Já cansou de lutar contra essa vida?
Todo dia o peso nos ombros só aumenta. Mesmo assim, os pés precisam seguir em frente, porque o tempo não tem pena de ninguém - muito menos dos fracos.
Era exatamente assim que se sentia a jovem em sua casinha. Sempre que o barulho das máquinas de construção se aproximava, seus dedos batiam com mais força nas teclas do piano. E quando o ruído ficava insuportável, ela girava o botão de volume até quase o máximo. Nada no mundo a impediria de tocar. exceto a campainha, que soava pela quinta vez.
"Aaaargh! Quem é agora? Quando vão parar de me encher o saco?!"
Com passos pesados e rápidos, ela se arrastou até a porta.
"Fala logo!", rosnou, sem cerimônia.
Do lado de fora, o homem atraente piscou, surpreso pela hostilidade. Mas num piscar de olhos, seu rosto se transformou num sorriso perfeito e encantador.
"Boa tarde, Senhorita Catalina", cumprimentou ele, com a voz melíflua.
A garota franziu a testa, desconfiada. Cabelo bem cortado, camisa social branca num calor desses, sapatos lustrosos. Tinha "funcionário da NexaCore" escrito na testa. Estavam enviando um galã para tentar amolecer seu coração.
"Acham que um rostinho bonito vai me fazer mudar de ideia? Que pensamento raso!", refletiu, com um leve sorriso de escárnio nos lábios.
"Se veio me convencer a vender esta casa, pode poupar seu fôlego. Não estou interessada. Diga ao seu chefe para parar de encher minha paciência e deixar minha casa em paz. É perda de tempo e energia."
Ela tentou fechar a porta, mas o homem, num reflexo rápido, bloqueou-a com o braço. Os olhos de Catalina arregalaram diante daquela ousadia.
"O que foi?", ela contestou, fazendo força contra a porta. O medo de que aquele estranho invadisse sua casa a assaltou.
"Não é por isso que vim." O sorriso doce reapareceu na fresta.
"E então?", Catalina franziu a testa ainda mais.
"Já que a senhorita se recusa a vender, a empresa gostaria de. negociar."
"Negociar? E isso é diferente de persuadir?"
"Claro que é. Então, me permita entrar para explicar em detalhes."
A garota mordeu o lábio inferior e soltou uma risada cínica. Mesmo assim, a expressão do homem à sua frente permaneceu inalterada.
"Você realmente quer entrar?", perguntou Catalina, pondo à prova sua coragem.
"Sim." Ele assentiu, sem uma sombra de preocupação.
Após um momento de hesitação, a anfitriã soltou um suspiro e concordou com um meneio de cabeça.
"Tá bom. Pode entrar."
A porta finalmente se abriu.
"Obrigado." O homem bonito mantinha o sorriso doce. Mesmo sentado no sofá, sua postura transbordava simpatia calculada.
"Toma um drink", disse a anfitriã, colocando uma xícara de café e um copo de água na mesa. Os cantos de sua boca se curvaram para cima.
"Obrigado. Sou Wesley, da NexaCore."
"Já sei", respondeu Catalina, com os lábios apertados.
"Já sabe?" Ele ergueu uma sobrancelha, surpreso.
"É, claro. Quem mais viria perturbar a paz da minha vida, se não são os enviados da NexaCore?"
A expressão de Wesley se suavizou, tornando-se novamente amigável. "Certo. Peço desculpas pelo incômodo."
Catalina deu de ombros, fingindo indiferença.
"Antes de explicar, permita-me confirmar", ele começou, o tom ainda cortês. "Tem certeza de que não vende a casa, mesmo por quatro vezes o valor de mercado?"
"Tenho."
"E tem certeza de que se sentirá confortável morando aqui quando nosso projeto começar?"
"Tenho."
"Mesmo com arranha-céus cercando sua casinha?"
Catalina baixou o olhar por um instante, beliscando o nariz.
"Você não disse que não veio me convencer?", protestou, com um tom de desdém.
"De fato. Só queria ter certeza", explicou ele, descontraído. Num piscar de olhos, colocou uma pasta sobre a mesa. "Nesse caso, a senhorita não deve ter objeções em assinar esta carta."
Catalina leu o documento com a testa franzida. "Carta de consentimento?"
"É para garantir que a senhorita não se importa com a continuação do nosso projeto. E que não fará protestos ou denúncias à mídia."
Inconscientemente, a garota cerrou o maxilar.
