Uma mensagem surgiu no celular de Stella Russell, e junto com ela, uma série de fotos. Roupas espalhadas por todo lado, duas pessoas se abraçando fortemente, lençóis bagunçados e um reflexo desfocado no espelho embaçado...
Stella já havia visto esse tipo de coisa antes, então isso não era novidade para ela.
Bastou um olhar para a mão enorme segurando o pulso da mulher para ela saber que era de Marc, seu marido, o mesmo homem com quem estava casada há quatro anos.
Quando seus olhos bateram na data das fotos, ela sentiu o estômago afundar. Era o mesmo dia do aniversário de casamento deles.
Marc havia prometido que passariam a noite juntos, mas acabou sumindo por três dias. Tudo o que ela recebeu foi uma mensagem do assistente dele, dizendo que ele tinha um assunto urgente para resolver.
"Urgente, não é?" Stella soltou uma risada fria. Claramente era urgente, mas na cama de outra pessoa. Ela então fechou a mensagem e ligou para alguém da sua lista de contatos, que atendeu quase que imediatamente.
"Stella," disse a voz do outro lado da linha.
"Já tomei minha decisão sobre o projeto de pesquisa confidencial," ela respondeu calmamente.
"Quem é o candidato?" a pessoa perguntou.
"Eu."
Um silêncio pesado se instalou do outro lado da linha, e então uma voz firme e inabalável declarou: "Não brinque com isso, Stella. Você sabe o que isso significa! Quando você entrar no projeto de pesquisa confidencial, não haverá mais volta. Sem contato externo, sem vínculos pessoais. Você será oficialmente considerada desaparecida, e tudo sobre seu passado será apagado. Uma nova identidade será criada para você. Então se questione: você está realmente pronta para se afastar da sua família? De Marc?"
Os olhos de Stella se fixaram na foto de casamento emoldurada pendurada por perto.
Os sorrisos nela antes a faziam se sentir acolhida, mas agora só lhe causavam dor.
As promessas de Marc, que antes pareciam doces, agora se mostravam frias e vazias.
"Já tomei minha decisão. Amanhã passarei aí para preencher os formulários,"
ela disse baixinho, encerrando a ligação antes que a pessoa do outro lado pudesse dizer mais alguma coisa. Ela não queria ouvir mais nada; sua mente já estava decidida.
Nesse momento, um carro parou lá fora. Momentos depois, Marc Walsh entrou, alto como sempre, afrouxando a gravata preta enquanto ia direto para o banheiro.
Sua jaqueta, jogada descuidadamente no cabide, ainda exalava o cheiro sugestivo de FIRE2, o mais recente perfume feminino da marca Vlexoot. Ousado, intenso... tudo o que ela aparentemente não era mais.
Marc saiu minutos depois, pingando após um banho rápido, usando um roupão cinza.
O roupão estava solto, revelando seu peitoral e abdômen. Seu cabelo úmido caía sobre o rosto, e o vapor só o deixava com um ar mais frio e penetrante.
Sendo o herdeiro da poderosa família Walsh, Marc tinha tudo: beleza, status e dinheiro.
Antes, ela se sentia atraída por tudo isso, mas agora só a deixava enjoada.
"Que cara é essa?" Marc perguntou rindo, passando o braço em volta da cintura dela, sua voz baixa e provocadora. "Sentiu minha falta, amor?"
Sua mão deslizou pela lateral do corpo dela, mas o toque dele a fez se arrepiar de repulsa, e ela se afastou rapidamente.
A mão de Marc parou no meio do caminho, e suas sobrancelhas se franziram. "O que está acontecendo? Está brava comigo?"
Stella respirou fundo, tentando se acalmar. Ela não ia desperdiçar energia com mais uma briga.
Reprimindo a dor no seu coração, ela se inclinou, pegou uma caixa trancada na gaveta e a entregou para ele. "Aqui está. Um presente."
Lá dentro? Os papéis do divórcio que ela já havia assinado. Seu último presente. "Você terá que adivinhar a senha para abri-la," ela disse secamente.
