Em um quarto tenuemente iluminado em Crest Villa, cidade de Crobert.
Depois dos momentos ardentes de intimidade, Brandon Watson beijou suavemente a pequena pinta no peito de Millie Bennett e se sentou.
Com uma voz distante, ele disse palavras que mudariam as suas vidas: "Vamos nos divorciar."
Ainda ofegante, Millie se virou lentamente para ele, os olhos denunciando toda a sua incredulidade.
Eles estavam casados há um ano. Do nada, ele pediu divórcio, por quê?
"Ela está com câncer de estômago e lhe restam apenas seis meses de vida", disse Brandon, enquanto acendia um cigarro, parecendo adivinhar o questionamento silencioso dela.
A fumaça subia lentamente em espirais, dançando ao redor do seu rosto.
"O último desejo dela é se tornar minha esposa", ele acrescentou em um tom que beirava a indiferença.
Atônita, Millie o encarou boquiaberta, e um pesado silêncio pairou como uma névoa sobre o quarto.
A luz tênue propagada pelo abajur ao lado da cama projetava longas sombras na parede, fazendo-os parecer mais distantes do que realmente estavam.
Brandon olhou de relance para ela e franziu ligeiramente o cenho. "É apenas para dar algum conforto para ela no final, e nós dois voltaremos a nos casar depois de seis meses. Ela não vai durar muito tempo, Millie."
A voz de Brandon era firme, quase indiferente, como alguém transmitindo uma mensagem que não lhe dizia respeito.
Millie o observava em silêncio, os olhos fixos nele, que pronunciava as palavras como se fossem ordens, não sugestões.
De fato, o relacionamento deles sempre havia sido unilateral. Foi ela quem o perseguia incansavelmente desde o início, movida por uma paixão juvenil, e durante anos permaneceu ao seu lado, superando tenazmente cada fase difícil sem desistir.
Millie ainda se lembrava daquele dia fatídico, sob a chuva intensa que os deixara completamente encharcados, quando Brandon se colocou firmemente entre ela e o seu padrasto, dizendo com fogo na voz: "Encoste a mão na Millie de novo, e você vai se arrepender até o último fio de cabelo."
Aquele momento deixou marcas profundas no coração dela: a postura dele - imóvel, protetor e feroz - salvou a jovem Millie, que estava frágil e ensanguentada.
A partir daquele dia, ela passou a lhe pertencer.
A entrega de Millie era de alguém que amava incondicionalmente, atendendo aos pedidos dele com tudo o que tivesse à mão, realizando os seus desejos de uma forma mais impecável do que qualquer outra pessoa seria capaz.
Naqueles momentos, ele costumava acariciar a cabeça dela com toques leves e ternos, enquanto dizia em voz baixa: "Você se saiu muito bem, Millie."
Os elogios de Brandon, no entanto, nunca se estendiam por muito tempo, seus beijos mal se prolongavam e qualquer afeto compartilhado entre eles parecia estar sempre em um lugar inatingível.
Mesmo assim, Millie insistia em dizer a si mesma que esse era apenas o jeito dele. Até mesmo quando outros a chamavam de ingênua, a sua postura permanecia igual - dedicada e confiante.
Foi assim que ela dedicou sete anos da sua vida a Brandon.
Um ano antes, o avô de Brandon, Derek Watson, havia adoecido gravemente. Na esperança de levantar o ânimo do enfermo, a família decidiu que o seu neto deveria se casar. Eles acreditavam que a alegria de um casamento pudesse proporcionar ao velho algo em que se agarrar.
Dessa maneira, Brandon concordou em se casar com Millie.
Para ela, o momento deles finalmente havia chegado, mas algo mudou drasticamente depois dos votos. Ele começou a se afastar, olhando para ela às vezes como se fosse uma completa estranha.
"Você ouviu o que eu disse, Millie?", Brandon indagou, franzindo o cenho ao notar o olhar perdido de Millie, suas palavras trazendo-a de volta ao presente.
"Precisa mesmo ser assim?", ela perguntou suavemente.
Em vez de responder à pergunta, Brandon falou: "Ela está passando por momentos terríveis, Millie."
Suas palavras fizeram o peito dela se apertar. "Tudo bem, mas, e eu?"
