De todos os pecados que aprendi a esconder, a gula era o mais inofensivo. Uma indulgência simples, quase inocente, que me permitia escapar, nem que fosse por um breve momento, da realidade sufocante em que vivia. No calor insuportável de um domingo carioca, meu refúgio era um copo generoso de sorvete de morango. Gelado, doce e quase inocente. Quase.
Sentada no sofá da sala, com o ventilador batendo em meu rosto, observava o movimento na piscina através da janela entreaberta. Minha mãe de biquíni laranja, rodeada de convidados bronzeados, risadas ocas, corpos molhados e taças de espumante. A típica cena das festas dela. Aquelas festas que sempre me faziam sentir como se fosse uma intrusa no mundo dela. O tipo de vida ao qual nunca consegui pertencer.
As risadas alheias me pareciam vazias, como se fossem apenas uma forma de preencher o silêncio desconfortável que sempre reinava entre nós. O copo de sorvete se esvaziava lentamente enquanto eu me perdia em pensamentos, tentando ao menos por alguns minutos esquecer o que me incomodava. A sensação de estar ali, mas ao mesmo tempo tão distante de todos, me consumia.
A primeira colherada ainda dançava na minha língua quando ouvi a porta se abrir. Um ruído familiar, mas que agora me soava ameaçador. Instintivamente, levei o copo de sorvete ao peito, como se protegê-lo pudesse me proteger também. Um reflexo bobo, mas era o que me restava.
- Aí está você, linda - disse Marcelo, entrando sem cerimônia. Pingando da piscina, com uma bermuda de sarja escura, a pele clara molhada e os fios negros encharcados e bagunçados. Ele se aproximou, com aquele sorriso largo demais, forçado demais, que me fazia ter vontade de fugir dali a cada vez que o via.
Cada passo dele deixava um rastro molhado no chão, e eu me encolhia um pouco mais, tentando controlar a ansiedade que começava a surgir, uma mistura de incômodo e insegurança.
- Eu... - tentei dizer, mas a voz me traiu. Apenas sorri, fraca, e continuei tomando o sorvete, tentando parecer indiferente, tentando me proteger da invasão que sabia que viria.
Marcelo se aproximou mais, agora perto demais. O cheiro de piscina e cerveja se misturava, me deixando tonta. Antes que eu pudesse reagir, ele tomou a colher da minha mão e a enfiou na própria boca, como se aquele pequeno gesto tivesse algum tipo de direito sobre mim.
- Humm... delícia! - Ele saboreou o sorvete como se estivesse buscando algo além do sabor. Seus olhos, no entanto, não estavam focados no sorvete, mas em mim. Analisavam meu corpo, sem disfarçar o interesse, até encontrarem os meus olhos e, finalmente, minha boca. Algo naquelas trocas de olhares me desconcertava. Eu sabia o que ele queria. Sabia o que ele pensava de mim.
Engoli seco, sentindo o gosto amargo da humilhação se espalhando pela minha garganta. O gesto dele era íntimo, invasivo, e eu não sabia o que fazer. Não sabia como reagir. Mas, no fundo, tudo o que eu queria era que ele saísse. Saísse dali. Saísse da minha vida.
- Não faça mais isso - murmurei, os olhos desviando do olhar dele.
- Ah, Mavi, é só sorvete... não precisa de drama - disse ele, com um sorriso cínico no rosto.
Eu forcei um sorriso, deixei o copo na pia e subir. Precisava sair dali, precisava me afastar, mas, antes que eu pudesse passar, ele bloqueou a passagem por um segundo.
- Pra que tanta pressa? Vai fugir de mim agora? - ele perguntou, com o olhar cravado em meus seios no top cinza. Aquelas palavras me fizeram tremer, mas eu apenas tentei seguir em frente, tentando não mostrar o quanto ele estava me afetando.
Ele deu um passo para o lado, como se nada tivesse acontecido, mas a tensão ficou comigo. No fundo, sabia que isso era só o começo. Eu só queria me afastar. Queria estar longe dele.
No quarto, tentei me concentrar. A ansiedade ainda me tomava, mas eu sabia que o final período acadêmico estava começando, e com ele, o período de avaliações, seminários que se aproximavam. Contudo, minha mente não conseguia focar nos estudos. A lembrança do olhar de Marcelo, sua atitude invasiva, se repetia em minha cabeça.
