a minha vida tudo foi difícil para conseguir. Desde os meus 5 anos de idade tive de lutar para sobreviver, pois foi nessa idade que perdi meus pais. Uma das poucas lembranças que tenho deles é exatamente do dia
em que me deixaram. Antes de tudo acontecer, eles prometeram que nunca me abandonariam. Como meus pais morreram? Para falar a verdade, eu não sei bem como, foi tudo muito confuso e ninguém me explicou nada. Eu era pequena demais e não tinha mais nenhum parente vivo. Tive de ir para um orfanato. A única coisa que soube foi que meus pais foram enterrados sem cerimônia. Foram enterrados e pronto.
Se a morte deles ainda dói? Claro que sim! Porque se eles não tivessem morrido eu não teria sofrido o tanto que sofri até dois anos atrás.
Hoje, aos dezenove anos, já passei por tanta coisa que daria até para escrever um livro. Já fui espancada, quase estuprada, já matei e fui parar em um reformatório. Sim, já matei. Mas eu não tive escolha e Deus que me perdoe, mas não me arrependo disso nem um pouco. O que faço da vida hoje? Eu era faxineira de uma casa de strip, e agora que sou maior de idade, trabalho como dançarina. Não me envergonho porque não estou fazendo nada de errado. Não me prostituo; primeiro porque é proibido aqui na boate Hiz's e também porque ninguém aqui tem coragem. Pelo menos eu não tenho.
Há dois anos o dono da boate, o senhor Hiz, me tirou das ruas e, se não fosse por ele, eu teria sido estuprada. Eu tinha dezessete anos quando fui morar com ele; no começo tive medo porque ele era um desconhecido e poderia estar se aproveitando, mas, quando cheguei em sua casa, conheci a mulher dele, Jena, e o filho deles, Pedro, que agora está com dez anos de idade e é uma fofura. Ele é como meu irmão mais novo. Vivo com eles, que me tratam como uma filha.
Três meses atrás consegui um estágio em uma empresa muito importante. Ganho um dinheiro bom, que estou juntando para comprar uma casa. Não quero viver às custas dos outros a vida toda. Hiz é uma ótima pessoa, assim como sua família, mas às vezes me sinto uma intrusa por estar usufruindo das coisas deles, mesmo que ele insista para que eu não me sinta assim. Eu poderia largar meu emprego de dançarina na boate, mas amo dançar. A dança me distrai e me ajuda a equilibrar a mente, me faz esquecer um pouco do mundo à minha volta e do meu passado por alguns minutos.
Hoje é segunda-feira, dia em que pela manhã vou para a faculdade de Administração e à tarde tenho estágio. Sou secretária da secretária do dono da empresa. Estranho, não? Tenho sorte de a Abby ser um amor de pessoa e também ser sobrinha do senhor Hiz. O resto das mulheres daquela empresa são todas um bando de vacas interesseiras. Várias vezes cansei de ouvir gemidos vindos da sala do senhor Adam Lavisck. Ele é lindo, um deus grego, mas o que tem de bonito tem de arrogante, cafajeste, metido e mulherengo. Cada dia é uma mulher diferente que entra naquela sala. Eu acho incrível como elas não se tocam que ele só vai querer uma foda de minutos e depois tchau. Bando de burras.
Me arrumo e opto por uma saia-lápis cinza, acima dos joelhos, e uma blusa branca de manga comprida, saltos pretos com o solado vermelho. Prendo meu cabelo loiro-escuro em um rabo de cavalo alto e como odeio maquiagem, não uso. Checo minha bolsa e meu material da faculdade e já estou pronta. Quando chego à cozinha, vejo Hiz, Pedro e Jena tomando café, o que me faz olhar no relógio e me dar conta de que estou superatrasada. Tenho de estar na faculdade às 08h30 e já são 08h20. Demoro vinte minutos até chegar lá de ônibus.
- Bom dia, família! Tchau, família! - cumprimento-os correndo, pronta, e sigo em direção à porta.
- Bel, não vai tomar café? Ontem você não jantou - Jena fala.
- Prometo comer algo na rua, mas agora preciso ir.
- É bom comer mesmo. Vou ligar para Abby e perguntar se você comeu algo enquanto trabalhava, mocinha. - Vou até Hiz e dou um beijo em sua bochecha. Ele é como um pai para mim, assim como Jena é como uma mãe. Eu os amo muito.
- Pode deixar, Hiz. Sabe que se tem uma coisa nesse mundo que adoro fazer é comer. - Jena ri.
- Nunca vi uma pessoa comer como ela. Parece ter mais de um estômago. - Pedro diz e eu lhe mostro a língua.
Nossa, que mulher madura eu sou, pensei.
- Sei que vocês me amam muito, mas realmente preciso ir. Até mais tarde. - Saio de casa e como o ponto de ônibus é logo ao lado, fica mais fácil para a atrasadinha aqui.
As aulas passam voando. Gosto desse curso, mas minha paixão sempre foi a escrita. Amo ler e escrever, e se Deus quiser, um dia serei uma grande escritora. Só estou nele mesmo por causa do estágio, meu patrão exige que os estagiários tenham feito ou estejam fazendo Administração.
