1º Capít lo
Quatro anos se passaram depois da minha revelação aos meus pais. No
início pareceu que meu pai não ficou muito satisfeito que eu namorasse a
Sabrina, mas depois de um tempo ele se acostumou com a ideia.
Nesse tempo eu tive altos e baixos com a Sabrina. Ela é complicada.
Quando cisma com alguma coisa, insiste até você confirmar. Minha mãe diz
que ela é mimada e que não mede esforços para conseguir o que quer.
Não acredito que seja uma coisa assim tão radical... Sabrina não faria mal a
alguém só para conseguir o que quer, não é? Eu acho que não. Ela só não sabe
ouvir um não quando quer algo. Os pais dela sempre tiveram dinheiro, mas
agora parece que o pai está tendo problemas no trabalho. Eu não sei ainda o
que é e a Sabrina fica furiosa quando tocam nesse assunto.
Meu pai milagrosamente estava em casa para o almoço e assim pude
perguntar. Ele é bem chegado ao pai da Sabrina.
- Pai?
- Oi, filho.
- O que aconteceu com o pai da Sabrina?
Ele ficou em silêncio me olhando por um momento.
- Ela não contou?
- Não. Na verdade, toda vez que alguém pergunta ela fica estressada,
então não quero tocar no assunto.
- Imagino mesmo o porquê de tanta revolta.
- Me diga então.
- O pai dela faliu.
- Faliu? Como?
- Ao que parece não pagava impostos... E também descobriram um
bocado de falcatruas na empresa dele.
- Jura?
- Qual a surpresa? Achou que ele fosse um homem honesto?
- Na verdade, achei. Você sabia que ele fazia essas coisas?
Meu pai suspirou e mexeu na comida sem prestar muita atenção ao que
fazia.
- Sim. Falei muitas vezes que um dia isso poderia dar problemas, mas ele
não quis me ouvir.
- Hum...
- Sabrina deve estar de mau humor, pois agora não terá mais a vida de
princesa que está acostumada.
- Mesmo que isso seja bem chato, ela tem emprego e ganha um salário.
Depois deve se acostumar.
Meu pai soltou uma sonora risada e eu franzi a testa. Qual a piada?
- Meu filho você não sabe que ela só está naquele emprego para encher
linguiça?
- Como assim?
- Geraldo deu um intimado. Ou ela arrumava um emprego, ou perdia a
mesada que ganha.
- Mas se ela arrumasse um emprego, qual a lógica da mesada continuar?
- A mesada é obscena, Daniel. Ele fez isso só pra ver se a Sabrina criava
um pouquinho de responsabilidade na vida. Mas pelo jeito... - A frase morreu
na boca dele e percebi que me olhou de um jeito esquisito.
- O que?
- Melhor mudarmos de assunto. Não quero que pense que estou falando
mal da sua namorada.
- Mas está? - perguntei calmo.
- Não. Só contei o que sei.
- Então pronto. Não vou achar nada.
- Tudo bem, mas vamos mudar de assunto. Chegaram dois novos
cavalos no Haras hoje. Quer conhecê-los?
- Claro. Você comprou?
- Ainda não... - Fez suspense.
- Hum... Que horas você vai?
- Depois de comer.
- Tá bom - falei sorrindo.
Adoro ficar no Haras. Principalmente quando tem algum cavalo novo.
Comecei a treinar salto há uns anos e gosto muito do que faço. Estou
pensando em começar a dar aulas lá...
Ao chegarmos ao Haras, meu pai pediu para ir até o estábulo e que os
cavalos estavam lá, mas não veio comigo. Dei de ombros e fui. Lá encontrei o
Miguel.
- Oi, Miguel. Meu pai falou que tem dois cavalos novos.
- Ah sim. Chegaram hoje de manhã. Vem cá. - Fez um movimento
pedindo para segui-lo.
Fui atrás dele e parei quando ele parou. Era um cavalo marrom com
manchas brancas. Bem bonito.
- Esse aqui tem dois anos. Disseram já ser adestrado e é bem manso. -
Passou a mão no focinho do cavalo e ele ficou parado.
- É bem bonito.
- Vamos ver o outro.
Segui ele até o fim do estábulo e assim que olhei o cavalo que estava lá
dentro, fiquei um longo momento sem piscar. Era o cavalo mais bonito que eu
já vi na minha vida! Todo preto. A crina lisa caia de um lado da cabeça e ele
brilhava de um jeito exuberante. Estava no final da baia, bem distante da porta.
Me aproximei e ele me olhou.
- Er... Sr. Daniel, não se aproxime muito...
- Por que não?
- Esse não é manso como o outro.
- É selvagem? - Virei meu rosto na direção de Miguel.
Sabe aquelas histórias de que pegam cavalos selvagens para adestrar?
Detesto esse tipo de coisa! Se o animal já está acostumado a ser livre, que
continue sendo!
- Bem, o dono diz que nasceu na fazenda dele, mas que nunca deixou
ninguém o montar.
- Sei... - Voltei a olhar o cavalo. Ele continuava no canto da baia e não
tirava os olhos de mim.
