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O filho favorito do Rei

O filho favorito do Rei

Autor:: MarcySaraiva
Gênero: Romance
Lyrian acabara de completar 17 anos e estava finalmente sendo enviada para seu destino, traçado ainda no ventre da sua mãe: casar se com o príncipe da Bessarábia, Thomaz. A princesa Ucraniana da linhagem Douwey, sexta de uma prole de 8 filhos, não devia reclamar ou se rebelar, sabia que seu destino e única utilidade no mundo era um acordo de paz entre os reinos, mas estava profundamente contrariada. James Balan tinha uma vida até que tranquila, para um filho bastardo do rei. Aos 21 anos, dividia seu tempo entre os treinamentos do exército e a cama das meretrizes, pouco se importando com as mazelas da política. Odiava profundamente seu pai, mas amava com a mesma intensidade seu irmão Thomaz, o próximo da linha de sucessão, então suportava as obrigações reais apenas por ele.

Capítulo 1 E fez se luz

James abriu os olhos azuis completamente contrariado. A dor logo tomou conta da sua cabeça, fazendo seu estômago revirar, e ele se odiar, já que mais de uma vez já havia prometido a si mesmo não entrar de cabeça na garrafa de hidromel. Aquilo tinha um raro poder sobre ele: tirava-lhe toda a timidez e lhe causava uma terrível ressaca no dia seguinte.

Ele não era um homem fraco para bebida, raramente lhe causavam algo a mais que uma leve e passageira alegria e talvez um rubor nas faces, mas aquela bebida, muito popular entre os aldeões, verdadeiramente lhe derrubava. E o pior, é que geralmente ele acabava em alguma confusão sempre que a bebia.

Piscou várias vezes os olhos, se acostumando a claridade e pôde reconhecer onde estava: em algum dos quartos da Red Mèrcet, uma estalagem pouco elegante da capital. Sentou-se na cama e percebeu dois pares de pernas femininas enroladas ao lençol grosseiro.

As donas das pernas dormiam profundamente, e não seria ele a acordá-las. Levantou-se com cuidado e procurou sua camisa e suas botas, que estavam jogadas pelo quarto. Vestiu-se rapidamente e saiu do quarto, deixando uma boa quantia de moedas na mesa de cabeceira, talvez mais do que as mulheres ali dormindo estivessem acostumadas a receber pelos seus serviços.

Deu alguns passos pelo corredor e foi inesperadamente puxado pelo braço direito para dentro do quarto vizinho. Em apenas alguns segundos, James segurava seu raptor, apertando contra sua garganta a lâmina afiada de sua adaga. Então reconheceu os cabelos vermelhos e os anéis de ouro do meio irmão, e o soltou imediatamente.

- Futu-i Thomaz. Me deu um susto enorme. Podia ter me chamado, nem estava lembrando que você tinha vindo junto ontem.

-Shiiii... Fala baixo, Jay. Estou encrencado... – o mais novo parecia realmente apavorado.

Então James olhou para o meio irmão, vestido apenas com camisa, o cabelo vermelho desalinhado e duas grandes sombras abaixo de seus olhos. Em segundo plano, atrás dele, uma bela garota, loira e com a pele muito clara e macia, pouco condizente com a prostituição, dormia suavemente sobre a cama, logo abaixo dela, no lençol branco, uma mancha de sangue já um pouco seca...

-O que você fez com a garota, Thommy! Você sabe que eu já tirei você de muitas encrencas, mas como vamos sair dessa estalagem carregando um corpo sem ninguém perceber? – vociferou tentando manter o tom de voz ainda baixo que só o irmão pudesse ouvi-lo.

-N-não é nada disso – Thomaz tinha os olhos perdidos em algum lugar no tempo ou no espaço, enquanto James amassava os cabelos loiros escuros e sob os dedos, absolutamente atordoado com a preocupação.

-Seu pai vai me matar, e depois vai te deserdar... Como você pode ir dormir com uma prostituta e matar ela?

-Prostituta? – uma voz confusa e suave interrompeu a bronca de James – quem matou uma prostituta?

Os dois viraram ao mesmo tempo e encararam a garota, agora sentada na cama, meio enrolada nos lençóis, com uma longa e encaracolada cabeleira loira descendo sobre os ombros. Sua face estava muito rubra, fosse pela vergonha ou pela força do ódio com que ela os massacrava com o olhar.

E então o entendimento fez a cabeça de James doer ainda mais. Lembranças da noite anterior vieram à tona. O pedido do irmão já bêbado, a ida até a casa da garota, o caminho de volta à estalagem. A dança. A bebida. Tudo começou a fazer o estômago de James revirar.

-Seu pai vai te matar. Você sabe disso! – James tentou pensar em alguma coisa enquanto andava pelo quarto e o irmão conversava algo com a garota. Ele tinha razão de estar desesperado. Se ele tivesse matado uma prostituta, por mais terrível que fosse, o pai poderia tapar a boca de testemunhas com dinheiro, que não lhe faltava, ou com ameaças, já que era o maldito rei.

Mas Thomaz havia deflorado uma virgem. E ainda pior, não era uma simples virgem camponesa, tratava-se da única filha do Duque de Prior, amigo íntimo do rei e grande proprietário de terras. A mãe da menina havia morrido durante o parto e o duque nunca havia se casado novamente, dedicando a vida a cuidar dos negócios e da filha única.

