Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > O marido da minha irmã
O marido da minha irmã

O marido da minha irmã

Autor:: Ravena Rocha
Gênero: Romance
Duas irmãs gêmeas idênticas... mas com destinos opostos. Helena vive cercada por luxo, casada com um homem milionário, poderoso e temido. Heloísa, ao contrário, vive reclusa, longe de tudo e de todos, escondida em uma vida simples, marcada por traumas e silêncio. A única coisa que as une é a família... e uma verdade perigosa: A família delas está falida. E quem sustenta tudo é o marido rico de Helena. Mas tudo muda quando os pais das duas fazem uma visita inesperada à mansão e encontram Helena em estado assustador: abatida, descontrolada, dizendo coisas sem sentido, com medo do próprio marido e completamente distante do bebê. Em desespero, eles internam Helena em uma clínica psiquiátrica particular, tentando evitar escândalo. Só que existe um problema maior: Se o marido descobrir, ele pode tomar o filho, destruir o sobrenome da família... e cortar o dinheiro que mantém todos vivos. Sem saída, os pais ligam para Heloísa e fazem a proposta mais cruel que uma filha poderia ouvir: assumir o lugar da irmã. Agora Heloísa precisa entrar em uma vida que nunca foi dela. Fingir ser Helena diante de empregados, amigos e, principalmente, diante do homem mais perigoso daquela história. Um homem que não pode desconfiar. Mas quanto mais ela tenta se manter invisível, mais ele se aproxima. Mais ele observa. Mais ele sente. Porque, pela primeira vez, a "esposa" parece humana. E Heloísa entende tarde demais que o maior risco não é ser descoberta... É despertar um amor que nunca deveria existir. Porque quando Helena voltar... a mentira vai explodir. E alguém vai pagar o preço.

Capítulo 1 Fim da minha paz

Capítulo 1

Eu me lembro do dia em que vi Miguel pela primeira vez.

E me lembro, principalmente, do dia em que percebi que Helena também tinha visto... que eu o vi.

Helena sempre via primeiro, mesmo sem ver.

Ela não precisava amar ele.

Ela só precisava vencer. Tirar de mim.

E ela venceu, mais uma vez.

Miguel se tornou dela.

E eu fiquei com o que sempre ficou para mim: migalhas.

Eu nunca contei para ninguém o que eu senti.

Nem para minha mãe, nem para meu pai... nem para Helena.

Mas Helena descobriu mesmo assim.

Ela descobriu e sorriu, como se estivesse segurando uma arma.

E eu nunca esqueci a frase que ela disse naquela noite:

- Tudo que você ama... eu posso tirar de você. Eu sou melhor que você.

Eu quis acreditar que, com o tempo, aquilo ia parar de doer.

Mas não parou.

Porque o problema não era Miguel.

O problema era eu ter passado a vida inteira engolindo, aceitando, cedendo... e ainda assim nunca ser suficiente.

Quando soube que estavam negociando um contrato de casamento com a família Bordin, eu simplesmente desisti de ser a sombra e fugi.

Fugi da casa dos meus pais, fugi da cidade, fugi de Helena.

Fugi até de mim.

E por alguns anos eu achei que finalmente estava livre. Eu sabia o básico sobre eles... o que saía no jornal e o que não dava tempo de evitar.

Até hoje.

Até meu celular tocar, depois de anos sem lembrarem da minha existência.

Meu corpo inteiro travou no instante em que vi o nome na tela.

MÃE.

Eu fiquei olhando, como se o aparelho tivesse virado uma bomba.

Minha mãe nunca me ligava. Desde que fugi, ela nunca quis saber se eu estava bem, se eu estava viva. O que importava sempre esteve lá... Helena.

Mas alguma coisa estava errada.

Porque na minha família, quando algo dava errado... sempre sobrava para mim. E era aí que eu voltava a existir.

O celular vibrou de novo.

Meu coração disparou.

Eu tomei meu remédio para ansiedade, esperando que ela desistisse.