Um lampejo de impaciência cruzou brevemente os olhos escuros e penetrantes de Brandon.
Depois de cerca de três segundos, ele finalmente disse: "Ela está morrendo, Millie. Talvez você não saiba, mas ela é apaixonada por mim. Apesar disso, ela jamais deixou as coisas avançarem, pois não queria te machucar, já que eu e você somos casados. Mesmo nas vezes em que tentei compensá-la, ela nunca permitiu. Isso apenas prova que ela é uma boa pessoa. Permita que ela realize seu sonho ao menos agora, por favor. Não me faça acreditar que você é alguém insensível."
Essas palavras, ditas de forma tão serena, tiveram o poder de perfurar Millie mais brutalmente do que se ele as tivesse pronunciado aos gritos.
Assim, aos olhos de Brandon, uma mulher apaixonada por um homem casado, que jamais se afastava realmente dele mesmo prometendo se conter, era considerada uma santa, enquanto uma esposa que simplesmente queria manter o marido ao seu lado era vista como insensível.
Millie encarou o rosto dele, o mesmo rosto por quem ela tinha se apaixonado - olhos intensos, nariz proeminente, lábios bem feitos.
Quando as coisas tinham começado a desmoronar entre eles?
Talvez tivesse sido no dia em que a tal mulher apareceu nas suas vidas.
"Tem certeza de que é isso mesmo que você quer?", Millie perguntou, procurando se recompor.
Brandon se limitou a apertar os lábios em uma linha fina. Por fim, abriu a boca para responder: "Sim, você..."
"Tudo bem", Millie o interrompeu abruptamente antes que ele pudesse concluir.
Claramente surpreso, Brandon ergueu o olhar e franziu a testa, estudando-a atentamente.
"Você está ficando esperta, Millie. E sabe muito bem que preciso do seu consentimento para seguir adiante. Por acaso está pensando em usar essa situação para me provocar?", disse, um traço de irritação tingindo a sua voz.
Millie não retrucou, e apenas fixou o olhar na parede branca, observando como as sombras deles se alongavam.
Brandon apagou o cigarro, vestiu-se rapidamente e saiu furioso, sem parar para considerar como ela se sentia, nem hesitando em reconhecer quão humilhante ou doloroso seu pedido poderia ser. Porque ele tinha plena convicção de que ela não era capaz de deixá-lo.
A porta se fechou atrás de Brandon com um estrondo, e Millie ficou ali sozinha.
Sentada imóvel na lateral da cama, ela olhou fixamente para a porta fechada, desejando que pudesse ser aberta novamente.
Neste momento, o celular vibrou ao seu lado, e ao verificar o aparelho, viu que era de um número familiar.
Uma mensagem iluminou a tela, dizendo: "Ele veio me ver de novo."
Em seguida, surgiu uma foto, onde o rosto de Brandon foi capturado no reflexo de uma porta de vidro, com um sorriso suave nos lábios e os olhos calorosos de uma maneira que ela, como esposa, jamais tinha visto antes.
Isso a fez congelar, e então, ela começou a rolar lentamente a tela para cima, revelando as mensagens anteriores, uma após a outra.
"Ele confessou que tem sentimentos por mim."
"Para mim, as noites chuvosas não são solitárias porque ele está ao meu lado. E você?"
"Somente aquela que não é amada verdadeiramente é chamada de amante. Você nunca foi a primeira escolha dele, Millie, mas apenas a mulher que ele aceitou. Ele vê a beleza da mesma forma que eu vejo, compartilha o meu gosto pelas coisas, e sem dúvida alguma, me ama."
As mensagens continuavam nesse tom, provando a traição de Brandon a cada palavra.
Ironicamente, o homem que a tratava constantemente de forma distante nos últimos sete anos parecia ter reservado toda a sua ternura para outra pessoa.
Millie continuou rolando a tela até chegar à primeira mensagem.
"Você deve saber quem sou eu. Gostou das flores que estão na sua sala de estar hoje? Fui eu que as enviei. Ele disse que eram lindas."
Evidentemente, Millie sabia quem era - Vivian Simpson, a famosa designer floral conhecida por encher mansões grandiosas e festas luxuosas de seus clientes abastados com arranjos de flores dispostos de forma meticulosa e bela.
