"Se ao menos tivesse sol" pensou a garota que viajava com a testa colada à janela no banco traseiro do Pálio Weekend vermelho que cruzava, com algum trabalho, as estradas esburacadas por conta da chuva.
Seu semblante, no rostinho miúdo, traía enfado e mal humor. Como se não fosse suficientemente ruim ter de passar suas férias de inverno numa cidadezinha no interior de outro estado, seu pai havia decidido, de maneira unilateral, que seria uma boa ideia fazer aquela viagem de carro. Quase mil quilômetros de chão, em companhia questionável. "Ele tinha mesmo que trazê-la? ", pensava, a cada vez que ela abria a boca para falar algo. Não que a madrasta fosse exatamente um monstro ou algo assim, mas tudo nela era lhe parecia sem sal. Não entendia como seu pai se havia enamorado por Sara Ono. Os assuntos que ela trazia à tona sempre lhe soavam completamente descabidos e infantis. Ela era, pelo menos, quinze anos mais jovem do que ele e parecia que nenhuma de suas conversas soavam naturais. E por conta daquilo, Victoria preferia, ao menos mil vezes, ter ficado com a mãe, no Rio de Janeiro.
"Você nunca foi para lá, Victoria. Quanto tempo faz que não vê seu tio e seu primo? Tente tirar algum proveito da situação. Você já tem dezessete anos, aja como uma adulta" A mãe havia dito quando ela pediu para não ir. No fundo, sabia, ela queria apenas passar um tempo sozinha para terminar o tal livro que vinha escrevendo.
A mãe e o pai tinham se divorciado havia pouco mais de um ano. O divórcio havia tido Sara como pivô, o que tornava ainda pior o convívio entre enteada e madrasta. No auge dos seus vinte e cinco, a mulher gozava da exótica beleza asiática, com uma tez pálida, rosto delicado, corpo esguio de curvas suaves e um lindo cabelo preto que lhe caía como uma cascata até o meio das costas. A conversa com ela, no entanto, deixava a desejar. Como se sempre se sentisse obrigada a iniciar uma aproximação, trazia à tona assuntos que julgava ser de interesse comum, estes, porém, sempre acabavam soando enfadonhos em sua voz um tanto estridente demais.
- Quer, Vic? – Sara olhou para trás, estendendo o saco de batatas fritas.
Os olhos escuros de seu pai a fitaram pelo retrovisor enquanto a analisavam de maneira ríspida. Ela sabia do que aquilo se tratava.
- Não. – A negação havia saído mais seca do que tinha ensaiado em sua mente.
Seu pai inclinou o rosto, franzindo a boca em uma reprimenda silenciosa que somente a garota pôde perceber. Ela revirou os olhos, mas, resignada, deu o braço a torcer. Fitou, então, os olhos exóticos da madrasta e respondeu.
- Obrigada. – Um sorriso fingido torceu sua boca, também franzida.
Um longo e desconfortável silêncio se fez presente, mas, foi prontamente ignorado ou despercebido por Sara, que apenas se virou para a frente.
Victoria enfiou os fones nos ouvidos e continuou ouvindo suas músicas enquanto observava a madrasta levar uma batata, de quando em quando, à boca do pai, que sorria bobo toda vez que aquilo acontecia.
A garota os achava completamente díspares entre si. Seu pai era um homem alto de cabelos raspados rentes à cabeça, já havia alcançado seus quarenta anos de idade. Os músculos tonificados e a pele tão escura quanto chocolate amargo o entregavam certo vigor e rusticidade, enquanto Sara tinha uma compleição delicada, sendo pequena e dona de uma aparência quase fragilizada. Seu pai tinha os lábios proeminentes e um maxilar forte e quadrado, enquanto ela tinha os traços suaves e finos, um rosto um tanto arredondado e as mãozinhas com dedos curtos e finos. Enfim, os dois eram heterogêneos demais.
Mas a disparidade não acabava ali naquelas aparências antípodas.
Seu pai tinha um humor ácido, com requintes provocativos em cada gracinha, enquanto ela demorava a captar tiradas maliciosas, sendo inocente ou ignorante demais para demonstrar entendimento. Normalmente era a última a rir das piadas, o que fazia com que Vitoria se sentisse ainda mais irritada e raramente lhe dirigisse qualquer palavra que fosse.
