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O novo CEO

O novo CEO

Autor:: renata medeirosM
Gênero: Romance
Já pensou no que faria se alguém esbarasse em você e, simplesmente, fosse embora como se você não existisse? Emma sempre foi uma garota tímida, que sabe de tudo, mas que não tem amigos. Quando se formou na faculdade, só pensava em fazer o que amava e trabalhar tranquilamente na frente de um computador. Mas, em um dia fatídico, ela é praticamente atropelada por um anônimo que vai embora sem ao menos lhe pedir desculpa, deixando para trás um único objeto: o seu celular. Desejando se vingar dele usando o seu conhecimento, Emma invade o telefone do desconhecido e tenta, a todo custo, descobrir quem é o homem alto, de ombros largos e arrogante que a deixou no chão como se não existisse. O problema é que o estranho não é tão anônimo e, pior, é o novo CEO da empresa onde ela trabalha.

Capítulo 1 As duas escolhas

Já pensou no que faria se alguém esbarasse em você e,

simplesmente, fosse embora como se você não existisse?

Emma sempre foi uma garota tímida, que sabe de tudo, mas

que não tem amigos. Quando se formou na faculdade, só pensava

em fazer o que amava e trabalhar tranquilamente na frente de um

computador. Mas, em um dia fatídico, ela é praticamente atropelada

por um anônimo que vai embora sem ao menos lhe pedir desculpa,

deixando para trás um único objeto: o seu celular.

Desejando se vingar dele usando o seu conhecimento, Emma

invade o telefone do desconhecido e tenta, a todo custo, descobrir

quem é o homem alto, de ombros largos e arrogante que a deixou no

chão como se não existisse.

O problema é que o estranho não é tão anônimo e, pior, é o

novo CEO da empresa onde ela trabalha.

Ian não é o mais simpático dos homens e todos odeiam sua

arrogância, mesmo sendo novo no trabalho. Depois que esbarra em

uma mulher na rua, ele não imagina que sua vida ficará de pernas

para o ar. Ao receber de volta o celular que achava ter perdido,

começa a receber mensagens de uma anônima que não tem papas

na língua.

Porém, o problema nisso tudo é que ela não quer ser

descoberta e Ian não descansará até encontrar a única mulher que o

desafia e não tem medo dele; pelo menos na internet.

Um jogo de gato e rato começa entre os dois. E, no fim, quem

vencerá?

Emma

O dia começou bem difícil. Dormi tarde porque estava

empolgada criando um software, portanto me me atrasei nesta

manhã, não tomei café e perdi o metrô. Fiquei vinte minutos

esperando o próximo e, quando ele chegou, não tinha lugar para me

sentar.

Apesar de ter acordado quase agora, meu corpo ainda está

cansado. E, depois do trabalho, ainda tenho que correr com Bia, que

está me forçando a fazer essa atividade todos os dias depois do

trabalho.

Agora estou quase correndo para chegar a tempo para o meu

turno no emprego. Meu chefe não é tão ruim, mas odeia atrasos. E,

mesmo sabendo que Victor não dirá nada a ele sobre isso, não

posso me arriscar.

Estou quase na porta giratória que dá acesso ao prédio,

quando uma parede bate em mim e eu caio de quatro no chão. Olho

para cima e vejo que o filho da puta, que nem olha para trás, corre

para entrar no prédio.

Não dá para ver direito quem é. O que me deixa ainda mais

furiosa. Ainda no chão, vejo um aparelho celular caído. Ele deve ter

deixado cair.

Levanto-me, pensando que se o dia começou assim, nem

posso imaginar o que mais pode acontecer. Pego o celular e volto a

andar. O homem deve ser um daqueles idiotas que trabalham no

topo da empresa e se acham os donos do mundo. Não é porque fico

em uma sala fria e sem graça, que mereço ser tratada dessa forma.

Passo pela porta e, como de rotina, mostro meu crachá à

Molly, que já me conhece e sabe do meu ódio por esse ritual

desnecessário. Ela sorri e libera a minha entrada, mas antes de eu

seguir para o meu setor, resolvo perguntá-la sobre o brutamonte que

passou na minha frente.

- Molly, você sabe quem é o cara que entrou como um

furacão antes de mim?

- Nunca o vi aqui antes, mas parece que um executivo

chegou e todos estão pisando em ovos.

- Claro. Eles se acham os donos do pedaço. - falei irritada.

- Obrigada, Molly! Agora, tenho que ir, ou me atrasarei ainda mais.

Ando até o meu setor, o de engenharia, e dou de cara com o

responsável por ele, meu chefe querido. Passo ao lado dele com

uma cara de culpada, entretanto ele não fala nada, e dou graças a

Deus por isso.

Ocupo minha cadeira em frente aos computadores e olho para

Victor, que está concentrado em algo. No entanto, sei que notou a

minha presença.

- Você tem sorte de ser a melhor no que faz, Emma. Se não

fosse assim, o senhor Milton te colocaria na rua. - Dá um sorrisinho

de lado.

- Nem me atrasei tanto. - tentei me defender.

- Mas ele é paranóico com isso e eu já te cobri duas vezes.

- Estica-se para me olhar.

Dou um sorriso e começo o meu trabalho.

Minha atenção hoje está no celular que peguei. Irei devolvê-lo,

mas é claro que tenho que descobrir primeiro quem é aquele homem

que mais parecia um prédio quando passou por mim. Foi um grosso

por ter me derrubado e não me pedido desculpa. Entregarei seu

telefone de volta, porém também vou irritá-lo e ele nem saberá quem

foi.

Deixo minha investigação sobre o senhor arrogante para o

meu horário de almoço, pois já cheguei atrasada e não quero o

senhor Milton me dando uma bronca por mexer no celular.

***

Pego o aparelho e vou almoçar. Sento-me na cantina do

prédio, peço o meu prato, recosto minhas costas na cadeira e

começo a vasculhá-lo. Sempre fui boa com equipamentos de

softwares. Já me coloquei em situações horriveis, todavia hoje sou

boa no que faço. É por isso que trabalho nesta empresa e sou

pioneira em proteção de dados aqui, nos Estados Unidos.

Minha curiosidade fala mais alto do que a moral de não mexer

no que não é meu.

É facil invadir o celular e, logo de cara, vejo um papel de

parede fofo: um cachorrinho branco bem pequeno que está olhando

diretamente para a câmera. Fico pensando em como um cara tão

bruto como aquele pode ter um animal de estimação. Deveria ser

proibido. Esse cachorro deve estar precisando de ajuda.

Meu pedido chega e eu almoço enquanto olho a galeria dele.

Espero não ter nada tão comprometedor aqui. Deus me livre ver um

nude de um desconhecido! Abro as fotos e vou passando uma por

uma, vendo pessoas em festas, duas senhoras que podem ser sua

mãe é avó, e um senhor que acho que já vi em algum lugar. Nada de

muito importante. Até que chego em uma selfie.

