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O mercenário e a patricinha - Improvavel Amor

O mercenário e a patricinha - Improvavel Amor

Autor:: Julia.Ashley
Gênero: Romance
Donna Reid era uma garota sonhadora e apaixonada pela vida, até que uma fatalidade mudou bruscamente seu destino e com isso o seu comportamento. Depois que foi morar com seu tio, ele passou a atender todos os seus caprichos de garota mimada e excêntrica. Ela era vista por todos como uma patricinha e não fazia questão de esconder que era uma rebelde sem causa. Contudo, uma notícia faz Donna repensar seu comportamento e embarcar numa aventura como voluntária em uma aldeia remota de um país subtropical. Um conflito estoura naquela região fechando todas as fronteiras e os rebeldes pretendem matar todo estrangeiro que for encontrado em suas terras. Desesperado, seu tio contrata o ex-mercenário Charlie McAleese para trazer sua sobrinha de volta para os Estados Unidos. Os poucos dias que passam juntos faz explodir uma paixão avassaladora entre eles, e enquanto fogem, os dias e noites tornam-se mais quentes nos braços um do outro. Mas poderá a paixão resistir à vida real? Como eles vão reagir ao deparar-se com a realidade e ver que são de mundos completamente diferentes? O amor entre eles é tão improvável, quanto água e óleo de se misturarem

Capítulo 1 Prologo

"Em meio ao sufoco de lutar pela sobrevivência, seu amor vem como um sopro de ar fresco, revelando e expondo sentimentos."

Donna Reid

Prostrada diante do vaso, já não tenho mais nada para colocar para fora, apenas a bile que sai com um gosto amago, queimando minha garganta. Os espasmos foram tantos, que fiquei com dor abdominal.

Tem poucos minutos que cheguei de mais uma balada das tanta que vou. Estava tão bêbada, que não consegui me segurar nas próprias pernas e como meus amigos estavam do mesmo jeito, a moça do bar que conhece minha amiga Vick, ligou e pediu que ela fosse me buscar e foi assim que cheguei a minha casa. Desta vez não contaria com a proteção do senhor Pitter, que por vezes me seguia, pensando que eu não notava, e me levava para casa.

Quando Vick chegou, ao ver meu estado, seu olhar de reprovação me magoou, mas eu tinha que continuar com minhas festas, esse era meu anestésico, o combustível que me dava forças para continuar. Fazia um tempo que eu não a locais assim, acho que depois de conhecer Kevin, não me senti tão inclinada a fazer essas coisas.

A primeira vez que fui a um lugar daqueles, depois de um empurrãozinho do pessoal da faculdade, fui com a cara e a coragem, mais com a cara do que com a coragem, porque me deu um pavor e quase voltei da porta mesmo. Nunca tinha ido a um lugar assim e embora não tenha nada demais, devido aos meus propósitos, aos pensar nos meus pais, me sentia como se os tivessem traindo. Mas foram eles quem havia me deixado, não por vontade, é claro. Mas nem por isso eu deixava de sentir e ter vontade de externar minha frustração. Aquela garota meiga e sonhadora já não existia mais.

Com o tempo me acostumei a música alta, as luzes multicoloridas piscando, as cantadas baratas, principalmente quando ficava no bar ou ia para a pista e até ao cheiro de sexo próximo aos banheiros, na parte mais escura onde muitos casais aproveitavam para se pegar.

A turma com a qual estava acostumada a andar gosta de zoar e muitas vezes a animação se estendia para atos de vandalismo, e uso de drogas, o que já me rendeu algumas idas à delegacia e devido ao nome influente do meu tio, nada sobre mim foi mencionado, mas eu adorei sua cara de constrangimento ao ir me buscar, inclusive quando em uma das vezes, o grande e magnânimo Edgar Reid ameaçou uma jornalista caso ela citasse meu nome em alguma reportagem dela. Sei bem que ele fez aquilo contra sua vontade, deve ser remorso e por isso não trata e não gosta de ver outras pessoas tratando outras de forma ruim. Às vezes faço só de pirraça com as empregadas da casa e quando penso que ele vai me repreender, ele se cala e não diz nada. Embora eu pudesse ver em seu semblante a reprovação.