Marc lançou um olhar preguiçoso, pensando que era só mais um dos joguinhos estranhos dela, e a jogou sobre a mesa. Então, ele a puxou para perto novamente, apoiando o queixo no ombro dela. "Você é o único presente que quero."
Stella se enrijeceu involuntariamente. Marc percebeu e deu uma risadinha.
"Ainda está emburrada porque perdi nosso aniversário? O trabalho tem sido uma loucura," ele disse enquanto dava um beijo na bochecha dela.
Então, ele a soltou, pegou uma pequena caixa do bolso do casaco e a entregou a ela.
"Gostou?"
Dentro havia um grampo de cabelo, delicado e banhado a ouro, claramente feito sob medida com um cuidado minucioso.
"Mandei fazer isso só para você. Você sempre gostou de coisas assim, não é? Experimente."
Sua voz tinha aquela mistura familiar de controle e afeto.
Esse tom já foi suficiente para derreter a determinação dela.
As pessoas em Choria acreditavam que Marc mimava sua esposa.
Stella também havia acreditado nisso.
Se não fossem as fotos salvas no seu celular, ela poderia ter realmente ficado comovida com o presente.
A garota nas fotos tinha seus vinte e poucos anos, era bonita e confiante, com olhos sedutores e cabelos longos e ondulados presos com o mesmo grampo de cabelo que agora estava diante de Stella. O penteado solto revelava seu pescoço liso, marcado com chupões.
"Só existe um igual a este no mundo. Você gostou, não gostou?" Marc ergueu o cabelo dela suavemente, seus dedos ásperos roçando na sua pele de uma forma familiar e íntima demais.
A paciência de Stella estava se esgotando rapidamente - ela quase enfiou essa maldita coisa direto no peito dele.
Ela olhou para ele, seus olhos mais frios do que o normal. "O único no mundo, é?"
Havia algo estranho nela. Marc sentiu instintivamente. Mas no momento em que ela sorriu, com sua suavidade familiar retornando, a dúvida dele desapareceu.
"Se é realmente único no mundo, então sim, eu adorei." Stella fechou a caixa calmamente. "Tenho trabalho para fazer esta noite. Vá dormir."
Ela saiu dos braços dele, segurando a caixa com força, sem lhe lançar um único olhar.
Uma corrente de ar fria entrou por seu roupão aberto e, por algum motivo, deixou Marc com uma estranha sensação de vazio.
Esta noite, ela parecia mais fria do que o normal.
Ele olhou para a caixa trancada sobre a mesa, e uma calma estranha o invadiu.
Afinal, ninguém entendia os sentimentos de Stella melhor do que ele. Ela o amava profundamente... tão profundamente que, não importava o que ele fizesse, ela nunca iria realmente embora.
Nem agora, nem nunca.
O celular dele vibrou repetidamente dentro do bolso do roupão.
Quando ele finalmente o pegou, mensagens ousadas e sedutoras iluminaram a tela, fazendo sua garganta se apertar.
Ele respondeu brevemente, apagou tudo e jogou o celular de lado descuidadamente antes de se afundar na cama.
O cheiro suave e familiar que permanecia nos lençóis acalmou seus nervos e, em pouco tempo, ele adormeceu profundamente.
Enquanto isso, no escritório, Stella tirou uma foto do grampo de cabelo e a enviou para uma butique de revenda de luxo. "Venda isto. O mais rápido possível."
Ela anexou uma conta bancária. "Envie o dinheiro para cá."
Era a conta oficial do instituto.
Mesmo algo manchado ainda poderia ser bem aproveitado.
...
Na manhã seguinte, quando Marc abriu os olhos, Stella já estava totalmente vestida.
Ele se apoiou nos cotovelos e fez um gesto para que ela se aproximasse.
Sua voz estava rouca e suave pelo sono. "Venha aqui. Me dê um abraço."