Mas não desistiu.

A vontade que eu tive foi ignorar.

Deixar tocar até cansar.

Fingir que eu não vi.

Mas eu atendi.

Porque eu era fraca.

Na verdade... eu sempre fui.

- Alô?

Do outro lado, silêncio.

E quando a voz dela veio, eu soube na hora que algo tinha quebrado de verdade.

- Heloísa...

Minha mãe estava chorando.

Eu nunca ouvi minha mãe chorar daquele jeito.

Senti o chão sumir.

- Mãe... o que aconteceu?

- Você precisa vir agora.

Meu peito apertou.

- Vir onde?

- Caxias do Sul. Na clínica psiquiátrica... por favor, não pergunte nada agora. Seu pai tá aqui comigo... a gente tá desesperado.

Clínica psiquiátrica?

Meu estômago virou.

Eu já sabia a resposta antes mesmo de perguntar.

Mesmo assim, a palavra saiu:

- É a Helena?

A respiração da minha mãe falhou, como se eu tivesse dito algo proibido.

- Vem, Heloísa... é pior do que você imagina.

Eu fechei os olhos com força.

Helena.

Sempre Helena.

Sempre o caos dela.

Sempre a tempestade dela destruindo tudo... e sobrando para mim recolher os pedaços.

Eu tentei ser firme.

- Mãe... eu não posso. Eu tenho minha vida aqui. Eu não quero saber de nada disso.

Eu falei.

E pela primeira vez, quase acreditei na minha própria coragem.

Mas então minha mãe disse:

- Ela tem um bebê, Heloísa... e ele precisa de ajuda...

E eu congelei.

Um bebê... no meio do caos que minha família sempre foi.

Ele não merecia isso.

Minha mãe continuou, desesperada:

- Ele tá aqui com a gente. A Helena tá fora de si... eu tô com medo... medo do que ela pode fazer.

Meus olhos arderam.

Meu peito apertou com força.

Eu não conhecia aquele bebê.

Mas eu conhecia o tipo de mundo em que ele estava nascendo.

Um mundo cheio de mentiras, orgulho e gente doente.

Eu apertei o celular com tanta força que meus dedos doeram.

Minha mente gritava para eu dizer não.

Mas minha boca já sabia o que responder.

Porque eu sempre disse sim.

Porque eu sempre cedi.

- Eu tô indo.

Do outro lado, minha mãe soltou um suspiro aliviado.

- Eu sabia... eu sabia que você não ia abandonar a gente.

Aquilo me atingiu como uma facada.

Porque eu fui abandonada primeiro.

Desde que nasci.

Eu desliguei.

E fiquei parada por alguns segundos, olhando para o vazio.

A raiva subiu quente, amarga.

Eu estava indo.

De novo.

Mais uma vez eu estava indo salvar Helena.

Mais uma vez eu estava indo consertar a sujeira da minha família.

E o pior...

era que eu sabia que aquilo era humilhante.

Eu sabia que estava sendo burra.

Eu sabia que devia virar as costas... como sempre fizeram comigo.

Mas eu não consegui.

Porque eu não estava indo por Helena.

Eu estava indo por uma criança que não tinha culpa de nascer em uma família tão maldita quanto a minha.

E talvez... talvez por uma parte de mim que ainda queria acreditar que eu podia ser importante em alguma coisa.

Ou até mesmo... que eles ainda pudessem me amar.

Eu peguei a bolsa, joguei meus documentos dentro sem nem olhar, enfiei o casaco, as chaves, o celular.

E saí.

No caminho até Caxias do Sul, o céu estava fechado.

A estrada parecia mais longa do que deveria.

E dentro do carro, eu só conseguia pensar em uma coisa:

Eu não devia estar fazendo aquilo.

Quando cheguei à clínica, já era final de tarde.

O lugar era limpo, bonito, silencioso demais... como se o sofrimento ali fosse proibido de aparecer.