Puta merda! É ele!

Até me engasgo com a bebida. O cara é lindo. Não! Lindo é

pouco. A foto é dele depois da academia. Nossa! Suado fica um

pecado. Seus cabelos pretos estão caídos sobre o seu rosto quase

pálido e seus olhos azuis parecem penetrar a minha alma.

Arrasto o dedo para o lado, a fim de ver se há outras fotos

dele. Constato que, Graças a Deus, têm muitas. O senhor arrogante

tem músculos incríveis e fica perfeito de terno.

Vejo o horário e noto que meu tempo de refeição está

acabando. Vou deixar para vasculhar mais coisas depois que eu sair

do trabalho. Talvez enquanto eu estiver no banho.

Por Deus, Emma! Não seja tão pervertida!

Guardo o celular no bolso e volto para o meu setor.

Minha mente não sai do homem que vi nas fotos. Sei que ele

foi um idiota, contudo não posso deixar de apreciar sua beleza. Será

que é tão arrogante e imbecil relmente? Podia estar tão atrasado e

distraído, que nem tenha me visto em sua frente.

Não! Não posso arranjar desculpas para ele. Não sou tão

pequena e insignificante assim. E apesar de ser um pouco estranha

e me vestir como uma adolescente problemática, tenho o meu valor.

Não vai ser um menino riquinho com um corpo de deus grego que

vai me derrubar.

Deixarei isso para lá, descobrirei quem ele é e lhe devolverei o

telefone, porém não como o deixou quando derrubou.

***

Chego em casa e coloco minha roupa de corrida. Não sou de

fazer muitos exercícios, mas Bia pretende ficar com o corpo definido

e não quer fazer isso sozinha. Só corro para relaxar, já que não

tenho ninguém para ver o resultado de tanto esforço. Mesmo

sabendo que não deveria penssar dessa forma, penso.

Não demora muito para que ela chegue batendo na porta do

apartamento.

- Vamos logo! Temos que correr o dobro hoje. Não resisti e

comi duas fatias de torta. - avisou desanimada.

- O quê? - Ela só pode estar alucinando. - Você quer me

matar?

- Deixe de ser sedentária! - Puxa o meu braço até me fazer

passar pela porta.

Mesmo não querendo correr tanto, saio de casa. Como estou

com muita coisa na cabeça, usarei esse tempo para pensar em uma

forma de fazer o gato arrogante pagar por ter me deixado no chão.

Logo começamos a andar e, depois, a correr. Passamos por

muitos lugares durante a corrida.

- Então... O que fez hoje além de se sentar na frente de um

computador para olhar números e coisas bizarras que não entendo?

- Bia perguntou ofegante.

- Você não vai acreditar. - Mostro-me bem empolgada com

a novidade. - Eu me atrasei de novo, mas o pior é que quando eu

estava entrando no prédio, um cara esbarrou em mim e foi embora

como se nada tivesse acontecido.

- Não estou entendendo. A notícia é ruim e você está com

um sorriso no rosto. É meio masoquista. - Mantém o cenho

franzido.

- O cara deixou o celular cair. - ignorei sua ironia. - E

agora ele está sob o meu poder. - Tento não ficar empolgada

demais.

- Sabe, Emma? Quando digo a você para arranjar um

namorado, é exatamente por isso. - Lá veio mais uma ironia. -

Alguém esbarra em você e, como uma maluca, rouba essa pessoa e

sorri como uma psicopata? Estou ficando preocupada.

- Não encha, Bia! Vou devolver o celular dele. Mas também

vou me vingar do idiota. - Reviro os olhos.

- Podemos ver um filme se acha que sua noite está tão ruim.

- Será que dá para me apoiar nisso? - reclamei. - É a

primeira vez que faço algo assim, e nem sei quem é o homem.

Posso ser demitida, já que ele é, provavlmente, um dos executivos.

- Eu curto sexo selvagem e você é fora da lei. Facinante!

Ainda não sei por que somos amigas. - brincou.

Bato de leve em seu ombro e continuamos a corrida.

Bia, como uma tagarela, prossegue brincando com a história,

deixando-me um pouco irritada. Quando começa a falar algo sobre o

seu trabalho, agradeço.

***

Estou na banheira, quando pego novamente o celular para o

vasculhar e descobrir mais sobre o homem. Quero achar seu nome,

porém não consigo ser tão fora da lei e ir direto à sua caixa de

mensagens ou e-mail.

Bia sempre fala que sofro da "síndrome" de ser certinha

demais. E é verdade. Apesar de poder e conseguir entrar em muitos

computadores e redes de dados, nunca faria isso. Já me ferrei uma

vez ao ser culpada por algo que não fiz, e hoje tenho esse trauma.

Decido ligar para alguém e rezo para que essa pessoa fale

pelo menos o nome dele. A quantidade de contatos femininos é

enorme. E não é para menos, já que ele é lindo. É lógico que pega

todas que quer. Aposto que com uma ou duas chamadas, alguma

delas atenderá, desesperada para sair com ele novamente.

Resolvendo colocar minha teoria em prática, clico em um

número com o nome de "Ariana". A ligação começa a chamar uma,

duas vezes...

- Ian! - falou a voz feminina muito empolgada, no outro lado

da linha.

Um sorriso de satisfação toma o meu rosto.

- Desculpe! Não é o Ian. - tentei disfaçar a minha voz para

o caso de, futuramente, isso ser usado contra mim.

- Quem é e por que está me ligando do celular do Ian? -

perguntou furiosa.

Eu penso um pouco na resposta e minha mente diabólica

organiza um roteiro fora do comum para a Emma sem graça.

- É que eu queria ouvir a voz da vadia que está atrás do meu

namorado. Quero lhe avisar para ficar longe dele se não quiser

perder seus peitos falsos e todas as plásticas mal feitas do seu rosto.

- falei em um tom de irritalção e bem mais alto do que normalmente

falo.

Não sei de onde isso está vindo, mas se demorar muito,

acabarei rindo e pondo tudo a perder.

- Olhe aqui, querida! Se o seu namorado fica atrás de mim, a

culpa não é minha. - rebateu alterada.

- Meu Ian não fica atrás de mulheres; são as vadias que

ficam atrás dele. Espero que esse recado sirva de lição para que não

chegue perto do meu homem! E pode dizer a todas as suas amigas

que farei o mesmo com elas caso as veja a cem metros dele. -

Desligo a chamada.

Deus! O que deu em mim e por que fiz isso? Meu coração

bate a mil por hora, como se estivesse prestes a sair pela boca.

Agora sei como se chama o dito cujo. Mas, Ian do quê? Fuço

ainda mais o telefone e não acho nada que ligue esse nome ao seu

sobrenome. Talvez amanhã eu lhe investigue na empresa.

