No mesmo dia em que vi a entrevista de Jared Stanley, eu entrei com o processo de divórcio e me mudei da casa que compartilhei com ele por três anos.
Nessa entrevista, Jared disse que seu maior arrependimento na vida foi que, em uma situação de risco de vida, protegeu instintivamente o que chamou de seu mais precioso "tesouro nacional."
O "tesouro" que ele protegeu não era eu, sua esposa de papel passado. Mas sim a sua "frágil" colega de trabalho, Bailee Brooks.
Dois dias depois, na coletiva de imprensa para a cúpula do G20, o mesmo repórter me fez a mesma pergunta.
"Senhora Quinn, como uma intérprete simultânea de primeira linha, qual é o princípio profissional do qual você mais se orgulha nesses anos de trabalho?"
Olhei diretamente para o meu marido, sentado na primeira fila.
"O que mais me orgulha nessa profissão é saber que meu marido arriscou a vida para proteger sua amante, e ainda assim foi capaz de, calmamente, como intérprete principal, transmitir com precisão as ordens que, no final, o salvariam."
....
"Kathy, você está vendo isso?" A voz da minha melhor amiga, Joyce Clarke, veio pelo alto-falante do telefone, tensa de raiva.
Eu estava no meu hotel, arrumando uma mala, com o telefone no viva-voz.
Na televisão, Jared estava no estúdio da TV Nacional, vestindo aquele terno azul profundo que passei inúmeras vezes.
O apresentador olhava para ele com admiração. "Senhor Stanley, a situação foi tão perigosa. Por que correu para proteger Bailee?"
Jared olhou seriamente para a câmera. "Na diplomacia, cada colega é um tesouro nacional, símbolo de nosso país e um ativo muito importante. Protegê-los é meu instinto."
O chat da live explodiu.
"Um verdadeiro herói ferido pelo país!"
"Jared é o tipo de homem para se casar!"
"É assim que um diplomata deve ser!"
Soltei uma risada fria, enfiando a última camisa na mala.
"Kathy, você está bem?" A voz de Joyce tremia.
"Estou bem."
Desliguei a TV, e a sala ficou em silêncio.
Três anos de casamento, resumidos em sua única palavra, "instinto."
O "tesouro nacional" que ele protegera não era eu, a intérprete principal que se destacara diante de diplomatas experientes na mesa de negociações.
Foi Bailee, a que "desmaiou" quando os tiros começaram.
Abri uma gaveta e tirei um pen drive criptografado. Nele estava a gravação completa do áudio da crise de reféns em Mayland. Incluindo todo o processo de Jared violando a disciplina operacional, quase matando todos em sua "heroica tentativa de resgate."
Então, meu telefone tocou e o nome de Jared apareceu na tela.
Recusei a chamada.
Tocou novamente.
Desliguei de novo.
Quando tocou pela terceira vez, atendi.
"Kathy, onde você está?" Ele parecia impaciente.
"Estou me mudando."
"Se mudando? Mas que absurdo é esse? Seja lá o que for, vamos conversar quando nos encontrarmos."
"Não há nada para conversar." Eu deslizei os papéis do divórcio para dentro da bolsa. "Só queria dizer que pedi o divórcio."
Um silêncio mortal do outro lado.
Demorou dez segundos para Jared falar. "Você ficou louca?"
"Não." Arrastei minha mala em direção à porta. "Nunca estive mais lúcida em toda a minha vida."
"Kathy! Sabe que horas são? A cúpula do G20 está prestes a começar. Por que essa birra sem sentido?"
Birra?
Parei.
"Jared, durante a crise de Mayland, trabalhei sem parar por 72 horas, traduzindo consultas de emergência para treze países."
"Eu sei que você trabalhou duro..."
"Você não sabe de nada," eu o interrompi. "Você tem ideia de como me senti? Ouvindo pelo fone de ouvido quando o Capitão Walsh deu a ordem para te resgatar?"
"Kathy..."
"Você sabe que minha mão tremia quando traduzi 'Evacuar imediatamente, alvo ferido' para o árabe?" Jared ficou em silêncio.
"Agora toda a internet está te elogiando como um herói," eu disse, empurrando a porta. A luz do corredor era intensa. "Então me diga, herói nacional. Quando você estava salvando a sua donzela em perigo, pensou em sua esposa uma só vez?"
"Eu..."
"Esqueça." Apertei o botão do elevador. "Não precisa responder. Eu já sei."
No momento em que desliguei, parecia que o mundo inteiro ficou em silêncio.
