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O destino de Maude

O destino de Maude

Autor:: Suelen R. Noguez
Gênero: Romance
Maude era uma rica herdeira da cidade de Portland, casada a três anos com um homem que era tido como distinto, mas transformou a sua vida em um inferno de maus tratos e humilhações . Quando descobriu que estava grávida contou ao marido que com a ajuda da amante a espancou quase até a morte . Abandonada para morrer, ela é salva por um fazendeiro viúvo chamado Owen Grant, que estava na cidade a procura de uma nova esposa. Compadecido com o estado que a encontrou, ele a leva para sua propriedade no interior, para que se recupere. Naquele novo lugar, Maude começa a aprender o valor das coisas simples da vida e do trabalho duro. Teria ela ainda tempo de encontrar a felicidade nos braços daquele homem? Ou seu desejo de vingança irá se sobrepor ao nascimento de um novo amor?

Capítulo 1 O veneno da traição.

América do Norte 1890.

Em meio à confusão mental gerada pela gravidade de seus ferimentos, e as fortes dores que sentia. Maude só conseguia pensar no que havia feito a Deus para merecer aquele destino. Sempre fora uma filha obediente, não se lembrava de ter contrariado seus pais nem mesmo quando era uma criança. Quando se casou com Sebastian, tinha sido da mesma forma uma esposa exemplar. Ela já havia nascido em uma família próspera, seu pai quando era jovem havia encontrado uma mina de ouro no território do Oregon, mudou-se para a região e se dedicou a explorá-la com sucesso. Ela morou em uma mansão em Portland a vida inteira, e quando tinha dezoito anos cometeu o maior erro de sua vida, aceitou o pedido de casamento de Sebastian Lee, o emergente gerente do maior banco da cidade. Ele lhe foi apresentado no teatro, por um amigo de seu pai, e desde então ele se dedicou insistentemente a cortejá-la. Sebastian era um homem jovem de boa aparência e muito educado. Era extremamente agradável e sempre lhe trazia presentes.

Em sua inocência, Maude pensou que seu interesse nela era verdadeiro, não imaginava que ele queria apenas o poder sobre a mina de seu pai.

O pai era um homem gentil, sempre se importou com os desejos e felicidade da filha, e como o futuro genro era um homem bem aceito na cidade, ele não se opôs. Inclusive acreditava que seria um bom administrador para os seus negócios no futuro. Maude foi criada como uma princesa, em uma vida de luxos e riqueza. A mãe havia morrido ao contrair uma pneumonia, quando ela tinha apenas quinze anos. Desde então eram apenas ela e seu pai, o que os fez se aproximar ainda mais.

O casamento foi realizado com uma grande festa, estavam presentes as pessoas mais ricas e influentes da cidade. Porém, Maude percebeu que talvez tivesse se equivocado em sua escolha, quando na noite de núpcias a atitude de seu marido mudou drasticamente. Mesmo sem saber muito sobre os homens e a vida conjugal, ela havia sonhado com aquele momento, em que começaria a construir uma família com o homem que amava. Mas já na noite de núpcias veio a decepção, sentiu muito desconforto com a consumação do casamento, Sebastian foi brusco e apenas tomou sua virgindade, quando acabou se retirou e foi dormir em outro quarto. Ela ficou sozinha e machucada, sem entender direito como algumas mulheres podiam gostar daquilo.

Ela nutria esperanças de se acostumar, ou quem sabe poderia melhorar com o tempo, afinal aquele ato era necessário para se ter filhos. Mas as coisas não melhoraram, muito pelo contrário, ao longo de três anos de casamento ele visitou poucas vezes o seu quarto, não demonstrava nenhum interesse por ela ou por ter um herdeiro, só a procurava quando estava bêbado e solitário e geralmente era bastante agressivo. Seu casamento era bem diferente do que havia sido o de seus pais. Nunca os viu se agredirem, havia alguns desentendimentos normais de casais. Seu pai era um marido amoroso, sempre trazia presentes e fazia elogios à esposa. Maude acreditava que o seu seria assim também, mas estava redondamente enganada. Com o tempo vieram os tapas, sempre que ele achava que ela não havia se comportado bem na presença de seus amigos. Uma vez alguém contou uma história engraçada e ela gargalhou alto em um jantar, quando chegaram a casa ele lhe acertou um soco em seu rosto. Ela teve muito trabalho para convencer o pai e a todos de que o ferimento era em decorrência de uma queda desajeitada. Desde aquele dia ela evitava até mesmo sorrir, com medo de alguma reprimenda. Ela sentia alívio, por não precisar ser usada frequentemente por ele, era doloroso e humilhante quando ele vinha, mas ainda queria uma família, alguém que pudesse amar e que fosse amá-la também. Na presença do marido ela não sorria, não emitia opiniões, quase não falava, na verdade. Um mínimo deslize de sua parte era o suficiente para uma agressão gratuita.