Os passos dele no corredor interromperam meu frágil momento de concentração. A sombra de seus pés se projetava por debaixo da porta, e logo o clique da maçaneta girando fez meu estômago se revirar. A maldita fechadura quebrada, agora me mostrava o quanto, o antes não precisava de travar, neste momento necessitava.
- Você ficou chateada com aquilo, né? - perguntou, encostado no batente.
- Marcelo, o que você tá fazendo aqui? - perguntei, tentando soar firme, embora meu coração estivesse disparado.
- A porta tava encostada, ficou chateada? - mentiu, logo se aproximou, encostando o quadril na minha cadeira. A pressão no meu ombro me fez sentir uma onda de desconforto, que eu não consegui me mexer.
- Não, só estou ocupada, você não devia, minha mãe... - tentei, mas ele me interrompeu.
- Para de ser nerd, Mavi, vamos curtir um pouco.- Disse me olhando, me percorrendo com os seus olhos que não escondiam seus desejos impróprios. - Sua mãe tá lá embaixo, curtindo um pouco os amigos. Relaxa. Você não precisa ficar sozinha... Eu posso te fazer companhia. Aposto que sente falta de carinho - ele sussurrou, sua respiração quente próximo à minha nuca.
- Marcelo, sai do meu quarto, por favor. - Antes que eu pudesse reagir, ele se abaixou e me beijou. Sem aviso. Sem permissão.
Aquele beijo me paralisou. Foi um choque. O gosto de cerveja, o bafo quente, o asco imediato. Algo se quebrou dentro de mim naquele instante. Empurrei-o com força, o livro voou da mesa. O susto me tomou, e o grito que escapou dos meus lábios foi reflexo de uma dor profunda.
- Sai daqui! - gritei, a voz embargada. - Tá louco?
Ele recuou dois passos, levantando as mãos como se fosse inocente, mas o sorriso dele era nojento, cínico.
- Você vai mesmo estragar o dia da sua mãe com uma historinha dessas? - disse ele, como se fosse algo trivial.
Lágrimas queimaram meus olhos, mas engoli cada uma, eu não seria uma vítima, nunca! Uma conversa com a minha mãe bastava.
A porta bateu ao sair, e eu fiquei ali, sozinha, com o coração disparado, a respiração em frangalhos. O medo se espalhou por cada centímetro do meu corpo. Eu estava sozinha. E a sensação de ter perdido um pedaço da minha segurança dentro de casa me invadiu como uma onda arrasadora.
Limpei a minha boca, como quem buscava se higienizar de germes, para mim, Marcelo não era diferente, haviam dias que ele não escondia os seus olhares, e aquilo para mim, era ultrapassar tudo, não era coisa da minha cabeça.
Era noite quando desci, a minha mãe estava na sala, debruçada no colo dele, ignorei os olhares de Marcelo. Fitei a mulher de rosto escondido, pele bronzeada, cabelos loiros lisos bagunçados. - Mãe, preciso conversar com você. - Pedi.
Observando o modo como ele massageava as suas costas. - Agora, filha? - Perguntou com a voz abafada. - Sim, mãe é...
- A sua mãe não esta bem, Mavi, ela está com a pressão baixa. - Assenti diante ao que ele disse.
- Amanhã filha, pode ser? - O que eu poderia dizer? Uma hora a conversa aconteceria? - Tá, amanhã? Pode ser.
Os dias foram passando, o ambiente em casa se tornava cada vez mais hóstil. Minha mãe sempre ocupada, distraída com suas próprias preocupações, mal percebendo o que acontecia ao seu redor. Eu, por outro lado, tinha as obrigações da faculdade, as provas finais, os estágios práticos chegando, o final do de semestre, mas nada disso parecia ser suficiente para me afastar das visitas de Marcelo.
Às vezes, eu mal podia acreditar em como ele conseguia se fazer presente sem ser convidado, aparecendo em todos os cantos da casa, sempre com aquele olhar que não sabia esconder. Ele parecia estar em todo lugar, sempre perto demais, como se quisesse ocupar cada espaço. Cada movimento meu era seguido por ele, e eu não sabia mais como reagir.
