Luma
A chuva caía e se misturava com minhas lágrimas, molhava meu corpo enquanto soluçava com as mãos sobre meu ventre levemente inchado.
"- Sai da minha casa agora, sua vagabunda"
As palavras duras de meu pai rondavam minhas lembranças. Nunca imaginei que amar pudesse doer tanto.
"- Eu te amo, Gabriel.
- Também te amo, meu amor.
- E se seus pais não concordarem como nosso namoro? - pergunto insegura.
- Então nós fugiremos. Tenho algumas cabeças de gado. Eu sou jovem, mas meu pai já me ensinou muito, posso começar com o que tenho.
- Então você me ama de verdade?
- É claro que te amo. Jamais permitirei que nossa diferença de classe social nos separe.
Meu coração idiota deu um pulo de felicidade e me entreguei a ele."
Gabriel era um rapaz bonito, tinha acabado de fazer dezoito anos e eu uma jovem imbecil e romântica de dezessete anos.
Acreditei que tudo o que ele queria era o meu amor.
Há dois meses quando descobri o resultado de nossa noite de amor, ele pareceu feliz.
"- Gabriel, eu preciso te contar algo.
Estávamos no celeiro da fazendo do pai dele, onde costumávamos nos encontrar e nos amar. Mas naquele dia eu tinha algo mais para falar.
- Não vai me dizer que desistiu de fugir. Já está tudo certo, Luma.
- Não, meu amor, não é isso. Quero muito fugir com você, mas antes preciso te contar uma novidade. - Sorri nervosa para ele. Confesso que mesmo insegura me senti feliz por acreditar que havia engravidado do amor da minha vida. Que uma vida crescia dentro de mim e que isso era resultado da nossa noite de amor.
Ele se aproximou de mim e me abraçou, passando a mão em meus cabelos loiros e lisos.
- Então me conte, meu amor.
- Eu estava me sentindo mal. Tive tonturas e enjoo, perdi a fome e comecei a ter ânsias de vômito principalmente na parte da manhã. Aí fui ao médico e descobri que estou grávida de dois meses.
Ele arregalou os olhos e eu tive medo. Mas os olhos assustados logo foram substituídos por um largo sorriso.
Gabriel me tomou em seus braços, me ergueu e rodopiou comigo em seus braços fortes. Fui beijada uma dezena de vezes e então a promessa foi feita, porém, não foi cumprida.
- Não tenha medo, meu amor, vamos começar nossa família bem longe daqui. Longe das pessoas que querem nos separar. Vamos ter um filho!"
Quanta inocência a minha.
Acreditei em sua promessa e então dois dias depois fico sabendo que Gabriel viajou com os pais. Nem mesmo um recado ele deixou.
Como uma boa idiota, achei que ele voltaria. Não contei nada a meus pais, fiquei esperando Gabriel voltar para que enfim pudéssemos fugir e seguir nossa vida, criar nosso filho e construir a nossa família.
Porém, os dias se tornaram semanas e então se tornaram meses e minha barriga se tornou impossível de esconder.
Como eu era uma jovem magra, a barriga não tardou em aparecer. E meu pai questionou a minha mãe o motivo pelo qual eu começara a usar roupas tão largas, e então ela veio falar comigo.
"- Luma, venha cá. - segui minha mãe pelo corredor estreito que nos levava ao seu quarto. Entramos no cômodo sem porta e nos sentamos em sua cama.
- O que foi, mamãe. - Perguntei já com medo da resposta da minha mãe.
- Por que tem usado roupas tão largas?
- Ah, mãe, eu só estou cansada de roupas curtas e apertadas.
Ela me olhou desconfiada.
- Luma, não me engane. Tire o vestido.
Gelei na hora.
- Mas mãe, o quarto não tem porta. João pode entrar a qualquer momento ou o papai.
- Seu pai e seu irmão foram trabalhar na roça. Não vão chegar agora, e se chegar, eles fazem muito barulho. Vamos, tire.
Sendo obrigada a fazer o que ela me pediu, retirei o vestido e então vi seus olhos arregalarem.
- Santa mãe de Deus - ouço-a e a vejo colocar as mãos sobre a boca.
