
observa uma última vez antes de deixar o local.
- Você está linda, minha filha, parabéns.
- Obrigada - balbucio sem muita emoção.
- Sei que esses últimos dias têm sido difíceis para você e vim aqui
justamente para me desculpar.
- Pelo o quê?
- Por permitir que isto esteja acontecendo - diz desviando o olhar
do meu. - Você sabe que se eu tivesse escolha, tomaria outra, mas
infelizmente não tenho.
- O senhor teve, papai, anos atrás... Poderia ter feito tantas coisas
diferentes, se estou aqui, neste vestido hoje, faltando pouco para me casar, é
porque o senhor tomou alguma decisão no passado que arruinou meu futuro.
- Eu sei, eu sei... Me arrependo disso, mas infelizmente não temos o
que fazer.
- E o que o senhor quer, afinal? Tenho quase certeza que não veio
me pedir perdão, sendo que está bastante decidido das suas decisões.
Ele anda de um lado para o outro, assente colocando as mãos nos
bolsos da calça social e volta a me encarar.
- O dia do casamento está cada vez mais próximo, com tudo
acertado, os convites serão encaminhados para as pessoas certas com uma
data próxima. - Ele fica em silêncio e suspira. - Quero te pedir que no dia
do seu casamento, ao menos finja que está feliz.
- Posso fazer isso, desde que aceite um acordo.
- Qualquer coisa.
- O senhor não me levará ao altar, eu irei sozinha. Já não basta toda
essa loucura de casamento arranjado, o senhor me levar até o altar seria a
coisa mais ridícula da minha vida. Então fique ciente que eu darei os passos
para o meu destino sozinha, sem ninguém ao meu lado.
- Mas isso é inadmissível, eu sou seu pai, estou vivo e quero ter a
honra de levá-la até o padre.
- Eu queria ter a honra de escolher meu marido, mas nada é
perfeito, não é mesmo? - Ele me encara e assente se dando por vencido.
- Tudo bem, pegarei um dos carros para ir com sua mãe e você vai
no novo sozinha, mas se pensar em fazer uma gracinha...
- Não se preocupe com isso. - O corto. - Sou jovem, mas uma
mulher de palavra, irei até o altar e o casamento que você tanto deseja se
realizará.
Papai concorda.
O vejo dar um passo em minha direção e dou um passo para trás. Sua
expressão muda, como se estivesse arrependido e ele assente, saindo da sala
e me deixando sozinha.
***
Estou em uma sala clara, com janelas grandes e o sol refletindo sobre
elas. Ando para o nada e vejo que uso o vestido de noiva que Cayenne havia
preparado. Em minhas mãos, seguro um buquê de rosas brancas e nos pés um
sapato de salto alto.
Respiro fundo e continuo andando, olho o clarão se transformar em
uma igreja e rapidamente surgir pessoas que não conheço. Respiro fundo,
tentando controlar minha ansiedade e encaro o altar a minha frente. Observo
um rosto distorcido e inexpressivo. Conto até três mentalmente, tentando
assimilar seus traços, mas não consigo, apenas vejo o vulto de um corpo
grande masculino e a sombra dos seus olhos que são escuros como o breu,
quentes como o calor do fogo e ardilosos como um leão em busca da sua
presa.
Continuo andando e percebo que estou cada vez mais próxima do
homem com o rosto distorcido.
Por que só consigo visualizar seus olhos?
Como este homem é?
Me vejo parada ao seu lado, ele coloca sua mão no meu pulso e o
aperta sorrindo. Agora consigo ver seu sorriso, mas ao invés de ser bonito e
elegante, é sádico, doentio, perturbador e me causa arrepios.
- Você será minha para sempre - diz uma voz grossa e rouca.
Seus lábios não se mexem, mantendo o sorriso que me causa medo.
Tento me esquivar, me soltar dele, mas é em vão. Vejo que sua mão
me segura ainda com mais força, me machucando. Grito, mas é inaudível,
como se eu apenas abrisse a boca sem dizer nada. Volto a gritar, mais uma
vez sem som e me vejo derrotada.
Estou presa a este homem para sempre e ele vai destruir a minha
vida.
- NÃO! - grito assustada.
Dou um pulo da cama e percebo que estou no meu quarto. O suor
escorre pelo meu rosto e pinica minha pele, me deixando completamente
estarrecida com o que acaba de acontecer.
Tive um pesadelo, foi apenas isso, um pesadelo para lá de estranho
com o meu futuro noivo.
Tento relembrar seus traços, mas me recordo que não consegui ver,
apenas vi seus olhos sombrios e o sorriso sádico.
Sinto o medo tomar conta de mim e me encolho na cama tentando
reformular o que acaba de acontecer.
Que sonho mais estranho foi esse?
"Isso é porque você está receosa com este casamento, Laureen."
Respiro fundo, procurando por meu celular e assim que o acho, o
pego, decidida a pesquisar no Google sobre meu futuro marido, mas desisto
ao perceber que, se por acaso ver como ele é, ficarei ainda mais nervosa
com este casamento.
- O que me resta é esperar que a cerimônia aconteça logo para
acabar esse pesadelo.
Sei o quanto estou errada, mas me conforto com esse pensamento.
Quando eu me casar, o pesadelo deixará de ser sonho e passará a ser
real...
Algo muito pior.
Me levanto, pego sobre a mesinha que há no quarto um pouco de água
e bebo rapidamente, a fim de que isso ajude o susto passar.
Olho o relógio e vejo que passa das cinco da manhã, em breve o sol
surgirá para um novo dia...
Um dia a menos da minha liberdade.
Penso a respeito disso, analisando a situação mais uma vez.
Ultimamente tenho feito muito isso, analisar...
Como se isso fosse ajudar em alguma coisa.
Penso nas duras palavras que havia dito ao meu pai, sobre não querer
que ele me leve até o altar, pelo menos assim eu me sentirei mais confortável
em saber que me guiei sozinha para a sentença, mesmo que seja culpa dele.
Como tem sido constante, me pego pensando no meu futuro noivo.
O que será que ele estaria fazendo agora?
Será que está feliz com este casamento?
Com certeza ele está com alguma mulher mais bonita e sensual que
eu, desfrutando do desejo carnal que a vida nos dá.
Penso a respeito disso, eu nunca havia feito sexo com alguém e saber
que minha primeira vez será com uma pessoa desconhecida, me causa
sensações estranhas.
Eu teria mesmo que fazer isso?
Quem sabe eu posso tornar meu marido um aliado, dizendo a ele que
dormiremos em quartos separados e não teremos relações sexuais. Se ele
não estiver de acordo em se casar, com certeza apoiará esta minha decisão.
Sorrio com a ideia de que isso pode dar certo e volto para a cama,
adormecendo novamente.
Data marcada
Papai me avisa que a data do casamento está marcada e será
para daqui uma semana.
Os convites já foram enviados às pressas para os convidados que
sequer conheço. Minha única convidada é Lucy, que será minha madrinha.
Seu vestido é muito bonito, com um decote discreto, amarelo-claro e saltos
altos. Vejo o quanto ela fica animada ao prová-lo e feliz por fazer parte deste
momento na minha vida, mesmo sabendo que não estou contente.
- Vai dar tudo certo, você verá, quem sabe não acabe se
apaixonando por este homem misterioso.
- Espero que isso não aconteça.
- Espera, senhorita Vargas? - pergunta arrancando uma risada
minha.
- Sim, aliás, não vai acontecer... Você sabe como funciona; primeiro
a gente conhece a pessoa, depois damos nosso primeiro beijo, as coisas vão
acontecendo devagar, começamos a namorar, nos entregamos de corpo e
alma e só depois nos casamos. Eu não serei assim, conhecerei meu marido
no altar e nem sei o seu nome direito.
- Porque não quer, é só pesquisar que saberá - responde Lucy
revirando os olhos. - Pense que ele é um bom partido, é um homem
importante nos negócios, ao menos terá uma vida tranquila, sem precisar se
preocupar em não ter dinheiro.
- Mas eu não quero viver dependendo de um homem - digo
suspirando. - Quero estudar, fazer uma faculdade, conhecer o mundo,
pessoas.
- Se o seu marido for um homem bom, poderá fazer isso tudo, não
vivemos mais no século XVIII, estamos no século XXI. Será que ele seria
tão retrógado assim?
- Acho que não - respondo como um murmuro. - Pelo menos eu
espero que não.
- Você saberá daqui uma semana - responde Lucy segurando
minha mão. - Não se preocupe, tenho certeza de que você irá se
surpreender.
Torço para que ela esteja certa.
***
Sabe quando você tem a sensação de que o tempo passa mais
depressa?
Quando você precisa que seu dia tenha quarenta e oito horas e, na
verdade, dura menos de cinco?
Estou me sentindo assim nesta semana de pré-casamento. Parece que
a cada segundo, as horas passam mais rápidas e quando pisco já se encerrou
mais um dia.
Agora falta apenas quatro dias para o casamento acontecer e estou
cada vez mais nervosa com isso tudo. É como se a minha sentença de morte
estivesse pronta e eu esperasse este acontecimento.
E para falar a verdade, não duvido que seja isso mesmo.
A cada minuto, hora e dia que se passa, eu sigo para uma morte lenta
e dolorosa.
Estou perdida...
***
Como combinado, a festa será em casa, com um buffet extraordinário
e muita comida. O casamento ocorrerá em uma igreja reservada, não tão
longe de casa, levando em consideração que moramos na cidade grande,
próximos a prédios e casas gigantescas.
- Está distraída - diz mamãe me tirando dos meus pensamentos. -
Na verdade, desde o dia que soube sobre o casamento, você parece viver no
mundo da lua.
- Meu sonho que isso fosse verdade - digo cruzando os braços. -
Só estou tentando processar tudo que vem acontecendo.
- Imagino que sim... Você vai se casar em quatro dias, precisa de
descanso e bem-estar, além de que está com olheiras enormes.
- Não tenho dormido muito bem, tive pesadelos a semana inteira -
confidencio a ela que suspira triste.
- Sabe, filha, meu casamento com seu pai não foi fácil, mesmo nos
casando por amor, temos as nossas diferenças.
- Para ele te trair, acredito que tenha mesmo - digo e sou
repreendida pelo seu olhar duro.
Mamãe se aproxima e se senta ao meu lado no sofá, segurando
minhas mãos.
- Isso é um detalhe que deve ser esquecido.
- E se acontecer o mesmo comigo, mamãe? E se meu marido me
trair por aí?
- Será mais fácil, já que você não sente nada por ele.
Concordo mexendo no meu cabelo, com a intenção de que isso alivie
os pensamentos.
- Eu sempre sonhei em me casar, mas não tão cedo e nem assim,
sem querer.
- Eu sei, minha filha, e nunca irei me perdoar por isso...
- Mas é necessário, eu sei. - A corto, esboçando um sorriso. -
Como papai está com essa história toda?
- Se quer realmente saber, ele está bem. Sabe que está sendo difícil
para você, mas está aliviado que tudo passará.
- Uma coisa que eu não entendo é porque papai teme tanto o
Eduardo. Não consigo acreditar que ele seja capaz de fazer algum mal.