Aquela havia sido uma longa viagem.
- Falta pouco agora. – Seu pai falou numa voz grave e tão alta que pareceu ignorar o fato de que ela estava usando fones nos ouvidos. – Seu tio vai gostar de te ver.
Victoria retirou os fones, não para escutar a voz do pai, mas com medo de não escutar a sua própria quando respondesse.
- Por que ele tinha que ter vindo morar tão longe? – Aquela era uma acusação velada, com um leve ressentimento a despontar em cada palavra, como se estas carregassem um gosto amargo que só aparecia no fundo da garganta.
O pai deu de ombros, não entendendo ele mesmo a explicação para aquela pergunta.
- Antônio sempre foi o diferentão da família. – Falou de maneira misteriosa, como se aquilo pudesse fazer a filha entender o porquê de ela e o primo, que haviam sido criados desde o berço juntos, quase como irmãos, terem sido separados em tão tenra idade.
Um bolo de ansiedade pressionava o estômago de dentro para fora quando pensava em como seria o seu reencontro com Matheus. Com apenas um mês de diferença um do outro, ela e o primo haviam, até os seis anos de idade sido tão próximos quanto poderiam ser se houvessem nascido irmãos gêmeos. O fato de o tio ter vivido na casa ao lado da sua até o falecimento da tia, havia possibilitado que os dois brincassem quase o tempo todo juntos, frequentassem a mesma creche e depois a mesma escolinha. Lembranças que a garota guardava na memória. Ela havia caído doente e doente havia ficado por quase duas semanas quando se viu sem o melhor amigo. Chorara desconsolada abraçada ao coelho de pelúcia que ele havia deixado para trás e perguntava quase todos os dias para o pai quando eles iriam voltar. Nunca mais havia se aproximado tanto de alguém e constantemente se perguntava se o primo guardava, dela, a mesma saudade que ela guardava dele. Apesar de eles terem se encontrado nas redes sociais, nunca haviam trocado em conversas, palavras suficientes para entender como cada um se sentia quanto à distância. E aquela incerteza havia sido um dos motivos de ter tentado tanto evitar aquela viagem.
- Eu achei o Matheus na internet dia desses. Ele não posta muitas fotos, mas parece ter crescido. – O pai comentou, como se a estivesse preparando para o que estava por vir. – Ainda se lembra dele?
É claro que se lembrava. Apenas onze anos haviam se passado. "Seriam, onze anos, suficientes para que ele se esquecesse?".
A garota deu de ombros, tentando parecer indiferente.
- Bruno, cuidado! – A voz de Sara soou estridente, arrancando um susto tanto do pai quanto da filha, que pareciam levemente absortos em lembranças.
As mãos grandes giraram o volante com força, fazendo com que o carro desviasse repentinamente de um galho que havia caído no meio da estrada.
- Seu doido. – Repreendeu a copiloto.
- Me desculpem. – Bruno se desculpou, reduzindo a velocidade.
Uma das bolsas havia rolado para a frente, indo parar sobre o assoalho do carro, rente ao pé de Victoria. A garota levou a mão para baixo, sem olhar, erguendo a bolsa por algo que lhe havia parecido uma pequena alça felpuda. Ela reconheceu a textura e, antes que precisasse olhar para a orelha comprida da pelúcia que havia sido deixada para fora do zíper, já sabia do que se tratava. Seu coração pulsou forte. Havia planejado, em sua mente, a devolução daquele brinquedo desde a infância.
- Segundo o GPS, nós chegamos. – Disse Bruno, depois de algum tempo.
Victoria fitou a porteira de madeira que se erguia sob um portal com um telhadinho de telhas de argila.
Bruno saiu do carro, correndo na chuva para abrir as peças rusticas de madeira, que eram travadas por um arcaico, porém engenhoso, mecanismo de madeira. Um vento gelado entrou pela porta, fazendo os pelos finos da nuca se arrepiarem. Vários pés de eucalipto se erguiam aos lados da estradinha de barro que levava para o interior da propriedade. Um vasto gramado verde se estendia como um tapete sobre a extensão de terra que se desdobrava até um matagal para lá dos moirões. E uma bela, porém singela, casa de madeira indicava o fim da ruazinha mais adiante.