Dos olhos, algumas lágrimas começaram a rolar.
- Mãe, eu...
- Cale-se, Luma. Não há outra explicação para isso que não seja o óbvio. Quem é o pai da criança?
- Mãe... - suspiro derotada. - É o Gabriel.
- Gabriel... o filho do fazendeiro?
Balanço a cabeça sem ter coragem de colocar a resposta em palavras.
- Chame o irresponsável, pois quando seu pai chegar ele vai querer que se casem o mais rápido possível.
- Ele viajou, mãe. - As lágrimas ameaçavam a transbordar, pois eu sabia que com meu pai seria mil vezes pior.
- Ele sabe?
- Sabe.
- Então, ele não viajou. Ele fugiu.
Meus olhos estavam focados no chão, mas com suas palavras eu volto meu olhar assustado para ela.
- Mas... ele me prometeu, mãe.
Minha mãe balançou a cabeça.
- Já tem muito tempo que ele viajou?
- Dois meses - respondo, vestindo a roupa de antes.
Vejo minha mãe passar a mão pela face avermelhada.
- Então deixa de ser idiota e veja o que está bem diante de seus olhos, Luma. Você acha que se ele tivesse a intenção de cumprir seja lá qual for a promessa que ele te fez, ele iria sumir por dois meses?
Não consigo segurar as lágrimas, pois a verdade me toma como um soco no meio do meu estômago."
Se com minha mãe foi ruim, eu era incapaz de imaginar como seria com meu pai. O homem que me pegou no colo, que disse inúmeras vezes que eu era seu raio de sol... bastou um erro para que tudo o que ele disse virasse poeira. Será que isso é amor de verdade? O amor de verdade se importa com o que os outros vão falar? Se importa com a vergonha de uma filha grávida antes do casamento? Começo a achar que meu pai jamais me amou.
"- Grávida do filho do porco velho? - Meu pai não gostava do homem por um motivo qualquer que nunca ficamos sabendo, mas sempre disse que o velho não prestava.
- Pai, o Gabriel viajou, mas ele vai voltar...
- Cala sua boca, Luma. - Abaixei a minha cabeça - Você só me traz vergonha.
- Me desculpe, pai. - Ele me olhou com seus olhos injetados de ódio.
- Você pode consertar isso? Hum? Não, você não pode. Então não peça desculpas.
Ele esfrega os cabelos arrepiados, o rosto ruborizado e ronda a sala. Quando ele volta a me olhar meu coração se parte.
- Pegue suas coisas.
- O quê?
- Além de puta é surda? Pegue as suas coisas, minha casa não é lugar de pouca vergonha. É casa de respeito.
- Mário, o que vai fazer? - ouço a voz trêmula de minha mãe ao compreender o que eu também já havia compreendido.
- Ele quer que eu vá embora, mãe.
Me coloco de pé e vou até meu quarto, com tanto ódio dele quanto eu podia dizer que havia amor até um segundo atrás.
Embora estivesse arrumando minhas coisas para ir embora, dentro do meu coração havia uma esperança de que ele desistisse da decisão, mas isso não aconteceu.
Ao chegar na sala com uma mochila cheia de roupa e uma bolsa com outros pertences, minha mãe estava chorando ajoelhada aos pés do meu pai, com a cabeça apoiada em seus joelhos.
- Eu te emploro, Mário, não faz isso. Ela errou, mas é nossa filha. Quem nunca errou na vida?
- Isso não é errar, Nádia, isso é safadeza.
Ele se pôs de pé e apontou para a porta da sala que estava aberta.
- Sai.
- Não tenho para onde ir - falo em um fiapo de voz.
- Não me importo com isso.
Olho para minha mãe que chorava desolada ao chão da sala, sem forças até mesmo para erguer a cabeça e me olhar.
- Sai da minha casa agora, sua vagabunda.
Com sua ordem eu me viro e atravesso a porta com a maior incerteza da minha vida. Não sabia para onde ir, não sabia o que fazer.
Segui pensativa e pensei em passar pela fazenda do Gabriel, mas me lembrei das palavras de minha mãe. Ele não foi viajar, ele fugiu. E fugiu sabendo do nosso filho e do que poderia acontecer comigo. Então, simplesmente segui sem destino. Caminhei por horas até que escureceu e eu não sabia para onde ir.