Era comum que eu estivesse no meu quarto, tentando estudar ou descansar, quando ouvia a porta se abrir com um ranger baixo. Ele nunca batia. Apenas entrava, e o simples som de seus passos parecia encher o ambiente com uma tensão que eu não sabia como cortar.
No início, eu tentava ser educada, fingir que não me importava. Mas, com o tempo, as coisas começaram a se tornar insuportáveis.
Uma tarde, eu estava sentada na cama, meus livros espalhados, quando ele entrou sem aviso. Seus olhos, sempre insistentes, caíram sobre mim de imediato, como se me estudassem, e logo a conversa começou, sem que eu tivesse muito a dizer.
- Mavi, você sabe que a vida não é só essa correria de estudos, né? - Disse, enquanto se aproximava lentamente. Sua voz era suave demais, como se tentasse me acalmar, mas eu sentia a pressão de suas palavras, o peso que elas carregavam.
Tentei me concentrar nos livros, evitar a troca de olhares, mas ele não desistia. À medida que ele se aproximava, a tensão se tornava mais palpável. Eu sentia seus olhos sobre mim, como se tentasse me desnudar, como se me tivesse tirado a roupa sem sequer tocá-la. Um desconforto crescente tomou conta de mim, e eu só conseguia manter a cabeça baixa, me forçando a ignorá-lo.
Foi então que ele se sentou ao meu lado na cama, muito mais perto do que eu desejava, a distância entre nós parecia desaparecer. Ele tocou meu ombro, com um movimento tão suave que parecia carinhoso, mas havia algo naquele toque que fez meu corpo estremecer. Não foi uma carícia. Foi um toque possessivo, algo que me fez sentir invadida.
- Você está tão tensa, Mavi... Você deveria relaxar mais, aproveitar a vida... - Ele sussurrou, tom doce, mas a intenção por trás das palavras era clara demais.
Eu não sabia o que responder. Tudo o que eu queria era que ele saísse. Mas ele não estava ali por muito tempo. Cada visita dele parecia mais uma invasão do que um momento de convivência. Ele começava com conversas aparentemente inocentes, mas logo as palavras se tornavam mais pesadas, os gestos mais próximos.
Naquela tarde, enquanto ele conversava sobre algo irrelevante, eu percebi o quão perto ele estava. O calor de seu corpo parecia se infiltrar no meu espaço, invadindo algo que eu queria manter meu. Ele respirava mais fundo, eu sabia que ele estava se aproximando mais, talvez para encostar em mim, talvez para testar os limites, e o pior de tudo era que eu não conseguia encontrar uma saída.
Num momento em que ele olhou diretamente nos meus olhos, como se quisesse me dizer algo sem palavras, eu senti uma roçada no meu ventre. O toque indesejado. O calor do seu corpo contra o meu fez com que minha pele se arrepiasse, e minha garganta secasse.
Naquele momento, ele sorriu. Um sorriso lento, quase triunfante, como se tivesse conquistado mais um pedaço de mim sem que eu tivesse me dado conta.
- Não precisa ter medo, Mavi... - Disse com a voz baixa, como se fosse um segredo entre nós dois. - Eu só quero o melhor para você. Tudo o que eu sentia era repulsa. Ele se levantou, saindo como se nada tivesse acontecido, deixando para trás a sensação de que ele sempre estaria ali, pronto para invadir novamente, pronto para testar os limites mais uma vez.
Eu fiquei ali, imóvel, sem saber o que pensar. O silêncio da casa agora parecia me sufocar, e o peso dos dias que se arrastavam só aumentava. Eu não sabia por quanto tempo conseguiria aguentar. Cada passo, cada movimento dele, parecia ser uma ameaça silenciosa, uma constante lembrança de que, dentro daquela casa, eu não estava segura.
Era sábado a noite, quando novos convidados chegaram, estranhei: música baixa, pessoas conversando, risos, bebidas, buffet. Eu não me lembrava de nenhum aniversário, entrei em casa estranhando uma festa repentina, balões brancos, nome bem vindo em painel, pessoas dispersas, cumprimentei a todos, com a desculpa de tomar um banho após um sábado cheio.
Fui para o quarto, arrumava o meu material, quando a minha tia chegou. Helena não era minha tia de sangue, mas não me lembrava de um único acontecimento em nossas vidas em que ela não estivesse presente, com seu sorriso sincero e olhos atentos.
