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O calor do Inefavel

O calor do Inefavel

Autor:: Rany Medeiros
Gênero: Bilionários
Hera Medeiros, a "princesinha dos vinhos" da renomada Doce Desejo, é a combinação perfeita de elegância e rebeldia. Advogada e relações públicas, sua vida em Nova York é um luxo com motos de alta velocidade e um coração livre. No entanto, por trás da fachada polida, Hera anseia por algo que toque sua alma de forma indizível. Heitor Carini, o imponente CEO da agência de modelos New Face, é a personificação do poder e da sedução. Um playboy irredutível, com músculos definidos e olhos verdes que não deixam ninguém indiferente, Heitor vive sob suas próprias regras, onde o controle é a palavra-chave e as emoções são um luxo dispensável. Quando os caminhos de Hera e Heitor se cruzam, o choque é inevitável. Duas almas de mundos iguais, mas perspectivas opostas, colidem em uma dança de atração proibida e paixão avassaladora. Ela se torna a perdição e o mundo dele, desafiando sua couraça e revelando anseios escondidos. Ele se transforma em seu ar, o fôlego que ela nunca soube que precisava, levando-a a limites que transcendem o físico. Em meio a encontros tórridos e segredos que vêm à tona, eles precisarão enfrentar seus próprios demônios e desafiar o que significa amar, descobrindo que o inefável pode ser a chave para a superação e para um amor que arde na alma.

Capítulo 1 Duas Rodas, Um Destino

Capítulo Um

O café especial de torra média, meticulosamente preparado na prensa francesa, ou, nos dias de pressa, o chá de ervas orgânico, era a melodia que abria cada uma das minhas manhãs. Enquanto o vapor dançava no ar, eu conversava com meus pais, Alissa e Anthony Medeiros, delineando a corrida de compromissos que o dia prometia. Assim que minha xícara esvaziava, eu subia os degraus direto para meu quarto, o paraíso particular onde o deslumbre do meu closet me aguardava.

Meus olhos cor de avelã, que herdei da minha mãe, pousaram sobre uma saia lápis azul-marinho, uma camisa de seda branca e meus clássicos scarpins Christian Louboutin. Para complementar o look, escolhi brincos pequenos de diamante, um colar discreto que fazia conjunto e um relógio clássico, garantindo elegância e sofisticação. A maquiagem era natural, focando em realçar meu olhar e nos lábios, apenas um gloss rosa. Terminando os últimos toques, peguei uma mochila Hermès Kelly, herança da minha mãe, e deixei o quarto, descendo em direção à garagem.

No pé da escada, Anthony Medeiros, meu pai, estava sentado na poltrona, folheando uma revista Forbes. Uma cena que se tornara comum desde que ele passara o comando da "Doce Desejo" para mim e meu irmão gêmeo, Hermes.

"- Linda como sempre, minha princesa,"- ele disse, tirando os olhos da revista e me encarando com um sorriso orgulhoso.

"- Obrigada, papai, mas me conta as notícias?"- perguntei, apontando para a revista em suas mãos.

"- Nada fora do normal. A New Face foi assumida pelo herdeiro da família Carini, e a Vinhedos Éden teve um dos seus vinhos incluído na lista Wine Spectator Top 100," meu pai concluiu a última parte com uma careta visível.

Com um sorriso travesso, beijei a testa do meu pai. "

- Calma, meu pai. A nossa Doce Desejo nunca perderia para nenhuma outra empresa de vinhos."

Com essas palavras, eu saí da sala, rumo à garagem, deixando para trás um pai com um olhar de orgulho e um leve tremor de preocupação.

Na garagem, meu sorriso travesso se alargou ao avistar minha Ducati Superbike 1199 Panigale S Senna. Montei na máquina, liguei-a e dei uma acelerada para aquecer o motor. Com um jeito prático, ajeitei a saia lápis para não atrapalhar e parti da imponente mansão na Upper East Side em direção a Midtown Manhattan, onde ficava a sede da minha família.

O vento chicoteava meus cabelos cor de mel enquanto o rugido grave da Ducati embalava minha alma. Era uma paz que só me consumia nesses momentos, como dançar uma melodia clássica ou saborear um Bordeaux Premier Cru. A calma e a liberdade que sentia naquelas ruas de Nova York eram inefáveis.

