Frase
Ela se vestia de silêncio, não porque desconhecia os sons, mas a voz dos seus sentimentos ficou presa no imenso nó que havia em sua garganta. -Zack Magiezi
Prólogo
Abro a geladeira e não encontro os ingredientes que queria para o jantar. Não era um dia especial ou algo do tipo, mas certos finais de semana costumo cozinhar para Túlio e acabei encontrando uma receita muito apetitosa na internet. Sei que é arriscado fazer um prato que nunca fiz antes, mas seguindo o passo a passo tenho certeza que conseguirei deixar o frango ao molho de queijo cremoso uma delícia.
Antes de sair arrumo meus cabelos e pego minha carteira sobre a estante da sala. O mercado fica a pouco mais de dois quarteirões e aproveito o dia ensolarado para caminhar pelo bairro movimentado de crianças que se reunião para brincar e correr.
Cumprimento Dona Charlotte com um aceno de cabeça e ela sorri de trás do balcão do mercadinho. Charlotte é uma senhora elegante, gentil e bondosa, mora no mesmo prédio que eu e nós encontramos vez ou outra no elevador. Confesso que quando envelhecer quero ser como ela elegante e sorridente, pois apesar de ter seus quase setenta anos não aparenta a idade e sempre está muito bem vestida.
Seguro a cestinha no braço e caminho pelo supermercado em busca dos ingredientes que faltavam, o sorriso bobo dança em meus lábios ao imaginar a reação de Túlio ao jantar, apesar de que ultimamente ele tem demonstrado um nervosismo incomum e isso nos levou algumas discussões, mas faz apenas cinco meses que estamos juntos e eu não quero tirar conclusões precipitadas já que sei que seus dias no trabalho tem sido estressante devido a pressão e cobrança do seu chefe.
Apesar do supermercado não estar lotado acabo demorando mais do que gostaria na escolha de alguns ingredientes, pois queria que tudo estivesse perfeito para essa noite. Ao voltar cumprimento senhor Rodrigues na portaria e subo para o meu apartamento um tanto quanto ansiosa.
Retiro a chave do bolso da calça e assim que abro a porta encontro Túlio andando de um lado para o outro no meio da sala. Estranho o seu estado de agitação e nervosismo, pois ele nunca agiu assim e presumo que algo de ruim aconteceu em seu trabalho.
- Boa noite meu amor. - Sorrio. - Aconteceu algo?
- Onde você estava? - pergunta secamente, me fazendo franzir as sobrancelhas com àquela atitude estranha.
- Estava no mercado. - Mostro as sacolas, mas ele avança em minha direção segurando meus braços com uma força exagerada.
- Mandei que não saísse enquanto eu não retornasse - grita, chacoalhando meus braços.
- O que está acontecendo? - pergunto surpresa com sua atitude explosiva.
Ele sempre foi um homem calmo, carinhoso e amoroso, nunca elevou a voz para mim e não lembro de termos uma briga seria, apenas algumas leves discussões sobre as roupas que eu vestia, mas ele nunca me impediu de usá-las, pois acho ridículo homens controladores que querem mandar no que a mulher veste.
- Você me ouviu? Não é para sair daqui. - Força os dedos contra meus braços, machucando minha pele, tento me livrar de suas mãos da maneira que consigo por estar segurando as sacolas.
- Para com isso Túlio. - Começo a me assustar com sua reação e o empurro como consigo por ter as mãos ocupadas.
Quando menos espero sua mão pesada atinge meu rosto com tanta força que faz meu ouvido zunir e a face arder, no mesmo instante solto as sacolas no chão levando as mãos até meu rosto chocada com aquele atitude desconhecida. Ele nunca havia levantado a mão para mim antes.
Dou um passo para trás assustada com sua atitude e Túlio segura meus braços com força, puxando meu corpo contra o seu com brutalidade. Em nenhum momento ele demonstra espanto ou arrependimento pelo ato cometido, apenas a ira e a raiva de eu ter desobedecido uma ordem que ele impôs sem nenhum sentido.
- Quando eu mandar você obedece - diz com os dentes cerrado.