Ontem mesmo, antes de sair, aconteceu algo desse tipo. Procurei uma roupa específica e a incompetente da empregada disse que estava na lavanderia e outro vestido, o qual gosto muito, na tinturaria. Enraivecida, expulsei-a aos berros do meu quarto e proibi qualquer um de cuidar das minhas coisas, apenas Gertrudes poderia fazer isso. Ela era uma velha chata, que me olhava com ar de reprimenda, mas pelo menos não questionava minhas ordens.

Levanto cambaleando e vou tomar um banho, preciso dormir ou não estarei inteira esta noite.

Um tempo depois...

Sinto uma frustração muito grande.

Esta noite me senti profundamente infeliz, tenho vontade de chorar. Tentei dormir, fechar os olhos, mas não consegui. Precisei sair do quarto, andar um pouco pela casa para ver se a vontade se dissipava, mas, não consegui segurar o choro.

Sentia minha cabeça doer e as lágrimas não pararam de descer. Em dado momento, me distraí por alguns minutos, mas logo aquela sensação de sufocamento voltou. Comecei a pensar em muitas coisas, meus pensamentos estavam uma bagunça.

Sinto vergonha do que tive vontade de fazer e arrependida peço perdão, mas quando a angústia volta, eu penso tudo de novo e me sinto uma covarde por não ter coragem. Eu queria dar um fim a isso, queria mesmo. Mas não consigo.

Eu não consigo...

Faz algumas horas que tomei uma decisão que talvez mude minha vida de uma vez por todas, e talvez seja bom. O que sei é que preciso de uma guinada de 360 graus. Preciso de uma mudança de ares e quem sabe assim eu me encontre, pois do jeito que estou nem eu tenho me suportado e depois do que vi e ouvi, jamais vou permitir que alguém me machucasse de novo. Vick achou uma loucura, mas talvez seja isso que eu precise para me reencontrar.

Capítulo 2 Capitulo 01

Charlie MacAleese

Eu estava incrédulo.

Não podia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Dentre todas as pessoas, ele sabia que aquilo estava fora de questão.

- Como pôde garantir em meu nome que eu traria a sobrinha dele em segurança? - cruzei os braços, estreitando os olhos enquanto o homem à minha frente coçava a nuca, desconfortável.

- Escute! Você é o melhor e ele está disposto a pagar o que for preciso - disse. - Vá falar com ele e o convença de que seu trabalho valerá cada centavo. Mostre que a lenda não está enferrujada.

- Por que ele não chama os caras? O FBI, a S.W.A.T? O homem é podre de rico.

- Às vezes um homem faz o que é melhor para sua família, não para ele.

Olhei para meu amigo de longa data. Depois que me afastei de tudo, ele era o único que sabia minha localização. Durante muitos anos estivemos juntos em situações complicadas demais devido ao nosso passado mercenário. Éramos respeitados e temidos por muitos homens. Homens sábios. E aqueles que não detinham tanta sabedoria assim, aprendiam a nos respeitar da maneira mais difícil.

Pisco, focando no presente e respondo.

- Primeiro que não faço mais esse tipo de serviço. Segundo que estou aposentado e terceiro... - faço uma pausa. - Aquela garota é problema. Aparece mais em tabloides do que é possível para uma vida inteira e sempre está envolvida em alguma confusão.

- Pensei que estando isolado aqui nesse fim de mundo, não estivesse por dentro do que acontece na alta sociedade - diz em tom de deboche, um sorriso de canto evidenciando o sarcasmo. Como não digo nada, ele continua. - Ela é um problema sim, mas um problema encrencado e com um tio preocupado e disposto a pagar o que for para tê-la em segurança.

Eu, Charlie MacAleese, um ex-mercenário, lutei inúmeras batalhas que não eram minhas, em troca de pequenas fortunas, das quais saí vitorioso na maioria delas. Desde que resolvi sossegar, três anos atrás, levava uma vida solitária, tornando-me quase um celibatário e que não se sentia impressionado pelas mulheres. Essas até me consideravam bonito e rude, eram atraídas por minha natureza bruta como moscas num pote de mel, acreditando que conseguiriam me domar. Tolas.