Quando saio do curso, olho no meu celular e percebo que já está na hora do almoço e como não comi nada, é melhor parar e comer algo. Vou até a lanchonete que fica perto da faculdade de Seattle, a melhor da cidade, entro e peço um hambúrguer enorme e um copo gigante de refrigerante. Não me levem a mal, mas amo comer, ainda mais se for besteiras. Não tenho essa de que "não como isso" ou "aquilo" para não engordar. Na verdade, acho que sou magra de ruim, pois como demais e não surte efeito algum. Acho que eu tenho um buraco negro no estômago.
Quando saio da lanchonete estou três minutos atrasada para meu estágio. A empresa Lavisck fica a uma quadra daqui e vou sempre andando, só que desta vez vou correndo mesmo.
Chego feito uma desesperada na empresa e pedindo aos céus para que não notem meu atraso. Corro em direção ao elevador, ignorando os olhares e falatórios das pessoas. Acho que esse elevador está de sacanagem com a minha cara. Três minutos depois e estou no vigésimo andar, o último. Corro até a sala de Abby, entro quase caindo e ela me olha com aquele olhar tipo "onde você estava, rapariga?". Coloco um sorriso cínico no rosto e com a maior cara de pau digo:
- Abbynha, meu amor... Vamos ao trabalho. - Me acomodo em minha mesa, que fica na sala de Abby.
A sala é grande o suficiente para nós duas, com duas paredes brancas
e uma em um tom acinzentado, a outra parede é toda feita de vidro espelhado, nos dando uma perfeita visão do centro de Seattle.
- Pode me explicar o porquê desse atraso? - Questiona ela, me encarando com direito a mão na cintura e tudo.
- Me desculpe, Abby. Acontece que esse final de semana foi puxado lá na boate. - Recosto na cadeira.
- Bel, olha... Você deveria largar esse emprego. Não sei como Hiz ainda não tirou você daquele lugar. Você não precisa disso... - Me chama a atenção e eu detesto quando ela diz essas coisas.
- Abby, não adianta, eu gosto de dançar! Hiz por várias vezes pediu que eu saísse, mas não dá. A dança me ajuda e você sabe que preciso de algo para me distrair. Hiz também sabe e por isso parou de insistir. Não acho nada de errado, afinal, não é nenhum crime que estou cometendo - digo cansada.
- Tudo bem! Desculpe, é que fico com medo de alguém daqui descobrir isso e te julgar. Você sabe que muitas dessas mulheres são vistas como prostitutas, o que na maioria das vezes não é verdade. - O que é fato, já vi muitas serem humilhadas por isso.
- Eu tomo cuidado. Sempre uso uma máscara para ninguém me reconhecer e ainda por cima a iluminação de lá dificulta enxergar direito as feições de quem está no palco.
- Está bem. Mas cuidado, viu?! - pede, se senta e começa a mexer nos papéis.
- Pode deixar - concordo olhando para o computador, checando e- mails e documentos.
Abby é uma morena dos olhos castanhos, cabelo escuro e lábios carnudos, muito bonita, que chama a atenção por onde passa. Ela é como a irmã que nunca tive.
- Isabel, preciso que vá até a sala do senhor Lavisck e leve alguns contratos que ele tem de avaliar e assinar. - Assinto, pego os papéis e quando já estou na porta, ela diz:
- Não arrume confusão, por favor. - Sorrio e saio da sala.
Abby me conhece. Sabe que sou bem atrevida, mas sei ser educada
quando são comigo.
Antes de entrar, bato na porta e escuto um "entre". Avisto o senhor Lavisck sentado em sua cadeira, com a atenção voltada para o computador.
- Com licença. Vim trazer alguns contratos para o senhor avaliar e assinar. Eles já foram avaliados por Abbygrey e está tudo certo, mas ela pediu para o senhor dar uma olhada e conferir se está tudo nos padrões. - Tento parecer o mais profissional possível.
- Onde está a senhorita Butter? - Ele pergunta sem me olhar. Que falta de educação!
- Ela está muito atarefada, organizando suas reuniões e viagens, como o senhor pediu - respondo calmamente.
- E você, quem é? - fala, agora me olhando.
Como pode uma pessoa não saber quem trabalha para ele?
- Isabel Mitchell. Sou estagiária aqui e ajudo a Abbygrey. - Estou a um fio de perder a paciência.
- Mitchell? Seu sobrenome é Mitchell? - indaga surpreso.
- Sim, senhor. - Além de irritante, é surdo.
- Saia da minha sala. - Ele é ríspido e me deixa confusa. O que eu fiz agora?
- Mas senhor, eu não fiz nada...
- Já mandei você sair daqui. É surda? - Filho da mãe.
- Idiota. - Saio e vou bufando até a sala de Abby, lá dou de cara com Carlos.
Carlos é vice-presidente da LAVISCK'S MARKETING E INVESTIMENTOS e irmão do chato do Adam. Ele é um amor de pessoa, diferente do "senhor simpatia".
- O que foi, loirinha? - pergunta Carlos, me olhando preocupado.
Ele sempre me chama assim. O considero como um irmão, mesmo com o pouco tempo de convivência. Carlos é lindo, um homem alto e bem forte, de pele clara e olhos verdes, cabelo castanho-escuro e tem covinhas. As
mulheres daqui babam por ele, mas ele já tem dona e ela está nessa sala. Não sou eu e sim Abbygrey, que detesta esse nome. Eles namoram, mas ninguém aqui sabe, somente eu.
- O seu irmão - respondo com desdém.
- O que você fez dessa vez, Bel? - Por que sempre sou eu que faço
algo?