Estou tão surpresa e assustada que não tenho reação apenas o encaro com espanto e medo, pois ao longo desses meses juntos nunca notei uma mudança tão brusca em seu humor, apenas indícios de ciúmes bobos que acreditei ser normal.
- Está me ouvindo? - Sua mão forte se fecha em meu pescoço, forçando meu corpo contra a parede, os ossos das minhas costas se chocam contra o concreto e um gemido de dor escapa dos meus lábios.
As lágrimas escorrem por meus olhos e não consigo responder por seus dedos pressionarem minha garganta com força exagerada. Levo meus dedos envolta dos seus pulsos tentando soltar suas mãos, mas ele não relaxa o aperto, fazendo o ar faltar em meus pulmões.
- Está ouvido - grita mais alto.
- Sim... - sussurro entre lágrimas, e sua outra mão puxa meus cabelos com força, mas com minha afirmação sua mão relaxa em meu pescoço, a tosse vem imediatamente enquanto meus pulmões buscam o ar que me faltava.
- Eu acho bom - sussurra próximo ao meu ouvido, me encolho não querendo sentir seus toques. - Você é somente minha e será assim para sempre entendeu? - Puxa meu cabelo mais forte, e eu não respondo. - Entendeu Katy? - rosna, e eu apenas concordo.
Suas mãos me soltam e minhas pernas bambas não têm forças o suficiente para sustentar meu peso, desço escorregando pela parede até o chão e encolho minhas pernas abraçando-as ao lado da estante deixando que as lágrimas escorram livres por meus olhos.
Na primeira vez ele parou, na segunda ele avançou mais um pouco, na terceira ele sorria, na quarta meu desespero alimentava seu prazer e na quinta foi minha completa destruição.
Katy
Diante da tela do computador, me vejo presa a perguntas que me assombram todos os dias.
O que fazer quando se não acredita no seu potencial?
O que fazer quando a vida não faz mais sentido para você?
Quando há apenas uma única pessoa que te faz seguir em frente, mas você tem medo de ser abandonada?
Eram perguntas que me enlouqueciam dia após dia e sei que preciso dar continuidade ao folder de lançamento das novas tendências para o verão, mas as feridas abertas de um passado não tão distante sagravam me jogando em um limbo de depressão.
Muitos dizem releve, esqueça e siga em frente, mas é difícil esquecer do que destruiu sua vida, e mesmo assim, com muito esforço consegui me reerguer, mesmo que parcialmente, e como válvula de escape me fechei para novas experiências, principalmente as que envolvem amor.
Realmente não me importo muito com o amor e depois daquela noite as coisas funcionam de uma maneira diferente, em um ritmo diferente, pois procuro o máximo me afastar e não me envolver já que o contato físico com homens me desencadeia crises de pânicos incontroláveis, mas a vida gosta de nos pregar peças e tudo o que planejamos e organizamos vira de ponta cabeça em piscar de olhos e é exatamente isso que está acontecendo na minha vida agora.
Samuel Rizzon entrou na minha vida sem permissão, apenas para virar meu mundo de pernas para o ar, e tenho que confessar que ele é o único que consegue tamanha proeza, afinal, costumo repelir todo contato masculino. Não que eu não goste de homens, apenas aprendi a me proteger das cicatrizes que o passado deixou evitando o contato exagerado com homens, mas Samuel consegue abalar meu mundo de forma surpreendente e me lembrar no nosso primeiro encontro me faz sorrir feito boba.
Seguimos para entrada do Brighton Pier e fico encantada com tudo a minha volta, todos os detalhes do parque construído sobre o mar são maravilhosos, e daqui temos uma bela vista da cidade, fora os brinquedos que chamam a atenção com suas luzes coloridas.
Na parte externa a montanha russa me chama a atenção, fora a casa de horrores que faz meus olhos brilharem.
Samuel faz uma leve careta ao ver minha empolgação para ir nos brinquedos, mas logo se anima para me acompanhar.
