Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > O emocionado CEO
O emocionado CEO

O emocionado CEO

Autor:: Vania Grah
Gênero: Romance
Pedro Sampaio é um homem que já passou por quatro casamentos fracassados, mas não perde a esperança de encontrar o amor verdadeiro. Determinado a não desistir, ele se depara com a vida conturbada de sua assistente Flávia Gonçalves, que desde a infância sofre com a violência de seu pai. Mas quando Pedro decide intervir e ajudar Flávia, ambos descobrem que a verdadeira felicidade pode estar mais próxima do que imaginavam. Em meio a conflitos pessoais e desafios inesperados, Pedro e Flávia percebem que o amor pode ser o remédio para curar todas as feridas do passado e construir um futuro juntos. Uma história emocionante sobre coragem, superação e o poder transformador do amor.

Capítulo 1 Ignorando

Pedro Sampaio

Ignore o que não lhe convém, como por exemplo, os dramas pessoais da minha assistente Flávia Gonçalves. Ela era competente e era mais do que o suficiente, todavia, eu não era o tipo de homem que admitiria isso para ela. Eu não queria me envolver em seus problemas pessoais, no entanto, não significava que não percebia os dias em que ela chegava para trabalhar com um olho roxo. Minha assistente nem sequer tentava disfarçar com maquiagem. O mais provável era ela ser surrada por algum namorado ciumento ou algo assim, embora ela não fosse uma mulher que se cuidasse era impossível não notar sua beleza natural.

- Senhorita Gonçalves, não esqueça de mudar o horário da reunião com os portugueses. - alertei, pois não queria desmarcar meu almoço com minha mãe.

- Sim, senhor! - respondeu, desviando seu olhar do meu. Aquele era seu jeito de tentar fugir de discussões. Não posso mentir e dizer que era um ótimo chefe porque não era, costumava ser bem rígido com todos os meus funcionários.

- Agora gostaria de ficar sozinho. Por que não vai tomar um café na copa? Estou sentindo seu nervosismo à distância!

Meu comentário fez com que ela quase caísse do seu salto alto. Ela tinha que ser tão medrosa? Não é como se eu fosse deixá-la pior do que estava.

- Agradeço, estou indo agora mesmo! - respondeu saindo do meu escritório apressadamente.

Nenhuma mulher merecia sofrer violência, principalmente física. Não posso negar que algumas vezes pensei na possibilidade de bisbilhotar a vida de Flávia somente para descobrir quem e porquê lhe faziam tanto mal. Não que eu fosse ser seu salvador ou algo assim, era mais curiosidade. Ela tinha a pele tão alva e cabelos tão negros quanto a noite, era simplesmente uma mulher interessante, porém, que não sabia seu potencial.

Minha empresa era de transportes de cargas nacionais e internacionais. Foram alguns anos até conseguir acertar em um negócio que realmente pudesse dar certo. É errando que aprendemos, não é mesmo? Foi com esse pensamento que arrisquei minha pequena herança herdada do meu pai. Tornei-me um homem bem de vida com meu esforço e o que antes era uma pequena herança, transformou-se em uma grande riqueza.

Em meus trinta e nove anos aprendi muitas lições e tive experiências não muito agradáveis também. Casei quatro vezes e me divorciei em menos de dois anos de cada uma delas. Pra que casei então? Bom, um dos meus defeitos era me apaixonar perdidamente e querer supostamente a vida inteira minha mulher, entretanto, a vida toda nunca foi, pelo menos até aquele momento. Eu não tinha filhos com nenhuma das minhas ex esposas, o que era maravilhoso. Não que eu não quisesse ter filhos, mas para ter uma família, tinha que ser uma para vida inteira, não gostaria de ter filhos espalhados pelo mundo e longe dos meus olhos.

Tinha quase três anos que tinha me divorciado do meu último casamento, desde então não me envolvi mais com ninguém seriamente. O que eu esperava? Talvez um amor verdadeiro? Pode parecer falso eu dizer isso, mas sim, era isso que queria, porém, era tudo que não conseguia.