Millie já tinha mostrado essas mensagens para Brandon antes, mas ele simplesmente ignorara seu protesto, dizendo que não havia provas de que eram mesmo de Vivian. Para piorar, chegara a insinuar que ela mesma pudesse ter enviado as mensagens para si mesma apenas para causar problemas.
De fato, a maioria delas não possuía fotos, e as poucas que possuíam eram vagas - tiradas de longe, difíceis de identificar. Exceto pela de hoje, que era bastante clara.
Millie cogitou a possibilidade de mostrá-la para Brandon, seus olhos se voltando para a gaveta ao lado da cama.
Ela estendeu a mão para abri-la e lá estava o papel - o resultado do teste de gravidez que havia feito mais cedo nesse dia.
No pior momento possível, ela descobriu que estava grávida de Brandon.
Selando a sua dor, as lágrimas agora caíam livremente, encharcando o papel e borrando a tinta.
Mas o que isso realmente significava agora? O coração de Brandon já tinha partido para longe há muito tempo.
Secando as lágrimas, Millie pegou o isqueiro que ele havia deixado para trás. Sob a luz tênue do quarto, as chamas tremeluziam enquanto ela segurava o resultado do teste de gravidez no fogo.
Brandon não tinha ideia de que aceitar o divórcio seria a última coisa que Millie faria por ele. Pois ela já tinha devolvido o que lhe devia - não em dinheiro, mas em sete anos inteiros da sua vida. A partir de agora, nunca mais voltaria a amá-lo.
No dia seguinte, estacionado bem em frente ao cartório, Brandon estava no seu Maybach, tamborilando suavemente os dedos no volante com a mão esquerda.
"Já faz um ano que você e a Millie estão casados, Brandon. Não acha que está na hora de terem um bebê?", a voz idosa ecoou através do alto-falante do celular dele.
O rosto de Brandon expressava impotência sobre a ideia, mas a sua paciência não vacilou. "Somos muito jovens ainda, vovó. Não há a necessidade de termos pressa. Você e o vovô deveriam se concentrar exclusivamente em se manterem saudáveis. Ele..."
A idosa o interrompeu, a irritação elevando a sua voz: "O que você quer dizer com 'Não há a necessidade de ter pressa'? A condição do seu avô pode até ter melhorado, mas não estamos ficando mais jovens. A verdade é que não temos ideia de quanto tempo ainda nos resta."
"Mas, vovó..."
"Não me venha com essa conversa! Algumas coisas chegaram aos meus ouvidos, Brandon. Independentemente do que esteja acontecendo, você deve se dedicar mais a Millie."
Um pesado silêncio recaiu na linha por alguns segundos.
"Você ouviu o que eu disse, Brandon?", a anciã perguntou.
Brandon esfregou a testa, visivelmente frustrado. "Sim, eu ouvi, vovó."
Os dois trocaram mais algumas palavras antes de ele encerrar a chamada.
Voltando a tamborilar os dedos no volante, desta vez mais devagar, Brandon parecia distraído. Ele olhou através do para-brisa em direção ao cartório e cerrou o maxilar. Então, abriu o aplicativo de mensagens no seu celular.
Seu polegar pairou sobre uma foto de perfil familiar - uma simples imagem floral, acompanhada pelas palavras "Meu Amor" como nome de contato.
Passando por ela, ele abriu a conversa com Millie, que mostrava a última mensagem que ele lhe havia enviado: um lembrete sobre o horário e o local do encontro para assinarem os papéis do divórcio.
Mas, até então, ela não tinha aparecido.
Com uma expressão de desagrado, Brandon lhe enviou uma nova mensagem, dizendo: "Onde você está?"
Quase instantaneamente, ele ouviu uma leve batida na janela do veículo. Então se virou e viu Millie parada do lado de fora.
Com seu rosto levemente pálido, ela abriu a porta e se acomodou no banco do passageiro, lançando um olhar vazio para ele.
Brandon não havia trocado de roupa desde o dia anterior - ainda usava as mesmas que ela havia escolhido para ele.
Ao longo dos anos, essa tarefa sempre coube a ela - escolher as suas gravatas, o seu perfume, cuidando de cada detalhe, até mesmo do caimento das suas camisas e dos ternos sob medida.
"Por que você se atrasou?", Brandon perguntou.