Enfim, haviam chegado.
A estradinha de barro que guiava do portal até a casa era repleta de buracos e os pneus respingavam lama por todo lado a cada uma das poças pela qual passavam. Dois vira-latas chapinharam pela estrada, correndo ao lado do carro enquanto este avançava. Os rabinhos balançavam, alegres e eles rodeavam o veículo, curiosos sobre quem seriam os visitantes. O dia cinzento e úmido tornava o local um tanto tristonho, mas ainda assim, podia-se considerá-lo um belo cenário.
Victoria ria, divertida, acenando para os cachorros, que, ignorando o frio, pulavam e giravam através da estradinha, distraindo-se de quando em quando um com o outro ao iniciar uma simulação de peleja que sempre acabava tão repentinamente quanto havia começado.
Bruno manobrou para estacionar ao lado da casa. Um telhado, apoiado sobre vários pilares de tronco de eucalipto, delineava uma charmosa varanda aonde havia uma mesa rústica com dois bancos, também rústicos, um a cada lado. Uma rede balançava preguiçosa entre dois dos pilares e um banquinho, construído sobre rodas de carroça, servia como acento para quem quer que sentisse desejo de observar o dia em seu decorrer.
Sentado a uma cadeira de balanço, um velho senhor enrolava um cigarro de palha entre os dedos. Ele levantou a mão em um cumprimento casual, mas, fora isso, não fez menção alguma de recepcioná-los.
- Tem certeza de que estamos no lugar certo? – Victoria perguntou.
Bruno desafivelou o cinto de segurança e saiu do veículo, correndo em direção ao idoso, que lhe estendeu a mão sem se levantar, em seguida, acendendo o palheiro com um isqueiro.
Os dois conversaram por algum tempo e, depois disso, ele fez sinal para que as duas saíssem do carro.
Victoria pôs o pé para fora, sentindo todo o corpo se arrepiar por conta de um frio com o qual não estava acostumada. A garoa que tornava o clima ainda mais cinzento cobria seus cabelos encaracolados de gotículas brancas e, ao correr para se esconder da sensação gelada, foi interpelada por um dos vira-latas que, aparentemente, achou que ela estava disposta a brincar e saltou, apoiando as patas enlameadas sobre sua barriga.
- Não! – Ela gritou, lamentando as marcas de barro em seu moletom. – Para.
O senhor, que até então não havia feito menção de se levantar, se ergueu da cadeira, praguejando contra o cachorro.
- Sai daí! Seu jaguara. – A voz soou arranhada e feroz. Tanto o cachorro quanto Victoria se encolheram por conta do susto.
O velho levou a mão até o chão, catando de lá uma pedra imaginária e lançando-a em direção ao vira-latas, que ganiu e correu, ressentido.
O velho riu uma risada medonha, pigarreou com um gorgolejo molhado e então, estendeu a mão ossuda para o pai de Victoria.
- Eu sou o Aderbal. – Ele parecia ter um aperto firme por conta da idade. – Mas pode me chamar de Quila.
- Bruno. Sou irmão do Antônio.
O velho estendeu a mão para Victoria, pitando o cigarro de palha e lançando uma fumaça branca e fedorenta no ar.
- Ele me avisou que viriam. Ele deve voltar logo. – Victória pôde sentir os calos na palma da mão enrugada. – Enquanto isso, podem entrar. Tem um cafezinho passado na garrafa. Podem se servir.
Uma velha senhora gorducha apareceu sobre o umbral da porta. Ela secava as mãos com um pano de louça.
- Boa tarde. Achei que chegariam mais cedo. Eu sou a dona Rute. – Ela sorria. – Tem um pão fresquinho que saiu do forno agora há pouco. Por que não entram? Descansem um pouco. Logo os meninos devem chegar para ajudarem a descarregar as malas.
Bruno avançou em direção à senhora, que o cumprimentou.
- Você deve ser o Bruno, certo? – Ela olhou de Bruno para Victoria. – Então você é a Victoria. Achei seu nome tão lindo quando seu tio me contou.
Ela beijou o rosto de Victoria de uma maneira quase maternal.