- Não fiz nada. Ele surtou quando falei meu sobrenome e me
mandou sair da sala dele. Ele é um idiota - digo completamente irritada.
- Não fica assim. Meu irmão não é a melhor pessoa do mundo, mas esses dias ele tem andado meio estressado. - Tenta defender seu irmão.
- Seu irmão é um imbecil que não sabe tratar as pessoas bem. O Lavisck é um arrogante, chato, cretino, irritante e... - Paro de falar assim que percebo que a atenção de Abby e Carlos estão voltadas para alguma coisa atrás de mim. Abby está com olhos arregalados e engulo seco na hora. - Ele está bem atrás de mim, não está? - pergunto e os dois balançam a cabeça dizendo que sim.
- Na minha sala agora, senhorita Mitchell! - Ele fala tão perto que sinto seu hálito quente em meu ouvido, me arrepiando toda. Nossa, que estranho!
- Está bem. - O sigo até a sua sala e vários pensamentos me vêm à
mente.
Droga! Vou ser demitida e não conseguir a minha tão sonhada casa.
Merda! Como sou burra.
- Isabel Mitchell
-
ntro na sala do senhor Lavisck me sentindo uma criança que logo irá receber uma bronca. Quando ele se senta e faz menção em falar, eu o interrompo.
- Senhor Lavisck, não foi minha intenção dizer aquilo do senhor, é
que...
- Não quero lhe dar uma bronca pelo que você disse lá na sala da
Abbygrey, mesmo você merecendo muito mais que uma bronca. Sou seu chefe e exijo respeito, não tolero certos tipos de coisas, como as que você fez desde que saiu da minha sala, me chamando de idiota, e até o que disse de mim para outros funcionários. - Seu tom é sério.
- Desculpe. Então por que me chamou?
- Nunca vi você por aqui. Conheço todos os meus funcionários, menos você, o que é muito estranho - diz, mexendo nas gavetas, logo em seguida, coloca uma pasta preta na mesa e começa a olhá-la.
- Pensei que o senhor fosse mais cuidadoso - falo sem pensar.
Controle sua língua, Isabel! - me repreendo.
- Eu sou sim e por isso estou analisando seu currículo e sua ficha de funcionária. Quero te fazer algumas perguntas.
- O que precisa saber de mim para trabalhar em sua empresa está nesses papéis, não há nada mais a acrescentar. - Sou ríspida.
- Além de abusada quer se fazer de misteriosa? - Sorri.
Nossa! Que sorriso!
- Não estou tentando me fazer de misteriosa, apenas estou deixando claro que não vou dar nenhuma informação da minha vida pessoal.
- Não disse em nenhum momento que faria perguntas pessoais. - Ai! Essa doeu. - Bom, vamos ver... Você tem apenas dezenove anos mesmo? - pergunta parecendo chocado.
- Por que eu iria mentir sobre isso?
- Você não parece ser tão nova, pelo menos não no físico; é bem desenvolvida, se é que me entende. - Ergue uma sobrancelha.
- Eu sou uma mulher com dezenove anos e muitas experiências. - Ele recosta-se na sua cadeira, inclina um pouco a cabeça para o lado e coça a barba rala.
- Que tipo de... experiências? - Posso ver um sorriso cínico se formar em seus lábios.
Credo que delícia... Quero dizer, que abusado, penso.
- Coisas que não te dizem respeito. - Sou grossa.
- Você é muito abusada. Alguém tinha que te dar uma lição para deixar de ser assim. Sou seu chefe e deveria me respeitar e, ao menos, responder às minhas perguntas. - Olho para ele chocada e irritada por suas palavras.
- São perguntas que eu não sou obrigada a responder. São coisas pessoais. - Desvio o olhar.
- Posso te demitir por falar assim comigo. - Ele ameaça, com a voz grave e mais grossa.
- Certas perguntas devem ser respondidas da forma como elas foram feitas. - Ele ri.
- Boca esperta e bonita, gostei.
Ele tira o paletó e se exibe, mostrando seus músculos firmes e grandes, que podem ser notados mesmo com a blusa azul que os cobrem. Retira a gravata e a deixa em cima da mesa.
Esse homem pode ser o que for, mas é muito sexy e lindo, penso.
- Está me assediando? Posso muito bem denunciá-lo por isso.
- Não estou te assediando, não preciso disso para ter uma mulher - diz com um sorriso debochado.
- Desculpe, senhor Lavisck, mas tenho mais o que fazer, com licença. - Me viro para sair de seu escritório.
- Não mandei você sair. - Paro no mesmo instante e me viro para olhá-lo.
Deus! Como nunca dei atenção para o quanto ele é lindo? Esses olhos azuis que estão me olhando... de um jeito que me arrepia toda, é tão... intenso.
- Não tenho mais nada para fazer aqui, senhor Lavisck. Creio eu que essa conversa não vá levar a nada e eu estou sem paciência para certas coisas. Preciso trabalhar e o senhor também. - Me viro de novo para sair, mas mais uma vez sou interrompida quando sinto braços me puxarem e logo em seguida sinto um corpo me pressionando contra a parede.
- Como eu havia dito, você é muito abusada. Merece levar umas palmadas que te deixem sem poder sentar por vários dias e eu teria um grande prazer em fazer isso. - Ele está tão próximo do meu rosto que posso sentir seu hálito quente; sua boca está tão próxima da minha que se eu me inclinar só um pouco, vou sentir seus lábios nos meus. Posso ver claramente a intensidade do seu olhar e estou totalmente hipnotizada por esses olhos. Baixo o meu olhar para os seus lábios e ele os morde, me fazendo engolir em seco.