Millie desviou o olhar antes de responder suavemente: "Não estou atrasada."
Ela simplesmente não era mais a garota que invariavelmente chegava mais cedo e esperava por ele sem contestar.
Os dedos de Brandon pararam de tamborilar no volante e seus olhos se estreitaram levemente enquanto ele a estudava.
Ela parecia levemente pálida, talvez tivesse dormido mal depois de ele ter mencionado o divórcio na noite anterior. Mesmo assim, não era algo grave.
"Recebi uma ligação da minha avó ainda há pouco", Brandon murmurou, o olhar fixo em um ponto distante. "Não conte nada sobre o divórcio aos meus avós. Eles estão muito velhos para suportar algo assim."
Em vez de responder, Millie lançou uma pergunta: "O que a sua avó queria?"
"Ela quer que a gente tenha um bebê logo", Brandon disse secamente, um traço de irritação escapando na sua voz.
O silêncio se instalou dentro do carro. Passado algum tempo, Millie deixou escapar uma risada suave.
Brandon fechou a mão em um punho e virou o rosto para a janela.
Ele se lembrava de uma vez em que se viu imaginando como seria o filho deles, enquanto a segurava por trás e pressionava suavemente uma das mãos sobre a barriga dela, sussurrando: "Quando você vai me dar um bebê, Millie?"
Esse assunto, no entanto, nunca evoluiu.
De qualquer forma, eles poderiam se casar novamente em seis meses, e teriam tempo suficiente para planejar a chegada de um bebê. Já Vivian, tinha apenas seis meses de vida pela frente.
Do lado de fora do veículo, os transeuntes iam e viam.
Millie finalmente falou: "Vou te perguntar pela última vez, Brandon - você está mesmo decidido a seguir com o divórcio?"
"O que foi? Está querendo voltar atrás nas suas palavras agora?", Brandon disparou, parecendo genuinamente sem paciência.
Nesse momento, Vivian continuava esperando por ele no estúdio.
Confirmando sua resposta pela última vez, Millie abriu a bolsa e retirou um documento para entregá-lo a Brandon.
Ele o pegou e, folheando as páginas com uma expressão de desagrado, percebeu que era um acordo sobre a partilha dos bens.
"Já que vamos nos divorciar, temos que deixar tudo bem claro", declarou ela. "Pretendo pegar da família Watson apenas o que tenho direito. E a partir deste momento, qualquer coisa que um de nós ganhar será um direito individual."
Então, retirou uma caneta da bolsa e a colocou ao lado dele. "Se estiver bom assim para você, basta assinar."
Os olhos de Brandon permaneceram fixos no documento, e seu desagrado foi se aprofundando à medida que ele lia o conteúdo - era, de fato, um acordo bastante simples, já que Millie não estava pedindo muito e o documento já tinha sua assinatura.
Mas ele ainda não entendia - qual era a intenção dela com isso? Afinal, era basicamente um divórcio falso.
Vivian tinha apenas seis meses de vida, e ele pretendia passá-los ao seu lado. Depois desse tempo, seu plano era voltar para Millie - ninguém mais precisava saber que o divórcio havia acontecido algum dia.
Aos seus olhos, Millie sempre pareceu cegamente leal e ele jamais a considerou alguém que tivesse orgulho ou limites.
Houve até um tempo em que ele, cansado dela, a empurrava intencionalmente para situações que minavam o seu orgulho.
Mas ela jamais declinava, retornando com um sorriso suave no rosto, mostrando os resultados obtidos como um troféu. "Veja, Brandon - eu consegui. Não é incrível?"
Ela era tudo o que se poderia dizer de uma boa esposa - mansa, submissa.
Por sete anos, ele viu isso se repetir inúmeras vezes.
A verdade era que, se não fosse por Vivian, o casamento deles provavelmente teria seguido dessa maneira. Mas...
Flashes de lembranças - Vivian, fraca e tossindo sangue, ainda assim tentando sorrir - povoaram a sua mente e perfuraram o seu peito, provocando uma dor crua e absolutamente palpável.
Brandon olhou uma vez mais para a janela do carro, onde podia ver o reflexo de Millie olhando de volta para ele - vazio, desprovido de qualquer expressão.