Os dedos de Stella pararam nos botões da blusa. Ela respirou fundo, seu olhar claro e composto. "Surgiu algo urgente no instituto. Tenho que ir agora. Não tive tempo de fazer o café da manhã - você terá que se virar hoje."
Ela pegou sua bolsa e saiu, assim como na noite anterior - sem olhar para trás, sem hesitar.
As mãos de Marc congelaram no meio do movimento, e uma sensação de vazio voltou a invadir seu peito. Ele esfregou as sobrancelhas lentamente, tentando se livrar dessa sensação.
Não importava o quão cheia estivesse sua agenda, Stella nunca pulava uma manhã. Ela sempre se certificava de que o café da manhã estivesse pronto na hora certa. Depois, o acordava com carinho, pedia um abraço e lhe dava um beijo de bom dia com seu sorriso doce.
Mas não hoje.
"Stella."
Bem quando ela abriu a porta, ouviu a voz dele atrás dela. Foi como se algo tivesse rasgado seu peito - agudo e profundo.
Ela se virou lentamente, seus olhos firmes. "Sim?"
Marc a olhou por um longo momento. Ela parecia normal. Talvez fosse só coisa da cabeça dele. "Não deixe de comer, mesmo que as coisas fiquem agitadas. E não fique acordada até tarde. O acordo do Horizonte de Marina teve um contratempo, então vou trabalhar até tarde esta semana. Não me espere acordada."
"Tudo bem," Stella sorriu.
Com a luz do sol no seu rosto, aquele sorriso caloroso e seus olhos brilhantes o lembravam da garota que um dia o deixou sem fôlego.
O coração de Marc disparou. Sua voz ficou ainda mais suave. "Quando o trabalho acalmar, vamos para a Ilha de Midstream. Compensar a lua de mel que perdemos."
O coração dela, que já estava doendo, pareceu se partir novamente.
Na época em que estavam planejando o casamento, ela havia listado cuidadosamente os lugares para onde viajariam juntos - um para cada aniversário, como outra lua de mel. Ela acreditava que eles ficariam apaixonados para sempre.
Mas, neste ano, Marc levou outra mulher para aquele mesmo lugar. As fotos deles juntos ainda estavam no celular dela.
Stella abaixou os olhos e respondeu baixinho: "Claro... quando as coisas se acalmarem."
Com isso, ela se virou e saiu.
Não havia um pingo de calor em seus olhos.
E, para o azar dele, essa chance nunca viria.
Stella manobrou seu modesto Volkswagen preto direto pelos portões do Instituto de Pesquisa Hookwood.
Assim que ela entrou no prédio principal do escritório, Lainey Lewis, sua colega sênior, marchou até ela e a segurou pelo pulso. "Você veio mesmo fazer a inscrição? O que aconteceu, Stella? Por que não respondeu às minhas mensagens? Você não pode simplesmente tomar uma decisão assim por impulso. Este projeto não é um experimento qualquer, e você deveria ter pelo menos conversado sobre isso com Marc."
Uma dor aguda surgiu no peito de Stella, mas ela permaneceu em silêncio.
Em vez de responder, ela desbloqueou seu celular, rolou até uma conversa no WhatsApp e o entregou a ela.
Dezenas de mensagens provocativas e imagens sugestivas encaravam de volta, enviadas mais de uma vez. Uma foto em particular não deixava nada para a imaginação.
Lainey olhou para a tela e imediatamente devolveu o celular para as mãos de Stella, com os olhos em chamas. "Aquele desgraçado! Se não fosse pelas suas patentes naquela época, a empresa dele nem teria passado do lançamento. E agora ele está te traindo? Vamos, vamos voltar. Juro que vou fazê-lo se ajoelhar e implorar por misericórdia."
Stella rapidamente segurou o braço dela. "Não. Não será necessário."
"Como assim não será necessário? Depois do que ele fez? Você vai ficar aí parada e deixar ele se safar?"
A voz dela estava trêmula, mas a de Stella era fria e firme.