Sara saiu do carro e veio de maneira um tanto barulhenta, produzindo um vídeo de si mesma enquanto caminhava até a varanda sem cumprimentar as pessoas.
- Esta é minha namorada, Sara. – Bruno tampou o canto da boca. – Ela adora postar essas coisas na internet.
A madrasta erguia o indicador e o dedo médio, em um sinal de "paz e amor" e sorria para a câmera do celular, falando qualquer coisa em uma vozinha estridente e infantil, fazendo com que, tanto Victoria quanto Bruno, ficassem obviamente envergonhados diante do velho casal.
Movida por uma enorme quantidade de vergonha alheia, Victoria se dirigiu para dentro da casa, sendo guiada pela Dona Rute e acompanhada pelo pai e por Seu Aderbal.
A casa era modesta. A mesa estava repleta de preparos que eram, obviamente, realizados artesanalmente. Linguiça, queijo e geleias de vários tipos, além de pães, rosca de polvilho e biscoitinhos de vários tipos povoavam a mesa retangular, coberta por uma toalha quadriculada em verde e branco.
Todos os sabores exageradamente caseiros eram uma novidade no paladar da garota, que ainda decidia do que gostava e do que precisaria provar mais vezes para fazer uma avaliação precisa.
- Uma pena estar chovendo. Matheus estava doido para te mostrar o lugar. – Rute despejava um pouco de leite em uma xícara, segurando a nata que se havia se formado na superfície com uma colher.
A mesa ficava de frente para uma grande janela para a qual Victoria havia sentado de costas. Ela sentiu o estômago se embrulhar, ansioso. "Pelo menos ele não me esqueceu" pensou, escondendo o sorriso enquanto sorvia um gole de café com leite.
- Eu ouvi o meu nome? – A voz havia vindo da porta, aonde um rapaz alto descalçava um par de galochas enlameadas.
Victoria sentiu seu rosto se aquecer. Seu primo havia crescido muito.
Um olhar trocado e um breve sorriso sem mostrar os dentes.
Se o humor de Victoria já não vinha sendo dos melhores, o reencontro entre ela e o primo o havia deixado ainda pior. Certamente, de todas as possíveis reações durante o seu tão esperado reencontro, aquela estava realmente aquém, mesmo da pior hipótese dentre elas.
Ele a havia cumprimentado como se ela fosse uma completa estranha. Nem mesmo se havia dignado a mostrar os dentes enquanto sorria.
- O que foi, princesa? – Perguntou Bruno, enquanto tomava, da mão de Victoria, a mala pesada. Quando se tratava de consolá-la, sua voz se tornava inexplicavelmente terna e suave para uma voz, normalmente, tão grave e imponente.
Victoria suspirou, levando nos braços a bolsa na qual havia guardado a pelúcia que pretendia devolver para Matheus.
- Não é nada, pai. – Ela sabia que não acabaria com aquele diálogo antes de esclarecer o que a havia entristecido, mas explicar o que estava sentindo era quase impossível, uma vez que, nem mesmo ela, era capaz de entender. – Acho que só estou cansada da viagem.
Ele permaneceu em silêncio enquanto os dois atravessavam a casa em direção ao quartinho que ficava nos fundos, mas, quando ambos haviam entrado no quarto e estavam a sós, se aproximou, de frente para ela, segurando em seu queixo e a fazendo encará-lo. Ele a fitou como se explorasse calmamente os recônditos de seu jovem coração.
Se comparada à escura cor de ébano de seu pai, Victoria podia ser considerada um tanto mais clara, mas a semelhança entre os traços de ambos eram tantas que seria impossível dizer não se tratarem de pai e filha.
Resignada, ela suspirou mais uma vez.
- Ele nem me reconheceu. – Um beicinho ressentido surgiu na boca de Victoria.
Ela remoía o momento em que os olhares, dela e do primo, se haviam cruzado, por um brevíssimo momento enquanto ele passava direto para o interior da casa.
A boca do pai se torceu num sorriso de dentes muito brancos.
- Vem cá. – Ele a puxou em um abraço protetor. – Não ouviu a dona Rute dizendo que ele estava doido para te mostrar o lugar? É claro que ele te reconheceu.