- Qual o Sr. gostou mais?
- Desse.
- Mas ele é indomesticado.
- Por que meu pai trouxe eles dois? - Voltei a olhar Miguel.
- Ele não disse?
- Não.
- Bem, então melhor perguntar a ele.
Franzi a testa e voltei a olhar o cavalo. Parecia hipnotizado. Estava do
mesmo jeito desde que me viu.
- Vou falar com ele então.
Segui até o escritório do meu pai e lá encontrei ele e o Rodrigo, que me
cumprimentou com um aperto de mão.
- E aí? Gostou deles?
- São lindos. Mas por que trouxe eles?
Meu pai sorriu largamente e eu pisquei, confuso.
- É seu presente de aniversário, filho.
Arregalei os olhos. Um cavalo? De aniversário? Será que meu pai sabe que
um presente é uma lembrança, ou uma blusa nova, ou qualquer coisa menos
extravagante, ou cara?
- Mas...
- Você não disse que queria começar a entrar em competições?
- Sim, mas...
- Então pronto! Precisa de um cavalo seu. Somente seu.
- É, mas...
- Ótimo! Estamos entendidos! Qual você escolheu?
Suspirei derrotado.
- O preto.
- Tem certeza? - Rodrigo perguntou.
- Sim.
- Mas ele não está adestrado.
- Tudo bem. Não tem problema - falei olhando meu pai, que sorria
largamente me olhando.
- Que coisa boa! Qual nome vai dar a ele?
- Ainda não sei. Vou ver como ele se comporta primeiro.
Depois de conversar com meu pai e tomar a decisão de ficar com o cavalo
preto, fiquei muito empolgado com a ideia. Rodrigo pareceu não aprovar
minha escolha, mas se o presente é meu, quem escolhe sou eu, certo?
Queria pegar o cavalo e montar, mas não deixaram. Miguel e Rodrigo
foram categóricos: nada de montar o cavalo até que se acostume. Tudo bem.
Eles não estão errados, mas eu estava tão empolgado que queria logo! Miguel
chegou a trancar a porta da baia... Não tenho cinco anos! Não vou entrar lá se
falaram que ele é indomesticado.
Não sei porque, mas não acho que seja...
Parei em frente a baia dele. Pelo menos a porta de cima o Miguel deixou
aberta e assim eu o vejo dali. Continuava no canto afastado da porta. Por um
momento passou pela minha cabeça que ele estava era com medo, mas no
segundo em que ele se aproximou da porta, eu quase corri, mas resolvi não me
mover e esperei para ver o que ele ia fazer.
O cavalo se aproximou da porta, mas não muito e ficou me encarando.
Fiquei parado no mesmo lugar olhando-o. Sempre gostei de cavalo, mas esse
tem algo a mais que não sei explicar...
Durante um bom tempo ele ficou no mesmo lugar me encarando. Achei
realmente que estivesse com medo e por isso não se aproximava, porém, ele
bufou e sacudiu a cabeça. Nesse momento fiquei tenso, mas não saí do lugar.
Ele se aproximou da porta lentamente. Os olhos presos em mim.
Agora estávamos um de frente para o outro, mas não me movi. Ele
esticou o pescoço na minha direção e então levantei a mão para acariciá-lo. Isso
bem lentamente. Toquei seu focinho delicadamente e ele balançou a cauda.
Logo moveu rápido a cabeça e por um momento achei que perderia os dedos,
mas ele só cheirou minha mão, para logo depois esfregar o focinho.
Sorri largamente e continuei acariciando-o delicadamente.
- Acho que é o começo de uma bela amizade, não é rapaz?
Ele bufou como se respondesse à pergunta.
À noite encontrei a Sabrina. Estávamos em um restaurante. Ela sempre
queria sair à noite e tinha que ser em um lugar bem chique e caro. Ela falava
sem parar sobre a escola e o quanto odiava aqueles adolescentes mimados e
respondões. Que se pudesse saia daquele lugar e de preferência dava na cara de
alguém. Disse que tinha um garoto que sempre a respondia atravessado e que a
única coisa que fez ele parar foi quando disse ser filha da diretora. Assim o
garoto passou a ser um anjo.
Sabrina continuou falando e falando, mas minha cabeça estava em outro
lugar. Pensava no cavalo preto e na possibilidade dele me deixar montá-lo. Isso
me empolgava demais! Nunca quis tanto subir em um cavalo bravo como
quero subir nele.
- Está me ouvindo?
- Claro que sim. - Me ajeitei na cadeira.
- Então...
Desviei o olhar dela, não é que eu ignore o que ela diz. É só que eu a
deixo falar e falar porque assim fica menos estressada, mas isso não quer dizer
que eu escute tudo o que ela fala. Até porque chega um momento que minha
mente vaga para outro lugar. Talvez um lugar mais alegre e com menos
reclamação...
Pensei de novo no cavalo e sorri. Ainda tenho que escolher seu nome.
- Está sorrindo pra quem?
- O que? - falei confuso.