Ô, tentação!
- Eu tenho de ir - digo, tentando mostrar que estou calma, mas não estou. Ele coloca uma mão no meu rosto e começa a me acariciar. Confesso que senti minha pele queimar, meu corpo se arrepiar e minha vagina pulsar.
- Não é o que seus olhos me dizem, muito menos seu corpo. - Adam pega na minha cintura e me junta mais ao seu corpo, em um encaixe perfeito.
- Como você é... Convencido - sussurro e ele dá um meio sorriso que faz meu íntimo se molhar todo.
- Você é tão linda. - Passa o polegar pelos meus lábios, me fazendo fechar os olhos automaticamente, quando os abro ele está me olhando com um sorriso diferente, me despertando do encanto maldito que ele me pusera.
- Com licença.
Junto todas as minhas forças e saio de sua sala, indo correndo para a minha. Dou graças a Deus quando chego lá e não vejo Abby nem Carlos. Me jogo no sofá bege em forma de L que tem no escritório e relaxo.
Meus pensamentos vão logo para o que aconteceu na sala do senhor Lavisck. Que homem mais arrogante! Confesso que gostei, mas isso é errado, ele é errado. Além de ser meu chefe, ele é um grande cretino, que adora foder qualquer uma e eu não sou qualquer uma. Será que ele estava só de zoação com a minha cara? Não, não estava. Se não tivesse saído logo de lá, ele iria me beijar ou até mesmo... Não, isso não pode acontecer! Não posso largar meu emprego, pois preciso dele. Mas posso evitá-lo.
Isso mesmo! Vou fazer o possível para não dar de cara com ele. Não sei como eu reagiria na frente dele depois de hoje.
Nossa, como estou sendo covarde. Essa não sou eu. Sou Isabel Mitchell, que não tem medo de nada. Tenho certeza que ele irá agir como se nada tivesse acontecido, então se vai agir assim, eu também vou.
* * *
No meio da tarde eu aproveito que estou com o tempo livre para sair e vou até a cafeteria do outro lado da rua, compro um copo de cappuccino e volto para a empresa. Assim que o elevador se abre, uma pessoa entra na minha frente, quase me derrubando no chão. Quando ergo o olhar, vejo que não é ninguém menos que Adam Convencido Lavisck.
Azar ou sorte?
- Deveria olhar por onde anda, senhorita Mitchell - diz sem me olhar. Assim que as portas do elevador se fecham, olho para ele, irritada.
- Educação se usa também, sabia? O senhor que saiu atropelando os outros. Não tenho culpa por ser tão... arrogante e mal-educado. Só porque é dono da empresa não pode fazer isso com as pessoas. - Não escondo a minha irritação e simplesmente não consigo me conter em falar umas verdades a esse idiota.
- Vejo que continua abusada.
- Eu nasci assim, sou assim, esse é meu jeito e não vou mudá-lo por ninguém; sinto muito que não gosta - falo bem alto, com direito a mão na cintura e tudo.
Adam fica me encarando com a maior cara de paisagem, mas não por muito tempo, pois logo vejo um sorriso se formar em seus lábios.
- Você fica sexy com raivinha. - Sorri.
- Aff! Não dá para dialogar com o senhor. - As portas do elevador se abrem e aproveito para sair dali o mais rápido possível. Mas antes o escuto dizer:
- Não adianta fugir, menina abusada.- Juro que senti vontade de me virar e lhe mostrar o dedo do meio, mas me contive por dois motivos: ele é meu chefe e não posso ficar falando assim o tempo todo; se eu o olhar mais uma vez, vou acabar me derretendo por aquele sorriso de arrancar calcinha.
Meu Deus, sou muito confusa! Uma hora quero enforcá-lo e outra ficar admirando a sua beleza. Droga! Por que nós mulheres não podemos ter o combo lindo, gentil, inteligente, atencioso, humilde e sedutor?
* * *
- Você está estranha. - Carlos fala, me tirando dos meus devaneios.
- Estou normal. Só um pouco cansada. - Eu não poderia falar "é que o seu irmão gostoso não sai da minha cabeça".
- Qual é, loirinha? Você ficou assim desde que saiu da sala do meu irmão. O que ele te fez?
- Seu irmão é um arrogante - digo sem pensar.
- Adam nem sempre foi assim. Acredite, ele era um amor de pessoa. Se você me acha brincalhão é porque não o conheceu alguns anos atrás. - Essa última frase me desperta a curiosidade.
- E o que aconteceu para ele ficar assim?
- Não posso dizer, é um assunto pessoal dele. Seria errado te contar.
- Te entendo. - Carlos cruza os braços, ergue uma sobrancelha e com um sorriso idiota, pergunta:
- Mas por que esse interesse de saber sobre meu irmão?
- Só curiosidade mesmo em saber como uma pessoa pode ser igual a ele. - Finjo não me importar.
- Sei..., mas, afinal, o que tanto conversou com meu irmão naquela sala? Se ele não te deu uma bronca nem nada, o que vocês tanto conversaram? - pergunta de novo, desconfiado.
- Ele queria saber quem eu era. Disse que nunca tinha me visto por aqui. - Isso é verdade.
- Hum... Sei.