- Mas então, por que ele nem me cumprimentou direito? – A voz de Victoria traía ressentimento.
A manzorra do pai se pousou sobre seus caracóis em um afago de acalento.
- Pelo mesmo motivo que você não o cumprimentou direito. – Ele explicou, paciente. – Deve ter ficado com vergonha. Ele acha que você não é mais a menininha que costumava brincar com ele.
- Mas eu sou. – A garota proferiu, como se precisasse se explicar. – Sou a mesma menininha.
Bruno se afastou de Victoria, voltando em direção à porta para continuar a descarga.
- Vocês vão ter tempo para perceber isso.
*
A tarde se havia passado com Victoria a remoer aquilo que lhe havia dito seu pai. Seu ânimo havia melhorado consideravelmente, mas, o cansaço da viagem parecia, então, ter começado a fazer efeito.
Quando ela e o pai terminaram de ajeitar todas as coisas em seus respectivos quartos, sem a ajuda de Sara, que se havia desembestado a andar pelas terras da fazenda tendo os cachorros a lhe fazerem companhia, duas batidas soaram à porta, que se encontrava aberta.
- Oi gatinha. – Victoria se virou para olhar. – Meu Deus, menina! Olha só como você cresceu.
Antônio era muito parecido com Bruno, tanto na fisionomia, quanto nos trejeitos. O tio, no entanto, talvez por conta do trabalho pesado na fazenda, havia envelhecido de maneira muito mais aparente. O homem que a observava sobre o umbral da porta ostentava uma proeminência na barriga e, os cabelos já se acinzentavam nas têmporas e na barba hirsuta.
- Tio Toni! – Ela correu para abraçá-lo. – Aonde estava?
Ele a envolveu com os dois braços que mais se pareciam toras. Ele exalava um cheiro de suor que se misturava com vários outros aromas estranhos ao olfato da garota e ela percebeu, talvez tarde demais, que suas roupas estavam encardidas por conta do trabalho.
- Oh! Me desculpe. Estou fedendo. – Ele gargalhou enquanto a apertava mais contra si. – Uma vaca decidiu dar à luz no meio do pasto e estive até agora auxiliando o veterinário.
Aquilo tudo soava tão surreal aos ouvidos de Victoria que, por um momento, ela cogitou a possibilidade de ele estar apenas tentando enganá-la, como fazia quando era uma criança.
- Aonde está o seu pai? – Perguntou.
Victoria deu de ombros.
- Deve ter ido atrás da namorada, que saiu por aí fazendo vídeos para postar naquela página idiota dela.
Ele levou a manzorra até o ombro miúdo de Victoria e ela pôde, mesmo por sob a blusa de lã que vestia, sentir os endurecidos calos que ele possuía na palma da mão.
- Dá um desconto para ela. – Ele sorriu, tentando ser conciliador, mas percebendo a própria falha quando os olhos negros de Victoria rolaram nas órbitas. – Bom, eu vou tomar um banho para poder comer alguma coisa. Fique à vontade, pequena.
Quando ele se virou e caminhou pelo corredor, Victoria cheirou sua própria blusa, constatando que o cheiro que o tio carregava, havia-se impregnado ali.
Ela voltou até o guarda-roupas, que ficava na parede oposta à porta e pegou um moletom. Atirou-o sobre a cama e se despiu da blusa de lã. O frio do inverno úmido fez com que sua pele se arrepiasse da barriga até os pequenos seios, contidos pelo sutiã de bojo e ela admirou o próprio corpo em um velho espelho. Seus olhos se arregalaram em um susto quando percebeu através do reflexo que Matheus a observava, boquiaberto estacado à porta.
Ato reflexo, Victoria deixou um gritinho escapar de sua garganta, levando a mão até o moletom e puxando-o contra si, à tento de esconder sua nudez parcial.
- Me desculpa. – O primo conseguiu articular, mas, sem fazer menção de sair de onde estava. – Eu não vi nada.
-Sai daqui! – Gritou.
Victoria correu em direção à porta e a esbarrou com força, fazendo com que as tábuas da casa reverberassem.
Ela sentiu as maçãs do seu rosto se aquecerem violentamente enquanto ouvia os passos do primo soarem sobre o assoalho.