"Deixá-lo impune? Nunca." Ela guardou o celular de volta no bolso do casaco. "Enfrentá-lo diretamente seria fácil demais. Quero que ele sofra... que se arrependa de verdade de tudo."
Lainey não disse mais nada. Ela sabia exatamente o tipo de pessoa que Stella era.
Brilhante no laboratório. Honesta a ponto de ser ingênua. Mas se alguém a levasse ao limite, ela jamais deixaria isso passar em branco. Ela revidaria quando menos esperassem, com precisão e força.
Elas caminharam juntas até o escritório administrativo, e a entrega do formulário ocorreu sem problemas. Alguns passos, alguns carimbos, e tudo estava praticamente finalizado, aguardando apenas a análise final.
Antes de sair, Stella se ofereceu para participar de um seminário acadêmico em nome do instituto e reunir os materiais necessários.
Às 15h30, o evento no Hotel Grace havia terminado. Segurando uma pasta contra o peito, Stella saiu do saguão, indo em direção ao estacionamento quando uma risada familiar e preguiçosa chegou aos seus ouvidos.
"Vamos lá, seja boazinha."
Seu corpo se enrijeceu na mesma hora. No momento em que ouviu aquela voz, ela se virou lentamente. Uma onda de traição a atingiu em cheio, como se o chão sob seus pés tivesse se movido sem aviso.
Marc estava com o braço em volta de uma mulher de cabelos compridos e cintura fina, a conduzindo pela entrada do hotel. A mulher sussurrou: "Sinto sua falta... sinto tanto sua falta", sua voz melosa e íntima.
Enquanto falava, ela se inclinou para Marc, seus lábios percorrendo do lóbulo da orelha até o pescoço dele, o batom vermelho borrando sua pele.
Marc riu, baixo e com carinho, a puxando para ainda mais perto, sua palma repousando firmemente na curva da cintura dela.
A visão de Stella ficou turva por um segundo, seu peito se apertando.
Então era para lá que a mulher o havia seguido, para este mesmo hotel, e eles não conseguiram nem esperar o anoitecer.
Então, através do vidro da porta giratória que se movia lentamente, seus olhos se encontraram.
O olhar de Marc era sombrio e cheio de desejo, enquanto os olhos de Stella eram calmos e distantes, com um toque de zombaria.
O ar entre eles de repente ficou pesado.
A mulher também notou Stella. Mas em vez de parecer assustada, ela simplesmente abriu um sorriso presunçoso, depois se virou e beijou Marc novamente, desta vez mais fundo, mais deliberado, como se estivesse marcando seu território.
Um gosto amargo subiu pela garganta de Stella. Seu estômago se revirou de náusea. Ela se virou, recusando-se a continuar presenciando aquele espetáculo.
Ela estendeu a mão para a porta do carro, mas antes que pudesse entrar, uma mão a impediu por trás. Marc havia corrido atrás dela, um pouco ofegante, e o cheiro do perfume forte daquela mulher ainda estava impregnado nele, forte o suficiente para deixá-la enjoada.
"Me solte!" Stella tentou se livrar dele, mas a porta não se mexia.
Marc não disse uma palavra. Apenas agarrou sua cintura e a empurrou para o banco de trás, entrando logo em seguida. Seus traços marcantes pareciam tensos, e seus olhos brilhavam com uma estranha mistura de ansiedade e impaciência. "Stella, por favor, me deixe explicar."
Sem ter para onde fugir, Stella se afastou e falou em um tom gélido: "Limpe esse batom da sua boca antes de começar a falar."
O rosto de Marc se abateu. Sua mão voou para a boca sem pensar, os olhos brilhando com um toque de pânico. "O acordo com a Horizonte de Marina está com problemas. Eu estava estressado com o financiamento e entrei em contato com a Nova Holdings. Haley Smith é filha de um membro do conselho da Nova Holdings. Ela não fala bem nosso idioma e havia bebido. Eu só estava garantindo que ela voltasse para o hotel."