A noite passada, a noite de jogos do rei, enquanto todos estavam se divertindo em jogatina e bebedeira, o herdeiro e o bastardo do rei haviam saído furtivamente do palácio, sequestrado a filha do Duque e participado de uma festa na aldeia. Tudo sem o conhecimento do rei.

-Eu sei o que está pensando. Mas eu vim porque eu quis. Sou apaixonada pelo Thommy desde que nos conhecemos, ainda crianças...

-Vocês ainda são crianças – James a cortou antes que pudesse dizer mais algo.

-Falou o irmão 3 anos mais velho...

-Meio irmão. Eu tive a sorte de ser o filho da concubina do rei. Só isso. – deu de ombros, sem querer comentar sobre o assunto.

-Já disse que vim por vontade própria, se os dois me derem licença vou me vestir e voltar pra casa.

-As coisas não funcionam assim, senhorita. Se alguém mais souber o que houve aqui, você estará arruinada, e provavelmente o acordo de paz com o casamento do Thomaz também.

A garota olhou para o príncipe e seus olhos ficaram marejados.

Thomaz também ficou instantaneamente triste e quase amoleceu o coração do irmão. Ele claramente não queria o casamento arranjado.

-Vamos tentar resolver isso. Fiquem aqui e não saiam – disse fechando a porta atrás de si.

*

Assim que a porta foi fechada, Thomaz se aproximou da cama e deu um beijo casto nos lábios de Isobel.

-Você sabe que não quero me casar com ela. Mas não sou dono de mim.

Isobel fechou os olhos em resignação e soltou um breve suspiro. Era o preço de estar apaixonada por um príncipe.

-Eu sei disso. Mesmo assim, não é fácil pensar no que será amanhã.

-Pensaremos no amanhã, amanhã... Por hoje quero apenas pensar que você é minha – falou no meio dos seus cabelos.

Isobel sentiu um breve alívio, mas logo algo lhe incomodou:

-Ela é bonita? Sua noiva? – perguntou triste.

-Não mais que você – Thomaz a abraçou – só a vi uma vez quando foram assinados os acordos, éramos bem pequenos, mas me lembro dela não ter nada de especial. Parecia uma menina comum, muito tímida e estranha.

Isobel apenas assentiu com a cabeça e ambos ficaram abraçados em silêncio quando a porta se abriu e James entrou com uma grande capa preta feminina, bastante velha, e lhe entregou.

-Vista-se vamos sair pelos fundos. O capitão do Lorde Prior acaba de chegar na estalagem, não podemos ser pegos.

*

Após deixar a filha do conde no bosque ao lado de sua casa, James observou até que ela estivesse em segurança em casa, e então voltou a companhia do irmão que esperava oculto na estrada.

Cavalgaram em silêncio por um longo tempo, até que Thomaz emparelhou seu garanhão ao de seu irmão.

-Não há nada mesmo a fazer? – questionou Thomaz, no fundo já sabendo a resposta.

-Não entendo muito de política, ou de leis, você sabe que sou um homem de armas, não de livros. Mas conheço a lei da honra da palavra de um homem, e sei que esta não deve ser desfeita –James afirmou, desanimado.

-Por Deus! Não fui eu quem empenhou minha palavra! Não é justo que tenha eu de cumpri-la... – o jovem príncipe estava visivelmente revoltado.

-Sua posição de sangue real te impede de tomar suas próprias decisões, você sabe disso. Quem nasce na realeza não pertence a si mesmo, mas pertence à vontade do povo... – disse James imitando a voz do monarca. Não havia diversão em sua voz. Apenas um pouco de amargura.

- Você também é da realeza, James. Nem por isso vejo você seguindo essas malditas vontades do povo.

- É diferente. Eu não sou da família real. Sou um bastardo. Não sou o herdeiro do trono.

-Mas deveria, já que é o primogênito do rei – Thomaz sabia onde essa conversa chegaria, ainda assim provocava o irmão.

-Chega dessa conversa –cortou– se quer chegar antes que alguém note a sua fuga, precisa aprender a cavalgar como um homem.

Antes que o irmão pudesse responder, instigou o mustang negro e tomou rumo do castelo, enquanto o jovem príncipe tentava o alcançar.

*

James entrou na antessala dos aposentos reais sem ser anunciado. Apenas cumprimentou a guarda na porta e empurrou a pesada porta. O rei encontrava-se sentado na banheira de costas em direção à porta, e um delicioso aroma de ervas se erguia no vapor.

Puxou uma cadeira da escrivaninha e sentou-se, deixando o barulho do arrastar da cadeira anunciar sua chegada.

Domenicus II fez um breve gesto, e a criada que lhe servia na banheira rapidamente se levantou, as roupas molhadas deixando ver suas formas quase esqueléticas. Sem uma palavra a criada enrolou-se aos trapos que chamava de vestido e saiu pela porta lateral do aposento.

Apenas um gesto com a mão e um criado, muito pálido, entrou com o roupão do rei, ajudando-o a se vestir. Depois, saiu dos aposentos tão silencioso quanto entrara.

