Capítulo 1
06 de novembro de 2022
Malena Bossi
O tecido pesado das cortinas escondia o mundo lá fora, e eu agradecia por isso. Ali, no breu dos bastidores, ainda podia ser Malena. Ainda podia ser a mulher exausta, dividida, ferida. Não a dançarina que os homens esperavam. O coração martelava forte no peito. Não importava quantas noites eu fizesse aquilo, não havia como se acostumar ao vazio que vinha antes da luz.
Se eu tivesse uma escolha, estaria em qualquer outro lugar. Mas eu não tinha. A vida não permitia. Tinha uma mãe internada em uma ala pública esperando o próximo ciclo de tratamento, uma sobrinha de cinco anos para alimentar e uma pilha de contas vencidas me assombrando como um lembrete cruel. A vida dupla que eu levava era o preço da sobrevivência.
A voz do apresentador cortou meus pensamentos como um chicote:
- Com vocês, nobres cavalheiros, a nossa deliciosa e misteriosa... Luna Calante!
Fechei os olhos por um instante. Quando se abrissem, ela estaria ali. A mulher que não tremia, que dominava cada olhar. A mulher que vestia a sensualidade como uma armadura.
As cortinas se abriram, e a luz invadiu meus olhos. Meus saltos ecoaram pelo salão enquanto eu caminhava com a cabeça erguida. A boate era luxuosa, íntima, com tons rubros e dourados refletindo nos olhos de homens perigosamente entediados. Mas quando Luna surgia, o tédio morria.
Deixei a música me possuir. Meus movimentos eram lentos, ondulantes. Calculados. Eu dançava como se nada mais existisse, como se cada gesto fosse espontâneo, mas ensaiado nos meus ossos. A renda preta escorregava da minha pele com a lentidão de uma promessa. Um suspiro coletivo percorreu a plateia quando a primeira liga caiu.
Entre as sombras, um olhar fixo. Um olhar que não desviava. Que não se agitava com os demais. Eu o senti antes de localizá-lo. Aquele olhar queimava de forma diferente. Não havia pressa, não havia luxúria barata. Havia controle. Observação. Predação.
A música cessou e, com ela, Luna recuou. Atrás das cortinas, voltei a respirar. O peso da realidade caiu sobre meus ombros assim que o dinheiro foi recolhido. A quantia era boa, mas o custo não se media em euros. Era cansaço. Era desgaste.
Nem terminei de contar as notas quando a gerente apareceu:
- VIP solicitou uma exclusiva. Agora.
Suspirei. O cansaço era uma constante, mas o medo... o medo variava de acordo com o cliente.
Caminhei pelo corredor estreito até a sala reservada, sentindo o salto afundar no tapete caro. A sala VIP era um mundo à parte. Mais silenciosa. Mais perigosa.
E então eu o vi.
Ele estava sentado como se o ambiente pertencesse a ele, como se tivesse nascido para dominar aquele tipo de lugar. O terno preto parecia esculpido em seu corpo, abraçando seus ombros largos e o peito forte com uma perfeição quase ofensiva. Os dedos longos seguravam um copo de uísque com desinteresse calculado, como se até a bebida fosse indigna da sua atenção. Mas o que realmente me paralisou foram os olhos. Azul-claros, translúcidos, cortantes como gelo fino. Olhos perigosos, que não apenas observavam, mas invadiam. Ele era o homem mais bonito que eu já tinha visto. De uma beleza irreal, quase mitológica. Poderia ser um deus grego disfarçado entre mortais, e naquele momento, eu tive certeza: ele sabia disso. Aquele olhar... aquele olhar era uma sentença.
- Dance - ordenou, sem elevar a voz.
A música recomeçou, mas não era a mesma. Havia algo mais denso no ar, um chamado que ia além das notas. Algo em mim reconheceu: aquilo não era uma apresentação. Era um ritual. Um jogo de poder e desejo.