Seu tom era gentil, e ele se inclinou da maneira que sempre fazia quando queria encantá-la. "Ela é de Achury. As pessoas no país dela são bem descontraídas, você sabe disso. Juro que serei mais cuidadoso. Não fique chateada, está bem? Vou te compensar."
Stella o olhou, seus olhos penetrantes e frios. "Então... é assim que você consegue investimentos? Se aproximando tanto das filhas deles?"
Não houve gritos, nem lágrimas.
Stella falou com uma calma arrepiante, composta demais para estar com raiva. Suas palavras silenciosas despojaram cada desculpa da boca de Marc, deixando-as sem sentido.
Aquele mesmo vazio pesado o atingiu novamente. Frustrado, ele puxou a gravata, tentando respirar. "Stella, qual é. É pelo trabalho. Você não pode fazer tempestade em copo d'água?"
Stella quase riu.
Ela nem sequer havia levantado a voz.
Ele queria que ela jogasse as fotos na cara dele para que isso contasse como um drama?
O amor que ela havia guardado por todos esses anos agora queimava como uma lâmina em seu peito.
"Se você não me quer mais, Marc, seja honesto. Não vou insistir. Eu te dou o divórcio que você quer."
Por que ele tinha que ficar fazendo joguinhos? Por que mentir?
Logo depois que essas palavras saíram de sua boca, Marc agarrou seu ombro, com força.
Seus olhos eram de gelo. "Nunca mais diga isso. Nós prometemos, não importa o que acontecesse, nós resolveríamos. Divórcio não é uma opção. Nem mencione isso."
Resolver?
Ele já havia dormido com outra pessoa. O que restava para consertar agora?
Parecia que ela estava presa em uma teia de espinhos. Cada respiração, cada movimento cortava mais fundo.
De repente, o celular de Marc tocou. Ele olhou, franziu a testa e recusou a chamada.
Mas Stella conseguiu ver o nome na tela. "Queridinha Selvagem."
Antes que ele pudesse guardá-lo, o celular acendeu novamente, desta vez, mensagens do WhatsApp apareceram. O nome do remetente? "Bebê Chique."
"Bebê, estou com dor."
"Preciso de você. Venha agora."
"Estou sangrando... eu vou morrer?"
Três mensagens, todas em achuriano, uma após a outra.
Era como se Marc achasse que ela não soubesse falar achure, já que nem se deu ao trabalho de esconder a tela enquanto digitava rapidamente "Estou a caminho" antes de desligar o celular sem hesitação alguma.
"Stella, preciso resolver uma coisa urgente. Se não pode ajudar, pelo menos não atrapalhe. Seja uma boa menina, está bem?", ele disse num tom suave, enquanto acariciava os cabelos dela como se ela fosse uma criança.
Então, ele se virou e foi embora sem nem olhar para trás. Ela apenas ficou sentada ali, o deixando ir.
Nesse momento, ela sentiu como se algo dentro dela tivesse sido despedaçado, causando uma dor tão intensa que a impedia de sentir qualquer outra coisa.
Após deixar os materiais da conferência no instituto para serem arquivados, ela foi para casa em silêncio.
Marc não voltou nos três dias seguintes, e ela não ligou.
e ela não ligou para ele, nem uma vez sequer. Afinal, não havia mais nada a dizer.
Enquanto aguardava a aprovação final, ela se manteve ocupada organizando suas coisas, fazendo qualquer coisa para evitar que sua mente entrasse em colapso.
O depósito era um santuário dos anos que eles passaram juntos: bilhetes escritos à mão da primeira vez que se declararam, a cerâmica torta que fizeram no primeiro encontro, uma pequena pedra em formato de coração de uma noite na montanha e fileiras de fotos emolduradas agrupadas por ano. Até as câmeras Polaroid estavam organizadas da mais antiga para a mais nova.
Stella sempre foi sentimental, guardando essas coisas na esperança de que um dia eles se sentassem juntos como almas antigas, rindo do passado.
No entanto, agora tudo isso parecia uma piada cruel. Sem hesitar, ela jogou as lembranças na lareira e as observou queimar.
