LUNA
Fecho a mala com um suspiro profundo e frustrado. O zíper desliza suavemente até o fim, trancando não apenas as roupas, mas também colocando um fim aos últimos resquícios do que um dia foi o meu casamento. Pego os papéis do divórcio sobre a cômoda e caminho até a governanta, estendendo o envelope.
- Entregue isso ao senhor Montesino, por favor. - Minha voz soa baixa. - Diga para ele assinar e não se preocupe com sua amada fortuna, porque não quero um centavo do que é dele.
Ela hesita, segurando o envelope como se queimasse em suas mãos. Seus olhos me imploram misericórdia.
- Senhora Montesino, espere ao menos até ele chegar... - sua súplica soa como um último fio de esperança, mas eu apenas sorrio, um sorriso triste e decidido.
- Não serei mais uma Montesino, Lita. A partir de hoje volto a ser Luna Bexter. E quanto a esperar que ele chegue... - Thalita sabia melhor que ninguém que eu já tinha esperado demais por ele.
Olho para o relógio na parede. 16h59. Meu coração bate lento, pesado. A cada segundo que passa, a expectativa se desfaz em certeza. O trato era simples: se ele quisesse me impedir, deveria estar aqui até as 17h. Ace provavelmente não acredita que eu estava falando sério.
Eu repeti que o deixaria tantas vezes, olhando diretamente em seus olhos, buscando qualquer sinal de que se importava. Nunca encontrei. Mas já estou cansada, me cansei de esperá-lo e de tentar alcancá-lo. No dia que me casei com Ace achei que era a mulher mais feliz do mundo, mas ele se encarregou de tornar todos os meus outros dias infelizes e eu não suporto mais viver assim. Eu o amava mais que a mim mesma, ainda o amo, mas decidi que era hora de ir quando já não encontrei nenhum motivo para ficar.
Esse amor me machuca mais do que me conforta, me entristece mais do que me faz feliz, me desgasta mais do que me fortalece e me esgota mais do que me preenche.
- Adeus Lita. - A abraço e viro em direção a saída.
O ponteiro avança.
Faltam 15 segundos.
Respiro fundo.
14 segundos.
Meus dedos tocam a alça da mala.
13 segundos.
O couro frio contra minha pele me lembra o que está acontecendo.
12 segundos.
Dessa vez, estou indo embora.
11 segundos.
Meus pés se movem.
10 segundos.
Um passo. Depois outro.
9 segundos.
Minha garganta aperta, mas não paro.
8 segundos
Minha mão desliza pela madeira escura da porta.
7 segundos.
Fecho os olhos por um segundo.
6 segundos.
Se eu escutasse seus passos correndo até mim, hesitaria?
5 segundos.
Se ouvisse sua voz chamando meu nome, voltaria atrás? Não sei mais.
4 segundos.
Giro a maçaneta.
3 segundos.
O metal gelado contra minha palma me traz um arrepio.
2 segundos
Meu coração ainda espera um milagre. Ainda esperam que a porta se abra e ele esteja ali, ofegante, me pedindo para ficar. Mas tudo permanece em silêncio.
1 segundo.
A última batida do relógio ressoa pela casa.
17 horas.
Aperto os lábios, minha respiração está pesada. Ele não veio. Ele aceitou nossa separação. Mas isso já era o que eu esperava, certo?
Dou o primeiro passo para fora. O ar frio da rua envolve minha pele, arrepiando cada centímetro exposto. Respiro fundo, tentando absorver minha nova realidade.
Acabou.
Caminho devagar pelo jardim. Cada folha que balança ao vento parece se despedir. Minha mala desliza atrás de mim, marcando um rastro na terra em que caminho.
Não olho para trás.
Eu disse que se ele não voltasse para casa iria embora para sempre. E, dessa vez, estou cumprindo minha promessa.
Estou te deixando livre Ace Montesino.
ACE
O som das vozes na sala de reuniões me esgota mais do que qualquer coisa. Tem dias em que sinto que meu mundo inteiro se move em círculos, girando, girando, sem sair do lugar. Hoje era um desses dias. Um em que eu só queria voltar para casa e tirar essa gravata maldita que me aperta como se quisesse me lembrar de que ainda estou preso.
- Senhor Montesino, com sua autorização poderíamos...
- Faça como quiser, Alfonso. Só me mande o relatório. - cortei, já me levantando.
O relógio no meu pulso marcava cinco e vinte e sete. Quase gargalhei. Imaginei o olhar impaciente da Luna, os braços cruzados e aquele pé batendo no chão com uma irritação que ela nem tentava esconder. A cada novo atraso meu, ela fazia a mesma cena. Não gritava, não chorava, não era esse o estilo dela.
Mas eu a conhecia. Ou pensava que conhecia.
Sabia que tudo não passava de encenação. Sabia que, no fim, ela sempre me esperava.
Sempre.
Desde o dia em que selamos aquele acordo, eu sabia o que esperar. Um ano. Um ano de convivência, aparências e distância segura. Um casamento de fachada. Um contrato social que ela topou assinar sem sequer hesitar. E mesmo dormindo no mesmo quarto, mantivemos uma distância. Nada de toques, nada de envolvimento, nada de complicações.