Já estava em um outro bairro, me sentei no banco observando a noite chegar e com ela todo o peso do que seria de mim e do meu filho. Como um sinal de que as coisas ainda poderiam piorar, a chuva cai molhando a mim e tudo o que eu possuía. Tudo que me resta são as lágrimas. Nada mais.
Luma
Meu coração dói, minha cabeça dói, tudo dói. Tremo de frio e chego a conclusão que morreremos, meu filho e eu. Sem ter onde recostar a cabeça, sem ter abrigo, acabarei doente e então morreremos. Talvez seja melhor assim.
Na verdade começo a pensar se morrer não seria uma solução. Meu pai se sentiria culpado se descobrisse que me matei logo após ter me abandonado grávida? Gabriel sofreria pelo resto da vida sentindo o peso de sua decisão covarde?
Ponho-me de pé realmente considerando em me enfiar na frente de um carro... carro não, um caminhão. Um caminhão sim, poderia acabar com meus sofrimentos em poucos segundos.
- Ei, você está bem? - levanto os olhos com os cílios pesados da chuva e vejo um carro parado a minha frente.
Era um carro luxuoso e havia uma mulher no volante. Ela tinha o cabelo preto e curto, o batom vermelho destacava-se bastante em sua face.
Não respondo a sua pergunta, apenas a encaro. Ela estende o braço e abre a porta do lado do carona.
- Entra, sai dessa chuva, vai acabar ficando doente.
Estava pestes a acabar com a minha vida. Não tenho mesmo nada a perder, então eu entro naquele carro.
- Onde mora? - A mulher pergunta, mas não consigo responder. As lágrimas retomam com força - Tudo bem, vou te levar para o hotel onde estou hospedada e lá conversamos.
A mulher acelera o carro e eu nem faço questão de saber quem ela é, para onde está me levando, se tem intenção de me ajudar ou não... estou totalmente entregue.
Chegamos no hotel que ela havia mencionado. Era o mais luxuoso da cidade, o mesmo que empresários costumavam se hospedar quando vinham visitar a fazenda do pai do Gabriel. Só de lembrar dele, meu coração se enche de dor e ódio. Se meu filho e eu estamos passando por isso, é por culpa dele.
- Creio que não há nada seco nessa sua bolsa - comenta a mulher e eu ainda permaneço em silêncio - Você pode tomar um banho e colocar o roupão. Vou pedir para o hotel colocar suas roupas na secadora e pedir uma sopa quente.
- Obrigada - É tudo que consigo dizer.
- Não precisa agradecer.
Subimos de elevador com as pessoas olhando de maneira estranha para mim, mas não me importo com elas.
Ao chegar no quarto tomo um banho e visto o roupão, depois chega a sopa quente que ela disse que pediria.
- Meu nome é Nice, qual o seu? - Observo melhor o rosto da mulher.
Na claridade do quarto dá para notar que ela não é uma mulher jovem, apesar de toda maquiagem e roupa chique e jovial.
- Luma.
- Poderia me contar o que aconteceu, Luma? Para te ajudar, preciso saber um pouco sobre você.
- Não tenho nada a contar, não tenha nada.
Ela me olha confusa, mas não fala nada. Está a espera do que vou dizer.
- Estou grávida e meu pai me colocou para fora de casa.
Tristeza e surpresa tomam a face da mulher.
- Ainda fazem isso? Sabe, quando eu era jovem era mais comum esse tipo de coisa, mas hoje em dia não sabia que ainda existia pessoas capazes disso.
Não respondo, apenas continuo a comer minha sopa quente.
- E o pai do bebê?
Olho para ela sem saber qual sentimento tinha mais força dentro de mim, se a dor ou o ódio.
- Ele fugiu.
Volto a comer a minha sopa.
- Então você não tem para onde ir nem ninguém a quem recorrer?
- Não.
Respondo simplesmente.
- Então, Luma, eu vou te fazer uma proposta e você tem até o final da semana para pensar. Volto para minha cidade em três dias e até lá pode ficar comigo aqui.
- Que proposta?