As portas do elevador se abriram. Empurrei minha mala para dentro.
Meu reflexo no espelho parecia calmo, meus olhos determinados.
Aos 30 anos, eu, Kathy Quinn, finalmente ia viver por mim mesma pela primeira vez.
Acabara de sair do banho no meu quarto de hotel quando meu celular começou a tocar sem parar.
A primeira chamada foi do assistente de Jared, Zayn Larson.
"Senhora Stanley, poderia, por favor, voltar para casa? O senhor Stanley ainda não se recuperou completamente do ferimento, e a senhora agindo dessa forma..."
"Zayn", eu o interrompi bruscamente. "De agora em diante, me chame de Kathy ou apenas de senhorita Quinn. 'Senhora Stanley' não é um título que mereço."
Desliguei. O telefone tocou novamente imediatamente.
Desta vez, era uma linha criptografada, uma ligação segura que não podia ser interceptada.
Atendi, e a voz de Jared veio mais irritada do que antes. "Kathy, o que diabos acha que está fazendo da sua vida?"
"Estou me divorciando de você", respondi enquanto secava o cabelo. "Achei que já tinha deixado isso bem claro da última vez."
"Será que você tem ideia de quantos repórteres estão lá fora agora? Essa sua birra tola que está fazendo vai arruinar minha carreira!"
Eu arruinaria a carreira dele? Por uma birra tola?
Parei de secar o cabelo, e disse, de forma mais calma que pude: "Jared, como você conseguiu aquele tiro na perna?"
"Eu estava salvando alguém..."
"Não, você violou a disciplina operacional e saiu da zona de segurança sem autorização de seus superiores." Minha voz estava tão fria que poderia ser confundida com uma gravação. "O relatório médico dizia que se o projétil tivesse perfurado somente 2, 4 milímetros para a esquerda, você ficaria paralisado do pescoço para baixo."
Podia ouvir sua respiração ofegante do outro lado.
"E," continuei, "eu tenho o áudio. Todo ele. As comunicações entre você e Bailee nos trinta segundos antes de você sair da zona de segurança."
Seguiu-se um silêncio mortal, como se o mundo inteiro tivesse parado de girar.
"Será que quer ouvir?" Perguntei, sentando-me à beira da cama, meu tom casual, como se estivesse conversando sobre algo trivial, como uma lista de compras. "'Não tenha medo, Bailee, estou indo te buscar.' 'Não vou deixar que você se machuque.' E meu favorito -'Assim que isso acabar, vou contar tudo para Kathy.'"
"Kathy..."
"O quê? Agora está se lembrando?"
A voz de Jared começou a tremer. "Aquelas... aquelas eram apenas palavras... eu agi impulsivamente..."
"Impulsivamente", soltei uma risada vazia. "Jared, você sabe o que significa profissionalismo no nosso trabalho? Eu estava no centro de comando e tive que ouvir aquela porcaria e ainda assim traduzir calmamente as ordens de resgate para você."
"Eu...", Jared hesitou, sem palavras.
Levantei-me e caminhei até a janela. "O mundo inteiro pensa que você é um herói. Enquanto você estava aproveitando toda essa fama, já pensou no que aconteceria com sua imagem de herói se esta gravação fosse divulgada?"
As luzes da cidade brilhavam lá fora, mas eu não sentia nada além de frio por dentro.
"Kathy, por favor. Vamos conversar e resolver isso de uma vez por todas. Tudo bem?" Pela primeira vez, havia um tom de súplica na voz dele. "Eu errei, eu admito. Mas..."
"Mas o quê? Você a ama?"
"Não..."
"Então o quê? Mas ela precisa de você? Mas ela é mais frágil do que eu?" Virei-me para o espelho, encarando a estranha refletida de volta para mim. "Ou é que estar com ela faz você se sentir mais homem, mais forte, mais jovem?"
Cada palavra atingiu seu alvo, cortante como uma lâmina.
"Kathy, só me deixe explicar..."
"Guarde essas explicações para você." Puxei as cortinas. "Amanhã, vou ao Ministério das Relações Exteriores. Vou formalmente me candidatar à posição de intérprete principal na Cúpula do G20."
"O quê?"
"Quero que o mundo inteiro veja o que é verdadeira integridade profissional."
Desliguei e bloqueei todas as informações de contato dele. A tela do telefone escureceu, e eu fiquei sozinha no quarto.
Sentei-me à beira da cama e, de repente, lembrei-me da nossa noite de casamento três anos atrás.