No interior do Brighton Pier há um grande salão com várias máquinas de jogos, meus olhos brilham diante das máquinas com ursinhos de pelúcia, mas contenho minha afobação parando em frente uma barraca de tiro ao alvo.
Não resisto ao ver que o prêmio é o unicórnio da Agnes do filme "Meu Malvado Favorito" e tenho certeza que meus olhos brilham como nunca antes, amo o filme e amo muito mais a Agnes que é maravilhosa.
A única coisa que preciso fazer é derrubar a pilha de latinhas com alguns tiros.
Samuel percebendo minha agitação paga a primeira rodada deixando que eu tente a sorte.
Acabo me empolgando e miro nas latinhas ansiosa, mas o máximo que consigo é acertar as pilhas de latas ao lado. Chateada e irritada vejo que não conseguirei ganhar o unicórnio fofinho da Agnes e desisto antes que desfalque a carteira do homem ao meu lado.
Samuel observa minhas reações atentamente, debruçado sobre a bancada, e ri ao ver minha tentativa frustrante de acertar as latas.
- Eu queria o unicórnio da Agnes. - Faço uma careta chateada.
Vendo minha tristeza ele paga mais uma rodada e se oferece a tentar. Sem muita dificuldade mira nas pilhas de baixo bombardeando as latas derrubando todas de uma única vez.
Arregalo os olhos pasma com sua atitude, boquiaberta o observo sem conseguir entender direito o que aconteceu, sua prática é surpreendente e sinceramente não esperava que ele fosse conseguir com tanta facilidade.
- Não me olhe assim, prático defesa pessoal e tiro ao alvo porque sou advogado. - Ele dá de ombros, e sorri entregando o unicórnio de pelúcia para mim.
- Achei que você fosse algum super-humano. - Rio pegando a pelúcia. -Obrigada! - agradeço constrangida, mas abraço o unicórnio animada.
Voltamos a caminhar e paramos próximo as barras de proteção admirando o mar a nossa frente, as diversas luzes coloridas que recobrem as águas deixam o local ainda mais belo e encantador.
Por um momento desvio o olhar da paisagem para observar o homem ao meu lado, que mantem as mãos nos bolsos da calça olhando fixamente para o mar, seus penetrantes olhos azuis sobre a paisagem se perdem no horizonte e seus cabelos loiros bagunçados balançam com a brisa suave me fazendo ter uma imensa vontade tocá-los.
- Se continuar olhando assim não responderei pelos meus atos Katy. - Volta sua atenção para mim, com um lindo sorriso no rosto e seus maravilhosos olhos me observam cauteloso.
Sorrio abertamente me afogando na imensidão azul que são seus olhos. E como se as outras pessoas não estivessem à nossa volta admiro seu corpo imponente e majestoso voltado para mim de forma relaxada e descontraída.
Mordo os lábios o analisando e aproximo meu corpo do seu com cautela, envolvo meus braços envolta do seu pescoço e ousada, encosto meus lábios nos dele, dando um beijo demorado subindo meus dedos por seus cabelos que a tempos eu queria sentir.
Samuel não conhece meu passado, mas de alguma forma compreende meus limites e evita tocar meu corpo. O que agradeço, pois não sei como meu corpo reagiria se suas mãos apalpassem minha pele com segundas intenções.
- Katy o que está fazendo? - o grito de Jack me faz ter um sobressalto na cadeira, me lembrando que ainda estou no trabalho.
Apoio a mão no peito fixando meus olhos nele enquanto tento controlar minha respiração que se acelerou, tamanho o susto que levei.
- Quer me matar? - pergunto chateada, sentindo que meu coração quase sair pela boca.
- Faz cinco minutos que estou te chamando pela secretária eletrônica e você não responde, não se mexe e não dá sinal de vida, achei que estivesse morta sentada nessa cadeira. - Ele ergue uma sobrancelha com os braços cruzados no peito.
- Não é nada apenas estava concentrada demais nos orçamentos que mandou preparar - minto descaradamente olhando para a tela do computador.
- Sei. - Estreita os olhos. - Você está pensando naquele bofe que ainda não me apresentou. - Sua voz debochada me faz suspirar.