- Eu tenho um negócio... sou dona de uma casa de prazeres, um prostíbulo de luxo. Você tem lindos olhos verdes, um rosto bonito e depois que seu filho nascer pode trabalhar para mim. Os clientes pagam muito bem, não terá que se deitar com homens imundos, somente homens de negócio frequentam a minha mansão. É bastante discreta e luxuosa. Poderá criar seu filho lá, não a forçarei que se afaste dele, como fazem em alguns lugares.
Me assusto inicialmente com sua oferta, se meu pai ouvisse algo assim ele se alteraria no mesmo instante. Mas de que me adiantou ser uma boa moça? No primeiro deslize fui colocada para fora de casa.
- E se eu não aceitar?
- Se não aceitar, não poderei fazer muito por você. Posso te levar a uma igreja, talvez eles tenham um abrigo onde possa viver. Mas não precisa responder agora, tenho negócios a tratar aqui na sua cidade, então, enquanto estiver aqui, pode pensar.
Balanço a cabeça em concordância e levei tudo em consideração enquanto pensava.
Minhas roupas estavam secas, meus documentos foram recuperados e estava sendo bem alimentada por todos esses dias. Decidi tentar arrumar um trabalho, mas não consegui nada.
Primeiro fui a uma lanchonete que estava precisando de atendente, estava tudo certo até o cara reparar na minha barriga. Logo ele disse que em breve eu não conseguiria ficar de pé e mais um monte de coisa e então disse que não poderia me contratar. As experiências seguintes não foram diferentes.
Tentei casa de família, mas todos negavam quando reparavam em minha barriga. No último dia eu tentei conseguir algo a troco de comida e abrigo apenas e mesmo assim não consegui nada.
Fui abandonada pelo homem que disse me amar. Meu pai me colocou para fora de casa e viver na mesma cidade em um convento ou abrigo seria muito humilhante. Não vou deixar que vejam a minha derrota, se for para ser uma derrotada e humilhada que seja em outro lugar. Nem mesmo um emprego eu consegui. Sou apenas uma grávida imprestável que só serve pra dar trabalho aos outros. Nice foi a única pessoa que me estendeu a mão, e ela estava parada em minha frente, aguardando uma resposta.
Pisco os meus olhos encarando sua face. Estava prestes a me jogar na frente de um caminhão quando ela parou com seu carro. Eu não tinha nada, até mesmo minha vida já estava decidida e encerrar. Ao lado dela poderei cuidar do meu filho, mesmo fazendo algo que jamais imaginei. E minha vergonha será em uma cidade distante. Não tenho outra alternativa, a única mão que se estendeu para mim está com as malas prontas para ir embora e eu posso nunca mais ter outra.
- Aceito sua oferta.
***
Doze anos depois
Estava em frente ao espelho terminando de me aprontar. Os cabelos formam cachos largos e caem em ondas sobre meus ombros. A lápis preto destaca meus olhos verdes e o batom vermelho deixa meus lábios ainda mais atrativos.
Meu filho está na cama jogando em seu celular.
- Kayo, venha cá. - Ele é tudo que tenho na vida, sou capaz de tudo por essa criança e quero garantir que ele jamais se sinta desprezado, abandonado, como eu fui.
Chamo e ele resmunga ao se erguer da cama com o jogo pausado.
- Eu vou perder o jogo, mamãe.
- É rápido - bato a mão na minha coxa e ele se senta. - Seu aniversário de onde anos está chegando, quer festa ou presente?
O sorriso do menino amplia. Ele está tão bonito quanto o pai, meu filho saiu a cópia fiel do homem que destruiu minha vida.
- Já tenho tanta coisa, quero uma festa na piscina com meus amigos da escola.
- Então vai ter sua festa na piscina.
- Oba! - O menino se alegra e isso é toda satisfação que tenho.
- Fica quietinho aqui que a mamãe vai trabalhar, tá bom.
- Tá. - Ele volta feliz para a cama onde retoma o seu jogo.
Tive tudo o que Nice que me prometeu e a mulher é como uma mãe para mim e uma avó para Kayo, inclusive ele a chama assim.
Infelizmente, para viver aqui tive que me habituar a algo que jamais imaginei para minha vida.