- Carlos, não aconteceu nada. Agora me dá licença que estou morrendo de fome e sono. Só quero ir para casa e dormir. - Pego as minhas coisas.
- Quer carona para casa? Só vou pegar uns documentos, Abby foi embora mais cedo porque já havia adiantado o trabalho. Tenho de passar para buscá-la em casa para irmos jantar e, como é caminho, eu...
- Não precisa, pego um táxi, já está tarde... Não se preocupe. - Me aproximo e dou um beijo em seu rosto, logo em seguida me viro e saio da sala.
Óbvio que não vou pegar táxi, tenho de economizar.
Assim que passo pela porta da minha sala, dou de cara com Adam saindo da dele também; quando ele me vê, vem em minha direção em seguida. Sei que vai soltar mais uma de suas gracinhas, então decido ignorá- lo e sair logo da empresa.
Já no ponto de ônibus, percebo que, pela hora, minha condução já passou, o que me faz ter de aguardar por outra. Isso me incomoda, porque irá demorar e o lugar está muito deserto.
Sinto que estou sendo observada, olho em volta e não vejo ninguém.
Me assusto quando uma mão me puxa.
- Você? - Não tenho certeza que meus olhos estão vendo mesmo ele, os mesmos estão arregalados.
- Oi, princesa, sentiu minha falta? Pensou que tinha me matado não é, lindinha? Se enganou. - Ele me prende contra a parede e aperta meu pescoço.
- Me solta! - grito, o que o faz apertar mais ainda sua mão em meu pescoço.
- Que foi, lindinha? Está com medo de mim? Não foi isso que demonstrou quando tentou me matar, sua vadia - diz com frieza, o que me faz ter mais medo ainda.
- Era para você ter morrido, seu infeliz. - Cuspi as palavras na cara dele, seu sorriso vai sumindo e dando lugar a um olhar de raiva e ódio.
- Antes de matá-la, vou terminar o que comecei junto com o meu pai há alguns anos, querida Bel. - Ele sorri e me empurra para um beco escuro que tem ao lado do ponto de ônibus e me joga no chão, me fazendo bater a cabeça com força. Grito com a dor que o impacto me causa e ouço sua gargalhada ao ouvir meu grito. Ele me acerta um chute na costela. Infeliz!
- Socorro! - Tento gritar novamente, mas não consigo, a dor é tanta que me impede até de falar.
- Faça o que quiser, ninguém vai te ouvir, princesa. Estamos sozinhos, como nos velhos tempos, meu amor. Pena que meu pai não está aqui para participar dessa festinha.
- Seu... pai está... no inferno. - Minha voz sai entrecortada.
- Sim, e por culpa sua. Agora, depois de me divertir com você, também vai fazer companhia a ele, e meu querido pai vai te estuprar no inferno! - vocifera se aproximando.
- Não. - Tento me arrastar para o mais longe possível.
- Acabou, lindinha. - Ele me levanta pelos cabelos e quando estava prestes a tirar a minha blusa, ele para ao escutar uma voz.
- Solta ela! - Olho na direção da voz e me surpreendo. ADAM!
lho para Adam e um arrepio passa pelo meu corpo. Não é de excitação e sim de medo. Não só por mim, mas também por ele. Léon é louco e capaz de qualquer coisa. Só eu sei o tamanho da barbárie que esse
monstro pode cometer e, quando seu pai estava vivo, juntos, eram terríveis.
- Léon, solte-a agora. - Seu tom frio faz o meu corpo todo arrepiar.
- Ora, ora, ora... Olha só quem temos aqui, se não é o grande Alfa!
- Léon fala ironicamente.
Alfa?
- Que coisa linda, pegando mulheres indefesas - provoca Adam.
- Indefesa? Você não a conhece bem. - O asco é nítido em seu tom
de voz.
- Deixe a moça em paz e tudo vai ficar bem - avisa Adam.
- Você não tem nada a ver com isso, Alfa. Essa vadia vai pagar pelo
que fez. - Aponta para mim.
Adam me olha, surpreso, e depois volta o olhar para Léon.
Merda! Todo o meu passado, que eu tanto lutei para esconder, está bem na minha frente!
- Não importa o que ela fez, Léon. Vá embora daqui e a deixe em
paz.
- Você se acha superior, né? Não tenho medo de você e nem do seu bando, Alfa. Nunca tive, mas não vale a pena brigar com você. Pelo menos não agora. - Léon ri, depois se vira para me encarar.
- Não vou esquecer de você, princesa - ameaça friamente e, em seguida, some no meio da escuridão.
Olho para Adam na mesma hora que o vejo correr em minha direção. Ele me pega em seus braços sem dizer uma palavra e me leva até seu carro, estacionado no final do beco. Sinto minha cabeça pesar e a única coisa que vejo antes de cair no sono é Adam me tirando do carro.
* * *
Acordo com uma baita dor de cabeça. Sinto minhas costas doloridas, olho em volta e percebo que não estou no meu quarto, mas é óbvio que não. O quarto que estou é muito grande e luxuoso, tem um toque, digamos... masculino.
Só depois de alguns segundos olhando para esse quarto é que a minha ficha cai.
Oh, meu Deus! Eu estou no quarto do senhor Lavisck! Por que ele me trouxe para cá? Me sinto agradecida por ele ter me salvado ontem, mas não precisava me trazer para a casa dele. Levo a mão à cabeça, sentido uma leve dor, e aquelas malditas lembranças voltam a me assombrar.