A recepcionista me olhou com aquele rosto neutro, de quem já viu muitas famílias quebradas entrarem e saírem.

- Posso ajudar?

Eu engoli seco.

- Meus pais estão aqui. Vim encontrar eles... Antônio Azevedo.

Ela digitou algo no computador e levantou os olhos devagar.

E o olhar dela mudou.

Como se tivesse reconhecido meu sobrenome.

Ou como se já soubesse exatamente quem eu era.

- Você é a irmã dela, não é?

Meu estômago revirou.

- Sou.

Ela assentiu e apontou para o corredor.

- Eles estão aguardando...

Meu coração disparou.

Eu caminhei com passos lentos, sentindo o eco do meu salto no chão encerado. O cheiro de desinfetante era forte. O ar parecia pesado, como se ali dentro ninguém tivesse permissão para ser humano.

No corredor, encontrei meu pai primeiro.

Antônio Azevêdo parecia menor do que eu lembrava. Envelhecido. Os ombros caídos, o rosto pálido, os olhos vermelhos. Ele estava sentado, com as mãos entrelaçadas, encarando o chão como se não tivesse coragem de olhar para mais nada.

Minha mãe estava de pé, andando de um lado para o outro, inquieta, segurando a bolsa com força, como se fosse a única coisa que a mantinha de pé.

Quando ela me viu, correu na minha direção e me abraçou com força.

Eu senti o corpo dela tremendo.

- Graças a Deus... graças a Deus que você veio.

Eu fiquei rígida no abraço.

Não porque eu não quisesse carinho, porque eu já desisti de ter, mas o desespero dela me assustava. Minha mãe sempre foi feita de controle, aparência e postura. Ver ela assim era como ver uma rainha sem coroa.

- Mãe... o que aconteceu? Onde tá a Helena?

Ela soltou o abraço e olhou para meu pai, como se pedisse coragem.

Meu pai levantou os olhos devagar.

E quando ele falou, a voz dele parecia quebrada.

- Nós fomos até a casa deles.

Eu engoli em seco.

- Por quê?

Minha mãe respondeu, a voz tremendo.

- Ela ligou pra mim de madrugada... chorando. Disse que não aguentava mais. Disse que... ele ia tirar o bebê dela.

Eu senti o ar sumir dos meus pulmões.

Miguel?

Meu pai continuou, como se cada palavra fosse uma pedra sendo arrancada do peito.

- Nós não avisamos. Pegamos o carro e fomos. Achamos que era exagero, drama... você conhece sua irmã.

Sim.

Eu conhecia.

Helena sempre foi dramática. Sempre foi intensa. Sempre foi exagerada quando queria atenção.

Mas o olhar do meu pai dizia que dessa vez não era teatro.

Minha mãe apertou os próprios dedos, tentando se controlar.

- Quando chegamos lá... Heloísa... nós encontramos sua irmã como... como se ela fosse outra pessoa.

Eu senti minha pele arrepiar.

- Como assim?

Minha mãe respirou fundo, e as lágrimas começaram a cair sem controle.

- Ela tava no quarto, com o cabelo todo bagunçado, descalça, o olhar perdido... ela não parecia a Helena. Ela parecia... alguém que tinha sido arrancada de si mesma.

Meu pai fechou os olhos, como se estivesse revendo a cena.

- O bebê estava chorando... chorando muito. E ela não fazia nada. Só olhava. Como se não soubesse o que era aquilo. Como se tivesse medo dele.

Meu estômago revirou.

Eu não consegui imaginar Helena daquela forma. Helena sempre foi vaidosa, impecável, dona de si. Mesmo quando estava infeliz, ela fazia questão de parecer bem. Ela vivia de aparência. Era impossível imaginar ela assim.

- E o Miguel? - eu perguntei, quase num sussurro.

Meu pai abriu os olhos de novo.

- Não estava. Estava viajando.

Minha mãe se aproximou, segurando minhas mãos.