Ao chegar no subsolo da empresa, estacionei na minha vaga, desci da moto e, com um movimento ágil, ajeitei a saia e verifiquei a maquiagem no retrovisor. Marchei até o elevador privativo e apertei o botão do vigésimo quinto andar, onde ficavam minha sala e a de Hermes. Peguei o celular e comecei a revisar a agenda, pois sabia que precisaria otimizar meu tempo. As portas do elevador se abriram, revelando a entrada da minha sala. Entrei, acomodei-me em minha mesa e comecei a ler os contratos que Alice, minha secretária, deixara ali.

Assim que terminei de revisar cada acordo, escutei três batidas na porta. "Entre, por favor!"

A porta se abriu e Alice entrou, os olhos azuis cristalinos expressando algo além da rotina.

"- Bom dia, chefe,"- ela disse, a voz um pouco tensa.

"- Bom dia, Alice, como está?"- perguntei, notando a expressão de poucos amigos no rosto da secretária.

"Estou bem, chefe. Só estou tendo problemas com o Sr. Julius Santana,''- Alice falou com uma careta. "Estou em negociação com ele há quatro dias, e o mesmo insiste em querer que a nossa empresa pague metade do valor de importação, o que já deixei claro que não vai acontecer."

"Alice, marque uma reunião no restaurante de sempre, o Per Se, com o Julius. Informe-o que estou indo para decidirmos se fecharemos a compra ou não, e deixe explícito que a decisão terá que ser tomada nesse almoço."

Assim que terminei de falar, Alice assentiu e saiu da sala. Exatamente dois minutos depois, o ramal tocou. Era Alice, informando que a reunião fora marcada para a uma da tarde. Agradeci e desliguei. Levantei-me e fui até a sala do meu irmão. Abri a porta sem bater e me deparei com uma cena inusitada: Hermes, meu querido irmão, sentado na poltrona com as calças abertas e a recepcionista ajoelhada entre suas pernas, devorando-o. "Rapaz, as coisas estão boas por aqui," pensei com um sorriso.

"- Quantas vezes já te falei para bater antes de entrar?"- Hermes indagou, os olhos dilatados e a respiração acelerada.

"- Quantas vezes já te falei para não transar com as nossas funcionárias aqui na empresa?"- retruquei, os braços cruzados, encarando-o. O safado simplesmente deu de ombros, levantou-se, ajeitou as roupas e ajudou a moça a se levantar. Ela saiu correndo da sala, visivelmente constrangida.

"- Agora que já estragou a minha diversão, me fala, senhorita 'A Toda Velocidade', em que posso ser útil?" - ele perguntou, aqueles olhos idênticos aos meus me encarando.

"Se me escutasse, eu não teria atrapalhado nada, Sr. Estratégia. Vim aqui para te informar que terei uma reunião com o Julius Santana hoje, uma da tarde, no Per Se, para resolvermos tudo de uma vez. E o que eu encontro? Meu irmão recriando uma cena da Pornhub,"- eu disse, provocando-o.

"- E como você sabe que é uma cena da Pornhub?" ele perguntou, rindo da minha cara.

"- Hermes, você vai querer ir nessa reunião ou não?" perguntei, prevendo o final da discussão.

"- Não, maninha, irei almoçar com a mamãe. Papai falou que ela está histérica depois que ficou sabendo que você vai participar de uma corrida hoje," ele disse, olhando-me com preocupação.

"- É, eu acabei contando sem querer," eu disse, dando de ombros. Minha mãe sempre fazia um drama quando eu participava das competições, e acabava sobrando para o "Sr. Estratégia", pois só ele conseguia acalmá-la quando se tratava da minha segurança. Lembro que quando eu fiz 18 anos, Hermes me deu a Ducati e mamãe o fez prometer que ele levaria a moto toda semana para uma manutenção. Ele, bom, teve que aceitar.

"- Você vai acabar provocando um infarto na nossa mãe," ele disse, passando a mão nos cabelos cor de mel, um gesto que ele sempre fazia quando estava preocupado.

"Não só na mamãe, pelo jeito," observei. Eu via através do rosto dele, praticamente idêntico ao meu, que ele também não estava em paz com isso.

"- Você sabe que te apoio em tudo, mas isso não diminui a minha preocupação."