Por que ele está vivo? Ele tinha que estar morto! Eu mesma me certifiquei de checar! Ele estava com os batimentos fracos e era impossível alguém tê-lo encontrado ainda vivo e o salvado. Pobre pessoa, não sabe o mal que fez à sociedade salvando a vida daquele monstro.
Sacudo a cabeça para dissipar essas lembranças sombrias e foco no quarto de Adam. Ele é enorme, acho que dá três do meu, ou mais. As paredes vão do preto ao branco, mas tem uma somente de vidro que mostrava uma boa visão da marina de Seattle. A cama é um modelo king size com lençóis e travesseiros brancos; em cada lado da cama tem um abajur todo branco em cima de uma mesinha de madeira envernizada. Vejo três portas da cor branca, uma na minha frente e outra na esquerda, a da direita é uma porta dupla, o
que suponho ser um closet. Me levanto e vou para a porta da esquerda, que talvez possa ser o banheiro, e acerto.
O banheiro tem as mesmas cores do quarto. Tudo organizado, luxuoso e bonito. Na banheira poderiam caber umas cinco pessoas.
Me olho no espelho e só agora percebo que não estou com a minha roupa e sim com uma blusa masculina, branca, de manga comprida, que vai até metade das minhas coxas. Olho por debaixo da roupa e vejo que ainda estou com a minha lingerie, branca. Será que a gente transou?
Não, não, não. Isso não!
Vejo meu reflexo no espelho, mostrando uma mulher completamente derrotada, rosto inchado, cabelo bagunçado e uma dor absurda nas costelas. Aquele infeliz me machucou mesmo.
Saio do quarto e começo a andar pelo grande corredor branco ladeado por inúmeras portas e com piso de madeira. As paredes são compostas por várias obras de arte e ao final há uma enorme escada. Desço os degraus e, quando chego ao último, dou de cara com uma sala gigantesca. Olho em volta e percebo que as cores daqui são as mesmas do quarto. Ando mais um pouco e me deparo com dois enormes sofás, na frente deles tem uma grande TV, de última geração. Há uma parede à minha esquerda, só de vidro, e perto dela está uma entrada. Ando até lá, dando de cara com a cozinha mais linda que já vi na minha vida. Ela é toda branca, com o piso também de madeira. A bancada, os bancos, a mesa... tudo só aumenta o ar de puro luxo da casa.
De repente uma mulher sai por uma porta que até então eu não havia
visto.
- Bom dia, senhorita Mitchell. Sou Bárbara, a governanta da casa.
- A senhora aparenta estar na casa dos 50 anos, bem vestida e ao mesmo tempo simples. Ela é baixinha, morena, tem os olhos castanhos e o cabelo preto com alguns fios brancos, presos em um coque perfeito. A mulher é muito bonita.
- Bom dia. Me chame de Isabel, ou Bel, se preferir. - Sorrio envergonhada.
- Isabel... Um nome bonito para uma jovem tão linda. - Coro com o seu elogio.
- Me desculpe pelas minhas vestimentas. - Ela sorri de novo.
- Não tem problema.
Ela deve estar acostumada a ver mulheres vestidas assim por aqui.
Deve achar que sou como as outras, penso.
- Onde está o senhor Lavisck?
- Ele foi correr, como faz todas as manhãs. Logo estará aqui.
- Oh, sim. - Ela começa a ajeitar tudo que suponho ser para o café da manhã. Com muita vergonha, eu pergunto.
- Quer ajuda?
- Tudo bem, menina, não precisa ajudar - responde sem graça.
- Mas é claro que sim, quero te ajudar. - Levanto-me e vou até onde ela está.
- Obrigada.
- Trabalha há muito tempo com o Adam? - indago para passar o
tempo.
- Sim! O conheço desde que nasceu. Fui babá dele e o tenho como
um filho. Quando ele saiu da casa dos pais, digamos que me "sequestrou" para trabalhar para ele. Faz dez anos que ele mora aqui e que eu trabalho somente para ele e para a sua filha de oito anos.
Filha?
- Eu não sabia que ele era casado. - Estou chocada.
- Mas meu menino não é casado. A mãe da menina Sophia a abandonou assim que ela nasceu. A pequena nasceu com deficiência auditiva; largou ela com o pai e sumiu por aí... - Que mãe faria isso com uma filha?
- Deus! Que espécie de mãe essa mulher é? - falo ainda sem acreditar.
- Ela era noiva dele... - Bárbara diz pensativa.
- E o que houve para ela desistir de tudo? - pergunto curiosa.
- Bom, essa parte eu não sei muito bem, mas pelo que entendi, ela
fugiu com um amigo do Adam. Acho que eles eram amantes. - Que porra!
- Nossa, que coisa triste! Deve ser terrível uma pessoa que amamos fazer algo desse tipo conosco.
- Sim, mas meu Adam faz tudo pela filha dele, ela é a razão da sua
vida.
- Eu posso imaginar. - Sorrio. - Onde ela está agora?
- O menino Adam leva a sua filha para a escola todos os dias pela
manhã; eles sempre vão andando, já que a escola fica próxima daqui. Depois de a deixar lá ele vai correr. - Ela para de falar e me encara. - Desculpe, mas juro ter a impressão de já te conhecer... - diz, pensativa.
- Deve ser só impressão mesmo - murmuro ainda pensando no fato de Adam já ter uma filha e, ainda de quebra, ter sido abandonado pela noiva.