- Eu também não acreditava que seu pai seria capaz de matar uma
mosca, mas quando você não tem para onde correr, precisa fazer escolhas.
- Escolhas essas que machucam outras pessoas. - Suspiro. -
Entendi.
- Uma hora você entenderá tudo.
- Então você está me dizendo que tem algo mais além do que eu
sei?
- Possa ser que sim - responde tristonha. - Por que você não
chama a Lucy para um chá? Seria bom você se distrair um pouco, ainda mais
que agora ela será sua governanta.
- Aliás, obrigada por isso, ter Lucy comigo será muito mais fácil.
- Não agradeça - responde se levantando. - Não vou abandoná-
la, filha, tenha certeza disso.
Concordo apenas com um movimento de cabeça e fico em pé,
decidida a esquecer isso pelo menos por um momento.
***
Quatro dias, se tornaram três, que logo viraram dois e quando vejo,
estou no banheiro, encarando o espelho.
A casa está cheia, como já era de se esperar e pessoas vão para
todos os lados com arranjos de flores, cadeiras, mesas e muitas outras
coisas. Há garçons e garçonetes, um buffet repleto de comida e música
teatral. Acho tudo exagerado, mas não reclamo, minha maior preocupação
neste momento é o que vai acontecer depois do sim.
Me despindo, caminho até a banheira, que Lucy me auxiliou no
preparo do banho. Mergulho, molho meu cabelo e fico imersa na água por
um longo minuto, saindo após não aguentar segurar mais a respiração.
Ensaboo meu corpo e lavo meu cabelo, hidratando-o com cheiro de rosas.
Assim que finalizo, depilo minhas pernas, sabendo que terei que manter
minha depilação em dia.
Ao terminar, saio do banheiro e sigo para o quarto, sendo recebida
por Lucy, mamãe, Cayenne, um maquiador e um cabeleireiro. Respiro fundo,
ignorando o falatório a minha volta e visto a lingerie de renda branca na
frente deles, sem me importar se estão me vendo nua. Após fazer isso, me
enrolo em um roupão e sigo até uma cadeira em frente ao espelho, soltando
meu cabelo molhado.
- Hoje é um dia muito especial, senhorita Vargas - diz Cayenne.
- O Joseph vai cuidar do seu penteado e Josh da sua maquiagem, queremos
você impecável.
- Obrigada, não consegui dormir nos últimos dias de tanta
ansiedade - digo soando sarcástica.
- Imagino que sim, casamentos são tão lindos - diz animada.
Forço um sorriso e Joseph começa seu trabalho, escovando bem meu
cabelo.
O processo leva menos de uma hora, quando dou por mim, meu
cabelo já está completamente escovado e ele começa a fazer o penteado.
Peço que seja algo simples, como um topete alto na frente e o comprimento
preso em um coque frouxo. Na frente, deixamos algumas mechas soltas,
colocando em volta da minha cabeça uma tiara de prata, com pequenas
pedras semipreciosas que pertencera a minha vó.
Fico surpresa em ver como o simples objeto antigo realçou meu rosto
e um sorriso sincero se forma em meu rosto quando Josh se aproxima e
começa a me maquiar.
Escolhemos uma maquiagem simples, apenas esfumaçando meus
olhos em preto para realçar meu rosto e um batom tom de pele. Ele passa o
delineador e finaliza com o pó no meu rosto, assim que termina, Josh se
afasta e me encaro no espelho.
Não posso negar, realmente estou muito bonita e por um milésimo de
segundo, a ideia de me casar se torna boa.
- Filha. - Saio dos meus pensamentos ao ver mamãe e me viro
para ela, que está emocionada. - Você está linda, querida.
- Obrigada - digo emocionada. - Não me deixe chorar, se não
vai borrar toda a maquiagem e Josh será obrigado a refazer.
Mamãe sorri concordando, então me viro e vejo Cayenne com o
vestido em mãos. Sinto meu coração cada vez mais acelerado, como se ele
pudesse sair do meu peito e ela se aproxima.
- Você está pronta?
- Acho que sim - digo receosa.
- Certo, vamos lá.
Como no dia da prova, Cayenne me ajuda a colocá-lo e me sinto
cada segundo mais nervosa, sabendo que dessa vez não estou me vestindo
para uma prova, mas sim para subir ao altar. Assim que ouço o zíper ser
fechado, uma onda de sentimentos cresce dentro de mim, como se eu fosse
uma bomba-relógio que pudesse implodir aqui mesmo.
Respiro fundo tentando me manter firme e abaixo um pouco a cabeça
para o véu ser colocado. Quando termina, Cayenne, o joga para trás e vejo
meu reflexo no espelho.
Assim como na prova, estou deslumbrante, o que me deixa bastante
surpresa.
Como uma roupa poderia subjugar tanto o corpo de uma mulher?
Fico estarrecida e dou uma volta, vendo a cauda deslizar pelo
ambiente.
- Estou linda - digo realmente emocionada.
- Você está mesmo, Laureen - diz Lucy batendo palmas de
felicidade.
Sorrio e me viro para mamãe que chora baixinho.
- Querida, nunca imaginei que você ficaria tão linda em um vestido
de noiva.
- Concordamos com isso, eu também nunca imaginei - digo rindo.
Ela sorri se aproximando de mim e me abraça forte.
- Estarei torcendo pela sua felicidade, mas se precisar de alguma
coisa, não hesite em me procurar.
Concordo sabendo que posso confiar em suas palavras.
- Acho que está na hora - digo sentindo minhas mãos tremerem. -
Mãe, me leve ao altar.
- Pensei que iria sozinha, seu pai me disse...
- Sim, mas quero que você me leve - digo interrompendo-a.
- Claro, minha filha.
Sorrio com isso e suspiro, encarando minha imagem uma última vez
no espelho.
Não há mais nada para se fazer, o momento está chegando e irei me
casar.
Acidente de trânsito
Sinto meu coração cada vez mais acelerado quando desço a
escada em direção a saída da casa. Minhas mãos estão molhadas por conta
do suor e minha respiração está entrecortada.
- Mantenha a calma - sussurra Lucy ao meu lado.
Levo minha mão até a sua e a aperto.
- Obrigada por estar ao meu lado neste momento.
Vejo seu sorriso se alargar e percebo que o tempo não está tão
favorável, pois o céu está escuro, carregado de nuvens, até mesmo parecia
que alguém havia morrido e eu não duvido disso. Estou morta por dentro por
ter que me casar com um completo desconhecido.
- O carro já está vindo - diz mamãe me trazendo para a realidade.
- Certo, e papai?
- Já está na igreja, ele preferiu ir na frente para recepcionar os
convidados.
Concordo e fico em silêncio, esperando.
Não demora e vejo um carro adentrar o jardim ao lado da nossa casa
e mamãe junto com a Lucy me ajudam a descer os degraus, segurando a
cauda e o véu do vestido.
- Lucy e eu iremos em outro carro, encontrarei você na igreja.
- Por quê?
- Quero te dar um tempo sozinha - diz afastando o cabelo do seu
rosto.
Apenas assinto, agradecendo mentalmente, entro no veículo, pego
meu buquê e me despeço das duas ao ver a porta ser fechada.
Logo vejo mamãe e Lucy seguirem para outro carro e seguro minha
respiração contando até cinco. O ato me ajuda a manter a calma pelo menos
um pouco, até o carro começar a se movimentar saindo do jardim do meu
antigo lar.
Me viro de costas e olho pelo vidro traseiro a casa que passei a
minha vida inteira ficar cada vez mais longe. Penso que nunca mais irei
voltar para cá, a partir desta noite, serei uma mulher casada e com
sobrenome diferente.
Logo o veículo está andando pelo trânsito da cidade, coloco o buquê
no assento ao lado e torço minhas mãos de nervosismo.
Como será que meu noivo é?
De repente, penso que minha atitude de não querer vê-lo pelo menos
na internet é um tanto quanto infantil, mas a dele de não vir me conhecer
pessoalmente é pior ainda, o que me faz rir.
E se ele for um homem feio, com mau hálito?
A ideia de encontrar um ogro no altar me causa boas risadas e dor no
estômago.
Não é porque irei me casar sem vontade que meu futuro marido tem
que ser feio.
Continuo um bom tempo pensando em como será meu futuro marido,
relembrando o pesadelo que havia tido.
E se fosse uma espécie de alerta?
E se realmente meu noivo que desconheço, é uma pessoa
assustadora?
Fecho meus punhos com força, chegando a sentir minhas unhas
machucarem a palma das minhas mãos. Tento me acalmar e fecho os olhos,
desejando que isso tudo não passe de um pesadelo.
E então algo acontece...
Sinto um solavanco forte e sou jogada para a frente, batendo com
tudo meu peito no banco. Solto um gritinho de dor e o buquê rola pelo chão
do carro, com meu coração acelerado por conta do baque.
- O que foi que aconteceu? - pergunto me sentindo assustada.
- A senhorita está bem? - pergunta o motorista, se certificando que
não estou machucada.
Sei que ele não se importa, está apenas vendo se não me machuquei
para não perder seu emprego.
- Estou bem - respondo. - Parece que bateram no nosso carro.
Respiro fundo sentindo a dor no peito.
Ele estaciona o carro no meio-fio, abrindo a porta e saindo
rapidamente. Abro a janela do carro e o vejo indo para trás, analisando a
traseira.
- Como é que estamos aí?
- Ferrados - diz suspirando.
Abro a porta e com um pouco de dificuldade, saio, olhando o veículo
que bateu na gente, parar com a frente destruída.
- Não poderia ser melhor - balbucio revirando os olhos.
Vejo a porta do carro que nos acertou abrir e o motorista sair.
Seu olhar é bastante sério e percebo o nervosismo dele.
- Vocês estão bem? Por favor, me perdoem, acabei acelerando mais
do que deveria.
- Está desculpado, mas deveria se atentar um pouco mais - digo
com o meu motorista me observando. - Veja que ironia, você acelerou para
ir mais rápido e agora está aqui parado, perdendo tempo.
- Sinto muito de verdade, senhorita - diz sincero. - Você vai se
casar.
Não é uma pergunta já que estou usando vestido de noiva, com véu, o
que não tem outra explicação a não ser um casamento.
Quem sairia assim à toa?
- Sim, e você me atrasou para o meu casamento.
- Sinto muito.
- Na verdade, obrigada - respondo com um sorriso.
Vejo a porta traseira do carro se abrir e um homem sair.
Assim que o vejo, é como se cada detalhe a minha volta
simplesmente desaparecesse e estivéssemos somente nós dois aqui, parados,
um encarando o outro. Não posso negar, ele é um homem muito bonito. Seu
cabelo é escuro e seus olhos acastanhados demostram uma fúria que fico
curiosa em desvendar. Sua barba está bem alinhada, marcando seu lindo
rosto angelical. Posso afirmar que em toda minha vida, nunca vi um homem
tão bonito como ele.
A pele clara se destaca ainda mais com o smoking preto que ele usa.
Noto a gravata borboleta e ele ergue a sobrancelha, talvez sem entender o
porquê estou o encarando.