- Eu não. - Tento soar o mais natural possível, e ele nega com a cabeça rindo.
- Você nem sabe disfarçar, ele vem te buscar todos os dias. - Ri, revirando os olhos. - A dias te pego voando em seus próprios pensamentos e tenho certeza que esses pensamentos tem nome, endereço e um corpo dos deuses.
- Para de ser idiota Jack. - Reviro os olhos.
- Mais respeito sou o seu chefe. - Ele engrossa a voz me fazendo rir.
- Corta essa voz de macho alfa e volte para o trabalho, pois não vou passar a noite refazendo seus deveres para enviar ao Jean. Se você errar mais alguma planilha ele come seu fígado. - Ele faz uma careta, batendo na madeira da porta três vezes.
- Cruzes Katy, que humor ácido é esse, credo. - Ele faz o sinal da cruz. - Tá repreendido. - Acabo rindo da sua atitude.
- O que foi? Jean é um ótimo sócio só não fica muito na cidade. - Afirmo e ele faz uma careta.
-Aquele lá parece que chupa limão todos os dias, ele não tem um pingo de humor naqueles olhos castanhos quando se trata de trabalho. -Jack torce o nariz me fazendo rir.
Jack é um excelente chefe, totalmente centrado e dedicado, porém quando está com preguiça de fazer algo ele joga seu serviço sobre mim, sem contar os seus problemas amorosos. Então eu sou praticamente um cupido, uma conselheira amorosa e secretária pessoal do bonitão a minha frente.
Jack é totalmente complexo e complicado, mas é um chefe maravilhoso e simplesmente não consigo deixá-lo na mão porque ele é um dos únicos homens que amo incondicionalmente e consigo manter uma aproximação tão aberta e livre.
- Vai me dizer o nome do galã que está roubando seu coração? - Ele se encosta no batente da porta me observando.
- Não irei - afirmo rindo. - Volte para o seu trabalho. - O expulso com a mão.
- Tudo bem estou voltando para minha sala, mas você ainda vai me contar toda essa história nos mínimos detalhes. - Ele balança os ombros seguindo de volta para sua sala e eu suspiro revirando os olhos.
Tento me concentrar no trabalho, mas depois da minha conversa com Jack, Samuel tomou conta de todos os meus pensamentos, e ele não precisa de muito para desestabilizar meu mundo.
Suspiro imaginando aqueles maravilhosos olhos azuis curiosos me encarando com um belíssimo sorriso de tirar o fôlego.
Sabe aquele homem dos sonhos ou aqueles príncipes dos contos de fadas que chegam no cavalo branco com um buquê de flores lindíssimo cavalgando lentamente enquanto os cabelos balançam ao vento? Sim, Samuel é assim, mas em uma versão playboy de terno preto, conversível e olhos azuis.
Ele é tão amoroso e carinhoso que me cativa, mas meus medos fazem com que eu me distancie e nem mesmo assim ele desiste de tentar derrubar as barreiras envolta do meu coração.
É estranho dizer isso, mas simplesmente quero abraçá-lo e me sentir totalmente protegida dentro de seus braços fortes, entretanto as incertezas me jogam a realidade perante os olhos e me fazem perceber que talvez a felicidade seja algo passageiro.
O silêncio daquela pequena sala me faz ver o quão vazio é meu coração, o quanto me tranquei em um mundo paralelo e me afastei das pessoas que considero importantes.
Meus olhos focados na tela do computador apenas observavam os borrões das planilhas, e apesar de parecer totalmente focada em meu trabalho sigo no automático enquanto o meu passado obscuro pesa meus ombros sugando o pouco de felicidade que tenta me dominar.
"Eu destruirei sua vida."
Aquelas palavras retumbam em minha mente, e por mais que tente esquecê-las sei que quem as proferiu conseguiu conclui-las com maestria. Ele não só destruiu minha vida como também a minha fé, mas se ainda me resta algo, bem no fundo do meu coração é um fiasco de esperança que se acende ao encontrar Samuel.
Não sei exatamente se posso confiar nessa pequena chama que cresce em meu peito, mas quero acreditar que sim.