Quanto aos presentes caros - diamantes, relógios de luxo, colares delicados e até a aliança de casamento -, ela os enfileirou, tirou fotos e enviou uma mensagem para seu contato na boutique de revenda, pedindo para que ele liquidasse tudo.
Quando viu a caixa de joias vazia, ela finalmente se deu conta de que o amor, por mais brilhante que fosse, não valia nada quando era manchado pela traição.
Dois dias depois, ela recebeu a notícia de que sua inscrição para participar do projeto de pesquisa confidencial havia sido aprovada.
Ela teria dez dias de folga antes do início do projeto.
Querendo estocar alguns itens essenciais, ela trocou de roupa e foi ao shopping. No entanto, ao descer a escada rolante com suas sacolas de compras, ela avistou uma cena que a fez parar abruptamente.
Lá estava Jazlyn Walsh, sua sogra sempre crítica, sorrindo calorosamente e segurando o braço daquela mulher, Haley, como se fossem velhas amigas. O afeto no rosto dela foi como um soco no estômago para Stella.
Ao lado delas estava Marc, o mesmo homem que havia desaparecido por dias, colocando cuidadosamente uma pulseira de diamantes brilhante no pulso de Haley com toda a ternura que costumava reservar para ela.
Eles pareciam completos, como uma família de comercial de margarina, uma da qual ela não fazia parte.
Quando Haley assentiu com a cabeça em sinal de satisfação, Jazlyn elogiou seu gosto com um brilho nos olhos e entregou casualmente um cartão preto para o pagamento.
Para Stella, esse momento estava carregado de uma ironia amarga.
Afinal, aquele cartão preto era dela, e era seu dinheiro que estava sendo gasto.
Ela havia conquistado esses privilégios - descontos generosos, prioridade nas novas coleções -, tudo por causa da sua amizade íntima com o diretor da marca.
O que era para ser um gesto atencioso para aproximá-la de Jazlyn agora estava sendo usado para agradar a amante de Marc.
Sem hesitar, Stella foi até o balcão, arrancou o cartão da mão da vendedora atônita e disse calmamente: "Desculpe, mas este cartão não é mais válido."
A funcionária piscou, confusa. "Senhora, este é um cartão premium. Ele não expira e não pode ser cancelado..."
"Ah, é mesmo?" Stella quebrou o cartão ao meio e o jogou na lixeira próxima sem nem piscar. "Agora ele está cancelado."
A fúria de Jazlyn explodiu. Dando um tapa forte no rosto de Stella, ela sibilou: "O que deu em você? Por acaso não percebe o quão vergonhoso está sendo o seu comportamento?"
A família Walsh tinha uma reputação impecável, e Marc sempre foi elogiado como um prodígio das finanças.
Desde o início, quando Stella e Marc começaram a namorar, Jazlyn a tratava com indiferença. E depois do casamento, essa frieza só aumentou. Por mais que Stella tentasse conquistar sua aprovação, um sorriso caloroso nunca aparecia.
Ela sempre ficava quieta, não querendo colocar Marc numa situação difícil.
No entanto, essa paciência, construída com base no amor, finalmente se esgotou.
e ela não tinha mais motivos para tolerar isso.
De repente, dois tapas estalados ecoaram, atingindo em cheio o rosto de Marc.
O barulho silenciou todos ao redor.
Esse era Marc Walsh, o homem aclamado nos círculos financeiros como uma lenda, e agora ele estava ali, com as bochechas vermelhas, esbofeteado em plena luz do dia.
"Stella!", Jazlyn gritou, furiosa. Ela arregaçou as mangas, como se estivesse prestes a avançar e revidar.
No entanto, Stella se manteve firme, com o queixo erguido. "Se encostar a mão em mim de novo, vou bater nele com o dobro de força. Quer me testar?"
"Sua... Sua..." Jazlyn estava tão furiosa que segurou o peito para respirar. "Marc! Olhe para ela! Como pode deixá-la agir como uma megera?"