- O que está acontecendo aqui, Reginald? - questiona com a voz
grossa e sensual.
Fico arrepiada ao ouvi-lo e me repreendo mentalmente por isso.
- Só me certificando que a senhorita está bem - diz Reginald, o
motorista.
- E você está bem? - pergunta o homem me encarando.
- Sim, estava dizendo ao seu motorista que ele me atrasou para o
meu casamento, mas está tudo bem.
- Certo, nos perdoe por isso, o carro eu posso mandar consertar,
desde que você não se importe que seja feito isso outra hora, também estou
atrasado para o meu casamento.
Fico surpresa ao ouvir isso e com a coincidência em saber que este
homem também irá se casar.
- Tudo bem, meu motorista pode cuidar disso com o seu, o que
acha?
O homem assente e vejo meu motorista se aproximar do seu, trocando
algumas palavras que não ouço. Vejo Reginald dar um cartão para o outro e
encaro o homem que me observa atentamente.
- Bom casamento para você, senhorita...
- Laureen, me chamo Laureen.
- Certo, me chamo Gael. Mais uma vez, me perdoe.
- Tudo bem, um bom casamento para você também.
Um sorriso sincero se forma em meu rosto e o vejo fazer o mesmo.
Sinto pingos de chuva começarem a cair e entro no meu carro
acenando para o rapaz, o perdendo de vista.
Não demora e meu motorista volta para dentro do veículo me
encarando.
- A senhorita está bem mesmo?
- Sim, estou, agora vamos seguir logo para a igreja.
- Vai ser uma entrada e tanto com o carro amassado - responde
mais para ele do que para mim.
Rio com isso e movimento a cabeça em concordância.
O carro passa ao nosso lado e vejo o homem uma última vez,
marcando bem seu olhar sério e enigmático.
***
Conto de 10 a 0 e quando vejo, estamos em frente à igreja. Respiro
fundo e avisto mamãe e Lucy do lado de fora, ao perceberem o carro
amassado, seus olhares se contorcem e se aproximam rapidamente de nós.
- O que houve? - pergunta mamãe, assim que o carro para em
frente à entrada da igreja.
- Fomos acertados por um motorista um tanto imprudente - digo
suspirando.
Elas me ajudam a sair do carro e arrumam a cauda do vestido,
esticando-o e alinhando. O véu também é arrumado e mamãe me observa.
- Vocês estão bem?
- Sim, até que foi divertido, acredita que o rapaz que nos acertou
também estava indo se casar?
- Que loucura, mas vamos esquecer isso por um momento. Quando
você estiver preparada, entraremos.
Sinto o medo voltar a tomar conta de cada parte do meu corpo e
minhas mãos suam cada vez mais. Respiro fundo, mentalizando coisas boas,
como se isso fosse apenas uma fase e se depender de mim, acabará em
breve.
"Tolinha!"
Ouço meu pensamento e vejo o quanto é verdade.
Isso não irá acabar, pelo contrário, está apenas começando e será
ainda mais difícil a partir do momento que eu disser "sim".
- Segure minha mão, mamãe, e não me deixe vacilar.
- É claro, querida - diz mamãe já me agarrando. - Vamos.
Movimento minha cabeça e quando Lucy já está dentro do local,
posicionada no seu devido lugar, subo os degraus da igreja, caminhando
devagar para o meu destino.
Entrar em uma igreja para se casar chega a ser cômico, já que estou
me direcionando para o verdadeiro inferno, mas me mantenho firme e sorrio
respirando fundo, aceitando o destino que me foi dado.
Finalmente eu irei me casar...
Casada com o CEO
Caminho devagar em direção ao altar, segurando a mão de
mamãe com força. Ouço a marcha nupcial e na minha mente ela se transforma
na marcha fúnebre, então, ergo meu olhar em direção ao meu futuro marido e
o encaro, o que me faz congelar travando no meio do caminho.
A igreja está cheia e todos os convidados me encaram, surpresos
com a minha atitude. Fico parada por um bom tempo, o olhando atentamente,
sem acreditar que o homem que vi no trânsito e bateu no meu carro, é meu
futuro marido.
Como ele se chama mesmo?
"Me chamo Gael."
Ouço sua voz em minha mente e sinto um arrepio percorrer minha
espinha, então mamãe aperta minha mão, me trazendo para a realidade.
- Está tudo bem? - pergunta baixinho.
O som no local é alto.
- Foi ele que bateu no meu carro - sussurro.
Volto meu olhar para o altar e vejo papai, Lucy, Eduardo, o padre e
Gael. Todos me encaram sem entender e o olhar inexpressivo do meu pai me
fita, como se pudesse me matar aqui mesmo por esta vergonha.
- Falaremos disso depois, é melhor seguirmos, as pessoas estão
olhando.
Concordo com mamãe e voltamos a caminhar, agora com todos
demonstrando um certo alívio em seus olhares.
Será que eles esperavam eu desistir deste casamento?
Dou alguns passos, como se, ao invés de me aproximar, eu ficasse
ainda mais longe do altar. Então vejo o homem que chamou minha atenção
pouco tempo atrás, me encarar.
- Laureen - sussurra me observando. - Então é você, a noiva do
trânsito.
- Que ridículo! - disparo. - Me desculpe, quis dizer que a
situação é ridícula. Nos conhecermos assim, em um acidente, sem sabermos
que iriamos nos casar.
Um sorriso angelical se forma em seu rosto e me sinto sem graça,
então o padre pigarreia e nos viramos para ele, com Gael se aproximando e
segurando minha mão. Um arrepio percorre cada parte do meu corpo, como
se o seu toque disparasse cargas de eletricidade, me trazendo à vida
novamente, o que é estranho.
Por que estou sentindo estas coisas?
- Boa tarde a todos - começa o padre nos encarando. - Antes de
tudo, vamos ler um versículo da bíblia.
Fico quieta, achando isso tudo muito ridículo e desnecessário. Nunca
fui uma pessoa muito cristã, mas sempre sonhei em me casar na igreja.
Porém, um casamento tradicional, verdadeiro e por amor.
- Sua mão está suando - sussurra Gael, enquanto o padre lê o
versículo que não presto atenção.
- A sua é quente - disparo me repreendendo por isso.
Outro sorriso se forma em seu rosto e noto a sua beleza, ficando sem
graça.
- Nesta tarde, duas pessoas decidiram se unir em prol do amor -
diz o padre me fazendo rir.
Ele me encara e fico sem graça.
- Desculpe - murmuro.
- Continuando... - O padre retorna e vejo Gael segurar a risada
também. - O amor mais uma vez falou mais alto e estes dois jovens
decidiram se unir em uma só carne.
Vejo Gael segurar ainda mais a risada e faço o mesmo.
- Padre, poderíamos pular esta parte? - peço, notando os
convidados rirem conosco.
- Vocês que mandam - diz nervoso. - Gael Brown, você aceita se
casar com Laureen Vargas de livre e espontânea vontade, prometendo honrá-
la, protegê-la e amá-la pelo resto dos seus dias?
- Sim - responde Gael se controlando para não rir.
- Laureen Vargas, você aceita se casar com Gael Brown de livre e
espontânea vontade, prometendo honrá-lo, protegê-lo e amá-lo pelo resto de
sua vida, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença?
Encaro Gael e desvio meu olhar para papai que demonstra medo e
receio, então me viro para mamãe, que chora baixinho, talvez de
arrependimento, talvez de alergia. Nunca saberei...
Volto meu olhar para Gael Brown que sorri de lado.
- Aceito - digo sentindo que estou entrando em um lugar obscuro
que jamais poderei sair.
- Então, com a permissão que me foi dada, eu os declaro casados.
- diz o padre aliviado. - Pode beijar a noiva.
Vejo Gael levantar meu véu devagar e meu coração se acelera cada
vez mais, então o visualizo mais uma vez e ele se aproxima, colando seus
lábios nos meus.
O beijo começa devagar, talvez esperando minha permissão, então
abro a boca e Gael mergulha sua língua, nos misturando por completo. Sinto
o gosto do seu beijo; uma mistura de pasta dental e morango, e correspondo
o ato, sabendo que não terei escolha.
Não é ruim, muito pelo contrário, sinto uma sensação tão diferente
que o puxo para próximo de mim e ficamos nos beijando por longos minutos,
ouvindo as pessoas à nossa volta nos aplaudir.
Volto a realidade e o afasto devagar, com ele finalizando com um
selinho. Assim que nos separamos, assinamos os papéis e ele me observa.
- Esposa - murmura sorrindo de lado.
- Esposo - respondo sem graça.
Gael estende a mão para mim e a seguro, sentindo meus batimentos
cada vez mais acelerados, então ele me guia em direção ao tapete e vamos
andando até a saída da igreja, comigo sem entender.
Os convidados se colocam em pé e nos aplaudem, com alguns
jogando arroz em cima de nós. Vejo o carro amassado parado do lado de
fora, Gael se desvencilha de mim, indo até o veículo e abre a porta. Desço
os degraus devagar, ele me ajuda a entrar no carro, fechando a porta e dando
a volta.
Não demora e ele está ao meu lado.
Olho para o lado de fora e observo os convidados gritando e
aplaudindo. Procuro entre as pessoas um rosto conhecido até que encontro
mamãe que acena para mim e jogo o buquê, com o veículo começando a se
movimentar rapidamente, sem eu ter a chance de saber quem o pegou.
- Para onde estamos indo? - questiono sem entender.
- Para sua antiga casa, iremos antes dos convidados para que você
possa colocar uma roupa mais leve. Acredito que este vestido esteja a
incomodando.
- Um pouco - digo encarando seus olhos.
Ele me observa e me sinto sem graça, como se estivesse exposta.
- O destino é engraçado - diz olhando pela janela. - Nos
encontrarmos pela primeira vez em um acidente de trânsito.
- Às vezes o destino gosta de brincar conosco - respondo. -
Posso fazer uma pergunta?
- Tecnicamente você já fez, mas claro que pode.
- Por que você não foi me conhecer antes? - questiono ignorando
sua piada sem graça.
- Acho que deve saber que sou um homem de negócios - diz
voltando a me encarar. - Fiquei tão surpreso quanto você quando soube do
casamento, no dia, estava viajando e só voltei ontem.
- Você só voltou para se casar com uma desconhecida?
- Sim - responde seco.
- E você vê isso como algo normal?
- Na verdade, não, e se eu disser a você que queria me casar,
estarei mentindo, mas a vida inteira meu pai tomou as decisões por mim, eu
já esperava que isso aconteceria em algum momento.
Fico em silêncio ao ouvir isso, me sentindo ao menos um pouco
aliviada em saber que ele também não queria se casar.
- Mas, e você.
- Eu o quê?
- Queria se casar comigo?
- Claro que não, como poderia querer me casar com uma pessoa
que nem conheço?
- Bem, se não lembra, você fez isso minutos atrás - responde
dando de ombros.
- Por falta de escolha - digo. - Me desculpe, não quero ofender.
- Não está - responde. - Estou curioso com uma coisa.
- Qual?
- Você não pareceu me conhecer quando nos encontramos no
acidente... Você não foi atrás para saber quem eu era?