Quero acreditar que tudo dará certo por mais que tudo deu errado até hoje.
Ontem me encontrei com Samuel e a única coisa que posso dizer é "ele é um homem perfeito". Claro que todos temos defeitos, mas o defeito dele é ser perfeito e sinceramente não sei como isso é possível.
Tento concentrar minha mente no orçamento que precisava terminar, mas não consegui desligar meus pensamentos daquele homem charmoso e sedutor. Às vezes me surpreendo com os estranhos pensamentos que surgem em minha mente, mas sei que é inevitável controlá-los.
Observo o relógio e percebo que já se passou das sete da noite, finalizo o orçamento e deixo o restante para amanhã. Arrumo minhas coisas, pego minha bolsa e sigo para o elevador vendo Jack enfurnado em sua sala.
Nem um pouco surpresa com aquela cena passo pela máquina de café escolhendo um extra forte com pouco açúcar, pois sei que é exatamente assim que ele gosta.
Sigo para sua sala, e mesmo a porta estando aberta dou três toquinhos indicando que estou aqui. Seus olhos cansados e cabelos desgrenhados se voltam para mim surpresos.
Sua mesa abarrotada de papeis me indica que ele vai continuar aqui por um longo período de tempo.
- Você deveria ir descansar um pouco. - Adentro sua sala colocando a xícara de café sobre sua mesa.
Sorrindo, ele me olha sob a lente de seus óculos de descanso e segura a xícara inalando o odor do café. Com um pesado suspiro leva a xícara aos lábios tomando um pequeno gole por ainda estar quente.
- Obrigado! - Seu sorriso indica que ele está satisfeito por eu ter me lembrado dele.
Jack realmente é um menino que precisa de atenção e carinho vinte e quatro horas por dia.
- Não me ignore Jack, você também precisa descansar. - Sorrio tentando convencê-lo.
- Ainda tenho muito trabalho por aqui, vou demorar para ir embora, hoje vai ser um dia cansativo. - Ele suspira tomando seu café.
- Não vou discutir, mas você sabe que deveria se cuidar mais. - Arrumo a bolsa sobre o ombro.
- Eu sei. - Ele faz uma careta. - Não precisa se preocupar comigo, vá logo ao encontro do seu bofe secreto. - Ele revira os olhos, depositando a xicara sobre a mesa com certa força.
Começo a rir ao ver seu jeito e ele me observa com uma sobrancelha arqueada.
- Fica cheia de segredos, me esconde toda a verdade e ainda ri de mim? - Cruza os braços abismado.
- Aprendi com você gato. - Dou uma piscadinha para ele andando até a porta.
- Deus, onde esse mundo vai parar? - Ele finge ofensa.
- Vai embora logo Jack, depois você reclama que George briga com você, mas você dá mais atenção ao trabalho do que ao seu namorado - o repreendo, e ele revira os olhos.
- Eu sei, eu sei, prometo que irei daqui a pouco. - Ele pisca rindo, e eu nego com a cabeça sabendo que ele não tem jeito.
Sigo para o térreo de elevador e me despeço do guarda que fica de plantão todas as noites, quando passo por ele desejo um boa noite. Educadamente ele responde me desejando o mesmo.
Saio a procura do primeiro táxi que posso encontrar, mas sou surpreendida por uma Bugatti Veyron vermelha e preta estacionada em frente ao prédio, nada discreto e muito menos humilde.
Com a sobrancelha arqueada me aproximo do veículo vendo Samuel com as mãos apoiadas no volante. Pigarreio ao lado da janela aberta e seus lindos olhos azuis se voltam para mim com um sorriso no rosto.
Aqueles lindos olhos reluzentes me encaram esperançosos, automaticamente meu coração bate mais forte dentro do peito.
- Olá senhor Rizzon, o que faz perdido por aqui? - Me apoio na janela do carro, observando-o do outro lado.
- Estava te esperando. - Seu sorriso cresce, sou obrigada a sorrir de volta.
- Faz tempo que chegou? - Arqueio a sobrancelha preocupada.