Por enquanto, botarei meu plano em ação. Entro novamente

na galeria e começo a editar as fotos. É claro que algumas só edito

as cópias, já que não sou tão cruel. Depois volto aos contatos e

mudo os nomes das piranhas por coisas engraçadas. Acho que ele

ficará puto com a bagunça que estou fazendo.

Não ouso ir às suas conversas particulares, porque isso é

muito pessoal e não quero invadir sua privacidade. Já basta o quanto

estou invadindo. Sei que para alguém que pode fazer o que faço,

invadir é o objetivo, entretanto tenho os meus limites.

***

Acordo cedo e nem tomo café. Depois do banho, coloco

roupas que não são muito chamativas, pois nunca gostei de chamar

a atenção para o meu corpo. Saio na rua e ando até o metrô com

uma pequena caixa na mão. Dentro dela, está o celular. Descobrirei

quem é o Ian antes do almoço e lhe entregarei o aparelho depois.

A única pessoa naquela empresa que sabe até os segredos

mais sujos dos chefões, é Ágatha. Ela é uma das secretárias dos

executivos que ficam no topo do prédio. Se há alguém que sabe

quem é o bonitão arrogante, é ela.

Após sair do metrô, ando algumas quadras até o trabalho.

Hoje ele não veio me derrubar. Que pena! Eu poderia xingá-lo

pessoalmente. Terei apenas que imaginar sua reação ao ver o que

fiz no seu celular. Além da capa de glitter rosa com enfeites que

coloquei nele, baguncei os contatos e editei as fotos.

Poxa! Será uma boa cena.

Passo pela recepção, vou para o meu armário e coloco a

caixa no fundo do espaço, com medo de que alguém me veja e me

denuncie quando o telefone estiver nas mãos dele. Em seguida, sigo

para a cantina e peço um café expresso.

Logo avisto Ágatha, que está sentada com outras duas

secretárias, tendo uma conversa bem animada. Não sou amiga

delas. Na verdade, a quantidade de amigos que tenho, posso contar

nos dedos. Para todas essas pessoas, sou a garota estranha, igual

era no ensino médio.

Embora esteja em boa forma, não tenho roupas chamativas

ou sexies e opto por não usar brincos ou colares. Contudo, faço

algumas tatuagens quando sinto vontade.

Ágatha, por outro lado, é uma mulher linda, de trinta e dois

anos, que veste roupas chiques e está sempre de saltos. Ela mexe

no seu cabelo liso de cor escura como se estivesse em um comercial

e eu fico só adimirando sua beleza enquanto ando até elas.

Capítulo 2 Mal educado

Emma, como vai? - perguntou de forma simpática.

Ainda por cima, a mulher tem simpatia.

- Estou muito bem, Ágatha. Obrigada! - Dou um sorriso

tímido. - Como vocês estão? - falei com as outras só para não

parecer rude ou fofoqueira.

Elas sorriem e falam, juntas, que estão ótimas.

- Meninas, eu queria perguntar se vocês já viram um homem

por aí. Sei que seu primeiro nome é Ian, que ele tem pelo menos

1,90 de altura, cabelos negros, olhos azuis...

- Tem pinta de arrogante? - Ágatha acrescentou.

- Sim. - confirmei feliz. - Você já o viu por aí?

- Se eu já vi? Menina, quem não viu esse homem? E, que

homem lindo! É um deus grego, mas muito estressado e mal-

humorado. Está sempre dando ordens e sendo arrogante.

Eu já sabia que ele não era uma boa pessoa, no entanto

queria que alguém, pelo menos, dissesse algo de bom dele, para

que eu não me sentisse tão mal por desejá-lo.

- Quem é ele, Ágatha? - questionei, bastante curiosa,

sentando-me no meio delas.

- É o mais novo chefe, querida. Ian Novack. É o filho de

Robert Novack e assumiu a empresa depois que o pai sofreu o

acidente e ficou em coma.

Estou paralisada. Ele é o chefe? O dono de tudo aqui? Porra!

- Você está bem? - perguntou ao ver minha pele mais

pálida do que o normal. - Ele te fez algo?

- Não. Eu só o vi por aí. Parecia que tinha comido algo

estragado. - Ainda estou tentando me recuperar.

- Ele está assim desde que assumiu os negócios. - Revira

os olhos. - O que tem de lindo, tem que mal-educado.

- Ok, meninas. Tenho que trabalhar agora. Obrigada pela

informação! - Levanto-me e saio de perto delas.

Meu Deus! Ian é o CEO da TEC Corporation?! A minha

ansiedade está fazendo com que minhas mãos soem e meu coração

acelere. Acho que não posso entregar o celular do meu chefe, pois

não quero irritá-lo. Mas, ao mesmo tempo, ele é um grosso com todo

mundo. Seu pai está em coma, porém isso não justifica seu modo de

tratar as pessoas.

O conflito em meu peito pode até me causar um infarto se eu

continuar pensando nisso.

Não posso desistir agora. Afinal, ele não saberá quem sou e

não sabe nem que existo.

Vou trabalhar e, após o almoço, levarei o pacote para a

recepção. Depois, ele que se vire! O que irá deixá-lo ainda mais

irritado.

Não sei se isso me deixa feliz ou com mais medo.

Volto do restaurante com o pacote, levando-o na bolsa para

que ninguém perceba nada, entro no prédio com ele na mão e vou

até a recepção, onde vejo Molly.

Minha língua parece presa, mas não posso desistir agora.

Seria errado ficar com o aparelho.

- Molly, uma moça me entregou este pacote agora a pouco e

disse que é para o entregar ao Ian Novack. Ela parecia muito irritada

e nem quis entrar. - Entrego-lhe.

Odeio mentir, e não faço isso com frequência; só quando

preciso muito.

- Quem é Ian Novack? - questionei.

- Lembra do homem por quem você me perguntou ontem e

eu também não sabia quem era? - Afirmo com um aceno de

cabeça. - É ele, o novo chefe. Dizem que é muito arrogante.

Ian é muito famoso por essa atitude, no entanto não parecia

ser um brutamonte quando falei com a piranha no telefone.

- Entendi. Então, você pode entregá-lo?

- Pedirei para que Mila entregue. Ela é secretária dele.

- Coitada! - Rimos.

Sigo para o meu posto.

Não quero ver o homem pessoalmente. Provavelmente, ele

vai querer me matar quando souber o que fiz.

Ian

Meu dia foi cheio para a merda e minha cabeça está doendo.

Tive duas reuniões demoradas e ainda tenho papéis para ler e

assinar.

Olho para o relógio e constato que são sete e meia. Está na

hora de eu ir embora e nem está perto de terminar o que tenho para

fazer. Sendo assim, acabo optando por deixar o restante dos

afazeres para amanhã.