- Não, preferi esperar, assim não ficaria tão nervosa, sem contar
que fiquei com medo de você ser um homem horrendo.
Gael dá risada e me vejo rindo com ele.
- E eu superei suas expectativas?
Fixo meus olhos em cada detalhe do seu rosto angelical.
- Bem, já que somos casados agora, não posso reclamar em relação
a isso, você é muito bonito - digo envergonhada.
- Você também é muito linda.
- Obrigada. Agora me diz, você realmente é um CEO das empresas
do seu pai?
- Sou sim, ele me deu o cargo tem um ano, desde então, minha vida
se tornou um verdadeiro inferno.
- Por quê?
- Muitas viagens.
- Então nos veremos pouco - afirmo.
- Na verdade, não, aceitei o casamento se ele concordasse diminuir
as minhas viagens. Você foi a minha salvação.
- Fico feliz em saber que servi para alguma coisa - respondo
rindo.
Ele fica em silêncio.
Encaro o lado de fora, percebendo que o trânsito está tranquilo, no
entanto, a chuva cai forte.
- Posso fazer outra pergunta?
- Fique à vontade, esposa - diz me olhando.
- Você também não pareceu me reconhecer, não sabia como eu era?
- Não, assim como você, preferi não vê-la até o dia do casamento
- responde.
Concordo e sorrio.
- Mamãe estava do lado de fora da igreja quando eu cheguei, ela
não te viu?
- Entrei pelos fundos para evitar que alguém me visse.
Ouço isso e seguimos o restante do caminho em silêncio, com Gael
sem encostar em mim, o que me deixa tranquila.
- Sou uma péssima noiva, eu sequer vi quem pegou o buquê -
digo.
- Você vai acabar descobrindo isso, não se preocupe, ainda temos
uma longa noite pela frente.
Me arrepio sabendo que teremos que manter um papel de casal feliz
por mais algumas horas.
- Você é um bom ator, foi convincente na hora do beijo - digo
puxando assunto.
- Na verdade, eu não estava atuando naquele momento, o beijo foi
real, assim como da sua parte.
- Como você tem certeza de que o beijei por querer? - pergunto
cruzando os braços e o observando.
Seu olhar demonstra certa euforia.
- Um beijo daqueles não dá para fingir, mas se você quiser, posso
ser um ótimo ator pelo restante da noite.
- Seria bom, quero dizer, pelo menos em relação a estarmos felizes
com esta união, se é que me entende.
- Entendo.
É a única coisa que ele diz e quando vejo, já estamos próximos de
casa.
Assim que o carro para, Gael sai e dá a volta para abrir a porta para
mim, me ajudando a descer do veículo. Seguro sua mão, sentindo o calor
dela e saio, olhando para a casa que morei a minha vida inteira.
- Cheguei aqui mais rápido do que imaginei.
- Você pensou que se casando comigo, não voltaria mais aqui,
mesmo a festa sendo na casa dos seus pais?
- Basicamente isso - digo rindo.
Subimos os degraus com Gael ainda segurando minha mão e entro no
local, olhando em volta da casa que passei minha vida inteira.
- Bonita - diz observando em volta.
Noto que a casa continua bastante agitada, por conta da preparação
da festa.
- É melhor eu ir me trocar logo - digo apontando para a escada.
- Claro, estarei aqui embaixo bebendo um uísque.
Concordo e sigo com dificuldade para o andar de cima, indo para o
meu quarto. Assim que entro, observo que na cama há um vestido mais
simples, porém muito bonito. Tiro o vestido de noiva com certa dificuldade
e assim que finalmente consigo, fico apenas de lingerie e me sento, refletindo
sobre o que está acontecendo.
Agora não tem como voltar atrás, estou casada com um homem que
por enquanto apenas sei o nome e que é um CEO na empresa do seu pai.
Gael é uma incógnita e me vejo em um dilema, eu quero conhecê-lo.
***
Uma batida na porta me tira dos meus pensamentos e rapidamente me
enrolo no vestido de noiva, vendo a porta ser aberta e meu marido entrar no
meu quarto.
- Me desculpe por entrar assim, é que as pessoas já estão chegando
e sua mãe ordenou que eu viesse atrás de você.
- Por que ela mesma não fez isso?
- Acho que está ocupada com os convidados - responde e me
encara. - Desculpe, você ainda nem se vestiu. - Aponta para o vestido na
cama e fico sem graça. - Vou sair para que se arrume.
- Tudo bem, pode ficar, apenas fique de costas, se mamãe o ver no
corredor e eu trancada aqui dentro, é capaz de achar que tem alguma coisa
errada.
Ele me encara e assente virando de costas.
Rapidamente jogo o vestido de noiva na cama e pego o outro, me
vestindo mais rápido do que consigo.
Suspiro, aliviada e me olho no espelho.
O vestido branco bordado com pérolas marca minhas curvas e realça
meus seios. Meu penteado continua intacto, com a tiara da vovó realçando
minha beleza.
- Estrou pronta - digo me virando para Gael.
Ele me encara um minuto inteiro em silêncio e vejo seu pomo de
adão se mexer.
- Você é realmente muito linda - murmura. - Meu pai escolheu
uma bela esposa para mim.
- Obrigada - digo sentindo meu rosto ruborizar.
- Não tem o que agradecer. Vamos descer?
Concordo e ele estende a mão para mim.
A pego e seguimos em direção a saída do quarto, andando devagar
até a escada. Paro olhando a movimentação das pessoas e todos nos encaram
aplaudindo. Me preparo com Gael para o meu melhor teatro.
A noite acaba de começar...
Festa de casamento
- Fique calma, é apenas uma multidão de pessoas
desconhecidas, não há o que temer - diz Gael parado ao meu lado.
- Então você também não conhece os convidados? - questiono
curiosa.
- Conheço... Meu pai, os seus e agora você, que é minha esposa.
Rimos disso e dou de ombros começando a descer os degraus
devagar.
Os saltos nos meus pés me incomodam, mas não mais do que todas
aquelas pessoas nos olhando como se fôssemos a atração da noite e
realmente sinto que somos isso.
Fico aliviada ao chegar no último degrau, surpresa por não ter caído.
Vejo mamãe se aproximar e me abraçar apertado dando um beijo na minha
testa.
- Obrigada, querida - sussurra para que ninguém ouça.
- Vamos apenas sorrir hoje, mamãe - peço tomando os vários
olhares.
Ela concorda e meu pai se aproxima, cumprimenta Gael e vem em
minha direção. Ele me abraça e decido retribuir, me lembrando que é melhor
que as pessoas pensem que estou feliz.
- Espero que você possa me perdoar um dia e que desta união surja
o amor - diz baixinho apenas para que eu ouça.
- Um dia o perdoarei sim, papai, mas não espere que eu me
apaixone pelo marido que você escolheu para mim.
- Aquele beijo foi bem apaixonado, não? - insiste me observando.
Reviro os olhos sem que as pessoas vejam e decido ignorar, sabendo
que ele está apenas me provocando.
- Acho que está na hora de aproveitarmos a festa, senhor Vargas,
assim como minha esposa e eu - diz Gael me puxando em sua direção e
passando o braço na minha cintura.
Solto um gritinho baixo de surpresa e meu pai concorda com um
movimento de cabeça.
- Está certo, rapaz, vamos aproveitar a comida, bebida e a música.
Meu pai se afasta e me viro para o meu marido, que sustenta um
sorriso debochado em seus lábios.
- Obrigada, às vezes meu pai sabe ser difícil.
- Sou seu marido, estou aqui para defendê-la, certo?
Fico sem graça ao ouvir isso.
Decidimos seguir para o salão de festas, onde uma música
orquestrada toca baixinho. Assim que entramos no local, mais palmas soam
pelo cômodo e forço um sorriso, com Gael ainda com a sua mão na minha
cintura.
- Se nós não conhecemos estas pessoas, será que elas sabem para
quem estão batendo palmas? - pergunta estreitando as sobrancelhas.
Cubro a boca com a mão, a fim de que não vejam eu rir.
- Tenho que confessar que você é um ótimo piadista, senhor Brown.
- É porque você ainda não conhece meus dotes, senhora Brown -
responde sorrindo.
Fico em silêncio.
Somos guiados para a mesa principal, onde estão meus pais, o pai de
Gael e dois lugares reservados para nós. Faço questão de puxar uma cadeira
para Lucy, que está se divertindo na festa e me abraça apertado quando me
vê.
- Quis te dar um tempo, levando em consideração o motivo deste
casamento - diz ainda abraçada a mim.
- Obrigada, eu te amo - digo e me desvencilho dela seguindo para
a mesa.
Gael puxa a cadeira para que eu me sente, agradeço surpresa com sua
educação, e me ajeito no lugar, observando mamãe me encarar com um
sorriso de lado.
A hora seguinte é como se fosse uma faca na minha garganta,
dilacerando minha pele devagar a cada palavra dita. Percebo que o pai de
Gael, Eduardo, está animado com a nossa união, o que ainda me deixa
bastante receosa.
Qual será o motivo dele desejar tanto este casamento?
Porém, mais animado que ele, está meu pai, que bebe, come e
conversa sobre negócios.
Me sinto um pouco incomodada com tudo e Gael me observa,
estendendo a mão para mim.
- Você deseja dançar comigo?
- Tenho dois pés esquerdos - comento sendo sincera, pois sou
péssima em dançar.
- Vamos tentar, aposto que vai ser um prato cheio para os
jornalistas.
- Têm jornalistas aqui? - pergunto surpresa. - É claro que têm.
Gael ri e fixo meus olhos em seu lindo sorriso, o que me deixa com
uma sensação estranha na boca do estômago.
- Vai aceitar?
- Se eu não aceitar, se dará por vencido?
- Não - responde convicto da sua palavra.
- Então vamos logo passar vergonha.
Nos levantamos e ele me guia para o meio do salão.
Gael para na minha frente e faz uma reverência dramática,
arrancando um sorriso meu, então os convidados nos assistem e ele volta
para perto de mim.
- Espero que não se importe, mas tomei a liberdade de escolher a
música.
- Isso não me incomoda, só quero saber quando foi que escolheu, já
que não saiu do meu lado momento algum.
- Quando meu pai estava preparando tudo com os seus... Foi um dos
meus pedidos, enquanto viajava. É uma música que eu gosto e acho que
combina com casamentos.
- Ok - digo acreditando no que ele diz.
Então os primeiros acordes de A Thousand Years, da Christina Perri,
começam a serem tocados no violino. Fico surpresa com a escolha de Gael,
ele me estende a mão e a seguro com firmeza.
- Não me deixe tropeçar - peço de maneira divertida, mas sincera.
- Não vou deixar.
Coloco minha mão livre sobre seu ombro e ele leva a sua até a minha
cintura, então me guia devagar na dança. Fixo meu olhar no seu, que está
sério e começamos a dançar. Gael mostra ser um ótimo dançarino e o
acompanho o máximo que consigo, pisando no seu pé algumas vezes sem
querer. Ele não demonstra nada, pelo contrário, se mostra ser um verdadeiro
cavalheiro, sabendo que não estou errando de propósito.
