Todas as manhãs, leio cartas de amor escritas para outra mulher. Nós duas temos muito em comum:
os olhos cor de chocolate e o mesmo tom de loiro no cabelo. Também temos a mesma risada: discreta
no início, mas que se torna mais alta quando estamos na companhia das pessoas que amamos.
Quando ela sorri, ergue o canto direito da boca, exatamente como eu.
Encontrei as cartas na lixeira, dentro de uma caixa de metal em formato de coração. Centenas
delas. Algumas longas, outras mais curtas; algumas felizes, outras incrivelmente tristes. Pelas datas,
são muito antigas. Bem mais velhas do que eu. Algumas assinadas por KB, e outras, por HB.
Imaginei como meu pai se sentiria se soubesse que mamãe havia jogado tudo fora.
Mas, ultimamente, tem sido difícil para mim imaginar que ela já foi como aquela carta.
Inteira.
Completa.
Parte de algo esplêndido.
Agora, ela parecia ser exatamente o oposto.
Acabada.
Incompleta.
Sozinha o tempo todo.
Depois que meu pai morreu, mamãe se tornou uma vadia. Não existe modo mais educado de
dizer isso. Não foi de uma hora para outra, apesar de a Srta. Jackson - a vizinha do final da rua -
ter espalhado para um monte de gente que minha mãe abria as pernas para todo mundo antes mesmo
que meu pai nos deixasse. Eu sabia que não era verdade, pois nunca me esqueci de como ela olhava
para ele quando eu era criança. Era como se ele fosse o único homem na face da Terra. Sempre que
ele tinha que sair bem cedo para trabalhar, a mesa do café já estava posta, e o almoço, pronto, para
ele levar. Ela até preparava uns lanchinhos, porque meu pai vivia reclamando que sentia fome entre
as refeições, e mamãe sempre se preocupava em fazer com que ele se alimentasse bem.
Papai era poeta e dava aulas em uma universidade que ficava a uma hora da nossa casa. Não foi
surpresa descobrir que eles trocavam cartas de amor. Palavras eram o ponto forte dele, sua grande
vantagem. E mesmo não sendo tão boa quanto o marido, minha mãe conseguia expressar tudo o que
sentia em cada carta que escrevia.
De manhã, quando ele saía de casa, ela cantarolava e sorria enquanto limpava a casa e me
arrumava. E falava dele, dizendo o quanto o amava, como sentia sua falta e que escreveria uma carta
de amor antes que ele voltasse, à noite. Quando ele chegava em casa, mamãe sempre o servia com
duas taças de vinho, e então era ele quem cantarolava a música favorita dos dois e beijava a mão
dela. Eles riam juntos e cochichavam como adolescentes que estão vivendo seu primeiro amor.
- Você é meu amor eterno, Kyle Bailey - dizia ela, enquanto o beijava.
- Você é meu amor eterno, Hannah Bailey - respondia ele, girando-a em seus braços.
O amor dos dois era capaz de provocar inveja até nos contos de fada.
Quando papai morreu, naquele dia abafado de agosto, uma parte de minha mãe também se foi.
Lembro-me de ter lido um romance em que o autor dizia algo do tipo: "Nenhuma alma gêmea deixa
esse mundo sozinha. Ela sempre leva consigo um pedaço de sua outra metade." Odiei aquilo, pois
sabia que era verdade. Minha mãe ficou enclausurada em casa por meses. Eu a obrigava a se
alimentar todos os dias, na esperança de que ela não definhasse de tanta tristeza. Nunca a tinha visto
chorar até aquele momento. Não demonstrava minhas emoções quando estava perto dela, pois sabia
que isso só a deixaria mais triste.
Eu já chorava o suficiente quando ficava sozinha.
Quando finalmente saiu da cama, foi para ir à igreja. Eu a acompanhei durante algumas semanas.
Lembro-me de me sentir totalmente perdida, aos 12 anos, sentada no banco de uma paróquia. Nunca
fomos uma família religiosa, só rezávamos quando algo de ruim acontecia. Nossas visitas à igreja
não duraram muito tempo, pois mamãe chamou Deus de mentiroso e desrespeitou os fiéis, dizendo
que deveriam parar de perder tempo, de ser enganados com esperanças vazias e inúteis de uma terra
prometida.
O pastor Reece pediu que ficássemos algum tempo sem aparecer. Pelo menos até as coisas se
acalmarem.
Até então, nunca tinha passado pela minha cabeça que alguém pudesse ser banido de um templo
sagrado. Quando o pastor dizia "venham todos", acho que não estava se referindo a "todos" de fato.
Recentemente, mamãe adotou outro passatempo: homens diferentes em curtos intervalos de
tempo. Uns para dormir, outros para ajudar a pagar as contas. E há ainda aqueles que ela gosta de
manter por perto em momentos de solidão, ou também porque lembram meu pai. Alguns ela até
chama de Kyle. Agora à noite havia um carro parado em frente a nossa casa. Azul-escuro, com alguns
cromados e bancos de couro vermelho. Dentro dele, um homem estava sentado com um charuto na
boca, minha mãe no colo. Pareciam ter acabado de sair dos anos 1960. Ela ria baixinho enquanto ele
sussurrava algo em seu ouvido, mas não era o mesmo tipo de risada da época do papai.
Era vazia, frívola e triste.
Dei uma olhada na rua e vi a Srta. Jackson cercada de outras fofoqueiras, apontando para mamãe
e o homem da semana. Queria ouvir o que elas diziam e mandar que ficassem quietas, mas elas
estavam na calçada oposta. Até mesmo as crianças que brincavam de bola na rua, driblando alguns
gravetos, observavam os dois com os olhos arregalados.
Carros caros como aquele nunca transitavam numa rua como a nossa. Tentei convencer minha
mãe a se mudar para uma vizinhança melhor, mas ela se recusou. Na época, achei que era porque ela
e papai tinham comprado a casa juntos.
Talvez ela não tivesse se esquecido completamente dele.
O homem soltou a fumaça do charuto no rosto dela, e os dois riram. Mamãe usava seu melhor
vestido: amarelo, tomara-que-caia, com cintura justa, saia rodada. A maquiagem era tão pesada que a
fazia parecer ter 30 e poucos anos, em vez de 50. Ela era bonita sem toda aquela porcaria na cara,
mas dizia que se maquiar transformava uma menina em mulher. O colar de pérolas era da minha
avó, Betty. Eu nunca a vi usar aquele colar com um estranho, e não entendi o porquê de ela fazer isso
agora.
Os dois olharam na minha direção, e me escondi na varanda, de onde continuei espiando-os.
- Liz, se você está tentando se esconder, pelo menos faça isso direito. Venha aqui conhecer meu
novo amigo - falou minha mãe bem alto.
Saí de trás da pilastra e caminhei na direção dos dois. O homem soprou a fumaça mais uma vez e,
conforme eu me aproximava, observando seus cabelos grisalhos e seus olhos azul-escuros, o cheiro
do charuto chegou ao meu nariz.
- Richard, esta é a minha filha, Elizabeth. Mas todo mundo a chama de Liz.
Richard me olhou de cima a baixo, o que fez com que eu me sentisse um objeto. Ele me analisou
como se eu fosse uma boneca de porcelana prestes a se quebrar. Tentei disfarçar o desconforto, mas
não consegui, então baixei os olhos.
- Como vai, Liz?
- Elizabeth - corrigi, ainda olhando para o chão. - Só os mais íntimos me chamam de Liz.
- Liz, isso não é jeito de falar! - repreendeu minha mãe, franzindo a testa e deixando as rugas à
mostra. Ela não teria falado dessa forma se soubesse que isso acentuava as linhas de expressão em
seu rosto. Eu odiava quando um homem novo aparecia e ela sempre escolhia ficar do lado dele e não
do meu.
- Tudo bem, Hannah. Além do mais, ela está certa. Leva tempo para conhecermos alguém. E
apelidos têm que ser merecidos. Não são oferecidos a troco de nada.
Havia algo nojento na forma como Richard me encarava e baforava seu charuto. Eu usava uma
calça jeans larga, com uma camiseta bem grande, mas, mesmo assim, me sentia exposta.
- A gente está indo à cidade comer alguma coisa. Quer ir? - convidou ele.
- Emma ainda está dormindo - recusei. Olhei em direção à casa, onde minha menininha estava
deitada num sofá-cama. Nós duas já o dividíamos há um bom tempo, desde que viemos para a casa
da minha mãe.
Ela não foi a única que perdeu o amor de sua vida.
Eu tinha esperanças de não acabar como ela.
Esperava ficar só na fase da tristeza.
Steven tinha morrido há um ano, e eu ainda tinha dificuldade para respirar. Emma e eu
morávamos em Meadows Creek, no Wisconsin, nossa casa de verdade. O lugar foi reformado, e nós
o transformamos em um lar. Foi ali que eu e Steven nos apaixonamos, brigamos e fizemos as pazes
inúmeras vezes.
Bastava a nossa presença para tornar a casa um lugar aconchegante. Mas, depois que Steven se foi,
parecia que uma nuvem escura pairava sobre ela.
Foi no hall de entrada que ficamos juntos pela última vez. Seu braço envolvia minha cintura, e
nós achávamos que nos lembraríamos daquele instante para sempre.
Mas o "para sempre" foi bem mais curto do que todos imaginavam.
Durante muito tempo, a vida seguiu seu curso, até que, um dia, tudo ruiu.
Eu me senti sufocada pelas lembranças e pela tristeza, e então corri para a casa da minha mãe.
Voltar ao nosso lar significava encarar a verdade: ele não estava mais entre nós. Por mais de um
ano, vivi um faz de conta, fingindo que ele tinha saído para comprar leite e que voltaria a qualquer
momento. Todas as noites, quando me deitava, ficava do lado esquerdo da cama e fechava os olhos,
imaginando que Steven estava ali comigo.
Mas minha filha merecia mais do que isso. Minha pobre Emma precisava de mais do que um sofá-
cama, homens estranhos e vizinhos fofoqueiros dizendo coisas que uma garotinha de 5 anos nunca
deveria ouvir. Ela também precisava de mim. Eu estava vagando pela escuridão, não era a mãe que
ela merecia. Enfrentar as lembranças do nosso lar talvez me trouxesse paz.
Voltei para dentro de casa e olhei para meu anjinho dormindo, seu peito subindo e descendo em
um ritmo perfeito. Nós duas temos muito em comum: as covinhas na bochecha e o mesmo tom loiro
no cabelo. Também temos a mesma risada: discreta no início, mas que se torna mais alta quando
estamos na companhia das pessoas que amamos. Quando ela sorri, ergue o canto direito dos lábios,
exatamente como eu.
Mas tínhamos uma grande diferença.
Os olhos dela eram azuis como os dele.
Deitei-me ao lado de Emma, beijando suavemente seu nariz. Depois, peguei a caixa no formato de
coração e li mais uma carta. Já tinha lido aquela antes, mas mesmo assim ela tocou minha alma.
Às vezes, eu fazia de conta que as cartas eram de Steven.
E sempre derramava algumas lágrimas.
Capítulo 2
Elizabeth
- Vamos mesmo pra casa? - perguntou Emma de manhã, sonolenta, quando a luz entrou pela
janela, iluminando seu rostinho. Tirei-a da cama, peguei Bubba, seu ursinho e companheiro de todas
as horas, e fiz os dois se sentarem na cadeira mais próxima. Bubba não era simplesmente um ursinho
de pelúcia, era um ursinho-zumbi. Minha garotinha era um pouco diferente, e, depois de assistir ao
Hotel Transilvânia, cheio de zumbis, vampiros e múmias, ela decidiu que adorava coisas estranhas e
assustadoras.
- Vamos, sim - respondi, sorrindo ao fechar o sofá-cama. Não consegui dormir a noite toda e
fiquei arrumando nossas coisas.
Emma estava com um sorriso bobo no rosto, igualzinho ao do pai.
- Oba! - exclamou, contando a Bubba que íamos para casa.
Casa.
Sentia uma pontada no coração cada vez que ouvia essa palavra, mas continuei sorrindo. Aprendi
que tinha que sorrir na frente de Emma, porque ela acabava ficando triste quando percebia que eu
estava mal. Nesses momentos ela me dava os melhores beijos de esquimó, mas esse era o tipo de
responsabilidade que ela não precisava ter.
- Acho que vamos chegar a tempo de ver os fogos no telhado. Lembra quando fazíamos isso
junto com o papai? Lembra, lindinha? - perguntei.
Ela estreitou os olhos, tentando se lembrar. Como seria bom se nossa mente funcionasse como um
grande arquivo e pudéssemos simplesmente reviver nossos momentos favoritos a qualquer instante,
escolhendo-os num sistema bem-organizado.
- Não lembro - respondeu ela, abraçando Bubba.
Aquilo partiu meu coração.
Continuei sorrindo mesmo assim.
- Que tal pararmos no mercado e comprarmos picolés para tomar enquanto vemos os fogos?
- E salgadinho pro Bubba!
- Claro!
Ela sorriu e deu um gritinho, animada. Dessa vez, meu sorriso foi de verdade.
Eu a amava mais do que ela poderia imaginar. Se não fosse por ela, com certeza já teria me
rendido ao luto. Emma salvou minha alma.
Não me despedi da minha mãe porque ela não voltou para casa depois do jantar com o
aventureiro da vez. Logo que me mudei, eu telefonava, preocupada, quando ela demorava a chegar,
mas ela acabava gritando comigo, dizendo que era adulta e sabia o que estava fazendo.
Deixei um bilhete:
Indo pra casa.
Amamos você.
Até breve.
E&E
A viagem durou horas no meu carro velho, e ouvimos a trilha sonora de Frozen tantas vezes que
cheguei a pensar em cortar os pulsos. Emma ouviu um milhão de vezes cada música e ainda incluiu
seu toque pessoal nos versos. Sinceramente, gostei mais da versão dela.
Assim que ela dormiu, dei um descanso também para Frozen, e o carro finalmente ficou
silencioso. Apoiei minha mão no banco do carona, esperando que outra a envolvesse, mas isso não
aconteceu.
Estou bem, dizia a mim mesma, repetidamente. Estou muito bem.
Um dia, isso seria verdade.
Um dia, eu ficaria bem.
Na entrada da rodovia I-64, meu estômago embrulhou. Queria muito que existisse outro caminho
para chegar a Meadows Creek, mas esta era a única via de acesso à cidade. O movimento na estrada
era grande por causa do feriado, mas o asfalto novo tornava a rodovia, que antes era toda esburacada,
mais segura. Meus olhos se encheram de lágrimas quando me lembrei do momento em que ouvi a
notícia.
Acidente grave na I-64!
Caos!
Tumulto!
Feridos!
Mortos!
Steven.
Uma respiração de cada vez.
Continuei dirigindo e não permiti que as lágrimas caíssem. Forcei-me a permanecer inerte; assim
não sentiria nada. Caso contrário, acabaria desabando, e eu simplesmente não podia fazer isso. Olhei
pelo retrovisor e encontrei forças ao ver minha filha. Chegamos ao final da estrada e respirei fundo
novamente. Eu me concentrava em uma respiração de cada vez. Não conseguia ir além disso; tinha a
sensação de que poderia sufocar com o ar.
Uma placa de madeira branca e bem polida anunciava: "Bem-vindos a Meadows Creek".
Emma tinha acordado e estava olhando pela janela.
- Mamãe?
- Oi, querida.
- Acha que papai vai saber que a gente se mudou? Será que ele vai saber onde deixar as plumas?
Quando Steven faleceu e nós nos mudamos para a casa da mamãe, apareceram plumas brancas no
jardim. Emma perguntou o que eram, e mamãe respondeu que eram pequenos sinais dos anjos,
demonstrando que eles estavam sempre por perto cuidando de nós.
Ela adorou a ideia e, cada vez que encontrava uma pluma, olhava para o céu, sorria e sussurrava:
"Eu também te amo, papai." Depois, tirava uma foto com a pluma e a colocava na caixa "Papai &
Eu".
- Tenho certeza de que ele sabe onde nos encontrar, minha querida.
- Sim - concordou Emma. - Ele sabe onde nos encontrar.
As árvores pareciam mais verdes do que eu lembrava, e as lojinhas no centro de Meadows Creek
estavam enfeitadas de vermelho, azul e branco para o feriado da Independência. Era tudo tão
familiar e, ao mesmo tempo, tão diferente. A bandeira americana da Srta. Frederick tremulava ao
vento enquanto ela colocava pétalas de rosas secas no vaso. Era possível sentir seu orgulho patriótico
ao vê-la ali, admirando sua casa.
Ficamos paradas no único sinal de trânsito da cidade por uns dez minutos, o que não fazia
nenhum sentido. Enquanto aguardávamos, pensei em todas as coisas que me lembravam de Steven.
De nós. Quando o sinal abriu, pisei no acelerador, querendo chegar logo em casa para afastar as
sombras do passado. Assim que o carro começou a descer a rua, minha visão periférica captou um
cachorro vindo em minha direção. Pisei no freio bem rápido, mas a lata-velha demorou a parar.
Quando finalmente freou, ouvi um latido alto.
Meu coração quase saiu pela boca. Fiquei paralisada; parecia incapaz de respirar novamente.
Estacionei o carro de qualquer jeito, enquanto Emma perguntava o que estava acontecendo, mas não
dava tempo de responder. Abri a porta do carro, precipitei-me em direção ao pobre cachorro e vi um
homem correndo na mesma direção. Ele me encarava com um olhar desesperado, praticamente me
forçando a enxergar a intensidade de seus olhos azuis acinzentados. A maioria dos olhos azuis
parece trazer consigo um sentimento caloroso e gentil, mas não os dele. Os dele eram intensos, assim
como sua própria postura. Fria, reservada. Em torno de suas íris, era possível ver o azul profundo em
meio às manchas prateadas e pretas, que tornavam seu olhar ainda mais impenetrável. Lembrava as
sombras no céu quando uma tempestade estava prestes a cair.
Esse olhar me era familiar. Será que eu o conhecia? Jurava que já o tinha visto em algum lugar.
Ele parecia amedrontado e furioso ao se aproximar do cachorro, que imaginei ser dele, parado no
chão. Estava com um grande fone de ouvido no pescoço, conectado a alguma coisa na mochila.
Usava roupas de ginástica. A camisa branca de manga comprida acentuava os músculos dos
braços, o short preto deixava as pernas grossas à mostra, e o suor escorria de sua testa. Imaginei que
estivesse levando o cachorro para correr e acabou perdendo a coleira, mas ele não estava de tênis.
Por que estava descalço?
Não importava. Será que o cachorro estava bem?
Eu deveria ter prestado mais atenção.
- Desculpe, eu não vi... - comecei a dizer, mas ele soltou um grunhido ríspido, como se minhas
palavras o ofendessem.
- Que droga! Você só pode estar de sacanagem... - berrou de volta.
Sua voz me fez estremecer. Ele pegou o cachorro nos braços como se fosse seu próprio filho. Nós
nos levantamos ao mesmo tempo. Então ele olhou ao redor, eu também.