Esse trabalho está me matando e ainda tem a preocupação

com meu pai, que está em coma há dois meses. Os médicos não

têm uma previsão de quando - e se - ele acordará. Não quero

perdê-lo. É um bom pai e sempre esteve ao meu lado, mesmo

quando eu cometia algum erro. Agora, a minha obrigação é cuidar

dos negócios da família. Algo que está me estressando muito. Vivo

com dor de cabeça e com as preocupações invadindo minha mente,

fazendo-me perder a razão.

Notei que aqui, na empresa, todos estão correndo de mim.

Também... Estou sempre dando ordens e de mau humor. Com toda a

certeza, eles me odeiam. E, olha que só estou aqui há uma semana.

Ontem mesmo esbarrei em alguém e nem parei para ajudar a

pessoa. Estava tão cheio e atrasado para uma reunião, que isso não

tinha passado pela minha cabeça. Até agora.

Escuto batidas leves na porta e vejo minha secretária entrar.

Ainda não decorei seu nome. Na verdade, não decoro nomes de

mulheres, porque costumo sair com tantas, que todos se misturam.

Ela está com um pacote na mão e eu tento, a todo custo, não

apreciar as curvas do seu corpo no vestido azul-escuro.

- Senhor Novack, alguém pediu para que lhe entregassem

isto. - Coloca a caixa sobre a mesa.

- Quem pediu? - Estou pensativo.

O pacote é estranho e eu não sabia que receberia algo hoje.

- Não sei, senhor. Foi entregue na recepção. A pessoa nem

quis entrar para entregar e demonstrava estar chateada. - Exibe

preocupação no rosto.

Olho para a caixa com curiosidade. Quem me entregaria isso?

A mulher sai da sala, fecha a porta e eu a abro. Fico surpreso ao ver

um celular. É igual ao que perdi depois de esbarrar naquela pessoa.

A capa rosa cheia de glitter chama a minha atenção e me leva a

pensar que alguém está pregando uma peça em mim.

É tudo muito estranho. Quem me entregaria um pacote tão

desleixado contendo dentro um aparelho cheio de purpurina? Pego-

o, ligo-o e me surpreendo quando vejo meu papel de parede. É o

meu próprio celular, o qual deixei cair, sendo devolvido para mim.

Está cada vez mais esquisita a situação.

Curioso, desbloqueio a tela e vejo se tudo está como deixei,

porém me surpreendo ao descobrir que a tal pessoa bagunçou tudo

nele, trocando os nomes dos contatos e editando fotos com frases

irônicas. Quem fez isso?

A minha preocupação passa a ser de que tenham roubado

alguma informação minha, prejudicado alguns dos meus projetos ou

até mesmo pegado dados importantes.

Mais surpreendente do que receber meu celular de volta com

um possível roubo de dados, é ler a mensagem que acabou de

chegar.

"Então, bundão... Gostou do que fiz no seu celular? Talvez,

na próxima vez, preste mais atenção e não esbarre em pessoas

aleatórias na rua, deixando-as com a bunda no chão."

Não sei se é pela ironia ou pelo cansaço em meu corpo, mas

rio do que leio. Seja lá quem for, tem bom humor. Contudo, logo noto

que pode se tratar de alguém perigoso que me hackeou para

conseguir informações minhas.

"Você, estranho, está tentando me chantagear para me roubar

mais coisas?"

O mais irônico de tudo é que comando uma empresa que

tenta evitar esse tipo de situação. Se o dono foi uma vítima, imagine

os clientes. Talvez a pessoa esteja querendo me derrubar ou provar

que não fazemos um bom trabalho. O que não posso permitir.

O engraçado é que não sou respondido. O meu tom de

rispidez deve ter assustado o provável hacker.

Decido deixar essa história um pouco de lado. Estou cansado

e não penso muito bem quando minha cabeça está cheia.

Coloco o celular no bolso e entro no elevador, segurando os

papéis que eu deveria deixar para lá, mas decidi levar para casa.

Quero concluir alguns trabalhos antes que cheguem mais na manhã

seguinte.

Como um idiota curioso, pego o telefone às pressas assim

que o sinto vibrando.

"Senhor bundão, se eu quisesse prejudicar você ou roubar seus

dados, não precisaria me esforçar tanto. Além do mais, devolvi seu

aparelho. Deveria me agradecer por ser mais gentil que o senhor."

Não sei se isso me tranquiliza. Apesar de louca, essa pessoa

pode estar certa. Dentro deste aparelho tem contatos de gente

importante na minha agenda. O que seria o bastante para me dar

uma bela dor de cabeça.

"Não posso agradecer a uma pessoa que não conheço e que,

principalmente, mudou tudo no meu celular."

Não obtenho resposta.

Assim que chego no térreo, meu motorista já está à minha

espera. Entro no carro, ainda pensando no acontecido. Minhas

roupas estão cheias de glitter. E, pensando bem nos detalhes, quem

está fazendo esse jogo comigo deve ser uma mulher. Glitter, capa

rosa... Sem falar da pequena estatura da vítima que foi ao chão no

dia anterior.

Como se esse acontecimento fora do comum já não fosse

preocupante, ainda tenho a preocupação com o meu pai, que está

em uma cama de hospital. Não se vai ou não acordar. Desde o seu

acidente, martirizo-me por não ter lhe ajudado da forma como queria

e por não ter sido mais presente. Algo que, provavelmente, teria

evitado todo esse problema. É por isso que estou tão dedicado

agora.

"Posso até sentir sua arrogância de onde estou. Entendo que é

um homem ocupado, mas deveria ser mais gentil às vezes. Assim,

talvez, fosse procurado por afeição, e não por interesse de piranhas

siliconadas."

Sinceramente, estou com alguma coisa errada na cabeça,

pois rio do seu sarcasmo. Não foi nada demais, apenas uma

provocação descabida, porém é algo que me alegrou.

"Quem é você e qual é o seu nome? Estou achando que é uma

adolescente rebelde que acha que pode brincar com um estranho."

"Alguns diriam que, de acordo com minha estatura e tipos de

roupas que uso, poderia ser realmente uma adolescente. Mas, não

se preocupe! Não será processado por abuso de menores. E, quanto

ao meu nome, nunca saberá. Não quero nem que sua boca suja o

pronuncie. Para meios de comunicação, pode me chamar de

Birdpink."

"Que raio de nome é esse? Aposto que não é muito criativa."

"Não sou. Por isso falei algo que estou vendo em um pôster, no

metrô."

"Acha que conversar de forma irônica comigo vai me punir pelo

que fiz? Porque não estou exatamente irritado. Achei que fosse

alguém perigoso, mas vejo que é apenas uma mulher que deseja um

pouco de atenção. E, para falar a verdade, estou me divertindo."

"Está me chamando de egocêntrica? É você quem está se

aproveitando do meu tempo."

"Foi você quem começou a mandar mensagens, passarinho."

"Foi uma péssima ideia."

A conversa que começou estranha está me distraindo do dia

tedioso que tive. Acho que o passarinho está mais irritado do que eu.