- Heloísa... ela dizia coisas sem sentido. Dizia que ele estava trazendo uma mulher pra casa. Que ia dar o filho pra amante. Que o bebê não era dela. Que ele queria destruir ela.

Eu senti um frio subir pela minha espinha.

Isso não era ciúme normal.

Aquilo era paranoia.

Minha mãe limpou o rosto, mas as lágrimas continuavam.

- Ela começou a gritar. Começou a quebrar coisas. Jogou um vaso antigo no chão... e depois caiu no chão abraçada no próprio corpo, parecendo uma criança. Eu nunca vi sua irmã daquele jeito.

Meu pai falou baixo, com vergonha.

- Ela estava assustando até os empregados.

Eu engoli seco.

Meu coração apertava, não por Helena... mas por tudo que aquilo significava.

Uma mulher surtada. Um bebê pequeno. Um marido poderoso. Uma mansão cheia de olhos.

Aquilo era um desastre prestes a explodir.

Minha mãe apertou minhas mãos com força, quase machucando.

- Nós ligamos para um médico particular. O mesmo que atende nossa família há anos. Ele disse que ela precisava ser internada. Que era possivelmente depressão pós-parto... mas que já tinha se transformado em algo mais grave.

Meu pai completou:

- Um colapso. Um surto psicótico.

Eu senti minha cabeça girar.

Helena internada?

Helena, a intocável?

A escolhida?

A perfeita?

Meu olhar correu pelo corredor, como se eu esperasse ver minha irmã surgindo ali a qualquer momento, rindo e dizendo que era tudo exagero.

Mas não havia riso.

Só silêncio.

Minha mãe então disse a frase que mudou tudo:

- E o Miguel não pode saber.

Meu corpo inteiro endureceu.

- Por quê? Como assim?

Meu pai levantou, andando devagar até mim.

Ele era um homem orgulhoso, rígido, tradicional. Mas naquele momento ele parecia apenas um pai desesperado.

- Porque se Miguel descobrir... ele toma o bebê. E com razão. Ele não vai deixar o filho nas mãos de uma mulher instável.

Eu senti um nó na garganta.

- E vocês trouxeram o bebê?

Minha mãe assentiu, os olhos brilhando.

- Sim. Ele tá aqui.

Eu não consegui esconder o choque.

- Aqui? Na clínica?

Ela apontou para uma porta ao lado.

- Ele tá numa sala reservada, com uma enfermeira. Nós não podíamos deixar ele naquela casa. Não depois do que vimos.

Meu coração bateu mais forte.

Eu não sabia o que sentir.

Raiva. Medo. Tristeza. E um incômodo antigo, de que tudo se repete, mais uma vez... como se a vida estivesse me puxando de volta para um lugar que eu passei anos tentando esquecer, que eu tinha enfim conseguido sair.

Minha mãe respirou fundo, como se juntasse forças para o que viria a seguir.

- Heloísa... nós precisamos de você.

Eu senti meu corpo gelar.

Eu já sabia.

Antes mesmo dela falar, eu já sabia.

Eu olhei para meu pai.

Ele não conseguia me encarar.

Minha mãe falou com a voz baixa, quase suplicando:

- Você precisa assumir o lugar dela!

Capítulo 2 Início do Caos

Capítulo 2

Heloísa Azevedo

O mundo parou quando ouvi ela me falar aquilo.

O corredor da clínica sumiu. O ar sumiu. O som sumiu.

Eu apenas ouvi aquela frase ecoando dentro de mim como um tiro repetido.

- Não... - eu murmurei, mais para mim do que para eles. - Não. Isso é loucura.

Minha mãe se aproximou mais.

- Não é loucura. Loucura é o Miguel descobrir e nos tirar tudo.

Eu senti minha garganta apertar, isso não era sobre mim, ou os riscos que eu podia correr é por eles, por ela, sempre é, sempre foi.

- Vocês estão falando de enganar o marido dela.

- Você é idêntica a ela, Heloísa. Você é a única que pode fazer isso.