Fui até ele, abracei-o e dei um beijo em sua bochecha. Ali, eu o senti relaxar. Sempre fomos assim desde criança, um o porto seguro do outro. Depois de um longo tempo conversando com Hermes, decidi voltar para minha sala para arrumar minhas coisas para a reunião. Assim que terminei, informei Alice que, após o almoço, eu iria para casa me arrumar para a corrida daquele dia. Com tudo devidamente alinhado, desci até o subsolo, peguei minha Ducati e saí do estacionamento da empresa rumo ao Per Se, onde seria minha reunião com Julius.

Capítulo 2 O Encontro Inesperado (e a Primeira Faísca)

Estacionei e, por um instante, senti um par de olhos em mim. Olhei para os lados, mas não vi ninguém, o que me deixou um pouco inquieta. Desci da minha Ducati e, como de costume, ajeitei a saia, arrumei o cabelo e passei mais uma camada do meu gloss. Com tudo devidamente alinhado, marchei rumo à entrada luxuosa do Per Se. Assim que entrei, a recepcionista me encaminhou à mesa onde Julius Santana já estava sentado, saboreando um dos meus vinhos favoritos: um Grand Cru de Bordeaux.

Cheguei à mesa e, assim que Julius me viu, levantou-se, cumprimentou-me e puxou a cadeira para eu me sentar. No instante em que me acomodei, senti aquela sensação novamente. Olhei para os lados e, na mesa em frente à minha, um par de olhos azuis me encarava. Naquele momento, o mundo ao meu redor silenciou.

Os olhos verdes-água me avaliavam, me consumiam, me afogavam. Eu não conseguia parar de olhar aquele ser que parecia ter saído de uma pintura da era medieval. A pele morena, os cabelos pretos feito carvão, bem cortados, a boca carnuda e rosada me fazendo imaginar muitos cenários diferentes. Ele vestia uma camisa social branca e um colete preto bem alinhado. "Este homem não pode ser deste mundo," pensei. Escutei meu nome ser chamado, uma, duas vezes... Na terceira vez, Julius se sentou na cadeira à minha frente, o que me fez voltar a respirar.

"Tudo bem, senhorita Hera?" perguntou Julius, olhando-me fixamente.

"Sim, Julius, e você, como está?" perguntei, tentando voltar minha atenção para o homem à minha frente.

"Estou ótimo, obrigada por perguntar," ele disse, servindo uma taça de vinho. Começamos a reunião em um clima descontraído, porém sem deixar claros os nossos objetivos. Assim que terminei meu Lombo de Wagyu Grelhado com Redução de Vinho Tinto e Batatas Pont-Neuf, escutei Julius pigarrear e, logo em seguida, ele começou a falar.

"Hera, minha querida, pensa no assunto com carinho. Sei que não é uma prática da sua empresa fazer esse tipo de acordo, porém isso garantiria novos pedidos da nossa parte."

Assim que ele terminou de falar, comecei a recolher meus pertences e fiz menção de levantar, o que o deixou assustado.

"Onde a senhorita vai no meio de um contrato de compra e venda?" ele questionou.

"Para casa. Não tenho a intenção de aceitar esses termos, o que já havíamos deixado claro ao senhor. Então, estou me retirando. Se o senhor mudar de ideia e tiver a intenção de assinar o contrato que já está redigido com os termos que já lhe foram apresentados, o senhor tem meu e-mail. Com sua licença."

Levantei da mesa e fui em direção à porta. Assim que a atravessei, dei de cara com alguém que me segurou pela cintura. Naquele momento, meu corpo inteiro se aqueceu. Olhei para o ser me segurando e paralissei, pois tinha os mesmos olhos verdes-água me analisando. Senti seu cheiro amadeirado tomar minhas narinas, me deixando embriagada.

"Lindos," ele balbuciou, sem desviar os olhos dos meus, sua respiração encontrando a minha. Atrás de mim, a porta se abriu e a recepcionista falou, toda melosa:

"Senhor Carini, suas chaves."

Me soltei de seus braços e saí rumo à minha moto. Olhei para trás e vi a recepcionista posicionar a mão em seu peito, e ele travar o maxilar e falar algo para a moça, que retirou a mão rapidamente e ficou vermelha feito um pimentão. Logo em seguida, Julius saiu de dentro do restaurante, o que me fez agilizar os passos até minha moto. Coloquei a mochila, subi nela e, dessa vez, não me dei ao trabalho de arrumar a saia. Simplesmente liguei a moto e saí, passando pelos três.

