Durante cinco anos, eu existi como o segredo mais vergonhoso de Julian Heath.
Como CEO de um império tecnológico, ele reinava absoluto, mas um veneno raro o mantinha acorrentado. Minha bioquímica singular era o único remédio capaz de conter seus efeitos, exigindo horas de contato íntimo para mantê-lo vivo.
Ele acreditava, com convicção, que eu mesma o havia envenenado - uma perseguidora obcecada que o prendera em uma dependência repulsiva.
Nessa noite, ele me ofereceu a "atenção" que afirmava ser meu maior desejo, transmitindo ao vivo um registro de nossos momentos mais privados em um leilão exclusivo.
À medida que os lances subiam, ele apresentou sua nova noiva, Cassandra, declarando que ela era sua verdadeira salvadora, pois a família dela havia desenvolvido uma cura definitiva, derivada do meu próprio sangue. Depois desta noite, ele finalmente estaria livre de mim.
Mas ele estava redondamente enganado, porque o antídoto não estava no meu sangue ou DNA.
Na verdade, fui uma cientista em bioquímica que, durante um ano, vivera reclusa em um laboratório clandestino e modificara meu próprio código genético até me tornar uma cura viva, criada para salvar o homem que amava desde que era pequena.
Ele me deixou no quarto com a transmissão ainda em andamento, seu riso ecoando pelos corredores. O amor que eu nutrira por ele se transformou em cinzas nesse dia.
Saí, encontrei um telefone público e fiz uma ligação para a única pessoa que conhecia a verdade.
"Preciso que me ajude a fingir minha morte."
Capítulo 1 Preciso que me ajude a fingir minha morte
Durante cinco anos, o primeiro dia de cada mês foi um ciclo de humilhação.
E essa noite não foi diferente.
Eu estava no quarto frio e impessoal da cobertura de Julian Heath, um espaço que conhecia melhor do que minha própria casa, mas que jamais poderia considerar meu. O ar estava impregnado com o perfume caro de sua colônia e o peso sufocante de sua fúria silenciosa.
Ele era o CEO da Heath Tech, soberano absoluto de seu império em Nova Iorque, mas uma vez por mês, se tornava prisioneiro de um veneno raro.
E eu era o antídoto dele.
Esse era o pacto oculto que minha família fora coagida a aceitar. Minha bioquímica única, uma anomalia genética de um em um bilhão, era a única barreira entre ele e a morte. A cura não vinha em comprimidos nem em injeções, mas exigia contato íntimo, pele contra pele, durante horas, para que seu corpo absorvesse os anticorpos que o meu produzia.
Mas, na mente dele, eu era a culpada.
Para Julian, eu não passava de uma perseguidora insana, alguém que o havia envenenado e o aprisionado em uma dependência detestável.
Essa mentira foi o alicerce dos últimos cinco anos da minha vida - cinco anos como seu segredo, sua vergonha, o alvo constante de seu ódio.
O mundo o admirava como um gênio frio e implacável.
á eu, Bailey Donaldson, era vista como a mulher sem dignidade que se agarrava a ele, uma oportunista da qual ele não conseguia se livrar. Em cada festa à qual era obrigada a comparecer, eu ouvia os sussurros carregados de desprezo. O que ninguém sabia era que eu sempre fui a única razão de ele ainda estar vivo.
Eu sabia a verdade.
Eu era sua salvadora, e ele, meu algoz.
A porta do quarto se abriu, e Julian entrou. Ele não me olhou, seus olhos fixos em uma grande tela até então apagada.
Na mão, segurava um tablet, o polegar suspenso sobre a tela.
"Tenho um presente especial para você esta noite, Bailey."
Sua voz era gélida, como sempre, mas carregava uma crueldade triunfante que fez meus pelos se arrepiarem.
A tela piscou e acendeu. Minha respiração ficou presa na garganta.
Era um vídeo meu, gravado sem o meu conhecimento, nesse mesmo quarto.
Era possível me ver em nossos momentos mais íntimos, os chamados "tratamentos" - imagens vulneráveis, agora projetadas em uma tela enorme para ele observar com frieza.
"O que está fazendo?", sussurrei, minha voz trêmula.
"Oferecendo a você a atenção que sempre desejou", respondeu ele com um sorriso cruel. "Está sendo transmitido ao vivo. Para um leilão restrito."
Meu sangue congelou. Na tela, os números de lances subiam vertiginosamente - estranhos pagavam para assistir à minha humilhação.
"Julian, por favor", implorei, lágrimas turvando minha visão. "Pare. Apenas, pare."
Ele se aproximou, passos lentos e implacáveis, até agarrar meu queixo e me forçar a encará-lo. Seu aperto doía.