Então essa era a forma que ela havia encontrado para ameaçá-lo? Além disso, ela já tinha falsificado mensagens apenas para culpar Vivian, a quem odiava profundamente.
Com uma risadinha seca, Brandon pegou a caneta e assinou o seu nome no documento - ninguém nesse mundo poderia ameaçá-lo ou forçá-lo a nada. Nem mesmo Millie.
Havia duas cópias do acordo de divórcio. Depois que ele assinou a ambas, Millie pegou calmamente a sua cópia.
Com isso, eles saíram do veículo e se dirigiram juntos ao cartório onde deram entrada no divórcio. Uma vez concluídas todas as formalidades, os dois saíram juntos do cartório.
Na próxima vez que voltassem a esse local, tudo estaria finalizado e eles coletariam o decreto oficial.
Com o sol brilhando do lado de fora, o calor se infiltrou através da pele delicada de Millie.
Brandon observava o vai e vem das pessoas ao redor. Não era difícil distinguir os casais que estavam se casando daqueles que estavam ali para o divórcio.
Nesse momento, um casal passou por eles de mãos dadas.
A noiva tinha um sorriso no rosto que ativou algo em Brandon - ele se lembrou de ter visto essa mesma expressão em Millie um ano antes, quando se casaram.
Ele então olhou de relance para sua ex-mulher, mas o rosto dela estava vazio agora.
"Vou continuar transferindo dinheiro para a sua conta durante os próximos seis meses. E por favor, não conte nada disso para os meus avós", disse ele, por fim.
Sem esperar pela resposta dela, ele se virou, indo embora.
Millie permaneceu onde estava, observando silenciosamente enquanto o carro dele desaparecia na esquina. Não muito tempo depois, o seu táxi chegou.
Assim, os dois carros seguiram em direções opostas, como uma analogia a esse momento das suas vidas.
Um deles virou em direção ao Vivian Floral Design, enquanto o outro seguia para o Hospital de Crobert.
Brandon entrou no estúdio de Vivian, onde foi recebido pelo sorriso gentil dela.
"Pronto, está feito. Ela não fez nenhuma cena", comentou ele.
Enquanto isso, no hospital, Millie entrou na ala de ginecologia e obstetrícia e se sentou calmamente diante da médica, Alexia Hussain, que também era a sua melhor amiga.
Esticando a mão para fechar a cortina, a doutora olhou para Millie com um ar preocupado. "Millie... tem certeza de que quer interromper a gestação? Você estava tão determinada a ter um bebê. Se empenhou tanto para se preparar para a concepção..."
Millie prontamente alcançou a bolsa e colocou o protocolo de entrada do divórcio sobre mesa lateral.
"Sim, vou interromper", ela disse calmamente. "Não quero mais."
Alexia ficou atônita ao ver o protocolo de entrada do divórcio.
Ela e Millie eram amigas próximas há mais de dez anos, e durante todo esse tempo, ela testemunhou o quão profundamente sua amiga amava Brandon, a ponto de não ser exagero dizer que Millie poderia até morrer por ele devido a esse amor tão intenso.
O casamento deles havia acontecido apenas um ano antes. Na ocasião, embora notasse um certo estranhamento na relação do casal, Alexia se sentia feliz por Millie ter realizado seu desejo. Pois como amiga, isso bastava.
Mas agora...
O que houve entre eles?
"Não amo mais o Brandon", Millie disse, antecipando a possível pergunta de Alexia enquanto a encarava com um sorriso calmo e contido.
Nesse sorriso, Alexia vislumbrou a antiga Millie - aquela de antes de tudo desmoronar, antes de a tristeza esculpir linhas profundas em seu rosto, e antes de a morte do pai e a queda da família Bennett mudarem completamente sua vida.
Esse breve vislumbre proporcionou uma inesperada serenidade a Alexia.
Millie revelou: "Brandon não sabe que estou grávida. Então não quero correr nenhum risco antes que o divórcio se torne definitivo. É melhor que ele continue sem saber."
Se qualquer uma das partes mudasse de ideia antes que o divórcio fosse finalizado, a solicitação poderia ser retirada e não seria dado andamento no processo.
Foi então que Alexia se deu conta de que sua amiga não estava brincando sobre se divorciar de Brandon.