Após revisar alguns documentos finalmente consegui sair da empresa até o restaurante onde minha mãe aguardava para o nosso almoço. Minha mãe não me esperava sozinha, outra vez ela tinha aprontado para cima de mim! Caminhei em direção a sua mesa tentando disfarçar minha frustração.

- Mamãe, por que convidou Lorena? - questionei em sua orelha após beijá-la no rosto. Lorena era minha prima de segundo grau, filha de um dos meus tios. Todos da família sabíamos o quão desesperada para casar ela era, acredito que por isso minha mãe tentava empurrá-la para mim.

- Filho, não vai cumprimentar sua prima? Ela deixou de fazer as coisas dela para nos acompanhar neste almoço!

Aquela foi a resposta da minha mãe, ignorando o que havia lhe perguntado.

- Tia Ana, Pedro não sabia da minha presença? - perguntou, fingindo surpresa. Acabei fazendo careta quando ela deu aquele sorriso cínico. Ela era uma mulher muito vulgar não somente por conta de suas roupas, mas também por suas atitudes de uma mulher qualquer.

- Olá, prima Lore! Quanto tempo não é mesmo? Há nem tanto, te vi sábado passado na piscina da casa da mamãe! Foi uma grande coincidência te reencontrar hoje novamente, naquele dia também foi uma mera coincidência você surgir justo no sábado que passaria o dia inteirinho com ela...

Se eu queria que ela ficasse pelo menos um pouco desconfortável? A resposta é sim! Puxei a cadeira do lado da minha mãe e sentei para ter um dos meus piores almoços sem dúvidas.

Capítulo 2 O monstro do meu pai

Flávia Gonçalves

Mais uma noite de horror senti que me aguardava quando adentrei meu apartamento, pois encontrei muitas bitucas de cigarros pela sala de estar. Pensei em fugir enquanto ele não tinha me visto ainda, entretanto, o monstro do meu pai percebera minha presença sim. Quando menos esperava ele agarrou firmemente meu braço, sacudindo todo meu corpo com violência.

- Sou seu pai, garota! Pensou em fugir para não me dar dinheiro foi isso? É sua obrigação me bancar, sua inútil que não serve de nada!

Gritou, jogando-me contra a parede. Aquele monstro era o que tinha me restado de uma família de alcoólatras e drogados. Quando minha mãe morreu de overdose deram minha guarda para ele, ele foi o único que aceitou ficar comigo, eu era uma menina de sete anos apenas quando ele começou com as surras e humilhações.

Engolindo o choro abri o zíper da minha bolsa e lhe entreguei uma certa quantia em dinheiro. O que ele fez após pegar o dinheiro? Me deu um tapa forte na cabeça e só então saiu pela porta.

- Por que ele não morre também? Não aguento mais... - resmunguei, sentindo minha cabeça doer.

Eu era sim uma filha desejando que o pai morresse, não suportava mais sofrer daquele jeito. Não pensem que nunca fiz nada para tentar me livrar daquele monstro, recorri até mesmo a justiça, entretanto, foi em vão, julgaram o caso como despeito com o próprio pai. Desde a época da denúncia ele apenas piorou e não encontrei saída novamente pro meu caso. Nunca quis fugir do lugar onde pertencia por causa dele, ele destruía tudo, mas não deixaria que ele tirasse de mim o lugar onde cresci por medo.

Não consegui jantar deixei um amontoado de louça suja na pia. O pior de tudo era que no dia seguinte, tudo seria a mesma coisa, retornar do trabalho para apanhar do meu pai. Sentei um pouco no sofá e chorei, olhei para o relógio de parede era quase meia-noite, com certeza, aquele monstro estava enchendo a cara. Após questionar a minha existência, saí me arrastando até o quarto. Coloquei meu pijama amarelo e deitei na cama. Olhei em direção onde deveria existir uma porta no quarto, é, não tinha porta no meu quarto. Por quê? Meu pai a quebrou e jogou fora. Adormeci temendo ser acordada a qualquer instante para ser surrada por ele.