- Como você cresceu, menina! - disse, me abraçando forte. - Está linda!
Conversamos no meu quarto. Falei sobre os estudos, o estágio. Tentei ignorar o que realmente queria dizer.
- E como está a gravidez da sua mãe? - ela perguntou, como se fosse algo óbvio.
Meu corpo congelou.
- O quê?
- Ah... ela não te contou? Achei que já soubesse...
Levantei num pulo. Saí em disparada até a sala. Minha mãe estava cercada de convidados. Sentada no colo de Marcelo, uma taça de suco na mão, sorria enquanto os amigos a parabenizavam.
Grávida.
Dele.
Tudo fez sentido. Os toques. Os sorrisos. A aproximação forçada. E ela... ela escolheu ignorar.
Após a saída dos convidados, fui até seu quarto. Marcelo ainda estava ocupado liberando o pessoal do buffet.
Bati na porta devagar.
- Mãe, a gente precisa conversar.
Ela me lançou um olhar feliz.
- O que foi agora, Maria Vitória? Veio me dar os parabéns? - Abriu os braços, mas eu neguei.
Engoli em seco. Sim, eu estava frustrada. Ela grávida. E eu, a última a saber. Mas algo muito pior me incomodava. - Ihh lá vem você com as suas crises. - Reclamou.
Entrei em seu quarto, fechando a porta atrás de mim.
- Não é crise. É sério. É sobre o Marcelo.
Ela soltou um suspiro.
- O que tem ele? Fez alguma coisa que você não gostou de novo? Porque, sinceramente, eu já tô cansada desse seu drama com ele.
- Ele me beijou. À força. Aqui em casa. - falei, olhando nos olhos dela.
Ela se calou por um segundo. Depois riu, nervosa.
- Você só pode estar brincando.
Neguei com a cabeça.
- Eu não tô brincando. Ele aproveitou que você estava na piscina, veio até meu quarto... e me... me beijou. Eu empurrei, gritei com ele. Fiquei com nojo, mãe.
Ela me encarava de volta, erguendo o dedo indicador com o anel dourado com um desenho de nó, destacado.
- Peraí. Você tá me dizendo que o Marcelo, meu namorado, tentou te forçar? Que tipo de coisa absurda é essa, Maria Vitória?
Era doloroso dizer. Principalmente para alguém que não parecia afim de acreditar.
- A verdade. Ele passou dos limites, mãe! E eu tô te contando porque você precisa saber com quem tá dormindo!
- Ou você quer que eu brigue com ele por tua causa, é isso? Tá com ciúmes porque ele me trata bem? Porque finalmente tenho alguém que me valoriza?
- Ciúmes?! Eu tô tentando me proteger! E proteger você também! Ele é um abusador!
Ela ergueu a mão, pedindo silêncio.
- CHEGA! Eu conheço o Marcelo! Ele nunca faria isso. Você deve ter entendido errado ou... tá inventando tudo pra me deixar sozinha de novo. Você sempre odiou quando eu tô feliz!
Comecei a chorar. A voz já embargada.
- Você tá me chamando de mentirosa?
Ela sentou na cama e me puxou pela mão.
- Tô dizendo que talvez esteja confundindo as coisas. Você sempre foi carente, sempre precisou de atenção. Vai ver se insinuou... vai ver ele entendeu errado.
Me afastei, em choque.
- Você não tem ideia do que tá dizendo. Eu... eu sou sua filha. E você prefere ele?
Os olhos dela marejaram de raiva e confusão.
- Eu prefiro a verdade. E até onde sei, o Marcelo nunca me deu motivos pra duvidar dele.
As palavras saíram num sussurro: - Você acabou de escolher ele. Mesmo depois de tudo.
Ela se levantou, firme.
- Você tá inventando isso porque não aceita minha felicidade - disse, com os olhos cheios de mágoa. - Marcelo é o pai do meu filho. E você vai ter que aceitar isso, deve esta com ciumes porque não mais minha filha única.
Ela não acreditou em mim.
Ninguém acreditou.
Arrumei uma mochila e saí. Fui para a casa da tia Helena, sem olhar para trás.
Os meus dias se tornavam cada vez mais cheios.
Eu ainda pensava em tudo, a manhã no hospital, a tarde na palestra, noite no seminário.