- Deixa eu levar vocês ao veterinário - sugeri, estremecendo ao ouvir o cachorro ganir nos
braços do homem. Sabia que não deveria ficar nervosa com seu tom de voz, pois não se deve julgar
alguém numa situação de pânico. Ele não respondeu, mas percebi hesitação em seu olhar. O rosto
era emoldurado por uma barba grossa, escura e indomada; sua boca estava escondida em algum
lugar daquela selva. Eu só podia confiar na história que seus olhos contavam.
- Por favor - insisti. - É muito longe para ir a pé.
Ele assentiu num gesto quase imperceptível, abriu a porta do carona e entrou com o cachorro no
colo.
Corri para dentro do carro e comecei a dirigir.
- O que aconteceu? - perguntou Emma.
- Vamos levar esse cachorrinho ao veterinário, querida. Está tudo bem. - Eu realmente
esperava não estar mentindo.
Em vinte minutos, chegamos à clínica veterinária mais próxima, que ficava aberta vinte e quatro
horas, e o percurso não foi exatamente o que eu esperava.
- Vire à esquerda na Cobbler Street - mandou ele.
- A Harper Avenue vai ser mais rápida - discordei.
- Você não sabe o que está fazendo. Entre na Cobbler! - gritou, irritado.
Respirei fundo.
- Eu sei dirigir.
- Sabe mesmo? Porque acho que esse é o motivo de estarmos aqui.
Eu estava prestes a jogar aquele idiota para fora do carro, mas o ganido do cachorro me impediu.
- Já me desculpei.
- Isso não ajuda meu cachorro.
Idiota.
- A Cobbler é a próxima à direita - insistiu.
- A Harper é a segunda.
- Não entre na Harper.
Ah, não? Acho que vou pegar a Harper só para irritar esse cara. Quem ele pensa que é?
Virei na Harper.
- Não acredito que você pegou a droga da Harper! - reclamou ele.
Sua raiva me fez sorrir, até o momento em que vi as obras e a placa de "rua fechada".
- Você é sempre burra mesmo?
- E você é sempre... sempre... sempre... - gaguejei porque, ao contrário dele, eu não era boa em
discutir com as pessoas. Normalmente, engolia tudo e acabava chorando como uma criança, porque
as palavras não se formavam na minha cabeça com a mesma velocidade em que as brigas
aconteciam. Eu era uma idiota que só conseguia responder a um insulto três dias depois. - Você é
sempre... sempre...
- Sempre o quê? Fala logo! Use palavras! - exclamou ele, zombando.
Girei o volante e fiz o retorno para pegar a Cobbler.
- Você é sempre um...
- Vamos lá, Sherlock, você consegue - debochou.
- UM BABACA! UM PUTO! - berrei, entrando na rua que ele indicou.
O carro ficou em silêncio. Meu rosto ficou vermelho, e apertei o volante com força.
Assim que parei no estacionamento, ele abriu a porta sem dizer absolutamente nada, pegou o
cachorro e entrou em disparada na emergência. Fiquei na dúvida se não era melhor ir embora, mas
sabia que não ia me acalmar até ter certeza de que o cachorro ficaria bem.
- Mamãe? - chamou Emma.
- Sim, querida?
- O que é um puto?
Falha materna número 582 de hoje.
- Não é nada, amor. Eu disse "Pluto". Como o cachorro do desenho.
- Então você chamou aquele moço de cachorro?
- Sim. Um cachorro grande e desengonçado.
- E o cachorrinho dele, vai morrer? - perguntou ela logo em seguida.
Espero que não.
Depois de tirar Emma da cadeirinha, entramos na clínica. O desconhecido estava esmurrando a
mesa da recepção. Ele falava algo, mas eu não conseguia escutá-lo.
A recepcionista foi ficando cada vez mais desconcertada.
- Senhor, só estou pedindo para preencher o formulário e informar um cartão de crédito. Do
contrário, não poderemos cuidar do seu bichinho. Além do mais, o senhor não pode entrar aqui
descalço, e sua atitude não está ajudando em nada.
O desconhecido deu outro murro na mesa e começou a andar de um lado para o outro, passando a
mão nos cabelos compridos e escuros e descendo-a até a nuca. Sua respiração estava pesada, seu
peito subia e descia em ritmo acelerado.
- E você acha que eu trouxe um cartão de crédito? Eu estava correndo, sua idiota! E se não vai
fazer nada, chame outra pessoa.
Assim como eu, a mulher recuou ao ouvir aquelas palavras e sentir sua raiva.
- Eles estão comigo - falei, caminhando até a recepção. Emma agarrou meu braço e apertou
Bubba. Abri a bolsa, peguei a carteira e entreguei um cartão para a moça.
- Você está com ele? - perguntou ela, num tom quase ofensivo, como se o estranho merecesse
ficar sozinho.
Ninguém merece ficar sozinho.
Vi que a raiva e a confusão não tinham desaparecido do olhar dele. Não queria prestar atenção,
mas aquela tristeza era muito familiar, e eu não consegui me afastar.
- Sim. Ele está comigo.
Ela continuou hesitante. Aproximei-me e perguntei:
- Algum problema?
- Não, nenhum. Só preciso que vocês preencham esse formulário.
Peguei a prancheta da mão dela e fui para a sala de espera.
A televisão estava ligada no Animal Planet. Havia um trenzinho de brinquedo em um canto e
Emma foi brincar com Bubba. O estranho continuava a me encarar daquele jeito frio e distante.
- Preciso de algumas informações - falei. Ele se aproximou devagar, sentou-se ao meu lado e
apoiou as mãos nas pernas.
- Qual é o nome dele? Do cachorro - perguntei.
Ele abriu a boca e hesitou, antes de falar:
- Zeus.
Sorri. Que nome perfeito para um labrador.
- E o seu?
- Tristan Cole.
Depois de terminar o formulário, entreguei tudo para a recepcionista.
- Pode debitar todas as despesas do Zeus no meu cartão.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Pode ficar caro - alertou ela.
- Pode cobrar.
Sentei-me ao lado de Tristan novamente. Ele começou a dar tapinhas de leve nas pernas, e
percebi seu nervosismo. Quando olhei para ele, estava me encarando com a mesma confusão de
quando nossos caminhos se cruzaram.
Tristan começou a murmurar algo e a esfregar as mãos uma na outra. Em seguida, colocou os
fones de ouvido e apertou o play.
Emma vinha de vez em quando perguntar se estava na hora de ir para casa, e eu dizia que iria
demorar mais um pouco. Antes de voltar a brincar com o trem, ela parou e olhou para Tristan.
- Ei, moço!
Ele a ignorou. Ela levou as mãos ao quadril.
- Ei, moço! Estou falando com você! - insistiu, batendo o pé no chão. Tristan olhou para ela.
- Você é um grande PLUTO!
Ai, meu Deus.
Alguém devia ter me proibido de ser mãe. Sou péssima nisso.
Estava prestes a dar uma bronca nela quando vi um pequeno sorriso se formar, rapidamente, por
trás da barba de Tristan. Era quase imperceptível, mas juro que vi seus lábios se moverem. Emma
tinha o dom de fazer as almas mais sombrias sorrirem. Eu era a prova viva disso.
Cerca de meia hora depois, o veterinário veio nos informar que Zeus ficaria bem. Só tinha alguns
ferimentos e uma fratura na pata dianteira. Agradeci, e ele se afastou. As mãos de Tristan relaxaram,
e ele ficou imóvel. De repente, seu corpo todo começou a tremer. Com um longo suspiro, o babaca
furioso desapareceu e deu lugar a um homem desesperado. Ele não conteve suas emoções e começou
a chorar e soluçar de forma incontrolável. As lágrimas caíam dolorosamente. Meus olhos ficaram
marejados, e juro que uma parte do meu coração compartilhou sua dor.
- Pluto! Pluto! Não chore - disse Emma puxando a camisa dele. - Está tudo bem.
- Está tudo bem - consolei-o, usando as mesmas palavras da minha doce garotinha. Pousei a
mão em seu ombro para confortá-lo. - Zeus vai ficar bem. Ele está bem. Você está bem.
Tristan virou a cabeça na minha direção e fez que sim, como se acreditasse em mim. Respirou
fundo e secou as lágrimas, balançando a cabeça para a frente e para trás. Estava tentando ao máximo
esconder seu constrangimento, sua vergonha.
Ele pigarreou e se afastou de mim. Ficamos longe um do outro até a hora em que o veterinário
liberou Zeus. Tristan segurou o cachorro nos braços. O animal estava muito cansado, mas mesmo
assim abanou o rabo e farejou o dono. Ele deu um sorriso e, dessa vez, pude vê-lo claramente. Foi
um grande sorriso de alívio. Se o amor fosse feito apenas de momentos, este com certeza era um
deles.
Não invadi seu espaço. Os dois saíram da clínica. Segurei Emma pela mão e os seguimos.
Tristan começou a caminhar com Zeus nos braços. Queria detê-lo, mas não tinha um motivo para
pedir que ele voltasse. Coloquei Emma na cadeirinha e fechei a porta. Levei um susto quando vi
Tristan bem perto de mim, me encarando. Não desviei o olhar. Minha respiração falhava, e tentei
recordar a última vez que fiquei tão próxima de um homem.
Ele chegou mais perto.
Não me mexi.
Ele respirou.
Respirei também.
Uma respiração de cada vez.
Isso era tudo que eu conseguia controlar.
Nossa proximidade fez com que eu sentisse um aperto no estômago. Já estava pronta para dizer
"de nada" ao "obrigado" que eu certamente ouviria.
- Vê se aprende a dirigir a droga do carro - esbravejou ele, furioso, antes de se afastar.
Nada de "obrigado por você ter pagado a conta do veterinário", nem "obrigado por ter me trazido
até aqui", e sim "vê se aprende a dirigir a droga do carro".
Muito bem.
Com um sussurro, respondi ao vento que batia em meu rosto gelado:
- De nada, Pluto.
Capítulo 3
Elizabeth
- Nossa, como demoraram a chegar! - reclamou Kathy, sorrindo, ao aparecer na porta da frente.
Não esperava que ela e Lincoln fossem nos receber, mesmo sabendo que eles não nos viam há muito
tempo e moravam a apenas cinco minutos da nossa casa.
- Vovó! - gritou Emma enquanto eu abria o cinto da cadeirinha. Ela pulou do carro e correu,
muito feliz, para a avó. Kathy pegou a neta no colo e a levantou para dar um abraço apertado. -
Voltamos, vovó!
- Eu sei! Estamos muito felizes - disse Kathy, beijando o rosto de Emma.
- Cadê o vovô? - perguntou, referindo-se a Lincoln.
- Tem alguém me procurando?
Lincoln saiu da casa. Ele aparentava ter bem menos que 65 anos. Sempre achei que Kathy e
Lincoln nunca iriam envelhecer, pois eram bem mais ativos do que qualquer pessoa da minha idade
e tinham o espírito muito jovem. Uma vez, tentei correr com Kathy durante trinta minutos e quase
morri. E ela ainda me disse que aquilo era só um quarto do que corria normalmente.
Lincoln tirou Emma do colo da esposa e jogou-a para cima.
- Ora, ora, ora, quem está aqui?
- Sou eu, vovô! Emma! - Ela riu.
- Emma? Não pode ser. Você é muito alta para ser a minha pequena Emma.
Ela balançou a cabeça e disse:
- Sou eu, vovozinho!
- Bem, acho que preciso de uma prova. Minha pequena Emma sempre me dava beijos especiais.
Sabe como são? - Emma encostou o nariz de leve nas bochechas dele, como se desse beijinhos de
esquimó em seu rosto. - Meu Deus, é você mesmo! O que estamos esperando? Trouxe picolés de
várias cores para você. Vamos entrar!
Lincoln olhou para mim e piscou carinhosamente. Os dois correram para dentro, e eu parei por
um segundo para olhar tudo à minha volta.
A grama estava alta, cheia de ervas daninhas e dentes-de-leão, que, segundo Emma, fazem nossos
desejos se tornarem realidade. A cerca que começamos a construir para evitar que ela invadisse a rua
ou o bosque nos fundos da casa ficou pela metade, pois Steven não teve tempo de terminá-la.
As tábuas brancas de madeira estavam arrumadas numa pilha ao lado da casa, esperando alguém
completar a tarefa. Olhei para o quintal e para as árvores que demarcavam nossa propriedade. Atrás
da cerca havia um grande bosque. Parte de mim queria correr ali, se perder naquela mata por horas.
Kathy se aproximou de mim e me envolveu num abraço bem apertado. Praticamente desmoronei
junto dela.
- Como você está? -perguntou.
- Ainda de pé.
- Pela Emma?
- Sim, pela Emma.
Kathy me abraçou mais uma vez.
- O jardim está uma bagunça. Ninguém veio aqui desde... - Ela não conseguiu terminar, e o
sorriso desapareceu de seu rosto. - Lincoln disse que vai cuidar de tudo.
- Não precisa. De verdade. Posso cuidar disso.
- Liz...
- É sério, Kathy. Eu quero fazer isso, quero reconstruir.
- Bom, se você quer mesmo... Pelo menos não é o pior jardim da vizinhança - brincou ela,
olhando para a casa do meu vizinho.
- Tem gente morando aí? - perguntei. - Achei que o Sr. Rakes nunca conseguiria vender a
casa depois daquela história de que o lugar era mal-assombrado.
- Pois é. Alguém finalmente a comprou. E olha, não sou de fazer fofoca, mas o cara que mora aí
parece meio estranho. Já ouvi dizer que ele está fugindo de alguma coisa que aprontou no passado.
- É mesmo? Acham que ele é um criminoso?
Kathy deu de ombros.
- Marybeth disse que ouviu falar que ele esfaqueou uma pessoa. E Gary me contou que ele
matou um gato que não parava de miar.
- Ah, não! Era só o que me faltava: ter um vizinho psicopata!
- Ah, tenho certeza de que você vai ficar bem. Você sabe, são só fofocas de cidade pequena.
Duvido que sejam verdade. Mas ele trabalha na loja do Henson, aquele excêntrico, então não deve
ser muito certo da cabeça. Não se esqueça de trancar as portas à noite.
O Sr. Henson era dono da loja Artigos de Utilidade no centro da cidade, e era uma das pessoas
mais esquisitas de que já tinha ouvido falar. Mas eu só conhecia sua excentricidade pelos
comentários dos outros.
Os moradores locais adoravam fofocar e ter uma vida típica de cidade pequena. As pessoas
estavam sempre ocupadas, mas ninguém fazia absolutamente nada.
Olhei para o outro lado da rua e vi três pessoas cochichando enquanto pegavam as
correspondências na caixa de correio. Duas mulheres caminhavam depressa, passando na frente da
minha casa, e eu as ouvi falar do meu retorno - elas sequer me cumprimentaram ou acenaram, mas
fizeram comentários sobre mim. Na esquina, vi um pai ensinando uma menininha a andar de
bicicleta pela primeira vez sem as rodinhas. Pelo menos foi isso que pensei.
Dei um leve sorriso. A vida numa cidade pequena era tão clichê. Todo mundo sabia da vida de
todo mundo, e as notícias corriam rápido.
Kathy sorriu e me trouxe de volta à realidade.
- Bem, trouxemos coisas para fazer um churrasco. Também abastecemos a geladeira, e você não
precisa se preocupar em fazer compras por, pelo menos, uma ou duas semanas. E já colocamos os
cobertores no telhado para assistirmos aos fogos, que devem começar daqui a pouco... - O céu se
iluminou de azul e vermelho. - Começou!
Olhei para cima e vi Lincoln se acomodando no telhado com Emma nos braços, gritando:
- Veja! Ah... - dizia ela cada vez que um dos fogos explodia. - Vem, mamãe! - chamou
Emma, sem tirar os olhos do céu colorido.
Kathy passou o braço pela minha cintura e me conduziu até a casa.
- Depois que Emma dormir, tenho algumas garrafas de vinho guardadas para você.
- Para mim? - perguntei.
- Para você. Bem-vinda de volta ao lar, Liz - disse ela, sorrindo.
Lar.
Eu me perguntei quando aquela pontada no peito iria desaparecer.
Lincoln foi colocar Emma na cama e, como estava demorando mais do que o normal, decidi dar
uma olhada neles. Toda noite ela dava trabalho para dormir, e eu tinha certeza de que estava fazendo
o mesmo com o avô. Fui até o corredor na ponta dos pés e não a ouvi gritando, o que já era um bom
sinal. Espiei dentro do quarto e vi os dois estirados na cama, dormindo, o pé de Lincoln do lado de
fora do colchão.
Kathy deu uma risadinha bem atrás de mim.
- Não sei quem está mais animado com o reencontro, Lincoln ou Emma.
Ela me levou até a sala, e lá nos sentamos diante das duas maiores garrafas de vinho que já tinha
visto na vida.
- Você está querendo me embebedar? - Eu ri.
- Se isso fizer você se sentir melhor, sim - respondeu ela, sorrindo.
Sempre fomos muito próximas. Depois de ser criada por uma mãe instável, conhecer Kathy foi
um verdadeiro bálsamo. Ela me recebeu de braços abertos e sempre me tratou muito bem. Quando
descobri que estava grávida, ela chorou mais do que eu.
- Estou me sentindo péssima por ter ficado tanto tempo longe - falei, bebendo um gole e
olhando na direção do quarto da Emma.
- Querida, sua vida virou de cabeça para baixo. Quando tragédias acontecem e há crianças
envolvidas, ninguém consegue raciocinar direito. Agimos da forma que nos parece ser a mais
correta. Você só tentou sobreviver e fez o melhor que pôde. Não fique se culpando por isso.
- Eu sei, mas acho que saí correndo daqui por minha causa, não por Emma. Ela sentiu falta de
tudo. - Meus olhos se encheram de lágrimas. - E eu deveria ter visitado você e Lincoln. Deveria
ter ligado mais. Sinto muito, Kathy.
Ela colocou as mãos no meu joelho.
- Querida, escute. São dez e quarenta e dois da noite, e a partir deste minuto você vai parar de se
culpar. Trate de se perdoar, porque tanto eu quanto Lincoln compreendemos tudo. Sabemos que
você precisava de um tempo. Não sinta como se devesse nos pedir perdão, você não nos deve nada.
Sequei as lágrimas que continuavam a cair e retruquei, envergonhada:
- Droga de lágrimas.
- Sabe o que faz com que elas parem de cair? - perguntou Kathy.
- O quê?
Ela colocou mais vinho na taça. Mulher inteligente.
Ficamos conversando e bebendo por horas, e quanto mais vinho, mais risadas. Eu tinha me
esquecido de como era gostoso rir. Ela perguntou sobre minha mãe, e não consegui disfarçar minha
expressão de desgosto.
- Ela ainda está perdida, andando em círculos e repetindo os mesmos erros. Às vezes, me
pergunto se as pessoas chegam a um ponto em que não conseguem dar a volta por cima. Acho que
isso pode ter acontecido com ela, e não sei se ela vai conseguir mudar.