"Desculpe-me por ter a derrubado ontem. Foi uma grosseria não

ter a ajudado. Na verdade, isso teria acabado com o mistério,

passarinho. Você me deixou curioso para saber qual é o seu rosto."

Ela não me responde imediatamente e eu me surpreendo pela

minha espera ansiosa. Nem tinha notado que o carro já estacionou

na garagem do prédio e devo confessar que quero continuar a troca

de mensagens.

No elevador, fico tentando imaginar a mulher com quem me

esbarrei. Se eu não tivesse sido tão desatento e, como ela mesma

disse, um bundão, poderia saber sua identidade. Talvez seja uma

estranha que, ocasionalmente, estava passando pela TEC

Corporation ou uma funcionária. Mas não acho que algum

funcionário teria coragem de fazer tal coisa. Eles parecem me odiar.

Mas se for, seria interessante conhecê-la.

Assim que abro a porta, Hunter vem muito feliz ao meu

encontro. Esse Poodle foi um presente da minha mãe para mim. Ela

disse que eu era muito solitário. Claro... Não sabia sobre as visitas

femininas frequentes a este apartamento.

Como um idiota, pego o aparelho telefônico assim que ele

vibra. Apesar de não gostar do que a mulher fez com ele,

surpreendentemente, ela está me cativando.

"Está, mesmo, pedindo desculpa?"

"Nem sempre sou um bundão. E admito que errei. Se nos

encontrarmos novamente, posso até te pagar um café como um

pedido de desculpa."

"Não vai rolar. Mas, talvez, se chamar algumas das muitas

mulheres de sua agenda, elas poderão te fazer companhia."

"Não se preocupe! Meu interesse é puramente investigativo. Não

quero que me interprete mal."

Minha curiosidade, de fato, está ficando aguçada. Essa

mulher conseguiu me prender em uma conversa enquanto as outras

só falam em roupas e bolsas caras.

"Fico feliz. Eu nunca iria querer ser mais uma em sua lista.

Uma longa lista. E não pensei nisso, mas devo continuar no

anonimato."

Eu rio, sento-me no sofá e encaro o celular como se, em

meses, estivesse fazendo a coisa mais empolgante.

Esse passarinho acha que conseguirá resistir a mim?

"É impressão minha ou está com medo?"

"Não conte piadas, bundão! Não tenho medo de você.

Acontece que prefiro me manter a uma distância segura."

"Claro. Porque tem medo de não resistir."

"O seu egocentrismo chega na atmosfera, bundão."

O mais interessante de tudo é que não desejo parar de falar

com ela. Ainda nem tirei os sapatos ou afrouxei a gravata; só consigo

olhar para a tela e esperar pela sua resposta.

"Torço para me esbarrar em você outra vez, somente para te

ouvir falar essas coisas olhando em meu rosto."

"Espero que isso nunca mais volte a acontecer. Não sou

alguém confiante o bastante para dizer na cara tudo que penso."

Essa mensagem me faz rir.

"Tenho que ir, senhor bundão. Amanhã acordarei cedo, e

ainda tenho que terminar um trabalho."

"Logo agora, que estava ficando animado."

"Boa noite, senhor bundão!"

"Gostou mesmo da minha bunda. Não para de falar dela."

"Já vi melhores."

"Vou acreditar em você."

A falta de resposta me deixa frustrado, no entanto acabo me

lembrando do quanto isso é ridículo. Nem faço ideia de quem é a

mulher e já quero ser amigo dela?

Deixo o celular de lado e vou para o banho a fim de esfriar

meu corpo e buscar relaxamento. Em nenhum momento a minha

cabeça deixa de pensar na estranha com quem me esbarrei.

Comecei o dia pensando que ele seria mais um estressante e

chato, mas até que a surpresa me deixou feliz.

***

Assim que acordo, lembro-me do celular e, como um tolo,

verifico se tem mais alguma mensagem da mulher misteriosa. Não

tem nenhuma. É decepcionante, e me irrito comigo mesmo por

pensar assim.

Resolvo cuidar de tudo para começar o trabalho. Tomo banho,

coloco um terno cinza e arrumo os cabelos em frente ao espelho.

Meu pai sempre se orgulhou de ser pioneiro no ramo de

proteção de dados. Era um leigo no assunto, mas um mestre em

administrar.

Com o crescimento da internet, também cresceram novas

oportunidades de roubar. É por isso que a TEC Corporation se

especializou nessa área e hoje trabalha com diversas empresas,

bancos e pessoas que fazem parte desse meio digital.

Depois de pegar os papéis que trouxe ontem para casa, enfio-

me no elevador, que desce até o estacionamento. Meu motorista já

está à minha espera. Quando entro no carro, resolvo dar atenção

aos documentos. Ontem não consegui resolver nada, pois só

pensava na estranha, mas hoje resolvi esquecê-la e focar em

trabalhar.

Chego rápido à sede de Nova York, já que estava me

mantendo ocupado, lendo os diversos formulários e novos contratos.

Saio do veículo e paro antes de passar pela porta da frente.

Apesar de poder entrar pelo subterrâneo, gosto de chegar por aqui

para passar pela recepção e conferir as coisas. Contudo, meu

objetivo de hoje é encontrar uma pessoa específica, mesmo sabendo

que é tolice.

Assim que noto quão ridículo é o que estou fazendo, passo

pela porta giratória e vou direto ao meu escritório. É claro que o

passarinho irritante não faz parte do meu quadro de funcionários.

- Bom dia, senhor Novack! - minha secretária me

cumprimentou com um belo sorriso no rosto.

Talvez seu nome seja Mia. Ela sempre me deseja um bom dia,

mas nunca lhe retribuo.

- Bom dia, senhorita! - Passo por ela, lendo o papel que

está em minhas mãos. - Você poderia me trazer um café, por favor?

- Coloco minhas coisas sobre a mesa.

- Claro, senhor. - Dá um sorriso assustado que me faz

franzir o cenho. - Aqui estão os papéis para a análise. - avisou-me

antes de sair.

"Ótimo!" Mais papéis!

Alguma força maior que toma o meu corpo me faz pegar o

celular do bolso. Eu tentei, a todo custo, tirar todo o glitter dele na

noite passada.

Busco as mensagens de ontem.

"Ser simpático não faz o meu tipo. As pessoas me olham como se

eu fosse um estranho."

A falta de resposta me irrita e me faz guardar o aparelho

novamente. Concentro-me somente nos papéis agora.

"É isso que dá ser mal-educado com todo mundo. Se

continuar assim, bundão, pode ser o chefe do ano."

Apesar da demora, ela finalmente respondeu, e, como um

idiota, olho a mensagem no mesmo instante.

"Senhor bundão". Estou começando a me acostumar com

esse apelido. Não somos amigos, tampouco quero que sejamos,

apesar de estar curioso para saber quem ela é.