Estava destroçada, pois a um mês havia perdido seu querido pai, vítima de um assalto em uma de suas viagens à região em que ficava a mina. O lugar era bastante perigoso, os viajantes ficavam à mercê de assaltantes e indígenas que espreitavam a região.

Como ela era a única herdeira, com a morte do pai, Sebastian assumiu todos os negócios da família em seu nome. A alguns dias Maude vinha se sentindo mal, bastante indisposta. Acreditava que fosse em virtude do luto, mas a governanta insistiu em chamar um médico e ela recebeu a tão esperada notícia de que estava esperando um filho. Pelas suas contas, deveria estar com uns dois meses de gestação.

Ela esperou ansiosa Sebastian voltar de uma de suas viagens para dar a notícia, certamente aquela novidade melhoraria as coisas entre eles, afinal que homem não iria querer um herdeiro. Mas a realidade lhe veio como um balde de água fria. Ele recebeu muito mal a novidade.

– Como assim você está grávida? Eu mal encostei em você.

– Sim, mas uma vez já bastaria se fosse a vontade de Deus.

– Vontade de Deus? Como sempre uma beata frígida. Por isso, cada vez que eu encosto em você, a vontade que eu tenho é de vomitar.

Nem bonita você é, esse cabelo castanho comum, esses olhos pretos. Não existe nada de atrativo em você. Preciso beber muito para conseguir.

– Sebastian, não precisa falar assim comigo, eu não fiz nada. Essa é uma notícia tão boa.

– Boa para quem? Boa para você só se for. Agora ao invés de um eu tenho dois problemas. Vou procurar um médico que consiga resolver isso, não vou ter um filho com você.

– Mas como assim? Eu já estou grávida.

– Mas vai deixar de estar.

Ele falou e saiu apressado, pegou seu casaco e foi em direção a rua. Maude sem entender direito as intenções dele, resolveu segui-lo para tentar conversar e resolver a situação.

Ela o seguiu até um clube de luxo, destinado a cavalheiros. A porta estava aberta e ela entrou, escondendo-se no Hall de entrada. Como era cedo da tarde, havia só os dois no salão. Conseguiu ver ser uma mulher com ele, uma loira alta e muito magra. As vozes estavam alteradas.

– Como assim aquela ridícula está grávida? Você disse que não encostava nela.

– Pouquíssimas vezes, mas às vezes eu bebo além da conta, preciso de um alívio rápido e ela está bem ali no quarto ao lado, eu sou homem a final. Sempre acabo me arrependendo, é a mesma coisa que estar com um corpo inerte. Ela é igual a uma pedra de gelo.

– Seu idiota, poucas vezes é o suficiente para fazer uma criança. E agora temos outro problema para resolver.

– Eu sei, mas no final dá no mesmo. Você não conhece nenhum médico que possa resolver a questão? Assim teremos mais tempo para botar o plano em prática.

– Eu posso arrumar um. Mas você tem que se controlar mais, meu amor, senão vai botar tudo a perder.

Maude viu a mulher caminhar em direção a ele e abraçá-lo. Ele a abraçou também e os dois trocaram um longo e apaixonado beijo.

- Eu só quero que esse inferno acabe de uma vez, e a gente possa desfrutar de tudo o que conseguimos. Deu muito trabalho armar aquela emboscada para o velho, comprar seus seguranças. Não podemos nos livrar dela agora, pode levantar suspeitas.

Maude não aguentou ver toda aquela cena calada e entrou no recinto onde eles estavam.