Meu pai finalmente falou, a voz rouca:

- É por pouco tempo. Só até ela melhorar.

Eu ri sem humor.

- Vocês acham que dá pra enganar um homem como Miguel Augusto Bordin?

Meu pai desviou o olhar.

Ele sabia que não.

Mas precisava acreditar.

Minha mãe segurou meu rosto com as duas mãos.

- Ele não pode desconfiar. Não pode. Se ele desconfiar... ele vai arrancar o bebê da nossa família. E ele vai cortar tudo. Você sabe que nós...

Ela parou, como se fosse humilhação demais admitir.

Mas eu completei por ela.

- Vocês estão falidos.

O rosto dela endureceu.

Meu pai fechou os olhos.

A verdade tinha saído.

E ela tinha gosto de veneno.

- Nós não temos escolha - minha mãe disse, com firmeza falsa. - A Helena precisa de tratamento. E o bebê... o bebê precisa de uma mãe.

Eu me afastei, era um golpe baixo, muito baixo, usar meu sobrinho assim, fechei as mãos, respirando rápido.

- Então cuidem dele vocês.

Meu pai respondeu, desesperado:

- Nós não podemos criar um filho naquela mansão! E você sabe que Miguel não aceitaria. Ele não aceitaria o bebê longe dele.

Minha mãe sussurrou:

- Ele vai voltar em dois dias, pelo que a empregada disse.

Dois dias.

Eu senti meu coração afundar.

Dois dias para substituir uma mulher. Dois dias para vestir uma vida que não era minha. Dois dias para encarar um homem que eu nunca consegui esquecer.

Miguel Augusto Bordin ainda visitava meus sonhos as vezes.

Eu senti a imagem dele se formar na minha mente com clareza demais. O olhar firme, a voz baixa, a presença que parecia dominar qualquer ambiente.

E eu senti, como uma ferida antiga se abrindo, aquele amor enterrado, escondido a sete chaves.

Aquele amor que Helena roubou de mim.

Eu olhei para meus pais.

Eles me encaravam como se eu fosse a última chance.

E talvez eu fosse.

- Eu preciso ver o bebê - eu disse, com a voz seca.

Minha mãe assentiu rápido, como se aquela frase fosse esperança.

Ela abriu a porta ao lado e eu entrei.

O ambiente era pequeno, confortável, com uma poltrona e uma luz baixa. Uma enfermeira estava ali, segurando um bebê embrulhado em uma manta clara.

Quando ela me viu, sorriu de forma educada.

- Ele acabou de mamar.

Eu caminhei devagar até ele.

E quando meus olhos encontraram o rosto pequeno, vermelho de sono, com os lábios entreabertos e as mãos fechadinhas...

Algo em mim desmoronou.

Ele era tão pequeno.

Tão frágil.

Ele respirava com aquele barulho leve de recém-nascido, como se o mundo inteiro ainda fosse grande demais para ele.

A enfermeira perguntou:

- A senhora quer pegar?

Eu hesitei.

Eu nunca tinha segurado um bebê tão pequeno daquele jeito.

Mas quando ela colocou aquele corpinho nos meus braços, eu senti algo inexplicável.

Um peso que não era só físico.

Era como se eu estivesse segurando um destino.

O bebê se mexeu, abriu os olhos por um segundo... e então se aconchegou no meu peito, como se reconhecesse calor.

E naquele instante eu senti a garganta apertar.

Porque ele não sabia de nada.

Não sabia de mentira. Não sabia de troca. Não sabia de medo.

Ele só precisava de alguém.

E eu senti meu coração se partir.

Minha mãe entrou na sala e ficou me observando.

- Ele é lindo... - ela sussurrou.

Eu não respondi.

Eu apenas fiquei olhando para aquele rosto tão inocente.

E então eu senti algo ainda mais cruel:

Ele parecia... com Miguel.

O formato do nariz, a testa, a expressão séria mesmo dormindo, mesmo sendo um bebê..

Era impossível não ver.