Voltei para casa com a sensação de que veria aquele homem novamente, o que me deixou com uma sensação estranha. Minha cabeça ficou revendo várias e várias vezes aqueles olhos me encarando, e quando dei por mim, estava em frente à minha casa. O pessoal da segurança abriu o imenso portão e segui para a garagem. Estacionei, desci e adentrei a sala de estar. Papai já me esperava ali mesmo.

"Princesa, já em casa?" ele indagou.

"Sim, papai, tenho uma competição hoje." Ele assentiu e falou logo em seguida: "Sua mãe não está nada feliz com isso."

"Irei falar com ela, mas e o senhor, o que fez o dia todo?" perguntei, tentando tirar um pouco o foco da minha competição. Assim que meu pai terminou de me contar tudo sobre o dia dele, fui em direção ao meu quarto, pois precisava arrumar minhas coisas para a competição. Assim que cheguei em frente ao meu quarto, escutei a voz de minha mãe atrás de mim.

"Filha, podemos conversar?" ela falou, com um olhar de preocupação que me partiu o coração.

"Claro, mamãe," falei, abrindo a porta do meu quarto e entrando junto com minha mãe. Assim que coloquei a bolsa sobre a cama, ela me abraçou, me pegando de surpresa.

"Sei que você ama essas competições, e não serei mais contra, mas me prometa uma coisa," ela perguntou, quase se fundindo a mim.

"Claro, mãe, me fala, o que seria?" falei, abraçando-a também.

"Promete que vai se cuidar, e que nunca correrá sem fazer uma manutenção no carro no dia da corrida."

"Eu já faço isso, mãe, mas prometo à senhora que isso será lei a partir deste momento."

Assim que fechei a boca, ela me soltou, olhando diretamente nos meus olhos, checando se eu estava lhe falando a verdade. Mamãe sempre foi assim, mesmo eu e Hermes sendo adultos, ela sempre está em todas as nossas escolhas, nos aconselhando e fazendo-nos prometer que colocaremos nossa segurança acima de qualquer coisa. Com tudo acordado com Dona Alissa, comecei a arrumar minhas coisas. Terminei de arrumar tudo, tomei um banho, coloquei uma calça de couro skinny preta, uma blusa de seda solta azul cobalto, minha jaqueta de couro biker favorita e nos pés um Alexander McQueen. De acessórios, mantive o conjunto de brincos de diamante e o colar, trocando somente o relógio, optei por um Rolex Daytona. Maquiagem simples, realçando a cor dos meus olhos e no cabelo, um rabo de cavalo bem feito. Verifiquei tudo no espelho e estava maravilhosa. Saí do closet, peguei minha bolsa rumo à garagem. Desci as escadas até a sala onde estavam papai e mamãe, sentados assistindo TV. Dei um beijo em cada um e saí pela porta para pegar meu Porsche 911 Turbo S. Adentrei meu carro e saí acelerada rumo ao autódromo.

Cheguei ao Monticello Motor Club, estacionei no setor privativo que pertence à minha família. Lá estavam meu irmão com alguns amigos e minha melhor amiga, Samira. Estacionei e saí do carro indo de encontro a eles.

"Olha quem chegou para ser a número 1!" falou meu irmão, todo orgulhoso.

"Sempre!" falei, com a mão no peito.

"Vai com tudo, Senhora a Toda Velocidade, pois não quero passar vergonha hoje!" ele falou com cara de deboche.

"Fique quieto, Sr. Estratégia!" falei rindo, pois sei que ele está mais nervoso que eu com essa competição.

"Hera, quanto tempo!" falou Samira, me abraçando.

"Pois é, fazem 24 horas, se não estou enganada!" falei, pois Samira esteve lá em casa neste horário ontem, foi quando a convidei para a minha competição. Ela riu e me acompanhou até o meu camarim, onde comecei a trocar de roupa.

"Amiga, tem um deus aqui hoje que você precisa conhecer!" ela falou.

"Sério? E quem seria?" perguntei.

"Daqui a pouco você saberá," ela falou, com um sorriso misterioso.

Saí do banheiro e fui até Samira. Cheguei em sua frente e dei uma voltinha, mostrando a parte de trás do meu macacão, onde estava escrito "Senhora a Toda Velocidade", o número 11 (minha data de nascimento) e, abaixo do número, meu nome.