– Sebastian, o que significa isto? Quem é essa mulher?

Eles se viraram rapidamente em direção a ela, surpresos com a interrupção.

– Maude, o que faz aqui? Não acredito que teve coragem de me seguir.

– Eu queria conversar melhor, mas chego aqui e me deparo com essa cena. Essa mulher é sua amante?

Foi a mulher que respondeu por ele, com ar de superioridade.

– Amante não querida, eu sou a mulher dele, a mulher que ele ama e quer estar realmente junto. E você, é só uma pedra em nossos sapatos.

– Mas nós dois somos casados, eu vou ter um bebê, como é possível?

– Eu já disse que vamos resolver esse problema, Helena conhece um médico que fará o serviço.

– Não! - Maude gritou desesperada.- Vocês não vão matar meu filho. Não podem fazer isso.

– Eu posso fazer o que eu quiser, sou seu marido, vamos dizer que você teve um aborto, é muito comum acontecer isso.

Ela foi em direção a ele, não sabia ao certo se para suplicar ou agredi-lo, sem pensar o empurrou.

– Seu cretino, bastardo, maldito o dia em que eu quis me casar com você.

Ele segurou suas mãos e a empurrou também, fazendo-a cair ao chão.

Maude levantou-se, Helena veio em sua direção e a esbofeteou.

– Não ouse tocar nele, sua ridícula. Esse homem é meu e sempre foi. Você é patética mesmo, acha que ele se interessaria por você? É tão sem atrativos, a única coisa que valia a pena era o seu dinheiro. Mas agora, com a triste partida de seu pai, ele é todo nosso.

– Não abra a boca para falar do meu pai. Ele era um homem de verdade, que cuidava da família. Você, Sebastian, jamais será igual a ele.

Sebastian sorriu diabolicamente.

– Sim, mas morreu como qualquer outro. Nem todos aqueles seguranças conseguiram defendê-lo de cruéis assaltantes

– Eu ouvi que foram vocês que armaram a emboscada, e tudo por causa desse maldito dinheiro.

– Você é tão patética quanto aquele velho, os homens que fizeram o serviço disseram que ele implorou até o final pela vida.

Quando Helena disse isso, Maude perdeu o controle e foi em direção a ela, a esbofeteando também. As duas começaram a brigar, entre tapas e puxões de cabelo, até que Sebastian puxou Maude e a acertou com um soco. Quando ela caiu ao chão, ele seguiu dando-lhe chutes e pontapés. Helena também aproveitou que ela estava caída para fazer o mesmo. Ambos descontaram toda a sua raiva em seu corpo inerte, quando terminaram ela não passava de um punhado de carne caída ao chão, cheia de hematomas e sangrando muito.

Sebastian se deu conta que haviam agido por impulso.

– E agora Helena, como vamos resolver isso? As pessoas vão dar falta dela, a governanta com certeza a viu sair de casa.

– Calma, podemos largá-la em um beco afastado e inventar que ela foi atacada por bandidos.

– Mas e se ela sobreviver? Vamos ter um problema ainda maior.

– Sim, é verdade. O melhor é conseguir alguém para terminar o serviço e se livrar do corpo. Podemos forjar um sequestro ou algo assim, algo que a deixe desaparecida para sempre, logo ela será dada como morta e poderemos enfim nos casar.

– Certo, é um bom plano, chame o seu funcionário. Ele saberá como se livrar dela.

Quando o capanga de Helena chegou, não conseguiu esconder o choque com o estado de Maude.

– Santo Deus, foram vocês que fizeram isso com ela?

– O que você acha? Agora precisamos que você se livre do problema. Termina o serviço, e some com o corpo. Se ela não perdeu o bebê com a surra, os dois vão morrer de qualquer forma.

– Mas dona Helena, o que eu vou fazer com ela?

Gerald era o homem de confiança de Helena, era metido em coisas escusas, mas havia dado apenas alguns tapas em mulheres. Aquela ali estava destruída, era muito difícil que sobrevivesse. Provavelmente era só largar-lá em algum lugar mais distante ou no porto, o destino se encarregaria do resto.

– Tudo bem, vamos enrolá-la em um tapete, para que ninguém me veja sair com um corpo daqui.

