Beatrice.
Trabalhar na Moretti tecnologia LTDA é um sonho ao qual eu, no auge dos meus vinte e cinco anos, jamais poderia estar mais feliz em realizar. As coisas foram acontecendo rapidamente na minha vida, e assim que eu me formei, deixei meus pais em Brasília, minha terra natal, e vim em busca de oportunidades melhores. Componho a equipe de engenharia da empresa a dois anos e meio, o trabalho é intenso, principalmente agora que o supervisor do setor está me pressionando pelo protótipo do aplicativo que pode simplesmente mudar o rumo da minha vida. Também foi na Moretti, que eu conheci o Lucas, ele é da equipe de segurança e é um homem incrível, com quem eu divido a minha vida e minhas escolhas, mesmo ouvindo de alguns amigos que eu preciso enxergar com o cérebro ao invés de usar apenas o coração, implicância de amigos, com as quais Lucas insiste que não devo me preocupar já que ele só tem olhos pra mim, e eu acredito nele.
Quando eu mudei pra cá, mamãe me presenteou com um apartamento na Vila Madalena onde eu morei por um ano e meio, até Lucas me convencer que morar no Ibirapuera facilitaria a nossa vida, então eu vendi o antigo, e comprei esse que é bem mais espaçoso e aconchegante, mas me rendeu uma dívida relativamente alta para pagar nos próximos anos, então eu preciso muito entregar o aplicativo novo, pra dar um rumo na minha vida.
Hoje, Lucas e eu fazemos nosso primeiro ano juntos, e eu estou correndo pra chegar em casa antes dele e preparar-lhe uma surpresa, pensei em algo simples, já que com todo o investimento que fiz na compra do apartamento não sobrou muito pra esbanjar, e todo o dinheiro que Lucas ganha, vai direto pra mãe dele que vive doente. Passo na adega que amamos e compro um vinho tinto, logo em seguida vou até o nosso restaurante favorito onde eu já havia encomendado uma macarronada, pago tudo e vou correndo pra casa arrumar tudo antes da chegada dele.
Procuro a chave reserva que sempre fica embaixo do vaso ao lado da entrada do apartamento e não a encontro, sorrio imaginando que talvez Lucas tenha conseguido sair cedo do trabalho e esteja me esperando, já que a luz que escapa por baixo da porta de entrada, denuncia que há alguém em casa. Abro vagarosamente a porta, e logo um barulho estranho começa a soar vindo do quarto, encosto a porta atrás de mim, e vou silenciosamente na direção do barulho.
A cada passo que dou, sinto meu coração mais acelerado e uma raiva absurda crescendo dentro de mim, e já na porta, os gemidos altos me dão a certeza do que está acontecendo no nosso quarto, na nossa cama, e no nosso aniversário de namoro. Respiro fundo, antes de girar a maçaneta e encontrar a loira do almoxarifado de quatro na borda da minha cama, e o infeliz do Lucas enterrado dentro dela. Solto as sacolas no chão, e o barulho da garrafa quebrando, junto com o cheiro do vinho tinto espalhado pelo chão denunciam a minha chegada, fazendo o casal me olhar assustado:
-QUE MERDA É ESSA LUCAS? - grito pra ele que continua estático - FALA, DESGRAÇADO!
-Amor, eu posso explicar, eu juro! - ele tenta me tocar e eu dou um passo atrás, impedindo o toque
-Eu não quero explicações, quero você fora da minha casa, AGORA!
-Nossa casa, Bea - ele argumenta fazendo toda a raiva contida dentro de mim explodir em um tapa espalmado no rosto dele
-Você - aponto pra loira já vestida ao lado da cama - Pega suas coisas e vai embora - ela assente saindo do quarto com o sapato ainda nas mãos.