Dancei para ele. Somente para ele. Meus quadris se moviam com precisão felina, enquanto meus olhos buscavam os dele, em um desafio silencioso. Cada movimento era um convite, um recado cifrado que meu corpo traduzia sem pudor. Revelava. Escondia. Sussurrava o que eu não podia dizer.
A eletricidade entre nós era cortante. A pele dos meus braços se arrepiou quando notei seus olhos escurecerem. Ele não piscava. Não sorria. Apenas me devorava em silêncio, como se cada gesto meu o marcasse por dentro.
Ao fim da canção, ele ergueu um dedo. Um gesto mínimo. Mas em mim, causou um terremoto. Fui até ele, guiada por algo não por submissão, mas por um desejo inexplicável. Meus joelhos tocaram o assento do sofá, e logo depois, eu estava em seu colo, sentindo o calor que emanava de seu corpo atravessar minha lingerie. O tecido nada fazia contra a intensidade daquele contato.
Seu perfume me envolveu - amadeirado, quente, morosamente perigoso. E então, sem anunciar, ele me beijou. Sem hesitar. Sem pedir. E eu, ao invés de recuar, cedi. Era proibido beijar os clientes, era proibido, mas eu estava cedendo. O gosto dele era sofisticado, um misto de uísque caro e pecado. A boca dele era firme, faminta, mas contida. Um beijo de quem conhece o jogo e não tem pressa de vencê-lo.
O volume sob mim mostrava o quanto ele estava gostando daquele nosso contato, eu não era a única atingida por aquele contato. Alisei seu peitoral sob a camisa enquanto ele pressionava mais os meus quadris nos seus.
Senti algo dentro de mim ceder. Um fio que rompeu. Um aviso ignorado. E quando suas mãos pararam de alisar minhas curvas e seguraram a máscara em meu rosto, eu me afastei, arfando, as bochechas coradas e a mente em alvoroço.
- Aqui existem regras, bonitão... - murmurei. - E a máscara fica.
Ele sorriu como quem aceita as condições de um jogo que já sabe como termina.
- Não vamos fazer nada, ao menos não aqui. Quero te ver fora daqui.
Minha garganta secou.
- Podemos acertar isso aqui mesmo...
Seus olhos mudaram. Um movimento sutil, mas feroz. Como se o encanto tivesse sido rompido por uma ofensa silenciosa.
- Entendo. É sempre uma questão de dinheiro. Mas isto para mim, não é um problema.
Ele tirou um maço de notas do bolso do paletó e, com um gesto preciso, as enfiou no meu decote. O toque foi frio. Intencional. As cédulas de duzentos euros escorregaram pela minha pele como lâminas de desejo e insulto.
- Dez mil euros. E isso não é uma gorjeta. É apenas para que aceite me ver amanhã. Te darei muito mais que isto, se entrarmos em um acordo.
Meu corpo reagiu com um arrepio involuntário. Não pelo dinheiro. Mas pelo que ele insinuava. Pelo que ele via em mim. E, talvez, pelo que despertava.
- Eu te quero. Quero você fora desse antro. Comigo. Isso é só o começo. Esse lugar... não te merece.
Tentei falar, mas a voz se perdeu. Do que diabos ele estava falando. Ele me atravessava por dentro. Suas palavras tinham garras.
Tirou um cartão preto e rabiscou algo no verso com uma caneta prateada. Com um gesto meticuloso, me entregou.
Lorenzo Moretti. Diretor da Moretti Motors
- Gran Hotel Campione. Suíte presidencial. Amanhã. Sem máscaras. Sem desculpas.
O cartão queimava entre meus dedos.
Ele me beijou outra vez. Rápido. Preciso. Como quem sela um pacto. Depois, me ergueu com firmeza e elegância, abrindo a porta sem pressa.
- Pense bem, bambina. Nos vemos amanhã.
E se foi.
Fiquei ali, parada, com o corpo tremendo, os pensamentos em colapso e o nome dele cravado em minha pele como fogo. Lorenzo Moretti.