"O que a senhorita Birdpink está fazendo agora?"

Ela me manda uma foto e eu vejo que está no metrô. Não me

enviou uma dela, e sim de uma senhora dormindo, sentada no banco

da frente.

"A senhora parece simpática, mas quero uma foto sua."

"Está ficando obsessivo com esse assunto. Não terá uma foto

minha. Contente-se com a senhora simpática!"

Ela tem razão: estou começando a insistir demais nessa

questão. Deveria me concentrar no trabalho. Entretanto, agora, que

estamos conversando de novo, é difícil apenas ignorá-la.

"Tem razão. Vou começar a ignorá-la, passarinho."

"Não seria o primeiro. Então, tudo bem."

"Claramente, não vou fazer isso até que me mostre algo com o

qual eu me contente."

Surpreendentemente, minha tela é invadida por uma foto do

seu dedo do meio. É pouco, mas consigo ver que sua pele é pálida,

com uma tatuagem, e que sua unha está pintada de azul,

combinando com sua cor. Isso me agrada.

"Gostei da tatuagem. É muito sexy. Gostaria de saber se outras

partes do seu corpo também são."

"Vai ficar só com a mão, senhor bundão."

"Você é a mulher mais difícil que conheço. Geralmente, não

preciso fazer nada para que as mulheres tirem as calcinhas."

"Isso, na verdade, é uma honra. Eu nunca faria tal coisa com

um pervertido como você."

"Só está dizendo isso porque está longe, e não na minha frente.

Acredite: eu lhe agradaria muito, passarinho. Tanto que desejaria

repetir."

"Nunca vai acontecer."

"Agora é você que está me subestimando. Tome cuidado ao me

provocar!"

"Vai ter que ficar com a ideia de que nunca vai me encontrar,

de que jamais vou ser uma das idiotas que ficam no seu pé e de que

nunca me faria perder cabeça a ponto de ficar com você."

Toda essa provocação está me deixando louco. Ninguém

nunca falou assim comigo antes ou me recusou. Essa mulher pode

ser uma lunática, porém está me motivando a provar o contrário.

"Espero ter a oportunidade de provar o contrário, passarinho."

Capítulo 3 Amizade

Emma

Não sei por que mandei mensagens para ele, nem por que

conversamos. É loucura! Ian é meu chefe, um egocêntrico safado.

Talvez seja a falta do que fazer ou a solidão. Só isso para

justificar tudo que está acontecendo.

Devo confessar que ele é engraçado, embora seja irritante. E,

apesar de saber disso, ainda quero receber e responder suas

mensagens.

Não posso negar que senti um pouco de medo e que até

agora sinto. Não fiz nada demais, porém, com a fama de chefe que

ele tem, devo me prevenir e não dar muita pinta, para não correr o

risco de topar com ele e ser reconhecida de alguma forma.

O pior é que assim que virei o quarteirão, eu o vi. Ele estava

lindo, trajando um terno cinza. Sua bunda fica maravilhosa na roupa

mais justa e seus cabelos estavam sendo levados pelo vento,

mesmo não sendo tão longos. O homem é lindo, quase um deus. Se

não fosse tão arrogante...

Fiquei feliz quando o vi entrar no prédio. E, para disfarçar,

esperei alguns minutos do lado de fora.

Quando trabalho, as horas se passam e eu nem percebo.

Gosto muito do que faço e de onde trabalho. Sou a única mulher no

meu setor e uma das melhores no ramo, assim como Victor, que

agora está me pedindo ajuda com o olhar.

Depois de ser um cavalheiro ao ajudar Ágatha e Mia, ele se

tornou o queridinho delas. É sempre bem-educado, um bom ouvinte,

nunca é desrespeitoso com ninguém, e todas o acham fofo.

Só o observo de onde estou. Geralmente, nós nos vemos no

restaurante, na hora do almoço. Só não quando estou com preguiça,

pouca fome, e opto por comer algo na lanchonete da empresa.

Mas hoje, em uma tentativa inútil de fugir dos meus

pensamentos, escolho ir com ele e suas novas amigas para lá. É

estranho estar no mesmo lugar que as secretárias. Elas são

simpáticas e nunca me olharam estranhamente, nem nada, mas

compará-las a mim neste exato momento seria um crime. Enquanto

estou com uma camiseta simples, uma calça jeans surrada e sapatos

de adolescente do segundo grau, elas estão usando um vestido

bonito, saltos altos, e estão com os cabelos bem feitos, além de

maquiagens elegantes. Até parecem madames, pela forma de agir.

- Vocês não sabem como está sendo estranho o meu

trabalho hoje. - Falou Mia. Está empolgada com o que vai contar.

Ela é a secretária de Ian. Portanto, querendo ou não,

infelizmente, fico curiosa para saber a notícia.

- Por quê? - Perguntou Ágatha. - O idiota do seu chefe fez

alguma coisa? Quero dizer... mais alguma coisa?

- Ele está de bom humor. - Comentou surpresa, com um

sorriso nos lábios pintados de vermelho. - Desejou um bom dia

para mim, pediu "por favor" quando quis um café e não estava tão

grosso como sempre. Será que o pai dele morreu?

- Credo, Mia! Talvez ele só esteja revendo como trata os

funcionários ou tenha transado com alguém ontem. - Disse Ágatha,

fazendo-me engasgar com o suco que bebia.

Todas olham para mim, e Victor ri da minha cara. Nenhum

deles sabe realmente o que aconteceu.

- Seria alguma namorada? - Questionou Mia, pensativa.

- Não mesmo. - Respondi sem pensar, vendo-as lançar

um olhar estranho para mim novamente. - Vocês mesmas dizem

que o homem é um arrogante. Como arranjaria uma namorada que o

suportasse? - Argumentei após minha gafe.

- Pode até ter razão, Emma. Mas, já viu o homem? -

Perguntou o óbvio. - Ele é lindo de morrer e tem muito dinheiro.

Aposto que seu telefone está repleto de número de mulheres.

Ontem, por exemplo, uma delas foi ao seu escritório. Estava tão

irritada que nem esperou que eu anunciasse sua chegada. - A

mulher do telefone, talvez?

- Então, essa está descartada como candidata. - Ironizou

Ágatha.

- Ele ficou chateado e nem sabia do que ela estava falando.

- Mia continua pensativa.

Eu poderia deixar essa passar, mas meus dedos e a burrice

da minha cabeça falam mais alto. Pego o meu celular e digito uma

mensagem para ele, antes de sair do restaurante.

"Deve ter sido divertido lidar com a loira oxigenada ontem."

Surpreendendo-me, Ian responde rápido, como se já

esperasse pela minha mensagem.

"Então, foi você mesmo. Saiba que ela ainda está me irritando.

Por que disse que é minha namorada? Todos sabem que não

namoro."

"Foi exatamente por isso que eu disse. Gostaria de ter visto as

caras dos dois."