- É aquela garota? - Apontou descaradamente para uma menina
sentada na mesa ao lado.
- Não estou sorrindo pra ninguém, Sabrina!
- Não se faça de idiota! Eu vi muito bem! - falou alto.
Olhei ao redor e as pessoas estavam olhando a gente.
- Para de falar alto, as pessoas estão olhando...
Ela olhou ao redor e ao perceber a mesma coisa que eu, amarrou a cara e
não falou mais nada. Sempre odiou pessoas escandalosas. E no momento ela
estava sendo uma dessas pessoas e sei que a raiva deve estar maior ainda agora.
Mas pelo menos não vai continuar gritando aqui.
Pedi a conta. Depois desse escândalo o melhor era ir para casa. Saímos do
restaurante e entramos no táxi. Sabrina não falou nada. O silêncio me
preocupa, pois acredito que quando for falar, não vai parar mais.
Tenho culpa por pensar em outras coisas quando ela só sabe reclamar?
O carro parou em frente ao apartamento dela. Desci do carro e
acompanhei até a portaria.
- Nunca mais sorria pra outra na minha frente!
- Sabrina eu não sorri pra ninguém.
- Eu vi muito bem! Não me faça parecer retardada! - Percebi que se
controlou para não gritar.
- Não sorri pra ninguém. Só me lembrei de uma coisa.
- Ah! Então nem prestava atenção no que eu falava?
- Você passou as últimas três horas falando sem parar! Eu nem tive
chance de contar as minhas coisas! - falei irritado.
Sabrina ficou em silêncio me encarando.
- Eu tenho que ir. - Virei as costas e segui para o carro, mas Sabrina
me segurou pela camisa. Respirei fundo. Estou cansado e quero ir embora
logo...
- Tudo bem. Me desculpe.
Franzi a testa e virei de frente para ela.
- É que eu estou estressada com as coisas aqui em casa. Aí nem notei
que... bem, não te ouvi.
- Sei...
- Você me desculpa? - Me puxou para mais perto.
- Tudo bem.
Ela sorriu largamente.
Me despedi dela e voltei para o táxi. Em alguns minutos, finalmente estava
em casa. Tomei banho e deitei na cama. Não sei se vou conseguir dormir.
Estou muito empolgado com meu cavalo novo...
Todos os dias eu visitava o cavalo e fazia carinho nele. Tinha que ter
paciência, então antes de tentar montar, queria que ele tivesse total confiança
em mim. E eu nele, é claro.
Depois de umas semanas o levei para fora depois de selá-lo. Diferente do
que Miguel achou, ele deixou fazer isso tranquilamente.
- Tem certeza? - Miguel perguntou visivelmente preocupado.
- Tenho e estou usando todos os equipamentos de proteção.
Miguel suspirou e se afastou. Me aproximei do cavalo e acariciei seu
focinho. Logo subi em suas costas. Esperei para ver a reação, mas ele ficou
parado. Arrisquei puxar a rédea para o lado e ele andou para o lado que eu
puxei. Fiz de novo para o outro lado e ele obedeceu.
Olhei Miguel com um grande sorriso e ele me devolveu um sorriso
nervoso.
Fiz o cavalo começar a andar e ele foi sem relutar. Quando percebi que ele
não me negava, fiz ele correr pelo lugar com a maior velocidade que consegui.
E põe veloz nisso! Acho que vou chamá-lo de Veloz.
Não... isso é muito clichê. Se bem que não me importo com isso. Mas
Veloz? Veloz... hum... Puxei as rédeas e ele parou.
- O que acha de Veloz?
Ele bufou e bateu a pata da frente no chão.
- Hum... Relâmpago?
Ele balançou a cabeça e bufou de novo.
- Tá... E que tal.... Cometa?
Agora ele relinchou alto e deu uns passos para trás, me fazendo agarrar as
rédeas. Achei que fosse me derrubar...
- Tudo bem. Então, Cometa.
2º Capít lo
Depois de montar a primeira vez, não queria saber de outra coisa. A
melhor sensação do mundo é estar em cima de um cavalo e isso é ainda melhor
sendo com o Cometa. Não sei explicar, mas é um sentimento intenso. Sinto
que ele me entende.
Tinha acabado de levá-lo para dentro da baia e minha mãe apareceu.
Fechei a porta da baia e olhei para ela. Sorria olhando o Cometa, mas estava
distante dele.
É melhor assim. Ele não gosta que ninguém se aproxime. Não sei porque
me aceita. Até que agora ele deixa o Miguel colocá-lo dentro da baia. Antes ele
não gostava nem disso. E acredito que deixe somente por saber que é o Miguel
que vai soltá-lo para pegar sol...
- Está apaixonado, não é?
- Sempre fui, mas ele me fez ficar mais ainda.
Minha mãe sorriu e olhou o Cometa. A porta de cima estava aberta e ele
tinha a cabeça para fora e não tirava os olhos de mim.
- Ele parece ter adoração por você...
- É. Isso é estranho, não é? Só eu consigo fazer as coisas nele.