Tinha como principal regra, nunca confiar em outro ser humano. Era metódico, receoso e complexo por natureza. Exceto com o homem à minha frente, o qual considerava um amigo e que salvara minha vida uma centena de vezes.

Cresci em Glasgow, Escócia, sendo o filho caçula de um pai solteiro e viciado. Quando jovem, perambulava pelas ruas com trombadinhas e drogados, cheguei a participar de brigas de ruas, onde ganhava uns trocados. Muitos me achavam fraco e inofensivo devido ao corpo franzino e maltrapilho, mas o instinto animal era despertado quando me lembrava do meu pai e das surras que levava quando ele chegava bêbado ou drogado.

Aos 17 anos, ao me ver sozinho no mundo, depois que meu irmão desapareceu e meu pai morreu de overdose, entrei para um grupo de elite de agentes SSA do exército britânico que tinha base naquela região, o qual abandonei dois anos depois, após ser desautorizado em uma missão que envolvia crianças e estas acabaram perdendo suas vidas. Assim que percebi que tinha algo errado, quis abortar a missão, gritei código cinco incontáveis vezes, mas mesmo assim, eles prosseguiram.

"Elas eram um dano colateral." - disse o capitão depois de ser questionado.

Filho da puta!

De volta às ruas, por muitos anos vivi sem luxo. Sem estudo, era difícil conseguir trabalho e eu vivia de pequenos furtos e alguns serviços escusos, sabia que tinha de ser discreto para não chamar a atenção das autoridades.

Numa dessas atividades, acabei cruzando com o caminho de Pitter, meu benfeitor. Sabia muito bem que devia tudo àquele homem que estava sentado junto à janela do meu chalé. Ele foi o primeiro que percebera a inquietação que tinha dentro de mim e me levou para conhecer um grupo de guerrilheiros e mercenários. Durante os anos que trabalhei com eles, aprendi a dominar as técnicas da luta com adagas e do combate corpo-a-corpo. Com inteligência, tornei-me mestre em enganar meus oponentes com truques de camuflagem e me tornei mortífero ao utilizar essa habilidade contra os inimigos. Nasceu ali o apelido de "Andarilho da noite".

- Se aceitar esse trabalho, eu quero metade do valor combinado em minha conta nas próximas doze horas. E se eu falhar e não trouxer a garota mimada de volta, não farei a devolução.

- Tudo bem.

- Tem mais uma coisa. Ele é um homem poderoso, com certeza ninguém o quer como inimigo, muito menos eu. Porém, não vou aliviar para o lado da garota, ela vai ter que me obedecer até estarmos em solo americano e no primeiro problema que ela causar. Deixo-a onde estiver.

- Fique tranquilo quanto a isso. Todo trabalho tem seus riscos e ele conhece a sobrinha bem demais. Sabe que terá um belo desafio pela frente - ele sorri sarcástico. - Só que eu o conheço bem demais também, não se esqueça disso, controle seu gênio e traga a Srta. Reid segura para casa. Tem tudo para ter êxito, além de excelente piloto, é um ótimo atirador. Saber ser imperceptível quando quer e sabe muito bem que é o único que pode tirá-la de onde está.

- Sabe que há poucos dias estourou uma guerra naquela região, e são poucas as chances de entrar, dirá sair, ainda mais com um peso extra.

- Apenas vá e fale com ele. O Sr. Reid colocará o que precisar a sua disposição, helicóptero, avião, lancha...

- Tenho meu próprio avião, sabe disso. Se algo acontecer com ele, quero outro novinho em folha.

- Está muito exigente.

- Sou um mercenário, esqueceu?

Horas mais tarde...

- Entre! - disse a voz firme, depois de uma batida discreta na porta.

Edgar Reid é sinônimo de poder. Um homem de postura imponente, exalando sucesso por todos os poros, mas, um olhar mais apurado como o meu, consegue enxergar a camada de vulnerabilidade por baixo da casca grossa. Dono de uma das redes de telecomunicações mais visada do país. É um solteirão convicto, e, amarga ver seu nome construído com tanto zelo nos tabloides sensacionalistas por conta da sobrinha rebelde.

- Sr. MacAleese - me cumprimenta dando a volta na mesa.