Era impossível não lembrar.

Eu fechei os olhos por um segundo.

E quando abri, eu já sabia.

Minha mãe percebeu.

Ela se aproximou devagar.

- Você vai, não vai?

Eu olhei para ela.

E vi, por trás do desespero, algo que sempre esteve ali: egoísmo.

Eles não estavam pensando só no bebê. Eles estavam pensando na vida deles. No dinheiro. Na aparência. No sobrenome.

Mas eu não podia negar...

O bebê precisava de alguém.

E Helena... Helena tinha se perdido dentro de si.

Eu respirei fundo, sentindo o peso daquela decisão cair sobre meus ombros como uma sentença.

- Eu vou - eu disse.

Minha mãe soltou um choro de alívio.

Meu pai entrou na sala e passou a mão no rosto, como se quisesse apagar a culpa.

- Obrigado, filha... obrigado.

Eu olhei para ele.

- Não agradeça. Isso não é um favor. Isso é mais uma prisão que vocês estão me colocando, a diferença que dessa vez eu aceitei.

Meu pai abaixou a cabeça.

Eu levantei com cuidado, segurando o bebê junto ao meu peito.

E pela primeira vez na vida eu senti que não estava mais fugindo.

Eu estava entrando no inferno, mas era por vontade própria eu escolhi.

Na ficha da clínica usaram o meu nome, quem estava internada, era Heloísa Azevedo, e não Helena Azevedo Bordin...

A viagem até Flores da Cunha foi silenciosa. Minha mãe falava pouco. Meu pai dirigia com os olhos fixos na estrada como se tivesse medo de olhar para trás.

Eu estava no banco de trás com Augusto no colo, sentindo o cheiro dele, sentindo o calor dele.

Ele dormia tranquilo.

Como se nada estivesse acontecendo.

E talvez fosse isso que me destruía.

Quando chegamos à mansão Bordin, a noite já tinha caído. As luzes externas iluminavam o caminho de pedras que levava até a entrada principal.

A casa era gigantesca.

Mais do que eu imaginava.

Era uma construção antiga, imponente, com janelas altas e portas pesadas. Tudo parecia caro, mas frio. Como se aquela casa tivesse sido construída não para abrigar amor... mas para guardar poder.

Meu estômago embrulhou.

Meu pai estacionou e ficou parado por alguns segundos, como se não tivesse coragem de sair do carro.

Minha mãe abriu a porta primeiro.

- Lembre-se... você é a Helena agora.

Eu a encarei.

- Eu sei.

Mas no fundo eu não sabia.

Porque ser Helena significava vestir uma pele que nunca me pertenceu.

E enfrentar o homem que eu nunca consegui esquecer, e o pior, mentir para ele.

Minha mãe me passou alguns detalhes da vida dela, nomes de empregados, coisas que eu precisava saber, o básico, mas mesmo assim meu coração vacilava no peito.

Eu desci do carro com Augusto nos braços.

A porta principal se abriu antes mesmo que tocássemos a campainha.

Uma mulher de uniforme impecável apareceu. Seu cabelo estava preso num coque perfeito. O rosto sério.

Ela me olhou de cima a baixo.

E então abriu um sorriso aliviado.

- Senhora Helena... graças a Deus. Nós estávamos tão preocupados.

Meu coração disparou.

Ela se aproximou, olhando para o bebê.

- O pequeno Augusto está bem?

Eu forcei um sorriso que não era meu.

- Está.

Minha voz saiu mais baixa, mas ela não estranhou. Talvez Helena estivesse assim nos últimos dias. Talvez silêncio não fosse novidade.

A empregada então deu um passo para o lado, abrindo espaço.

- Por favor... entre senhora.

Eu entrei no hall da mansão.

Olhei ao meu redor.

E quando a porta se fechou atrás de mim, o som ecoou pelo corredor longo, como um aviso.

Como se aquela casa estivesse dizendo:

Agora você não sai mais daqui...