"Hermes, como sempre," ela falou.

"SIM! Meu fã número 1!" falei, eufórica. Assim que fechei a boca, meu irmão e o homem dos olhos verdes-água mais lindo que já vi neste mundo entraram no meu camarim. Foi naquele momento que meu mundo mudou completamente.

Capítulo 3 Olhos de Avelã

Heitor Carini.

Acordei como de costume às 6:00 da manhã. Tomei um banho rápido; a noite de ontem foi daquelas. Encontrei um amigo que não via há anos, e ficamos um longo tempo conversando, colocando a vida em dia.

"Meu amigo, por que não me avisou que estava na cidade? Teria marcado algo há tempos," Hermes perguntou, assim que nos encontramos na boate.

"Eu tentei, mas seu celular sempre dá caixa postal, e as mensagens nunca chegam," respondi, dando de ombros.

"É, eu troquei de celular. Minha irmã, Hera, quebrou o outro," ele falou com uma cara engraçada. Ele fica sempre assim, com cara de palhaço, sempre que fala da irmã gêmea, sempre que estávamos juntos, ele pronunciava o nome Hera Medeiros milhares de vezes, sempre com um brilho nos olhos.

"E essa irmã encrenqueira, irei conhecer quando?" perguntei.

"Amanhã ela estará competindo em uma corrida de carros, você gostaria de ir?" Hermes perguntou, todo orgulhoso da irmã. Quase me engasguei com meu uísque.

"Sua irmã é piloto de corrida?" perguntei em choque.

"Ela é motoqueira, piloto, relações-públicas e advogada," ele falou, todo empolgado pela irmã.

"Caralho, agora estou sem palavras, e isso não acontece com frequência," falei, ainda assustado e empolgado, não vou negar. Não é sempre que encontramos mulheres assim.

"Tá, você vai ou não na corrida?" ele perguntou, já impaciente.

"Sim, eu vou," falei por fim.

Ficamos ali relembrando mais algumas coisas, e logo cada um saiu da boate com uma mulher nos braços. Assim finalizou minha noite, e agora aqui estou eu, com um café espresso duplo forte na mão, observando cada modelo cruzar a passarela com um olhar frio e avaliador. Cada detalhe, do caimento do vestido à expressão facial, era minuciosamente analisado pelos meus olhos verde-água, pois eu não podia deixar passar nada. Assim que o desfile da New York Fashion Week terminou no Spring Studios, deleguei o que precisava para cada um e saí, indo em direção ao meu carro. Tinha um almoço com meu amigo de infância Vinícius no Per Se.

Assim que cheguei ao restaurante, que se tornou meu favorito, estacionei e fui rumo às portas luxuosas. Entrei, e a recepcionista veio ao meu encontro.

"Senhor Carini, que prazer vê-lo novamente," ela falou com um sorriso exagerado.

"Vinícius Botelho. Tenho um almoço com ele hoje," falei seco. Eu estava sem paciência para conversinha.

"Claro, me siga, por favor," ela falou, me conduzindo até a mesa. Assim que Vini me viu, ele se levantou e me cumprimentou. Nos sentamos e fizemos nossos pedidos, começando a conversar sobre tudo, menos negócios. Eu e Vinícius tínhamos esse acordo: sempre que estávamos juntos, conversávamos sobre mulheres, jogos, mas nunca sobre negócios.

"Fala aí, viado, o que fez ontem à noite que não atendeu minhas ligações?" Nesse momento, nossos pedidos chegaram, e eu, movido pelo instinto, olhei pela janela. Vi uma mulher descendo de uma Ducati preta e dourada. Cabelos cor de mel até a cintura, rosto angelical e curvas... "Meu Deus, que curvas são essas," pensei. Vi ela arrumar a saia lápis assim que desceu da moto e retocar o batom, verificar no retrovisor da moto e começar a caminhar em direção às portas do restaurante. "Que mulher é essa?"

Voltei minha atenção a Vinícius, que percebera tudo e começou a rir da minha cara, já que ele e Hermes eram os únicos que me conheciam como ninguém. Passaram cerca de dois minutos, e senti a tal mulher passar por minha mesa e se sentar na mesa à minha frente com um senhor que eu conhecia bem. Assim que ela se sentou e levantou a cabeça, seus olhos encontraram os meus, e naquele momento, meu mundo parou. Era ridículo, eu, Heitor Carini, paralisado por uma mulher, mas ali estava eu, hipnotizado por aqueles olhos cor de avelã. Escutei Julius a chamar: "Hera, Senhorita Hera Medeiros."