Escovação, limpeza de cascos e montar, é claro. As únicas coisas que ele deixa
o Miguel fazer é soltá-lo e colocá-lo de volta aqui dentro e claro, também deixa
ele colocar a comida.
Minha mãe riu bem-humorada.
- Claro que deixa colocar a comida. E em nada me surpreende ele gostar
de você.
- Só de mim - corrigi.
- Sim. Não me surpreende.
- Por quê?
- Os cavalos podem ver a alma das pessoas. Você deve ter muita luz,
meu filho.
- Como assim mãe?
- Você é muito sensível e puro, Daniel.
- Puro? - Dei uma risada. - Acho que não...
- Pureza nem sempre vem do que você pensa. Você é uma pessoa
honesta e verdadeira e isso te faz especial. Mais perto da luz. - Sorriu
calorosamente. - Mais perto de Deus.
Levantei as sobrancelhas.
- Só por não gostar de mentiras? Não sou nenhum santo, mãe.
- Eu disse que era?
- Não, mas não acho que seja desse jeito...
- Bem, talvez para o Cometa, seja - disse calma.
Olhei o Cometa e ele continuava me olhando. Não sei o motivo de ele
gostar de mim e não tenho como perguntar, pois ele não vai me responder.
Até porque se ele responder eu corro muito...
Os meses se passaram e eu continuava com a minha rotina. A diferença é
que agora eu treinava com o Cometa. Saltar com ele era tão fácil, que eu
comecei a pensar que os outros cavalos que usei estavam com preguiça... Mas o
Rodrigo disse que nós dois temos uma afinidade enorme e isso facilita muito.
Devo concordar com isso.
Também falei com meu pai sobre a ideia de dar aulas e ele ficou
extremamente feliz. Quem não gostou da ideia foi a Sabrina, pois assim eu
tinha menos tempo para fazer as vontades dela. Isso porque ficava muito
cansado depois dos treinos e aulas.
Estava explicando umas táticas aos meus alunos quando o Rodrigo
apareceu com um semblante estranho.
- Pode vir aqui?
- Que foi?
Ele passou a mão na cabeça com nervosismo. Pedi licença aos alunos e fui
com o Rodrigo para longe.
- Aconteceu alguma coisa?
- Seu pai ligou agora e...
- O que?
- Aconteceu uma tragédia... Desculpe, mas eu não sei como dizer isso
sem assustar.
- Já estou assustado, Rodrigo!
- Ok... Sua mãe sofreu um acidente de carro.
Senti o sangue sumir do rosto.
- Ela está bem?
- A batida foi muito violenta.
- Ela está bem, Rodrigo?
- Os dois motoristas não resistiram ao impacto - falou com um pesar
na voz.
Desviei o olhar. Minha mãe nunca deixava dirigirem para ela. Amava
dirigir e ir onde bem entendesse sem precisar de ninguém. Engoli em seco.
Talvez meu pai devesse ter insistido mais...
Fiquei desnorteado e sem saber o que fazer depois do que o Rodrigo me
contou. Tentei falar com a Sabrina, mas ela não me atendeu. Liguei para o meu
pai e ele disse que estava resolvendo tudo e para eu ficar tranquilo.
Como me pede uma coisa dessas?
Fui para casa e lá encontrei a Rosa. Ela me abraçou calorosamente e só
nesse momento eu consegui chorar. Fiquei tão sem reação com a notícia que
nem isso eu consegui fazer. Parecia mentira...
Umas horas depois meu pai ligou para avisar que estava tudo pronto para
o velório. Nesse tempo a Rosa ficou comigo e fez chá e algumas coisas para
comer, mas eu só consegui beber, nada que não fosse líquido passaria pela
minha garganta. Isso porque eu sentia como se ela estivesse apertada...
Rosa abriu a porta do apartamento. Estou tão avoado que nem ouvi o
interfone tocar... Erik e Júlio apareceram com ela. Eles se aproximaram de mim
e me deram um abraço apertado. Pelo menos meus amigos estão comigo nesse
momento, já a Sabrina...
Ela já deve estar sabendo. Já saiu até na televisão.
Essa situação é tão horrível que nem consigo conversar. Os dois falavam
baixo um com o outro ou com a Rosa. Mas eu fiquei em silêncio. Lembrava do
dia que minha mãe me deu a casa...
(...)
- Onde estamos indo?
- Deixa de ser curioso, menino! Já vai saber - disse sorrindo.
Apoiei o cotovelo na porta do carro e olhei para fora do vidro. Minha mãe
me tirou da cama dizendo que tinha uma grande surpresa, mas não quis dizer
qual era a surpresa e que eu veria com meus próprios olhos.
Suspenses me deixam nervoso...
Ela parou em frente a um portão e tocou o interfone. Será que me trouxe
para visitar alguma amiga? Espero que não. Porque sempre que me veem elas
ficam: "Nossa como ele cresceu!", "Já está um homem!".
Será que elas não sabem que isso é muito chato?
Assim que ela entrou com o carro, observei o local. Nunca vim aqui.