Ouço o barulho da porta da sala sendo fechada, e volto a minha atenção ao traidor a minha frente:
-Olha aqui - pego a sacola de macarrão e abro, mostrando pra ele - Eu passei na adega e no restaurante pra comprar a sua bebida e comida favoritas, e não acho justo desperdiçar, não é? - Dou a ele o meu melhor sorriso antes de jogar o macarrão ainda quente na cara do infeliz que grita me chamando de maluca
-Você ME QUEIMOU, SUA MALUCA! - ele grita - E QUER SABER? EU TRAI SIM, E NÃO FOI A PRIMEIRA VEZ, TRAI PORQUE VOCÊ É CHATA, SEM GRAÇA E VIVE APENAS PRA DROGA DO SEU TRABALHO!
Cada palavra dele faz meu ódio aumentar, e sem medir as consequências, vou pra cima dele e começo a bater no infeliz que grita me chamando de louca e repetindo que tem direitos sobre o apartamento, porque nós temos uma união estável.
Expulso o desgraçado que sai só de cueca e coberto de molho a bolonhesa, e fica na rua gritando que precisa ao menos buscar as suas roupas. Sorrio quando uma idéia diabólica me vem à mente, e eu pego uma mala, coloco todas as roupas dele dentro, levo até a varanda e coloco fogo, jogando a mesma lá embaixo sob o olhar incrédulo do meu querido ex noivo.
-LEVA AS SUAS ROUPAS, DESGRAÇADO, E NUNCA MAIS CHEGUE PRETO DE MIM!
Saio da janela ainda tentando assimilar o que aconteceu agora a pouco, as lágrimas que eu me neguei a deixar cair na frente dele rolando caudalosas pelo meu rosto enquanto eu apenas me sinto insuficiente, mas sequer tenho tempo para raciocinar, quando a mensagem do meu supervisor me tira no meu transe:
"O novo CEO vai ser apresentado na segunda-feira à tarde, preciso que você faça os últimos ajustes e me entregue o projeto na segunda, no primeiro horário."
Se existir um prêmio de pessoa mais azarada da face da terra, eu com certeza irei ganhar na próxima edição, porque olha, o destino só pode estar de sacanagem comigo! Ensaio uma resposta ao supervisor, edito a mesma várias vezes até que desisto de responder, já que não há nada que eu vá falar e que possa fazer ele mudar de idéia.
Merda! merda! mil vezes merda!
Agora eu tenho dois dias para acabar um projeto que demandaria pelo menos mais uma semana, e a droga da minha cabeça só pensa no Lucas fodendo aquela loira nojenta em cima da minha cama. Quer saber? Foda-se! Não vou estragar a minha sexta-feira, vou encher a cara e curtir a minha fossa, amanhã quando acordar eu penso nisso.
Lavo o rosto apenas para retirar o rímel borrado pelas lágrimas, retoco a minha maquiagem e saio de casa indo na direção do lounge onde sempre ia com a galera da faculdade quando queria pensar, outra atividade que eu amava e abri mão, apenas porque Lucas insistia que não era ambiente pra mim.
Ironia.
Entro no bar de chão amadeirado e luzes amarelas que deixam o ambiente com baixa iluminação, e me dirijo ao bar de madeira de demolição com seu tradicional barman fazendo malabarismo com a coqueteleira. Sorrio pra ele que vem até mim com um mojito em mãos, agradeço e sento na banqueta a sua frente começando a beber.
Depois de taças infinitas de mojitos, gin, vodka e sabe deus mais o que eu já bebi essa noite, começo a cantarolar baixo e com a voz arrastada a música de evanescence que soa ao fundo:
"Você mentiu pra mim
Mas estou crescida agora
E não acredito mais, baby
Exigindo minha resposta
Não se importe em levar a porta abaixo
Eu encontrarei uma saída
E você nunca me machucará novamente"
-Não é uma música muito feliz para se cantar em uma sexta a noite - Uma voz grossa e tão arrastada quanto a minha soa ao meu lado e eu me viro para encarar o loiro dos olhos negros que me olha fixamente enquanto brinca com as pedras de gelo em seu copo
-Combina com meu estado de espírito. - lhe ofereço um sorriso sem graça e ele continua tentando puxar assunto
-Quanto exagero! Qual problema uma mulher linda como você pode ter pra estar sozinha e bêbada ouvindo músicas depressivas? - Sua voz alterada pelo álcool me faz sentir vontade de rir pela primeira vez na noite.