- Não, é que você me lembra muito a...
- Bom dia. - Uma voz incrivelmente sexy ecoa pela cozinha, interrompendo Bárbara.
Quando olho para trás, vejo Adam com somente uma toalha enrolada na cintura, os cabelos molhados, parecendo ter acabado de sair do banho.
Nossa senhora das periquitas pegando fogo, chama o bombeiro porque a minha está em chamas! Deus! Que homem mais gostoso. E esse tanquinho? Acho que molhei a minha calcinha.
- Adam, vá colocar uma roupa, por favor. - Bárbara ordena e Adam ri, se aproximando dela.
- Que foi, Bah? Não resiste a mim, não é? - Ele ri.
- Olha, menino... Eu vou te dar umas chineladas, hein! - Ela tenta ficar séria, mas não consegue.
- Oi, Isabel. - Me cumprimenta com a sua voz sexy. Nossa, que calor que ficou aqui de repente.
- Oi. - É a única coisa que consigo dizer.
-Trouxe umas roupas para você vestir, estão lá no quarto. A sua estava muito suja, então mandei lavá-las. - Isso explica por que estou com
esta blusa.
- Foi você que tirou a minha roupa? - sussurro sentindo minhas bochechas ruborizarem.
- Sim. - Ele se aproxima.
- Por que me trouxe para sua casa? - pergunto, hipnotizada pelo seu olhar.
- Porque eu quis. - Ele responde tão próximo de mim que posso sentir o calor do seu corpo.
- Jura que vai bancar o arrogante agora? - Adam ergue uma sobrancelha e sorri.
- Eu só respondi a sua pergunta.
Escuto a campainha tocar e Bárbara sai para atender.
- Você é tão idiota - murmuro.
- E você é muito mal-agradecida. - Sou pega de surpresa quando os braços de Adam circulam a minha cintura, me puxando para si.
- Mas o que...
- Salvei sua vida ontem, poderia apenas me agradecer - sussurra bem próximo do meu rosto.
- Obrigada, mas mesmo assim, tenho muitas perguntas para te fazer.
- Olho bem nos seus olhos.
- Eu também. - Adam vai se aproximando dos meus lábios aos poucos e quando vai me beijar...
- Maninho, sábado temos... Nossa! - Desvio o olhar de Adam e vejo Carlos com os olhos arregalados nos encarando. Olho para ele querendo enfiar minha cabeça em um buraco bem fundo.
MERDA!
Sinto que estou vermelha feito um tomate. Ai Deus! Onde foi que eu me enfiei? Por que essa peste me trouxe para a casa dele?
- Carlos, eu posso explicar... - Tento me manter calma.
- Você não precisa me explicar nada, loirinha. O que você e meu irmão fazem não é da minha conta. Só que isso é estranho. - Carlos tenta reprimir uma risada.
- E por que seria estranho? - Adam pergunta. Olho para ele com os olhos arregalados.
Ele é louco? Quer piorar ainda mais a situação?
- Está na cara, Adam. Ela é bem mais nova que você, é atrapalhada, e você detesta pessoas assim, ela adora contrariar todo mundo e você odeia ser contrariado, ela fala mal de você e ainda por cima é alegre e você sério. Quase nunca te vejo rir como eu vi há alguns minutos. - Já posso matar o Carlos?
- Carlos, seu bastardo - falo irritada.
- Então quer dizer que ela fala mal de mim? Interessante - comenta Adam, com um meio sorriso. Deus, que sorriso!
Espera! Por que ele está sorrindo? Por saber que falo mal dele?
Definitivamente ele é estranho.
- Desculpa, loirinha, mas é que eu fui pego de surpresa. Nunca, em hipótese alguma, poderia imaginar que vocês....
- Não fizemos nada. Não estamos juntos, não aconteceu nada do que está pensando. - O interrompo.
- Pode até ser, mas é difícil imaginar o contrário vendo vocês nessa situação. - Aponta para nós dois.
- Chega! Eu vou me trocar, quero ir embora. - Saio da cozinha batendo os pés.
Onde já se viu, eu e aquele irritante do Adam juntos? Isso sim é impossível. Só Carlos mesmo para pensar essas coisas absurdas.
- Adam Lavisck -
- O que a Bel realmente estava fazendo aqui, Adam? - Carlos questiona me tirando do transe.
Eu estava olhando-a sair da cozinha, admirado com aquela bunda
mexendo para lá e para cá. Como ela é gostosa.
- Ontem à noite um homem tentou estuprá-la no beco escuro perto do ponto de ônibus próximo da empresa. Cheguei a tempo de impedir que o pior acontecesse. Com a confusão ela acabou desmaiando, e eu a trouxe para cá - digo naturalmente.
Boa parte disso é verdade, mas é óbvio que não irei contar o que realmente aconteceu naquele beco. Seria arriscado demais para mim. Carlos não precisa saber que reencontrei Léon.
- Eu já falei para ela inúmeras vezes que quando sair tarde do trabalho me pedir para levá-la, mas ela não me escuta... Eu também fui idiota; antes de sair, Isabel estava conversando comigo. Deus! Poderia ter acontecido algo pior - diz Carlos chocado.
- São tão íntimos a ponto de se sentir responsável por ela? Aliás, eu nunca a tinha visto na empresa.
- Isso é estranho. Você sempre sabe de tudo ali - fala, debochando.