- Você ama sua mãe?
- Sim, sempre. Mesmo quando não gosto dela.
- Então, não desista. Mesmo que você precise ficar longe por um tempo. Continue amando-a e
acreditando nela, mesmo que a distância.
- Como você se tornou tão sábia? - perguntei. Ela sorriu, levantou a taça na minha direção e
colocou mais vinho. Mulher muito inteligente. - Você poderia tomar conta da Emma amanhã?
Queria ir até a cidade procurar um emprego. Talvez perguntar ao Matty se ele não precisa de uma
ajudinha no café.
- Que tal se nós ficarmos com ela durante o final de semana? Seria ótimo se tirasse uns dias só
pra você. Podemos retomar nossa tradição de ficar com ela todas as sextas. Até porque não acredito
que Lincoln vá largá-la tão cedo.
- Vocês fariam isso por mim?
- Faremos o que você precisar. Além do mais, todas as vezes que vou ao café, Faye pergunta:
"Como vai minha melhor amiga? Ela já voltou?" Então acho que ela adoraria passar um tempo com
você.
Não via Faye desde a morte de Steven. Naquela época, conversávamos quase todos os dias, mas
ela entendeu que eu precisava de um tempo para mim. Sabia que ela entenderia que eu precisava da
minha melhor amiga para começar essa nova fase.
- Sei que talvez não seja o melhor momento, mas você pensou em reabrir seu negócio? -
perguntou Kathy.
Steven e eu tínhamos uma empresa de design, a Dentro & Fora, que abrimos há três anos. Ele
reformava a parte externa das casas, enquanto eu fazia projetos de decoração de interiores para
residências e empresas. Tínhamos uma loja no centro de Meadows Creek, e essa fase foi, com
certeza, uma das melhores da minha vida. Mas, na verdade, eram as habilidades de Steven que
sustentavam o negócio; ele era formado em administração de empresas. Eu nunca conseguiria cuidar
daquilo sozinha. Ter um diploma de designer de interiores em Meadows Creek significava trabalhar
em uma loja de móveis vendendo cadeiras absurdamente caras. Era isso ou voltar aos tempos da
faculdade e trabalhar como garçonete.
- Não sei. Provavelmente não. Acho que não consigo cuidar de tudo sem Steven. Só preciso
arrumar um emprego fixo e abrir mão desse sonho.
- Entendo, mas não tenha medo de sonhar com coisas novas. Você é muito competente, Liz, e
não deve desistir do que te faz feliz.
Depois que Kathy e Lincoln foram embora, me atrapalhei toda para fechar os trincos da porta da
sala, os quais Steven deveria ter trocado há tempos. Bocejando, parei na porta do meu quarto. A cama
estava arrumada, mas não tive força suficiente para entrar. Parecia uma traição deitar na cama e
fechar os olhos sem ele ao meu lado.
Uma respiração de cada vez.
Um passo.
Entrei e escancarei a porta do armário. As roupas de Steven estavam penduradas. Passei as mãos
por elas antes de começar a soluçar. Arranquei tudo dos cabides e joguei no chão, lágrimas
escorrendo pelo meu rosto. Abri as gavetas e tirei o restante das coisas: calças jeans, camisetas,
roupas de ginástica, cuecas. Tudo que pertencia a Steven estava no chão.
Deitei sobre a pilha de roupas e fiquei inspirando seu cheiro, fazendo de conta que ele ainda
estava ali. Sussurrei seu nome, como se ele pudesse me ouvir, e me agarrei às lembranças de seus
beijos e abraços. Lágrimas de dor brotavam do meu coração destroçado e, ao segurar sua camisa
favorita, me afundei ainda mais em meu sofrimento. Chorei como louca, como uma criatura que
sentia uma dor inimaginável. A dor tornou meus olhos inchados e vazios. Tudo em mim doía; tudo
estava destruído. E, à medida que o tempo passava, eu ficava ainda mais cansada dos meus próprios
sentimentos. Adormeci profundamente, vítima da serenidade nascida da minha terrível solidão.
Quando abri os olhos, ainda estava escuro lá fora. Uma linda garotinha estava deitada ao meu
lado com Bubba. Um pedacinho pequeno de seu cobertor a cobria, enquanto a maior parte estava
sobre mim. Sempre que uma coisa assim acontecia, eu me sentia um pouco como minha mãe. Eu me
lembrava de quando tive que cuidar dela e abrir mão da minha infância. Isso não era justo com
Emma. Ela precisava de mim. Eu me aconcheguei ao seu lado, beijei sua testa e prometi a mim
mesma que não desabaria novamente.
Na manhã seguinte, Kathy e Lincoln chegaram bem cedo, animados para levar Emma para um final
de semana repleto de aventuras. Já estava pronta para sair quando ouvi alguém bater na porta. Assim
que a abri, tive que forçar um sorriso ao ver minhas três vizinhas - três mulheres que não me
fizeram a menor falta.
- Oi, Marybeth, Susan e Erica.
Eu devia ter imaginado que não demoraria muito para as três maiores fofoqueiras da cidade
aparecerem na minha porta.
- Ah, Liz - falou Marybeth ofegante, me abraçando. - Como você está, querida? Ouvimos
alguns rumores de que você tinha voltado, mas você sabe, nós odiamos fofocas, então decidimos vir
aqui pessoalmente para confirmar.
- Fiz rocambole de carne! - exclamou Erica. - Você foi embora tão rápido quando Steven
morreu que nem tive tempo de fazer um agrado. Então aqui está, finalmente pude fazer esse prato
para ajudá-la nesse momento de luto.
- Obrigada. Na verdade, eu estava indo para...
- Como está Emma? - interrompeu Susan. - Ela está superando a perda? Minha Rachel
sempre pergunta por ela. Será que elas podem brincar juntas lá em casa? Acho que seria ótimo. -
Ela fez uma pausa e se aproximou de mim. - Mas cá entre nós, Emma não está com depressão, né?
Ouvi dizer que pode contagiar outras crianças.
Que ódio. Que ódio. Que ódio.
- Ah, não, Emma está bem. Estamos bem. Está tudo ótimo - respondi sorrindo.
- Então você vai voltar ao nosso clube do livro? Estamos nos reunindo todas as quartas na casa
da Marybeth. As crianças ficam brincando no andar de baixo enquanto nós comentamos sobre o
romance da vez. Esta semana, estamos lendo Orgulho e preconceito.
- Eu... - Não quero ir de jeito nenhum. Elas ficaram me observando, e eu sabia que, se dissesse
não, causaria mais problemas. Além do mais, seria bom para Emma passar um tempo com meninas
da idade dela. - Eu vou, sim.
- Perfeito! - Marybeth olhou ao redor. - Seu jardim tem uma personalidade e tanto -
comentou com um sorrisinho nos lábios, mas o que ela queria mesmo dizer era: "Quando você vai
cortar essa grama? Isso é uma vergonha para todas nós."
- Vou dar um jeito nele - respondi. Peguei o rocambole de Erica, coloquei-o dentro de casa e
fechei a porta, esforçando-me para deixar claro que eu estava de saída. - Obrigada pela visita,
meninas. Preciso ir à cidade.
- O que você vai fazer na cidade? - quis saber Marybeth.
- Vou dar uma passada na Doces & Sabores para ver se o Matty precisa de alguma ajuda.
- Mas ele acabou de contratar uma pessoa. Duvido que tenha vaga pra você - retrucou Erica.
- Ah, então é verdade? Você não vai mesmo reabrir a empresa? Faz sentido, agora que você não
tem mais Steven - disse Marybeth.
- Ele era muito competente - acrescentou Susan, concordando. - E sei que você só tem o
diploma de designer de interiores. Deve ser difícil deixar um negócio tão interessante e voltar para
um trabalho tão... inferior, como garçonete. Eu não conseguiria. É dar um passo para trás.
Vão se ferrar, vão se ferrar, vão se ferrar.
- Bem, vamos ver. Foi ótimo revê-las. Com certeza nos encontraremos em breve - falei,
sorrindo.
- Quarta, às sete! - Susan riu.
Revirei os olhos ao passar por elas e as ouvi cochichar, dizendo que engordei e que estava com
olheiras profundas.
Andei na direção da Doces & Sabores e tentei disfarçar meu nervosismo. E se eles não
precisassem mesmo de ajuda no café? O que eu ia fazer? Os pais de Steven disseram que eu não
deveria me preocupar com dinheiro, que eles ajudariam por um tempo, mas eu não queria ajuda.
Precisava encontrar uma maneira de me sustentar. Assim que abri a porta do café, ri ao ouvir um
grito vindo de trás do balcão.
- Por favor, me diga que não é um sonho e que minha melhor amiga voltou! - berrou Faye,
pulando e me agarrando. Assim sem me soltar, ela olhou para o dono do café. - Matty, me diga que
você está vendo o mesmo que eu e que não estou tendo alucinações por causa das drogas que usei
antes de vir trabalhar.
- Ela está aqui mesmo, sua maluca.
Ele riu. Matty era bem mais velho e sempre revirava os olhos e dava risinhos afetados diante da
personalidade vibrante de Faye. Seus olhos castanhos encontraram os meus, e ele acenou para mim.
- Bom te ver, Liz.
Faye se aconchegou no meu peito como se fosse o travesseiro dela.
- Agora que voltou, você nunca, nunca mais vai embora.
Faye era bonita de uma maneira singular. Seus cabelos eram tingidos num tom prateado com
mechas cor-de-rosa e roxas, algo incomum para uma mulher de 27 anos. As unhas estavam sempre
pintadas com cores vibrantes, e seus vestidos sempre ressaltavam suas curvas perfeitas. O que a fazia
ser tão bonita, no entanto, era sua autoconfiança. Faye sabia que era deslumbrante, mas não pela
aparência. Ela tinha orgulho de si mesma, não precisava da aprovação de ninguém.
Eu a invejava por isso.
- Bom, vim até aqui pra saber se vocês estão contratando. Sei que não trabalho aqui desde a
época da faculdade, mas estou precisando de um emprego.
- É claro que estamos! Ei, Sam - chamou Faye, apontando para um rapaz que eu não conhecia
-, você está despedido.
- Faye! - protestei.
- O quê?!
- Você não pode simplesmente demitir as pessoas - eu a repreendi ao ver o medo nos olhos de
Sam, coitado. - Você não está demitido.
- Ah, está, sim.
- Cala a boca, Faye. Não, não está. Como você pode demitir alguém?
Ela levantou a cabeça e bateu no crachá com seu nome, apontando para o seu cargo.
- Alguém tinha que ser gerente, mulher.
Virei para Matty, em choque.
- Você promoveu Faye à gerência?
- Acho que ela me drogou - disse ele, rindo. - Mas se precisa mesmo de emprego, sempre
vamos ter um lugar pra você aqui, mesmo que por meio período.
- Meio período seria ótimo. Qualquer coisa está bom - respondi sorrindo, agradecida.
- Ou eu posso demitir Sam - insistiu Faye. - Ele já tem outro emprego de meio período e é
meio esquisitão.
- Eu estou ouvindo - interveio Sam, envergonhado.
- Não interessa. Está demitido.
- Não vamos demitir Sam - interveio Matty.
- Você é sem graça. Mas quer saber de uma coisa? - Ela tirou o avental e soltou um grito: -
Hora do almoço!
- São nove e meia da manhã - retrucou Matty.
- Hora do café, então! - corrigiu Faye, me pegando pelo braço. - Voltamos em uma hora.
- Os intervalos são de apenas trinta minutos.
- Tenho certeza de que Sam vai me dar cobertura. Sam, você não está mais demitido.
- Você nunca foi demitido, Sam. - Matty riu. - Uma hora, Faye. Traga-a de volta, Liz, ou ela é
que vai ser demitida.
- Ah, é? - Faye colocou as mãos na cintura, quase... sedutora? Matty deu um sorrisinho e
passou os olhos pelo corpo dela, de um modo quase...sexual?
Mas o que foi isso?
Saímos do café, o braço de Faye agarrado ao meu, enquanto eu tentava entender o que havia
acabado de acontecer entre ela e Matty.
- O que foi aquilo? - Ergui a sobrancelha.
- Aquilo o quê?
- Aquilo - falei, apontando na direção de Matty. - Aquela ceninha sensual entre vocês dois?
- Ela não respondeu e mordeu o lábio. - Meu Deus! Você dormiu com Matty?
- Cala a boca! Quer que a cidade inteira escute? - Ela olhou para os lados, envergonhada. -
Foi sem querer.
- Ah, sério? Sem querer? Você estava distraída, andando pela rua principal, quando Matty veio
em sua direção, e o pau dele saiu da calça por acidente? E aí bateu um vento forte e o pau dele foi
parar dentro da sua vagina? Foi esse tipo de acidente? - perguntei, tirando sarro.
- Não foi bem assim. - Ela passou a língua pelos cantos da boca. - O vento meio que levou o
pau dele até a minha boca primeiro.
- PELO AMOR DE DEUS, FAYE!
- Eu sei, eu sei! É por isso que as pessoas não deveriam sair de casa quando venta. As pirocas
ficam agitadas nos dias de ventania.
- Não estou acreditando nisso. Ele tem o dobro da sua idade.
- O que eu posso fazer? Acho que estou curtindo homens mais experientes... Uma figura
paterna.
- Bom, seu pai é incrível.
- Exatamente. Nenhum cara da nossa idade se compara a ele! E Matty... - Ela suspirou. -
Acho que estou gostando dele.
Aquilo foi um choque. Faye nunca usou a palavra "gostar" para se referir a um cara. Ela era a
maior pegadora que eu conhecia.
- O que significa "gostar dele"? - perguntei, com a voz cheia de esperança de que minha
amiga, finalmente, fosse sossegar.
- Calma aí, Nicholas Sparks. O que eu quis dizer é que gosto do pau dele. Até dei a ele um
apelido. Quer saber qual é?
- Pelo amor de tudo que é mais sagrado nesse mundo, não.
- Ah, mas agora vou dizer.
- Faye - murmurei.
- Matty Grossinho - contou ela, com um sorriso safado.
- Você sabe que não precisa me contar essas coisas. Tipo nunca, nunca, nunca mesmo!
- Estou falando: pensa em duas salsichas alemãs. Esse é Matty Grossinho. É como se o deus da
salsicha finalmente tivesse ouvido minhas preces. Você se lembra do Peter Dedinho e do Nick
Cabeludo? Então, é muito melhor! Matty Grossinho é o paraíso das salsichas.
- Estou quase vomitando. Literalmente. Dá pra mudar de assunto?
Ela riu e me puxou para perto.
- Como senti sua falta! Vamos para o nosso lugar de sempre? O que acha?
- Claro.
Andamos por alguns quarteirões, e Faye me fez rir muito. Perguntei-me por que fiquei tanto
tempo longe. Talvez uma parte de mim se sentisse culpada por saber que, se eu ficasse aqui, me
recuperaria aos poucos. Essa ideia me apavorava. Mas, naquele momento, rir era exatamente o que
eu precisava. Quando eu ria, não tinha muito tempo para chorar, e eu já estava cansada das lágrimas.
- É estranho estar aqui sem Emma - comentou Faye, sentando na gangorra do parquinho.
Começamos a subir e descer no brinquedo, rodeadas de crianças correndo e brincando com seus pais
e suas babás. Uma delas olhou para nós como se fôssemos loucas, mas Faye foi bem rápida e gritou:
- Nunca cresçam, crianças! É uma armadilha!
Ela era ridícula o tempo todo.
- Então, há quanto tempo está rolando esse lance com Matty? - perguntei.
- Sei lá... tipo, um mês ou dois - respondeu ela, corando.
- Dois meses?
- Talvez sete. Ou oito.
- O quê? Oito?! Nós nos falamos pelo telefone quase todos os dias. Como você nunca comentou
nada?
- Não sei. - Faye deu de ombros. - Você estava passando por tantas coisas... E parecia um
pouco insensível falar do meu sex-cionamento. - Faye nunca teve relacionamentos, mas era
profissional nos sex-cionamentos. - Meus problemas eram pequenos, mas os seus... - Ela franziu a
testa, deixando-me no alto da gangorra. Faye quase nunca assumia uma expressão séria, mas Steven
era como um irmão para ela. Eles brigavam o tempo todo, muito mais do que quaisquer irmãos de
verdade que conheci, mas também se importavam muito um com o outro. Foi ela quem nos
apresentou, na faculdade. Os dois se conheciam desde a quinta série e eram grandes amigos. Eu
nunca havia visto tristeza nos olhos dela até o dia em que Steven morreu, e eu tinha certeza de que
agora esse sentimento era mais frequente em seu semblante. Eu provavelmente estava vivendo o meu
próprio desespero e não percebi que minha melhor amiga também sofria com a morte de seu irmão
postiço. Ela pigarreou e abriu um meio sorriso. - Meus problemas eram pequenos, Liz. Os seus,
não.
- Olha, quero que você saiba que sempre pode me dizer tudo, Faye. - Ela se colocou no alto da
gangorra. - Quero saber tudo sobre essas aventuras sexuais com o velho Matty. Além do mais, não
há nada na sua vida que seja pequeno. Pelo amor de Deus, olha o tamanho dos seus peitos!
- Eu sei! Esses peitos não são brincadeira. - Ela riu alto, jogando a cabeça para trás. Quando
Faye ria, o mundo inteiro sentia sua felicidade.
- Temos que voltar antes que você seja demitida.
- Se Matty me demitir, as bolas dele vão ficar roxas pelo resto da vida.
- Faye... - Ruborizei, olhando para as pessoas a nossa volta. - Você precisa de um filtro.
- Filtros são para cigarros, não para humanos, Liz - brincou ela.
Começamos a andar na direção do café, seu braço agarrado ao meu, nossos pés caminhando
juntos.
- Estou tão feliz por você meio que ter voltado, Liz - murmurou, apoiando a cabeça no meu
ombro.
- Meio que ter voltado? Como assim? Estou aqui, estou de volta.
Ela olhou para mim com um sorriso sábio.
- Ainda não. Mas daqui a pouco você chega lá, meu docinho.
A forma como ela enxergava a minha dor, muito além das aparências, era impressionante. Eu a
puxei para perto e, com certeza, não a soltaria tão cedo.
Capítulo 5
Elizabeth
- Liz, você teve coragem de ir embora com a Emma sem nem me ligar! - reclamou mamãe, muito
irritada. Emma e eu já tínhamos voltado há dois dias, e ela só estava ligando agora. Existiam apenas
duas explicações para a atitude dela: ou estava muito magoada por termos ido embora e deixado só
um bilhete, ou estava passeando pela cidade com algum desconhecido e havia acabado de chegar em
casa.
Achei que a segunda opção fazia mais sentido.
- Sinto muito, mas você sabia que eu estava pensando em ir embora. Precisamos de um novo
começo - tentei explicar.
- Um novo começo na sua velha casa? Isso não faz sentido.
Eu sabia que ela não ia entender, então mudei de assunto.
- Como foi o jantar com Roger?