Tudo em mim dizia que aquilo era uma armadilha. Mas parte de mim... já queria cair nela.
Capítulo 2
Uma Semana Antes...
25 de outubro de 2022
Lorenzo Moretti
Eu estava sentado no meu escritório em Lugano, cercado por um silêncio pesado. Diante de mim, o jornal estampado com o anúncio que eu já previa - mas que, mesmo assim, conseguiu me irritar mais do que eu gostaria de admitir.
O jornal estava sobre a mesa, aberto como uma provocação. As letras garrafais cravavam o anúncio como uma sentença:
"Giada Ravelli noiva de Stefano Ricci."
Estreitei os olhos, o maxilar travado, e fechei o punho com tanta força que senti os nós dos dedos estalarem. A madeira da mesa gemeu sob o impacto seco quando meus punhos a golpearam, mas o som foi insuficiente para abafar a raiva que borbulhava dentro de mim.
Giada. A mulher que conhecia cada detalhe da minha frieza. A mulher que tentou me domesticar com um amor que eu nunca prometi. O que tivemos foi um acordo. Frio, calculado, lucrativo. Um casamento por conveniência. Um ano. Nada mais. E mesmo assim, ela sonhou com flores, véu e maldito romantismo. Quando percebeu que meu nome jamais viria com um coração ao lado, ela saltou direto para os braços do funcionário mais patético do pai.
Stefano Ricci. Um cão que lambia o chão onde ela passava. E agora era o noivo oficial. O troféu de Giada. Uma tentativa desesperada de me atingir.
- Isso é patético - murmurei, chutando a cadeira para longe.
O som seco do meu murro ecoou pela sala, e Luciano, largado no sofá, quase derrubou o tablet ao saltar com o susto.
- Merda, Lorenzo! - Resmungou, erguendo-se com o cenho franzido. - Vai acabar destruindo a mesa. E você sabe que ela é da época do nosso avô... Nem sua raiva justifica destruir um móvel tão raro da nossa família.
Ele tentou rir, mas meu olhar fulminante o silenciou. Meus olhos estavam cravados no papel. Cada letra daquelas manchetes parecia pulsar.
- Giada não perde por esperar - murmurei, como se as palavras tivessem gosto de fel. - Noivar com o gerente de vendas do pai dela? Isso não é amor. É vingança. Stefano sempre a amou como um cão idiota que abana o rabo por qualquer migalha.
Luciano bufou, cruzando os braços. Seu olhar era irônico, mas não vazio. Ele me conhecia bem demais.
- Claro que é provocação. Ela queria você, Lorenzo. Mas você só queria o sobrenome dela, não o coração. A fusão das empresas em um casamento de apenas um ano sem amor. O resto era bônus, certo?
Deixei escapar um sorriso cínico, lento, afiado.
- Eu a satisfazia o suficiente. E fui claro desde o primeiro toque. Casamento por sentimento não estava nos meus planos. Ela aceitou, jogou o jogo. Agora não venha encenar que foi iludida.
- Será? - ele provocou, erguendo uma sobrancelha. - Porque agora ela está se casando com o "pobre coitado". E você está com o jornal rasgado na mão e o ego ferido.
Me recostei na cadeira de couro, os dedos tamborilando no apoio de braço. A raiva me queimava por dentro, mas era controlada. Fria. Estratégica.
- Vou responder à altura. Ainda não sei como... mas ela vai sentir o gosto do próprio veneno.
Luciano deu uma risadinha maliciosa, jogando o tablet no sofá.
- Vai precisar de uma mulher à altura. Que queime o nome dela da sua pele. E de preferência, na frente de todos. Mas agora, voltemos ao meu convite de antes, que tal uma ida à Campione d'Italia? Antes de Mônaco. Uma distração. Uma ruína anunciada disfarçada de diversão.
O brilho nos olhos dele era quase diabólico. E eu sabia que ele já tinha algo em mente.
- Uma ruína... talvez seja exatamente isso que eu preciso.