Na manhã seguinte, após tomar uma ducha quente, coloquei minhas roupas, escovei os dentes, e saí do meu apartamento. Eu queria evitar a todo custo me encontrar com ele, portanto, quase todos os dias eu saía sem tomar o café da manhã. No meu trabalho eu conseguia relaxar um pouco, me sentia segura, embora muitas pessoas não gostassem de mim, aparentemente elas me comparavam ao meu chefe, mas não éramos nada parecidos. Meu chefe Pedro Sampaio era o terror de toda a empresa devido ao seu jeito fechado e mandão. Acreditava que, no fundo, ele talvez fosse uma boa pessoa, mas bem, no fundo, mesmo, porque ele era frio com todos e um carrasco.

Durante a trajetória até o trabalho me vi imaginando uma vida totalmente diferente, isso acontecia com frequência, principalmente quando eu via pessoas felizes pelas ruas, eu sentia inveja, queria ser como elas. Sabe como é viver encurralada? Era terrível! Tinha dias que eu queria acabar com tudo, contudo, eu merecia viver e era isso que eu queria, portanto, precisava suportar, pois, ainda tinha esperança do monstro do meu pai decidir ir embora da minha vida por livre e espontânea vontade.

Quando cheguei na empresa todos me olharam. Eu sabia que o roxo no meu rosto estava pior que no dia anterior. Sabe quando você sabe que te julgam? Mais não fazem nada por você? Era o meu caso, simplesmente ignoravam de me ver surrada e seguiam com suas vidas. Eu precisava de uma palavra amiga, até mesmo de um socorro, no entanto, não encontrava isso em nenhum lugar. Sem amizades como alguém normal, era só parte dos meus problemas. Um dia tive amizades, todas as amizades que um dia existiram deixaram-me de lado por não poder oferecer o que queriam de mim, festas badaladas e muita bebedeira. Nunca fui do tipo que apoiasse esse tipo de coisa, por causa disso as amizades se foram. Foi um livramento, certo? Entretanto, deveria ter restado ao menos uma amizade, a solidão me consumia tanto.

Mal colocara os pés perto do escritório do senhor Sampaio quando ele gritou por mim. Respirei fundo e adentrei a sua sala.

- Senhorita Gonçalves, deveria ter vindo imediatamente para minha sala assim que chegou nesta empresa! Sabe como eu preciso de você! Todos esses documentos estão uma bagunça! O que você tem feito todo esse tempo que não organizou nada disso? Estou pagando você para colocar tudo em ordem, não somente para organizar as minhas reuniões, dê um jeito em tudo isso agora mesmo!

Quanta doçura, não é mesmo? Quem era Pedro Sampaio sem o seu mau-humor diário? Outra pessoa, claro! Eu não era sua secretária, era apenas sua assistente, confesso que ele era um tanto quanto mão de vaca, porque não tinha uma secretária para cortar gastos financeiros, preferia ter uma assistente para gastar bem menos.

- Cuidarei de tudo para o senhor, desculpe!

Quem pede desculpas por grosserias? Bom, eu era essa pessoa porque não queria ficar sem trabalho! Peguei a pilha de documentos e levei comigo. Meu chefe era insuportável, ele nem era tão velho assim para ser um rabugento. Ele nem sequer aparentava ter a idade que tinha. Se eu disser que eu nunca reparei na sua beleza estaria mentindo, todas as mulheres da empresa colocavam os olhos no patrão, não somente porque ele tinha dinheiro, mas também devido a sua beleza. Mais do que adiantava ter tanta beleza se o seu caráter era de um escroto arrogante? Eu queria acreditar que existissem coisas boas no fundo daquele coração gelado, entretanto, toda vez que ele me tratava mal eu perdia as esperanças de algo bom existir.

Organizei em fila alfabética toda papelada, quando entreguei tudo certinho, o senhor Sampaio ainda não estava feliz.