Ainda dançando, me sinto completamente ridícula por não ter
pensado nisso antes, já que em todos os casamentos têm dança, certo?
Por que no meu seria diferente?
Por que não treinei para dar o meu melhor antes?
Chega a ser piada pensar em dar o meu melhor, levando em
consideração que nem estar casada eu queria, mas não posso negar que
desde o momento que vi Gael, ele tem me surpreendido. Ele me surpreendeu
por ser bonito, educado, gentil e entender a situação em que estamos,
casados sem nenhum dos dois querer, me mostrando que mesmo eu não
querendo isso, ele pode me tratar bem.
A música termina e ele para na minha frente, encarando fixamente
meus olhos e boca, enquanto sinto minha respiração acelerar.
- Até que você não foi tão ruim - sussurra com o suor brotando em
sua testa.
- Vou levar isso como um elogio - respondo rindo.
Ele concorda.
Uma salva de palmas ecoa por todo o local, agora com os
convidados tomando conta da pista de dança e seguimos em direção à mesa.
- Por estar infeliz casada comigo, até que você sorri bastante. -
Alfineta.
- Você também.
- Está certa - comenta piscando.
Voltamos aos nossos lugares e vejo o brilho nos olhos de Lucy,
emocionada com a nossa dança.
- Você estava linda na pista de dança, amiga - diz eufórica.
- É porque você não sabe quantas vezes pisei nos pés de Gael -
confidencio arrancando uma risada sua.
- Isso faz parte. - Pisca bebendo um gole de champanhe.
A acompanho e voltamos a conversar.
Noto que meu marido me fita de canto de olho, enquanto conversa
com meu pai e o seu, e isso, por mais estranho que seja, me causa uma calma
que não sinto há muito tempo.
***
Para minha sorte, a hora passa rapidamente e os convidados
começam a ir embora após cortarmos o bolo, no entanto, sei que após a festa
finalizar, outra parte deste pesadelo irá se iniciar.
A famosa noite de núpcias...
Só de pensar nisso, minhas mãos ficam frias e o suor desce pelas
minhas costas, me causando um arrepio inexplicável.
E se Gael me forçar a me deitar com ele?
"Ele não faria isso, eu acho, mostrou por enquanto, ser um
cavalheiro."
Encaro Gael ao longe ainda com meu pai e o seu, talvez conversando
sobre negócios.
- Filha.
Ouço a voz de mamãe e a encaro.
- Sim?
- Quase todos os convidados já estão indo embora e suas coisas já
foram colocadas no carro do seu marido - diz torcendo as mãos.
Devo ter puxado esta mania dela.
- Entendi. - É o que consigo dizer.
- Você sabe o que vem agora, não é? - pergunta se sentando ao
meu lado e sussurra. - Você é uma mulher casada...
- Mãe, eu sei o que é sexo, não estamos no século XVI.
- Eu sei, mas nunca a vi namorar, sequer ficar com algum rapaz...
- Ser virgem não quer dizer que eu não sei o que é transar. Já tive
um namorado na época da escola, mas nada que fosse sério e não passasse
de beijos.
Ela balança a cabeça em concordância.
- Então você sabe sobre a noite de núpcias.
- Sim, e não irei fazer isso, conversarei com Gael e pedirei um
tempo. Vocês me obrigarem a casar é uma coisa, mas me forçar a me deitar
com um homem é inadmissível.
Mamãe se cala e concorda, sabendo que tenho razão, pois só me
deitarei com um homem no dia que estiver preparada.
- Você está certa, me desculpe, não quis parecer rude.
- Tudo bem, o pior já aconteceu mesmo - digo e me levanto ao ver
Gael se aproximar.
- As coisas estão prontas, vim perguntar se você já quer ir embora
ou quer esperar todos os convidados irem embora.
- Melhor irmos - digo dando de ombros, afinal que diferença faria
esperar aqueles desconhecidos irem embora?
- Tudo bem, vou avisar ao motorista que já vamos. Fiquei sabendo
sobre Lucy, a governanta, ela vai para nossa casa daqui uns dias, para
aproveitarmos a lua de mel.
- Não vamos viajar? - questiono erguendo a sobrancelha.
- Se quiser, sim.
- Eu quero - digo dando de ombros.
Gael me encara e assente, se afastando, então me viro para mamãe.
- Enquanto estiver viajando com meu marido, peça para Lucy ir
para minha nova casa, assim quando voltar já a encontro.
- Claro, querida - diz me abraçando.
A aperto contra meu corpo e sinto vontade de chorar ao me lembrar o
que havia acontecido mais cedo.
Estou condenada!
Seguro as lágrimas e ela dá um beijo no meu rosto, com papai e Lucy
se aproximando.
- Filha.
Meu pai me abraça e retribuo sem vontade, sabendo que ele é o
maior culpado disso tudo, então me afasto e me viro para minha amiga.
- Avisei mamãe para você ir direto para minha nova casa, irei
viajar com Gael.
- Fique tranquila, estarei lá.
A aperto contra mim e ouço um pigarro, então me viro e vejo
Eduardo.
- Você tomou uma boa decisão, minha jovem, fico feliz com esta
união.
- Obrigada - respondo de má vontade. - Se me derem licença,
tenho que ir.
Sigo em direção ao hall e vejo meus pais me seguindo com Lucy,
então saio para o lado de fora da casa e vejo Gael próximo ao carro me
esperando. Respiro fundo e conto mentalmente até três, descendo cada
degrau tão devagar que uma tartaruga chegaria primeiro que eu.
Meu marido estende a mão para mim e a seguro, entrando no veículo.
Ele fecha a porta e encaro meus pais e minha melhor amiga, então o carro se
afasta rapidamente e logo eles se tornam apenas borrões.
Seco uma lágrima que desce involuntariamente e Gael me encara, em
silêncio, então olho para a frente e decido pensar no meu futuro.
O que vai ser de agora em diante?
Noite de núpcias? Sem chance!
Continua chovendo do lado de fora, o carro segue devagar pelo
trânsito e quando vejo, estamos entrando em uma área verde de uma enorme
casa. O lado de fora dela é bonito; revestido em pedra rústica e lembra um
castelo.
Seguro minha respiração ao pensar que o momento que mamãe havia
me falado, está quase chegando.
Claro que sempre soube o que é sexo, pelo menos isso me foi
contado, mas pensar que possivelmente teria que fazer com um homem que
não amo, e ainda sem vontade, me deixa com as pernas bambas.
O carro para em frente à casa, vejo um homem surgir com um guarda-
chuva e abrir a porta para mim. Noto que ele é jovem, deve ter no máximo
vinte e seis anos, usa o cabelo penteado para trás e sua barba é rala, dando
um charme a sua pele clara. Assim que abre a porta, vejo o sorriso estampar
em seus lábios enquanto me encara.
- Seja bem-vinda, senhora Brown - diz fazendo uma reverência
exagerada.
- Obrigada - digo estendendo a mão para ele que a pega e me
ajuda a descer do carro, me cobrindo com o guarda-chuva.
Rapidamente subimos os degraus da pequena escada, logo vejo Gael
sair do carro, dar a volta e correr em nossa direção, com seu corpo sendo
molhado pela tempestade.
- Senhor Gael - murmura o homem ao meu lado.
- Preston, obrigado por estar aqui, pensei que estaria de folga.
- E estava, mas sabia que o senhor precisaria de ajuda com as
coisas da senhora Brown.
- Me chame apenas de Laureen, por favor - peço em meio à
confusão de bagagens.
Vejo o motorista tirá-las do porta-malas e correr em meio a chuva,
deixando-as perto de nós.
Preston se vira em direção a porta frontal de madeira maciça e não
demora dois homens surgem, carregando minhas coisas. Assim que as malas
passam pela porta, tenho a real ideia do que está acontecendo.
Não que antes não soubesse, mas vendo minhas coisas entrando no
meu novo lar, é como se meu corpo saísse de um estado de choque e me
trouxesse para a dolorosa realidade.
- Vamos entrar, está frio aqui fora - diz Gael segurando meu braço
e me guiando para dentro.
Concordo sem muitas opções e assim que entramos, fico perplexa
com a beleza do local.
A casa me lembra a minha, com uma escadaria de mármore, um hall
de entrada, quadros por todos os lugares e piso de madeira. No entanto, o
que me chama a atenção é um quadro de Gael, na parede frontal da entrada.
Ele está com o peito desnudo, olhando para a frente, como se
estivesse me observando. Analiso cada traço da pintura, observando o
realismo nos pelos ralos do seu peitoral forte, o que me deixa com a mente
fervendo.
Seria ele tão belo na realidade quanto na pintura?
- Enquanto suas coisas são levadas para o quarto, vou mostrar um
pouco da casa.
Concordo e sou levada para o lado leste da mansão.
Passamos por um corredor onde contém mais pinturas, algumas
famosas e outras desconhecidas, mas com uma beleza e tanto.
- Os quadros são lindos - digo analisando um especificamente
onde mostra uma mulher de costas, observando a natureza.
- Obrigado, eu mesmo que pintei.
Noto seu rosto um pouco corado, o que me deixa surpresa, e abro a
boca no formato de um "O", fazendo Gael rir logo em seguida.
- Por que demonstra tanta surpresa com isso?
- Sendo um homem importante, não pensei que teria tempo para tais
coisas - respondo dando de ombros.
- Sempre fui apaixonado pela arte, foi nas telas brancas que
encontrei a paz que precisava depois que minha mãe morreu.
- Sinto muito que isso tenha acontecido.
- Não se preocupe, já superei sua morte, era apenas uma criança
quando isso aconteceu.
Faço um movimento de cabeça, concordando com o que diz.
Seria muita intromissão perguntar como havia sido a morte dela?
- Isso é bom, quero dizer, ter superado é bom.
Gael concorda e continuamos andando, com ele parando em frente a
uma porta de madeira simples.
- Aqui é um lugar que acho que vai gostar - diz abrindo a porta e
me dando passagem.
Entro no local e fico surpresa ao ver uma enorme biblioteca, o que
faz meus olhos brilharem. Há inúmeras prateleiras de livros organizados em
ordem alfabética e me sinto completamente encantada com isso.
- É lindo, alguém contou que sou apaixonada por livros?
- Seu pai me disse hoje quando conversamos.
- Então você preparou tudo muito rápido - brinco.
- Na verdade, eu também sou apaixonado por literatura, e passo
boa parte do meu dia a dia aqui, isso é claro, quando não estou trabalhando.
Achei interessante mostrar a você um ambiente que pudesse se familiarizar,
já que isso tudo é novo para nós dois.
- Obrigada por isso, eu realmente gostei bastante.
- Não agradeça, sinta-se à vontade para vir aqui quando quiser -
diz com um sorriso de lado.
Sinto uma felicidade ao ouvir isso e retribuo o sorriso, seguindo para
outra parte da casa.
Conheço seu escritório, cozinha e alguns dos seus empregados, além
da sala de estar, seu mini cinema particular e só depois me guia para o andar
de cima.
- Estava pensando em dar a escolha a você para tomar a decisão -
diz passando pelas infinitas portas.
- Que escolha?