-Vossa majestade precisa mesmo de criadas tão jovens para satisfazer sua lascívia? Essa menina não tem mais que 15 anos – James externou sua repugnância.

-Vejo que tem seguido meus conselhos e colocado pra fora suas opiniões, meu filho – disse abrindo um franco sorriso – só não se acostumou ainda a me chamar pelo que sou: seu pai.

-Não me sinto à vontade para isso – foi sincero – mas diga-me, por que mandou me chamar?

-Ainda espero ouvir você me chamar de pai, assim como você fazia na infância. Nada mudou – disse convicção o rei – mas agradeço que tenha vindo tão rapidamente. Notei que não passou a noite de jogos conosco – James podia ouvir seus próprios batimentos, o medo de que o pai soubesse o que havia ocorrido na noite anterior o corroía – nem Thomaz. Sei que devem ter se entediado com os velhos, mas prefiro que estejam presentes para aprenderem mais sobre política.

James soltou o ar, que nem notara que estava prendendo, e apenas assentiu.

-Já que não estavam aqui, acabaram não sabendo da notícia – o rei caminhou até a escrivaninha a frente de James, pegando uma carta com o selo da família real ucraniana – a noiva de seu irmão deve chegar amanhã ao porto. Preciso que prepare um destacamento para a segurança da princesa. E preciso da sua presença para recebê-la no castelo.

James ficou um tanto confuso, uma vez que, sendo um bastardo, não fazia parte da família real para precisar recepcionar ninguém.

Como sabia ler seu filho como ninguém, Domenicus completou:

-Já disse que você precisa se habituar à política. Tudo isso faz parte.

-Certo. Estarei lá – concordou com um muxoxo de desgosto – mais alguma coisa, senhor?

-Sim. Peça ao Antomnus que venha até aqui. Preciso que prepare os aposentos para a princesa.

O rapaz saiu do quarto real bastante contrariado e após avisar ao mordomo real que atendesse ao rei, bateu à porta do irmão.

-Já sabe que sua noiva chega amanhã? – disse, colocando a cabeça pela porta entreaberta do quarto.

-Sim. Parece que ela virá com o próprio navio – Thomaz fez uma cara de desgosto – pode imaginar uma princesa com seu próprio navio?

-Dizem que ela é bem excêntrica –James riu, assentando-se a vontade na cadeira.

-Você diz excêntrica para não dizer louca, né? –ambos riram, mas logo James ficou muito sério.

-O que você pensa em fazer com Isobel?

-Eu a amo. E não temos culpa desse acordo. Também não posso desapontar nosso pai – Thomaz estava visivelmente desanimado – mas ainda tenho esperança de encontrar uma saída.

-Thommy, não pode condenar Isobel a uma existência como a da minha mãe. Você sabe que isso aconteceu com eles, você está tentando repetir os mesmos erros do seu pai.

-Não, irmão. Eu jamais faria isso com Isobel. Mas talvez eu possa fazer minha noiva me repudiar antes do casamento. Uma parte do acordo é que ela só se casará aos 18 anos, e ela deverá aceitar por livre e espontânea vontade. Por isso ela ficará conosco esses 8 meses, para que possa decidir se aceita se casar comigo. Meu plano é fazê-la desistir.

James ouviu o plano do irmão em silêncio pelos próximos três quartos de hora, era um plano elaborado e talvez, apenas talvez fizesse algum sentido.

Capítulo 2 Os ventos que te levam

O sol estava quase a pino, e Minerva já havia pela segunda vez chamado sua senhora para que saísse da água e fosse para a sombra, ou seu noivo a confundiria com uma camponesa, com a pele queimada pelo sol.

Lyrian apenas mergulhou novamente, agora chegando até a cachoeira e sentou-se sobre uma pedra, sentindo a brisa ainda fria de março fazendo sua pele empolar de arrepio. A maior parte do ano, aquelas águas eram praticamente congelantes, impossível nadar, mas Lyrian não sabia se um dia voltaria a nadar nelas, então queria aproveitar o máximo de tempo possível nelas.

Olhou para a criada sentada embaixo da tenda e apenas acenou.

Minerva era sua melhor amiga, quase como sua mãe. Quase porque sua mãe não se importava tanto com ela quanto a criada.

Sendo a sexta de oito filhos, praticamente não tinha importância nenhuma. Quatro de seus irmãos mais velhos já eram casados (três homens e uma mulher), e a sua irmã mais velha solteira provavelmente nunca se casaria.

Virgínia sofria dos nervos e tinha uma saúde extremamente frágil desde que nascera. Por esse motivo, ao invés de comprometer a filha que já havia nascido com o herdeiro do rei, o pai providenciara mais um rebento, e torcera muito pra que fosse uma menina saudável, para que se firmasse o acordo de núpcias. Um rei jamais se arriscaria a casar o seu herdeiro com uma mulher de saúde frágil que talvez nunca pudesse lhe dar filhos, e aquele acordo era de grande importância para os dois reinos.

-Maldito acordo – resmungou Lyrian, especificamente para ninguém.

-Tudo depende das partes – uma voz conhecida falou baixo perto dela, a fazendo saltar na água, se cobrindo até o pescoço.

-Que susto, Enrico. Quase me matou.