Desço as escadas e vou para a área da mansão que é destinada aos encontros com os homens que visitam o ambiente. Me sento na bar, mais duas moças se sentam ao meu lado. Pelo tempo que estou aqui, sou uma das mais antigas. A maioria já se envolveu com algum cliente rico e não perdeu a oportunidade de ir embora.
- Hoje choveu o dia todo, pode contar que vai ficar vazio. - Uma das meninas comenta.
- Folga às vezes é bom - fala a outra em resposta.
- Eu quero comprar meu carro, como vou juntar dinheiro desse jeito.
- Logo você arruma um cliente que te dê um carro - responde a amiga.
- E você, Luma, nunca se interessou por algum cliente? - Olho na face da pessoa inconveniente e respondo seca enquanto levo a bebida até a boca.
- Não.
A campainha toca no mesmo instante e Nice vai atender a porta toda pomposa.
Quando a porta se abre meu coração para. Um homem moreno de cavanhaque atravessa a porta. Ele é lindo e tem olhos castanhos brilhantes, um sorriso arrebatador, não havia como esquecer aqueles traços. Ele estava mais velho, e como se fosse possível, ainda mais bonito. Gabriel.
- Meu Deus, amigas, aquilo nem é um homem é um deus - comenta a mais nova.
O homem olha para nós e Nice faz sinal para que ele se aproxime de nós e ele vem, mas para na metade do caminho e fala algo com a senhora. Será que ele me reconheceu assim como o reconheci?
Ele volta a se aproximar com um sorriso arrebatador. Nice o acompanha.
- Estas são Janaína, Camila e a Lu...
- Lu - corto Nice e ela me olha atravessado, depois conto a ela quem é o homem a seu lado. Estendo a mão e o canalha aperta meus dedos com um sorriso largo.
- Gabriel - apresenta-se apenas para confirmar aquilo que eu tinha certeza - Encantado por sua beleza, Lu. - Ele fala e leva minha mão à boca, deixando um beijo ali.
Gabriel
- Onde estava em um dia chuvoso, como hoje, até a essa hora? - meu pai cobra.
Ele havia entrado na minha sala e me esperado ali. Me sento na cadeira confortável, cruzo os braços sobre o peito e respiro fundo. Meu dia melhorou centenas de níveis depois da visita a casa de dona Nice, não permitirei que meu pai e suas cobranças intermináveis acabe com meu dia.
- Relaxando.
- Não ache que tem poder absoluto só porque é o tal do CEO da empresa, só ocupa esse cargo porque eu entendo mais de boi e vaca que de administração, mas posso muito bem colocar outro em seu lugar.
- Então vai em frente, pai. Coloque outro aqui no meu lugar, depois não reclame - Me levanto e vou pegar um copo de uísque na estante de bebidas em minha sala - Sabe que essa época do ano é difícil para mim.
- Ainda não superou a vadiazinha? - Engulo a bebida amarga em um gole só.
- Jamais. Mas hoje eu conheci uma mulher que... - Retornei para a minha cadeira e me sentei novamente - O senhor sabe, há muito tempo nenhuma mulher mexia comigo como esta.
Meu pai levantou uma sobrancelha e me olhou de lado.
- Conheceu hoje essa moça?
- Conheci.
- E estava com ela até agora?
- É, eu estava.
- E onde é que estava com essa moça?
Remexo na cadeira incomodado. Como dizer a meu pai que a mulher que me encantei, além de não me dar a mínima, é uma prostituta?
- Pai, acho que estamos perdendo tempo com coisas que não são importantes. Sabe que depois da Luma não me envolvi com nenhuma outra mulher, e pretendo continuar nesse caminho.
- A Rosa é uma boa moça, já falei que deve casar e ter herdeiros. Você é meu filho único. Para quem irá toda nossa fortuna depois que eu e você morrermos?
- Pretendo viver por muitos anos ainda, meu pai. Vamos deixar esse assunto para um futuro bem distante.
- Ainda acho que deveria dar uma chance a Rosa, ela é uma menina de ouro.
- Pai, vamos falar de negócios?
Finalmente o velho assente e começamos a falar do que realmente precisamos. Mas enquanto ele discursa sobre a multiplicação de nossa produção, meus pensamentos voltam mais de uma década.