- Richard - corrigiu ela. - Não finja que não sabe o nome dele. Foi incrível. Acho que
encontrei o cara certo.
Revirei os olhos. Todos os homens que ela conhecia eram "o cara certo", até que deixavam de ser.
- Você está revirando os olhos? - perguntou ela.
- Não.
- Está sim, não está? Às vezes você consegue ser tão grosseira...
- Mamãe, preciso ir para o trabalho - menti. - Posso ligar pra você depois?
Talvez amanhã.
Talvez na próxima semana.
Só preciso de um tempo.
- Tudo bem. Mas não se esqueça de quem ficou ao seu lado quando você não tinha ninguém,
filhinha. É claro que os pais do Steven devem estar ajudando, mas vai chegar o momento em que
você vai perceber quem é sua verdadeira família e quem não é.
Nunca me senti tão aliviada por desligar o telefone.
De vez em quando, eu olhava para o jardim coberto de mato, tentando me lembrar de como era
antes. Steven havia transformado aquele espaço em um lugar lindo; ele era um ótimo paisagista e
cuidava dos mínimos detalhes. Eu quase conseguia sentir o aroma das flores que ele plantou - que,
obviamente, estavam mortas agora.
- Feche os olhos - sussurrou Steven, apoiando a mão nas minhas costas. Fiz o que ele pediu. -
Qual é o nome dessa flor? - perguntou. O aroma chegou ao meu nariz, e eu sorri.
- Jacinto.
Abri um sorriso ainda maior quando senti seus lábios nos meus.
- Jacinto - repetiu ele. Eu abri os olhos, e ele colocou a flor atrás da minha orelha. - Pensei em
plantar mais algumas perto do lago.
- É minha flor favorita.
- Você é a minha garota favorita.
Pisquei e, em um instante, estava de volta, sentindo falta do cheiro do passado.
Olhei para a casa do meu vizinho; seu jardim estava muito pior que o meu. A casa era toda de
tijolos marrom-avermelhados, com colunas brancas de marfim dos dois lados. A grama estava dez
vezes maior que a minha, e vi pedaços do que um dia foi um anão de jardim na varanda dos fundos
da casa. Tinha um taco de beisebol de brinquedo, feito de plástico amarelo, escondido na grama alta
junto com um pequeno dinossauro.
Uma mesa vermelha, toda descascada, estava ao lado de um galpão. Havia também algumas
pilhas de madeira apoiadas ali, e me perguntei se alguém, de fato, já havia morado naquele lugar.
Parecia mais abandonado do que nunca, e me preocupei com a sanidade do meu vizinho.
Atrás das casas do meu quarteirão ficava o bosque de Meadows Creek. Eu sabia que, bem mais
adiante, quase escondido no meio daquela floresta sombria, havia um riacho que se estendia por
vários quilômetros. A maioria das pessoas nem sabia que ele existia. Steven e eu o descobrimos ainda
nos meus tempos de faculdade. Na margem havia uma pequena pedra e, nela, estavam gravadas as
iniciais ST e EB. Fizemos isso no dia em que ele me pediu em casamento. Sem me dar conta, acabei
entrando no bosque e me sentei em meio às árvores, encarando meu reflexo na água.
Uma respiração de cada vez.
Pequenos peixes nadavam ali tranquilamente, até que ouvi o som da água se agitando e percebi
uma ondulação em sua superfície. Virei a cabeça em busca de alguma explicação e fiquei vermelha
ao ver Tristan de pé ao lado do rio, sem camisa e vestindo apenas um short de corrida. Ele se
abaixou e começou a lavar o rosto, passando os dedos com força pela barba grossa. Olhei para ele de
cima a baixo, para seu peitoral definido coberto de pelos, e o vi jogar a água no corpo. Seu braço
esquerdo era repleto de tatuagens, que se estendiam pelo tórax. Fiquei observando os desenhos em
seu corpo, incapaz de desviar o olhar. Eram muitos, nem consegui contá-los, mas tentei distinguir
cada um deles. Conheço essas tatuagens. Eram clássicos infantis: Aslam, de As crônicas de Nárnia; o
monstro, de Onde vivem os monstros; O vagão de trem, de The boxcar children. No peito, a frase
"We're all mad here", de Alice no país das maravilhas.
Achei aquilo brilhante. Não existia nada mais impressionante do que um homem que não apenas
conhecia as histórias mais clássicas da literatura, mas também havia transformado o próprio corpo
numa biblioteca particular.
A água escorreu do cabelo até o peitoral. E, de repente, fiquei imóvel. Será que ele sabia o quanto
era bonito e, ao mesmo tempo, assustador?
Meu Deus, por quanto tempo posso continuar olhando esse homem, antes de ser politicamente
incorreta?
Não sei, Liz. Vamos descobrir. Um, dois, três...
Ele não tinha me visto, e comecei a me afastar do riacho com o coração disparado, na esperança
de que ele não percebesse minha presença.
Mas Zeus estava amarrado a uma árvore e, assim que me viu, começou a latir.
Droga!
Tristan olhou na minha direção com a mesma frieza de antes. Ele parou, e a água começou a
escorreu do seu tórax até o cós do short. Continuei encarando-o e percebi que minha atenção estava
voltada para o volume dentro de sua roupa. Ergui o olhar rapidamente de volta para seu rosto, que
continuava sem se mover um centímetro sequer. Zeus continuou latindo e abanando o rabo, tentando
se soltar da coleira.
- Você está me seguindo? - perguntou ele. As palavras foram ríspidas e diretas, sem dar
margem à conversa.
- O quê? Não.
Ele ergueu a sobrancelha.
Continuei observando suas tatuagens. Ah, Ovos verdes e presunto, do Dr. Seuss. Ele notou meu
olhar.
Que merda, Liz. Pare com isso.
- Desculpe - murmurei, meu rosto pegando fogo, tamanho constrangimento. O que ele estava
fazendo ali?
Tristan olhou para mim sem sequer piscar. Ele poderia ter falado qualquer coisa, mas tive a
impressão de que se divertia muito mais me deixando envergonhada e ansiosa. Era difícil olhar para
ele. Parecia um homem devastado, mas cada uma das cicatrizes de sua existência me atraía.
Continuei observando-o enquanto ele tirava a coleira de Zeus da árvore e voltava pelo mesmo
caminho que eu tinha vindo. Eu o segui, rumo à minha casa.
Ele parou.
Virou-se devagar.
- Pare de me seguir - sibilou.
- Não estou seguindo você.
- Está sim.
- Não.
- Está.
- Não, não, não!
Ele ergueu a sobrancelha de novo.
- Você parece uma criança de 5 anos.
Ele se virou e continuou andando. Também continuei. De vez em quando, ele olhava para mim e
grunhia, mas não falou nada. Chegamos ao final da trilha, e ele e Zeus seguiram para o jardim
maltratado ao lado da minha casa.
- Acho que somos vizinhos - observei, com uma risada sem graça.
O modo como Tristan olhou para mim me provocou um frio na barriga. Um desconforto persistia
em meu peito, mas, por trás daquilo, eu ainda podia perceber aquela pontada familiar que eu sentia
todas as vezes em que o encontrava.
Nós dois seguimos para nossas respectivas casas sem nos despedirmos.
Jantei sozinha à mesa da sala de jantar. Quando olhei pela janela, vi Tristan, também sentado a
uma mesa, comendo. A casa dele parecia muito escura e vazia. Solitária. Ele olhou pela janela e me
viu. Acenei e sorri para ele. Ele se levantou, foi até a janela e fechou a cortina.
Não demorei muito para perceber que as janelas dos nossos quartos ficavam uma de frente para a
outra, e ele fechou a cortina novamente, bem depressa.
Liguei para checar se estava tudo bem com Emma e, pelo barulho, deu para perceber que ela
estava muito agitada. Provavelmente por ter comido muitos doces e por estar se divertindo muito na
casa dos avós. Mais ou menos às oito da noite, sentei-me no sofá da sala, olhando para o nada e
tentando não chorar, quando recebi uma mensagem de texto de Faye.
Faye: Você está bem?
Eu: Sim, estou.
Faye: Quer companhia?
Eu: Hoje, não. Cansada.
Faye: Tem certeza?
Eu: Quase dormindo...
Faye: Absoluta?
Eu: Amanhã.
Faye: Amo você, vadia.
Eu: Amo você, piranha.
O barulho de alguém batendo na porta assim que enviei a última mensagem não me surpreendeu.
Eu tinha certeza de que Faye viria, porque ela sabia que, quando eu falava que estava bem, na
verdade queria dizer o contrário. O que me surpreendeu foi ver outras pessoas além dela na minha
porta. Amigos. Faye segurava a maior garrafa de tequila do mundo.
- Quer companhia? - Ela riu.
Meu olhar foi do meu pijama para a garrafa de tequila.
- Com certeza!
- Achei que você fosse bater a porta na nossa cara - falou uma voz familiar atrás de mim
enquanto eu servia quatro shots na cozinha. Eu me virei e vi Tanner me observando, jogando para o
alto a moeda que ele sempre trazia consigo. Eu me joguei em seus braços, abraçando-o bem
apertado. - Oi, Liz - murmurou ele, retribuindo meu abraço com força.
Tanner era o melhor amigo de Steven, e eles eram tão próximos que cheguei a pensar que meu
marido ia me trocar por um homem. Ele era forte, tinha olhos escuros e cabelos loiros. Trabalhava na
oficina mecânica do pai, que passou a administrar depois que ele ficou doente. Ele e Steven
tornaram-se melhores amigos quando dividiram o quarto no primeiro ano da faculdade. Apesar de
Tanner ter desistido da universidade para trabalhar com o pai, ele e meu marido continuaram muito
próximos.
Tanner deu um sorriso amigável e me soltou. Pegou dois shots, me passou um deles e bebemos
juntos. Em seguida, ergueu os outros dois e fizemos o mesmo. Sorri.
- Sabe, essas quatro doses eram para mim.
- Eu sei. Só estou tentando poupar seu fígado.
Vi quando ele colocou a mão no bolso e pegou uma moeda. A mesma moeda que ele sempre
girava entre os dedos. Era um hábito estranho que ele já tinha antes de nos conhecermos.
- Você ainda tem sua moeda.
- Nunca saio de casa sem ela - respondeu, rindo, antes de guardá-la no bolso.
Estudei seu rosto. Provavelmente ele não sabia disso, mas, de vez em quando, dava para ver a
tristeza em seu olhar.
- Como você está?
Ele deu de ombros.
- É muito bom ver você de novo. Cara, faz tanto tempo. E você praticamente sumiu depois... -
Ele parou de falar. Ninguém sabia o que dizer sobre a morte do Steven. O que eu achava bom.
- Agora estou de volta. - Fiz um gesto enquanto servia mais quatro shots. - Emma e eu
voltamos pra ficar. Só precisávamos de um tempo. Só isso.
- Você ainda dirige aquela lata-velha? - perguntou Tanner.
- Sim, com certeza. - Mordi o lábio. - Outro dia atropelei um cachorro.
- Não!
Ele ficou boquiaberto.
- Verdade. O cachorro está bem, mas a droga do freio não funcionou direito e quase passei por
cima dele.
- Vou cuidar disso pra você.
- Tudo bem. Eu normalmente vou andando pra todos os lugares da cidade. Sem problemas.
- Vai ser um problema quando o inverno chegar.
- Não se preocupe, Tanner Michael Chase, vai dar tudo certo.
- Odeio quando você me chama pelo nome completo - disse ele, fazendo uma careta.
- É exatamente por isso que eu te chamo assim.
- Então vamos fazer um brinde - sugeriu ele. Faye veio correndo e pegou um dos copos.
- Adoro fazer brindes com tequila. - Ela soltou uma risada. - Ou vodca, uísque, rum, álcool...
Sorri, e nós três levantamos os copos. Tanner pigarreou:
- A velhos amigos e novos começos. Sentimos falta de você e da Emma, Liz. Estamos muito
felizes com o retorno de vocês. Que os próximos meses sejam mais fáceis, e que você nunca se
esqueça de que não está sozinha.
Com um único movimento, viramos as doses rapidamente.
- Aqui vai uma pergunta aleatória. Eu queria mudar todas as fechaduras da porta. Você conhece
alguém que possa fazer esse serviço?
- Sam, com certeza - respondeu Faye.
- Sam?
- Sabe aquele cara que eu tentei demitir pra contratar você? Aquele esquisitão do café? O pai
dele tem uma loja, e ele trabalha meio período lá fazendo esse tipo de coisa.
- Sério? Será que ele me ajudaria?
- Claro que sim. Vou pedir pra ele te ajudar, caso contrário eu o demito novamente. - Faye
piscou. - Ele é esquisito, mas trabalha bem e é rápido.
- E desde quando você gosta de caras rápidos? - debochei.
- Às vezes, tudo que uma garota precisa é de um pau, uma cerveja e um reality show, tudo isso
em meia hora. Nunca subestime o poder de uma rapidinha - retrucou Faye enquanto enchia seu
copo e saía dançando para beber com meus outros amigos.
- Sua melhor amiga talvez seja a única mulher que conheço que pensa como um homem -
brincou Tanner.
- Você sabia que ela e o Matty estão...
- Fodendo? Claro que sim! Depois que você foi embora ela precisava de uma amiga para
despejar suas reclamações e decidiu que eu tinha uma vagina. Ela ia até a oficina todo dia falar do
"Matty Grossinho", o que aliás me deixava bastante constrangido.
- Você não se interessa pelos apelidos e sex-cionamentos dela? - Soltei uma risadinha.
- Frankie Descamado? É sério? - perguntou ele.
- Faye não é de contar mentira.
- Coitado do Frankie.
Eu ri. Não sei se por causa do álcool ou porque ver Tanner me lembrava de coisas boas. Ele se
sentou no balcão da cozinha e deu um tapinha ao seu lado, me convidando para sentar também.
Aceitei na hora.
- Então, como está a senhorita Emma?
- Moleca como sempre - respondi, pensando na minha garotinha.
- Igualzinha à mãe. - Ele sorriu.
Bati de leve no ombro dele.
- Ainda acho que ela herdou isso do pai.
- Verdade. Ele dava muito trabalho. Lembra aquele Halloween em que ele achou que poderia
lutar com todo mundo só porque estava vestido de ninja? Ele ficou dando aqueles gritinhos de ninja
para quem se aproximava da gente, mas, em vez de ser um ninja de verdade, acabou com um olho
roxo e nós três fomos presos. - Gargalhamos, lembrando como meu marido era terrível quando
bebia.
- Se bem me recordo, você também nunca foi uma boa influência. Sempre bebia demais e virava
um babaca, provocando as pessoas até elas baterem em Steven.
- Verdade. Não sou flor que se cheire depois de algumas doses, mas Steven me entendia. Droga,
sinto falta daquele cretino. - Ele suspirou. Paramos de rir, e meus olhos se encheram de lágrimas,
assim como os dele. Ficamos em silêncio, sentindo saudades. - Bom - disse Tanner, mudando de
assunto -, o jardim está uma merda. Posso cortar a grama se você quiser. E aumentar um pouco a
cerca, também para você ter mais privacidade.
- Não precisa. Na verdade, eu mesma quero cuidar disso. Estou trabalhando só meio período, e
vai ser bom ter o que fazer enquanto não encontro um emprego fixo.
- Você pensou em voltar a trabalhar com decoração?
A pergunta da semana. Dei de ombros.
- Não pensei muito neste último ano.
- Entendo. Tem certeza de que não quer uma mãozinha aqui? Não seria problema nenhum pra
mim.
- Tenho, sim. Cheguei ao ponto em que preciso começar a fazer as coisas sozinha, sabe?
- Sei. Mas acho que você deveria dar uma passada na oficina no domingo. Queria te dar uma
coisa.
- Um presente? - Sorri.
- Mais ou menos.
Cutuquei o ombro dele com o meu e disse que poderíamos nos encontrar qualquer dia desses.
Perguntei se Emma poderia ir junto.
Ele concordou, olhou para mim e perguntou baixinho:
- Qual é a pior parte?
Essa era fácil de responder.
- Tem horas que Emma faz algo muito engraçado, e eu chamo Steven pra ver. Depois, paro e
lembro. - A pior parte de perder uma pessoa amada é que você também se perde. Levei o dedo à
boca e comecei a roer a unha. - Chega de falar de tristeza. E você? Ainda namorando Patty?
Ele se encolheu.
- Nós não nos falamos mais.
Não fiquei surpresa. Tanner levava os relacionamentos tão a sério quanto Faye.
- Bem, somos parecidos e tristes.
Ele riu e ergueu a garrafa de tequila, servindo mais um shot.
- Um brinde a nós.
O resto da noite meio que passou batido. Lembro que ri de coisas que não eram engraçadas,
chorei por coisas que não eram tristes e foi a melhor noite que tive nos últimos tempos. Quando
acordei na manhã seguinte, estava deitada na minha cama sem saber como tinha chegado lá. Eu não
dormia ali desde o acidente. Peguei o travesseiro de Steven e o abracei. Senti o cheiro da fronha de
algodão e fechei os olhos. Eu não podia mais negar que aquela era a minha casa, mesmo que não
sentisse isso naquele momento. Essa era minha nova normalidade.
Capítulo 6
Elizabeth
Sam apareceu durante a semana para trocar as fechaduras. Eu sabia que Faye o chamava de esquisito,
mas ele era tão simpático que achei fácil gostar dele. Seu cabelo loiro era todo espetado, e os óculos
retangulares escondiam seus olhos castanhos e suaves. Ele falava comigo bem baixinho,
desculpando-se o tempo todo, gaguejando um pouco e achando que havia me ofendido quando não
tinha feito nada de mais.
- Algumas estão bem ruins, mas a maioria das fechaduras, na verdade, está em bom estado. Quer
que eu troque todas? Tem certeza? Desculpe, foi uma pergunta idiota. Eu não estaria aqui se você
não quisesse trocar todas elas. Me perdoe - desculpou-se.
- Imagina, está tudo bem. - Sorri. - Só quero recomeçar minha vida com tudo novo.
Ele ajeitou os óculos no nariz.
- É claro. Acho que consigo terminar tudo em algumas horas.
- Perfeito.
- Olha, deixa eu te mostrar uma coisa. - Ele correu até o carro e voltou com um objeto pequeno
na mão. - Acabou de chegar uma câmera de segurança na loja do meu pai, caso você tenha
interesse. Elas são pequenas e bem fáceis de esconder. Poderíamos colocar algumas para você se
sentir mais segura. Se eu fosse uma mulher bonita como você, e morasse sozinha com uma filha
pequena, iria querer me sentir mais segura.
Sorri, mas dessa vez com cautela.
- Vou pensar no assunto. Muito obrigada, Sam.
- Sem problemas. - Ele riu. - A única pessoa que comprou até agora foi o Tanner. Acho que as
câmeras não vão vender tanto quanto meu pai esperava.
Sam era ágil e muito bom. Antes que eu me desse conta, todas as fechaduras da casa estavam
trocadas, novinhas em folha.
- Posso ajudar em algo mais? - perguntou.