O jovem cavalariço observou a criada conversando com Virgínia sob a tenda, ambas distraídas com o bordado, e entrou na água, tomando o cuidado de ficar oculto atrás das pedras do rio.

-Você vai mesmo amanhã? –perguntou triste.

-Preciso ir. Se eu pudesse te levaria também, mas você sabe que esse castigo é só meu – suspirou a princesa – parto amanhã, e se os ventos estiverem bons, chego lá em três noites.

-Sempre tem como fugir pelo mundo, você tem seu navio.

-Por isso estou levando ele – riu. Não seria má ideia fugir pelo mundo com seu melhor amigo de toda a vida.

Enrico se aproximou mais de Lyrian, o calor que emanava do seu corpo aquecia a água ao redor dele.

Naquela distância ele podia ver sob a água, o corpo tenro e absurdamente chamativo da princesa. A roupa que ela usava não fazia muito para esconder os bicos dos seios duros, fustigados pelo frio da água, e quem sabe, da tensão sexual que pairava entre os dois nos últimos anos. Ele a conhecia desde que nascera.

Tinham 6 anos de diferença, mas haviam se tornado grandes amigos e praticamente inseparáveis.

Inseparáveis até o irmão mais velho de Lyrian flagrar os olhos famintos de Enrico em direção da princesa, e ordenar que os dois não mais se vissem, ou o cavalariço seria expulso do castelo. Desde então, os dois se encontravam de forma furtiva, durante as caminhadas da princesa pela floresta ou as cavalgadas pelo campo. Sempre mantendo distância segura. Agora não. Estava mais próximo que nunca. E logo estaria mais longe que nunca esteve antes.

-Você sabe que iria com você a qualquer parte. Basta uma palavra – pegou uma mecha de cabelo escuro e colocou atrás da orelha da princesa.

Lyrian sentiu um estranho formigamento com a proximidade de Enrico. Sua respiração estava pesada, e ela podia sentir o seu hálito na sua face, a fazendo corar.

Os olhos verdes do rapaz estavam fixos nos seus, e ela por um momento permitiu que seus olhos vasculhassem o peito forte, moldado pela camisa molhada.

Enrico se tornara um homem muito bonito ao longo dos anos. Pela proximidade que tinha em idade e gostos por cavalos, Enrico se tornara muito amigo de seu irmão Hector, segundo na linha de sucessão do trono e sete anos mais velho que Lyrian, e como ela e Hector foram inseparáveis na infância, Enrico acabou se tornando seu melhor amigo.

Foi ele que a ensinou a cavalgar, tornando-a uma exímia amazona. Foi ele também que convenceu seu irmão a deixá-la aprender esgrima e tiro, com a desculpa de que ela iria viver muito longe do irmão e precisava aprender a se defender. Foi ele também que a ajudou a convencer o pai e o irmão mais velho Vincent a dar-lhe de presente de 15 anos uma fragata com tripulação própria. E agora ele estava ali, muito perto dela, fazendo com que seu corpo tivesse sensações novas e perigosas.

-Ainda tem muita coisa pra aprender, micuta* (pequena) – sua voz estava rouca e perigosamente próxima, fazendo com que uma sensação totalmente nova tomasse conta do seu baixo ventre.

Sem apresentar resistência, a princesa deixou que Enrico a empurrasse contra uma grande pedra dentro do rio, prendendo seu corpo ao dele, colocando estrategicamente uma perna entre as suas coxas. Ele percorreu as laterais do seu corpo sob a água, sem tirar olhos verdes dos seus.

Lyrian era um bom palmo mais baixa que o cavalariço, mas este a tomou pela cintura, erguendo-a dentro d'água e empurrando seu quadril contra o dela, a prensando contra a pedra fria. Quando seus lábios se trocaram, Lyrian instintivamente levou suas mãos aos cabelos cacheados da nuca do rapaz, o fazendo arfar, e fazendo com que o volume preso entre o quadril dele e sua coxa esquerda pulsasse. A mesma sensação a alcançou entre as pernas, e ela se sentiu assustada, porém curiosa.

Desceu a mão direita pelas suas costas, contornando os músculos tensos, enquanto a língua do rapaz explorava com exatidão os pontos sensíveis da sua boca.

Quando a mão curiosa da princesa alcançou o cós da calça de Enrico, o rapaz gemeu baixo contra a boca dela, e num sobressalto, mergulhou nas águas geladas, a tempo de uma Lyrian completamente confusa, avistasse o pai e meia dúzia de cavaleiros que desciam pela margem contrária do rio. Ainda com o rosto em brasas, a princesa nadou rapidamente até a margem onde a irmã e a criada se distraiam com um bordado, enquanto seu pai e a pequena comitiva se aproximavam.

Ao avistar a filha dentro da água, o rei pediu que seus acompanhantes ficassem onde estavam e se aproximou do local onde a garota se banhava.

-Oi Papa – a menina tentou disfarçar a surpresa – onde estão indo?

-Lyrian, ponha uma roupa. Meus convidados por pouco a viram nua – o rei começou em tom ríspido, mas não conseguia ser severo com aquela sua filha mais teimosa e impulsiva – estamos voltando do Klarabella, quis inspecionar pessoalmente a preparação dele para sua viagem. Encontrei o Conde de Kiev e sua filha, que estavam a caminho para o palácio para se despedirem de você. Vista-se e venha.