- Digamos que uns quarenta minutos. - Ele franze o nariz passando a mãos sobre o cabelo.
- Poderia ter me chamado. - Faço uma careta.
- Não queria atrapalhar o seu serviço - afirma arrumando a gravata em seu pescoço.
- O que deseja?
- Que entre. - Ele indica o banco ao seu lado. - Está frio e eu achei que seria uma boa ideia levá-la para casa.
- Sabe que não precisa fazer isso todos os dias. - Abro a porta do carro e tenho a sensação de ser observada.
Olho para trás e vejo apenas o guarda que acena se despedindo, me acomodo ao seu lado tirando aquela estranha sensação dos meus pensamentos.
- Eu gosto de vir buscá-la. - Balança os ombros pensativo.
- Desculpe por fazê-lo esperar. - Sorrio encolhendo os ombros.
- Não se desculpe, vim sem avisar, a culpa não é sua. - Ele segura minha mão depositando um suave beijo, fixando seus olhos nos meus.
A intensidade daqueles mares azuis me faz querer suspirar, inconscientemente observo seus cabelos loiros desalinhados querendo correr meus dedos por eles apenas para sentir seus fios macios entre meus dedos.
Envergonhada desvio meus olhos dos seus arrumando minha postura no banco.
- Sam - sussurro, e ele solta minha mão erguendo as suas em sinal de paz.
- Amigos - ele afirma. - Eu não fiz nada. - Se defende.
Acabo rindo com sua reação.
- Eu não te acusei de nada, mas se você está tão preocupado é porque estava com pensamentos inapropriados. - Ergo uma sobrancelha, observando-o divertida.
Ele desvia o olhar coçando o queixo por um momento fazendo uma careta.
- É errado querer roubar um beijo seu e ter você só para mim todos os dias da minha vida? - pergunta duvidoso e eu sinto meu coração quase sair pela boca, mas tento disfarçar minha surpresa.
Fixo meus olhos nos seus por um momento e logo desvio constrangida.
Por mais que eu quisesse falar que não era errado, apenas me mantenho em silêncio.
- Por que você não deixa eu me aproximar Katy? - pergunta pensativo, e eu fixo meus olhos em minhas mãos. - Eu só quero fazer parte da sua vida e você me repele. Me dê só uma oportunidade.
Evito encará-lo e sinto meu coração se acelerar com medo do rumo daquela conversa.
Eu não quero perder Samuel, não quero me afastar dele ou vê-lo ir embora como todos os outros, mas também não quero que ele descubra sobre meu desastroso passado. Eu só o quero ali do meu lado sem questionamentos e sei que isso será impossível, pois Samuel não se calará para sempre.
Um grande nó sufoca minha garganta e sinto meus olhos marejarem. Forço as lágrimas a voltarem não querendo chorar em sua frente.
- Me desculpe eu... Eu prometi que iríamos devagar e esperaria seu tempo. - Ele dá a partida no carro, e eu agradeço mentalmente.
Fazemos metade do caminho até minha casa em um silêncio pesado.
Em alguns momentos me pego observando-o e vejo um misto de preocupação e culpa em seus olhos.
Queria perguntar se está tudo bem, mas prefiro me manter em silêncio, pois a culpa está começando a me incomodar, afinal a distância que há entre nós sempre foi imposta por mim, e ele nunca tentou avançar o sinal em momento algum respeitando os meus limites sem questionamentos.
Samuel é a única pessoa que insiste em permanecer ao meu lado além dos meus familiares e meu chefe. Não deveria tratá-lo com tanta frieza.
Noto que seus dedos se apertam suavemente sobre o volante do carro e seus olhos fixos na rua me incomodam. Ele é sempre muito brincalhão, mas hoje as coisas pareciam não estar muito bem.
- Desculpe - peço novamente, e seus lindos olhos se voltam para mim rapidamente.
- Eu é quem lhe devo desculpas, não quero te forçar a nada Katy. - Um pequeno sorriso preenche seus lábios.
- Obrigada..., mas tem algo te incomodando é visível - afirmo, e a surpresa fica estampada em seu rosto. - Foi algo que eu disse?