"Então. sua empresa realmente vai transformar toda esta área em zona urbana?", sussurrou, com a voz trêmula.
"Não tocaremos na sua casa, nem no quintal ou na cerca. A construção manterá uma distância segura."
De repente, Catalina bufou e abaixou a cabeça.
"Como posso confiar que não vão interferir na minha casa? Nada do que você prometeu por último está escrito aqui. Sua empresa pode estar me passando a perna."
"Que tipo de 'perna' você quer dizer?"
O dedo indicador da garota subiu repentinamente.
"Perae! Vou fazer uma lista com as condições que sua empresa tem que cumprir. Enquanto isso, aproveita e toma esse café."
Sem perder tempo, Catalina sumiu por uma porta.
Assim que a anfitriã saiu, os olhos de Wesley percorreram a sala com liberdade. Examinou cada retrato na parede e o troféu na estante de vidro. Um suspiro de desdém escapou-lhe involuntariamente.
"Mas quem é essa garota?"
Seu olhar vagou até o piano, visível na sala ao lado. A observação só foi interrompida pela vibração do celular.
"E aí, chefia? Já se convenceu de que a mulher é. única?" Wesley leu a mensagem da secretária com um sorriso irônico.
"Tsc. Única, o quê. Cada vez mais suspeito que ela foi paga pela concorrência", respondeu o CEO, sem hesitar.
"Mas é verdade que ela parece um anjo? Ouvi dizer que a Catalina é uma graça."
Wesley soltou um suspiro.
"Hm. Uma graça?", resmungou, olhando de novo para a foto de Catalina criança com os pais. "Tá brincando." Suspirou de novo e pegou a xícara.
Mal o café quente tocou sua língua, seus olhos quase saltaram da cara. No segundo seguinte, cuspiu o líquido negro de volta para a xícara.
"P***! Por que tá tão apimentado?!"
Sem pensar, agarrou o copo de água. Antes que conseguisse molhar a garganta, um jato d'água saiu de sua boca.
"Aargh! Que salgado!"
Enquanto limpava a boca e o queixo com um lenço, seus olhos procuravam desesperadamente a cozinha.
"Preciso de água!", pensou, ofegante.
Infelizmente, todas as portas que tentou estavam trancadas. Num instante, a indignação substituiu toda a paciência que lhe restava.
"Essa maluca. Ousou fazer gracinha comigo!"
Com os punhos cerrados, Wesley bateu com força na porta atrás da qual Catalina havia sumido.
Dois segundos depois, Catalina surgiu na porta com a mais pura cara de inocente. Os cantos de sua boca tremiam de tanto conter o riso.
"Aconteceu alguma coisa, moço?", perguntou, erguendo uma sobrancelha com ar de deboche.
O CEO ainda lutava contra a ardência que lhe queimava a língua. "Água! Me dá água!", implorou, com a voz rouca.
"Já não servi um copo de água pra você?" A garota fingiu se aproximar do copo.
Antes que Catalina desse um passo, Wesley já havia agarrado seu pulso. "Para com essa palhaçada! Quero água fresca, agora! Não essa água salgada!"
Para sua surpresa, a garota soltou uma risada. Quando se conteve, uma máscara de frieza recobriu seu rosto.
"Sinto muito, mas é só isso que tenho pra oferecer. Se quer água fresca, é melhor cair fora daqui e comprar na vendinha mais próxima. Aff, se ao menos aquele mercadinho no fim da rua ainda existisse. Pena que agora é só um monte de entulho."
Wesley não conseguiu mais conter a fúria. Sua respiração estava ofegante, e suas mãos coçavam para agarrar a gola da garota. Nunca na vida havia sido humilhado daquela maneira.
"Então não vai me dar água?", rosnou, num tom baixo e perigoso. Seus olhos afiados deslizaram até os lábios de Catalina, que transbordavam desprezo.
Ela balançou a cabeça sem pestanejar.
"Tá doendo? Foi exatamente assim que me senti vendo este lugar ser demolido."
Wesley soltou um suspiro abafado. "Então você é do tipo vingativa? Tá bom, entendi. Nesse caso, vou revidar na mesma moeda", assentiu, com os olhos flamejantes.
"Que bom que entendeu. E agora, tá esperando o quê? Não vai correr atrás da sua água?"
Wesley balançou a cabeça devagar, soltando uma risada baixa. "Você ainda não percebeu? Acabei de encontrar a fonte de água mais perto daqui."
Os olhos de Catalina se arregalaram. "Aqui? Onde?"