Olhei confuso para minha mãe e ela apenas sorriu. Depois de umas voltas pelo
condomínio, ela parou o carro em frente a uma casa.
- Vamos.
- Aonde?
- Chega de perguntas! - Saiu do carro.
Resmunguei contrariado e saí também. Segui minha mãe, que abriu a
porta da casa e entrou. Observei o local com curiosidade. Era grande e estava
vazio.
- Vamos dar uma olhadinha e me diga o que achou.
- Por quê?
- Eu disse sem perguntas.
Ela me mostrou todos os cômodos da casa e todos estavam vazios. A casa
era grande. Dois quartos no segundo andar, sendo suítes. Cozinha espaçosa,
sala de estar e outro banheiro no primeiro andar. E uma garagem grande.
- Gostou?
- É bem grande.
- E aconchegante?
- É - concordei. - É bem grande e aconchegante.
Minha mãe sorriu largamente quando falei isso. Franzi a testa. Ela estava
muito estranha!
- Que bom que gostou, filho, pois é sua.
Durante longos segundos fiquei encarando-a de boca aberta. Minha?
- Como assim?
- Essa casa é sua. Andei pesquisando e encontrei. Achei maravilhosa e
logo pensei em você.
- Mas eu não disse nada sobre casa pra mim...
- Sei que não, filho. Só que vai chegar um momento na sua vida, que vai
precisar de um lugar para viver com alguém.
- Sei, mas acho que isso está longe de acontecer.
- Mas já está garantido. - Piscou o olho pra mim.
- Isso é um absurdo, mãe!
- Não vai fazer desfeita com sua mãe, não é? - Cruzou os braços
fingindo estar brava.
Respirei fundo e olhei a casa de novo. Balancei a cabeça em negação.
- Tá... Talvez eu precise dela um dia, mas só quando realmente for me
casar ou coisa assim...
Ela sorriu largamente.
- Só me prometa uma coisa...
- O que?
- Só vai morar aqui com a pessoa que amar de verdade.
- Como assim de verdade?
- A pessoa que vai mexer com você de um jeito que você não vai
compreender nem a si mesmo.
Franzi a testa.
- Eu amo a Sabrina.
Minha mãe sorriu e se aproximou de mim apoiando as mãos nos meus
ombros.
- Ela te confunde de outras formas, querido. Estou falando de amor
verdadeiro.
- Acha que a Sabrina não me ama?
- Acho que ela ama a si própria e só isso.
Fiquei em silêncio. Às vezes ela age estranho, mas gosta de mim sim. Eu
acho...
- Promete?
- Tá bom. Prometo. Apesar de não saber do que você está falando.
Minha mãe sorriu e acariciou meu rosto.
- Acredite. Você vai descobrir.
(...)
Suspirei com a lembrança. Ainda não faço ideia do que é o que ela me
disse. Sabrina me deixa louco sim, louco de raiva, louco de fúria, entre outros.
O que mais me irrita é essa falta de consideração. Quando acontece algo ruim
com ela, vem direto me procurar, mas quando é para me ajudar, ela nunca pode.
Isso me faz pensar certas coisas...
Pensei em convidar ela para ir na minha casa. Mas ainda não tenho certeza
se vai ser boa ideia. Isso por causa do que a minha mãe falou em relação a ela...
- Vamos, cara?
- Onde? - perguntei perdido.
Não prestava atenção na conversa deles. Os dois trocaram olhares e a
Rosa se aproximou apoiando a mão no meu ombro.
- Seu pai já está na capela.
Depois de um tempo cheguei na capela que o corpo seria velado. Fiquei
do lado de fora por um bom tempo. A Rosa entrou. Acho que foi procurar
meu pai.
- Sinto muito mesmo, cara - disse Júlio tocando meu ombro.
- Eu também - falei baixo.
Meu pai apareceu com a Rosa e me abraçou apertado. Por algum motivo
eu não conseguia chorar mais. Ele derramava lágrimas silenciosas apoiado em
meu peito, mas eu não conseguia.
Fiquei o tempo todo no canto do local. Não conseguia me aproximar do
caixão. Vários parentes vieram falar comigo, tentando transmitir algum
sentimento, mas o único que eu sentia de cada um era pena e isso estava
começando a me irritar.
Passamos a noite na capela.
Na hora do enterro eu não consegui olhar. Fui o único que ficou distante,
até que a Rosa se aproximou de mim e segurou minha mão. Ela não falou nada
e agradeci mentalmente por isso. Não queria falar. Só queria ficar quieto e
fingir que esse dia não existiu...
Dois dias depois a Sabrina me ligou.
Não foi no enterro da minha mãe, não falou comigo nesses dias e muito
menos me deu força.
O que ela quer?
- Oi - atendi de modo frio.
- Oi... Será que a gente pode conversar?
- Sobre o que?
- Não quero falar por telefone, Dani.
Respirei fundo. Não saí de casa desde o terrível dia.
- Não vou sair de casa - falei com grosseria. Tenho muitos motivos
para nem atender a ligação dela.
- Posso ir aí?
- Você que sabe.