Seu aperto de mão é firme, enquanto mantém contato visual comigo, me avaliando e eu faço o mesmo desafiadoramente. Ele desfaz o contato e com um meio sorriso, discreto, porém, genuíno, me indica a cadeira para sentar, sentando-se em seguida na cadeira oposta à minha, em vez de voltar ao seu lugar atrás da enorme mesa.

- Vim saber o que exatamente o senhor espera de mim - rompi o silêncio.

- Antes gostaria que me falasse um pouco mais de você.

- Não sabia que devia fazer uma apresentação ou trazer um curriculum.

A tensão foi quebrada pela gargalhada que o homem soltou, me pegando desprevenido.

- Touché! - diz quando se recompõe. - Sei tudo o que preciso sobre você, senhor MacAleese.

"Ou pensa que sabe."

- Suponho que sim - digo simplesmente.

- Ou ao menos sei o que importa - homem esperto, penso. - Pitter confia muito no senhor e disse que posso fazer o mesmo. Somente por esta razão é que o chamei aqui.

- Pitter falou que está disposto a pagar um alto valor, apenas por isso que vim.

Os olhos azuis do homem me encaram com seriedade e mais uma vez a sombra de um sorriso desponta em sua feição séria.

- O senhor é direto. Gosto disso.

Para muitos posso parecer cínico. Eu chamo de praticidade.

- Sou um homem prático.

- Pois muito bem - ele pega um bloco de notas e uma caneta, escreve algo e me entrega. - Espero que esteja bom para o senhor. Metade agora e metade quando voltar.

Quase estraguei minha postura diante do valor escrito ali. Olhei por um longo tempo para o homem, desviando o olhar para o papel e voltando ao seu rosto.

- Já recebi muito dinheiro por meus serviços, mas nada perto disso.

- Eu não tive filhos, senhor MacAleese. Donna é o que me restou do meu irmão, minha única família. Talvez tenha agido de forma errada, fazendo todos os seus gostos desde que veio morar comigo - ele baixa a guarda pela primeira vez desde que começamos a conversar. - Mas eu a amo e por detrás das câmeras e dos holofotes, ela é só uma garota assustada e confusa. E agora corre grande perigo longe de casa.

- Como permitiu que ela se enfiasse naquele fim de mundo? - pergunto impertinente.

A Guatemala esteve sob o domínio de um conflito armado que durou cerca de 40 anos, de lá para cá vários conflitos aconteceram sem tanta relevância como este de agora. Não consigo entender o que uma garota como Donna Reid foi fazer num lugar como aquele.

- Quando a conhecer vai saber que ela é uma força da natureza. Teimosa e voluntariosa - seus olhos ficam sem foco, como se lembrasse de algo. - Ela tem muito mais de mim do que do próprio pai. Preciso que a traga de volta...

- Não posso garantir que a trarei sã e salva, mas farei o meu melhor - digo me levantando.

- Pitter me disse que era o mais qualificado para essa missão e se ele confia tanto no senhor, eu também vou confiar. É minha única chance - ele também se levanta de seu lugar.

- Quero o valor todo em minha conta e não metade. Posso não sair vivo de lá para receber o restante.

- Se não sair vivo, não poderá gastar o que receber.

- Isso é um problema meu - digo firme. - Então temos um acordo?

- Sim! Temos um acordo.

- Farei tudo o que for possível - estendo minha mão.

- Com o valor que está recebendo, não espero menos do que o impossível, senhor MacAleese.

- É justo.

Capítulo 3 Capitulo 02

Donna Reid

Desde a hora que acordei que tento entrar em contato com meu tio nos Estados Unidos e não consigo. Parece haver algum tipo de interferência e a chamada não é completada. Preciso saber se ele vai realmente enviar o valor prometido para ajudar no tratamento do pequeno Osmin, uma criança com uma anomalia genética e por isso é alvo das gozações dos colegas, o que o deixa arredio e introspectivo. O problema é que sua família não tem condições e antes de dar uma esperança a eles, entrei em contato com meu tio.

Eu sei que não deveria me envolver tanto e que não poderei ajudar a todas as famílias necessitadas desse país. Mas assim que cheguei, me senti facilmente acolhida por eles, e o pequeno se aproximou de mim de forma tão carinhosa, deixando até mesmo seus pais surpresos e, com o passar dos meses, fui me afeiçoando a cada um de forma especial.