Não quero forçá-lo a nada, mas percebo que assim como eu, Samuel é uma pessoa fechada que não costuma se abrir com os outros e às vezes é necessário colocarmos para fora aquilo que nos sufoca, mesmo eu não seguindo meus próprios pensamentos.
- Eu sei que tem coisas que não gostamos de compartilhar com ninguém e que tem segredos que gostamos de manter guardados. Eu sou a prova viva disso, mas só queria dizer que se tiver algo te incomodando você pode contar comigo. - Volto toda a minha atenção para ele, que pensativo, permanece em silêncio.
Depois de alguns momentos ele sorri como um menino travesso e diz.
- Então namora comigo? - Sua voz brincalhona não esconde a verdade por trás daquele pedido.
Não é a primeira vez que ele faz esse pedido, mas como em todas as outras vezes sinto meu coração pulsar forte e a emoção dominar meus sentidos. Samuel nunca escondeu de ninguém o que sente por mim, apenas eu construo barreiras onde não deveriam existir.
A quem estou querendo enganar?
Sinto uma forte atração por ele e estar ao seu lado é o que almejo todos os dias. Sua fragrância única prende minha atenção e aquele cheiro almiscarado acabou se tornando sua marca registrada, um cheiro másculo e inebriante que me tira o chão.
Seu jeito brincalhão que me cativa, seus gestos de carinho, sua preocupação com meu bem estar. Estou simplesmente apaixonada por esse homem, mas não quero dar o braço a torcer para mim mesma, para os medos... para os meus traumas.
- Sim - respondo.
Ele freia bruscamente o carro, levando os outros a buzinarem e gritarem com sua parada brusca.
- Sério? - Surpreso e assustado ele ignora as buzinas e xingamentos dos carros que desviam de nós.
- Acho melhor conversamos em outro lugar. - Faço uma careta rindo.
Mais do que depressa ele acelera o carro e como não estamos longe do meu apartamento chegamos rápido. Samuel estaciona na primeira vaga que encontra próximo ao prédio e me observa receoso.
- Katy? - Ele suspira com olhos arregalados.
- Apesar de você ter fugido do assunto principal que é o fato de estar silencioso e preocupado eu aceito ser sua namorada. - Sorrio, e ele desvia o olhar.
- É um assunto familiar complicado. - Seu sorriso se desfaz gradativamente.
- Ok, não vamos falar sobre isso. - Seguro sua gravata, fazendo-o olhar para mim. - Só fiquei preocupada, não precisa se obrigar a contar nada, eu mais do que ninguém te entendo. - Acaricio seu rosto e sua expressão de preocupação se suaviza.
- Eu posso te beijar? - pergunta me fazendo rir, eu maneio a cabeça em concordância, pois quero muito sentir seus lábios contra os meus novamente.
Samuel envolve cuidadosamente os dedos em minha nuca e nossos lábios se encontram em beijo calmo que se intensifica a cada segundo.
Solto o cinto de segurança, o que faz Samuel avançar ainda mais em minha direção, aproveito para enroscar meus dedos nos fios macios de seus cabelos. Ele desce sua mão por meu corpo e seus dedos se fixam em minha cintura pressionando aquele local com cuidado, mas aquele ato faz todo o meu corpo tencionar e rapidamente Samuel recua quebrando o nosso beijo enquanto encosta sua testa na minha deslizando o polegar por minha bochecha.
Minha respiração se acelera e me sinto culpada por carregar as marcas de Túlio até hoje. Eu não queria, eu juro que não queria a sombra daquele homem em minha vida, mas não consigo me libertar tão facilmente das marcas gravadas em minha mente, não consigo me livrar da sensação de desespero causada por aqueles dias presa à mercê de seus desejos.
Eu não queria aquelas sensações, é claro que não queria, mas elas são mais fortes do que eu, e sei que Samuel não merece minhas recusas, mas ainda não descobri uma maneira de afastá-los de mim.