Ela olhou em volta, tentando localizar a tal fonte. Pelo que lembrava, toda a água potável estava trancada na cozinha.
"Aqui." O CEO levantou o queixo dela com um dedo e capturou seus lábios em um beijo.
A respiração de Catalina parou de vez. Seus olhos, arregalados, tremiam de choque. Ela ficou paralisada.
Por alguns segundos, permitiu que a língua do homem explorasse sua boca. Quando a consciência voltou, ela empurrou o peito de Wesley com força e deu-lhe um tapa.
"Você é doido!", gritou, esfregando os lábios com o dorso da mão. "Como tem coragem de me beijar!"
"Ué, não foi você que mandou eu procurar a água mais perto?" Wesley respondeu, erguendo as mãos em um gesto de falsa inocência. Seus lábios ainda formigavam com o gosto picante.
"Nojento! Eu falei de água, não de um sem-vergonha!" A garota franziu a testa e marchou em direção à cozinha.
Depois de destrancar a porta com uma chave do bolso, Catalina pegou um copo de água e bebeu. Mesmo assim, uma sensação de queimação persistia em sua língua.
"Agora você sente na pele o gosto do seu café apimentado e da água salgada."
Os olhos da garota se voltaram imediatamente para a origem da voz.
"Por que você ainda está aqui? Não mandei você ir embora?"
"Nosso assunto não está encerrado, senhorita. Além do mais, você ainda não me deu água." Wesley olhou para o copo na mão dela, depois para o galão de água.
Os olhos de Catalina piscaram, incrédula. "Você ainda tem a cara de pau de pedir isso? Depois do que você fez?"
"Já não paguei por isso?", retrucou o CEO, casual. Um dedo indicador apontou para a própria bochecha, que ainda ardia. "Paguei com isso. Seu tapa foi bem dado."
A garota ficou atônita. "Perai! Você realmente trabalha na NexaCore? Não é possível que alguém tão sem caráter e raso como você trabalhe lá."
O sussurro do CEO se transformou numa risada sem graça.
"Tá dizendo que eu sou sem caráter e raso?"
"Sim! Se você tivesse caráter e cérebro, não teria invadido a casa de alguém, causado confusão e depois beijado uma garota que nem conhece." Os olhos de Catalina cintilavam de raiva.
"Desculpe, moça. Parece que a mente rasa aqui é a sua. Eu vim aqui com boas intenções, mas foi você quem começou essa guerra."
Catalina balançou a cabeça, exasperada. "É impossível argumentar com alguém que tem um neurônio."
"É mesmo? Acho que o neurônio solitário é seu. Uma pessoa inteligente não colocaria um pote de pimenta no café." O olhar de Wesley se fixou no pequeno recipiente vazio, com a embalagem violada, sobre o balcão.
Em vez de sentir culpa, Catalina resmungou e cruzou os braços. "Devia ter colocado dois potes."
De repente, o CEO fechou a distância entre eles num passo rápido, encurralando-a contra o armário. Seu olhar era intenso e ameaçador. Catalina instintivamente protegeu a boca com as mãos, temendo outro beijo.
"Parece que você é uma menina imprudente, hein? Nesta casa no meio do nada, você ousa provocar um homem", Wesley sussurrou, com um sorriso enigmático.
A mudança de atitude fez a garota baixar a cabeça. Mesmo assim, seus olhos arregalados espiaram por cima dos dedos.
"O que você pretende fazer?"
Wesley sorriu e apoiou as mãos no armário, enjaulando-a. "Só peço duas coisas. Sua assinatura no contrato e água. Você não está, secretamente, esperando que eu a beije de novo, está?", disse, em um tom intimidante.
Antes que Catalina pudesse bolar um plano de fuga, a mão do homem já repousava em sua cintura. O medo brilhou em seus olhos. Num movimento rápido, ela enfiou o copo contra o peito do CEO.
"Esse é meu copo favorito. Não quebre!", disse, com a voz embargada.
O sorriso de Wesley voltou, lento e vitorioso. "Obrigado." Ele pegou a água e bebeu até saciar a sede.
Só quando Catalina saiu correndo da cozinha é que o homem pôde observar livremente o ambiente minimalista. "Ela realmente mora sozinha?", pensou Wesley, ao notar apenas um conjunto de talheres no escorredor. Seus olhos então pousaram sobre o copo em formato de urso polar em sua mão. "Por isso é o copo favorito", zombou mentalmente, ao notar que era o único copo visível na prateleira.