- Não, só isso mesmo. Preciso ir, tenho que estar no café em dez minutos. Meu carro
simplesmente morreu, e vou andando até lá.
- De forma alguma. Eu te dou uma carona - ofereceu ele.
- Não precisa. Posso ir andando.
- Já está garoando, e a chuva pode ficar mais forte. Não tem problema, eu te levo.
- Tem certeza?
- Claro que sim. - Ele abriu a porta do passageiro de sua caminhonete. - Sem problemas.
Durante o caminho, Sam me perguntou por que Faye não gostava dele, e tentei explicar, da
melhor maneira possível, que Faye não gostava de ninguém à primeira vista.
- Dê um tempo a ela, vocês vão acabar se entendendo.
- Ela disse que eu tinha todas as características de um psicopata.
- Eu sei. Ela é um pé no saco.
- E é sua melhor amiga.
- A melhor que alguém poderia ter - respondi, orgulhosa.
O restante do caminho foi tranquilo. Sam apontava para todas as pessoas pelas quais passávamos
e relatava tudo que sabia sobre elas. Ele me contou que, como todos o achavam esquisito,
normalmente o ignoravam, e ele acabava ouvindo todas as fofocas da cidade.
- Aquela ali é a Lucy - indicou Sam, apontando para uma garota que estava ao celular. - Ela é
a melhor soletradora da cidade. Ganhou o concurso anual de soletração nos últimos cinco anos. E
aquela ali é a Monica. O pai dela é um alcoólatra que finge estar sóbrio, mas, cá entre nós, sei que ele
bebe no bar da Bonnie Deen todas as sextas-feiras. E aquele lá é o Jason. Ele me deu uma surra
alguns meses atrás porque achou que eu o xinguei. Depois se desculpou e disse que estava chapado.
- Uau! Você realmente sabe tudo sobre todo mundo.
Ele concordou:
- Você tem que ir comigo a um desses conselhos de moradores da cidade. Vou te mostrar a
loucura que é esse lugar.
- Ótima ideia. - Sorri.
Quando estacionamos o carro, senti um frio na barriga ao olhar para o outro lado da rua.
- E aquele ali? - perguntei ao ver Tristan passar correndo, com fones no ouvido. Quando
chegou à loja do Sr. Henson, ele tirou os fones e entrou. - Qual é a história dele?
- Tristan? Ele é grosseiro e meio desequilibrado.
- Desequilibrado?
- Bom, ele trabalha para o Sr. Henson. A pessoa tem que ter um parafuso a menos pra lidar com
ele. O Sr. Henson pratica vodu e essas esquisitices no quartinho dos fundos. É muito bizarro. Ainda
bem que Tanner está tentando fechar a loja.
- Por quê?
- Você não soube? Tanner quer aumentar a oficina, e a loja do Sr. Henson está impedindo a
expansão. Parece que ele está tentando iniciar uma campanha para forçar o Sr. Henson a desistir da
loja, com o argumento de que o local é um desperdício de espaço para a cidade, já que ninguém
entra lá.
Fiquei imaginando qual era a verdadeira história por trás da loja do Sr. Henson e o motivo de
Tristan estar trabalhando lá.
Durante meu turno, eu olhava de vez em quando para a loja do outro lado da rua, onde Tristan
estava arrumando alguns objetos. O local era cheio de coisas esotéricas; cristais, cartas de tarô,
varinhas mágicas...
- Você tem um vibrador?
Quando a pergunta saiu da boca da minha melhor amiga, quase derrubei os três pratos de
hambúrguer com fritas que estava carregando.
- Faye! - protestei baixinho, nervosa e ruborizada.
Seu olhar percorreu o café; ela estava chocada com minha reação diante da pergunta, digamos,
inapropriada.
- O que foi? Parece até que estou perguntado se você tem herpes. Vibradores são objetos
normais nos dias de hoje, Liz. Outro dia mesmo eu estava pensando em sua pobre vagina, velha e
seca.
Meu rosto pegou fogo.
- Quanta consideração. - Ri, colocando os pratos diante de três senhoras que olhavam para nós
com desprezo. - Mais alguma coisa? - perguntei a elas.
- Talvez sua amiga precise de um filtro.
- Acreditem, eu já disse isso a ela. - Dei um sorriso e caminhei até Faye, suplicando para que
ela fosse mais discreta com relação a vaginas e afins.
- Liz, só estou dizendo que já faz tempo, né? Como está a situação aí embaixo? Está tipo George,
o rei da floresta encontra As supergatas? Você tem mais cabelo aí embaixo do que aqui em cima? -
Ela deu um leve tapinha na minha cabeça.
- Eu me nego a responder isso.
Ela colocou a mão no bolso do avental e tirou um caderninho preto que antigamente sempre nos
metia em encrenca.
- O que você está fazendo? - perguntei, preocupada.
- Vou procurar um pau pra te ajudar hoje à noite.
- Faye, não estou pronta para sentir qualquer coisa por alguém.
- E o que sexo tem a ver com sentimentos? - argumentou ela, séria. Eu não sabia nem como
abordar o assunto. - Enfim, conheço um cara que pode tirar as ervas daninhas do seu jardim. O
nome dele é Edward. Ele é um gênio criativo pra essas coisas. Uma vez, ele até fez um coraçãozinho
lá embaixo pra mim no dia dos namorados.
- Você é muito perturbada.
Faye sorriu.
- Eu sei, mas posso marcar um horário pra você com o Edward mãos de tesoura, e depois você
vai escolher um cara bem legal no meu caderninho e vai passar uma noite com ele - sugeriu ela.
- Uma noite de sexo casual... Isso não é para mim.
- Tudo bem. Pode ser de manhã, se você preferir. - Ela deu um risinho. - É sério, Liz. Você já
pensou em voltar a namorar? Pelo menos sair com alguns caras? Não precisa ser nada sério, mas
poderia fazer bem a você. Não quero que fique presa nesse limbo!
- Não estou presa num limbo - retruquei, um pouco ofendida. - É só que... eu tenho uma filha
e faz apenas um ano que Steven morreu.
Uau.
O modo como aquela frase saiu da minha boca, quase sem emoção, me deixou impressionada.
- Não falei por mal. Você sabe que eu te amo e o quanto Steven era importante pra mim.
- Eu sei...
- Olha, sei que sou meio promíscua, mas mesmo pessoas como eu já tiveram decepções
amorosas, e, pra mim, quando as coisas estão complicadas, sexo sempre ajuda.
- Acho que não estou pronta pra isso, mas prometo que vou pensar no assunto.
- Eu entendo, amiga. Quando você achar que chegou a hora e que precisa do meu caderninho, é
só avisar.
- Seu caderninho está meio pequeno. Jurava que ele era maior. - Dei uma risada.
Ela colocou a mão no bolso do avental de novo e pegou mais dois cadernos iguais ao primeiro.
- Imagina. Eu só estava fingindo humildade mostrando um de cada vez.
Na hora do intervalo, fui vencida pela minha curiosidade e acabei entrando na loja do Sr. Henson.
Em poucos segundos, pude perceber que ele vendia todo tipo de artigo esotérico. Metade do espaço
da loja era ocupado por um café, e a outra metade mais parecia um closet repleto de objetos que eu
conhecia apenas de histórias sobrenaturais.
A sineta da porta tocou quando eu entrei, e o Sr. Henson e Tristan se entreolharam, confusos.
Tentei agir da forma mais natural possível. Explorei a loja, mesmo sabendo que eles ainda me
observavam.
Parei por um momento e peguei um livro de uma prateleira. Um livro de feitiços? Ok, tudo bem.
As páginas estavam unidas por um barbante e cobertas de poeira. Peguei outro. Os dois pareciam
mais velhos do que empoeirados, mas mesmo assim eram bonitos. Meu pai adorava descobrir
grandes pérolas da literatura em sebos. Ele tinha uma coleção enorme de livros de diferentes gêneros
e idiomas em seu escritório. Muitos não tinham qualquer utilidade para ele, mas ele adorava sentir a
textura das capas e admirá-las.
- Quanto por esses dois? - perguntei ao Sr. Henson. Ele continuou em silêncio e ergueu a
sobrancelha. - Desculpe, a loja está fechada? - Quando vi o olhar de Tristan, segurei os livros
junto ao peito e fiquei vermelha na hora. - Oi.
Para meu alívio, o Sr. Henson interveio.
- Ah! Não, não. Está aberta. É que não recebemos muitas clientes. Especialmente, tão bonitas
como você - respondeu o dono da loja, sentando-se no balcão. - Qual é o seu nome, minha
querida? - A pergunta dele fez com que eu parasse de olhar para Tristan, e então pigarreei, aliviada
pela distração.
- Elizabeth. E o do senhor?
- Sou o Sr. Henson. Se eu não fosse quatrocentos anos mais velho que você e não me sentisse tão
atraído pela anatomia masculina, provavelmente iria convidá-la para dançar.
- Dançar? Por que o senhor acha que uma garota como eu gostaria de dançar?
O Sr. Henson não respondeu, mas ficou com aquela expressão de deleite no rosto.
Sentei-me ao lado dele e perguntei:
- Essa loja é sua?
- É, sim. Cada pedacinho e metro quadrado. A não ser que você a queira. - Ele riu. - Porque,
se você quiser, ela é sua. Cada pedacinho e metro quadrado.
- É uma oferta tentadora. Mas tenho que confessar que já li todos os livros de Stephen King pelo
menos umas cinco vezes, e a ideia de ter uma loja como esta chamada Artigos de Utilidade me
assusta.
- Cá entre nós, pensei no nome Artigos Para Sua Prece Ser Atendida, mas não sou muito
religioso.
Tristan e eu rimos.
Olhei para ele, feliz por estarmos achando graça da mesma coisa, mas, na mesma hora, ele fechou
a cara.
Voltei a olhar para os livros.
- Tudo bem se eu levar estes?
- São seus, pode levar. De graça.
- Ah, não... quero pagar.
Acabamos entrando numa discussão sobre eu pagar pelos livros ou não, mas eu não cederia. O Sr.
Henson entregou os pontos.
- É por isso que prefiro homens. As mulheres são muito parecidas comigo. Volte outro dia e vou
fazer uma leitura de tarô de graça pra você.
- Parece uma ótima ideia.
Ele se levantou e começou a andar.
- Tristan, cuide dela. - O Sr. Henson virou-se na minha direção e assentiu levemente com a
cabeça antes de desaparecer no estoque.
Tristan foi até o caixa, e eu o segui.
Coloquei os livros lentamente sobre o balcão. Vi algumas fotos em preto e branco de uma floresta
emolduradas em uma parede atrás dele.
- Que bonito - falei, admirando o trabalho.
Tristan calculou o valor dos livros.
- Obrigado.
- Foi você quem tirou?
- Não - respondeu ele, olhando para as fotos. - Esculpi e acrescentei a tinta preta.
Meu queixo caiu quando cheguei mais perto da imagem. Ao observá-la com atenção, vi que as
"fotos", na verdade, eram desenhos entalhados em madeira.
- Que lindo! - murmurei novamente. Quando nossos olhares se cruzaram, senti de novo aquele
frio na barriga. - Oi - repeti, suspirando. - Como vai?
Ele continuou a fazer as contas, ignorando minha pergunta.
- Vai pagar por essa porra ou não vai?
Franzi a testa, mas ele nem ligou.
- Desculpe. Sim. Aqui está - falei, entregando-lhe o dinheiro. Agradeci antes de sair da loja e
olhei para ele mais uma vez. - Você age com estupidez o tempo todo, e a cidade acha que você é
um grosso, mas eu te vi naquela sala de espera quando soube que Zeus ia ficar bem. Vi você chorar.
Você não é um monstro, Tristan. Só não entendo por que finge ser.
- Esse é o seu maior erro.
- Qual? - perguntei.
- Você pensa que sabe alguma coisa sobre mim.
Capítulo 7
Tristan
2 de abril de 2014
Cinco dias antes do adeus
Quando o táxi deixou meu pai e eu no hospital, corri para a emergência. Passei os olhos pela recepção à
procura de algo, de alguém conhecido.
- Mãe - chamei, e então ela me viu da sala de espera. Tirei o boné e corri em sua direção.
- Ah, filho.
Ela me abraçou, chorando.
- Como eles estão? Como...
Mamãe começou a soluçar, seu corpo estremecendo.
- Jamie... Jamie se foi, Tristan. Ela lutou muito, mas não conseguiu.
Eu a soltei.
- Como assim, ela se foi? Ela não foi a lugar algum. Ela está bem. - Olhei para meu pai, que me
encarava, chocado. - Pai, fala pra ela. Fala que Jamie está bem.
Ele abaixou a cabeça.
Tudo dentro de mim se inflamou.
- Charlie? - perguntei, sem saber se queria mesmo saber a resposta.
- Está no CTI. Ele não está reagindo muito bem, mas...
- Aqui. Ele está aqui. - Passei a mão pelo cabelo. Ele estava bem. - Posso vê-lo? - perguntei.
Minha mãe assentiu. Corri para a recepção e falei com as enfermeiras, que me levaram até o quarto
de Charlie. Levei as mãos à boca quando olhei para o meu filho e todas as máquinas ligadas a ele. Estava
entubado, vários medicamentos sendo injetados em suas veias, e seu rosto estava machucado, roxo.
- Meu Deus... - murmurei.
A enfermeira me deu um sorriso cauteloso.
- Você pode segurar a mão dele.
- Por que o tubo? P-p-por que ele está entubado? - gaguejei. Minha cabeça tentava se concentrar
em Charlie, mas a ficha começou a cair. Jamie se foi, minha mãe disse. Ela se foi. Mas como? O que
aconteceu?
- O acidente provocou um pneumotórax no pulmão esquerdo, e ele está com muita dificuldade pra
respirar. O tubo é para ajudá-lo.
- Ele não consegue respirar sozinho?
Ela balançou a cabeça.
- Ele vai ficar bem? - perguntei para a enfermeira e vi o remorso em seu olhar.
- Não sou médica. Só eles podem...
- Mas você pode me dizer, não pode? Coloque-se no meu lugar. Acabei de perder minha esposa. -
Falar isso em voz alta mexeu com minhas emoções e respirei fundo, em choque. - Se esse garotinho fosse
tudo que te restasse no mundo, você iria querer saber se ainda resta uma esperança, certo? Você
imploraria a alguém que te dissesse o que fazer. Como fazer. O que você faria?
- Senhor...
- Por favor - supliquei. - Por favor.
Ela olhou para o chão e depois para mim.
- Eu seguraria a mão dele.
Assenti. Soube naquele momento que ela havia acabado de me dizer a verdade que eu não queria
ouvir. Sentei na cadeira do lado da cama de Charlie e peguei sua mão.
- Oi, filho, sou eu. O papai está aqui. Sei que eu estava longe, mas agora estou aqui, tá? Estou aqui e
preciso que você lute. Você consegue fazer isso, cara? - Lágrimas escorriam pelo meu rosto, e beijei sua
testa. - Papai precisa que você volte a respirar sozinho. Você tem que melhorar, porque preciso de você.
Sei que as pessoas dizem que os filhos precisam dos pais, mas é mentira. Preciso de você pra seguir em
frente. Pra continuar acreditando no mundo. Cara, preciso que você acorde. Não posso perder você
também, tá? Preciso que você volte pra mim... Por favor, Charlie... Volte para o papai.
O peito dele começou a inflar, mas, quando ele tentou expirar, as máquinas começaram a apitar. Os
médicos correram até o leito e tiraram minha mão da dele. Charlie tremia incontrolavelmente. Eles
gritavam um com o outro, dizendo coisas que eu não entendia, fazendo coisas que eu não compreendia.
- O que está acontecendo? - berrei, mas ninguém me ouviu. - O que houve? Charlie! - gritei, e
duas enfermeiras tentaram me tirar do quarto. - O que eles estão fazendo? O que... Charlie! - gritei
cada vez mais alto enquanto elas finalmente me arrancavam do quarto. - CHARLIE!
Na sexta-feira à noite, sentei-me à mesa de jantar e disquei um número que um dia foi muito
familiar para mim, mas que eu não usava há algum tempo. Segurei o telefone junto ao ouvido.
- Alô? - respondeu uma voz suave. - Tristan, é você? - O tom cauteloso em sua voz
provocava um aperto no meu estômago. - Filho, por favor, fale alguma coisa... - murmurou ela.
Levei a mão fechada à boca e a mordi, sem responder.
Desliguei o telefone. Sempre desligava. Continuei ali sozinho pelo resto da noite, deixando a
escuridão me engolir.
Capítulo 8
Elizabeth
No sábado de manhã, pensei que fosse acordar toda a vizinhança com minhas tentativas de ligar o
cortador de grama, que falhava o tempo todo. Steven sempre fazia isso parecer fácil quando aparava
a grama do jardim, mas eu não tinha a mesma sorte.
- Vamos lá. - Puxei a corda novamente e, depois de titubear, o aparelho morreu. - Jesus
Cristo!
Fiz várias tentativas e fiquei vermelha de vergonha quando alguns vizinhos olharam pela janela
para ver o que estava acontecendo.
Eu estava prestes a puxar a cordinha do cortador de grama mais uma vez quando senti uma mão
em cima da minha. Tive um sobressalto.
- Pare - advertiu Tristan, irritado. - Que diabos você está fazendo?
Franzi o cenho, olhando para os lábios dele.
- Cortando a grama.
- Você não está cortando a grama.
- Sim, estou.
- Não, não está.
- Então o que eu estou fazendo?
- Acordando o mundo todo, porra!
- Tenho certeza de que as pessoas na Inglaterra já estão acordadas.
- Cala a boca.
Hummm. Acho que alguém não gosta muito de papo de manhã. Ou de tarde. Ou de noite. Ou de
papo. Ele pegou o cortador e o levou para longe de mim.
- O que você está fazendo? - perguntei.
- Vou cortar sua grama. Assim você não acorda o mundo todo. Menos a Inglaterra, é claro.
Não sabia se ria ou se chorava.
- Você não vai conseguir cortar a grama. Acho que o cortador está quebrado. - Em questão de
segundos, ele puxou a corda com força, e o motor começou a funcionar. Ai, que vergonha. - É sério.
Você não pode fazer isso.
Ele nem se virou para me olhar. Simplesmente começou seu trabalho, fazendo algo que jamais
pedi que ele fizesse. Quase iniciei uma discussão, mas me lembrei da história de que ele tinha
matado um gato só porque estava miando muito e, bem, achei melhor preservar minha existência
patética. Preferi não correr o risco.
- Ficou ótimo - elogiei quando Tristan desligou o cortador. - Meu marido... - Fiz uma pausa
e respirei fundo. - Meu falecido marido sempre cortava a grama em linhas diagonais. E sempre
dizia: "Amor, vou recolher os tufos de grama amanhã. Estou muito cansado agora." - Dei um
sorriso triste e olhei para Tristan, sem vê-lo de fato. - Os tufos ficavam por aí pelo menos uma
semana. Às vezes, duas. Era estranho, ele sempre cuidava muito melhor do gramado dos outros.