-Vou fazer um breve resumo - sorrio irônica - hoje eu faria um ano de namoro.
-Faria? - ele parece interessado
-Faria, já que resolvi fazer um surpresa pra comemorar a data, cheguei em casa mais cedo com a comida e bebida favoritas dele, só que já o encontrei jantando. - ele me olha confuso e eu dou de ombros - ele estava jantando a colega de trabalho, na nossa cama.
-Uau, nem sei o que falar - ele me olha boquiaberto
-Não precisa falar nada, ok? - sorrio sem graça - Eu não serei a primeira, e nem a última a dar tudo de si em uma relação e receber um par de chifres como recompensa.
-Você poderia dar o troco nele casando comigo - o homem fala sério e eu não resisto a uma gargalhada - É sério - ele me olha bravo.
-Eu nem te conheço - argumento
-Você passou um ano com um cara conhecido, que diferença isso faz? - O homem é realmente um excelente negociador - vai que eu sou o seu príncipe encantado e você está me dispensando pra ficar sofrendo por um sapo qualquer? E Então, o que me diz?
Leonardo.
-Tudo bem, senhor príncipe encantado, eu aceito. - A morena dos olhos cor de mel levemente desfocados pela bebida aceita a minha proposta com um sorriso travesso nos lábios - Surpreenda-me.
Sorrio pegando a senhorita desconhecida pela mão e saindo com ela rapidamente do bai indo em direção ao meu carro. Assim que passamos pela porta principal, ela para me olhando confusa:
-Onde nós vamos? eu sequer paguei a minha conta - ela começa o interrogatório - Aliás, como você me pede em casamento se eu nem sei seu nome?
-Leonardo - estendo a mão pra ela - E você é? - pergunto
-Beatrice.
-Ótimo, Beatrice, agora já nos conhecemos, vamos? - sorrio
-Claro, querido noivo. - ela brinca sentando no banco do carona do meu carro.
Algo nessa mulher me atrai, e eu nunca havia conversado tão abertamente com uma desconhecida como estou fazendo agora com ela, que me parece estar bem à vontade com a situação. Dirijo rapidamente até o hotel onde costumo ficar sempre que preciso fugir das investidas do meu pai, e ela segue falante ao meu lado, apesar da voz levemente lenta pelo efeito da bebida.
Subimos direto pra suite presidencial, e ao contrário das mulheres que eu costumo trazer aqui - e que não são poucas - Beatrice não me parece deslumbrada pelo lugar, o que faz minha curiosidade sobre a mulher com roupas de vocalista de banda de heavy metal aumente a níveis tão altos a ponto de torná-la automaticamente excitante.
Ofereço uma taça de vinho a Beatrice e ela nega, voltando a ficar com o olhar triste:
-Acho que não vou conseguir tomar vinho por um bom tempo depois de hoje - ela sorri sem graça e eu assinto, guardando as taças
Beatrice comprime os lábios, e de repente uma vontade incontrolável de provar sua pele rosada me invade, fazendo-me ir até ela, que não recusa o meu toque, e, ao contrário disso, rodeia seus braços em meu pescoço diminuindo o pouco espaço que havia entre nós.
Forço a minha língua contra os seus lábios e ela me dá passagem, beijo-a sentindo o sabor das várias bebidas que ela consumiu a noite inteira, enquanto minhas mãos retiram com cuidado a sua jaqueta de couro preta, jogando-a em um canto qualquer do quarto.
Paramos o beijo por falta de ar, e agora, olhando-a sem a jaqueta, percebo uma tatuagem em seu braço esquerdo, uma rosa cruzada por duas armas, em uma analogia clara a banda guns n'roses que eu amo, e que pelo visto ela também. Deslizo meu polegares pelo contorno da tatuagem fazendo ela sorrir e me encarar com um olhar de curiosidade e apreensão, que é o suficiente para me fazer erguê-la em meu colo e deitá-la na minha cama, ficando por cima dela logo em seguida.