"Aqui está o contrato que você quer. Agora, suma!" Catalina pressionou a pasta contra o peito do homem. Em vez de sair, Wesley a abriu. Ao ver o que a anfitriã havia desenhado, um sorriso irritado surgiu em seu rosto. "Você realmente me acha um idiota?", disse o CEO, com a paciência esgotada. "Você acha que eu vou acreditar que isso é uma assinatura?"
Dois pequenos círculos que lembravam olhos, sobre uma linha curva simulando um sorriso, encaravam Catalina. "Sim, essa é a minha assinatura. Um emoticon feliz." O sangue de Wesley ferveu, subindo à sua cabeça num acesso de raiva pura.
"Você vai assinar esta carta direito ou não?" Wesley perguntou, fazendo um esforço visível para manter a calma.
"Como assim? Já assinei", Catalina respondeu, franzindo a testa. Toda a cortesia havia desaparecido de sua voz.
"Ótimo! Depois não adianta reclamar se algo acontecer com sua casinha."
"Espera aí! Já assinei, tá bom? Agora você não tem mais direito de invadir minha propriedade."
"Boa tarde!"
Wesley saiu, deixando para trás uma nuvem visível de frustração. Era raro ele perder tanto o controle de suas emoções.
"Aquela garota é completamente maluca", resmungou o CEO ao entrar no carro. O homem ao volante lhe lançou um olhar curioso.
"O que houve?"
"Me serviu café apimentado, água salgada, e nem uma gota d'água de verdade para limpar a boca", queixou-se Wesley com evidente nojo.
"Sério? E o que você fez pra aliviar?"
As pálpebras do CEO repentinamente se imobilizaram. A lembrança suave dos lábios que beijara ainda ecoava em sua mente. Depois de piscar vigorosamente, ele empurrou a pasta em direção ao secretário.
"Esquece, melhor não falar mais nisso. O importante é que conseguimos a assinatura dela."
"Essa... assinatura é válida?" Dominic aproximou os rabiscos dos olhos, duvidoso.
"Já te falei, ela é excêntrica. Agora, vamos! Minha agenda já está atrasada por causa dessa teimosa."
Enquanto disfarçava um sorriso, o secretário que também era motorista acelerou. Deixaram para trás uma garota que os observava pela janela.
"É o que você merece por mexer com a Catalina", resmungou ela, com os lábios apertados. Um segundo depois, seus dedos subiram involuntariamente para tocar os lábios, onde a marca do beijo ainda parecia quente. Seu coração, sem que percebesse, acelerou novamente.
"Por causa daquele idiota, perdi meu primeiro beijo", queixou-se, olhando para baixo. "Ah, deixa pra lá! Pra que ficar remoendo o passado? Melhor voltar a treinar para a competição de amanhã."
O som do piano ecoou pela casa mais uma vez. A atenção de Catalina estava completamente absorvida pela partitura repleta de notas.
"Tenho que realizar o sonho da mamãe. Trazer aquele troféu pra casa e colocá-lo na sala!"
No dia seguinte, a garota voltou para casa com um sorriso estampado no rosto. "A mamãe ficaria tão feliz por eu ter passado da primeira fase", sussurrou Catalina no caminho.
Com passos leves, adentrou o beco que levava à sua casa. As ruínas à direita e à esquerda já não a incomodavam mais, pois seu coração transbordava de felicidade.
Mas os passos de Catalina congelaram subitamente. O sorriso em seu rosto se transformou num grito. "NÃÃÃO!"
A garota correu, sem se importar com o vestido que se enroscava no vento e atrapalhava seus movimentos. A cada tropeço no tecido, ela diminuía o ritmo, mas não parava.
"Por favor, não!" Catalina gritou enquanto o braço da escavadeira desabava sobre o telhado de sua casa. As lágrimas já rolavam livremente. "Parem! Não destruam minha casa!"
As máquinas pesadas continuaram implacáveis, derrubando as paredes que a abrigaram a vida toda. Metade da construção já não passava de entulho.
"Não, não!" gritou a garota, que quase alcançava o quintal. Infelizmente, dois operários interceptaram sua passagem.
"Não pode chegar perto, moça! É perigoso!"
"Mas é a minha casa!"
"Desculpe, mas recebemos ordens pra demolir todas as casas da área."
"A minha não! Eu nunca concordei em vender! Então o que vocês estão fazendo?"
"Desculpe." Os homens a afastaram à força.