Depois de absorver tudo, a médica fez o que era necessário, agendando os exames médicos antes de aconselhar cuidadosamente: "Espere alguns dias antes de fazer a cirurgia."
Millie franziu o cenho, confusa. "Por que esperar?"
"Bem, você sabe que possui um tipo sanguíneo raro. Precisamos de algum tempo para providenciar o sangue, por precaução. Já entrei em contato com o banco de sangue para resolver isso e eles disseram que pode levar uma semana."
Millie ficou em silêncio, demosntrando a tristeza inconfundível em seus olhos.
Ela tinha herdado esse tipo sanguíneo do seu pai. E agora, sentia saudades dele. Se ele ao menos ainda estivesse ali...
"Está bem", ela disse por fim, assentindo lentamente com a cabeça, e um sorriso se desenhou nos seus lábios, mas seus olhos estavam vermelhos.
"Você também está apresentando sinais de aborto espontâneo. Então terá que ser cuidadosa nos próximos dias", Alexia acrescentou com a voz repleta de preocupação.
As duas tinham crescido juntas, e Alexia sabia reconhecer muito bem a tristeza no olhar de Millie.
Apertando ternamente a mão dela, disse: "Espere por mim. O meu turno já está quase terminando e podemos ir para casa juntas."
Millie assentiu com a cabeça e foi esperar no corredor.
Ela baixou os olhos e observou o próprio ventre.
Sinais de aborto espontâneo.
Seria possível que o bebê, sabendo o que ela pretendia fazer, queria se antecipar ao seu ato e sair voluntariamente?
Comprimindo os lábios, Millie então caminhou rumo ao laboratório para os exames.
Neste momento, seu celular vibrou com uma notificação do banco.
Ela havia aberto uma nova conta - uma que Brandon nunca conheceria. Sua ideia era manter o seu dinheiro separado antes que o divórcio fosse finalizado, e agora em diante, cada centavo que ganhasse ficaria nessa conta.
Outra mensagem chegou: "O pagamento pela composição e pelas letras foi concluído - transferência efetuada pela instituição financeira. Por favor, confirme o recebimento."
Antes de se casar com Brandon, Millie trabalhava de forma discreta como compositora anônima.
Inegavelmente, a música sempre tinha sido o seu primeiro amor. Quando o seu pai ainda estava vivo, a vida costumava ser generosa com ela e nada lhe faltava. Como filha única da família Bennett, ela possuía a liberdade e os meios para desenvolver plenamente o seu dom.
As reviravoltas na sua vida lhe ensinaram coisas que ela não tinha a menor ideia de que um dia precisaria aprender.
Talvez o seu pai nunca tivesse imaginado que, um dia, o passatempo que ele a incentivou a abraçar seria justamente o que a manteria de pé.
Depois de uma breve pausa, Millie digitou em resposta: "Dinheiro recebido. Obrigada."
A resposta não tardou a chegar. "Você fez por merecer. Escreveu inúmeros sucessos ao longo dos anos. Por que não volta? Há um novo programa em vias de acontecer e se encaixa perfeitamente com o seu estilo. Já enviei os detalhes para ao seu email e reservei uma vaga de concorrente especialmente para você."
Sem perder tempo, Millie abriu a caixa de entrada do seu e-mail, onde uma nova mensagem logo no topo a convidava a participar de um programa de competição musical. Embora o formato fosse familiar, como outros que ela já tinha visto antes, este buscava algo original.
Ela digitou uma resposta curta: "Vou pensar a respeito."
Uma vez enviada a mensagem, ela colocou o celular de lado.
De repente, uma leve cólica fez com que ela se curvasse para baixo.
De novo, a imagem do seu pai lhe veio à mente - essa era a segunda vez no mesmo dia.
...
Enquanto isso, a Internet estava em polvorosa com as novidades.
#VivianSimpsonCâncerDeEstômago
#FloristaVivianSimpsonContagemRegressiva
#ÚltimosSeisMeses
A postagem mais comentada era um vídeo com uma repórter resumindo as notícias sobre Vivian. "Fontes confirmam que a renomada designer floral, Vivian Simpson, foi diagnosticada com câncer de estômago. Com o diagnóstico, a sua expectativa de vida é de apenas seis meses. Mas em vez de se recolher, ela está escolhendo documentar o seu tempo restante - ela quer compartilhar com o mundo os seus últimos momentos."