- Ok. Chego daqui a pouco.
- Tá. - Desliguei.
Deitei na cama e fiquei encarando o teto. Não sei porque ela não falou
comigo no dia que mais precisei. Só falta chegar aqui e começar a reclamar e
reclamar....
Meia hora depois ela apareceu e entrou no quarto, não antes da Rosa vir
me perguntar se podia.
Eu adoro essa mulher! Sempre pensa em tudo e claro, faz uma deliciosa
comida.
- Posso entrar? - Sabrina perguntou da porta.
- Sim.
Ela veio lentamente até onde estou e ficou de pé me olhando.
- Sinto muito, Dani. Não pense que te abandonei. Eu só tenho muito
trauma com enterros e funerais.
- Trauma de que? - falei seco.
- Quando meu avôzinho morreu eu sofri muito e fui no enterro dele.
Não dormi por uma semana por causa disso.
- Seu avô morreu quando você tinha cinco anos.
- Sim.
- Achei que já fosse adulta - falei irônico.
Ela apertou os lábios numa linha reta.
- Mas tem traumas que ficam pra sempre.
- Sabrina não precisa ficar inventando desculpas por não ter vindo aqui.
Eu entendo que sua vida está uma droga.
Agora ela ajeitou a postura ficando na defensiva.
- Não fale assim comigo.
- Falei alguma mentira?
- Chega! Eu vim aqui tentar me entender com você. Se não tem coração
eu vou embora!
- Eu não tenho coração? Sério? - falei agora com fúria. - Se tem
trauma ou a porra que for, pelo menos podia ter ligado! - falei alto.
Sabrina ficou em silêncio por um momento. Logo se aproximou de mim e
segurou minha mão com força.
- Por favor, me perdoa! Não quero brigar com você...
- Se não percebeu, a gente já está brigando...
- Então vamos parar! Sei que errei, mas eu não sabia o que fazer.
Situações assim me deixam assustada. Sabe que odeio mortes e violência...
Fiquei em silêncio olhando seu rosto. No momento não sei o que pensar.
Minha mente não está trabalhando direito depois do que aconteceu. Minha mãe
era uma mulher nova e cheia de saúde. Pensar que ela não vai mais me abraçar
ou me dar conselhos, dói demais...
- Tá.
Sabrina sorriu largamente e pulou em cima de mim, me abraçando.
Eu só quero que isso acabe logo...
Os meses se passaram depois da morte da minha mãe. Os meninos
estavam fazendo de tudo para me animar. Me chamavam para sair, ficavam
comigo no Haras, às vezes só ficávamos jogando conversa fora. Me sentia bem
com isso, pois depois que comecei a namorar a Sabrina, nos afastamos muito.
E ter meus amigos de volta era muito bom.
Não sei qual o problema da Sabrina dessa vez, mas encheu meu saco para
dormir comigo. Falei que tinha combinado de sair com os dois e isso deu uma
puta discussão! Ela começou a jogar várias coisas na minha cara. Coisas que
nem eram verdadeiras, como por exemplo, que estava sempre ao meu lado
quando eu precisava.
Disparei logo o acontecido depois da morte da minha mãe e ela começou
a chorar falando que eu era rancoroso.
Ainda tenho que ouvir isso!
No fim eu fiquei puto e cedi o que ela queria. Isso para parar de me
encher a paciência e não porque queria que ela viesse para cá.
Estava na sala vendo televisão quando ela chegou. Meu humor despencou
no momento em que ela sentou do meu lado e beijou minha bochecha, mas foi
de uma forma que nem eu entendi.
Talvez seja porque conseguiu me convencer a ficar aqui sendo que eu
queria sair... Não sei.
- Que bom que mudou de ideia...
Não respondi. Não quero discutir de novo.
- Sei que queria sair com esses garotos, mas também tenho direito de
ficar com você. Agora só quer saber deles.
- Eu realmente não quero falar disso de novo - falei de mau humor.
- Tudo bem.
Ficamos vendo o filme e por incrível que pareça essa foi a melhor parte da
noite, pois nesse momento, a Sabrina ficou em silêncio, o que me agradou
muito.
Depois ficamos juntos no quarto e ela dormiu. Eu não consegui dormir.
Pensava sem parar.
Não sei qual o problema comigo, mas ultimamente prefiro ficar com os
meninos ou mesmo sozinho do que ter que ficar com ela... Talvez eu tenha
ficado de saco cheio de suas manias e reclamações. Não sei e tenho medo de
pensar nesse assunto...
Sabrina resmungou alguma coisa me tirando dos pensamentos tortos.
Olhei para ela e ainda estava dormindo. Suspirei e olhei o teto. Será que não
gosto mais dela?
- Sim... - sussurrou eu a olhei de novo.
Estava com as mãos por baixo do travesseiro e percebi que segurava ele
com certa força.
Ela começou a resmungar coisas inteligíveis e eu fiquei observando com
vontade de rir. Ela sempre falou dormindo, mas por algum motivo, agora estou
achando graça. Sempre acordava com ela falando e ficava de mau humor.