A princesa assentiu, e disfarçadamente olhou para o ponto em que Enrico submergira, alguns metros adiante. Ele devia ter se escondido muito bem, pois não havia nem sinal dele no rio ou nas margens. Lembrar dele a fez corar novamente, mas ela rapidamente vestiu o roupão que Minerva trouxe até a margem e saiu para terminar de se vestir. Seu pai e a comitiva já iam longe pela estrada.

*

O caminho de volta foi com uma Lyrian estranhamente silenciosa, o que fez Virgínia ficar curiosa e perguntar diversas vezes o que havia acontecido. Mas a princesa não estava disposta a contar seus arroubos com o cavalariço para a irmã mais velha, mesmo que a amasse demais.

-Só estou triste por te deixar –não mentiu – você sabe que amanhã eu partirei.

-Então não me deixe –suplicou a irmã – pode me levar com você, ninguém sentirá minha falta.

-Eu te amo, Viggie – abraçou a irmã magra e alta, passando seus braços pelo corpo esguio – e é por isso que não quero te levar comigo para o inferno.

Os olhos cor de mel de Virgínia piscaram várias vezes, mas enfim ela entendeu o que a irmã mais nova quis dizer.

Rumores diziam que o seu futuro sogro era um homem horrível, que seduzia e explorava mulheres, e escravizava pessoas. Ele teria um filho bastardo, que obrigava a rainha a conviver, mesmo sendo um fruto do pecado, e ainda mantinha sua concubina sob o mesmo teto que a esposa.

Ser mulher em qualquer país era um verdadeiro inferno, mas pelos boatos, ser uma rainha na Bessarábia era muito pior.

Virgínia preferiria morrer a estar no lugar da irmã, então manteve o silêncio até que chegaram ao palácio.

*

O jantar de despedida de Lyrian seguia tranquilo. Kéfera, filha do Conde de Kiev e amiga de Lyrian estava empolgada com a viagem da amiga, bem mais que a própria. A todo tempo falava das belezas e das riquezas que certamente o príncipe a presentearia. Mas Lyrian só pensava no quanto odiava esse país antes mesmo de o conhecer, e no beijo de Enrico que ganhara mais cedo.

Vendo a filha tão cabisbaixa, Darius se dirigiu enfim a ela:

-Mostre-se mais animada, Lyrian. Seu casamento será conforme nosso acordo, em oito meses. Você sabe que só se casará se estiver de acordo com o casamento, mas espero que você pese muito bem sua decisão, afinal é a paz entre dois reinos que está em jogo.

-Sim meu pai. Só estou triste por ficar longe de minha irmã – Lyrian estremeceu ao pensar que uma recusa sua colocaria em risco todo um acordo de paz.

-Me deixa ir com ela, Papa. Posso fazer companhia a ela até o casamento. Quando vocês forem para a cerimônia, eu volto com vocês. Assim a Lyrian não se sentirá tão sozinha.

Um burburinho subiu entre os presentes e por um momento Lyrian pensou que o pai ficaria possesso.

-Pode ir. Mas voltará conosco após a cerimônia – concluiu o rei após um minuto de raciocínio.

Lyrian e Virgínia se abraçaram felizes e correram para o quarto, para organizar a viagem. Era a primeira vez que as duas viajariam juntas.

*

O sol já pintava os primeiros raios da aurora no céu, mas Lyrian não havia dormido. Primeiro pensando na sua vida dali a diante. Depois, pensando no beijo. Enrico nunca havia demonstrado qualquer interesse por ela, ou ela nunca percebera.

No entanto, mesmo tendo sido o primeiro beijo da garota, ela pôde sentir a urgência e o desespero daquele beijo. Ele a desejava. Olhou mais uma vez para o céu, em poucas horas estaria em alto mar, a caminho do seu destino, e muito provavelmente nunca mais voltaria a ver Enrico.

Ouviu o som dos galhos da figueira raspando o vidro da janela, e levantou-se num sobressalto ao reconhecer a silhueta de Enrico na sua janela. Vestiu o robe e abriu a tranca, permitindo que ele entrasse em seu quarto, como quando eram crianças.

-Você sabe que se alguém te pegar aqui você está morto.

-Vale a pena arriscar – disse, se aproximando dela.

Em choque pelo reconhecimento que ele a beijaria de novo, Lyrian de súbito se afastou, colocando uma mão espalmada sobre o peitoral perfeito do seu amigo de infância.

-Eu não posso fugir do meu destino, Rico. O futuro de dois reinos dependem da minha decisão – ela olhou para a própria mão, e pode sentir os batimentos descompassados de seu coração sob seus dedos.

Arrebatado pelo entendimento, ele sentou-se no chão, e arrastou-a para um abraço terno e amigo, enfiando o nariz entre seus cabelos macios.

-Eu te entendo. Mas não concordo.

Na próxima hora os dois conversaram e se despediram, e antes que Minerva batesse a sua porta, Lyrian enxugou sua última lágrima. Ela precisava partir.

Capítulo 3 Sangue e água

O sol acabara de nascer e o Klarabella deslizava tranquilo sobre as águas. O porto de Bessarábia já podia ser visto, mais três quartos de hora e já seria possível desembarcar.