Luciano riu e voltou sua atenção ao tablet, ele estava acostumado a frequentar estes lugares em busca de uma dose de luxúria para apagar seus problemas e agora era a minha vez.
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A boate em Campione d'Italia estava em chamas naquela noite, e não era pelas luzes vermelhas que pulsavam como batimentos cardíacos nas paredes de veludo. Era pela vibração densa no ar - uma mistura de uísque caro, perfume doce e lascívia envernizada. Ali, naquela penumbra carregada, os pecados não se escondiam. Dançavam à mostra, sem culpa ou vergonha.
Sentei-me numa mesa reservada, afastada, de onde eu podia ver tudo sem ser visto. Homens poderosos cercavam os melhores lugares, e as mulheres rodopiavam pelo palco como vultos de desejo. Era decadente, sim - mas de uma beleza cruel. A boate era um santuário para homens que não se contentavam com o permitido.
E então, ela surgiu.
Luna Calante.
O nome foi anunciado com reverência, e os murmúrios cessaram como se a sala segurasse o fôlego. A música mudou. Algo mais grave, mais lento, mais pecaminoso. Quando ela pisou no palco, meu corpo enrijeceu como se tivesse levado um choque.
Linda, com curvas sinuosas. A pele clara como porcelana sob as luzes avermelhadas. O rosto coberto por uma máscara negra, adornada com cristais discretos. Mas o que me atingiu, o que me fez apertar os dedos contra o braço da cadeira até os nós ficarem brancos, foi a forma como ela se movia.
Ela não dançava. Ela dominava.
O quadril balançava com precisão felina. O corpo deslizava como se flutuasse entre o sagrado e o profano. Cada movimento parecia calculado para provocar uma explosão silenciosa dentro dos homens ali presentes. Mas, para mim, era diferente. Eu não apenas observava. Eu sentia.
Senti a tensão subir como uma onda arrastando areia. Meu peito se expandiu como se faltasse ar, e o calor se acumulou entre minhas pernas com velocidade alarmante. Aquilo era mais que desejo. Era uma necessidade física, animal, primitiva. Quase dolorosa. Minha respiração ficou pesada. O tecido da calça parecia apertado demais. Me peguei ajustando a postura, tentando disfarçar a reação que o simples balé de Luna causava no meu corpo.
Ela girava com uma lentidão que beirava a tortura. As mãos percorriam a lateral das coxas, subiam, deslizavam sobre os seios cobertos de rendas escuras. Não havia vulgaridade. Só o tipo de sensualidade que fazia os homens esquecerem seus nomes. Uma dança silenciosa de domínio. Ela não pedia olhares - os exigia. E todos obedeciam. Inclusive eu.
Quando ela arqueou o corpo, jogando os cabelos para trás, senti o uísque amargar na garganta. Minha boca estava seca. Minhas pupilas dilatadas. Meu corpo gritava por ela. O controle que eu costumava carregar como uma armadura havia derretido sob a imagem daquela mulher.
Era uma maldição. Uma deusa caída. E eu estava completamente à mercê.
Luciano havia sumido, como sempre, atrás de diversão. Mas eu não conseguia me mover. Nem piscar. A cada curva, a cada roçar de coxa, era como se ela dançasse para mim - mesmo sem me ver. Mesmo sem saber meu nome. Era pessoal. Era íntimo. Era enlouquecedor.
E o pior... ela nem precisava tentar.
Quando a música terminou, meu corpo ainda latejava. O ar parecia mais pesado. Meu desejo por ela não era suave. Era um soco. Uma dor. Uma obsessão nascendo com pressa demais.
Chamei o garçom, sem tirar os olhos dela.
- Quero contratá-la para uma dança privada.
- Senhor - ele respondeu, com um tom diplomático -, ela já está ocupada esta noite.
Fiz um gesto sutil com a mão, dispensando-o. Não insisti. Não imploraria por algo que em breve seria meu por completo.