"Parar? Por quê? Não era isso o que você queria? Estar perto de mim, fazer parte da minha vida? Você me envenenou, Bailey. Você me prendeu nisso. Por cinco anos fui obrigado a te tocar, a te suportar. Agora, será sua vez de suportar."
Sua voz se tornou um rosnado baixo ao se inclinar ao meu ouvido.
"E quando o leilão terminar, enviarei a gravação ao seu maldito pai. Deixarei que ele veja no que sua preciosa filha se tornou."
"Eu não fiz isso", solucei, cada palavra dilacerando minha garganta. "Nunca fiz nenhum mal a você."
Ele me ignorou, os olhos sombrios iluminados por uma satisfação doentia. A forma como me olhava era como se estivesse diante de algo desprezível grudado à sola de seu sapato. Então soltou meu queixo apenas para empurrar uma taça de vinho em minha mão.
"Beba", ordenou ele. "Você parece patética."
Nesse instante, a porta se abriu mais uma vez. Uma mulher entrou, envolta em um robe de seda, os longos cabelos caindo pelos ombros. Era Cassandra Gutierrez, herdeira de um império farmacêutico rival.
Ela se dirigiu a Julian sem hesitar, envolvendo o pescoço dele e o beijando profundamente diante de mim.
Meu coração, que acreditava já ter virado pedra, se despedaçou em incontáveis fragmentos.
Julian se afastou dela, exibindo um sorriso genuíno - algo que jamais direcionara a mim.
"Bailey, esta é Cassandra", anunciou ele, a voz carregada de prazer venenoso. "Minha futura esposa."
Ele então se virou para ela com devoção. "E minha salvadora. A família dela alcançou o que você jamais conseguiu. Criaram uma cura permanente, derivada do seu sangue, que analisaram durante meses. Depois de hoje, estarei, enfim, livre de você."
Seus olhos voltaram a mim, frios como gelo. "E vou me certificar de que pague por cada segundo do inferno que me causou."
Eu permanecia paralisada, enquanto ele e Cassandra saíam do quarto, suas risadas ecoando pelo corredor.
A transmissão seguia na tela.
Ele estava equivocado. Minha família não possuía dons especiais, tampouco uma magia inexplicável.
A verdade era que eu não nasceu com o antídoto, e essa não passava de uma narrativa forjada, uma história que os Heath e a minha família concordaram em sustentar para encobrir a realidade cruel.
Quando descobri que Julian havia sido envenenado, mergulhei em experimentos cruéis em um laboratório clandestino. Modifiquei meu próprio código genético e me transformei em uma cura viva.
Fiz tudo isso para salvá-lo, porque o amava desde criança.
Acreditei que um dia ele compreenderia e reconheceria meu sacrifício. Que se lembraria do menino que prometera me proteger.
Mas ele preferiu me destruir diante de estranhos, enquanto permanecia impassível.
Minhas lágrimas cessaram. Já não havia mais motivo para chorar.
Deixei a cobertura, atordoada, encontrei um telefone público e disquei o número da única pessoa que sabia a verdade.
"Arden", chamei, minha voz vazia.
Era o avô de Julian, o único guardião do segredo.
"Bailey? O que aconteceu?" A preocupação marcava a voz dele.
"Não posso mais continuar com isso", murmurei, quase inaudível. "Acabou."
"O que quer dizer com 'acabou'? A cura ainda não está estabilizada. Julian ainda precisa de você."
"Cassandra Gutierrez tem a cura. Eles estão noivos e agora ele está livre de mim."
Em seguida, contei sobre o leilão, a humilhação pública e o golpe final.
O silêncio pesou do outro lado da linha. Então ouvi um suspiro carregado de arrependimento. "Me perdoe, minha querida. Pelo que minha família a fez passar."
"Agora terminou", afirmei. "Só quero ir embora, desaparecer."
Então, respirando fundo, continuei: "Gostaria de fazer um pedido."
"Claro, o que desejar."
"Preciso que me ajude a fingir minha morte."
Era necessário apagar Bailey Donaldson da face da terra.
"E Arden, preciso que me prometa uma coisa", acrescentei, a voz firme, tomada por uma determinação inédita. "Nunca revele a verdade a ele. Deixe que viva nas próprias mentiras e com o que fez."
Que Julian continuasse acreditando que me destruiu! Somente assim eu poderia ser livre.
Arden Heath concordou sem a menor hesitação. A culpa que ele carregava era tão palpável que parecia atravessar a linha telefônica. Ele cuidou de todos os detalhes - uma nova identidade, um refúgio discreto onde eu poderia desaparecer, e uma rota segura para a minha saída.