- Quero que vá comprar o meu almoço, hoje não vou sair deste escritório. Quero peixe grelhado e bastante salada. Peça também que coloquem um pouco de molho de pimenta. Não gosto quando você me olha assim, com cara de sonsa! Pode levar o meu cartão de débito. Não esqueça de que sei cada gasto e valor do que consumo! Não pense em comprar nada pra você com meu dinheiro, porque vou descobrir e você perde o seu emprego, entendeu senhorita Gonçalves?

- Entendi, senhor, nada de gastos mais do que necessários! - respondi, recebendo o seu cartão de débito.

Ele era tão cavalheiro, não é mesmo? Eu não tinha tomado café da manhã, e provavelmente, não almoçaria também, pois o meu chefe só pensava em si mesmo. Como eu ia arrumar tempo para comer se ele precisava de mim quase o tempo inteiro? Esperava não passar mal outra vez, sim, uma vez passei mal por não me alimentar, por culpa dele que abusava dos meus serviços, ele nem pagava assim tão bem. Trabalhava na força do ódio alguns dias, mas era melhor que estar sem trabalho e na companhia do meu pai que me surrava.

Capítulo 3 Ajuda

Pedro Sampaio

Cansado de esperar meu almoço chegar resolvi procurar a fugitiva da minha assistente. Não queria acreditar que ela pudesse ter fugido com meu cartão de débito. Flávia tinha que me explicar direitinho o porquê daquela demora toda pra ir comprar meu almoço. Estava morrendo de fome, ela precisava chegar logo. Caminhei em direção a porta quando finalmente a dita cuja apareceu com meu almoço.

- Desculpe a demora senhor...

Reparei no seu joelho machucado, Flávia tentou disfarçar que nada fora do normal havia ocorrido, me entregando meu almoço. No instante em que ela me entregou meu cartão de débito segurei firme sua mão direita, queria questioná-la do que acontecera, no entanto, desisti.

- Agora você pode ir senhorita Gonçalves!

Quando minha assistente saiu pela porta mancando, senti vontade de ir atrás dela. Para quê? Pra pedir que ela cuidasse do seu machucado e não se preocupasse com o trabalho no restante da tarde. Apenas pensei na possibilidade de mandá-la para casa porque não consegui fazer isso. Ela poderia confundir gentileza com outra coisa, aquelas mulheres da empresa esperavam somente uma oportunidade para conseguir um marido rico, e eu não queria ser alvo de nenhuma delas.

Eu não poderia dizer que tinha bom gosto para mulheres, porque todas com as quais me envolvi foi sem pensar com a razão, agindo como louco emocional. Minha relação com minhas ex-esposas não era das melhores, a separação nunca foi fácil para elas. Nada pude fazer para amenizar seus sofrimentos, porque não tinha como continuar em um casamento sem futuro e sem prazer.

Após mais um expediente de trabalho enquanto caminhava até meu carro presenciei uma discussão. Minha assistente Flávia aos gritos com um homem de meia-idade. Quem era ele? E por qual motivo dois resolveram bater boca logo de frente para minha empresa? Pensei em ter uma conversa com ela depois, entretanto, o coroa começou agredi-la fisicamente, puxando-a pelos cabelos e socando suas costas com brutalidade. Meu sangue ferveu, deixei cair minha pasta no chão e saí correndo em seu socorro.

- Ninguém vai bater em uma mulher na minha frente e ficar por isso mesmo! Por que não vem encarar um homem ao invés de uma mulher? Solta minha assistente seu filho da puta!

Puxei o desgraçado de perto dela, socando seu rosto. O coroa devolveu o soco e puxou um estilete do bolso da sua calça.

- Quem pensa que é? Essa daí é minha propriedade, eu, ouça bem, foi eu que lhe dei a vida e se quiser posso ser o que vai tirá-la! Não se intromete se não quiser sair daqui todo cortado!

Sim, ele me ameaçou, ali me toquei da semelhança dele com ela, então, fez sentido ele dizer que havia feito ela, contudo, ele não tinha direito nenhum de espancá-la daquele jeito.