Peguei o celular e, sem hesitar, digitei a mensagem para Dario:
"Luna Calante. Dançarina no Moulin Rouge, Campione d'Italia. Já tenho o cenário. Agora quero o enredo. Nome verdadeiro, histórico completo. Onde mora, com quem se deita, quem protege, do que foge, o que deseja. Quero tudo. Nos mínimos detalhes. E quero para ontem."
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Dias depois, no banco traseiro do meu carro, com a garrafa de uísque escorada ao meu lado e os vidros levemente embaçados pela umidade da noite, abri o envelope preto como se estivesse violando algo sagrado. A primeira coisa que me atingiu foi o nome impresso em letras secas, sem adornos, cru como a realidade que ela carregava: Malena Bossi. Vinte e dois anos.
Fechei os olhos por um instante, sentindo meu maxilar travar diante da informação. Ela era dez anos mais nova. Uma diferença que, para muitos, importaria. Para mim? Só intensificava a sensação de que ela não deveria estar naquele maldito palco. Tão jovem e já sobrevivendo como uma veterana da dor. Mas ao abrir as imagens anexadas, o impacto foi ainda mais profundo. Os olhos dela - mesmo fora da máscara, mesmo sem o palco ou a maquiagem - ainda carregavam aquela mesma presença magnética que me arrebatou no instante em que a vi. Havia algo nela que ultrapassava beleza. Era força disfarçada de rendição. Orgulho por trás da necessidade.
O relatório era minucioso. Durante o dia, Malena trabalhava em uma cafeteria modesta no centro de Campione. À noite, se transformava em Luna Calante - a stripper mais desejada da boate. Ocasionalmente, aceitava acompanhamentos privados, restritos a poucos clientes. Nenhum luxo. Apenas sobrevivência. Mas o que me atingiu como um punhal foi o parágrafo final: cuida sozinha da mãe, internada num hospital público, e possuía muitas dívidas. Todas as suas escolhas tinham um nome: urgência.
Senti um gosto metálico na boca. Não de culpa. Nunca de culpa. O que crescia em mim era fúria. Não contra ela. Contra o mundo que exigia que uma mulher como aquela - com aqueles olhos, aquele corpo e aquela postura de rainha em ruínas - tivesse que vender tempo, toque e pele para manter os que ama vivos. Malena era um poema torto e eu queria reescrevê-la com minhas próprias mãos. Do meu jeito.
Poderia ter fechado o dossiê ali e esquecido. Era o lógico a fazer. Era o racional. Mas desde quando minha obsessão seguia regras?
Tomei um gole do uísque, sentindo o líquido descer rasgando a garganta, e deixei que o calor me queimasse por dentro. Meu olhar voltou às fotos como se estivesse olhando para algo que já era meu, mesmo sem tê-la tocado. A ideia de outro homem colocando as mãos nela me fez cerrar os punhos. O simples pensamento de vê-la sorrindo para alguém que não fosse eu, me gerou uma raiva primitiva, possessiva. Não era só desejo. Era necessidade de domínio. E proteção. As duas coisas misturadas como um veneno doce.
Abri a porta do carro e respirei o ar frio da noite, tentando afastar o peso daquela descoberta. Mas já era tarde. Ela tinha se instalado em mim como uma febre, como uma maldição. E eu não queria cura.
Naquela noite, eu não queria apenas vê-la dançar de novo. Eu queria tomá-la para mim. Raptá-la daquele mundo sujo. Cercá-la de tudo o que ela nunca teve, conforto, luxo, segurança. Mas, acima de tudo, queria gravar meu nome na pele dela. Queria que ela soubesse que não estava mais sozinha. Porque agora... ela era minha.
E se o mundo ousasse tentar arrancá-la de mim, então seria o mundo a sangrar primeiro.
07 de novembro de 2022
Malena Bossi
Ainda não conseguia acreditar que estava subindo as escadas daquele hotel luxuoso, indo ao encontro do homem misterioso que parecia disposto a me ter a qualquer custo.