Voltamos a nos beijar, e Beatrice logo tenta tirar a minha camisa, encarando meu abdômen e mordendo os lábios assim que consegue. Repito o seu movimento deslizando o zíper da sua blusa e revelando seus seios fartos, e mais uma tatuagem que cobre todo o contorno inferior deles deixando-a ainda mais sexy. Beijo seu pescoço e desço massageando e beijando cada um dos seus seios, fazendo o mesmo com o contorno da tatuagem, passando pela barriga, e abrindo o zíper da sua calça, sob seus olhares atentos.
Mordo os lábios admirando a pequena calcinha de renda preta adornada com uma jóia dourada, e sem perder mais tempo, beijo sua intimidade ouvindo um gemido contido escapar de seus lábios. Sorrio subindo novamente e abocanhando seu mamilo, enquanto meu polegar rodeia seu clitóris exercendo uma leve pressão sobre ele. Afasto a sua calcinha colocando um dedo dentro dela, sentindo-o ser encharcado pela sua excitação, e sussurro um "gostosa" em seu ouvido, antes de descer retirando a calcinha e caindo de boca na sua boceta molhada.
Circulo minha língua em seu clitóris enquanto meus dedos brincam em um vai e vem lento dentro dela, movimento que é acelerado assim que percebo que ela está prestes a se derramar na minha boca. Chupo Beatrice com mais força, e assim que sinto suas contrações indicando que ela chegou ao orgasmo, me livro da minha calça junto com a cueca, coloco a camisinha e me enterro nela sem a menor cerimônia.
Vou estocando cada vez mais forte, fodendo cada pedaço dessa boceta deliciosa enquanto Beatrice geme alto cravando as unhas nas minhas costas me fazendo ter vontade de me enterrar cada vez mais rápido e mais fundo dentro dela. Sinto meu Osgasmo chegando e acelero, me derramando dentro dela pouco depois e caindo exausto ao seu lado logo em seguida.
...
Acordo com a claridade do quarto que faz a minha dor de cabeça praticamente gritar me chamando de idiota pela bebedeira na noite anterior, mas logo as cócegas causadas pelos cabelos negros espalhados em meu peito, me fazem começar a recobrar as lembranças da noite anterior. A garota misturando vários tipos de bebida, cantando músicas tristes, me confessando o belo par de chifres que tomou no dia do aniversário de namoro, o meu pedido de casamento e a noite de sexo incrível que tivemos na noite anterior.
Levanto com calma pra não acordar a mulher que dorme tranquilamente na minha cama, e só agora percebo uma terceira tatuagem em sua perna, a logo da banda queen, Os dois leões na lateral representam o signo de Roger e John e sustentam um Q de Queen com uma coroa no centro representando a realeza. Um caranguejo que rasteja sobre a letra Q é o signo de Câncer de Brian. As duas fadas na frente dos leões, são as do signo de Freddie, virgem. A ave de asas abertas, acima de todos os outros elementos do logo, é uma fênix, a ave clássica da mitologia grega que simboliza imortalidade, ressurreição e vida após a morte. Mais uma coincidência engraçada, o gosto musical dela parece ser bem parecido com o meu.
Ligo na recepção pedindo um café da manhã bem reforçado e tomo um banho rápido, encontrando uma mulher nua e confusa sentada na minha cama:
-Bom dia, Beatrice - sou simpático - dormiu bem? - ela me olha assustada, porém parece lembrar perfeitamente da noite anterior, apesar de dizer o contrário.
-Como eu vim parar aqui? - ela pergunta enquanto massageia as próprias têmporas
-Estávamos no lounge bebendo, eu te pedi em casamento, você aceitou e aqui estamos - dou de ombros e ela ri assustada
-Mas você entende que isso foi uma brincadeira entre dois bêbados e não tem o menor cabimento, não é? - ela fala deixando o sorriso morrer diante da minha seriedade - Espera, você estava falando sério?