Mesmo assim, eu gostava daqueles tufos - falei, meio ofegante, e lágrimas brotaram em meus olhos.
Virei-me para Tristan, secando-as. - Enfim, achei legal você também ter cortado em diagonal. -
Lembranças idiotas. Coloquei a mão na maçaneta da porta, mas meus pés se detiveram quando o
ouvi.
- Elas aparecem sem você perceber e acabam te derrubando - comentou ele baixinho, como
uma alma abandonada que se despede de sua família. Sua voz estava muito mais suave. Ainda soava
meio ríspida, mas dessa vez havia um pouco de inocência nela. - As pequenas lembranças.
Voltei-me e vi que ele estava encostado no cortador de grama. Seu olhar tinha mais vida do que
das outras vezes, mas era uma vida triste. Um olhar sombrio e devastado. Apoiei-me para não perder
o equilíbrio.
- Às vezes, acho que as pequenas recordações são as piores. Consigo lidar com as lembranças do
aniversário dele e até do dia em que ele morreu, mas quando as pequenas coisas vêm à tona, como o
modo como ele cortava a grama, ou ele pegando o jornal só pra ler as tirinhas, ou fumando charuto
na véspera do ano-novo...
- Ou a forma como ela amarrava os sapatos, pulava as poças de água da chuva, tocava a palma
da minha mão com o indicador e fazia o desenho de um coração nela...
- Você também perdeu alguém?
- Minha esposa.
Ah.
- E meu filho - sussurrou ele, ainda mais baixo.
Fiquei de coração partido.
- Sinto muito. Não imaginei... - Não achei as palavras enquanto ele olhava para minha grama
recém-cortada. A ideia de perder tanto o amor da minha vida quanto minha filha era demais para
mim; não consegui nem imaginar essa possibilidade.
- O jeito como ele rezava, a forma como escrevia o R ao contrário, os carrinhos de brinquedo que
ele desmontava para depois consertar...
A voz de Tristan estava trêmula, assim como seu corpo. Ele não se dirigia mais a mim. Nós dois
estávamos em mundos separados, feitos de nossas pequenas recordações, e, ainda assim,
conseguíamos sentir a dor um do outro. A solidão reconhecia a solidão. E hoje, pela primeira vez,
consegui enxergar o homem por trás da barba.
Vi a comoção em seus olhos quando ele colocou os fones de ouvido. Começou a varrer os tufos de
grama e não falou mais nada.
As pessoas da cidade achavam que ele era um idiota, e eu até entendia o porquê. Ele não estava
bem, sentia-se completamente destruído, mas eu não o culpava pela frieza. Na verdade, eu meio que
invejava a maneira como Tristan escapava da realidade, se desligava do mundo e se fechava para
tudo ao seu redor. Devia ser bom se sentir vazio de vez em quando. Só Deus sabe que eu pensava em
me desligar do mundo todos os dias, mas eu tinha Emma para manter minha sanidade.
Se eu a tivesse perdido, também abriria mão de todo o sentimento, de toda a dor.
Quando terminou tudo no jardim, Tristan permaneceu imóvel, mas sua respiração ainda estava
pesada. Ele me encarou com os olhos vermelhos e os pensamentos provavelmente confusos.
Enxugou a testa com a mão e pigarreou.
- Pronto.
- Quer tomar café? - perguntei. - Tem o suficiente pra nós dois.
Ele colocou o cortador de grama de volta na minha varanda.
- Não. - E saiu, desaparecendo de vista. Fiquei lá, de pé, com os olhos fechados. Levei as mãos
ao coração e, por um breve momento, também me desliguei do mundo.
Capítulo 9
Elizabeth
Na manhã seguinte, dei uma passada na oficina do Tanner para ver a surpresa que ele havia
mencionado na semana anterior. Emma, Bubba e eu fomos até o centro da cidade. Ela cantando sua
própria versão de Frozen, eu querendo cortar os pulsos e Bubba sendo o agradável e silencioso
bichinho de pelúcia zumbi.
- Tio T! - gritou ela, correndo e quase derrubando Tanner, que estava com a cabeça dentro do
capô de um carro. Ele usava uma camisa branca cheia de manchas de óleo, a mesma substância que
tinha no rosto.
Tanner virou-se e pegou Emma no colo, girando-a no ar antes de abraçá-la bem apertado.
- Oi, garotinha. O que é isso atrás da sua orelha? - perguntou ele.
- Não tem nada atrás da minha orelha.
- Ah, acho que você está enganada. - Ele tirou a moeda de trás da orelha dela, fazendo-a rir
muito, como sempre. - Tudo bem com você?
Emma sorriu e começou a contar, com uma expressão muito séria, que eu a deixei se vestir
sozinha naquele dia. O resultado foi uma saia de tutu preta, meias de arco-íris e uma camisa de
pinguins zumbis.
Eu ri. Tanner a encarava como se estivesse muito interessado na história. Depois de alguns
minutos, deu a ela algumas notas de 1 dólar para que comprasse doces na máquina de venda
automática com a ajuda de um de seus funcionários, Gary. Ouvi Emma repetir toda a história da
roupa para o pobre homem.
- Ela está ainda mais linda do que eu me lembrava. Tem seu sorriso.
Mesmo achando que o sorriso dela era mais parecido com o de Steven, agradeci o elogio.
- Então, tenho uma coisa pra você, vem cá.
Ele me conduziu até uma sala nos fundos, onde um lençol cobria um carro. Quando ele arrancou
o pano, minhas pernas ficaram bambas.
- Como? - perguntei ao contornar o jipe, passando meus dedos por ele. O carro de Steven
parecia novinho em folha. - Foi perda total.
- Bobagem. Amassados e arranhões sempre podem ser consertados.
- Isso deve ter custado uma fortuna.
Ele deu de ombros.
- Steven era meu melhor amigo. Você é uma das minhas melhores amigas. Só quis fazer alguma
coisa boa para quando você voltasse.
- Você sabia que eu ia voltar?
- Tínhamos esperança. - Tanner mordeu o lábio e olhou para o carro. - Ainda me sinto
culpado. Na semana anterior ao acidente, implorei a ele que trouxesse o carro aqui pra uma revisão.
Ele disse que ainda dava pra esperar alguns meses, que o jipe ainda estava bom. Não consigo deixar
de pensar que, talvez, se eu tivesse feito uma revisão e encontrado algum problema... Se ele tivesse
deixado eu dar uma olhada no motor, talvez ele ainda estivesse... - Ele levou a mão ao rosto e parou
de falar.
- Não foi culpa sua, Tanner.
Ele fungou e deu um sorriso triste.
- Bem... é que isso passa pela minha cabeça de vez em quando. Agora, vem aqui, vamos entrar.
Entrei pelo lado do motorista e sentei. Fechei os olhos e respirei fundo algumas vezes antes de
colocar a mão no banco do carona, esperando aquele toque, aquela sensação gostosa de segurar a
mão de uma pessoa. Não chore. Não chore. Estou bem. Estou bem. Então, senti o calor de outra mão
segurando a minha e abri os olhos, deparando-me com Emma, o rosto todo lambuzado de chocolate.
Ela sorriu, e eu automaticamente fiz o mesmo.
- Tudo bem, mamãe?
Uma respiração de cada vez.
- Sim, querida. Estou bem.
Tanner se aproximou e me entregou as chaves.
- Bem-vindas de volta, senhoritas. Lembrem-se: se precisarem de mim pra cortar a grama ou
qualquer outra coisa, é só ligar.
- O Pluto já cortou! - exclamou Emma.
- O quê? - perguntou Tanner, erguendo a sobrancelha.
- Acabei contratando um cara pra fazer o serviço. Bem, mais ou menos. Ainda tenho que pagar a
ele de alguma forma.
- O quê? Liz, você sabe que eu faria isso de graça. Quem você contratou?
Sabia que ele não ia gostar da resposta.
- O nome dele é Tristan...
- Tristan Cole?! - Tanner passou a mão pelo rosto, prestes a ficar vermelho. - Liz, ele é um
babaca.
- Não é.
Bem, sim, ele é.
- Acredite em mim, ele é um desequilibrado. Você sabia que ele trabalha para o Sr. Henson?
Devia estar num hospício.
Não sei por que, mas parecia que Tanner estava falando de mim.
- Você está exagerando, Tanner.
- Ele é doente. E Tristan é perigoso. Só... deixa que eu cuido do jardim pra você. Meu Deus, ele
é seu vizinho. Odeio isso.
- Ele cortou o gramado muito bem. Não precisa se preocupar.
- Preciso. Você confia demais nas pessoas. Liz, use mais a cabeça que o coração. Você tem que
pensar. - Ai, isso doeu. - Não estou gostando nada disso e duvido que Steven também fosse gostar.
- Bom, ele não está mais aqui - sibilei sentindo-me um pouco constrangida e muito magoada.
- Eu não sou boba, Tanner. Posso cuidar disso. Eu só... - Fiz uma pausa, dando um sorriso
forçado. - Obrigada. Pelo jipe. Você não tem ideia do que significa pra mim.
Ele deve ter percebido meu sorriso forçado, pois colocou a mão no meu ombro e disse:
- Desculpe, eu sou um idiota. Só fico preocupado. Se acontecer algo com você...
- Estou bem. Estamos em segurança. Prometo.
- Está bem. Então vá embora antes que eu fale mais alguma coisa de que vá me arrepender. -
Ele riu. - Emma, cuide da sua mamãe, tá?
- Por quê? Eu sou a criança, não ela - respondeu minha filha, insolente. Não consegui disfarçar
uma risada, porque aquilo era cem por cento verdade.
Capítulo 10
Elizabeth
Todas as sextas-feiras, depois de deixar Emma na casa dos avós, eu caminhava rumo ao mercado
central. Os moradores vinham até o centro de Meadows Creek para vender e trocar seus produtos. O
cheiro de pão fresco, os arranjos de flores e as fofocas de uma cidade pequena faziam o passeio valer
a pena.
Steven e eu gostávamos de ver as flores, então, quando a sexta-feira chegava e trazia consigo o
aroma das rosas recém-colhidas, eu sempre ficava bem ali, no meio de todo aquele movimento,
inspirando as recordações e expirando a dor.
Durante minhas visitas ao mercado, sempre via Tristan andando por lá. Não tínhamos trocado
nenhuma palavra desde que ele cortou a grama do meu jardim, mas eu não conseguia parar de
pensar naqueles olhos tristes. Não conseguia parar de pensar na esposa e no filho dele. Quando eles
morreram? Como? Há quanto tempo Tristan vivia esse pesadelo?
Eu queria saber mais.
De vez em quando, eu o via sair do galpão no quintal. Ele ficava lá por horas e saía apenas para
cortar madeira na serra de mesa.
Toda vez que ele passava por mim parecia que meu rosto ia pegar fogo, e eu fazia de conta que
não o via. Mas eu o via, sim. Eu sempre o via, e não sabia exatamente o porquê.
Todo mundo falava que ele era grosseiro, e eu acreditei nisso. Vi sua hostilidade. Mas também vi
uma parte dele que ninguém conhecia. Vi quando ele desmoronou ao saber que Zeus ficaria bem. Vi
quando ele se abriu com timidez, falando da perda da esposa e do filho. Vi o lado gentil e devastado
de Tristan, coisa que a maioria das pessoas não enxergava.
Quando eu estava parada no meio do mercado central, ocorreu-me que havia mais um lado de
Tristan que me intrigava. Todas as sextas, ele andava como se não enxergasse ninguém.
Concentrava-se apenas em sua missão, que consistia em comprar sacolas de mantimentos e flores.
Depois, ele desaparecia ladeira acima, até uma ponte, onde entregava as compras e as flores para um
mendigo.
Só soube disso quando retornei para casa um dia e o vi entregar as sacolas. Sem conseguir
disfarçar o sorriso, me aproximei. Mas ele começou a andar para casa.
- Oi, Tristan.
Ele olhou para mim sem dar a mínima.
Continuou andando.
Parecia até que estávamos voltando à estaca zero. Corri para alcançá-lo.
- Só queria dizer que achei seu gesto muito legal. Foi muito lindo o que você fez por aquele
homem. Acho que...
Ele parou e se virou na minha direção. Com o semblante fechado, estreitou os olhos.
- Que diabos você pensa que está fazendo?
- O quê? - gaguejei, confusa com seu tom de voz.
Ele se aproximou.
- Você acha que não percebo como olha para mim?
- Do que você está falando?
- Quero deixar uma coisa bem clara - disse ele com rispidez. Seus olhos se tornaram sombrios
novamente. - Não quero me envolver com você de maneira alguma, entendeu? Cortei a merda da
grama do seu jardim porque você estava me irritando. Só isso. Não quero nada com você. Então, para
de me olhar assim.
- Você... você acha que eu estou a fim de você? - perguntei bem alto quando chegamos no topo
da ladeira. Ele ergueu a sobrancelha e me lançou aquele olhar que dizia claro que sim. - Só achei
sua atitude legal, tá? Você deu comida para um mendigo, seu idiota! Não estava querendo te
convidar pra sair ou algo assim. Só estava tentando bater um papo com você.
- E por que você quer bater um papo comigo?
- Não sei! - respondi, as palavras saltando da minha boca. Não sei por que queria conversar
com alguém tão volúvel. Um dia, ele estava falando sobre seus demônios interiores, no outro, gritava
por eu ter dito oi. Não dava pra entender. - Fui muito burra por achar que poderíamos ser amigos.
- E por que eu iria querer ser seu amigo?
Senti um arrepio percorrer meu corpo. Eu não sabia se era a brisa fresca ou se era porque ele
estava muito perto de mim.
- Não sei. Talvez porque você pareça tão sozinho quanto eu. E pensei...
- Você não pensou.
- Por que você tem que ser sempre tão cruel?
- Por que você está sempre me observando?
Fiz menção de responder, mas nenhuma palavra saiu da minha boca. Olhamos um para o outro,
nossos corpos tão próximos que pareciam interligados, tão próximos que nossos lábios quase se
tocavam.
- Todos na cidade têm medo de mim. Você tem medo de mim, Elizabeth? - murmurou ele, sua
respiração tocando minha boca.
- Não.
- E por que não?
- Porque eu vejo você como você é.
A frieza no olhar de Tristan se suavizou por um segundo, como se ele estivesse confuso com
aquelas palavras. Mas era verdade. Eu o enxergava além da raiva em seu olhar, percebia a dor em sua
expressão severa. Via seu coração arruinado, que de alguma forma se parecia com o meu.
Sem pensar, Tristan envolveu minha cintura e pressionou seus lábios contra os meus. A confusão
que tomou conta da minha mente começou a desaparecer quando senti a língua dele entrando em
minha boca, e retribuí o beijo, até com mais vontade que ele. Céus, como sentia falta daquilo. Sentia
falta de beijar. A sensação de estar nos braços de alguém, de se agarrar a essa pessoa para não cair no
abismo. O calor que toma conta da sua pele quando outra pessoa te fornece o ar para respirar naquele
momento.
Eu sentia falta de ser abraçada, de ser tocada, de alguém que me quisesse...
Sentia falta de Steven.
O beijo de Tristan era furioso e triste, agonizante e pesaroso, verdadeiro e bruto.
Exatamente como o meu.
Minha língua passou pelo meu lábio inferior e pressionei as mãos em seu peito, sentindo as
batidas rápidas do seu coração na ponta dos meus dedos, em todo meu corpo.
Por alguns segundos, eu me senti como antes.
Inteira.
Completa.
Parte de algo esplêndido.
Tristan se afastou rapidamente, trazendo-me de volta à realidade, à minha triste existência.
Acabada.
Incompleta.
Sozinha o tempo todo.
- Você não sabe quem eu sou, então pare de agir como se soubesse - disse ele, voltando a
caminhar e me deixando para trás, imóvel, perplexa.
O que foi isso?!
- Você também sentiu, não é? - perguntei, vendo-o ir embora. - Parecia... parecia que eles
ainda estavam aqui. Senti que Steven estava aqui. Você sentiu sua esposa...
Ele se virou para mim com um olhar flamejante.
- Nunca mais fale da minha esposa como se você nos conhecesse.
Tristan voltou a andar depressa.
Ele sentiu.
Sei que sentiu.
- Você não pode... não pode simplesmente ir embora, Tristan. Precisamos conversar. Sobre eles.
Podemos nos ajudar a nos lembrar deles.
Meu maior medo era esquecer.
Ele continuou andando.
Corri para alcançá-lo mais uma vez.
- Além do mais, essa é a razão de se ter um amigo. Conhecer a pessoa. Ter alguém pra
conversar. - Meu coração batia disparado, e eu ficara cada vez mais irritada ao vê-lo ir embora
depois do beijo mais doloroso e saciável que eu já havia experimentado. Tristan me fez lembrar de
como era se sentir feliz, e eu o odiava por ter me abandonado. Odiava vê-lo acabar com aquele
pequeno instante de desejo, com aquela recordação do amor que tinha sido arrancado de mim. -
Meu Deus, você tem que ser um... um... monstro?
Ele se virou e, por um segundo, vi a tristeza escurecendo seu olhar, antes de sua expressão ficar
fria novamente.
- Não quero você, Elizabeth. - Ele ergueu as mãos e veio na minha direção. - Não quero nada
com você. - Ele deu um passo para a frente, e eu recuei. - Não quero falar sobre a droga do seu
marido morto. - Um passo para a frente. - E não quero ouvir você falar merda nenhuma sobre a
minha mulher morta. - Recuo. - Não quero tocar você. - Outro passo. Recuo. - Não quero te
beijar. - Mais dois passos. Recuo. - Não quero passar a língua pelo seu corpo. - Passos. Recuo.
- Tenho certeza de que não quero ser a porra de um amigo. Então, me deixe sozinho e cala a porra
da boca! - gritou ele, praticamente em cima de mim, as palavras saindo de sua boca como um
foguete, e sua voz, como um trovão. Tive um sobressalto, senti medo.
Quando ele finalmente recuou, o salto do meu sapato ficou preso numa pedra, e eu acabei caindo.
Rolei ladeira abaixo. Apesar de alguns arranhões e da vergonha, fiquei bem.
- Merda - murmurou Tristan, aparecendo diante de mim num instante. - Você está bem?
Aqui - disse ele, estendendo a mão para mim.
Recusei a ajuda e me levantei sozinha. Os olhos dele demostravam preocupação, mas eu nem
liguei. Em alguns segundos, provavelmente estariam repletos de raiva.
Pouco antes de eu cair, ele tinha me dito para calar a boca, e era exatamente o que eu estava
fazendo. Pude notar seu olhar patético em minha visão periférica, mas fui mancando para casa em
silêncio.
- Ele te empurrou? - gritou Faye ao telefone. Liguei para ela assim que cheguei e contei sobre o
incidente com Tristan. Eu precisava da minha melhor amiga para confirmar que, apesar de tudo, eu
estava certa, e Tristan, errado.
Mesmo que eu o tivesse chamado de monstro.
- Não foi bem assim. Ele gritou, e eu meio que tropecei.