Eu nunca a toquei. E, por algum tempo, achei que era exatamente isso que ela queria.
Mas havia dias em que seu olhar dizia mais do que suas palavras. Dias em que ela me encarava com uma dor que eu não sabia nomear, e, portanto, escolhia ignorar. Até que ela parou de me lançar olhares e começou a exigir com palavras. Exigências que nunca fiz questão de cumprir. O amor da Luna é uma coisa constante desde a adolescência, mas ela não costumava me cobrar nada, essa foi uma das razões pelas quais a escolhi um ano atrás. Claro, tinha outros pontos a seu favor, como o fato de ser bonita, encantadora, de boa família e elegante. Nunca imaginei que o casamento lhe faria pensar que tinha direitos sobre mim.
Agora, sentado no banco traseiro do carro, o motorista cortando as ruas velozmente, imagino qual seria o sermão de hoje. "Você nunca escuta", ela diria. "Você nunca vai mudar." Eu ouviria tudo calado, tomaria um banho frio e, no dia seguinte, tudo voltaria ao normal.
Era assim. Era sempre assim.
Até que não foi.
A casa estava estranhamente silenciosa.
Entrei, afrouxando a gravata sem vê-la na sala me esperando.
- Luna? - chamei, sentindo algo dentro de mim começar a se contorcer.
Não houve resposta.
Em vez disso, Thalita apareceu na entrada da sala, os olhos úmidos e o rosto sombrio como se viesse de um velório.
- Senhor Montesino...
- Onde ela está? - perguntei, imediatamente.
Ela apenas estendeu um envelope.
- Ela pediu que entregasse isso. - A voz dela é um fio prestes a arrebentar. Por um segundo, imagino que chore, mas ganha controle e acrescenta, num sopro: - Ela pediu que eu dissesse... que não se preocupe com a fortuna.
Peguei o envelope, ainda sem acreditar que era o que eu pensava. A caligrafia no verso me trouxe para a realidade: Luna Bexter. Não Montesino.
- O que é isso? - minha voz saiu mais baixa, sem a autoridade de sempre.
Lita não respondeu. Apenas recuou, como se não quisesse testemunhar o que viria a seguir.
Subi as escadas em dois passos de cada vez.
- LUNA! - chamei, mais alto agora. Queria ouvir sua voz saindo do closet. Queria vê-la aparecer na porta com aquele olhar de raiva prestes a explodir. Qualquer coisa. Qualquer reação.
Mas o quarto estava vazio.
O guarda-roupa escancarado e limpo.
Sem vestidos coloridos, sem os sapatos desalinhados que ela nunca guardava direito. Sem seu perfume no ar.
Tudo havia sumido.
Um arrepio percorreu minha espinha. Ainda segurando o envelope fechado, fui até a biblioteca. A poltrona que ela ocupava, sempre que chegava do trabalho com um livro aberto e uma xícara de chá, estava intacta. Como se nunca tivesse sido usada.
A imagem que eu esperava não estava lá.
Nada estava.
Só o som abafado do meu próprio coração batendo forte demais no peito.
Voltei para o quarto, sentei-me na cama e, finalmente, abri o envelope. Os papéis do divórcio deslizaram para meu colo. Assinados.
Não havia nenhuma exigência de bens materiais.
Aquilo me feriu de um jeito que eu não esperava. Luna não queria meu dinheiro. Não queria nada. Apenas ir embora.
E dessa vez, ela foi.
De verdade.
Revirei os pensamentos como quem busca uma falha, uma chance de que isso fosse só mais uma ameaça, uma encenação. Quantas vezes ela ameaçou partir? Quantas vezes disse que estava cansada? Que eu era ausente, frio, que não via nela mais do que uma conveniência?
Mas ela nunca foi. Nunca cruzou a porta.
Porque, até então, eu era o suficiente para fazê-la ficar. Mesmo que fosse com raiva, mesmo que sofresse escondida, ela sempre ficava.
E eu achei que ela ficaria para sempre.
Que absurdo.
Eu tinha uma mulher de verdade ao meu lado e a tratei como um item decorativo. Um nome bonito para figurar nos eventos. Uma aliança no dedo para calar a imprensa. Nunca me perguntei se era insuportável viver comigo. Nunca pensei em como era deitar todas as noites ao lado de alguém que não a tocava, que não a ouvia, que não a enxergava.
Luna se calou tanto que eu achei que seu silêncio era conforto, e não cansaço.
Mas era cansaço. De mim.
E o pior de tudo é que eu senti a falta dela no instante em que entrei em casa. No momento exato em que não a vi ali, esperando com sua impaciência habitual.
Meu erro não foi tê-la deixado partir.
Foi tê-la empurrado para a saída todos os dias.
LUNA
Acendo a luz do meu novo apartamento e dou um passo para dentro, ainda desacreditando do que acabei de fazer. O imóvel é silencioso, acolhedor e limpo, com tudo em seu lugar. Os móveis ainda não são muitos, mas foram escolhidos por mim com cuidado, modernos, funcionais e bonitos. Um espaço só meu, longe daquela mansão onde tudo parecia grande demais, frio demais... e vazio demais.