"Não foi nada engraçado ter que aturar as bobagens dela quando

me procurou."

Não sei se está irritado ou simplesmente comentando o fato.

"Quem sabe, na próxima, eu esteja por perto para ver como

vai reagir à outra mulher irritada por alguma coisa que eu tenha dito

sobre você?"

"Um momento..."

Os três pontinhos no final de sua mensagem me irritaram, pois

o restante está demorando uma eternidade para chegar.

"Como sabe que ela esteve ontem no meu escritório? Está me

espionando, comprando informações ou...? "

Só agora reflito sobre o que fiz. Antes Ian achava que eu era

uma estranha da rua, mas agora sabe que estou mais próxima dele

do que imaginava. Fico puta comigo mesma e desejo me bater.

"Acho que falei demais."

Desejo apagar as mensagens, achando que assim ele se

esquecerá, porém o estrago já foi feito.

"Você trabalha para mim, não é, passarinho?"

"Você ainda não sabe quem sou, então espero que isso não

me traga problemas, bundão. Além do mais, não estou cometendo

um crime, não é?"

"Se sou seu chefe, não admito que fale comigo dessa forma e

exijo vê-la agora."

Já fiz muita merda na vida e gosto de achar que sou

inteligente, só que isso foi demais. Agora estou quase ferrada.

Tomara que ele não me procure na empresa só para me demitir.

"Acho que está convencido demais, Ian. Não pode me exigir

isso. Apesar de ser meu chefe, não sabe quem sou, e não vou dar a

você a oportunidade de me demitir."

"Não quero demitir você, só saber, finalmente, qual é o rosto da

mulher que está me deixando louco."

"Eu estou te deixando louco? Não me conte piadas! É você

quem está se importando muito com esse mistério. Além do mais,

não vou acreditar que não me demitirá, já que até o momento o que

sei sobre você é que não se permite ser desafiado por um

funcionário. O que quer dizer que não vou dizê-lo quem sou,

bundão."

O momento de silêncio só me deixa ainda mais nervosa. Não

gosto de situações como essa, onde estou sendo pressionada, mas

admito que a culpa é minha.

"Tudo bem, passarinho. Mas saiba que vou descobrir quem é,

querendo ou não, e provarei que sou de confiança, que não vou

demiti-la."

"Boa sorte, então! Não sou fácil de ser achada. E, mesmo se

estiver no mesmo lugar que eu, nunca imaginará quem sou."

"É um desafio?"

"Não, Ian. Não é um desafio. Agora, deixe-me voltar ao

trabalho!"

Guardo o celular no bolso e retorno ao prédio sozinha. Não

quero que, de alguma forma, ele tenha tempo de me achar. Antes de

passar pela recepção, vejo-o encostado na parede de mármore,

olhando para todas as pessoas que passam pelo hall.

Filho da mãe!

Respiro fundo, enfio-me no meio de um grupo de funcionários

que trabalha nos escritórios do andar de cima e tento, a todo custo,

não o olhar. Sinto um frio na barriga incomum quando passo ao seu

lado, mas, como já sei, ele nunca olhará para mim. Nem me nota

quando passo.

Lá no fundo tenho dois sentimentos conflitantes, e um deles é

bem idiota. Queria ser o tipo de mulher que ele notasse. Mas isso

nunca vai acontecer.

Vou direto para o meu setor. Talvez possamos conversar

quando ele me mandar mais mensagens, pois eu não tomarei mais

essa iniciativa. Não quero mais brincar de provocar o chefe. Se, por

algum azar, Ian me achasse, tenho total certeza de que me demitiria.

***

Hoje, correr com Bia tagarelando sem parar no meu ouvindo,

salvou-me de ficar pensando em Ian Novack, meu chefe arrogante.

Ele é como um parasita em meu cérebro, que perturba até os meus

sonhos.

No entanto, agora estou na frente da televisão, olhando para

algo que passa, e não paro de pensar nele. Estou exausta, e nem

mesmo o banho me relaxou depois daquele episódio no trabalho. O

que nem foi grande coisa.

Uma parte de mim deseja ser notada, aparecer em seu

escritório e dizer na sua cara linda tudo que penso, mas a outra,

medrosa e tímida, grita ao meu ouvido, dizendo o quanto seria

ridículo e errado chamar a atenção do chefe depois de tudo que já

fiz. Não é uma boa ideia.

Não me importo se o bundão disse que não me demitiria e

que não foi grande coisa o que falei a ele durante todo este tempo.

Sei que se me visse pessoalmente e concluísse que a Birdpink não é

grande coisa, com certeza se enfureceria e me mandaria embora.

Meu coração vai à boca quando o celular vibra ao meu lado. É

ele, seu nome. Ou melhor, o apelido que o dei. Está grande e claro

na tela.

Luto para não deixar a curiosidade me tomar, só que é

impossível resistir quando a segunda mensagem chega.

"O que está fazendo, passarinho?"

"Se estiver de acordo, podemos sair e conversar pessoalmente."

Ótimo! Ele quer conversar. Mas sabe qual será a minha

resposta.

"Ian, não vai conseguir me convencer a mudar de ideia. Então,

NÃO!"

"Odeio mulheres difíceis. Deve saber que nossa amizade pode

acabar se não me der mais do que pistas. Não sou de gostar quando

não sei das coisas ou com quem estou falando."

Amizade?

"Primeiro: somos amigos? Segundo: como está acostumado a

sempre estar no comando, deve saber que o mundo não gira em

torno de você, bundão. Acho que vai ter que lidar com isso ou,

simplesmente, pararemos de nos falar."

A ideia é boa. Não poderíamos ser amigos porque não faço

amizades com tanta facilidade. Por isso fiquei surpresa ao ver que

ele me considera uma amiga. Acima de tudo, não posso me

esquecer de quem é Ian Novack. Apesar de ser um cara que vive,

aparentemente, estressado com tudo e que pode ser um homem

legal, não é um qualquer, e sim meu chefe.

Na prática, não sou muito de falar e não gosto quando brigo

com as pessoas. Portanto, eu me sinto confortável apenas em falar

com ele por mensagens. Dizer na cara dele tudo que penso é algo

que nunca aconteceria.

"É o que você quer? Porque não quero forçá-la a nada. E, sim,

estou curioso. Mas não pense que estou exigindo nada! Todos

pensam que Ian Novack é só mais um cara babaca que usa as

pessoas, mas não sou sempre um idiota, passarinho. Se acha isso

demais, posso simplesmente me esquecer de tudo, e nunca mais

terá que se preocupar comigo."

Merda! Não é o que quero, mesmo. Na verdade, não sei o que

quero.

"Não quero ser a pessoa que te julga, Ian. Não sei como agir

em relação a isso. Você não é tão babaca quanto pensei ser, mas

ainda é meu chefe. E nem nos conhecemos."

O que estou falando?! Ele não é um futuro pretendente.