Mas não podia negar que o dinheiro que ele me deu na noite anterior era uma ajuda mais do que bem-vinda. Eu queria me convencer de que estar ali, diante da recepcionista pedindo o número do quarto, era apenas por causa das minhas dívidas.
Eu não era santa. Já tinha transado por dinheiro antes, mas eram poucos os clientes a quem concedia isso. Não era fácil me entregar a um desconhecido, por mais que precisasse. E, naquele momento, era exatamente isso que estava prestes a fazer enquanto apertava o código no elevador que me levaria à suíte presidencial.
Quando a porta se abriu, inspirei fundo, tentando vestir Luna como uma armadura - mas ela hesitou. Porque Lorenzo já estava ali, de pé, no hall da suíte, envolto em um terno impecável que moldava seu corpo como se a alfaiataria conhecesse seus pecados. O olhar azul, gélido e profundo, cravou-se no meu como se pudesse me despir com um simples piscar. E quando aquele sorriso lento e irônico se formou nos lábios dele, algo quente percorreu minha espinha. Um arrepio traiçoeiro, quase íntimo. Ele não me tocou. Mas o efeito foi o mesmo.
- Bem-vinda, entre - ele disse. Ele não me tocou, mas era como se tivesse feito. Meu corpo tremia apenas com o som de sua voz.
Segui seus passos, esperando encontrar um quarto e uma grande cama, mas ele me levou para o que parecia ser um escritório, onde havia outro homem à espera.
Meu coração apertou. Ali estava o que eu temia. Eu não faria nada com dois homens. Nunca havia feito, e, por sorte, não tinha gastado o dinheiro que ele me deu, então poderia devolver.
Antes que ele tentasse algo, alcancei o envelope com o dinheiro e o estendi para Lorenzo, que me encarou confuso.
- Não vou transar com dois homens. Nunca fiz isso. Seu dinheiro está aqui... pode conferir...
Um sorriso apareceu em seus lábios, embora sua voz revelasse irritação.
- Esse dinheiro foi pela noite anterior. Achei que havia deixado claro que posso te oferecer muito mais do que isso. Agora, sente-se e me escute, Malena.
Ao ouvir meu nome, meu corpo congelou. Já era difícil estar ali sem a máscara, como ele exigiu, mas saber que ele conhecia meu nome verdadeiro me fez perceber que ele sabia muito mais.
- Como você...
- Este é meu advogado, Maurizio. E este é o contrato que estou disposto a firmar com você.
O homem sorriu e empurrou uma pilha de papéis na minha direção.
- Contrato?
- Por favor, leia, vai entender. - Lorenzo insistiu.
Comecei a ler, os olhos percorrendo os parágrafos com concentração tensa - mas não foi o conteúdo que me fez engolir em seco. Foi a consciência da presença dele. Lorenzo não disse uma palavra, mas eu sentia. O peso do seu olhar, imóvel, atento, deslizando sobre mim com a mesma lentidão com que eu virava cada página. Era como se ele estivesse lendo minha reação, captando cada pequena contração dos meus músculos, cada mudança na minha respiração. Seus dedos tamborilavam o braço da poltrona com um ritmo sutil, e por um instante, desejei que fossem meus quadris sob aquele toque ritmado. Sacudi a cabeça discretamente, voltando para o contrato, mas meu corpo já não me obedecia da mesma forma.
- Você quer um relacionamento...
- Um relacionamento falso, por um tempo ainda indefinido. Vamos começar com um mês, para ver se funciona e se eu atinjo meus objetivos. Imediatamente, você receberá grande parte dos benefícios: sua mãe será transferida para uma clínica particular, onde receberá o melhor tratamento.
- Você fuçou toda a minha vida, pelo visto...
- O suficiente para saber que este contrato será bom para ambos. Você terá estabilidade financeira e não precisará mais dançar para aqueles homens que só querem te usar.
Sorri, olhando para ele. Bonito, inteligente, mas arrogante e convencido.
- E você também quer me usar. Um contrato para me manter exclusiva para você...