Luma era uma moça tão linda, tão meiga e parecia me amar tanto. Parecia tão entregue e sincera, uma moça de família humilde, mas muito respeitosa.
Não sei por quê, mas meu pai não gosta do pai dela de jeito nenhum e quando soube que eu estava gostando da garota, jurou que me separaria dela. Por isso decidimos fugir. O pai dela também não aprovaria a relação, e estávamos tão apaixonados... mas tudo deu errado de uma forma tão terrível...
"- Vamos fugir, meu amor, não se preocupe com isso. - Beijo os lábios rosados de Luma. - Só preciso de dois dias. Vou reunir cada centavo que tenho e ver onde podemos morar e então nós fugiremos.
- Gabriel! - escuto meu pai me chamar.
- Preciso ir, antes que meu pai venha atrás de mim e nos encontre aqui. Faça como sempre, espere o sinal do Rafael e vá pelo lado da cerca.
- Eu sei - sorri parecendo nervosa - É sério que ficou feliz com a notícia, Gabriel?
- É claro que fiquei. - Observei-a novamente. Ela vestia um vestido rosa novo, eu tinha dado aquele vestido para ela. Qual desculpa Luma deu para usar o vestido e seu pai não desconfiar eu não sei, mas o vestido caía perfeitamente em seu corpo. - Preciso ir. Vamos criar nosso filho juntos, Luma. - Sapeco mais um beijo nela.
- Estou ansiosa por isso, meu amor - Ela pega o chapéu branco que usava para disfarçar e ficar menos reconhecível e coloca sobre a cabeça e fica aguardando o sinal de Rafael. Saio do celeiro com um sorriso no rosto, serei pai. Terei um filho com a mulher que amo. Não me importo que sua família seja pobre; que nossos pais não se entendam. Eu a amo e vou assumir meu filho."
Um dia tão bonito que começou tão bem, com tanta alegria e esperança...
- Gabriel, está me ouvindo? - Meu pai me tira de meus pensamentos.
Ele tem um mapa das novas instalações. Estamos ampliando a indústria de laticínios.
- É claro, pai.
- Pareceu que estava em outro planeta.
- Não, eu estava bem diante do senhor.
- Então, me diz o que acha do investimento que sugeri?
Que investimento? Droga, não ouvi uma vírgula. Mas lembro que ele disse que queria comprar mais vacas leiteiras. A quantia era alta, mas com as novas instalações, precisamos de mais animais.
- Compre, pai - Chuto e vejo o sorriso do meu pai se expandir. Acho que acertei.
- Acha mesmo? Não acha um investimento muito alto?
Droga, de quanto ele estava falando? Não posso perguntar ou ele perceberá que não ouvi uma vírgula do que disse. Luma me ferrou no passado e continua me ferrando.
- Eu acho que sim, mas confira com o balanço mensal da empresa e veja se é viável.
- Sabe que não sei nada dessas coisas, por isso está aí com esse rabo sentado na cadeira. - Sorrio para meu pai que se põe de pé e coloca o seu chapéu de boiadeiro inseparável na cabeça.
- Eu sei, por isso digo que acho que sim, mas é melhor verificarmos os números antes de qualquer decisão. Deixe a proposta com a secretária, ela vai apurar os dados e enviar para mim.
- Eu acho que é um bom investimento - defende ele.
- Eu também acho - afirmo e ele se vai, todo feliz.
Me recosto na cadeira e me viro para a imensa janela de vidro. Vejo os pingos de chuva escorrerem pela janela e então as lágrimas que verti naquele dia voltam com tudo em minha mente.
Meu coração foi partido ao meio, destruído sem dó nem piedade:
"- Ai, Gabriel, que bom que chegou - fala Rosa com os olhos arregalados, ela parece assustada.
- O que houve, Rosa, parece que viu um fantasma?
- Eu encontrei uma coisa... - ela começa a andar de um lado a outro, passando as mãos pelos cabelos - Ai, meu Deus, não sei se deveria te falar isso. Afinal, é meu irmão...
- O que aconteceu com seu irmão, Rosa? Estou ficando assustado. Rafael não veio trabalhar hoje?