Largo as chaves sobre o aparador, escorrego os sapatos dos pés e caminho pela sala de estar com o coração acelerado, mas leve. Me jogo no sofá de linho claro e fico ali, deitada, encarando o teto com uma sensação estranha de alívio e incredulidade enquanto enrolo um cacho castanho entre os dedos.
- Eu não acredito que consegui. - digo em voz baixa, como se dizendo em voz alta tornasse tudo mais real.
Não precisei esperar ninguém abrir essa porta. Não esperei o som de passos atrás de mim. Não precisei esconder minha dor ou medir minhas palavras. Esse espaço não foi herdado, nem imposto. Eu o escolhi. Assim como escolhi recomeçar.
Fecho os olhos por alguns segundos, absorvendo o silêncio confortável que me envolve. Pela primeira vez em meses, talvez anos, me sinto dona de mim.
Mas, inevitavelmente, a mente começa a girar.
Como vou contar isso aos meus pais? A pergunta surge com força, trazendo um frio no estômago. Eles sabiam que o casamento era de conveniência, sim. Mas acreditavam que era um bom negócio. Que me traria segurança, visibilidade, estabilidade. Eles não sabiam, ou fingiam não saber, que Ace não me olhava nos olhos há meses, que nunca me tocou, mesmo dormindo na mesma cama, que me tratava como parte do mobiliário.
E meus amigos? Vai ser difícil explicar. Ouvir as perguntas, os conselhos tardios, os julgamentos disfarçados de preocupação. Mas ao mesmo tempo... que se dane. Quem realmente gosta de mim vai entender.
Quem me conhece sabe que eu não sou impulsiva. Que só fui embora porque não havia mais forma de suportar.
Balanço a cabeça, afastando o turbilhão de pensamentos. Não quero perder minha primeira noite sozinha remoendo dúvidas.
Comida ou malas?
Olho para a mala de mão ao meu lado e lembro das outras duas no carro. Subi com pressa, querendo entrar logo. Ainda não decidi o que vai para cada cômodo, o closet está vazio, as gavetas também. Mas antes de me forçar a mover um músculo sequer, abro o celular e começo a olhar o app de delivery.
Sushi? Uma salada? Talvez uma massa com molho de queijo ou um hambúrguer com batatas gritas...
Antes que eu decida, a tela se acende. Meu celular repete vibrações curtas e um nome conhecido se exibe.
ACE MONTESINO.
Meu corpo congela. O nome dele parece mais distante agora. Como se pertencesse a outra vida. A outro mundo.
Observo a tela, sem tocar em nada. A ligação continua por alguns segundos, depois vai para o correio de voz. Ele não deixa mensagem.
Nem deveria. Ele não é de fazer segundas tentativas ou falar. Nunca foi. Em nossos jantares, o silêncio sempre falou mais alto que qualquer palavra. Ace não era cruel. Mas era ausente. E no fim das contas, ele me machucou mais com o que não fez do que com o que fez.
O celular vibra novamente, outra chamada. Ignoro. Não quero ouvir sua voz. Não agora. Talvez nunca. Mas o fato é que ainda vou precisar encontrá-lo até terminarmos os trâmites do divórcio.
Me levanto e vou até a janela. As luzes da cidade se espalham como constelações artificiais. É tudo tão diferente da mansão, não existe mais uma rotina sufocante que me obrigava a usar máscaras o tempo inteiro.
Sinto um peso cair dos ombros.
Aqui, não sou a "senhora Montesino". Sou só Luna. Luna Bexter. Uma mulher que decidiu não viver pela metade. Que escolheu sair antes de se perder de si mesma. Ainda não sei o que quero fazer de agora em diante, mas será um grande prazer descobrir.
Deixo o celular de lado, pego a chave e desço até o carro para buscar o restante da bagagem. Quando volto, já com as malas em mãos, o telefone está com duas chamadas perdidas e uma inusitada notificação de mensagem de voz, que eu também não escuto.
Guardo as roupas no closet novo, perfumado, ainda com cheiro de madeira recente. Cada cabide colocado nele é um passo em direção à independência. Roupas minhas, compradas por mim, dobradas do meu jeito. Não mais separadas por ordem de eventos sociais ou o que é digno de uma Montesino. Apenas o que eu gosto, o que me serve, o que me representa. As outras peças agora estão nas mãos de quem as usará com mais alegria.
Mais tarde, finalmente peço comida. Uma massa com molho branco e cogumelos trufados. Algo que me conforta.
Sento na varanda com meu prato no colo e uma taça de vinho branco. O céu está limpo. A cidade parece viva, mas não me ameaça. Sinto que finalmente pertenço ao espaço em que estou.
E, mesmo que o nome dele ainda esteja no meu celular, mesmo que a voz dele ainda viva em alguma parte silenciosa da minha mente, eu sei que fiz a escolha certa, ou, pelos menos, a escolha certa pensando em mim.
Hoje, estou cuidando de mim.
E amanhã... amanhã eu posso até ouvir o que ele tem a dizer.
Mas só se eu quiser.