O vídeo então cortou para a imagem de Vivian, que olhava diretamente para a câmera com um sorriso triste. "Pretendo postar atualizações sobre a minha vida nestes seis meses que me restam. Não estou fazendo isso para obter atenção. Tudo o que eu quero é oferecer algum conforto para outros que possam estar passando pela mesma situação. Espero que todos vocês permaneçam fortes."
Em seguida, a repórter voltou à tela. "Não são recentes os rumores sobre um possível relacionamento entre a senhorita Simpson e o senhor Brandon Watson, CEO do Grupo Watson. Mas como é sabido por todos, o senhor Watson é casado. Resta saber agora se ele irá se reconectar com a senhorita Simpson durante os seus meses finais."
Ao fundo, Vivian pareceu ter ouvido essa parte. Ela então se aproximou, parou ao lado da repórter e a interrompeu gentilmente.
Olhando diretamente para a câmera, disse: "Não me envergonho em admitir que gosto do Brandon. Ele é um homem incrível e tenho certeza de que não sou a única a sentir isso. Mas quero deixar uma coisa bem clara - não vou destruir o casamento de ninguém. Eu tenho meus princípios."
Depois de dizer essas palavras, Vivian voltou a se afastar, deixando a repórter para trás.
Ela então atravessou a pequena multidão com um sorriso complacente e entrou em um veículo que a esperava, onde a cuidadora estrangeira de Flaville lhe ofereceu um copo de água, a mão parada no ar denotando hesitação.
A designer floral pegou o copo e comentou com a voz fria: "Parece que você tem algo a me dizer. Fala logo. O motorista é um dos nossos."
Inclinando-se levemente, a cuidadora baixou a voz. "O seu diagnóstico... é uma úlcera estomacal, senhorita Simpson. Falsificar isso em um câncer já é arriscado o bastante para nosso estabelecimento. E agora você compartilha online a sua condição com o público?"
Vivian soltou uma risada aguda, provocando um sobressalto na cuidadora.
"Esse seu estabelecimento - por acaso é uma instalação médica licenciada?", ela perguntou.
A cuidadora assentiu com a cabeça.
"E gerencia os meus registros médicos de forma privada?"
A resposta da profissional era a mesma.
"É isso que o meu prontuário diz - que tenho seis meses de vida por causa de um câncer de estômago terminal?"
A cuidadora hesitou por um momento antes de assentir uma vez mais.
"Exatamente!", Vivian exclamou, se recostando com um sorriso satisfeito no rosto. "Então é oficial. Ninguém pode questionar."
"Mas você não tem câncer de estômago de verdade e muito menos seis meses de vida apenas. O que acontece depois..."
"Há apenas duas saídas", Vivian a interrompeu, sua voz ainda mais afiada e olhar mais duro.
"A primeira: passo por uma recuperação milagrosa durante o tratamento no seu estabelecimento ou em outro lugar, talvez por causa de todo o amor que recebi. A segunda: seu estabelecimento é incriminado por um grave erro de diagnóstico e meses de tratamento equivocado."
Ela então virou o rosto completamente para a cuidadora, parecendo ainda mais intimidadora. "Qual das duas você prefere?"
A profissional agora parecia apavorada, mas ainda assim, forçou suas palavras a saírem: "Peço desculpas, senhorita Simpson. Eu entendo agora, você já pensou em tudo."
Vivian esboçou um sorriso breve e frio.
"Então, para onde devemos ir agora, senhorita Simpson?", a cuidadora perguntou, tentando aliviar o clima.
Vivian olhou para o seu celular. "Hospital de Crobert."
A cuidadora subitamente ficou tensa. "Mas..."
"Relaxe. Só estou indo até lá para buscar analgésicos com o meu receituário", Vivian disse. Então pegou o celular e enviou uma mensagem para Brandon, dizendo a ele para encontrá-la no hospital mais tarde.
A resposta veio quase instantaneamente: "Claro."
Enquanto isso, Millie se contorcia no banheiro do hospital, atormentada por uma dor constante no baixo ventre. A mancha de sangue vibrava contra o branco do papel higiênico na sua mão - era claramente um sinal de aborto espontâneo.