-Claro que estava, inclusive vou agora mesmo pedir que meus advogados comecem a ver a papelada - Beatrice me olha incrédula, e levanta rapidamente procurando suas roupas e começando a vesti-las
-Olha, eu não sei se você continuou bebendo depois que eu dormir, e ainda está bêbado, e também não acho que você precise de uma desconhecida pra casar - ela fala pegando sua bolsa - Eu aceitei a proposta sob efeito do álcool, assim como dormi com você pelo mesmo motivo, eu não vou me casar com um estranho. - Ela para de falar quando ouve o toque do seu celular - só um minuto - ela pede antes de atender.
Ligação on:
-Oi mãe, bom dia - Beatrice atende sorridente, mas logo vai deixando o sorriso morrer enquanto ouve algo no celular, então ela se atrapalha, colocando o aparelho no viva voz
-são duzentos e cinquenta mil reais, filha - a mulher fala e vejo os olhos da Beatrice marejarem
-A senhora tem certeza, mãe? não pode ter sido um engano?
-Não meu bem, infelizmente, sua avó teve o mesmo problema, lembra?
-Mas mãe, esse câncer é um dos mais raros, qual a chance de a senhora e a vovó terem o mesmo tipo? É surreal!
-É raro, mas não impossível e pelo visto eu fui sorteada. - ela suspira do outro lado da linha - Eu não queria te pedir isso, mas é a minha única chance.
-Tudo bem, mãe, eu vou tentar vender o apartamento, mas isso leva tempo, acha que consegue esperar?
-Eu vou tentar, meu amor - ela faz uma pausa - Eu te amo filha
-Também te amo, mamãe.
Ligação off
Beatrice encerra a ligação visivelmente abalada, chorando, e fica na mesma posição olhando a tela do celular por mais de cinco minutos até que eu quebro o silêncio:
-Me desculpa, mas a ligação estava no viva voz e eu não pude deixar de ouvir - ela levanta a cabeça com o rosto banhado em lágrimas - Eu posso te ajudar.
-Como? - ela é ríspida - vai comprar o meu apartamento? - ela pergunta e eu nego
-Você não precisa vender nada, eu tenho o dinheiro do tratamento da sua mãe e posso garantir que ela tenha acesso aos melhores médicos, eu só preciso que você aceite a minha proposta de casamento e hoje mesmo ela começa a ser tratada, o que você me diz?
-Você é louco. - ela nega
-Eu diria desesperado, e pelo visto você também está, vai ser bom pra nós dois, o que você me diz?
Beatrice.
A montanha Russa em que a minha vida se transformou não me parece ter subidas, quanto eu desço cada vez mais rápido ao inferno astral em que ela se formou. Em menos de dois dias eu fui traída, pedida em casamento por um completo estranho, e estou tentada a ouvir a proposta porque preciso salvar a vida da minha mãe, salvação essa que custa duzentos e cinquenta mil reais.
Leonardo segue de pé, parado à minha frente com os braços cruzados e um olhar tão profundo, que quase tenho certeza que ele pode enxergar meu coração tamborilando dentro do peito.
-Só me explica porque um homem bonito e aparentemente rico, está desesperado o suficiente pra tentar casar com uma estranha - encaro o homem com cara de pokerface - Porque pelo que eu me lembro da noite de ontem, você é perfeitamente saudável e não tem motivos pra isso. - Ele ensaia um sorriso, que logo morre quando ele senta do meu lado
-Eu não quero me casar - ele se justifica - Mas eu preciso.
-Porque?
-Digamos apenas que meu futuro profissional depende da droga de uma aliança no dedo, e eu tenho exatos três meses contados da próxima segunda pra aparecer com uma noiva, ou a minha nomeação na empresa da família vai ser cassada pelo conselho.
-Isso não é meio antiquado?
-É, mas meu pai é daqueles que acreditam que pra gerir uma empresa você precisa antes saber gerir a própria família,e pelo visto o conselho concorda com ele.
-Mas porque eu?
-Você acabou de sair de um relacionamento, e provavelmente não vai querer entrar em outro tão cedo - ele explica - eu também não quero me relacionar intimamente com ninguém e preciso de alguém que não crie expectativas acerca de um casamento que tem data pra começar e acabar,
-Então é um casamento falso?