Stella olhou para Marc com um sorriso frio. "Me diga, Marc... eu não tinha todos os motivos para te dar um tapa?"
A expressão de Marc se enrijeceu, e seu maxilar se contraiu. Dando um passo à frente, ele segurou o pulso dela, murmurando baixinho: "Stella, já chega. Se acalme. Você está fazendo um escândalo."
De repente, Haley correu para os braços de Marc, puxando a mão dele para a cintura dela e reclamando em achure sobre o comportamento ultrajante de Stella.
Ela se agarrava a ele como uma hera, o chamando de "querido" repetidamente, como se quisesse se fundir à pele dele.
Marc murmurou palavras de tranquilidade em achure, falando com ela gentilmente.
A visão deles, tão próximos e aconchegantes, fez Stella rir em descrença.
Então, do nada, ela falou em achure fluente e num tom incisivo:
"Se você é ousada o suficiente para ser amante de alguém, pelo menos tenha a decência de não se fazer de inocente. Você está dormindo com o marido de outra mulher, então nem pense em negar isso. Se o achure não está funcionando para você, podemos mudar. Falo dezesseis idiomas. Escolha um, e eu acompanho o ritmo. Se eu perder a discussão, admitirei a derrota."
O rosto de Haley ficou vermelho como um pimentão.
Ela claramente nunca imaginou que Stella falasse achure tão bem. Marc não havia dito que sua esposa era apenas uma funcionária comum de escritório?
O rosto de Marc se obscureceu, e ele perguntou num tom rígido: "Stella... quando você aprendeu achure?"
Esse momento a atingiu como uma faca se cravando mais fundo numa ferida aberta.
Seus lábios se curvaram num sorriso amargo.
"Ah, Marc, você deve me amar muito, né?" O sarcasmo na sua voz era afiado como uma navalha. "Vá em frente, aproveite suas comprinhas. Não vou atrapalhar."
Com isso, ela virou nos calcanhares e foi embora.
Marc se moveu rapidamente para segui-la, mas Jazlyn e Haley seguraram, cada uma, um de seus braços, o impedindo.
"Marc, se divorcie dessa mulher sem vergonha logo! Como ela ousa encostar a mão em você?", Jazlyn disparou.
Ela já havia dito essas palavras inúmeras vezes, e Marc sempre as ignorava. No entanto, por algum motivo, desta vez elas pareceram diferentes, o irritaram.
"Isso é entre mim e ela", ele murmurou, se livrando delas e correndo atrás de Stella.
Felizmente, ele conseguiu alcançá-la quando ela chegou ao carro. "Stella."
No momento em que os dedos dele tocaram o pulso dela, uma onda de náusea a atingiu, a fazendo se afastar com nojo. "O que foi, senhor Walsh? Já terminou de brincar de casinha com sua pequena selvagem?"
O rosto de Marc se contorceu em frustração. "Haley é só uma amiga. Por que está com tanto ciúme? Não pode ser madura pelo menos uma vez? Precisa mesmo nos humilhar em público?"
Stella soltou uma risada seca e incrédula.
Claro. De alguma forma, no final, a culpa sempre recaía sobre ela. Que conveniente.
"Então deixe-me ver se entendi. Mesmo se eu pegar vocês dois na cama, com a sua amante, eu deveria sorrir, fechar as cortinas e ficar de guarda do lado de fora para proteger o nome da família?", ela retrucou.
Apertando o pulso dela, os olhos dele brilharam. "Quantas vezes tenho que dizer isso? Ela é só uma amiga!"
"Uma amiga, é?", Stella perguntou num tom irônico enquanto o olhava de cima a baixo.
Então, seu olhar se tornou brincalhão, com algo mais aguçado, como sedução ou talvez vingança.
"Tudo bem, então vou arranjar um amigo para mim também. E farei questão de fazer tudo o que você e a Haley fizeram, cada coisinha." Se inclinando ligeiramente, ela continuou num sussurro carregado de veneno: "E você, querido marido... não fique com ciúmes. Isso não seria justo, não é mesmo?"