- Depois que ele te beijou?
- Sim.
- Argh, eu odeio esse cara. Odeio.
Assenti.
- Eu também.
Era mentira, mas eu não podia contar a ela meus verdadeiros sentimentos por Tristan. O quanto
tínhamos em comum. Eu não podia contar a ninguém. Eu não queria admitir nem a mim mesma.
- Mas já que estamos falando nisso, me conta... - disse Faye, e eu quase pude ouvir o risinho
dela pelo telefone. - Ele beijou de língua? Ele fez algum som? Estava sem camisa? Ele te deixou
excitada? Você passou a mão no peito dele? Mordeu o queixo? Qual é o tamanho? É grande? Você
ficou tonta? Apalpou?
- Você me cansa. - Ri, mas minha cabeça ainda estava analisando o beijo. Talvez não tivesse
sido nada. Ou tivesse sido tudo.
Ela suspirou.
- Anda, me conta. Estou tentando trepar agora, e essa conversa está me distraindo.
- O que você quer dizer com tentando trepar? Faye, você está transando agora?
- O que você considera "transar"?
- Transar, oras, sexo!
- Olha, se você está querendo saber se tem um pênis tentando entrar na minha vagina, então a
resposta é sim. Acho que isso é quase transar.
- Pelo amor de Deus, Faye! Por que você atendeu o telefone?
- Bem, primeiro as amigas, depois as trepadas, certo?
Bufei diante da risada dela.
- Oi, Liz - ouvi Matty dizer ao fundo. - Se desligar agora, te dou um turno de trinta horas na
semana que vem.
- Vou desligar.
- O quê? Não. Ainda tenho muito tempo.
- Você é louca.
- Ai, Matty, para. Eu disse pra não morder aí. - Cacete! Minha melhor amiga era uma
aberração. - Tá bom, meu docinho, preciso ir. Acho que estou sangrando. Mas acho que você
deveria encontrar um tempo pra meditar e esfriar a cabeça.
- E o que significa meditar pra você?
- Tequila. Prateleira de cima, desce queimando, ajuda nas decisões difíceis. Tequila.
Parecia uma boa ideia.
Capítulo 11
Tristan
3 de abril de 2014
Quatro dias antes do adeus
De pé na varanda dos meus pais, eu observava a chuva forte que caía no balanço feito de pneu que eu e
meu pai tínhamos feito para Charlie. Ele ia e voltava, batendo contra a moldura de madeira.
- Como você está? - perguntou meu pai, aproximando-se de mim. Estava acompanhado de Zeus,
que logo encontrou um canto seco para se deitar. Virei-me e olhei para ele, um rosto muito parecido com
o meu, apenas mais velho e mais sábio.
Não respondi e continuei observando a chuva.
- Sua mãe comentou que você não está conseguindo escrever o obituário - continuou ele. - Posso
ajudar.
- Não quero sua ajuda - resmunguei, minhas mãos se fechando, as unhas cravadas nas palmas. Eu
odiava sentir a raiva aumentar com o passar dos dias. Odiava culpar pessoas próximas pelo acidente.
Odiava aquela pessoa fria que eu estava me tornando a cada momento. - Não preciso de ninguém.
- Filho... - Ele suspirou, colocando a mão no meu ombro.
- Só quero ficar sozinho - respondi, me afastando.
Ele abaixou a cabeça e passou a mão pela nuca.
- Tudo bem. Estarei lá dentro com sua mãe. - Ele se afastou e abriu a porta de tela. - Mas,
Tristan, só porque você quer ficar sozinho, não significa que esteja sozinho. Lembre-se disso. Sempre
estaremos aqui quando você precisar.
Ouvi a porta se fechar e respirei fundo.
Sempre estaremos aqui quando você precisar.
A verdade era que o "sempre" não durava para sempre.
Coloquei a mão no bolso e peguei o pedaço de papel que eu estava encarando há três horas. Eu tinha
terminado o obituário de Jamie de manhã, mas o de Charlie ainda estava em branco, apenas com o nome
dele escrito.
Como eu poderia fazer aquilo? Como eu escreveria a história de sua vida, quando ele nem teve a
chance de viver?
A chuva começou a cair no papel, e as lágrimas, dos meus olhos. Pisquei algumas vezes antes de enfiá-
lo de novo no bolso.
Eu não ia chorar.
As lágrimas que se fodam.
Meus pés desceram os degraus da varanda, e em segundos eu estava encharcado da cabeça aos pés, me
tornando parte da tempestade que caía.
Precisava de ar. Precisava de tempo. Precisava escapar.
Precisava correr.
Comecei a correr descalço, sem pensar, sem ter uma direção.
Zeus veio correndo atrás de mim.
- Volta pra casa, Zeus! - gritei para o cachorro, que já estava tão molhado quanto eu. - Vai
embora! - berrei, querendo ficar sozinho. Corri mais rápido, mas ele me acompanhou. Fiz tanto esforço
que meu peito parecia queimar, e respirar se tornou essencial. Corri até minhas pernas não aguentarem
mais e desabei no chão. Os raios caíam acima de nós, riscando o céu como se fossem cicatrizes, e comecei
a soluçar de maneira inconsolável.
Eu queria ficar só, mas Zeus estava bem ali. Ele acompanhou minha loucura e ficou do meu lado
quando cheguei no fundo do poço. Ele não ia me abandonar. Chegou perto de mim e lambeu meu rosto,
demonstrando seu amor, me dando seu apoio quando eu mais precisava.
- Tudo bem. - Suspirei, as lágrimas caindo enquanto eu o abraçava. Ele uivou, como se também
lamentasse. - Tudo bem - repeti, beijando sua cabeça e afagando-o.
Tudo bem.
Eu adorava correr descalço.
Correr era algo que eu fazia muito bem.
Gostava de sentir meus pés no chão quando corria.
Gostava de sentir a pele rasgando, de vê-la sangrar com o impacto dos meus pés no concreto da
rua.
Gostava de me lembrar dos meus pecados através das dores do meu corpo.
Eu adorava me machucar.
Mas só a mim. Adorava me ferir. Ninguém mais precisava sofrer. Fiquei longe das pessoas para
não machucar ninguém.
Machuquei Elizabeth, mas não foi de propósito.
Sinto muito.
Como eu poderia me desculpar? Como poderia consertar o estrago que fiz? Como apenas um
beijo pôde me fazer recordar?
Ela caiu por minha causa. Poderia ter quebrado um osso. Poderia ter batido a cabeça. Poderia ter
morrido...
Morte.
Jamie.
Charlie.
Lamento tanto.
Naquela noite, corri ainda mais. Corri pelo bosque. Rápido. Mais rápido. Com força. Mais força.
Vai, Tris. Corra.
Meu pé sangrou.
Meu coração chorava, batendo no peito, confundindo minha cabeça, envenenando meus
pensamentos, desenterrando as lembranças. Ela podia ter morrido, e a culpa seria minha. Eu seria o
responsável.
Charlie.
Jamie.
Não.
Tentei não pensar neles.
Senti a dor atravessando meu peito. Era uma dor boa. Seja bem-vinda. Eu a merecia. Mais
ninguém, só eu.
Sinto muito, Elizabeth.
Meu pé doía. Meu coração doía. Tudo doía.
A dor era assustadora, perigosa, real, boa. Eu me sentia muito bem, de uma forma terrível. Céus,
como eu adorava aquilo. Muito.
Porra, eu adorava a dor.
A noite foi ficando mais escura.
Sentei no galpão, pensando num jeito de pedir desculpas sem que ela quisesse ser minha amiga.
Pessoas como ela não precisavam de pessoas como eu para complicar suas vidas.
Pessoas como eu não mereciam amigos.
Mas o beijo dela...
O beijo dela me fez recordar. Por um momento, a recordação foi boa, mas eu estraguei tudo,
porque é isso que eu faço. Eu não conseguia tirar da cabeça a imagem de Elizabeth caindo. Qual era
o meu problema?
Talvez eu sempre acabasse machucando as pessoas.
Talvez por isso eu tenha perdido tudo o que tinha.
Mas eu só queria que ela parasse de falar comigo, só queria evitar que ela se machucasse.
Não deveria ter dado aquele beijo nela. Mas eu queria beijá-la. Eu precisava do beijo. Eu fui
egoísta.
Não saí do galpão até a lua estar bem alta. Quando saí, ouvi um barulho... alguém estava
gargalhando?
Vinha do bosque.
Eu não devia ter me importado. Devia cuidar da minha vida. Mas, em vez disso, segui o som e
encontrei Elizabeth cambaleando entre as árvores e rindo sozinha, segurando uma garrafa de tequila.
Ela era bonita. Na verdade, quis dizer que ela era linda. O tipo de beleza que não precisava de
muito esforço, que não era difícil de manter. O cabelo loiro caía em ondas, e ela usava um vestido
amarelo que parecia ter sido feito somente para o corpo dela. Eu odiava achar que ela era bonita,
porque a minha Jamie tinha aquele mesmo tipo de beleza.
Elizabeth dançava, tropeçando pelo bosque. Um valsa bêbada.
- O que está fazendo? - perguntei, chamando sua atenção.
Ela dançou até mim, na ponta dos pés, e colocou a mão no meu peito.
- Olá, olhos sombrios.
- Olá, olhos castanhos.
Ela riu novamente, com desdém. Estava completamente bêbada.
- Olhos castanhos. Gostei disso. - Ela encostou o dedo no meu nariz. - Você tem algum senso
de humor? Você é sempre tão sério, mas aposto que pode ser divertido. Diga algo engraçado.
- Algo engraçado.
Ela gargalhou bem alto. Era quase irritante. Mas não, não era nada irritante.
- Gosto de você. Nem sei por que, seu cabeça-dura. Quando você me beijou, eu me lembrei do
meu marido. O que é ridículo, porque você não se parece nada com ele. Steven era tão carinhoso. Ele
sempre cuidou de mim, me abraçava e me amava. E quando me beijava, era porque ele queria me
beijar. Quando parava de me beijar, era só pra tomar fôlego e continuar. Ele queria que eu ficasse
grudada nele. Mas você, olhos sombrios... quando se afastou, pareceu ter nojo de mim. Você me fez
ter vontade chorar. Porque você é cruel. - Ela tropeçou de novo, quase caiu para trás, e segurei-a
pela cintura. - Hum, pelo menos dessa vez você evitou meu tombo. - Ela riu.
Eu me senti mal quando vi o machucado e o corte em seu rosto, provocados pela queda.
- Você está bêbada.
- Não. Estou feliz. Não dá pra perceber que estou feliz? Estou demonstrando todos os sinais de
felicidade. Estou rindo, gargalhando, bebendo e dançando. É iiiiiiisso que pessoas felizes fazem,
Tristan - retrucou ela, afundando o dedo no meu peito. - Pessoas felizes dançam.
- É mesmo?
- Siiiim. Eu não esperava que você entendesse, mas vou tentar explicar - disse, a fala
engrolada. Ela fez uma pausa, se afastou, tomou um gole da tequila e começou a dançar novamente.
- Quando você está bêbado e dançando, nada mais importa. Você fica rodando, rodando, rodando,
e o ar fica mais leve, a tristeza diminui e você consegue esquecer um pouco seus sentimentos.
- E o que acontece quando você para?
- Ah, veja bem, só tem um pequeno problema quando a gente dança. Quando você para de
dançar... - Os pés dela pararam, e ela soltou a garrafa, que se espatifou no chão. - Tudo
desmorona.
- Você não está tão feliz quanto diz.
- É só porque parei de dançar.
Lágrimas escorreram de seus olhos, e ela começou a se abaixar para pegar os cacos de vidro.
Agachei, tentando impedi-la.
- Eu pego.
- Seus pés estão sangrando - comentou ela. - Você pisou na garrafa?
Olhei para baixo, para meus pés machucados e cortados por causa da corrida.
- Não.
- Bem, então, infelizmente, você tem pés muito feios. - Eu quase ri. Ela estreitou os olhos. -
Não estou me sentindo bem, olhos sombrios.
- Bom, você bebeu tequila suficiente para embebedar uma pequena multidão. Vamos lá, vou
pegar água. - Ela assentiu antes de vomitar nos meus pés. - Ou então pode vomitar em mim, você
que sabe.
Ela riu ao limpar a boca com as costas da mão.
- Acho que é o seu carma, porque você foi muito babaca. Agora estamos quites.
Parecia justo, afinal.
Eu a levei para minha casa após o incidente do vômito. Depois de lavar meus pés com a água
mais quente que a raça humana poderia suportar, encontrei-a sentada no sofá da sala, observando
tudo. Seus olhos estavam pesados, embriagados.
- Sua casa é chata. E feia. E escura.
- Que bom que você gostou da minha decoração.
- Posso emprestar meu cortador de grama para você arrumar seu jardim - ofereceu ela. - A
não ser que você prefira morar no castelo da Fera antes de conhecer a Bela.
- Não dou a mínima para o jardim.
- Por quê?
- Porque, diferente de certas pessoas, eu estou pouco me importando com o que os vizinhos
pensam de mim.
- Isso significa que você se importa de alguma forma. O que você quer dizer é que
definitivamente não se importa com o que eles pensam.
- Foi exatamente o que eu disse.
Ela continuou rindo.
- Não foi, não.
Meu Deus, que irritante. E linda.
- Bem, eu definitivamente não me importo com o que as pessoas pensam de mim.
Ela bufou.
- Mentiroso.
- Não é mentira.
- É, sim. - Ela mordeu o lábio inferior. - Todo mundo se preocupa com o que os outros
pensam. Todos se importam com a opinião dos outros. É por isso que eu ainda não consegui falar
pra minha melhor amiga que acho meu vizinho muito atraente, apesar de ele ser um idiota. E viúvas
não deveriam sentir isso por ninguém, nunca mais. Temos que ficar tristes pelo resto da vida. Mas
não tristes demais, porque a tristeza faz as pessoas à nossa volta se sentirem desconfortáveis. Então,
beijar uma pessoa e ficar excitada, sentir aquele frio na barriga, é algo que não pode acontecer... Isso
é um problema. As pessoas julgam. Não quero ser julgada, porque me importo com o que pensam.
Eu me aproximei dela.
- Cara, foda-se. Se você acha o Sr. Jenson gostoso, então que seja. Sei que ele deve ter 100 anos,
mas já o vi fazendo ioga no jardim de casa. Eu entendo sua atração. Até eu já fiquei excitado com o
cara.
Ela caiu na risada.
- Não é exatamente sobre esse vizinho que estou falando.
Assenti. Eu sabia.
Ela cruzou as pernas e se sentou, ereta.
- Você tem vinho?
- Pareço o tipo que bebe vinho?
- Não. - Ela balançou a cabeça. - Você parece o tipo que bebe cerveja bem escura, que faz os
pelos do peito crescerem.
- Exatamente.
- Tá. Me dá a cerveja dos cabeludos, por favor.
Saí da sala e voltei com um copo de água.
- Aqui. Beba.
Ela levantou a mão para pegar o copo, mas seus dedos se desviaram para meu antebraço.
Elizabeth ficou observando as tatuagens.
- São livros infantis. - As unhas percorreram os contornos de A menina e o porquinho. - Eram
os favoritos do seu filho?
Assenti.
- Quantos anos você tem?
- Trinta e três, e você?
- Vinte e oito. Quantos anos ele tinha quando...
- Oito - respondi friamente e vi seu rosto assumir uma expressão triste.
- Não é justo. A vida não é justa.
- Ninguém nunca disse que era.
- Sim... mas sempre acreditamos que ela é. - Elizabeth continuou olhando para as tatuagens e
encontrou Katniss Everdeen com o arco e flecha. - Às vezes, eu escuto você, sabia? Os seus gritos à
noite.
- Às vezes, eu escuto você chorar.
- Posso contar um segredo?
- Pode.
- Todos na cidade esperam que eu seja a mesma pessoa que eu era antes de Steven morrer. Mas
eu não sei mais ser aquela pessoa. A morte muda as coisas.
- Muda tudo.
- Desculpe por ter chamado você de monstro.
- Tudo bem.
- Como assim, tudo bem?
- Porque a morte me mudou, me transformou num monstro.
Elizabeth me puxou para perto de si, fazendo com que eu me ajoelhasse na sua frente. Passou os
dedos pelo meu cabelo e olhou bem dentro dos meus olhos.
- Você provavelmente vai me tratar mal de novo amanhã, não vai?
- Vou.
- Eu sabia.
- Mas não vai ser de verdade.
- Foi o que eu pensei. - Ela passou a ponta do dedo pelo meu rosto. - Você é bonito, um belo
monstro de coração partido.
Toquei o ferimento em seu rosto.
- Dói?
- Já senti dores muito piores.
- Sinto muito, Elizabeth.
- Meus amigos me chamam de Liz, mas você já deixou bem claro que não somos amigos.
- Não sei mais como ser amigo de alguém - sussurrei.
Ela fechou os olhos e encostou a testa na minha.
- Sou uma amiga muito boa. Se quiser, posso te dar umas dicas.
Ela suspirou e encostou levemente os lábios na minha bochecha.
- Tristan.
- Sim?
- Você me beijou.
- Beijei.
- Por quê?
Passei a mão pela sua nuca e puxei-a para perto, bem devagar.
- Porque você é linda. É uma mulher linda... destruída e linda.
Ela abriu um sorriso, e seu corpo estremeceu.
- Tristan?
- Sim?
- Vou vomitar de novo.
Elizabeth ficou com a cabeça dentro do vaso por mais de uma hora, e eu fiquei ali, segurando o
cabelo dela.
- Beba um pouco de água - falei, entregando o copo que estava na pia.
Ela tomou alguns goles.
- Normalmente sou melhor nesse negócio de bebida.
- Todos nós já passamos por noites desse tipo.
- Só queria esquecer por um tempo. Me livrar de tudo.
- Acredite em mim, sei exatamente como é. - Sentei-me ao lado dela. - Como está se
sentindo?
- Tonta. Boba. Idiota. Desculpe por ter vomitado no seu pé.
Eu ri.
- Acho que é carma.
- O que foi isso, um sorriso? Será que Tristan Cole acabou de sorrir pra mim?
- Não se acostume - brinquei.
- Droga. Que pena. Foi legal. - Ela se levantou, e eu fiz o mesmo. - Seu sorriso foi o melhor
momento do meu dia.
- E qual foi o pior momento?
- Quando você fez cara feia pra mim. - Ela ficou me encarando por um instante. - É melhor
eu ir. Muito obrigada por ajudar a curar minha ressaca.
- Sinto muito - repeti, com um nó na garganta. - Sinto muito por ter feito você cair mais cedo.
Ela pousou um dedo nos lábios.
- Tudo bem. Já te perdoei.
Ela voltou para casa muito mais sóbria, mas ainda um pouco cambaleante. Esperei que ela
entrasse antes de ir para a cama. Quando nós dois chegamos aos nossos quartos, ficamos olhando um
para o outro pelas janelas.
- Você sentiu também, não sentiu? - Ela suspirou, se referindo ao beijo.
Não respondi. Mas sim.