– Ótima ideia, Gerald. Eu não falei que ele resolveria Sebastian, meu bem? Vamos logo, quero me livrar desse peso morto quanto antes.

Capítulo 2 Até você chegar.

Owen Grant definitivamente tinha um problema. Ficara viúvo há seis meses e precisava urgentemente de alguém para cuidar de seus três filhos. Conseguiu uma senhora viúva, que residia na pequena cidade onde ficava a sua fazenda para cuidar das crianças por alguns dias, ele pagou uma boa quantia a ela e pode viajar. Precisava arrumar uma esposa e voltar para casa rapidamente, não podia deixar a propriedade e as crianças por muito tempo. Seus negócios, tanto os oficiais, como os não oficiais, exigiam que viajasse constantemente. Na sua visão o melhor lugar para isso era Portland.

Uma cidade grande o suficiente para encontrar alguma mulher tão desesperada quanto ele, que estaria disposta e embarcar nessa loucura. Chegou na cidade e colocou um anúncio em um dos jornais de maior circulação, em breve começaria a entrevistar as candidatas, se é que teria alguma. Não poderia prometer muito para a sua futura esposa, uma casa confortável e condições de sobrevivência era o que tinha a oferecer. Em troca, ela teria que cuidar dos filhos e do lar. Como ele viajava muito, quando não estivesse, tudo ficaria a cargo dela. Não era nem de longe um acordo cheio de vantagens, mas para uma mulher em situação difícil, quem sabe a alguma solteirona poderia interessar. Também teria que deixar claro que envolvimento emocional não estava no acordo. Não procurava uma mulher para sua cama, a falecida esposa o havia deixado bastante traumatizado com o leito conjugal. Ela cumpria a obrigação sem nenhuma vontade, como se fosse um enorme sacrifício. Ele por sua vez, a procurava o mínimo possível. Preferia estar com mulheres livres, que se relacionavam com quem queriam, sem cobranças e promessas. Essas mulheres sabiam entreter um homem, e não esperavam nada em troca. Depois de seu malfadado casamento, Owen havia adquirido verdadeiro horror em estar com uma mulher que não estivesse interessada em suas atenções.

Dias se passaram, e ele não teve sucesso em sua procura, apresentavam-se apenas prostitutas no final de carreira. Por mais que não estivesse em condições de ser exigente, as mulheres que entrevistou estavam em condições deploráveis, aparentemente doentes e debilitadas. Iriam mais do que qualquer coisa assustar os seus filhos, fora que a maioria possuía problemas com o abuso de álcool e outros entorpecentes. Não podia deixar os filhos expostos a esse perigo. Seu problema estava muito longe de ser solucionado, ele pensou com pesar.

Já desanimando, foi conhecer um bar que ficava nas docas do rio Columbia. Quando se aproximou viu uma movimentação estranha, um homem carregava um grande volume próximo a um dos piers. Owen podia jurar que era uma pessoa que ele carregava. Resolveu se aproximar um pouco mais para ver melhor, havia notado que aquela poderia ser uma região perigosa para se estar uma hora dessas, eu aquele homem era definitivamente suspeito, estava se encaminhando para jogar o grande pacote no rio.

- Ei você, o que pensa que está fazendo?

O homem assustou-se e largou bruscamente o embrulho no chão.

- Eu não a machuquei, eu juro.

Ele correu em direção ao sujeito, pelo que ele falou, o embrulho se tratava de uma mulher que jazia inerte.

- Não a machucou, mas está tentando afogá-la seu cretino! Eu vi que você ia joga - lá no rio, para dar um fim ao corpo.

- A moça está viva, eu posso garantir. Eu só faço o que me pagam para fazer. Mandaram-me dar um fim nela, mas eu sinceramente não quero fazer isso. Eles a deixaram desse jeito, para morrer. Eu nunca faria algo tão terrível para uma mulher.

- Quem fez isso com ela, afinal? Porque você não chamou a polícia?

- O próprio marido e a amante. Bateram tanto que disseram que ela provavelmente perdeu o bebe. São pessoas poderosas, e pelo visto capazes de qualquer coisa.