-Basicamente sim. Você vai precisar ficar casada comigo por um ano, obviamente depois disso você sai com dinheiro o suficiente pra viver confortavelmente o resto da vida, e durante o contrato só vai precisar manter as aparências, a parte financeira será de responsabilidade minha.
-Aí nós teríamos um problema - encaro o homem à minha frente, que tem a testa franzida - Eu adoro meu trabalho e não pretendo largá-lo.
-Você vai ter dinheiro pra não precisar trabalhar, e está dispensando? - ele me olha incrédulo
-Vamos ser práticos, você precisa salvar sua nomeação e eu preciso salvar a minha mãe, certo? - pergunto e ele assente - então vamos chegar a um acordo. - Arrumo a minha postura antes de continuar - Eu quero continuar com o meu trabalho, sem tentativas de me fazer virar uma boneca de luxo, porque eu não sou. Também quero que seja incluída uma cláusula de fidelidade, já que não quero mais um par de chifres mesmo em um casamento falso, então se houver traição, o contrato acaba. E não quero dinheiro nenhum além do necessário para tratar a minha mãe.
-Posso fazer todas as concessões, menos a do dinheiro ao final do contrato. Beatrice, você vai estar casada com um bilionário e sair do casamento após um ano sem ter dinheiro, vai levantar suspeitas.
-Todo o resto vai ser respeitado? - pergunto e ele concorda - Então eu aceito.
Leonardo sorri agradecido e pega o telefone ligando pra alguém, que ele chama de Renzo e pede que o contrato seja modificado de acordo com a minha vontade, e pede também que todo o histórico de saúde da minha mãe seja levantado e que o dinheiro que ela precisa seja depositado imediatamente na conta que eu indicar. Ele passa quase meia hora no celular, e assim que ele desliga a camareira toca a campainha trazendo o café que nós tomamos em silêncio, trocando apenas alguns olhares hora curiosos hora apreensivos.
Quando finalmente o café acaba, eu resolvo quebrar o silêncio:
-Quanto tempo nós temos até o casamento? - pergunto e ele me encara sério
-Nos casamos hoje ao anoitecer. - ele responde sucinto
-O que? como assim? - pergunto assustada - Você sequer tem uma namorada, e vai aparecer com uma esposa do dia pra noite?
-É por isso que nossa mente vai precisar ser bem ensaiada - ele pousa seu guardanapo elegantemente sobre a mesa - Você é uma amiga do trabalho, nós nos apaixonamos e resolvemos deixar a relação em segredo por um tempo, mas não conseguimos mais esconder e resolvemos nos casar logo.
-E você acha que isso será convincente? - olho incrédula o homem tranquilo a minha frente
-Acredite, vindo de mim, a justificativa será perfeitamente aceitável. - ele dá de ombros - Agora vamos, preciso te apresentar a sua mais nova família e esse é o horário perfeito.
-Espera ai, eu não posso ir conhecer meus "futuros sogros" - faço aspas com as mãos - Com roupa de balada - argumento e ele sorri
-Só vai dar mais veracidade ao personagem - ele segura a minha mão, me puxando pra for do quarto - Só confia em mim, eu sei o que estou fazendo. - ele pisca - A propósito, sua tatuagem do Queen é linda. - sorrio sem graça e saio com ele em direção ao seu carro
Ele dirige rapidamente pelas ruas de São Paulo, ao som de Numb, canção de linkin park, e eu não resisto quando começo a cantar o refrão sendo surpreendida pela voz que me acompanha na letra:
-Eu me tornei tão entorpecido, não posso te sentir aí
Fiquei tão cansado, tão mais consciente - canto a primeira parte do refrão distraída
-Estou me tornando isso, tudo que eu quero fazer
É ser mais eu mesmo e ser menos como você - ele me acompanha sorrindo da minha cara de surpresa
-Você tem um bom gosto musical - constato e ele me olha altivo
-Eu sei que tenho - franzo a testa diante da petulância dele, que sorri - Chegamos.