Voltei à cobertura apenas uma última vez, para recolher os poucos pertences que me restavam rapidamente. Em cinco anos, eu havia acumulado pouquíssimas coisas.
Julian detestava qualquer vestígio meu em seu espaço. Minhas coisas estavam restritas a um modesto quarto de hóspedes, um armário e a gaveta solitária de uma mesa de cabeceira.
Ele nunca escondeu que minha presença era, para ele, uma mancha em sua vida impecável.
Abri a gaveta inferior da mesinha e alcancei o fundo, onde um painel falso escondia uma pequena caixa de veludo.
Dentro dela, repousava o único objeto que de fato era meu: uma fotografia desbotada.
Era de mim e Julian, tirada quando ainda éramos crianças, durante um carnaval de verão. Ele tinha dez anos, eu oito. O braço dele repousava sobre meu ombro, e ele sorria para a câmera com um sorriso banguela repleto de alegria inocente. Eu, por minha vez, olhava para ele com uma expressão de devoção transparente.
Eu me recordava daquele dia com clareza. Diante dos nossos pais, ele disse que eu seria sua "futura esposa".
"Vou me casar com a Bailey!", declarou ele com orgulho, estufando o peito.
Os adultos riram, bagunçando o cabelo dele carinhosamente. "Claro que sim, campeão."
Naquela tarde, ele ganhou para mim um ursinho de pelúcia, comprou um anel barato de plástico em uma máquina de chicletes e me presenteou também com um pequeno amuleto trançado, adquirido de um vendedor ambulante, dizendo que seria o meu "amuleto da sorte" e prometendo que sempre me manteria segura.
Eu me recordava ainda de outro momento - um ano depois - quando caí em um riacho profundo, nos fundos da propriedade da família dele. Sem pensar, ele saltou atrás de mim, me puxando para fora e ferindo gravemente o joelho em uma pedra. Apesar disso, ele nunca reclamou.
Agora, aquele mesmo garoto estava noivo de outra mulher. O menino que prometera me proteger havia se transformado no homem que me infligiu a dor mais devastadora.
As lágrimas me invadiram ao encarar a fotografia. Passei os dedos sobre o contorno do rosto sorridente, a lembrança de um garoto que já não existia.
Com um último suspiro trêmulo, levei a caixa, a fotografia, o anel de plástico e o amuleto da sorte até a lareira. Observei as chamas devorarem tudo, reduzindo as últimas relíquias do meu amor infantil a cinzas.
Quando estava prestes a sair, fui surpreendida por uma das empregadas, Clara, uma mulher que sempre se mostrava particularmente cruel comigo.
Ela bloqueou meu caminho. "O senhor Heath ordenou que o jardim seja replantado. Você vai cuidar disso."
"Não posso", respondi, com a voz firme e sem emoção. "Sou alérgica a essas flores. Vocês sabem muito bem disso."
Era verdade - uma alergia severa, de origem genética, que Julian conhecia perfeitamente. E ainda assim, era uma de suas pequenas crueldades favoritas.
"Ele disse que é melhor fazer isso, ou vai se arrepender", zombou Clara, me empurrando em direção à porta.
Tropecei, agarrando-me ao batente. Eu já havia suportado muito, mas essa provocação mesquinha foi o limite. Me virei bruscamente e desferi um tapa no rosto dela com força.
O estalo ecoou pelo corredor silencioso.
Clara arregalou os olhos, atônita, antes de sua expressão se contorcer em fúria. "Sua vadia!"
Antes que ela pudesse reagir, uma voz gélida quebrou o silêncio. "O que está acontecendo aqui?"
Julian estava parado no final do corredor, seus olhos cravados em mim.
Clara desatou a chorar. "Senhor Heath! Ela acabou de me bater! Tudo o que fiz foi pedir ajuda com as flores e ela me atacou!"
Não me dei ao trabalho de negar. Para quê? Ele jamais acreditaria em mim.
"Eu...", comecei, mas ele me cortou.
Seu olhar era implacável. "Você vai para o jardim e vai replantar cada uma dessas flores. Agora."
A verdade pouco importava para ele. O que ele queria era reafirmar seu domínio sobre mim.
A última fagulha de esperança de que o garoto da fotografia ainda existisse em algum lugar dentro dele se apagou. Tudo estava acabado, definitivamente.
"Está bem", respondi, a voz desprovida de qualquer emoção.
Eu faria como ele ordenou. Seria meu último ato de submissão, uma despedida silenciosa do homem que eu amara e da vida que quase me destruiu.