Owen aproximou-se do corpo caido ao chão e sentiu vontade de vomitar. O que um dia fora uma mulher, agora era apenas um amontoado de carne e ossos machucados. A coitada havia sido feita de saco de pancadas. Pela aparência dos ferimentos, era muito improvável que sobrevivesse. Que tipo de monstro teria coragem de fazer isso a uma mulher grávida?

- Se o senhor quiser e puder ficar com ela, pode levar. Eu só preciso que a leve para longe, e não a deixe voltar se ela sobreviver.

Owen ficou chocado com o oferecimento do homem. Mas o destino daquela pessoa era terrível. Estava prestes a ser jogada no rio, gravemente ferida. Pensou em chamar a polícia, mas o homem se livraria dela enquanto fosse atrás dos guardas. Ele era o único que podia salvá-la, tentar pelo menos.

- Eu levo ela comigo, preciso de meia hora para pegar minhas coisas e minha carroça. Moro em um lugar bem afastado, ninguém vai saber se ela sobreviver. Você pode ficar com ela em um beco escuro até eu voltar? Não precisa matá-la, vai carregar essa culpa pelo resto da vida.

O homem ficou em silêncio por um momento, com certeza pensando nos prós e nos contras daquela situação.

- Tudo bem, eu vou esperá-lo. Não vou aguentar viver com essa culpa. O senhor tem meia hora, se não voltar eu vou jogá-la na água.

- Tudo bem, eu já volto, não faça nada que vá se arrepender.

Owen voltou ao pequeno hotel que estava hospedado, juntou suas coisas e pagou a conta. Nos estábulos pegou sua carroça e foi em direção ao porto. Aquilo tudo era uma grande loucura, levar consigo no meio da noite uma mulher naquele estado. Mas alguma coisa não o deixava agir diferente. Ele com certeza era a melhor chance que aquela estranha tinha de sobreviver.

Quando chegou o homem estava escondido com a mulher inerte, ele ajudou-o a colocar na parte de trás do veículo. Ele improvisou uma cama com cobertas, a deitou e a cobriu. Assim, no meio da noite, como um fugitivo, ele iniciou a sua longa viagem até a sua fazenda, na cidadezinha de Sun City, com uma passageira que provavelmente não amanheceria com vida.

Capítulo 3 O herói de Maude.

Para a surpresa de Owen, a misteriosa mulher havia sobrevivido à noite. Tivera alguns poucos momentos de lucidez, em que balbuciava coisas sem nexo com uma voz muito fraca. Isso devia ser um bom sinal, ao menos ela não estava em coma. Com medo de ser pego com uma pessoa quase morta em sua carroça, ele viajou a noite toda, por estradas mais afastadas, e em uma boa velocidade. Eram dois dias de viagem até sua cidade, isso se mantivesse um bom ritmo. Ao amanhecer parou para que os cavalos descansarem e comer alguma coisa.

Verificou que ela ainda estava respirando. Não havia muito o que pudesse fazer ainda, poderia cuidar melhor dela quando chegasse em casa. Teria que chamar seu médico de confiança, diria que a encontrou na estrada nesse estado. Depois de um pouco de descanso, seguiu viagem até anoitecer. Estava exausto, mal conseguiu comer algo e deitou-se ao lado da mulher na carroça, tomando cuidado para não machucá-la ainda mais. No dia seguinte, acordou antes de amanhecer, comeu e seguiu viagem.

Era de tarde quando chegou a Sun City. Resolveu que primeiro a deixaria na fazenda e só depois buscaria as crianças, elas poderiam ficar assustadas com a aparência da desconhecida. Ao chegar, tirou-a da carroça e a levou para dentro. Deitou-a em uma das camas do quarto das crianças com cuidado. A deixou aos cuidados de um de seus empregados de confiança. O homem ficou assombrado quando viu a moça.

– Meu Deus, Owen, o que aconteceu com ela?

Ele achou melhor contar a versão oficial que adotaria com o médico, mais tarde teria tempo de explicar toda a situação ao amigo.

– Eu a encontrei no caminho de volta, estava jogada na beira da estrada. Fiquei com pena e a trouxe para que o médico a visse. Inclusive devo ir logo buscar ele e as crianças.

Ele foi em direção a cidade, falou com o médico que disse que iria em seguida atender seu chamado. Pegou as crianças e voltou para casa.