- Ele veio... mas não é isso, Gabriel.
- Pare de andar de um lado a outro, Rosa - Seguro seu braço e ela me encara com seus grandes olhos negros como duas jabuticabas - E me conte de uma vez o que aconteceu.
- Isso aconteceu, Gabriel - ela fala e estende um bilhete para mim - Estava na gaveta do Rafael. Antes que me pergunte como achei, fui guardar as roupas dele a pedido da mamãe e... Grabriel? - Sinto as mãos finas de Rosa segurar meus braços quando minhas pernas perdem as forças - Está vendo, este é um dos motivos que não queria te mostrar.
No bilhete, com uma letra que parecia muito ser a de Luma, estava escrito: Rafael, hoje contarei a Gabriel sobre a gravidez e com certeza ele acreditará que o filho é dele. Nos encontramos na nossa árvore. Te amo. Luma.
- Onde é essa árvore? - questiono sem ar.
É impossível acreditar que tudo foi uma mentira, que ela me enganou. Meu pai tinha razão quando dizia que Luma era só uma interesseira, ela gosta mesmo é do Rafael. Por isso via tanto os dois juntos.
- Não sei se devo, Gabriel. Olha pra você? Está descontrolado...
- Não estou descontrolado, Rosa. Se não me falar que árvore é essa, vou procurar sozinho.
- Tudo bem, mas vai me prometer que não vai fazer nada. Vai simplesmente voltar pra casa independente do que ver.
- Prometo, mas me leve até lá.
- Vou levar onde acho que é essa tal árvore, porque Rafael sempre fica com um olhar sonhador sob sua sombra. Mas pode não ser o local do encontro...
- Tudo bem, eu entendi, agora me leve lá de uma vez. - Amasso o papel e jogo no chão, aos pés de Rosa que acaba de amassá-lo com seus sapatos novos escuros.
Sigo Rosa, pensando se eu não devo voltar da metade do caminho, afinal, só pode ser um engano. Luma não é esse tipo de garota. Ela não faria algo deste tipo.
Atravesso a porteira por onde geralmente Luma passa e a alguns metros sob a sombra da árvore, como Rosa havia dito ver seu irmão com olhar sonhador, no qual agora vejo a explicação para tal atitude: os rosto dos dois está escondido pelo chapéu branco de Luma, mas é possível ver sua silhueta esbelta, o vestido rosa que eu havia dado e seus cabelos loiros escapando pelas bordas do chapéu. Ela está mesmo me fazendo de idiota.
O sangue ferve e eu dou um passo na direção do casalzinho feliz que se beijava. As mãos de Rafael estavam na barriga dela, sinal de que ele sabe da gravidez. Ato que entrega que ele sabe que o filho é dele, tamanho o carinho que ele toca a barriga ainda plana. Mas antes que eu possa avançar, sinto os dedos finos e frios de Rosa em meus braços quentes de ódio.
- Você prometeu - ela disse e bufando de raiva voltei para casa.
Sem contar nada a ninguém naquele momento, disse somente que queria ir embora dali. Meu pai, sempre compreensivo, atendeu meu pedido e em dois dias, quando eu deveria fugir com Luma, saí da Cidade e fui levado pelos meus pais a outra cidade distante, onde ali, aos poucos construí nossa indústria de produtos Laticínios."
Aquele dia foi o pior de todos para mim. Depois contei ao meu pai o motivo pelo qual quis sumir daquele lugar e esquecer Luma. Minha mãe ficou decepcionada com a atitude de Luma, afinal ela era a única que me apoiava em meu relacionamento. E então, todos percebemos o quanto estávamos errados com relação a Luma. Ela sempre foi uma mulher interesseira, uma vadia vestida de boa moça. Mas graças a Rosa, a mesma que hoje é minha secretária, uma mulher de confiança que sempre esteve ao meu lado nos piores momentos, eu pude me libertar de um golpe.
Mas depois do que sofri, jurei a mim mesmo que nunca mais deixaria mulher alguma entrar em meu coração, fazer parte da minha vida, mas a mulher de hoje, a Lu, com toda sua indiferença, mexeu comigo de forma inexplicável.