- Muito engraçado - ironizo.
- Hiz e Jena devem estar muito preocupados com ela.
- Quem são eles? - pergunto.
- São os pais adotivos da Isabel.
- Ela é adotada? - Será que ela é... Não, não é possível.
- Sim, ela me contou um pouco da sua história e o pouco que ouvi já me fez sentir mal por ela.
- E o que ela te disse?
- É o passado dela, Adam. Não posso contar. Ela confiou em mim e na Abby para isso. Abby sabe mais do que eu, inclusive.
- Quando vai assumir logo que você é gamado na minha secretária?
- indago lhe dando um tapa no braço.
- Por mim já teria assumido, ela que não quer. Tem medo do que as pessoas vão dizer dela.
- Isso não tem nada a ver. - Realmente não tem.
- Você falando essas coisas para mim? Quem é você e cadê meu irmão? - Ele ri.
Eu sei que mudei muito de uns anos para cá. Me tornei muito frio com as pessoas, incluindo a minha família. Mas ainda sim, eu os amo demais.
- Sou seu irmão, Carlos, sempre que precisar estou aqui. Abbygrey é uma mulher boa e gentil, não é igual as outras da empresa ou as que você já comeu - digo seriamente.
- Isso é verdade. Gosto muito dela e nunca me senti assim antes com mulher nenhuma - confessa, sorrindo igual a um idiota.
- Pelo seu sorriso idiota, deu para perceber - debocho.
- Está muito brincalhão hoje, o que é raro. Isso tudo é por causa da
Isabel?
Realmente isso é raro. Para falar a verdade, nem eu sei por que estou
de bom humor hoje, penso.
- Não, claro que não - respondo rapidamente. É claro que não é por causa dessa garota.
- Sei - diz desconfiado.
- Já reparou no sobrenome dela, Carlos? - pergunto querendo mudar de assunto.
- Mitchell. O que tem de mais nisso?
- Lembra da Julia e do Benjamin?
- Lembro sim... Espera, agora parando para pensar. Você acha que ela é... - Ele não consegue terminar a frase.
- É possível. Tem anos, mas mesmo assim, a semelhança entre elas é incrível.
- Eu achava que o sobrenome era só uma coincidência, acho que por isso me aproximei tanto dela - confessa.
- E ainda por cima elas são bem parecidas - murmuro pensativo.
- Podemos perguntar mais sobre ela - sugere Carlos.
- Não, talvez ela não seja e não queremos que mais ninguém saiba
disso, prometemos a mamãe que esse seria um segredo que jamais seria revelado e que o levaríamos para o túmulo.
- Então o que iremos fazer?
- Será que a mamãe iria reconhecê-la? - pergunto.
- Provavelmente sim. Mas como iremos levar Isabel até a casa da nossa mãe sem que ela desconfie de algo? - Carlos indaga.
- Não sei, mas também poderemos levar a mamãe até a empresa.
Seria mais fácil.
- Sim, mas com qual desculpa?
- Não sei, mas vamos pensar em alguma coisa; também não podemos comentar nada com a dona Kátia, não queremos dar falsas esperanças a ela. - Carlos concorda.
- Olha, já está na minha hora e tenho uma reunião importante agora de manhã.
- O que você veio fazer aqui mesmo?
- Saber se no sábado você vai mesmo para o baile de máscaras que a mamãe está organizando. Ela me obrigou a vir aqui e intimá-lo a ir. Espero, pelo seu bem, que vá. - Sorrio, imaginando minha mãe obrigando Carlos a vir aqui.
Dona Kátia é uma mulher de personalidade bem forte. Não é à toa que sou assim, conheço minha mãe e foi a ela que puxei. A amo e, como sempre, ela consegue me convencer a fazer as coisas que detesto, como ir a esse tipo de festa, por exemplo.
- Vou sim, pode avisar a ela. Agora me deixe subir que tenho de me arrumar para ir para a empresa. - Me despeço do Carlos e subo para meu quarto. Antes que abra a porta, ouço a voz de Isabel que parece falar ao telefone.
Sei que é feio ouvir atrás da porta a conversa dos outros, mas preciso saber mais sobre essa menina. Ela é um mistério que quero desvendar.
- Desculpe, Hiz... Quando chegar à casa lhe explico tudo... Sim, aquele homem que te falei que me fez mal no passado voltou... Estou bem, sim, o meu chefe me salvou dele... Ele perguntou sim, mas sabe como sou, a
vida é minha e ele não tem nada a ver... Sim, entendo... Diga para Jena e Pedro não se preocuparem... Vou ter de desligar... Tchau.
Quando ela termina a ligação eu entro no quarto. Ela se assusta e eu me assusto mais ainda com a cena diante dos meus olhos.
Isabel está em pé, de lingerie branca, encostada na porta do banheiro. Merda, como ela é gostosa! Eu a vi assim quando tirei sua roupa para pôr uma blusa minha, mas agora, olhando-a por completo, sinto meu pau latejar.
Droga, eu não posso! Ela corre para o banheiro, se trancando lá, e eu fico com cara de idiota encarando a porta por onde ela passou.
Como pode uma menina da idade dela ser tão gostosa assim? Deus, ela é uma tentação de mulher. Deveria ser proibida de andar por aí de tão linda que é.
Balanço a minha cabeça. Controle-se, Adam, ela é só uma menina e, se suas suspeitas estiverem certas, você nunca poderá tê-la. Nunca!