- O sexo não está fora de questão no contrato, mas também não é o foco principal. Não sou ingênuo, e você também não é. Sabemos que pode acontecer, mas esse não é o propósito aqui. O que eu realmente preciso é de um relacionamento de fachada para recuperar alguém importante. Diferente dos outros homens, que só veem seu corpo e estão dispostos a pagar por ele, sem se importar com quem você é ou com o que deseja. Você quer mais do que isso. Quer exercer sua profissão, salvar sua mãe, construir uma vida melhor. Ainda é tão jovem...
- Não sou uma menina. Sou uma mulher que já passou o suficiente para entender que onde há muitos benefícios, o preço a se pagar é alto.
- Aqui, você deverá manter total discrição e estar à minha disposição sempre que necessário, inclusive para viagens. No entanto, considerando a situação da sua mãe, coloco meu jato particular à sua disposição para que possa visitá-la sempre que for preciso.
Ele não mencionou Sofia, o que, de certa forma, foi um alívio. Depois da morte da minha irmã, deixei Sofia aos cuidados da minha prima Alessia, com medo de que o pai dela descobrisse que minha irmã havia morrido e lutasse pela guarda. Escondê-la no interior da Espanha foi uma decisão difícil, mas necessária, ao menos até minha mãe melhorar e eu conseguir uma forma de sustentar Sofia.
- Você pode trazer um advogado para analisar o contrato - disse o advogado de Lorenzo, gentilmente.
Mas eu era boa com termos e cláusulas, depois de tantos anos trabalhando como secretária.
- Não será necessário - respondi, voltando a atenção para cada detalhe do contrato. Ele cobria o tratamento da minha mãe na melhor clínica da Suíça e, quando eu assinasse, um cartão de crédito seria entregue a mim, com uma quantia que me deixaria confortável por muitos anos.
Era bom demais para ser verdade. Passei os olhos pelas cláusulas, procurando entre as entrelinhas algum detalhe que pudesse me prejudicar, mas não encontrei nada além do que já havia sido dito: o nosso relacionamento seria puramente falso. Se houvesse sexo, seria desprovido de qualquer sentimento, sem nenhuma promessa de algo real. Na verdade, estava claro que tudo não passava de um jogo, com um prazo de validade bem definido. O contrato entraria em vigor imediatamente, com uma fase experimental de um mês, que poderia ser prorrogada por até um ano. E, ao final de tudo, como bônus, eu receberia uma propriedade de alto valor,seja um apartamento ou até mesmo uma casa, onde e como eu preferisse, independentemente do custo. Um presente para encerrar o acordo.
Se, ao final de um mês, ele decidisse que eu não atendia às suas expectativas ou resolvesse sua situação de outra forma, eu estaria livre para seguir minha vida, com tudo o que ele havia prometido. No entanto, eu não teria a mesma liberdade para encerrar o acordo antes do prazo, já que a multa estipulada era exorbitante, algo que eu jamais poderia pagar.
Respirei fundo, tentando controlar o tremor nas mãos enquanto absorvia os outros detalhes. Beijos, carícias em público, encenar uma paixão intensa e inabalável... Tudo isso fazia parte do contrato. Parecia antiquado, quase absurdo. Contudo, depois de anos trabalhando em uma boate para clientes VIPs, eu sabia que homens como Lorenzo eram excêntricos e acostumados a viver de maneiras que desafiam qualquer noção convencional.
Por mais insano que tudo parecesse, ainda assim, era uma oportunidade rara e tentadora. Deixei os papéis sobre a mesa e levantei o olhar para Lorenzo, que me observava com uma expressão séria e inabalável, esperando minha reação.
- Quer beber algo?
- Água, por favor - respondi, esforçando-me para manter a voz firme, embora a tensão estivesse evidente.
Lorenzo pegou uma garrafa de água e a colocou à minha frente, os olhos fixos em mim, atentos a cada detalhe. O som sutil do vidro tocando a madeira ecoou mais alto do que deveria. Um simples gesto, e ainda assim, senti a pele da nuca arrepiar como se tivesse me oferecido algo proibido.