- De dormir comigo ou em um quarto separado - sugere.
- Espera, você não vai querer ter uma noite de núpcias comigo? -
pergunto me sentindo aliviada.
- Se eu dissesse que não quero, estaria mentindo, mas sei que você
não quer - responde. - É bom que descanse hoje, amanhã viajaremos ao
anoitecer.
- E para onde vamos? - pergunto curiosa.
- Você vai ver... Então, o que decide?
Dormir sozinha ou com Gael?
Se eu fosse dormir com ele, com certeza iria querer ter algo a mais, e
realmente não me sinto nada preparada.
"Noite de núpcias? Sem chance! Eu vou dormir sozinha mesmo."
- Se não se importa, esta noite irei optar por dormir sozinha.
- Claro, venha, vou mostrar onde vai ficar - diz voltando a andar,
agora a minha frente.
Será que ele ficou chateado com minha decisão.
Com certeza, afinal de contas, para os homens é muito mais fácil
transar sem ter sentimento algum. Claro que nem toda mulher
necessariamente faz sexo só quando está apaixonada, existem diversas que
usam e abusam dos homens, e são verdadeiras deusas.
Queria eu ser assim.
Saio dos meus pensamentos e sou guiada até o final do corredor,
onde há uma porta dupla de madeira branca. Gael a abre e com um gesto, me
dá a liberdade para entrar no local.
Entro e vejo um quarto simples com cheiro de desinfetante, como se
tivesse sido limpo recentemente. Encaro cada parte e vejo uma cama de
casal com travesseiros, uma cômoda simples e um espelho.
- Não tem muita coisa, mas acho que dá para usar esta noite - diz
em tom brincalhão. - Suas coisas estão no closet. - Aponta para uma
pequena porta que não havia reparado. - Eu sabia que você não iria dormir
comigo, então mandei que trouxessem suas coisas direto para cá.
- Muito obrigada - respondo sem graça.
Por que este homem me deixa assim?
- Até mais - diz me dando as costas.
O vejo se afastar e entrar em uma porta próxima da minha, então
fecho a minha porta e me jogo na cama, sentindo uma avalanche de emoções
me consumir. De repente, lágrimas escorrem pelo meu rosto e soluço
baixinho, pensando em toda a loucura que minha vida está.
Como meus pais permitiram chegar a este ponto?
Com certeza neste exato momento papai está bebendo seu uísque
enquanto comemora sua vitória e sua vida.
Penso em Eduardo e neste contrato de casamento...
Simplesmente não faz sentido algum para mim ele querer unir seu
filho a mim.
Por que ele desejou tanto este casamento?
Penso em Gael e no primeiro instante em que nos vimos.
Quem diria que pouco tempo depois estaríamos casados?
Reflito em como ele foi gentil comigo a todo instante e pensando no
nosso beijo, acabo adormecendo.
***
Gael Brown
Sangue, suor e justiça foi o que me moveu durante todos esses anos.
Quando papai me disse que iria me casar com a filha do seu inimigo,
vi um filme passar em minha cabeça.
Como poderia me casar com uma desconhecida?
Então criei um plano bem articulado e descobri algumas coisas sobre
Laureen Vargas, agora conhecida como senhora Brown. Coisas, como por
exemplo, o amor pelos livros, por sua amiga Lucy, e claro, pelos seus pais.
Se ela não os amasse, não teria se casado com um completo estranho para
salvar um império falido e a pele deles.
Descobri, ainda jovem, que mamãe havia sido assassinada pelo
nosso inimigo; Jorge Vargas, o meu sogro...
E foi aí que tudo começou na mente diabólica de papai.
Eu iria me casar com Laureen, tratá-la como uma rainha e quando
menos esperasse, atacaria, destruindo-a por completo e assim derrotando
nosso inimigo.
Mas ao ver a mulher seguir em direção ao altar, meu coração
acelerou mais do que o normal e me vi em um campo minado.
Valeria a pena magoar uma pessoa que não tem nada a ver com as
atitudes do seu progenitor?
- Você não pode desistir, Gael Brown, sua mãe foi assassinada a
sangue frio por aquele canalha - murmuro para mim mesmo.
Ando de um lado para o outro no quarto e suspiro, pensando em
como Laureen está no outro.
Será que ela estaria dormindo?
Estaria despida?
O pensamento de tê-la para mim é insano, mas jamais me deitaria
com uma mulher sem ser de livre e espontânea vontade, pois isso iria contra
todas as minhas regras.
Bebo um gole do uísque que está em minhas mãos e torço o nariz ao
sentir o forte gosto. Que situação meu pai havia me colocado, submeter uma
jovem a casar sem vontade e depois destruí-la, dilacerá-la e quebrá-la por
completo.
- Mas o pai dela não pensou quando matou minha mãe - digo para
mim mesmo. - Ele merece toda a punição possível, machucá-lo
indiretamente é o melhor a se fazer.
Termino minha bebida e coloco o copo de lado, saindo do quarto
apenas de cueca e seguindo devagar em direção ao quarto de Laureen. Abro
a porta devagar para não fazer barulho e a vejo dormindo, ainda com a
mesma roupa.
Vejo a tranquilidade em seu rosto e engulo em seco, sentindo a bile
subir pela minha garganta.
Ela é apenas uma garota, inocente e frágil.
Como ser capaz de machucá-la?
Suspiro e fico a olhando por um bom tempo, então esbarro na porta e
ela acorda, dando um pulo da cama e soltando um grito.
- Gael, você me assustou! - diz nervosa.
- Me perdoe, não foi minha intenção, apenas queria saber se está
confortável - digo a encarando.
Bela, isso não posso negar, Laureen, é realmente uma mulher linda.
- Estou bem.
Percebo que ela encara meu corpo, parando seus olhos inocentes na
minha cueca. Assim que percebe que noto seu ato, desvia o olhar e fica
cabisbaixa.
- Certo, se está bem, vou me deitar, se precisar de alguma coisa,
estou próximo a você.
Ela assente e eu a encaro uma última vez, sentindo uma sensação
estranha na boca do meu estômago. Uma sensação que nunca senti com outra
pessoa.
Eu quero beijá-la!
- Obrigada - sussurra tímida.
- Posso pedir uma coisa antes de ir?
- Claro.
- Quero te beijar, será que posso? - pergunto apoiando uma perna
na outra.
Laureen me encara e vejo seu rosto ficar vermelho, então ela assente
devagar.
- Tudo bem - diz se dando por vencida.
Me aproximo dela e paro na sua frente, com minha barriga ficando
diante do seu rosto, então ela se levanta, levo minha mão até sua face,
acariciando-a devagar e passando meus dedos em seus lábios rosados.
- Não é porque eu não te amo e não queria estar casado que não
posso fazer isso, não é mesmo?
- O que quer dizer com isso?
- Que vou aproveitar o máximo que puder desta união - respondo
e me aproximo dela, encostando meus lábios nos seus.
Sem qualquer pudor, invisto minha língua dentro da sua boca e logo
estamos entrelaçados em um beijo ardente. Passo uma de minhas mãos para
trás da sua nuca e a outra repouso nas suas costas. Laureen desliza seus
dedos pela minha barriga e para no cós da cueca. Fico surpreso em como ela
se entrega facilmente a este momento, vendo que estive errado em pensar que
ela é completamente inocente.
Aproveito o beijo e mordisco seu lábio inferior, com ela soltando um
gemido baixo. Instantaneamente meu pau começa a ficar duro dentro da
cueca e encosta em sua pele, causando um arrepio pelos seus braços. Sorrio
com isso e descolo nossas bocas, encarando-a dentro dos olhos.
- Você beija bem, Laureen - digo de maneira maliciosa.
- Você também, Gael.
- Uma pena que tenha rejeitado a noite de núpcias, eu poderia
mostrar o que posso fazer com minha boca, além de beijos - sussurro em
seu ouvido, causando um arrepio em sua pele.
Laureen me encara e vejo seu rosto vermelho de vergonha, então me
afasto dela e a encarando uma última vez, saio do quarto, pensando que será
fácil tê-la como minha presa.
A viagem
Acordo na manhã seguinte me lembrando do que havia
acontecido na madrugada e direciono minhas mãos até meus lábios,
pensando no beijo que Gael havia me dado. Sinto uma sensação diferente
hoje, como se eu esperasse que ao acordar, estaria vivendo em uma casa
mal-assombrada, com um demônio ao meu lado.
Sorrio ao perceber que a tristeza não me consome, pelo menos, não
por enquanto, então vou até o banheiro e vejo sobre a pia uma escova de
dentes nova e meu kit de maquiagem.
Lavo meu rosto, me repreendendo por não ter tirado a maquiagem na
noite anterior e escovo os dentes, cuidando da minha higiene diária. Após
terminar, sigo para o quarto e coloco uma roupa confortável; calça jeans,
tênis e uma blusa de mangas compridas, mesmo não achando que seja uma
roupa apropriada para uma mulher recém-casada, mas não me importo com
isso.
Uma batida na porta me traz para a realidade, pigarreio me
aproximando dela e a destranco. Depois que Gael foi se deitar, a tranquei,
com medo de que pudesse acabar desejando a famosa noite de núpcias.
Não, não me sinto apaixonada, mas como não me sentir atraída por
aquele homem?
Só em pensar na sua beleza angelical, no seu sorriso bonito e no seu
corpo, que tive o prazer de ver ontem somente usando uma cueca, sinto uma
sensação estranha em todo meu corpo.
"Olha como estou pensando, até mesmo parece que o desejo..."
Abro a porta, encarando meu marido que está sorrindo, com o cabelo
bem arrumado e usando uma roupa no mesmo estilo que o meu.
- Bom dia, senhora Brown, veja, parece que estamos bem
sintonizados em relação as nossas vestes.
Concordo e sorrio sem graça.
- Bom dia.
- Vim convidá-la para tomar café comigo - diz ainda parado
próximo ao batente da porta.
- Claro, vamos.
Saio do quarto e Gael segura meu pulso, me fazendo voltar em sua
direção de maneira abrupta.
- Você não vai dar um bom dia decente para seu marido? -
pergunta passando a língua no lábio inferior.
- O que seria um bom dia decente para você? - questiono me
soltando dele e cruzando os braços sobre o peito.
- Se eu realmente falar, você vai se assustar, mas um beijo já vale.
- Pensei que não havia se casado comigo por vontade própria.
- Não significa que não podemos tirar proveito da situação -
responde piscando.
Fico em silêncio, concordo e me aproximo dele, pronta para dar um
selinho. Assim que encosto meus lábios nos seus, Gael me puxa contra seu
corpo e mergulha sua língua na minha boca, me fazendo perder o ar.
O beijo, o nosso terceiro beijo...
Cada vez que nos beijamos, ele me deixa sem fôlego.
Ele se mantém conectado a mim até que o empurro e sinto seu dente
morder meu lábio, me fazendo soltar um gritinho de dor.
- Ai! - murmuro sentindo o gosto metálico do sangue.
Ele limpa sua boca e leva o polegar até o lábio.
- Te machuquei? - questiona se aproximando.
- Sim, mas não foi nada de mais - digo veemente.