O sobrenome ecoou na minha mente, e por um instante, uma lembrança de um calor diferente me invadiu – a do Brasil. Meu estágio na agência de modelos em São Paulo. Foi lá que conheci Hermes, o 'Sr. Estratégia' dos vinhos Medeiros. Ele mencionou uma irmã gêmea que havia lhe dado este apelido, uma 'dor de cabeça elegante', se bem me lembro. Mas nada, absolutamente nada, no que ele disse ou na minha imaginação, poderia ter me preparado para aquilo.

Julius sentou na cadeira à frente de Hera, tirando-a do meu campo de visão, e senti o ar voltar aos meus pulmões. Meu telefone tocou, era da agência. Pedi desculpas ao meu amigo e saí do restaurante para atender.

"Fala, Aurora," atendi e escutei minha secretária respirar fundo.

"Senhor, temos um problema. A senhorita Teresa não compareceu para a sessão de fotos de hoje. Estou tentando contato, mas ela não atende," ela falou, visivelmente nervosa.

"Pode deixar, Aurora, irei localizá-la," falei, desligando a ligação e tentando contato com Teresa. Liguei uma, duas e na terceira ela me atendeu.

"Oi, lindo, com saudades?" ela falou com uma voz manhosa.

"Teresa, vou falar somente uma vez, então escute com atenção. Quero você na agência em trinta minutos. Se eu ligar para a Aurora daqui a trinta minutos e você não estiver lá, pode dar adeus às passarelas," falei e desliguei o telefone logo em seguida. Mandei mensagem para Vinícius informando que tive um problema na agência e que teria que ir embora. Fui até meu carro e... "Caralho, deixei a chave em cima da mesa!"

Caminhei de volta até a entrada do restaurante e as portas luxuosas se abriram do nada, fazendo com que meu corpo se chocasse com a mulher mais linda que já vi. O cheiro de sândalo e jasmim que ela exalava me atingiu como um raio. Ela me olhou e, porra, a versão feminina do Hermes era perfeita. Lembrei que ele havia mencionado que ela era a 'cópia marrenta dele, só que com saia e acelerando mais que o diabo', mas eu nunca imaginei que essa 'cópia marrenta' seria capaz de fazer meu mundo travar. Ela é muito mais do que ele sequer poderia descrever.

"Lindos," balbuciei, me referindo àqueles olhos avelã maravilhosos. Mas, naquele momento, a porta se abriu novamente e a recepcionista saiu com minhas chaves na mão.

"Senhor Carini, suas chaves."

Nesse momento, Hera se soltou dos meus braços e saiu caminhando rumo à moto. Senti a recepcionista, que sequer tive o interesse em saber o nome, tocar em meu braço, o que me fez sentir repulsa.

"Poderia retirar suas mãos de mim?" falei seco, encarando-a sério.

"Me desculpa, só queria lhe entregar as chaves," ela falou, tentando forçar um sorriso.

"Agradeço, mas espero que, a partir deste momento, não tente proximidade." Vi os olhos dela encherem-se de água, mas pouco me importava. A partir daquele momento, a única mulher que poderia me tocar seria Hera Medeiros, e seria logo. Assim que peguei minhas chaves, entrei no carro e saí rumo à New Face, pois tinha um problema chamado Teresa Xavier para resolver. Durante o percurso, liguei para Hermes para confirmar o horário da competição de Hera hoje.

Ligação On

"Oi, Heitor, o que devo a honra da sua ligação?" falou meu futuro cunhado, tirando uma com a minha cara.

"E aí, meu futuro cunhado," falei para tirá-lo do sério, mas em breve isso seria com toda a certeza verdade.

"Nos seus sonhos," ele falou rindo.

"Onde vai ser a competição da sua irmã?" perguntei, tentando conter o entusiasmo.

"Vai ser no Monticello Motor Club, às 20:00. Ela tem uma área privativa lá," ele informou. Não esperava menos da princesinha dos vinhos.

"Está bem, nos encontramos lá então," me despedi de Hermes e fui resolver tudo na agência, pois hoje eu veria a futura mãe dos meus filhos.

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