"Não! Me soltem! Parem!"
Catalina debateu-se, mas foi arrastada para longe do monstro de metal amarelo que devorava suas memórias.
"Por favor...", suplicou, num sussurro desesperançoso.
Mas a máquina continuou seu trabalho destrutivo. O monstro amarelo não entendia que, a cada parede que caía, um pedaço do coração de Catalina se desfazia junto.
"Minha casa..."
A voz de Catalina extinguiu-se no desespero. A garota não tinha mais forças sequer para se levantar. Sentada à beira da estrada, assistiu à demolição de seu último elo com o passado. Só lhe restava chorar.
"Com licença, senhor." Dominic entrou no escritório de Wesley.
"O que foi, Dominic? Por que essa cara?" perguntou o CEO, sem levantar os olhos dos documentos.
"Acabei de receber um relatório. Demoliram a casa da garota."
A caneta na mão de Wesley parou abruptamente. Ele ergueu a cabeça, piscando com força. "O que você disse?"
"A casa da Catalina foi demolida. Alguém emitiu a ordem errada usando o e-mail do nosso escritório."
Wesley pressionou a têmpora. "Quem foi? Quem teve a coragem de dar essa ordem?"
"Desculpe, senhor. A ordem saiu do seu e-mail."
O CEO encarou o secretário. "Do meu e-mail?"
"Sim, senhor", confirmou Dominic, sem coragem de manter o contato visual.
Wesley recostou-se na cadeira. Processada a informação, uma risada amarga e descrente lhe escapou.
"No final, meu instinto estava certo. Há algo muito errado nessa história." Seus olhos se fixaram em Dominic. "E a garota? O que aconteceu com ela?"
"Até agora, nada de relevante. Ela... ainda está chorando sobre os escombros da casa."
O dedo indicador do CEO começou a bater ritmicamente na mesa.
"O que aquela garota imprevisível vai fazer? Vai fazer escândalo na mídia? Nos processar?"
"Desculpe, senhor, tenho que resolver outras questões. Precisamos descobrir quem enviou essa ordem falsa. Com licença."
Dominic fez um breve aceno e se retirou, deixando Wesley com dezenas de cenários catastróficos fervilhando em sua mente.
"O que essa mulher vai fazer?", murmurou o CEO, incapaz de encontrar uma previsão que não terminasse em desastre. Tudo relacionado a Catalina era complicado e imprevisível.
"O que eu vou fazer agora?" As lágrimas escorriam pelo rosto da garota enquanto ela vasculhava os destroços. Nada podia ser salvo. As fotos dos seus pais, os óculos que ganhara no décimo aniversário, até mesmo seu amado urso polar de estimação... Todas as suas memórias mais preciosas haviam sido reduzidas a pó. "O que eu vou fazer?"
"Moça..."
Catalina virou-se. Um par de botas gastas entrou em seu campo de visão. Com o pouco de força que lhe restava, ela ergueu o olhar e viu um operário segurando seu capacete com ambas as mãos.
"Desculpe, moça. Tá ficando escuro. Melhor ir pra casa. Não é bom uma garota ficar sozinha num lugar desses."
Catalina olhou para o que restou de sua vida. Novas lágrimas começaram a se formar. "Você ainda tem uma casa pra ir... mas eu... eu não tenho mais pra onde ir."
O homem baixou a cabeça, percebendo a infelicidade de suas palavras.
"Foi mal, moça. Não foi minha intenção ofender. Mas... você não tem irmãos? Ou algum parente distante? Podia ficar com eles por um tempo."
Catalina não respondeu. Estava triste demais para explicar que não tinha absolutamente ninguém.
"Ou... quem sabe você procura o presidente da NexaCore? Ouvi dizer que ele é um homem sábio, justo. Talvez você consiga uma compensação decente."
As mãos de Catalina se cerraram com força sobre o vestido. Uma fúria intensa começou a substituir a dor.
"De que adianta? Minha casa não vai voltar."
"Mas pelo menos você pode conseguir algum dinheiro... quem sabe até um emprego. É melhor do que ficar se lamentando, não é?"
Catalina ficou imóvel. As palavras do operário a atingiram como um choque. Ele tinha razão. Agir era melhor do que se afogar em autopiedade. Quem destruiu suas memórias e esperanças não podia sair impune.
Aos poucos, a jovem se levantou, uma nova determinação brilhando em seus olhos avermelhados.
"Você sabe o endereço desse líder insensível da empresa?"
O operário assentiu silenciosamente.