Talvez eu esteja achando graça, pois estou acordado. Bem acordado...
- Mas preciso de dinheiro...
Franzi a testa. Pra que?
- Só isso me interessa.
Que porra ela está sonhando? Olhei seu rosto e ela tinha a testa franzida.
- Já disse, Júlio!
Senti um peso no estômago ao ouvir isso. O que o Júlio tem a ver com
isso? E de que dinheiro ela está falando? Será que pergunto a ele? Ou a ela?
Que situação esquisita...
Dei de ombros. Deve ser só um sonho.
Deitei na cama e respirei fundo. Coloquei as mãos por baixo da cabeça e
fiquei encarando o teto. Gostaria que minha mãe estivesse aqui para me
aconselhar sobre o que sinto pela Sabrina agora...
Ela se mexeu na cama e eu nem me dei o trabalho de olhar. Mas
infelizmente ela se mexeu na minha direção e jogou o braço em cima de mim
com força. Fiz careta e quando fui tirar seu braço de mim, ela me apertou com
força, me puxando para si.
- Para de doce, Júlio.
Porra! Que merda é essa?
3º Capít lo
Observei o rosto dela, chocado com o que ouvi. Será que ouvi direito. Ela
disse Júlio?
Júlio?
Júlio...
Pelo jeito que me segurou agora, não parece que é só sonho... Vou ter que
investigar isso.
No dia seguinte observava ela enquanto tomávamos café da manhã. Estava
como sempre: cabelo impecável, roupas impecáveis e um olhar superior.
Ignorava meu olhar e comia com bastante gosto. Será que não tem comida
em casa? Ou é porque a comida da Rosa é maravilhosa?
- O que vamos fazer hoje? - perguntou assim que acabou.
- Sabrina, eu não estou de férias - falei irritado.
- Ai mais que saco! Você nunca pode fazer nada!
- No meio da semana não posso mesmo.
- É? Então por que ia sair ontem?
Passei a mão no cabelo com raiva.
- Porque era depois do trabalho - falei por entre os dentes.
Por que estou tão furioso?
- Você é frustrante, Daniel.
- Então por que está aqui? - falei alto e com fúria.
Ela ficou me encarando em silêncio um longo momento. Longo demais... O
que está pensando?
- Porque eu amo você.
Soltei uma risada e continuei comendo. Sempre fala as mesmas coisas.
Parece um gravador ambulante.
- Está rindo de mim? - perguntou irritada.
- Estou.
- Tenho cara de palhaça? - a voz saiu esganiçada.
- Às vezes.
Rosa apareceu na cozinha. Provavelmente veio ver porque ela estava
dando ataque. Assim que percebeu o olhar de fogo de Sabrina, Rosa fingiu que
veio lavar a louça.
- Você é insuportável! - falou bem perto do meu ouvido antes de ir
embora.
Suspirei e continuei comendo. Devo ser insuportável mesmo, talvez o Júlio
esteja resolvendo os problemas dela, não é?
- Está tudo bem, meu filho? - Rosa perguntou me olhando.
- Sim.
Rosa me olhou desconfiada, mas eu continuei comendo tranquilamente e
ignorei seu olhar de análise.
Entrei em casa depois de um dia cansativo de trabalho. Meu pai estava em
casa e com ele estava um cara que não conheço.
- Oi Dani! Que bom que chegou. Esse aqui é o Marcos.
Me aproximei e apertei a mão dele.
- Ele vai ser meu guarda-costas.
- Guarda-costas?
- Sim. Ele também me indicou um ótimo para você.
- Pai, eu não quero um guarda-costas. Isso não é necessário.
- Mas filho, assim eu fico tranquilo com você indo e vindo de onde quer
que seja.
- Eu sei me cuidar, pai. Não preciso que ninguém fique colado comigo.
- Sua mãe também foi teimosa quando quis contratar um motorista...
Revirei os olhos. Chantagem não vai funcionar!
- Pai, por favor, não apele. Eu não quero guarda-costas.
Ele respirou fundo e olhou o cara parado ao seu lado.
- Tudo bem.
- Ótimo!
Não estou afim de discutir mais nada. Sabrina já acabou com minha cota
de discussão por hoje. Por falar em Sabrina...
- Pai, posso falar com você a sós?
- Claro, meu filho. Vamos para o escritório.
- Com licença, Marcos.
Ele fez um aceno com a cabeça. Não é muito de falar, não é?
- O que foi, filho?
- Pode me fazer um grande favor?
- É claro! Do que se trata?
- Quero um detetive.
Meu pai franziu a testa.
- Pra que?
- Quero que ele descubra se a Sabrina está me traindo com o Júlio.
Agora os olhos se arregalaram. Logo ele se recompôs e passou a mão
pelos cabelos, que já estavam caindo.
- Por que acha isso?
Contei a ele o que ela falou dormindo.
- Hum... Vou falar com ele para verificar.
- Obrigado.
Dois meses depois ele tinha todas as provas que eu precisava. Ele sempre
me contava os passos da Sabrina. E ela realmente estava me traindo com meu
ex amigo Júlio. Mas eu sabia que tinha um porquê disso e pedi para ele
descobrir.