- Deixe-me ver, se não tivesse me empurrado, isso não teria
acontecido. - Gael se aproxima, segura meu queixo, leva o dedo até meu
lábio e analisa o pequeno corte. - Não foi nada grave.
- Foi o que eu disse.
- Espere. - Ele se aproxima, deposita um selinho, sugando meu
lábio inferior devagar, levando o sangue até sua boca. - Isso vai ajudar.
Fico surpresa com sua atitude nada convencional e não digo nada,
sentindo a ardência no meu lábio.
- É melhor irmos tomar café logo - sugiro querendo esquecer isso.
Gael assente e coça a cabeça, me observando bem, então segue em
frente e eu o sigo, andando devagar.
Desço a escada e sou conduzida a sala de jantar, onde há ovos
mexidos, pães, café, leite, suco e frutas.
Gael se coloca na cabeceira da mesa e me sento ao seu lado, vendo-o
se servir. Fico parada, apenas analisando-o comer e ele me olha.
- Você não vai comer? Não sabia do que gosta, então pedi apenas o
básico.
- Está ótimo, obrigada - digo enchendo minha xícara e levando até
o lábio.
O café quente faz minha boca arder e me contorço na cadeira sem que
Gael veja, depois me sirvo de pão e algumas frutas. Como em silêncio,
chateada com a insegurança que sinto neste momento, então termino de
comer rapidamente e vejo meu marido me olhar.
- Estava pensando em irmos viajar agora cedo, o que acha? Suas
malas estão feitas, é só colocar no avião e decolarmos.
- E para onde vamos? Você ainda não me disse.
- É surpresa, mas você vai gostar - responde sério. - Como sua
boca está?
- Doendo um pouco, mas nada grave.
Ele concorda e termina seu café.
- Se não quiser me beijar, tudo bem, é só me dizer, mas entenda uma
coisa; somos casados agora e você é minha mulher mesmo não querendo.
Assim como sou seu marido sem opção. Veja isso como um favor que estou
fazendo a você, pois se não fosse este casamento, você e seus pais estariam
ferrados.
Ouço suas duras palavras e engulo em seco, vendo que infelizmente
ele está certo. A escolha não foi minha, mas ir até o fim sim.
- Me desculpe, ainda é tudo muito novo para mim - murmuro.
- Assim como para mim, mas não temos escolhas... Você quer
anular o casamento e ver seus pais pagarem de uma maneira nada
convencional?
- Que maneira?
- Não vem ao caso, mas me diga, quer anular o casamento?
- Não - respondo séria. - Fiz isso pelos meus pais, mas te peço
um pouco de paciência em relação a nós.
- Laureen, não existe um nós, apenas um contrato - responde com
dureza.
- Pensei que tivesse dito que somos casados e poderíamos
aproveitar isso - comento.
- Sim, mas você deixa nítido que não quer.
- E isso te incomoda? Quero dizer, você me forçaria...
- Não é do meu feitio transar com uma mulher sem que ela tenha
vontade, senhora Brown - murmura. - Quero apenas que entenda que
somos casados agora e marido e mulher fazem coisas, como se beijar, por
exemplo.
Concordo sem alternativa, pois ele está certo.
Somos casados agora e eu havia gostado do nosso beijo de
madrugada.
Por que simplesmente não deixar as coisas acontecerem devagar?
- Você está nervoso?
- Talvez um pouco.
- Por quê?
- Tenho certeza de que isso não te interessa.
Fico magoada ao ouvir suas palavras, pensando em como uma pessoa
pode mudar de humor tão rapidamente.
Será que isso tudo se devia ao fato de eu tê-lo afastado de mim?
Ou de querer encerrar nosso beijo?
- Se me der licença, irei para meu quarto, quando estivermos
prontos para a viagem, sabe onde me encontrar - digo me retirando da
mesa.
Sigo em direção a saída, com Gael se aproximando e segurando no
meu punho com força.
- Me desculpe por isso, não estou acostumado a ser rejeitado, ainda
mais por uma mulher tão linda quanto você.
- Não o rejeitei, apenas finalizei o beijo, você parecia que iria me
devorar - sussurro com medo de que alguém possa nos ouvir.
Onde estão todas as pessoas desta casa?
Como eu queria Lucy aqui neste momento.
- E eu quero te devorar, Laureen, mais do que imagina, você é uma
tentação do diabo - responde sensualmente. - Pode ir para seu quarto, nos
vemos daqui a pouco, fique atenta que mandarei alguém buscar suas malas.
Fico quieta, surpreendida em como o humor de Gael Brown muda e
assinto. Me solto dele e sigo o mais rápido possível para o meu quarto.
***
Reflito sobre o que havia acontecido mais cedo.
Gael ficou chateado por eu ter interrompido nosso beijo, sinto a
confusão tomar conta de mim neste momento.
Não havia sido ele que dissera ter casado comigo sem vontade?
Organizo uma mala para a viagem e a deixo próxima a porta, sabendo
que logo alguém a buscará. Não demora, ouço uma batida na porta e sigo
rapidamente até ela, abrindo e dando de cara com Preston.
- Olá, senhora Brown, vim pegar suas coisas - diz ao entrar assim
que dou passagem e pega minha mala junto a porta. - Obrigado, assim que
colocarmos tudo no carro e o senhor Brown estiver pronto, alguém vem
chamá-la.
Concordo, em silêncio e fecho a porta ao vê-lo se afastar.
Me jogo na cama e suspiro, a procura do meu celular, que está sobre
a mesinha de cabeceira e eu nem havia notado. O pego e envio uma
mensagem para Lucy, dizendo que a amo e o que havia acontecido desde que
a vi pela última vez.
Lucy: Não fique paranoica, às vezes, ele ficou nessa mudança de
humor por ter se sentido rejeitado mesmo.
Eu: Nós não dormimos juntos e não consumamos o ato sexual.
Será que isso o incomoda, mesmo me dando a chance de escolher?
Lucy: Com certeza o incomoda, é tudo muito novo para os dois,
vai por mim, ele deve ter ficado chateado por conta do beijo mesmo.
Deixo o celular de lado ao concordar com minha amiga e reflito
sobre isso.
Se Gael havia ficado chateado porque interrompi um beijo, do que
ele seria capaz se eu não fosse para a cama com ele?
***
Ouço uma batida de leve na porta e me levanto, vendo Gael entrar no
meu quarto.
- Já está tudo pronto, vamos?
- Claro - respondo um pouco séria.
Passo por Gael, mas ele é mais rápido e para na minha frente.
- Está acontecendo alguma coisa que eu deva saber? - questiona
estreitando as sobrancelhas.
- Não que eu saiba - respondo firme, olhando-o dentro dos olhos.
- Me desculpe por mais cedo, se fui grosso em algum momento com
você - diz mexendo no cabelo.
- Tudo bem, como disse, nosso casamento é apenas um contrato,
não deveríamos estar tendo esta conversa.
Gael me encara e assente, me dando passagem.
Saio do quarto, ele me segue e se aproxima segurando minha mão.
Um arrepio involuntário percorre minha espinha e me sinto sem graça, como
se estivesse nua na sua frente.
Por que este homem me causa essas sensações?
Desço a escada em silêncio, pensando em o quanto Lucy faz falta
neste momento e se ela estivesse aqui, certamente saberia me acalmar, acabo
respirando fundo e conto mentalmente até dez.
Saio com Gael da casa e vejo o carro parado a nossa frente. Sigo até
ele e abro a porta antes que meu marido o faça, entrando no carro sem ao
menos encará-lo. Ele me fita do lado de fora por um longo minuto, depois dá
a volta, entra no veículo e pigarreia.
- Estamos prontos, Joshua - diz ao motorista, que concorda e
acelera sem dizer uma única palavra.
O movimento me deixa nervosa, até mesmo mais do que quando vim
para cá no dia anterior. Saber que estamos indo para uma suposta lua de mel
me causa avalanches de sensações estranhas como curiosidade, medo e
ansiedade.
O que esperar desta viagem, afinal de contas?
Com o passar do tempo, o trânsito a nossa volta se torna apenas um
borrão e prendo o cinto, com medo da alta velocidade do motorista.
- Será que você poderia pedir para seu motorista ir mais devagar?
- peço encarando Gael.
Ele me observa atentamente por um longo minuto e assente,
colocando a mão sobre o ombro do homem que está atrás do volante.
- Você ouviu a minha esposa, vá mais devagar, por favor - pede
ainda com os olhos fixos em mim.
O motorista desacelera e respiro mais aliviada, agradecendo-o com
um meneio de cabeça.
- Me diga, Laureen, pois estou curioso.
- O quê?
- Como é para você estar longe dos seus pais neste momento, já que
passou a vida inteira perto deles?
- Estranho - digo sem entender a pergunta. - Principalmente pelo
fato de que estou com um completo estranho.
Ele ri e concorda, voltando-se para mim.
- Não se preocupe que aos poucos você vai me conhecer - diz
firme. - Você quer me conhecer?
- Talvez, assim será mais fácil passar por isso tudo - respondo
sentindo medo.
Por que sinto isso?
- Certo, espero que goste da viagem, estamos indo para uma ilha
paradisíaca só nossa.
- Só nossa?
- Sim, teremos tudo que precisarmos lá, sem ninguém nos
perturbando ou a mídia em cima de mim. Às vezes é difícil ser CEO de uma
empresa, as pessoas caem em cima como se você fosse um prato cheio para
os corvos.
- E você está feliz com isso? Levando em consideração que havia
me dito que estava cansado de viagens.
- Bem, esta viagem é diferente, agora estou com a minha esposa.
Engulo em seco e concordo, voltando minha atenção para o lado de
fora, vendo que estamos próximos a um galpão.
O carro para, saio junto com Gael, que segue pelo hangar e avisto o
avião particular dele pronto para decolar. Nossas malas são levadas
diretamente até ele e vejo meu marido conversando com o piloto, algo que
não consigo ouvir.
Torço minhas mãos de nervosismo.
Como posso me controlar, sabendo que irei viajar para uma ilha com
um completo estranho?
- Já está tudo pronto, o piloto me avisou que é só embarcarmos -
diz me tirando dos meus pensamentos.
- Tudo bem - digo com a voz trêmula.
- Está nervosa?
- Um pouco.
- Não fique, não há o que temer, é apenas uma viagem de casados.
- É justamente isso que me preocupa.
Ele me encara e concorda, sabendo do que estou falando.
- Já conversei com você a respeito disso, não é do meu feitio foder
com uma mulher que não queira. Posso ser um canalha, mas estuprador, não.
- Então você admite que é um canalha?
Ele dá de ombros e segue em direção ao avião.
Dou passos lentos até a máquina de ferro e subo a escada, olhando o
ambiente revestido de couro a minha volta. Meu marido aponta uma das
poltronas para mim e me sento, com ele parando na minha frente e passando
o cinto pelo meu corpo.
- Isso vai ajudá-la a se proteger - murmura.
Concordo me sentindo ainda mais receosa e solto um gritinho ao
sentir o cinto passar no meu braço, fazendo minha pele arder.
- Me desculpe, apertei demais?