- E então? - ele perguntou, sua voz baixa, mas carregada de expectativa.
Bebi um gole, tentando ganhar tempo para organizar os pensamentos, antes de respirar fundo.
- Sua oferta é tentadora, mas não posso aceitar. Não assim. Existe um limite que não estou disposta a cruzar, e isso ultrapassaria qualquer um deles. Teria que me afastar da minha mãe, da minha vida. Além disso, convenhamos, tudo isso é surreal. Mal nos conhecemos, e você me faz uma proposta milionária para algo tão... incomum.
Lorenzo permaneceu impassível, apenas acenando levemente para o advogado, que rapidamente se levantou e nos deixou a sós. O silêncio que se seguiu foi preenchido pela tensão crescente no ar.
- Entendo seu receio, o medo de se comprometer dessa maneira - ele disse, sua voz mais suave, quase íntima. - Mas leve em consideração que não estou fazendo isso por capricho. Estou desesperado. Tenho pouco tempo para resolver minha situação, e realmente preciso que você me acompanhe nessa farsa, ao menos por um tempo. Não espero que me dê uma resposta agora. Apenas... pense nisso.
Outro gole de água. Dentro de mim, uma tempestade se formava. De um lado, a lógica, me dizendo para recusar imediatamente, para não me envolver em algo tão arriscado e incerto. Do outro, a realidade brutal dos meus problemas, a tentação de resolver tantas coisas de uma vez só. Mas a que custo? Estaria me vendendo a um homem que mal conhecia, por um longo período, sem qualquer chance de romper o acordo.
Levantei-me, e Lorenzo imitou meu movimento, seus olhos nunca deixando os meus, observando cada gesto.
- Eu devia dizer sim... - murmurei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia. - Mas não posso.
Minhas mãos buscaram o envelope com os dez mil euros, mas mesmo ao estendê-lo, parte de mim resistia. Meus dedos não queriam soltá-lo. Como se aquele papel representasse mais do que dinheiro. Como se, ao devolver, eu estivesse me negando a um caminho do qual talvez nunca mais quisesse sair. Meus olhos encontraram os dele - frios, sim, mas havia algo a mais ali. Algo que me puxava como uma corrente invisível. E eu? Eu estava começando a querer me deixar levar.
- Fique tranquilo, seu segredo está seguro, Lorenzo Moretti. Não mencionarei nada a ninguém sobre essa conversa. Desejo-lhe sorte.
Lorenzo não aceitou o envelope. Empurrou minha mão suavemente, seu olhar sério e impenetrável.
- Eu já disse que esse dinheiro foi por aquela noite, e por você ter vindo até aqui hoje. Não estou pedindo nada em troca agora, apenas que pense na minha proposta. Se mudar de ideia, me avise.
Ele não sorriu, sua expressão permaneceu firme, uma máscara impenetrável de controle. Nenhuma emoção à vista, nenhum sinal de hesitação.
Enquanto ele me acompanhava até a porta, antes de abri-la, segurou levemente meu braço, seu toque surpreendentemente gentil.
- Desculpe se, de alguma forma, minha proposta a ofendeu.
Aquelas palavras me pegaram desprevenida. Elas não combinavam com a imagem que ele havia construído até então - um homem de poder, controle e decisões frias. Fiquei por um momento sem saber o que dizer, mas consegui dar um leve sorriso antes de sair, sem olhar para trás.
Era tudo tentador demais. Aqueles dez mil euros eram uma ajuda, sim, mas não resolveriam meus problemas a longo prazo. Já a proposta dele... essa poderia me tirar da vida na boate para sempre e me dar a chance de salvar minha mãe. Além disso, havia Sofia. Eu poderia trazê-la para morar comigo, garantir sua segurança, seu futuro, e oferecer a ela o carinho e a proteção que tanto merecia.
A proposta de Lorenzo poderia mudar tudo. Mas, a que preço?