Ele era o pai orgulhoso de três filhos lindos. O mais velho tinha oito anos, a menina do meio tinha seis e a mais nova era um bebê de um ano e seis meses. Havia se casado com Ana quando ele tinha vinte dois e ela dezessete, era a vontade dos pais que já estavam velhos, que ele constituísse família. Os dois morreram um ano após seu casamento.

Ana sempre fora uma mulher introvertida, mas nos últimos tempos era assolada por uma melancolia assombrosa. Nem mesmo os filhos foram capazes de lhe devolver a vontade de viver. Sucumbiu por uma gripe, afinal tinha uma composição fraca, pois não se alimentava bem. Owen sempre a tratou com respeito e gentileza, mas ela sempre foi distante. Acreditava haver aceitado o casamento por pressão dos pais e também para sair da miséria em que vivia sua família.

A fazenda dos Grant era próspera, eram conhecidos na região pelos ótimos rebanhos que comercializavam com todo o estado. Eles levavam suas cabeças de gado em comitiva até a estação de trem mais próxima onde as embarcavam. Viviam modestamente, mas sem passar necessidade alguma. O trabalho era árduo no campo, e ele tinha poucos funcionários para ajudá-lo. Haviam períodos mais difíceis que os outros, o inverno era sempre um medo constante, em alguns anos chovia muito, em outros era um pouco mais seco.

As crianças se recuperaram relativamente bem da morte da mãe: ela estava longe de ser um modelo de afetuosidade. Geralmente ficava em seu próprio mundo, fazia pelos filhos apenas o básico, já que não contavam com uma babá. Mas carinho e atenção eram parcos naquela relação. Quando ela morreu, Owen não teve dificuldade em assumir o cuidado deles, mas estava sendo muito difícil conciliar com o trabalho. Isso e o fato de achar que os pequenos realmente precisavam do amor de uma mãe foi o que o fez partir para Portland, e se meter nessa enorme confusão.

O médico examinou a estranha cuidadosamente, levou um tempo até que verificasse todos os seus ferimentos.

– Quem quer que tenha feito isso com ela estava com muita raiva. Nunca vi uma mulher tão agredida. Não será uma pessoa perigosa para ter sido atacada assim?

– Realmente não sei doutor, mas acho que nada justifica uma agressão dessas a uma mulher.

– Sim, é verdade. Pelo que vi ela vai se recuperar. Não tem nenhuma perfuração pulmonar, a respiração parece regular. Responde à estimulação de luzes.

– Sim, no caminho ela balbuciou algumas coisas.

– É, de fato, creio que irá se salvar. Mas a recuperação será lenta e dolorida. Vou deixar láudano para dar para ela se tiver dores fortes. Tente alimentá-la e dar bastante líquidos.

– Está certo doutor, eu farei isso. Muito obrigada por vir.

– Não precisa agradecer, é o meu trabalho afinal. Mas rapaz, foi uma sorte você ter encontrado-a na estrada. Outra noite ao relento e ela não sobreviveria.

– Sim, vou fazer o meu melhor para cuidar dela até se recuperar. Se eu precisar, chamo o senhor.

– Certo, boa sorte na recuperação dela.-- O médico olhou mais uma vez em direção a cama que ela estava deitada antes de sair, com ar de pesar.-- Pobre moça, que Deus a ajude.

Quando o médico foi embora, Owen foi ver os filhos que estavam com o capataz. Ele disse a eles que no seu quarto estava uma moça que tinha ficado muito doente, e estava se recuperando. Mandou que a menina de seis anos, Melanie, dormisse na outra cama do quarto, e levou o Menino Tobby de oito e a bebê Alex para dormirem com ele em sua cama. Melanie ficou feliz com a atribuição de cuidar da recém-chegada, o pai lhe disse que seria uma tarefa muito importante, digna de uma menina grande.

Dois dias se passaram antes que a mulher acordasse completamente. Ela ficava indo e vindo em um estado de semiconsciência. Owen conseguiu dar algumas colheradas de sopa e água para ela. Os cabelos e outras partes de seu corpo estavam um caos de sangue e areia. Os hematomas já estavam ganhando uma coloração arroxeada. Ele limpou os ferimentos como pode, não queria faltar com o respeito devido. Sorte que os cortes eram em sua maioria em lugares visíveis.