- Esse remendo de homem é seu pai, não é? Acredita que vou sair correndo somente por que está com um estilete? Sei muito bem me defender e defender quem eu quiser!

Não era uma balela realmente sabia me defender, pois, tinha treinando alguns anos muay thai. Chutei o rosto do coroa que caiu no chão. Como minha assistente não parou um segundo de berrar, chamou atenção dos meus seguranças que logo vieram. Eles tiraram aquele homem covarde da minha empresa como se fosse um saco de lixo que logo o caminhão do lixeiro passaria para levá-lo.

- Desculpe, por favor, não me demita, por conta disso, senhor Sampaio. Ele veio me pressionar por dinheiro e eu não queria dar. Agora ele machucou o senhor e vou ser demitida, sei que vou! O que será de mim? Já sou ferrada e sem trabalho serei surrada ainda mais...

Flávia falou desesperada e começou a chorar. Que vida era aquela que ela levava, afinal? Descobri de maneira aleatória o agressor dela, e o pior de tudo era saber que era seu pai. Aproximei-me dela, e calmamente queria chegar em uma solução.

- Não sei o motivo de tanta violência, mas suponho que seja diariamente. Por que você não denuncia? Sei que é seu pai, contudo, não merece ser chamado de tal. Não sou um chefe intrometido ou algo assim, evito ao máximo me envolver em assuntos particulares dos meus funcionários, mas no seu caso foi longe demais. Te ver desesperada assim, não ajuda em nada. Pode parar de chorar? Se não conseguir, tudo bem. Fique tranquila, não penso em demiti-la.

- O senhor acredita que não denunciei? A justiça não acreditou em nada do que falei, nem mesmo as marcas pelo meu corpo. Aquele homem é um manipulador, se fez de vítima o tempo todo e até chorou, ele é um fingido que consegue tudo que quer. Não julgo que aqui seja um lugar apropriado para uma conversa como esta. Desculpe, mas estou sem condições de ter essa conversa agora!

Saber que ela havia denunciado e não fizeram nada me fez cerrar os dentes. Era devido à justiça falha como aquela que tinha tantos assassinatos. Flávia não estava nada bem e sabe se lá por tudo que passara até aquele momento.

- Você não pode desistir dos seus direitos! Flávia, melhor conversarmos em outro lugar, um mais particular, longe da empresa. Não estou te dando escolha, então, por favor, me siga até meu carro que nossa conversa será um pouco longa.

Sim, deixei de lado as formalidades, não tinha porque ser formal se não estávamos em horário de serviço. Apenas queria ouvi-la e que ela ouvisse também meus conselhos, ela era somente uma jovem assustada, esperava com minha experiência ajudá-la em alguma coisa.

- Não estou entendendo o senhor. Por que devemos conversar? Mudou de ideia e quer me demitir longe daqui? É isso? E por que agora está sendo gentil? Não sinta pena de mim porque não preciso da pena de ninguém!

Não conhecia aquele lado orgulhosa da minha assistente. Tentei tocar sua mão direita para levá-la comigo até meu carro, mas ela esquivou-se para o lado.

- Quero te ajudar e não é porque estou com pena. Vem comigo, podemos ir para um lugar público onde ninguém nos conheça. Prometo que não vou te demitir quando chegarmos lá. - insisti estendendo minha mão em sua direção.

Observei Flávia apertar a alça da sua bolsa e mordiscar os lábios de nervosismo. Quem disse que ela tocou minha mão? Disfarçadamente enfiei minha mão no bolso da calça social.

- Tenho quase certeza que vou me arrepender de ir com o senhor, entretanto, me sinto intimidada a segui-lo, então, vamos.

Aquela sua resposta me deu ânimo, pois tinha vencido a primeira batalha. Deixei que ela desse alguns passos na minha frente até meu carro. Não precisei abrir a porta do carro para ela, ela mesmo fez isso, sentando-se no banco do passageiro. Entrei no carro e ficamos em silêncio em um trajeto relativamente curto até uma cafeteria. Após pegarmos uma das mesas vazias, pedi para a garçonete um capuchino.