O que ele descobriu foi realmente surpreendente. Em uma gravação de
uma conversa entre os dois (não sei como ele conseguiu isso), ficou bem claro
porque a Sabrina estava comigo.
Ele falava com ela que tinha que me deixar, já que não sentia nada por
mim, mas ela disse que ainda não estava na hora e que antes de me chutar,
tinha que conseguir uma boa quantia em dinheiro.
O que ela esperava? Que eu fosse me casar e dar cinquenta por cento do
dinheiro do meu pai? Porra!
Estou tão furioso! Como pude ser tão idiota? Não enxergar a merda que
ela era? Nunca foi a melhor namorada do mundo e sempre que minha mãe
falava disso eu dizia "é o jeito dela, mãe".
Burro!
Sou um idiota mesmo! Realmente frustrante. Um idiota frustrante.
Estava no Haras praticando com o Cometa. É a única coisa que me deixa
calmo. Principalmente nesse momento. Ainda não sei como jogar na cara da
Sabrina que já sei a cobra que ela é, mas vou arrumar um jeito.
Puxei as rédeas do Cometa bruscamente e ele parou. Fiz isso
simplesmente porque vi o Júlio e o Erik se aproximando da área de salto. Meu
sangue ferveu quando meus olhos pousaram em Júlio. Que cara de pau!
Desci do Cometa e me aproximei dos dois. No momento eu só enxergava
o Júlio e a minha raiva...
Júlio franziu a testa ao ver eu me aproximar, mas não dei chance de
entender nada. Fui logo acertando um murro na cara dele. Foi tão forte que ele
caiu sentado no chão segurando o queixo.
- Que isso, cara?! - Erik falou alto.
O ignorei e acertei o Júlio de novo, mesmo estando no chão. Escutei de
longe o portão atrás de mim ser fechado e logo o Erik me tirou de cima de
Júlio. Ele não revidou. Só ficou com os braços na frente do rosto e me deixou
bater. Fiz a maior força que consegui para voltar e arrebentar a cara do Júlio,
mas o Erik me carregou para longe dele. Em pouco tempo estava no escritório
e o Erik trancou a porta. Ele me olhava com os olhos arregalados.
- Abre a porta! - falei com fúria.
- Não. Se controla, cara.
Passei a mão no rosto com raiva.
- O que deu em você?
- O que deu em mim? - gritei furioso. - O que deu foi que esse filho
da puta tem um caso com a Sabrina!
Erik ficou em silêncio me olhando ainda com os olhos arregalados. Acho
que eu nunca surtei desse jeito antes... E não pensem que é por causa dela e sim
pela traição dele.
Dizia ser meu amigo. Dizia gostar de mim. Mas claro que era puro
interesse! Assim como ela! Que idiota que eu sou!
- Abre essa porta, Erik - pedi irritado.
- Desculpa, cara, mas não vou abrir até você se acalmar. Se quiser pode
me bater também, mas não abro.
Resmunguei um palavrão e me afastei dele. Não quero descontar minha
frustração nele. Não tem nada com isso. Quem merece está lá fora...
Não sei quanto tempo se passou, mas o Erik realmente não abriu a droga
da porta. Estava mais calmo, apesar de ainda querer matar o Júlio.
Alguém bateu na porta e eu olhei o Erik.
- Quem é? - perguntou encostado na porta.
- Lorenzo.
- Não se mexa! - Apontou na minha direção.
Não falei nada e nem me mexi. Ele cerrou os olhos e abriu a porta, mas
sem tirar os olhos de mim.
Meu pai entrou e o Erik trancou a porta de novo. Revirei os olhos e meu
pai olhou o Erik com os olhos arregalados.
- Está tudo bem?
- Daniel não está nada bem! Surtou e partiu pra cima do Júlio!
Trinquei os dentes ao ouvir o nome dele e meu pai me olhou incrédulo.
- Partiu pra cima?
- Sim! Se eu não trago ele pra cá...
- Pode me deixar a sós com ele?
- Claro, mas melhor não deixar ele sair.
- Eu estou bem! - falei nervoso.
- Bem se nota...
- Sai logo, Erik!
- Sim, capitão! - Fez continência.
Meu pai riu e ele saiu. Estava sentado na cadeira dele e não tinha vontade
nenhuma de levantar. Muito menos de rir.
- Quer falar sobre isso?
- Não.
- Mas eu preciso saber o que aconteceu.
- Recebi as descobertas do seu amigo.
- Ah... E então?
Fechei os olhos e respirei fundo. Ele não vai sossegar enquanto não
souber mesmo. Falei tudo que li no papel e o que fiz com o Júlio quando ele
veio com a grande cara de pau dele chegar perto de mim.
- Nossa... Eu sabia que ela era ambiciosa, mas não imaginei tanto.
- Não quero falar dela, pai.
- Tudo bem. Vamos pra casa. Você precisa de um banho e uma boa
comida da Rosa.
- Tá.