Quando ela abriu os olhos e conseguiu mantê-los assim era Melanie que estava com ela, a menina havia pegado o hábito de brincar com suas bonecas ao lado de sua cama, como se ela pudesse participar da brincadeira.

Ela assustou-se e gritou pelo pai.

– Papai, a moça acordou! Papai, papai venha logo.

Maude tentou se sentar na cama, mas não conseguiu, apenas se levantou um pouco e se recostou melhor nos travesseiros. A menina loira não parava de gritar e sua cabeça parecia explodir.

– Não grite. – Ela conseguiu dizer com uma voz fraca.

Owen entrou no quarto apressado, quando ouviu os gritos de Melanie não pensou direito, apenas saiu correndo em direção ao quarto. Quando passou pela porta viu que a mulher havia acordado.

– Finalmente acordou. Cheguei a pensar que não aconteceria.

Ela apenas o encarava um pouco temerosa.

– Querida, vá brincar lá na sala, por favor.

A garotinha demonstrou insatisfação.

– Mas papai, ela agora acordou, vai poder finalmente brincar comigo.

– Agora não, Melanie, a moça tem que se recuperar primeiro. Me obedeça e vá para a sala.

A menina saiu contrariada e ele dirigiu seu olhar a mulher deitada.

– Você lembra quem você é, e o que aconteceu com você?

Ela apenas balançou a cabeça em afirmação, a boca e o maxilar ainda doíam um pouco ao tentar falar.

– Quem é você, e onde estou?

Ela conseguiu perguntar com voz fraca.

– Eu sou Owen Grant e está na minha casa. Você está segura, está longe de Portland. Eu encontrei você nesse estado e a trouxe para cá, na tentativa de salvá-la.

Ela apenas assentiu, deitou-se novamente e fechou os olhos, não resistindo ao cansaço. Owen entendeu ser o momento de deixá-la sozinha outra vez.

Os dias se passaram com ela, passando cada vez mais tempo acordada. Comia o que lhe era oferecido e ficava cada vez mais forte. Um dia pediu água para se lavar.

– Acha que já está bem para levantar? Eu tenho aqui um vestido limpo para você trocar.

Ele saiu e ela se lavou como pode, colocou o vestido limpo e voltou para a cama.

– Alguém vem me procurar? - Ela perguntou um dia quando ele trouxe o jantar.

– Dificilmente, não sabem nem que ainda está viva. O homem que me entregou você não sabe quem eu sou ou de onde eu vinha. Fique tranquila, estará segura aqui.

Ela assentiu e continuou sem silêncio.

Para Maude os dias demoravam a passar, trancada naquele quarto. A garotinha vinha toda hora, falava pelos cotovelos, e exigia que brincasse com ela quando estivesse melhor. Havia também um menino mais velho e um bebê, mas esses não vinham muito ao quarto. Ver aquele bebê havia sido deprimente, a fez pensar no seu próprio. Certamente o havia perdido depois do ataque, era impossível que houvesse sobrevivido.

Ser mãe era o maior sonho de sua vida, e já amava o bebê. Mas não sabia como seria conviver com uma criança filha de Sebastian, talvez tivesse sido melhor assim. O homem chamado Owen era muito atencioso e gentil, trazia comida e cuidava de seus ferimentos. Apesar da aparência rude e das roupas de trabalho muito gastas, sua voz era tranquila e inspirava calma e segurança, Maude gostava de ouvi-lo. Depois de mais de uma semana acamada, ela sentia que precisava de um banho e lavar os cabelos. As compressas de água fria que o homem trazia fizeram os hematomas desinchar bastante, sua aparência já era bem melhor. O dono da casa era um homem muito alto, com uma estrutura de músculos aparentes. Tinha o cabelo castanho-claro e os olhos verdes, trazia uma barba espessa, um tanto mal cuidada, mas sempre limpa. Era definitivamente o que imaginaria de um homem do campo, que trabalhava duro para ganhar seu sustento. Apenas pelo seu trato gentil, ela já o consideraria agradável, e talvez até bonito por debaixo de toda aquela barba. Os olhos eram incríveis, de um tom de verde que ela jamais havia visto, ela notou que quando ele sorria, parecia sorrir também com os olhos. Não acreditava que conseguiria fazer esse tipo de julgamento outra vez, mas se fosse, poderia dizer que ele era, se não bonito, mas agradável aos olhos. Aparentava ser bem mais velho que ela, na casa dos trinta, talvez, era amoroso com as crianças, como o próprio pai havia sido com ela. O que teria acontecido com a mãe de seus filhos? Não viu nenhuma mulher na casa, seria ele viúvo?