- Você pode começar do início, me refiro à sua relação com aquele homem. Prefiro que me olhe nos olhos enquanto conversamos. Não se sinta pressionada a contar tudo em detalhes, mas quero saber o máximo que puder, assim conseguirei uma solução para seu problema rapidamente.

Seus olhos tristes vieram de encontro aos meus. Ela choraria novamente? Perguntei-me apoiando as mãos sobre a mesa. Eu estava ali para ouvi-la, não para criticar suas atitudes.

- O monstro do meu pai por ficar com minha guarda após o falecimento da minha mãe, mostrou-se desde o início o quanto poderia ser cruel. Não ouve nem sequer um dia em que ele me tratasse com amor. As surras começaram bem cedo e pioraram na minha fase adulta. Ele diz que tenho obrigação de sustentá-lo, incluindo seus vícios. Faço tudo que aquele homem pede, ainda assim, apanho dele. Já pensei em pôr fim na minha vida, no entanto, não sou uma covarde. Tenho aguentado tudo isso em silêncio porque não posso assassiná-lo. Estou pecando senhor Sampaio por pedir a Deus pela morte do meu pai? Ele mora no meu apartamento e de jeito nenhum deseja sair para um canto seu. Pensei tanto em fugir pra longe, porém, não seria justo, amo essa cidade e quero passar minha vida inteira morando nela, portanto, desisti de tentar enfrentá-lo, estou simplesmente cansada de ter feito de quase tudo para tirá-lo da minha vida em vão.

Após aquele desabafo difícil minha assistente desabou na minha frente. A garçonete me entregou meu capuchino toda sem graça, por conta de ver minha companhia chorando.

- Sempre pensei que todos os seus machucados fossem causados por algum namorado abusivo. Agora sabendo a verdade, vejo que é mais complicado do que imaginei. Por que não mora em outro lugar? Não precisa sair da cidade.

- O senhor quer saber por que não desisti ainda do meu apartamento? Porque ele é meu, passei tantas necessidades para poder comprá-lo do jeitinho que sonhava. Não leve a mal meu comentário, mas meu salário mal dá para as despesas. Como posso pagar o aluguel de outro lugar? Para morrer de fome? Sim, meu pai tira meu dinheiro, contudo, é menos do que gastaria me mudando por medo dele.

Aquela conversa começou a me deixar nervoso. Ela era dura como uma porta e teimosa. Será que ela queria um aumento de salário? Olhei desconfiado pra ela. Eu não pagava tão mal assim, ou pagava? Me questionei, coçando a nuca. É, talvez eu não fosse o mais generoso com meus funcionários, todavia, preferia fingir que não tinha nada errado com o valor do salário deles.

- Mas você pode morar com uma amiga durante um tempo. Tenho certeza que uma das suas amigas, vai te ajudar nessa questão de moradia.

Não era pra ser engraçado o que havia falado, entretanto, Flávia riu.

- Uma das minhas amigas? Não tenho sequer uma vida social! Por que não sugere que eu more logo debaixo da ponte? Tem uma perto do mar que é bem alegre, os mendigos que vivem ali estão sempre fora de órbita...

Era sarcasmo que ela acabara usando comigo? Como ela não tinha nenhuma amiga? Mulheres tinham sempre uma melhor amiga e ela não? Não sabia mais que solução dar para seu caso.

- Vejo que nossa conversa não vai chegar em nenhum lugar, portanto, por enquanto, preciso de um tempo para pensar como te ajudar, porque vou te ajudar, Flávia de algum jeito.

Seria um desafio ajudá-la a se livrar daquele remendo de homem que era seu pai, porém, não era impossível. Não era questão de ser bonzinho ou de tirar proveito da minha assistente, apenas não queria que o pior viesse ocorrer se ela continuasse sendo surrada e humilhada pelo próprio pai. Se eu queria ser um herói? Longe disso! Eu era somente alguém que estenderia a mão ou até mesmo o braço para salvá-la.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022