Lyrian não pregara os olhos durante essa última noite no mar, por mais que gostasse de navegar. As incertezas martelando na sua mente como um pêndulo, o beijo de Enrico ainda vivo na sua memória. Porque ele tinha que ter feito aquilo logo agora?

Ela sabia desde sempre do seu compromisso com seu reino. O acordo de paz que fora selado com seu nascimento e que seria firmado com seu casamento, daqui a oito meses. Sempre soubera que não teria uma outra alternativa, então se conformara em pensar que jamais saberia o que era se apaixonar, escolher alguém e se entregar a esse amor. Mal sabia ela que o coração não escolhe por quem se apaixonar.

-Um cent pelos seus pensamentos... - Hector surgiu do nada, a trazendo de volta dos seus pensamentos.

-Já fui mais valiosa - rebateu - acordado uma hora dessas, irmãozinho? Não havia bebida suficiente ontem a noite?

-Você sabe que estou aqui como representante da sua família nesse acordo. Você mesma preferiu que fosse eu a vir ao Vincent... Eu te amo, irmãzinha, mas preferia estar em casa dormindo com a minha bela e jovem esposa...

-Que você mesmo pôde escolher. Você acha justo que eu não possa?

-Justo, sinceramente não acho mesmo, mas necessário. Vincent, Étienne e Hernie também não escolheram seus pares e estão muito felizes. Talvez seja mais fácil se você tentar gostar dele pelo menos um pouco antes do casamento. Vocês terão algum tempo para se conhecerem, e os acordos nupciais dizem que os dois devem estar de acordo.

-Hector, você sabe que eu não posso desapontar nosso pai. Ele me mataria.

-Talvez seu noivo não seja uma pessoa ruim. Você mal o viu quando eram crianças.

-Vou me vestir apropriadamente. Espera-se que uma princesa chegue vestida com algo mais elaborado que um vestido de viagem. Com licença - Lyrian revirou os olhos e deu um leve esbarrão no irmão.

*

Dentro de sua cabine Lyrian esperava pacientemente Minerva apertar os laços de seu espartilho enquanto Virgínia calmamente bordava, já pronta. A cada puxão ela odiava mais ter nascido mulher e ter de se submeter ao uso de tais instrumentos de tortura.

No terceiro ou quarto puxão, ouviu-se um estrondo e um brusco chacoalhar da embarcação, que fez com que Lyrian se desiquilibrasse e caísse sobre a valise aberta sobre a cama. Gritos inteligíveis e um rumor tomou conta dos corredores, sons de luta e gritos abafados.

Lyrian empurrou Virgínia para o reservado do quarto, e deu ordens que Minerva trancasse a porta por dentro e só abrisse se ela ou o irmão chamasse. Pegou sua gládio e abriu a porta da cabine, quando Minerva a impediu.

-Minha senhora não pode sair em roupas brancas. Cubra-se ao menos -disse, ajudando-a a vestir uma capa carmim - Seu pai vai me matar se souber que eu permiti que saísse da cabine nessa situação. Tome cuidado, menina.

-Sim Minerva, cuide da Viggie.

A princesa saiu pelo corredor escuro, esgueirando-se pelas sombras. Ao chegar ao convés, uma verdadeira balbúrdia acontecia.

Sua tripulação e guarda lutava contra uma dúzia de homens que haviam invadido a embarcação, um navio de velas negras acostado à fragata era o ponto de apoio deles.

Os invasores, embora em menor número, lutavam com maestria. De onde estava, de repente, Lyrian viu surgir do navio de velas negras uma misteriosa mulher, de longos cabelos vermelhos. Ela usava uma capa preta, praticamente farrapos agora, e parecia assustada.

A princesa imediatamente imaginou que a mulher deveria ser uma prisioneira, e correu até ela. Ao chegar a proa, um dos homens a avistou e partiu para cima da princesa.

Habitualmente Lyrian seria mais lenta nos movimentos, uma vez que as roupas femininas eram pesadas e desconfortáveis, mas, uma vez que vestia apenas as roupas íntimas e uma capa, ela pode facilmente desviar do ataque e atingir seu agressor em cheio, derrubando-o.

Lyrian chegou até a mulher, que tentava passar pela prancha entre as duas embarcações, e ao pegar sua mão para lhe ajudar, imediatamente a mulher ficou com os olhos perdidos e embaçados.

-Quando a água em sangue se tornar, um amor mais forte que a guerra e mais potente que a morte nascerá. A águia descerá aos campos de trigo e o sangue testará sua pureza. O lobo protegerá a corça.

A princesa ficou confusa por um momento, tempo suficiente para auxiliar a mulher a descer da prancha para o convés, e ouvir o grito de Hector.

-Lyrian, não!

A garota virou-se rapidamente, a tempo de se defender do golpe certeiro do inimigo, levantando sua guarda. Mais leve e pequena que seu opositor, Lyrian saltou sobre a prancha que ligava as duas embarcações, fugindo de um contrataque e tomando uma posição de vantagem.

O homem tinha uma cicatriz profunda na face esquerda, e parte de seu rosto estava coberto por desenhos em tinta preta.