Capítulo 3 Reencontro com o passado

Capítulo 3

Heloísa Azevedo

Eu fiquei parada no hall de entrada por alguns segundos, com o bebê nos braços, sentindo o peso daquela casa enorme me engolir devagar. O chão brilhava tanto que refletia a luz dos lustres, e tudo ali parecia caro demais, perfeito demais... frio demais, nada a ver comigo, e tudo a ver com ela.

Cheirava a limpeza. A perfume importado. A luxo.

E mesmo assim... o ar parecia velho.

O bebê se mexeu, resmungando baixinho, e eu balancei ele com cuidado, tentando manter o corpo firme. Meu coração estava acelerado, mas eu não podia deixar isso aparecer. Eu não podia deixar ninguém perceber o medo que estava me rasgando por dentro.

Porque ali... eu não era Heloísa.

Ali eu era Helena.

E Helena nunca teria medo da própria casa.

Uma mulher surgiu do corredor da direita, andando com passos rápidos e postura reta, como se cada movimento dela tivesse sido treinado durante anos. Ela tinha cabelos presos em um coque apertado, roupa escura e um olhar que misturava respeito com vigilância.

Quando me viu, parou na mesma hora.

Os olhos dela foram direto para o bebê.

Depois voltaram para mim.

E então, como se tivesse prendido a respiração desde que me viu, ela finalmente soltou o ar.

- Senhora... graças a Deus. - a voz dela saiu baixa, quase um sussurro.

Eu senti meu estômago se contrair.

Senhora.

Eu engoli em seco e tentei manter o rosto neutro.

A mulher se aproximou, ainda olhando o bebê como se ele fosse a coisa mais importante do mundo... E com certeza ele era, afinal era o primeiro e único herdeiro Bordin.

- Ele... ele está bem? - ela perguntou, e a forma como a frase saiu parecia mais uma súplica do que uma pergunta.

Eu balancei a cabeça.

- Está. Dormiu no caminho de volta.

Minha voz saiu firme. Mais firme do que eu esperava.

A mulher pareceu aliviada, mas não sorriu. Não havia alegria naquela casa. Só alívio. Só tensão. Só sobrevivência.

- Venha senhora está frio, vamos.

Governanta.

Claro.

Uma casa daquela não tinha só empregadas. Tinha governanta, era Marta, acho que foi esse o nome que minha mãe disse.

Eu caminhei devagar, sentindo o eco dos meus próprios passos no chão. A mansão era imensa. Luxuosa.

Mas eu não conseguia achar beleza.

Tudo parecia um cenário... e eu era a atriz que não sabia o texto.

O corredor principal era amplo, com quadros grandes nas paredes. Retratos. Paisagens. Arte cara. O tipo de arte que eu nunca entendi. E eu sempre achei que isso dizia muito sobre o mundo da Helena. Não tinha a ver com a minha arte, que era sobre sentimentos.

E ela... sempre pertenceu a lugares assim.

Eu não.

Governanta continuava ao meu lado, olhando para mim de tempos em tempos, como se estivesse tentando confirmar alguma coisa sem coragem de perguntar.

Ela abriu a porta de uma sala e eu vi um ambiente gigantesco, com sofás claros, cortinas pesadas e uma lareira apagada. Tudo impecável. Tudo perfeitamente organizado.

Mas a sensação era estranha.

Como se ninguém realmente vivesse ali.

Como se aquela casa fosse usada apenas para parecer perfeita.

Marta pigarreou.

- O senhor Miguel está no escritório.

Meu corpo travou.

Eu senti como se um fio invisível tivesse se apertado ao redor do meu pescoço.

Miguel.

O nome dele atravessou meu peito como uma lâmina.

Não era apenas o homem que eu precisava enganar.

Era o homem que um dia eu amei em silêncio.

O homem que Helena tomou de mim, como se tivesse roubado um brinquedo.

Como se meu sentimento fosse pequeno demais para merecer respeito.

Eu pensei que já tinha enterrado isso.