- Está bom - respondo acariciando minha pele.
A vermelhidão surge no ponto em que Gael passou o cinto e ele
acaricia, causando uma onda de nervosismo por todo meu corpo.
- Ok - murmura. - Estamos prontos - diz se dirigindo ao piloto.
A porta do avião é fechada, vejo uma aeromoça se aproximar com
uma garrafa de champanhe.
- Aceita uma taça? - pergunta sorrindo.
- Obrigada - digo dispensando-a.
- Ela aceita - responde Gael autoritário.
O olho sem entender e vejo o desconforto estampado no rosto da
aeromoça.
- Acho que não aceito - respondo firme.
- Você vai aceitar - murmura. - Vamos fazer um brinde, esposa, o
que acha?
Ouço o tom da sua voz mudar e fico ainda mais nervosa, começando
a acreditar que Gael é um homem de dupla personalidade.
- Tudo bem, marido. - Dou ênfase na palavra e a mulher me
entrega uma taça, enchendo-a, logo depois ela faz o mesmo com a de Gael e
ele estica o braço, batendo a sua na minha. - Qual é o motivo deste brinde
inusitado?
- É um brinde ao que quero fazer com você - murmura levando a
taça até a boca.
Fico sem palavras e bebo o líquido borbulhante, dando de ombros.
- E o que você quer fazer comigo?
- Em breve você vai saber, Laureen, não se preocupe.
Apenas assinto e quando vejo, já alçamos voo, então deixo minha
taça de lado e fico analisando o lado de fora do avião, pensando que me
casar com Gael foi o menor dos meus problemas.
O pesadelo maior está prestes a acontecer.
Viagem de barco
Algumas pessoas sentem medo ao entrarem em um avião e vê-
lo começar a voar. No meu caso, é o contrário...
Cerca de seis horas depois de estarmos voando, sinto meu coração
gelado ao começarmos aterrissar em um pequeno aeroporto que desconheço.
Saio do avião com Gael logo atrás de mim e sinto a brisa fresca
bater no meu rosto, me causando arrepios pelos braços.
- Vamos pegar meu barco para chegarmos na ilha.
Concordo e olho em volta, analisando o mar ao longe.
- Esta ilha é sua?
- Sim, por quê?
- Por nada, apenas curiosidade - digo dando de ombros.
Ele concorda e o vejo se afastar, indo falar com um homem baixinho,
barrigudo e careca.
Fico parada no mesmo lugar por cerca de vinte minutos, quando Gael
volta em minha direção com um sorriso no rosto.
- Nossas malas vão ser levadas para o barco e assim que estiver
pronto, iremos continuar a viagem. Você quer fazer alguma coisa enquanto
tudo é preparado?
- Que tipo de coisa?
- Eu não sei, conhecer um pouco do local - diz dando de ombros.
Penso a respeito disso e vejo rendição na sua voz, como se estivesse
tentando apaziguar o que havia acontecido dentro do avião horas atrás.
- Acho que vai ser bom.
Ele concorda e segura minha mão.
- Vamos lá então.
***
Gael me leva em uma boutique que tem próximo onde pousamos e
confesso que fico sem graça ao ver roupas e joias uma mais linda que a
outra. Não que eu não tivesse minhas próprias joias ou roupas de grife, mas
é estranho ver um homem desconhecido me dar estes itens tão pessoais.
- Leve essa, é magnifica - diz apontando para um colar de
diamantes.
- Você não acha um exagero, ainda mais o preço?
- Isso não é problema para mim, leve-o, quero que use comigo.
Concordo.
A mulher me entrega o colar para que eu prove, com a ajuda de Gael,
o coloco no pescoço e me encaro no espelho, com ele logo atrás de mim.
- É realmente magnífico - sussurro encarando-o brilhar no meu
pescoço.
Gael concorda com um movimento de cabeça e deposita sua mão em
meu ombro.
- Ficou ainda mais lindo em você.
- Obrigada.
Um sorriso de lado se forma em seu rosto, retira o colar do meu
pescoço, entregando novamente para a mulher para que ela o coloque na
embalagem. Com a insistência de Gael, escolho mais alguns acessórios,
como brincos de pérolas e anéis de diamantes. Assim que finalizamos a
compra, ele me guia para o lado de fora, com sua mão em minhas costas e
vislumbro dois seguranças armados atrás de nós.
- Isso realmente é necessário? - pergunto apontando para os
homens.
- Sendo quem sou, é sim, e estamos com joias - murmura
entregando as compras para os seguranças.
Fico em silêncio e quando vejo, estamos seguindo em direção a um
barco que está parado, pronto para velejar.
- Já andou de barco antes?
- Não, mas acredito que não seja pior que avião.
- Não se preocupe, acho que você vai gostar - diz rindo.
Concordo e com sua ajuda, entro no local, observando o mar aberto
ao longe.
Ouço o barulho dos pássaros, o que me acalma, então vejo os dois
seguranças entrarem logo atrás de nós e Gael seguir em direção ao
comandante. Fico parada, receosa de que possa acontecer alguma coisa e me
assusto ao ver Preston surgir atrás de mim.
- Senhora Brown, é muito bom vê-la novamente - diz com um
sorriso no rosto.
- Preston - digo engolindo em seco. - Você vai ficar conosco na
ilha?
- Não, apenas irei acompanhá-los e depois disso os outros e eu
iremos retornar para a casa do senhor Brown.
- E como você veio parar aqui tão rápido?
- Viemos de avião, senhora, em um outro, para não os atrapalhar.
Concordo, em silêncio, achando isso uma loucura e tanto.
- Certo - murmuro.
- A senhora quer conhecer um pouco do barco enquanto o senhor
Gael resolve alguns assuntos com o comandante?
- Pode ser - concordo sem muitas opções.
- Certo, venha comigo então.
Sigo Preston e ele me mostra um pouco do barco, me levando até a
piscina que há nele e depois me mostrando a cabine do comandante, onde
Gael e um homem conversam sobre coisas que não entendo. Após isso, ele
me mostra o barco por dentro, o que me deixa bastante surpresa.
O local é grande, revestido de madeira na cor carvalho e tem um ar
bastante ostensivo. Vejo uma pequena saleta para fazermos nossas refeições
e depois um quarto, com apenas uma cama e um local para colocarmos
nossas coisas, onde já estão as nossas malas, o que me deixa surpresa.
Ele me mostra também o pequeno banheiro e assim que conheço todo
o ambiente, Gael desce e vem até nós dois.
- Já estamos prontos para navegar - diz com um sorriso no rosto.
- Com licença - Preston diz se afastando e sumindo da minha
visão, com certeza seguindo para um ambiente do barco que ele não viu
necessidade em me mostrar.
- Você está ansiosa para esta viagem?
- Estou curiosa - confesso abaixando a cabeça.
Gael leva a mão até meu queixo e o ergue, fixando seu olhar em mim.
- Eu também estou curioso com o que ela irá nos reservar. Se quiser
dormir um pouco, vai ser bom, afinal, iremos levar mais algumas horas para
chegar até a ilha.
- É longe, não é? - pergunto de maneira irônica. - Seis horas de
viagem de avião, agora mais algumas de barco.
- É longe sim, isso tudo para não sermos perturbados por ninguém,
inclusive, não teremos empregados e nem seguranças.
Concordo, sabendo que questionar sua decisão será inútil.
Não há o que fazer, Gael é quem manda aqui.
- Tudo bem, vou descansar um pouco.
Ele assente e viro de costas, sendo puxada em sua direção com
ferocidade. Solto um gritinho baixo, assustada e vejo meu corpo colado ao
seu, com meu marido segurando meus braços com força.
- Durma com os anjos, minha Laureen - murmura depositando um
beijo na minha testa.
Ele me solta e respiro fundo, sentindo a vulnerabilidade tomar conta
de mim, então Gael sai do quarto e fecho a porta, trancando-a e me jogando
sobre a cama.
***
Dizem que nem mesmo quando casamos será possível conhecer as
pessoas e suas intenções. Claro que, em um processo normal, do conhecer
até se casar é mais fácil, afinal, criamos laços com a pessoa e assim aos
poucos um vai moldando o outro.
Mas quando você se casa com um completo estranho, o que pode
fazer?
Nada, exatamente nada.
Gael no primeiro instante em que nos vimos mostrou ser doce, gentil
e brincalhão, no entanto, depois do "beijo renegado", vi que ele tinha muito
mais para mostrar. Um lado escondido nas sombras que aos poucos, se
revelava e depois se escondia novamente.
Deitada na cama, sentindo o barco navegar em alto mar, sinto uma
sensação estranha de que Gael Brown é um homem enigmático e bastante
difícil de desvendar.
Quem realmente ele é?
Será que havia machucado minha boca de propósito ou foi apenas um
acaso?
Suspiro procurando meu celular e ao achá-lo vejo que não há um
traço de sinal, o que me faz esbravejar e xingar Gael por me trazer para um
lugar tão longe.
Me levanto e começo a andar de um lado para o outro.
Que situação!
Como poderei ficar tranquila na situação em que me encontro, diante
de um casamento por contrato e um marido difícil de decifrar?
Decido espairecer um pouco a mente, abro a porta e saio do quarto
pequeno. Não havia conseguido pregar o olho por um minuto sequer,
pensando em tudo que vem acontecendo na minha vida.
Subo a escada e me vejo do lado de fora, com a brisa do vento
batendo no meu rosto e o sol já se pondo. Avisto Gael e o comandante
conversando na cabine, para não os atrapalhar e até mesmo ficar sozinha,
sigo em direção a proa do barco, andando devagar e analisando o mar.
A água está agitada, como se a qualquer momento pudesse nos
devorar. Ela bate com firmeza na lateral do barco e sinto um pouco de medo,
desacostumada a andar neste meio de transporte.
Me sento no chão e olho para a frente, avistando apenas o mar e o
céu aberto, contemplando a beleza da natureza. Fico olhando por um bom
tempo o local e me assusto ao ver uma sombra parada ao meu lado. Ergo
meu rosto e vejo Gael sorrindo, com as mãos nos bolsos da calça.
- A vi de longe sentada aqui e resolvi ver como está - diz
presunçoso.
- Estou bem, não consegui dormir, então resolvi vir para cá um
pouco.
Ele concorda e se senta ao meu lado.
- Você quer beber alguma coisa ou comer?
- Estou sem fome, obrigada.
Gael volta a concordar com um movimento de cabeça e ficamos em
silêncio, olhando o local à nossa frente.
- É lindo, não acha? O mar e o céu parecem que estão tão próximos,
mas ao mesmo tempo longe.
Analiso a forma que ele diz e concordo, vendo o quanto ele tem
razão. De onde estamos, é como se o céu se encontrasse com o mar,
transformando-se em um, mas erguendo um pouco o corpo, percebe-se o
quanto a visão é enganosa e vemos que ambos estão longe um do outro.
Vejo que isso combina com Gael e eu, estamos lado a lado, próximos
um do outro, no entanto, com sentimentos divergentes e as vontades de
ambos são contraditórias, é como se estivéssemos distantes.
Confesso que isso me causa uma sensação estranha que não consigo
explicar como é.