Ela desferiu dois golpes rápidos, um deles abrindo uma generosa brecha em seu braço esquerdo, e ele imediatamente sentiu. A vantagem da espada romana, curta e leve é a rapidez que pode-se manejá-la. A desvantagem é que você precisa estar mais perto do inimigo para atacá-lo, e Lyrian sentiu na pele essa desvantagem, no momento em que o homem com a tatuagem no rosto alcançou sua coxa esquerda, abrindo-lhe as vestes e a pele.

A dor veio rápida, e ela se sentiu fraca. A perna de apoio que a mantinha sobre a prancha fraquejou e ela sentiu seu corpo mergulhando em um baque surdo sobre as ondas.

Lembrou-se de puxar o ar pela última vez, e a dor o encontro de suas costas com a superfície da água a deixou completamente esgotada. Ao longe ela parecia ouvir seu irmão gritando. Ainda podia ver o borrão da ruiva à beira do navio, os cabelos ao vento.

Podia ouvir seu coração batendo cada vez mais lento. E então viu. À sua volta uma grande mancha vermelha, seu sangue se misturando à espuma do mar.

Parecia poético, seu sangue tingindo o mar de vermelho. O sangue real que todos diziam ser tão importante, no fim era tão vermelho quanto os outros.

*

Quando James chegou ao cais com o destacamento da guarda que levaria a noiva do irmão ao castelo, viu ao longe uma cena que o arrepiou. Um navio de velas negras abordava a fragata ucraniana que trazia a princesa. As embarcações estavam a cerca de um terço de milha do cais, muito perto para um ataque de piratas.

Imediatamente James ordenou que a guarda conseguisse uma embarcação pequena para ajudá-los. Os guardas remavam com agilidade, mas o peso do barco não auxiliava para que chegassem mais rápido. Quando o pequeno barco alcançava metade do caminho, James visualizou uma cena inusitada: uma mulher lutava bravamente contra um homem, e este a encurralava sobre a prancha que ligava os barcos. Ela com em golpe certeiro e preciso havia-o quase desarmado, mas ele revidara e acertara sua perna.

Como se o tempo parasse por um segundo, ele viu o corpo cair ao mar.

Sentiu imediatamente uma forte dor em seu peito, e um grito angustiado escapou de sua boca. O homem que a acertara agora lutava com outro homem, e o corpo da mulher parecia estar afundando lentamente no mar.

James arrancou a espada e as botas e lançou-se sobre as ondas.

O mar estava calmo naquele dia, mas o tempo parecia ser uma eternidade, a água parecia não querer permitir que ele chegasse até ela. Ele nadava com todas as suas forças, imaginando se ainda haveria tempo para retirá-la das águas.

Ao se aproximar, viu uma grande mancha carmesim sob a água.

Sangue se misturava à espuma do mar. Como o sol da tarde pinta de vermelho as nuvens brancas. Um mergulho e ele encontrou a dona da mão delicada, que ainda segurava bravamente sua espada, mesmo desacordada.

Usando o braço esquerdo, passou-o pelo peito da garota, trazendo-a para junto de si.

Quando subiu a superfície, o barco com a guarda já chegava. Uma escada de cordas já havia sido atirada ao mar e os soldados já subiam por ela.

James se aproximou nadando da pequena embarcação, e com a ajuda de dois soldados, colocou a garota a bordo, depois subiu.

A garota era bem jovem, tinha cabelos longos e escuros e lábios fartos e convidativos, apesar que no momento estavam brancos e sem vida.

-Por favor não morra... - pediu baixinho.

James pressionou algumas vezes seu peito, como tantas vezes já vira ser feito quando alguém se afogava, mas a menina não parecia responder. Repetiu algumas vezes sem sucesso e começou a se desesperar.

-Você não pode morrer sem me dizer seu nome.

-Você precisa sugar a água - sugeriu um dos soldados.

James olhou fixamente para aquela jovem mulher e imaginou que em outra situação adoraria tocar seus lábios. Por um momento imaginou se aquela valente garota, que lutava tão bravamente aprovaria ser tocada assim, desacordada.

Concluiu que não, mas era necessário. Então cobriu seus lábios macios com os seus, sugando a água que não permitia que ela respirasse.

A garota imediatamente começou a tossir, jogando fora uma grande quantidade de água, mas manteve-se de olhos fechados.

Então James baixou os olhos, e constatou que uma grande poça vermelha se formava no assoalho do barco. Ela estava ferida.

Abriu habilmente a capa e ficou surpreso ao perceber que ela usava apenas a capa e roupas íntimas.

Acompanhando a mancha vermelha na roupas brancas e finas, percebeu um grande corte na coxa esquerda, que imediatamente cobriu com a mão.

-Vamos. Me ajude tirar meu cinto.

O soldado imediatamente ajudou-o a tirar o cinto, e com habilidade, prendeu-o acima do corte, estancando a hemorragia.

-Vamos rápido, ou ela morrerá - disse, tirando os cabelos do rosto da menina - e você - se dirigiu ao segundo guarda - levem a princesa em segurança ao palácio o mais rápido possível.

O guarda saiu do barco e subiu rapidamente a escada, enquanto James tomou os remos e pôs-se a ajudar a colocar o barco em movimento o mais rápido que podiam.