"Quero dizer... Não faço amigos com facilidade e não costumo

confiar nas pessoas."

Não obtenho uma resposta rápida. Acho que ele desistiu e

acabo pensando que é melhor assim. Eu não devia ter começado

com essa brincadeira. Teria evitado toda essa confusão.

Quando desligo a tela do celular, sua mensagem chega.

"Também tenho dificuldade em confiar, passarinho, e entendo o

que pode estar sentindo. Você é a única pessoa que realmente fala o

que deseja, sem medo de ser rude ou me irritar. Gosto disso e não

quero perder nossa interação interessante."

Interessante?! Achei que ele odiasse.

"Não fica chateado quando falo essas coisas? Achei que não

gostasse."

"Se fosse com qualquer outra pessoa, eu odiaria, mas você,

passarinho, tem algo que muda isso em mim. Faz eu gostar de

conversar e de ouvi-la dizer o quanto sou errado."

E, novamente, ele me surpreende.

"Então... Somos amigos?"

"É estranho, porque você é meu chefe. Então..."

"Sabe o que é mais estranho? Esbarrar em alguém, ela me achar

um escroto, depois me devolver o celular que deixei cair,

conversarmos um com o outro como se fôssemos íntimos e nem a

conhecer."

Estranho também é gostar de falar com você ou sorrir como

uma idiota só porque quer seu meu amigo.

Tudo fica estranho a cada dia ou a cada mensagem. Ian é

meu chefe e, mesmo dizendo que quer minha amizade, nada

mudaria esse fato. Portanto, para que eu não seja punida

futuramente por algo que venha a fazer, é melhor me esquecer disso.

"Deve estar entediado. Conversar com uma estranha em plena

sexta-feira é algo quase deprimente. Quando se pensa em alguém

como você, mesmo sendo um bundão, imagina-se que não estaria

sentado em um sofá digitando mensagens para alguém que nem

conhece."

E, mais uma vez, fico sem uma resposta imediata. O pior é

que não quero parar de conversar com ele, embora saiba quão

estranho é esse desejo.

"Já faz um tempo que não saio para me divertir, passarinho. Com

meu pai em coma e com todas as responsabilidades em cima de

mim, é difícil achar um momento só meu. É difícil até ir ao escritório,

porque sempre espero uma ligação me dizendo que ele não resistiu."

"Sinto muito, Ian. Sei sobre o acidente, só que de nada além

disso."

"Eu deveria estar no lugar dele agora, mas me recusei a ir ao

evento. E, como ele não poderia deixar de comparecer lá, foi. Mas

queria tanto que eu tivesse ido. Agora, por minha causa, meu pai

pode não resistir."

Eu não faço ideia do porquê Ian está me contando essas

coisas, mas ver um pouco mais do homem arrogante e descobrir que

ele não é isso tudo, está sendo bom, mesmo que no meio dessa

história toda haja algo tão terrível.

"Aposto que ele não pensará assim quando acordar. Você não

queria que aquele acidente tivesse acontecido. Ninguém poderia

adivinhar. Então, deve parar de se culpar. Coisas assim acontecem."

"Por que está me falando essas coisas? Mal me conhece. Acha

que sou a pior das pessoas e, mesmo assim, está dizendo algo para

fazer eu me sentir melhor?"

Não sei se esse é o Ian arrogante ou o que não acredita no

que falei, por não se achar merecedor daquelas palavras. Fico em

cima do muro, sem saber o que responder com exatidão.

"Apesar de não confiar muito nas pessoas, sempre tento dar a

melhor parte de mim. E não acho que alguma força superior tenha

causado tal acidente para lhe punir. Espero que possa acreditar em

minhas palavras."

"Não se ofenda, passarinho! Só não estou acostumado a ouvir

alguém dizer algo ao meu favor. Não sou a melhor pessoa do

mundo, e muitos que estão ao meu redor só querem se aproveitar. É

por isso que estou gostando de você: não é assim."

Acho que ele não soube se expressar. Sim! Quis dizer que

gosta da minha sinceridade.

"Gosto de conversar com você."

Claro. Agora sim.

"Ok, Ian. Já está tarde e ainda tenho que trabalhar."

"Trabalhar? É sexta à noite. Como vai trabalhar?"

Um sorriso sai da minha boca ao ler sua mensagem, que

chegou em poucos segundos. Se eu falar o que irei fazer,

logicamente ele ligará os pontos. E eu não darei tudo de mão beijada

ao meu chefe bundão.

"É um projeto pessoal. Nada de tão importante."

"Sabe, passarinho? Esse seu mistério só me deixa ainda mais

curioso e motivado a te achar."

"Não entendo como não pode deixar isso para lá e seguirmos

com nossa "amizade" em anonimato. Sinto-me mais confiante para

dizer as verdades na sua cara se eu não correr o risco de você

aparecer do nada na minha porta ou me demitir no trabalho."

"Vou repetir mais uma vez, passarinho: não quero demiti-la,

somente acabar com a fantasia que minha cabeça insiste em criar.

Se eu não soubesse que a minha secretaria é tão medrosa, pensaria

que seria ela querendo me enlouquecer por tudo que já fiz."

"Não fantasie! E, eu não sou a Mia. A coitada morre de medo

de ser demitida quando você chega na empresa como um vilão da

Disney, buscando uma desculpa para ser grosso com todos."

"É o que todos pensam de mim? Ótimo! Já não bastava meu pai

me achando um idiota, os funcionários acham que sou um bosta."

"Bem... Confesso que também achei isso quando me derrubou

outro dia. Mas, fique tranquilo! Você é um bundão que não gosta de

ser tão bundão e tenta mudar quando as pessoas reclamam."

"Fico feliz que não me odeie totalmente, estranha. Mas, ainda

assim, sou uma péssima pessoa. E isso irrita a mim mesmo. Na

verdade, só percebi graças a você. E não acho que conseguirei a

confiança deles após meus ataques de fúria."

"Um dia de cada vez, Ian. Só precisa ser mais educado e

menos babaca."

Eu deveria desligar o celular e deixar para falar com ele em

outra hora, porém não consigo tirar os olhos da tela, esperando por

uma mensagem sua. Sinto essa necessidade como se o cara fosse

alguém importante ou algo do tipo.

"Boa noite, passarinho! Pode ir trabalhar no seu projeto pessoal

enquanto eu tento, de alguma forma, contentar-me com a ideia de

nunca saber quem é você."

"Boa noite, Ian!"

Foi difícil desligar o celular. Nas outras vezes em que

conversamos, terminamos as conversas com alguma provocação,

briga ou com ele ameaçando me achar de alguma maneira, mas sua

última mensagem de hoje me deixou pensativa.

Em um buraco escuro dentro do meu peito, sei que quero

dizê-lo quem sou, só para que ele olhe para mim sem ser como um

chefe bravo ou apressado, e sim como uma amiga.

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