Que o tempo tinha apagado.

Mas bastou ouvir o nome dele dentro daquela casa para o passado voltar inteiro, vivo, cruel.

Meu coração bateu mais forte e eu senti minhas mãos tremerem.

Eu apertei o bebê contra mim.

- Ele... está em casa? - perguntei.

Minha voz saiu mais baixa do que eu queria.

A governanta assentiu.

- Está. E... - ela hesitou, e eu percebi o medo na forma como ela escolheu as palavras. - Ele está muito irritado hoje.

Claro que está.

Ele tinha uma esposa quebrada, um bebê que parecia abandonado e uma casa cheia de funcionários pisando em ovos.

Eu sabia exatamente que tipo de homem ele era.

O tipo que não aceita perder o controle, era o que os jornais, e os moradores da pequena Flores da Cunha falavam dele.

Eu caminhei mais alguns passos, e ela abriu uma porta dupla enorme.

O escritório era escuro, mesmo com as janelas grandes. Cortinas pesadas. O ambiente cheirava a madeira e whisky, e havia uma mesa gigantesca no centro.

E ele estava lá.

De costas.

De pé, olhando para a janela como se estivesse esperando alguém.

O corpo dele era alto, forte, e mesmo parado... Miguel parecia perigoso.

Como um animal quieto demais.

Quando ele virou o rosto, meu sangue gelou.

Não porque ele era bonito.

Miguel sempre foi bonito, desde a adolescência, quando visitava as vinícolas com o pai...

A lembrança surgiu como fogo em minha mente.

Mas os olhos dele eram como uma tempestade.

Escuros.

Duros.

E inteligentes demais.

Ele olhou para mim... e por um segundo eu tive certeza de que ele sabia.

Tive certeza de que tudo tinha acabado antes mesmo de começar.

Mas ele não disse nada.

Apenas passou os olhos por mim com calma.

E então olhou para o bebê.

O olhar dele mudou.

Não ficou doce.

Não ficou gentil.

Mas ficou... diferente.

Como se algo ali tivesse tocado um lugar que ele não deixava ninguém ver.

Ele deu dois passos na minha direção.

Eu senti meu corpo inteiro travar.

- Você saiu. - ele disse.

A voz dele era baixa, mas carregava uma autoridade natural, como se ele nunca precisasse levantar o tom para ser obedecido.

Eu respirei fundo.

- Eu precisava... Respirar um pouco...

Miguel arqueou uma sobrancelha.

- Precisava? - repetiu, como se estivesse provando a palavra na boca.

Ele olhou de novo para o bebê.

- Onde você foi com o meu filho?

Eu senti o coração disparar.

Meu Deus.

Ele estava me interrogando.

E eu nem tinha entrado direito naquela casa.

Eu engoli em seco.

- Fui respirar, já disse... Eu... estava sufocada.

Eu tentei parecer Helena.

Helena sempre foi dramática.

Sempre soube usar emoção como arma.

Mas eu não sabia jogar aquele jogo.

Miguel caminhou até mim devagar, como se cada passo fosse calculado. Parou perto o suficiente para eu sentir o perfume dele. Um cheiro masculino, forte, caro... e sem dúvidas extremamente sensual.

E eu não queria sentir aquilo.

Não agora, não ali, dentro de um personagem,e nem nunca afinal ele nunca será nada além de meu cunhado.

Ele estendeu a mão e tocou de leve o rosto do bebê, como se tivesse medo de acordá-lo.

O bebê mexeu a boquinha e soltou um suspiro pequeno.

Miguel ficou olhando por alguns segundos, em silêncio.

E então falou, sem tirar os olhos da criança:

- Ele está magro.

Meu peito apertou.

Eu não sabia se aquilo era acusação ou preocupação.

Eu apertei o bebê com mais firmeza.

- Ele está bem.

Eu quase me perdi no personagem, eu senti que ele sabia que não era ela, então ele se aproximou ainda mais... Me avaliando, e se preparou para falar...

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022