*

Chegaram ao cais rapidamente. Uma grande quantidade de pescadores e uma parte da guarda real já esperavam no cais.

- Josh, precisamos de um médico imediatamente. Corra ao hospital e deixe-os avisados, vamos levá-la - o soldado rapidamente saiu a galope com o cavalo e James se preparou para tirar a moça do barco.

- Segure o barco, vou levá-la nos braços.

James passou os braços pelos joelhos da garota inconsciente e aninhou-a no próprio peito. Podia sentir por sobre as vestes, o corpo firme e quente da garota, e então o perfume da pele dela se instalou em suas narinas, fazendo-o perder o ar por um segundo.

"Porquê diabos estou atraído por uma garota que nem conheço, e pode até não resistir aos ferimentos?"- amaldiçoou mentalmente.

Com a moça nos braços, caminhou rapidamente até a carruagem que trouxeram com a guarda. Um filete de sangue descia da roupa já encharcada da garota.

-Droga, a carruagem precisa levar a princesa para o castelo. Samuel, traga meu cavalo.

O rapaz rapidamente aproximou o cavalo de James e pegou a garota inconsciente para que ele pudesse montar. Depois ajudou-o a acomodar a jovem sobre suas coxas, sobre a sela.

-Ajudem a acomodar a princesa na carruagem e a levem em segurança ao palácio. Avisem ao rei que não estarei presente a recepção da princesa.

Depois girando habilmente as rédeas partiu a galope rumo ao hospital.

*

Lyrian sentiu primeiro o movimento do galope de cavalo, depois, a dor latejante na perna, e em seguida, a pressão de braços fortes na sua cintura.

A tontura e a dor a deixavam um pouco confusa, tentou abrir os olhos. Estava sobre um cavalo negro, que galopava numa velocidade nauseante sobre pedras irregulares de uma alameda.

Olhou para o próprio corpo e viu um braço masculino em torno da própria cintura. Com muito esforço, ergueu a cabeça que pendia no pescoço sem forças e viu fracamente o rosto de um homem contra o sol.

-Não se esforce, estou levando-a ao hospital. Você perdeu muito sangue - a voz dele era doce e calma, quase um sussurro, mas parecia preocupado.

Ela tentou dizer a ele que havia um médico a bordo de seu navio, fazia parte de sua tripulação, mas a voz parecia não sair, sua garganta e seus pulmões queimavam.

-Shiiiiii... Vai ficar tudo bem.

Ela fez mais um grande esforço para abrir os olhos contra a luz do sol ( ou era o homem que brilhava como chamas?) e apenas conseguiu distinguir a sombra de seus olhos: eram azuis, mas de um curioso tom de azul esverdeado, que mais pareciam as águas do mar quando tocavam a praia de uma ilha que havia visitado com seu pai na infância. Tão lindos.

A tontura e a dor lhe tirava toda a força. Ela queria perguntar quem era aquele homem, mas não conseguia.

Ele ajeitou-a melhor em seus braços, fazendo com que encostasse a cabeça no seu peito forte. Ela podia ouvir o coração dele batendo forte, e um cheiro bom de tâmaras frescas, rosas selvagens e pele que se misturavam, formando um único aroma quente que lhe atingiu em cheio e lhe deu uma sensação nova e diferente. Uma sensação de segurança e de algo imutável. Uma sensação de lar.

Então fechou os olhos e descansou. Não tinha medo.

*

James chegou o mais rápido que pôde ao hospital. Era um local muito simples, mantido pela igreja para dar assistência aos pobres.

Algumas vezes havia trazido pessoas para serem cuidadas aqui.

Haviam médicos no castelo, mas a distância era muito maior, ela poderia não resistir, e por outro lado, o médico do castelo era quem atendia a família real. Era um homem orgulhoso e mal humorado, que jamais atenderia uma garota naquelas condições.

Ela vestia roupas íntimas e uma capa apenas, então podia-se supor que se tratasse de uma prostituta.

Ele não conseguia imaginar o que uma prostituta fazia no navio da princesa, mas era muito jovem. E bonita.

As freiras rapidamente o atenderam, quando o mesmo adentrou o hospital carregando a garota de cabelos castanhos desacordada.

Ele a deitou sobre uma cama delicadamente e as freiras começaram a remover as roupas para acessar o ferimento.

-O senhor precisa se retirar - uma delas tocou seu cotovelo, o conduzindo para fora - avisaremos quando terminamos.

James sentou-se no pequeno muro de pedra na entrada do hospital e observou o movimento da alameda próxima, as bancas de frutas que se espalhavam pelo local. Lembrou-se de que a guarda deveria estar chegando ao castelo com a princesa, ele não estaria lá e o pai ficaria furioso.

-A garota está melhor. Fechamos o ferimento, ela está dormindo. Agora é preciso esperar. Ela perdeu muito sangue, ainda pode morrer - um médico com um avental branco manchado com sangue se aproximou de James.

-Posso vê-la?

-Pode. É familiar dela? Como ela se chama?

-Não -respondeu James- não a conheço, apenas a socorri quando foi ferida e se afogou no mar -suspirou.

-Pode vê-la, mas está inconsciente - avisou o médico - a irmã Giannini vai levá-lo ao leito.

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