Naquela noite, Jared fez uma videochamada com Bailee em seu escritório até o amanhecer e eu tive que esperar na sala de estar a noite toda, ainda vestida no meu vestido de noiva.
Quando a manhã chegou, ele saiu e apenas disse: "Desculpe, a situação de Bailee era realmente urgente."
Naquela época, eu era tão ingênua que acreditei que era só trabalho. Olhando para trás, era ridículo.
Na manhã seguinte, recebi uma ligação do Ministro Julian Wilson.
"Kathy, venha ao meu gabinete, por favor."
Julian era meu mentor, um subsecretário no Ministério das Relações Exteriores.
Seu gabinete ficava no último andar do prédio do Ministério. Quando entrei, ele estava revisando alguns documentos, atrás de uma mesa repleta de papéis soltos e livros.
"Sente-se", disse ele, assim que me viu. Ele indicou o sofá. "Chá ou café?"
"Só água, por favor."
O Ministro me serviu um copo e depois se acomodou na cadeira em frente a mim. "Então, me conte o que está acontecendo."
"O que está acontecendo?" Eu não me contive. Contei tudo sobre a crise em Mayland, incluindo as gravações, derramei sobre ele tudo que sabia até aquele momento.
Porém, o Ministro apenas ouviu em silêncio, o rosto sem reação alguma. Quando terminei, ele ficou em silêncio por um longo momento.
"Kathy, você já passou por muita coisa e eu sou testemunha disso."
Suas palavras me desarmaram, e as lágrimas começaram a brotar.
"Ministro Wilson, acha que perdi tudo?"
"Perdeu tudo?" Julian balançou a cabeça. "Você é a melhor intérprete que já conheci em toda minha carreira. Sem você, as consequências da crise em Mayland seriam inimagináveis, poderíamos ter entrado em um conflito armado."
"Mas eu não consigo nem lidar com meu próprio casamento, não consigo nem..."
"Casamento não é como um emprego, Kathy. Não é algo que se possa ter sucesso apenas se esforçando sozinho. É uma empreitada de duas pessoas adultas." Julian levantou-se e caminhou até a janela. "Sempre tive a sensação de que havia algo errado com Jared desde o começo."
Olhei para cima. "Ministro, o senhor já sabia?"
"Um homem que realmente ama sua esposa não a deixa carregar o peso de todas as funções diplomáticas sozinha." Julian se virou para me encarar. "Kathy, sabe o que os delegados dos outros países disseram sobre você após a última Assembleia Geral da ONU?"
Balancei a cabeça.
"Disseram que nós temos tem a melhor intérprete do mundo." Julian voltou e se sentou. "Quanto a Jared? Aos olhos deles, ele é apenas mais um diplomata comum."
Suas palavras me surpreenderam.
"Então, sobre a posição de intérprete principal na Cúpula do G20..."
"Se você quiser, é sua." Julian disse sem hesitação. "Mas Kathy, você está certa disso? Jared também estará presente nessa reunião."
"Tenho certeza, Ministro."
"Certo." Julian assentiu. "Então eu tenho apenas uma condição."
"Diga."
"Não importa o que aconteça, os interesses do país vêm em primeiro lugar. Esqueça interesses pessoais."
"Eu entendo."
Quando saí do gabinete do Ministro Julian, encontrei Robert Walsh no elevador.
Ele estava em seu uniforme tático preto, sua insígnia policial brilhando sob as luzes.
"Senhorita Quinn," ele me cumprimentou com um aceno curto.
"Capitão Walsh."
A viagem de elevador foi silenciosa, preenchida apenas pelo zumbido das máquinas.
"Ouvi dizer que você será a intérprete principal para o G20 deste ano," ele disse.
"Sim."
"Parece que vamos trabalhar juntos novamente." Robert olhou para mim e disse: "Estou à frente da segurança da cúpula."
As portas do elevador se abriram e eu saí.
"Capitão Walsh." Virei-me para ele. "Obrigada. Pelo que você fez em Mayland..."
"Apenas cumpri meu dever." Ele interrompeu, "Não precisa agradecer."
As portas se fecharam, cortando a visão de sua figura resoluta.
De repente, lembrei-me da crise em Mayland, quando todos pensaram que eu estava prestes a desmoronar, e foi apenas a voz de Robert no canal que disse: "Senhorita Quinn, mantenha-se firme. Temos mais cinco minutos."
Sua voz foi minha luz guia na escuridão.