Cheguei em casa tarde da noite, mas foi o silêncio que me atingiu primeiro. Um silêncio que não era paz, era alerta. Um presságio, um aviso sutil de que algo estava prestes a acontecer. Um tipo de vazio denso, que se espalhava pelo corredor como névoa antes da tempestade. Subi os degraus devagar, sentindo o peso do dia se acumular nos ombros. A maleta escorregava da minha mão, o paletó já amarrotado pelas idas e vindas, por vestir e despir ao longo das horas, ou por simplesmente estar ali, à espera.
Passava das onze da noite. Eu havia avisado que não viria direto pra casa, depois da palestra, talvez esticasse no hospital. Maria Clara não precisava me esperar, mas o evento acabou cedo, a chuva mudava os planos naquela noite. Nossos dias estavam cheios, corridos. E o que um dia foi promessa de vida mansa, de descanso, se perdia lentamente em trabalhos intermináveis.
O andar de cima estava escuro, exceto pela fresta de luz vinda do nosso quarto. A porta entreaberta, hesitei. Me sentia exausto. Coisas simples, rotineiras, já não eram leves. Com os anos, tudo pesa.
- Oh, que delícia! - a voz feminina entre gemidos atravessou a porta, cortando o ar como uma lâmina.
Um suspiro, outro. O som era molhado, abafado, íntimo. No primeiro instante, estranhei. No segundo, duvidei.
- Quica, isso, gostosa, vai, vai, isso... Ahhhh! - Uma voz masculina entre sussurros e grunhidos que nunca tinha ouvido antes me atingiram. Ali, naquele corredor familiar a minha pulsação saltou. Um calor estranho subiu pelo meu rosto. A mão apertou a maçaneta. E, sem pensar, empurrei a porta já aberta.
A cena explodiu diante de mim.
Corpos se moviam na minha cama, em completa escuridão. A Minha esposa montada sobre outro homem. Os cabelos castanhos desgrenhados, colados à testa suada. As costas nuas, desenhando curvas que antes eram minhas. O lençol lilas, escorregava, revelando o que jamais imaginei ver: os seios dela, arfando, à mostra; os lábios entreabertos num êxtase que não me pertencia.
Eles se moviam juntos, embalados no ritmo da traição. Até que o som da porta batendo interrompeu tudo, enquanto velando tudo aquilo, engoli em seco a dor, o peso da traição, as minhas mãos tremiam, meu corpo suava, apesar da chuva fina que caia lá fora.
Ela virou o rosto, os olhos dela encontraram os meus, congelaram. O homem de pele negra, mais jovem, talvez uns dez anos a menos que eu, musculos saltitantes, cabelos crespos, engasgou de susto. A empurrou para lado, e em seguida sentou na cama, tentou pegar a calça do chão, mas a nudez deles já estava cravada na minha memória.
- Maria Clara? - A minha voz saiu rouca de raiva, embargada.
Minha voz saiu baixa, áspera, como se rasgasse minha garganta. O lençol subiu com pressa, mas já era tarde. O corpo dela, mesmo coberto, gritava luxúria. A pele avermelhada. Agora de quatro na cama, tentando se recompor. A culpa estampada no rosto como se tivesse sido esculpida a fogo.
- Xande... eu... - Ela tentou dizer, quando não havia desculpa. Nenhuma palavra cabia naquele espaço.
Eu olhava para ela e não conseguia reconhecê-la. A mulher com quem dividi minha vida, minha cama, meus sonhos... agora exposta, entregue a outro, no lugar que era meu.
- Na nossa cama? - Tudo que consegui dizer.
A pergunta escapou antes que eu pudesse contê-la. Não era somente raiva. Era choque. Incredulidade.
O homem abaixava a cabeça, tentando se vestir às pressas. O cheiro no quarto era outro. Umidade, suor, perfume feminino misturado com colônia. Uma mistura agridoce e vulgar.
- Você nunca está aqui! - ela explodiu, os olhos marejando. - Nunca! Quando está, é só hospital, plantão, cirurgia, tese, congresso, artigo! Você me deixou sozinha há anos, Alexandre!
Ela disse meu nome como se fosse uma acusação.
- Isso justifica... isso? - gesticulei, sem saber onde fixar o olhar. No lençois caídos? Nos dedos dela ainda marcados pelo prazer? - Eu achei que estávamos juntos nisso. Que sabíamos os custos. Você sabia com quem casou.