- Eu sei que você ainda esconde seus segredos e confesso que queria saber o que te causa tantos medos, mas eu prometo que vou esperar com paciência até que você me conte tudo. - Deixa um beijo na minha testa sorrindo.
- Eu sei que você irá esperar. - Acaricio seu rosto sabendo que é verdade. - Eu confio em você. - Deixo um suave beijo em seus lábios.
Samuel me observa por incontáveis segundos sem dizer nada e aproveito o momento para admirá-lo. Não canso de observá-lo e gravar os traços de seu rosto em minha mente.
- Boa noite senhor Rizzon, até amanhã. - Pisco abrindo a porta do carro pronta para sair.
Antes que eu possa colocar os pés na calçada ele segura minha mão, me puxando de volta apenas para deixar um demorado beijo em meus lábios.
- Boa noite minha belíssima menina. - Seu sorriso encantador toma conta de seu rosto, me deixando atordoada.
Despeço dele mais uma vez e saio do carro andado em direção ao prédio. Samuel só dá partida no carro quando tem certeza que estou em segurança dentro do prédio e antes de vê-lo partir aceno em despedida.
Assim que passo pela recepção cumprimentando senhor Rodrigues, que está atrás do balcão com um sorriso no rosto.
- É bom ver você saindo um pouco Katy, esse jovem parece te amar muito e faz tempo que não vejo esse sorriso bobo em seu rosto. - Rodrigues sorrir animado.
- Cala boca Rodrigues. - Reviro os olhos caminhando até o elevador.
- Vai lá Katy, solta esse coração. - Rio com seu comentário.
- O que posso fazer se tem pessoas que chegam para arrebentar as barreiras que construímos?! - Entro no elevador rindo.
- Estava na hora. - Ele pisca para mim, reviro os olhos querendo mandá-lo a merda, mas as portas do elevador se fecham impedindo que eu extravase minha raiva.
Apesar de tudo gosto muito daquele velho barrigudo e brincalhão, o conheço desde que me mudei para cá e Rodrigues é uma das muitas pessoas que não gostava de Túlio. Ele sempre fazia questão de dizer que Túlio era um imprestável que gostava de viver as minhas custas, mas como o amor é cego acreditei que era implicância.
Antes estivesse escutado os conselhos dele e de Megan que seria bem melhor, ele não sabe de tudo o que aconteceu entre nós, mas sabe que Túlio me fez muito mal por isso me tranco do presente com medo do meu passado.
Ao sair do elevador vou direto para o meu apartamento e depois de Philipe e Adam aprendi a trancar as portar corretamente. Aqueles dois velhos fizeram muito mal a mim e principalmente a Megan, não cairia na besteira de esquecer as portas abertas novamente.
Jogo minha bolsa no sofá e sigo para o banheiro tomando um banho demorado e relaxante.
Agora sou oficialmente uma desencalhada e preciso contar esse milagre para Megan o mais rápido possível. Eu sei que ela vai surtar e me encher de perguntas, mas tenho que confessar que estou muito feliz por dar uma oportunidade a Samuel, afinal ele está sendo muito compreensível em esperar eu estar preparada para contar tudo sobre meu passado e nenhum outro foi tão paciente e compreensível como ele.
Sei que uma hora ou outra ele se cansará de esperar e terei que expor todas as minhas verdades, mas não sei dizer quando estarei pronta para abrir meu coração.
Trazer átona todo o mal que Túlio me causou era a última coisa que eu queria fazer e se pudesse viver e apagá-lo do meu futuro agradeceria aos céus.
Túlio é um mostro, uma enorme pedra no meu caminho e a única coisa que quero e simplesmente apagá-lo da minha vida de uma vez por todas. Sei que não deveria jogar esse fardo em Samuel, mas confesso que no fundo do meu coração coloco todas as esperanças da minha salvação em suas mãos mesmo ele não sabendo de nada.
Tiro esse pensamento da minha mente indo para o quarto me trocar, estou em uma nova fase da vida onde Samuel não é Túlio.
Samuel é um homem digno, maravilhoso, amoroso e carinhoso que me faz bem e a única coisa que quero nesse momento é me entregar as novas experiências que viverei com ele.