Passei horas no jardim, minhas mãos afundando na terra, enquanto meus pulmões queimavam a cada inspiração. As flores - belas, porém letais para mim - liberavam no ar o pólen sufocante que me cercava. Na minha pele, surgiram vários vergões vermelhos e inflamados, e minha garganta começou a se fechar, cada respiração se transformando em um arquejo áspero e doloroso.
Quando finalmente terminei, o sol já havia desaparecido no horizonte.
A empregada, Clara, não estava em parte alguma, provavelmente dispensada - um gesto ínfimo e insignificante de Julian, incapaz de apagar a tortura que me impusera.
Cambaleei de volta ao meu quarto, a visão turva. Revirei a bolsa em busca da EpiPen - a injeção de emergência que sempre carregava comigo, indispensável para sobreviver nesse mundo cruel que Julian criara. Apliquei o medicamento na minha coxa, o líquido percorrendo minhas veias e trazendo apenas um alívio parcial.
Eu sabia que precisava de ajuda médica imediata, mas antes que pudesse decidir o que fazer, a porta foi escancarada com brutalidade.
Julian entrou, seu rosto uma máscara de fúria. Ele avançou sobre mim, as mãos se fechando ao redor do meu pescoço e me arremessando contra a parede.
"Você foi se queixar para o meu avô!", ele rosnou, os dedos esmagando minha garganta. "Disse a ele que eu a obriguei a trabalhar no jardim!"
Manchas escuras invadiram minha visão. Eu não conseguia falar, tampouco respirar. Balancei a cabeça desesperadamente, já que não falava com Arden desde aquela primeira ligação.
"Não minta para mim!", ele bradou, sua voz reverberando como um trovão. "Cassandra foi humilhada por ele! Ele a chamou de prostituta e a expulsou de casa! Tudo por sua culpa!"
Minhas unhas arranhavam as mãos dele, meus pulmões clamando por ar. Eu estava morrendo, no mesmo quarto onde, por anos, havia me sacrificado para salvar a vida dele.
Quando minha consciência começou a se apagar, ele me soltou.
Caí no chão, arquejando, o corpo convulsionando em tosse, lágrimas escorrendo sem controle.
Não houve compaixão. Ele me agarrou pelos cabelos, me forçando a erguer a cabeça.
"Fique de pé", ele sibilou. "Você vai pagar caro por isso."
"Para onde... para onde está me levando?", consegui murmurar, a voz rouca.
"Você vai até a casa de Cassandra e vai se ajoelhar diante dela, implorando perdão", declarou ele com frieza mortal, O sangue gelou em minhas veias. "Não."
Ele me arrastou pelo corredor, me conduzindo até a garagem, onde me atirou no banco do passageiro de seu carro.
"Não estou te dando uma escolha", ele disse, a voz baixa, perigosa, enquanto acelerava pelas ruas molhadas da cidade. "Você vai implorar, ou enviarei aquele vídeo para toda a sua família. Sua mãe doente será a primeira a assistir."
A menção à minha mãe, frágil por causa de uma condição cardíaca delicada, foi sua arma definitiva. Ele conhecia minha vulnerabilidade mais profunda.
Era quase irônico - Julian acreditava estar me punindo, mas apenas reforçava minha decisão de deixá-lo para sempre. Essa seria era a última pá de terra sobre o caixão da minha antiga vida.
O carro parou diante de uma mansão luxuosa, em um bairro nobre de Nova Iorque, enquanto a chuva caía sem parar.
Ele me arrastou para fora, me empurrando de joelhos contra o pavimento frio e encharcado diante da porta de Cassandra.
"Você vai ficar aqui e vai suplicar por perdão até que ela concorde em concedê-lo!"
"Eu não fiz nada de errado", murmurei, a voz fraturada.
"Faça", ele ameaçou, exibindo o celular, a tela iluminada com o contato da minha mãe.
Minha resistência se partiu, pois não podia permitir que ele a ferisse.
Encostei a testa no chão molhado. Uma vez, duas vezes...
A chuva castigava meu corpo, me encharcando até os ossos. A minha garganta ardia enquanto o cascalho rasgava minha pele.
Dos arredores, vinham sussurros abafados - espectadores invisíveis que observavam da segurança de suas janelas, suas vozes carregadas de piedade e desprezo.
Meu corpo pesava, os movimentos se tornavam lentos e eu sentia o mundo girar.
Através da cortina de chuva e da névoa da dor, pensei ouvir voz dele - não mais fria, mas aguda, marcada por um pânico estranho. "Bailey?"
Não pude deixar de pensar que era uma alucinação. Afinal, ele sempre deixara claro que desejava minha morte.
Quando o colapso me venceu e a escuridão me envolveu, meu último pensamento foi uma aceitação amarga. Então era assim que terminava.