Ela riu. Um riso curto. Ácido.
- Eu casei com um homem apaixonado pelo jaleco. Que salva o mundo inteiro, mas me deixava morrendo aos poucos. Você não me tocava mais, Xande. Eu me sentia invisível.
Isso não era verdade, eu tinha tentando na noite anterior e ela disse que estava com dor de cabeça. - E resolveu se mostrar pra outro? Na nossa cama?
Minha voz falhou. Então veio o enjoo. Uma náusea surda. Nojo. Pena. Frustração.
- Isso muda tudo, Clara. - Era claro que mudava, todas as suas recusas, os seus horários excessivos de trabalho.
- Já estava mudando há muito tempo. Você só não percebeu. - Gritou, enquanto a ficha caia.
O silêncio caiu de novo. Mas, desta vez, não era denso. Era definitivo.
Peguei meu paletó. Não olhei para trás. O som dos passos dela, o murmúrio do outro homem, os suspiros abafados, os lençóis... tudo virou ruído distante. Eles discutiam entre si, quando parti.
Desci como se os degraus pertencessem a outro mundo. Um universo que não era mais meu.
A casa... a casa que construí... agora era apenas o lugar onde fui traído.
Do lado de fora,a chuva caía, o ar estava úmido. Respirei como se buscasse um pedaço de mim mesmo.
****
O bar estava quase vazio, só o som da TV ao fundo e o tilintar esporádico de copos no balcão. Aquele lugar esquecido pela cidade era o refúgio silencioso de Heitor. Sempre que a vida ameaçava ruir, ele me trazia ali. Hoje, era a minha vez de desabar.
O gelo no copo girava devagar. Como se aquele uísque pudesse me anestesiar. Como se tivesse o poder de apagar a imagem que ainda queimava nas minhas retinas. Clara. Outro homem. O lençol que nunca mais será só nosso.
- Clara está com outro. E não é de hoje - falei sem rodeios, sem filtro. A voz saiu baixa, carregada de vergonha. - Pela forma como os corpos se encaixavam... aquilo não era novo. Era íntimo. Familiar.
Heitor abaixou os olhos. O silêncio dele era mais respeitoso do que qualquer frase de consolo.
- Desculpa, cara. Eu nem sei o que te dizer.
- Engraçado... - dei um leve riso sem humor. - Quando a gente tá dentro da tempestade, não percebe o quanto o barco já estava fazendo água.
Ele assentiu. Como quem já soubesse, mas se recusava a ser o mensageiro.
- E você ainda ama ela?
A pergunta ficou no ar, reverberando entre a fumaça da cozinha e o cheiro agridoce do álcool barato. Amor. Parecia ser palavra difícil agora.
- Eu amava o que a gente foi um dia - respondi, encarando o âmbar do copo. - O resto virou encenação. Ela tem razão. Eu me escondi atrás da medicina, me enterrei em plantões, congressos, aulas... - Dei um gole. - Mas não foi por ego. Eu achava que estava protegendo a gente. Fazendo tudo valer a pena, um aposentadoria digna, uma vida confortável, como sempre planejamos.
- Às vezes, o legado cobra caro - disse ele, meio rindo, meio triste.
- Cobra. E não é parcelado.
Mais um silêncio ficou entre nós.
Então Heitor largou o copo sobre a mesa, me olhou de lado, como quem pondera se deve ou não dizer algo.
- A minha cobrança também chegou, Alex. A Laura me ligou. - Soltou como se fosse um peso.
- Laura que Laura? - perguntei, mais por impulso do que por interesse. A cena de Clara me traindo ainda corroía por dentro.
- A mãe da minha filha, Maria Vitória. - Disse me olhando seriamente, após um longo suspiro.
Maria Vitória. O nome ressoou estranho. Como algo que incomoda e atrai ao mesmo tempo. Talvez fosse o contraste entre "Maria" - contido - e "Vitória" - explosivo. Mas era só um nome. Sendo filha dele, eu apostei no segundo.
- Me ligou pra reclamar da menina. Disse que não tá dando conta, quer que eu vá buscá-la. - Desabafou.
- Quantos anos ela tem?
Ele deu de ombros, bebendo mais um gole.
- Não faço a menor ideia, talvez cinco, seis, não me lembro ao certo.