Eu também senti.
Capítulo 12
Elizabeth
Naquela noite, depois que Tristan e eu deixamos o parapeito das janelas, fiquei na cama pensando
na esposa dele, ainda um pouco bêbada. Pensei em como ela era. Se tinha o perfume de rosas ou de
lírios. Se sabia cozinhar, fazer bolos. Pensei no quanto ele a amava. Imaginei os dois juntos e, por um
momento, fingi que a ouvia sussurrar "eu te amo" junto à sua barba espessa. Senti as mãos dele
puxando-a para perto, o leve toque nas costas enquanto ela curvava o corpo, o modo como ela
pronunciava o nome dele.
Tristan...
Passei a mão pelo pescoço e imaginei que ele estava tocando o pescoço dela. Ele a deixava
excitada sem dizer uma palavra; ele a amava em silêncio, apenas com o toque. Os dedos dele
desciam pelo seu corpo, e ela gemia quando ele tocava seus seios. Tristan... Minha respiração
acelerou quando o senti provar a pele dela, a língua dele deslizando lentamente, lambendo um
mamilo antes de começar a sugá-lo, mordiscando-o, massageando-o. Ela se entregava a ele.
Tristan...
Passei as mãos pelo meu corpo enquanto Tristan invadia minha mente. Ele abaixou a calcinha
dela, e eu, a minha. A mão dele deslizou por entre as coxas dela, e eu coloquei um dedo dentro de
mim, bem devagar. Gemi, quase surpresa com as sensações que Tristan trazia à tona, o polegar
massageando meu clitóris.
Ela havia partido.
Éramos só ele e eu agora.
Sua barba roçava minha barriga, e sua língua lambeu meu umbigo. Gemi ao introduzir mais um
dedo em mim. Os dedos dele eram rápidos, iam fundo e com força, me fazendo suar. Sussurrei seu
nome como se eu pertencesse a ele, e, quando senti o toque de sua língua, estava prestes a me
entregar completamente. Eu erguia meu quadril para dar maior acesso a ele, meus lábios implorando
por mais. E ele continuava cada vez mais rápido, mais fundo e mais intenso. De forma carinhosa,
gentil. Isso, Tristan...
Meus lábios se entreabriram e pressionei meus dedos com mais força, sentindo-me à beira do
abismo eterno, a um passo de cair nas profundezas do nunca. Ele instigava minha imaginação, me
tocava e suplicava que eu gozasse em seus lábios. E foi o que fiz. Desmanchei-me ao seu toque, o
êxtase tomando conta do meu corpo. Não consegui me lembrar da última vez que me senti tão viva.
Estou bem.
Estou bem.
Estou bem pra cacete.
Depois, abri os olhos e vi a escuridão do meu quarto.
Afastei minhas mãos da parte interna da coxa. Vesti a calcinha, a felicidade se dissipando.
Não estou bem.
Olhei para o lado de Steven na cama e senti nojo de mim. Por um momento, juro que o vi do meu
lado, me olhando, confuso. Pisquei e estendi minha mão para senti-lo, mas ele já tinha ido embora.
Porque ele não estava lá.
O que foi que eu fiz? Como pude fazer isso? O que está acontecendo comigo?
Afastei o cobertor e fui tomar um banho. Entrei de calcinha e sutiã; minhas costas deslizaram pela
parede até eu me ver sentada na banheira, a água escorrendo pelo meu corpo. Implorei para que ela
levasse minha culpa pelo ralo, para que a tristeza me deixasse. Mas isso não aconteceu.
A água do chuveiro se misturou às lágrimas, e fiquei lá até que a água quente se tornasse fria ao
toque da minha pele. Estremeci e fechei os olhos.
Nunca me senti tão sozinha.
Capítulo 13
Elizabeth
Apesar dos protestos de Tanner, decidi que Tristan continuaria cuidando da grama do meu jardim.
Todos os sábados, ele vinha, aparava o gramado e ia para o centro da cidade trabalhar na loja do Sr.
Henson. Às vezes ele trabalhava de manhã, outras, tarde da noite. Não tínhamos conversado
novamente desde a minha bebedeira, e achei que era melhor assim. Emma sempre brincava com
Zeus no jardim, e eu ficava sentada na varanda, lendo um livro. Mesmo quando o coração está em
pedaços, ainda resta uma esperança quando se lê um romance. Ao virar as páginas, eu pensava que,
um dia, tudo ficaria bem novamente. Eu tinha esperança de que esse dia chegaria logo.
Toda semana, eu tentava pagar Tristan, mas ele se recusava a receber. Sempre o convidava para
comer alguma coisa, mas ele não aceitava.
Um sábado, ele chegou justo quando Emma estava no meio de uma crise emocional. Manteve
distância e tentou não se meter no assunto. Ela chorava.
- Não! Mamãe, temos que voltar! Papai não sabe mais onde estamos.
- Tenho certeza de que ele sabe, querida. Acho que só temos que esperar mais um pouco. Dê
mais um tempo para ele.
- Não! Ele nunca demora tanto! Onde estão as plumas brancas? Temos que voltar - dizia ela,
desesperada. Tentei abraçá-la, mas ela se desvencilhou de mim e entrou correndo em casa.
Respirei fundo e, quando olhei para Tristan, vi seu semblante fechado. Dei de ombros.
- Crianças. - Sorri, mas ele continuou com a mesma expressão séria.
Tristan virou de costas para mim e começou a andar na direção da sua casa.
- Aonde você vai?
- Para casa.
- O quê? Por quê?
- Não vou ficar aqui escutando sua filha choramingar a manhã inteira.
O Tristan cruel estava de volta com força total.
- Céus! Quando eu começo a acreditar que você é uma boa pessoa, você vai lá e faz de tudo pra
me lembrar que é mesmo um babaca.
Ele não respondeu, desaparecendo em sua casa escura.
- Mamãe! - Fui acordada por uma Emma superagitada, pulando na minha cama. - Mamãe, é
o papai! Ele veio! - gritava ela, puxando-me para que eu me sentasse.
- O quê? - murmurei, esfregando os olhos. - Emma, nós dormimos até mais tarde aos
domingos, lembra?
- Mas mamãe, papai apareceu! - exclamou.
Sentei-me e ouvi o barulho do cortador de grama. Vesti uma calça de moletom e uma camiseta e
segui minha garotinha, que estava muito empolgada. Quando saímos de casa, fui tomada pela
surpresa ao ver a varanda coberta de plumas brancas.
- Viu, mamãe? Ele achou a gente!
Levei as mãos à boca, chorando ao ver as plumas flutuando ao vento.
- Não chora, mamãe. O papai está aqui. Você falou que ele sempre ia nos encontrar, e ele nos
encontrou - explicou Emma.
Eu sorri.
- É claro, querida. Mamãe só está feliz, só isso.
Emma começou a pegar as plumas.
- Foto? - perguntou. Corri para pegar a velha Polaroid de Steven para tirar uma fotografia de
Emma com a pluma para a coleção "Papai & Eu". Quando voltei, Emma estava sentada na varanda
com um sorriso reluzente no rosto, rodeada de plumas.
- Tá, agora diga xis!
- Xiiiiss! - gritou ela.
A máquina revelou a foto, e Emma correu para guardá-la em sua caixa.
Olhei para Tristan, que estava cortando a grama como se nem percebesse o que estava
acontecendo. Fui até ele e desliguei o cortador.
- Obrigada.
- Não sei do que está falando.
- Tristan... muito obrigada.
Ele revirou os olhos e disse:
- Dá pra me deixar trabalhar?
Tristan deu as costas para mim, mas segurei a mão dele. Era quente e áspera.
- Obrigada.
Quando nossos olhares se encontraram, senti o toque de sua mão se tornar ainda mais caloroso.
Ele abriu um sorriso amplo. Um sorriso que eu sempre soube que ele era capaz de dar.
- Não foi nada. Achei a porcaria das plumas na loja do Sr. Henson. Não deu trabalho nenhum.
- Ele parou. - Ela é uma boa menina. Muito chata, mas boazinha.
- Toma café com a gente? - convidei.
Ele balançou a cabeça.
- Venha para o almoço então.
Ele recusou.
- Jantar?
Ele mordeu o lábio inferior e olhou para baixo, pensando se deveria ou não aceitar meu convite.
Quando ergueu a cabeça, quase caí para trás com a simples resposta:
- Tá.
Os vizinhos sempre cochichavam, se perguntando por que eu deixava Tristan cortar a grama do
meu jardim, mas eu começava a não me importar tanto com o que os outros pensavam de mim.
Sentei-me na varanda, cercada de plumas brancas, enquanto ele trabalhava e Emma brincava com
Zeus.
De vez em quando, Tristan se lembrava de como sorrir.
Sentamos à mesa na hora do jantar. Emma tagarelava sobre Zeus ter comido um inseto morto que
ela achou na varanda. Ela fazia muita bagunça e muito barulho ao comer seu espaguete. Fiquei em
uma ponta da mesa, e Tristan, na outra. De vez em quando, eu notava seu olhar, mas na maior parte
do tempo ele dedicava sua atenção a Emma com um sorriso de canto de boca.
- E Zeus ENGOLIU o bicho! Como uma comida gostosa! E agora ele deve estar grudado nos
dentes dele!
- Você comeu o bicho também? - perguntou Tristan.
- Não! É nojento!
- Ouvi dizer que eles têm muita proteína.
- Não ligo, Pluto! É nojento! - Ela fez uma careta, e nós rimos. - U-u-u-á-á-á! U-u-u-á-á-á! -
continuou ela, mudando para sua imitação de gorila. Depois de ter assistido a Tarzan semanas atrás,
ela havia passado a explorar mais suas raízes primatas. Eu nem sabia como explicar isso a Tristan,
mas logo em seguida vi que não precisava.
- U-u? - respondeu ele, rindo. - Á? Áááá! Áááá!
Será que ele sabia que tinha feito meu coração pular de alegria de manhã?
- Tá bom, Jane. Acho que está na hora de vestir seu pijama. Já passou da sua hora de dormir.
- Mas... - protestou ela.
- Sem "mas...". - Eu ri, fazendo um gesto em direção ao quarto.
- Tá, mas posso ver Hotel Transilvânia no meu quarto?
- Só se você prometer que vai dormir.
- Prometo!
Ela saiu correndo. Eu e Tristan nos levantamos.
- Obrigado pelo jantar - disse ele.
- De nada. Você não precisa ir agora. Tenho vinho...
Ele hesitou.
- E cerveja também - completei.
Isso o convenceu. Eu não quis admitir que a única razão pela qual tinha comprado cerveja era a
esperança de que ele um dia ficasse para jantar. Depois que coloquei Emma na cama, levamos nossas
bebidas para a varanda. Zeus dormia ao nosso lado. De vez em quando, o vento levava uma pluma
embora. Ele não falou muito, mas eu já estava me acostumando com isso. Ficar em silêncio era a
versão dele de ser legal.
- Fico pensando numa maneira de recompensar você pela grama.
- Não preciso do seu dinheiro.
- Eu sei... mas talvez eu pudesse ajudar você com a casa? Na decoração? - ofereci. Eu podia
contar a ele que tinha me formado em design de interiores, e por isso poderia ajudá-lo. A casa dele
era muito escura, e eu adorava a ideia de transformá-la só um pouquinho.
- Não.
- Pelo menos pense no assunto.
- Não.
- Você é sempre tão cabeça-dura?
- Não - respondeu ele. Sorriu. - Sim.
- Posso fazer uma pergunta? - Acabei pensando alto. Ele assentiu. - Por que você dá comida
ao mendigo?
Ele fechou os olhos.
- Um dia, eu estava correndo descalço quando parei na ponte e desmoronei completamente.
Todas as lembranças vieram à tona, e eu comecei a sentir certa dificuldade em respirar. Tive um
ataque de pânico. Aquele homem se aproximou de mim, ficou passando a mão nas minhas costas e
permaneceu comigo até que eu conseguisse recuperar o fôlego. Ele perguntou se eu estava bem, e eu
respondi que sim. Depois, ele disse para eu não me preocupar, porque os dias sombrios durariam
apenas até o sol chegar. Então, quando eu disse que ia embora, ele me ofereceu seus sapatos. É claro
que não aceitei... e ele não tinha nada. Morava debaixo da ponte com um cobertor velho e sapatos
desgastados. Mesmo assim, ele os ofereceu a mim.
- Uau!
- Sim. A maioria das pessoas vê apenas um drogado debaixo da ponte, sabe? Um problema para
a sociedade. Mas eu vi alguém que estava disposto a ajudar um estranho.
- Nossa... Isso é tão bonito.
- Ele é uma pessoa boa. Descobri que tinha servido ao Exército e depois, quando voltou da
guerra, passou a sofrer de transtorno de estresse pós-traumático. A família dele não entendia por que
ele tinha mudado tanto. Ele arrumou um trabalho e acabou sendo demitido por causa dos ataques de
pânico. Perdeu tudo por servir ao país e lutar por nós. Isso é uma merda, sabe? Ele era um herói até
tirar o uniforme. Depois disso, se transformou num problema para a sociedade.
Aquilo partiu meu coração.
Eu já tinha visto aquele homem debaixo da ponte milhares de vezes, mas nunca investiguei sua
história. Pensei em tudo que Tristan contou, no possível motivo de ele ter se viciado em drogas, na
forma como se tornou alguém que eu preferia nem olhar.
Era incrível a capacidade da nossa cabeça de inventar histórias sobre pessoas desconhecidas, que
precisavam muito mais de amor do que nós poderíamos supor. Era muito fácil julgar as pessoas, e eu
pensei em tudo que Emma estava aprendendo comigo. Eu precisava ter cuidado com a forma como
tratava os outros, pois ela sempre observava minhas ações.
Mordi o lábio inferior.
- Posso fazer mais uma pergunta?
- Não sei. Isso vai se tornar um hábito? Porque eu odeio perguntas.
- Essa é a última da noite, eu prometo. O que você escuta? Com aqueles fones no ouvido?
- Nada - respondeu ele.
- Nada?
- As pilhas acabaram há meses e eu não tive coragem de comprar novas.
- E o que você ouvia?
Ele mordiscou o polegar.
- Jamie e Charlie. Há alguns anos, eles gravaram uma música. Eu fiquei com ela.
- Por que você ainda não trocou as pilhas?
- Acho que ouvi-los de novo vai me matar. E eu já estou praticamente morto - sussurrou.
- Sinto muito.
- Não é sua culpa.
- Eu sei, mas ainda assim sinto muito. Nem consigo imaginar... se eu tivesse a chance de ouvir a
voz de Steven mais uma vez, não hesitaria.
- Fale sobre ele - murmurou Tristan. Aquilo me pegou de surpresa. Ele não parecia ser do tipo
que demonstrava interesse na vida dos outros, mas eu usava qualquer oportunidade que tinha para
falar de Steven. Não queria esquecê-lo.
Naquela noite, ficamos na varanda com nossas lembranças. Ele contou tudo sobre o humor bobo
da Jamie, e eu o convidei a entrar no meu coração e conhecer meu Steven. Em alguns momentos,
ficamos em silêncio, e foi perfeito. Tristan sofria com as mesmas dores que eu; talvez sofresse ainda
mais, porque perdeu o filho também. Nenhum pai deveria perder um filho, parecia ser algo
irrecuperável.
- Tenho que perguntar. A varinha no seu dedo indicador... Que livro é esse?
- Harry Potter - respondeu ele com autoridade.
- Ah. Nunca li.
- Você nunca leu Harry Potter? - perguntou, preocupado.
- Desculpe, isso é um problema?
Ele me encarou, perplexo, me julgando.
- Não, é que você sempre está com um livro na mão. É inacreditável que não tenha lido Harry
Potter. Era o favorito do Charlie. Acredito que existem duas coisas no mundo que todos deveriam ler,
porque ensinam tudo sobre a vida: a Bíblia e Harry Potter.
- Verdade? Só essas duas coisas?
- Sim. São tudo de que as pessoas precisam. E, bem, eu ainda não li a Bíblia, mas está na minha
lista. - Ele riu. - Acho que esse é o motivo de nada dar certo na minha vida.
Toda vez que ele ria, uma parte de mim voltava à vida.
- Eu já li a Bíblia, mas não Harry Potter, então, talvez possamos trocar umas informações.
- Você já leu a Bíblia?
- Sim.
- Toda?
- Sim - respondi, ajeitando os cabelos num rabo de cavalo para que ele pudesse ver a tatuagem
com as três cruzes atrás da minha orelha. - Quando eu era mais jovem, minha mãe saía com muitos
homens. Na época, achei que ela teria um relacionamento mais sério com um cara chamado Jason.
Eu o adorava! Ele sempre me trazia doces e outras coisas. Mas era muito religioso, e mamãe falou
que, se eu lesse a Bíblia, talvez ele acabasse nos amando e fosse meu novo pai. Ele até morou com a
gente um tempo. Passei semanas lendo a Bíblia no meu quarto, e um dia fui gritando até a sala
dizendo: "Jason! Jason! Eu consegui. Li a Bíblia toda." Eu estava trêmula, animada, porque achei
que realmente teria um novo pai. Queria aquela oportunidade, mesmo sabendo que meu pai
verdadeiro era melhor que qualquer outro. Na minha cabeça, se eu tivesse um pai de novo, minha
mãe voltaria a ser a pessoa que sempre foi em vez de alguém que eu mal conhecia.
- O que aconteceu com Jason?
Fechei os olhos por um instante.
- Quando cheguei na sala, vi que ele estava carregando as malas para o carro. Mamãe disse que
ele não era "o cara certo" e teve que ir embora. Lembro que fiquei com muita raiva dela... Gritei e
chorei, perguntando como ela poderia ter feito aquilo. Por que sempre tinha que estragar tudo. Mas
era o que ela fazia. Ela sempre estragava tudo.
Tristan suspirou e deu de ombros.
- Mas parece que ela fez um bom trabalho com você.
- Tirando minha falta de conhecimento sobre Harry Potter.
- Sua mãe deveria namorar um bruxo da próxima vez.
- Acredite em mim, deve ser um dos próximos da fila.
Às três da manhã, ele se levantou para ir embora. Corri para dentro de casa e peguei um pacote
com duas pilhas AA. A princípio, ele hesitou, mas depois aceitou-as. Enquanto atravessava o jardim
com Zeus, colocou os fones no ouvido e apertou o play. Vi quando ele parou e cobriu o rosto com as
mãos, soluçando.
Fiquei comovida com o sofrimento dele. Uma parte de mim desejou não ter dado as pilhas, mas a
outra estava feliz por ter feito aquilo. Sua reação demonstrava que ele ainda estava vivo, ainda
respirava.
Às vezes, a pior parte de existir sem a pessoa que amamos é ter que se lembrar de respirar.
Ele virou na minha direção.
- Me faz um favor?
- Qualquer coisa.
Ele apontou para a minha casa.
- Abrace-a com força todos os dias e todas as noites, porque não sabemos o dia de amanhã. Eu só
queria tê-los abraçado mais uma vez.