"- Não se apegue muito" - disse Victória quando se despediu de mim, três meses depois de ter chegado e seu trabalho ter sido concluído. - "Você gosta de parecer durona, mas tem o coração mole."

Sorrio ao lembrar-me de suas palavras.

Com o fim do trabalho, era hora de voltar, mas eu resolvi ficar.

"- Tem certeza que não quer ir?" - perguntou com esperança.

"- Tenho sim. Ainda não estou pronta e sem você e os outros aqui, as crianças ficaram sem apoio até que o novo grupo chegue."

"- Tudo bem. Cuide deles por mim."

O trabalho voluntário em que estávamos inseridas consistia em cultura e educação em conjunto com uma organização educacional sem fins lucrativos, focado no desenvolvimento moral, econômico e cultural de famílias pobres na Guatemala.

Grande parte da população é de origem indígena. Mas há também muitos descendentes de espanhóis, além da presença de pessoas de outras culturas.

"- Pode deixar" - retribuí seu abraço. Eu sentiria muito a falta dela.

Ao contrário de mim, Victória é baixinha, morena e tem o rosto redondo. Enquanto eu sou loira, alta e com rosto afilado. Fizemos faculdade juntas e dentre todos os amigos que eu tinha, ela era a única que falava o que pensava da vida desregrada que eu estava levando. Sempre em festas badaladas, regadas a muita bebida, sexo e drogas. Esses dois últimos, eu não me envolvia e nem sabia muito, quanto ao quesito bebida, muitas vezes precisei de ajuda para chegar em casa ou até mesmo ia parar no hospital devido ao excesso delas. Isso quando não me envolvia em alguma confusão, causando desordem e indo parar na delegacia, o que chamava a atenção da mídia sensacionalista e revistas de fofocas.

Meu tio não dizia nada, apenas me olhava com um olhar complacente e isso me matava por dentro. Eu queria feri-lo, magoá-lo, assim como ele fez comigo. Mas nada do que eu fizesse, parecia atingi-lo. Estava apenas me destruindo aos poucos e foi isso que Vick me fez enxergar da última vez que foi me buscar numa emergência.

"- O que aconteceu com você?" - perguntou ao ver meu estado lastimável, largada no leito.

"- É uma longa história" - gemi em resposta, eu não estava a fim de ouvir sermão. Não depois do que tinha passado na noite anterior, era humilhante demais.

Fechei os olhos me permitindo rememorar com amargura os acontecimentos daquele dia.

Pela primeira vez na vida, me sentia envolvida por alguém. A despeito de tudo o que eu aprontava, Kevin olhou para mim. Enquanto todos se aproximavam de mim com algum tipo de interesse, ele se mostrava diferente, tinha uma autoconfiança invejável, demonstrava delicadeza e paixão em tudo o que fazia, e quando ele me notou, me senti no céu. Ele é primo de Deanna, a garota mais popular da universidade. Conhecemo-nos na festa de formatura e depois de conversarmos algumas vezes, começamos a sair, eu já não estava aprontando com tanta frequência.

Naquele dia, fui convidada para uma das festas Rave que costumava ir, mas me neguei, queria ficar com ele, me sentia disposta a tentar algo mais sério naquela noite, faria uma surpresa ao lhe dizer minha decisão. Mas ele insistiu que eu fosse à festa, disse que estava com um trabalho urgente para fazer, que ficaria em seu apartamento, uma cobertura perto do centro da Flórida, num bairro luxuoso – o qual soube depois, que era de um amigo – então concordei, não queria atrapalhar. No horário combinado, me arrumei toda e fui para a tal festa, mas ao chegar em frente, resolvi que ficaria com Kevin, não seria justo ir para uma balada, enquanto ele trabalhava.

Então passei numa pizzaria, escolhi seu sabor preferido e fui ao seu encontro. Como tinha ido ali algumas vezes, e, com o incentivo certo, o porteiro me deu livre acesso. Morando no último andar e com elevador privativo, ele não costumava fechar a porta quando estava em casa, seria fácil entrar, eu estava animada para lhe surpreender.