Logo um grande portão de metal é aberto revelando uma mansão digna de filmes de Hollywood. Leonardo cumprimenta os seguranças na guarita e segue até a entrada que tem grandes arcos brancos sustentados por colunas jônicas dignas dos templos gregos. Estou boquiaberta com o tamanho do exagero desse lugar, e só volto a realidade quando Leonardo chama a minha atenção
-Eu sei, é um exagero enorme - ele dá de ombros - Isso é obra da minha avó, ela adora exibir o casarão nas festas da empresa. - ele sorri me estendendo a mão - Não se esqueça, nós somos um casal apaixonado, namoramos escondidos a algum tempo e agora resolvemos nos casar, ok?
-Eu estou nervosa - confesso e ele aperta mais a minha mão
-Pensa no tratamento da sua mãe, e foca no que precisa ser feito. - Assinto colocando um sorriso no rosto e o seguindo em direção a porta de entrada da casa.
Assim que adentramos no ambiente, vozes animadas soam na direção do que parece ser uma sala de jantar enorme. Nela, Um casal de velhinhos está lado a lado com as mãos cruzadas por cima da mesa, um pouco mais a frente uma menina que parece ter uns dez anos está brincando com uvas em seu prato, e do lado oposto da mesa, um homem que pela semelhança deduzo ser o Pai do Leonardo, está sentado ao lado de uma mulher loira e muito linda. Travo por um momento no lugar, e Leonardo aperta a minha mão me encorajando a continuar, e assim que chegamos próximos à mesa, a voz da garotinha gritando quebra um pouco da minha tensão:
-Léo, você veio hoje! - Ela levanta rapidamente da mesa correndo e se jogando nos braços dele que a levanta sorrindo - Que moça linda, é sua amiga? - O olhar de todos queima a minha pele e eu tenho certeza que estou vermelha feito um tomate
Leonardo vai até os avós, dando um beijo na testa de cada um, depois faz o mesmo com os pais, e volta até onde estou, segurando a minha mão e me fazendo sentar ao seu lado na mesa:
-Lais, essa é a Beatrice - ele fala olhando a menina - Bea, essa é a minha irmã mais nova, Lais - sorrio pra menina que me olha com um brilho nos olhos
-Oi Lais, tudo bem? - pergunto e ela assentiu sorrindo
-Vô, vó, mãe, pai - ele começa a falar - Essa é a Beatrice, minha namorada, e a partir de hoje, minha esposa.
Leonardo solta tudo de uma vez, atraindo olhares incrédulos de todos na mesa, um silêncio incômodo toma conta do ambiente, até que a voz do pai soa forte feito um trovão:
-Até ontem você não queria ouvir falar em casamento, e agora já chegou noivo?
-Nós namoramos a quase um ano, pai - ele mente - Mas Bea não queria ser vinculada a nossa empresa, tampouco casar por uma imposição do conselho, então preferimos o sigilo, até agora.
-E o que mudou? - ele pergunta pousando a xícara de café na mesa e cruzando os braços
-Nós decidimos que é melhor que todos saibam, porque não dá pra dois adultos viverem escondidos a vida inteira, não é, meu amor? - Leonardo me força a entrar na conversa
-Claro - sorrio - Uma hora todos iam saber, então resolvemos fazer as coisas da maneira correta.
-Isso está muito estranho - ele me esquadrinha com o olhar
-Meu filho - a senhora chama a atenção do homem bravo a nossa frente - Os jovens de hoje são assim mesmo, olha as roupas dela, eu enxergo o Léo antes de ser obrigado a ir pra empresa, eles combinam perfeitamente, e me parecem bem apaixonados, então para se ser amargo e deixa as crianças! - ela me lança um olhar amigável - Meu bem, eu me chamo Rute, e sou avó do Léo, seja bem vinda, e não liga pra o mau humor do Giorgio, isso é só chatice de quem está ficando velho.
-Bom, já que as apresentações foram feitas, se preparem, porque nos casaremos hoje ao anoitecer, aqui mesmo na nossa capela - Leonardo explica - Papai, se desejar, pode convocar o conselho. Vamos Bea? - ele me chama pelo apelido que ele mesmo me deu - Quero que você conheça o meu quarto.