Quando ele entrou no quarto pela manhã, ela não perdeu tempo em perguntar.

– Senhor, tem algum lugar que eu poderia tomar um banho e lavar os cabelos?

– Tem, sim, uma tina que usamos para isso, também tem um chuveiro na rua, mas a água lá é gelada.

– Eu acho que prefiro o chuveiro, será mais prático.

– Tudo bem, eu te levo até lá.

Ele a deixou no galpão do chuveiro e saiu para dar privacidade a ela.

Maude tirou suas roupas e pode finalmente ter uma ideia do número de ferimentos e hematomas. Eram muitos, espalhados por todo o corpo, mas a maioria já estava se curando. Apesar de tudo, ainda era difícil acreditar que Sebastian havia feito aquilo com ela. Sempre foi um marido ausente e até um pouco agressivo, mas não imaginaria que chegaria a tanto. Ele devia ter sido amante daquela mulher desde o início, por isso era frio e distante. Doía pensar no quanto os dois devem ter rido da ingenuidade dela. Depois do casamento ele sempre fazia questão de deixar claro o quanto ela era desinteressante. Sem graça e livre de atrativos era o que ele dizia. A tal Helena era de fato uma mulher exuberante como ela nunca seria, com aqueles cabelos loiros e um corpo muito esbelto. Maude sempre teve uma constituição mais cheia, pois comer era algo que sempre gostou muito de fazer, os doces, então, sempre foram seu fraco. Nunca esteve acima do peso, mas não era extremamente magra igual ditava a moda.

A água caiu como uma bênção em seu corpo. Mesmo gelada, era reconfortante poder se lavar decentemente. O dono da casa lhe entregou outro vestido limpo, sabão, toalha e um pente de cabelo. Tudo ao seu redor era muito humilde, em nada se parecia com a vida luxuosa que levou a sua vida inteira. Mas lembrou-se que fora justamente pelo luxo e riqueza que aquilo havia acontecido com ela. Não precisava que Owen lhe dissesse que ela havia sobrevivido por sorte. Em muitos momentos ela achou que fosse morrer, em alguns deles, ela até desejou isso. Inclusive durante seu casamento, Sebastian já a havia destruído muito antes de tentar matá-la. Agora ela era um esboço mal feito da jovem que fora, cheia de alegria e esperanças. Uma mulher destruída, sem sonhos ou anseios. Fora anos tortuosos em que ela teve que sofrer sozinha seu calvário. E lembrar que se ela não tivesse feito as escolhas que fez, seu querido pai ainda poderia estar vivo, era mais uma coisa que assombrava seus dias.

Graças àquele estranho ela estava viva e a salvo. O fazendeiro foi o herói de uma desconhecida e a trouxe para a sua própria casa. Ainda não sabia ao certo o que fazer com isso, precisava estar plenamente recuperada para decidir.

Ela terminou o banho e o encontrou esperando-a à porta do galpão.

– O senhor ficou aí esse tempo todo?

– Não me chame de senhor, para todos aqui eu sou só Owen. Menos para as crianças, para elas eu sou o papai. Não tinha certeza se você estava confortável para andar por aí sozinha. Pode levar um tempo até adquirir confiança.

– Owen, apesar de tudo, eu tenho me sentido segura aqui. Nunca vou poder pagar pela sua hospitalidade, e por tudo o que fez por mim.

– Bem, já que você já se sente melhor e entrou no assunto, tem algo que eu gostaria de receber em retribuição.

Ela arregalou os olhos, surpresa com a declaração dele.

– A senhora poderia se tornar a minha esposa e mãe dos meus filhos?

Maude pensou que houvesse ouvido errado, ela só poderia ter ouvido errado.

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