Assim que entrei, a primeira coisa que me chamou a atenção foram duas taças com restos de vinho na mesa de centro, pelo jeito ele tinha recebido visita, deixei a caixa com a pizza ali e olhei em volta, uma peça de roupa tinha sido largada displicentemente no chão, lembro-me de ter sorrido, ele era bem bagunceiro. Seguindo até ela, vi que tinham outras que ia pelo corredor de acesso aos quartos e eram roupas femininas misturadas às dele, meu coração começou a bater descontrolado.

À medida que eu ia me aproximando, vozes e sussurros ecoavam no ar. Minha cabeça já estava dando voltas.

Quando cheguei à porta do quarto, me senti sufocada com a cena a minha frente. Kevin estava inclinado sobre Marjorie, uma da amigas de Deanna, enquanto a penetrava por trás. Os braços dela apoiados na cama, impulsionando para frente e para trás, seguindo o ritmo dele. Não éramos melhores amigas, mas tínhamos nos aproximado um pouco e eu a considerava uma boa pessoa.

Senti uma fúria indomável. Não parei para pensar. Tinha que acabar com aquela situação naquele momento. Avancei como uma selvagem na direção do casal de pilantras safados e, com extrema violência os empurrei, fazendo-os perder o equilíbrio e cair da cama.

Um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente enquanto eles me olhavam abismados.

"- Eu tenho nojo de vocês" - falei e dei as costas, saindo dali.

"- Donna, espera" - eu não precisava ver mais nada. Segui ouvindo sua voz atrás de mim. Ele me alcançou quando estava quase cruzando a porta de saída.

"- Não quero ouvir sua voz, não quero olhar para você" - as lágrimas traiçoeiras desciam abundantes, me sentia humilhada.

"- Me deixe explicar" - segurou meu braço e eu puxei com brusquidão.

"- O que vai explicar Kevin? É melhor que ela saiba logo de uma vez que nos amamos" - Marjorie apareceu na sala, enrolada em um lençol.

"- Marjorie vai lá para dentro."

"- Não. Deixe que fale, eu quero saber de tudo" - falei histérica.

"- Ele nunca teve interesse em você como mulher, Donna. É insignificante para ele nesse sentido."

Lancei um olhar magoado para Kevin. Como tinha sido burra, eu tinha confiado nele. Com rancor, respondi:

"- Pode ficar com ele. Não tenho nenhum interesse nesse lixo de ser humano que ele é..."

"- Também não precisa ficar tão irritada assim."

"- Tenha um pingo de dignidade e vergonha na cara, não me procure nunca mais, nem me dirija a palavra."

"- E você sabe o que é isso? Age como uma delinquente. A pobre menina rica" - zombou, resolvendo deixar a máscara cair. - "Eu até tentei gostar de você, a culpa foi sua de não ter dado certo, agindo daquele jeito maluco e sem noção, era impossível, afinal de contas, algumas pessoas perdem com¬pletamente a razão quando estão sob a influência de drogas."

"- Drogas? Eu nunca ingeri drogas."

"- Isso não vem ao caso agora" - Marjorie interferiu mais uma vez. "- Você era simplesmente um passaporte para ele se dar bem. Seu interesse era se aproximar do seu tio e conseguir um cargo de confiança na empresa dele..."

"- CALA A BOCA..." - gritei não querendo ouvir mais nada.

"- Diga a ela, Kevin. Ela tem que ouvir a verdade." - ele parecia em choque em ver seus planos sendo revelados.

Não esperei que ele confirmasse o que já estava sendo esfregado na minha cara. Reunindo o resto de orgulho que ainda tinha, aproximei-me dele e com toda raiva que estava sentindo dentro de mim, cuspi em seu rosto e rosnei as palavras sentindo o ódio me inflamar por dentro.

"- Eu não tenho mais nada o que fazer aqui, mas se me permite uma observação, você me enoja... Não cruze meu caminho de novo ou faço picadinho de você."

Saí dali e acabei indo para a festa onde mais uma vez, me entreguei a bebida de tal forma, que não sabia como tinha ido parar naquele hospital, não lembrava de metade das loucuras que tinha feito.

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