- Finalmente! Pallot Arts Gallery. - Eliza exclamou eufórica para si mesma, maravilhada com o requinte do edifício. Ela ainda não conseguia acreditar na sorte que teve de conseguir um estágio naquele lugar.
Eliza era apaixonada por arte e desenho desde pequena, e foi na adolescência que ela começou a fazer seus primeiros esboços. Ela não tinha grandes ilusões sobre a sua arte; o desenho era mais uma realização pessoal, do que profissional. Era nos desenhos que ela expressava toda a sua emoção: sonhos, frustrações e decepções ganhavam cores e tornavam-se pinturas em suas telas, na qual representava a imagem de um mundo perfeito e idealizado: ela não era apenas uma jovem pessimista, mas também uma garota sonhadora.
A certa altura de sua vida, refugiou-se entre tintas e pincéis para fugir dos seus problemas e esquecer quem era e, como consequência disso, aos vinte e dois anos ela ainda procurava um significado real para sua existência um tanto vazia.
Antes de entrar, ela olhou mais uma vez fascinada para a galeria, que na sua visão sonhadora parecia uma verdadeira obra de arte que contemplaria perfeitamente as esculturas de Donatello - sim, talvez este tenha sido o primeiro de muitos sonhos que se tornariam realidade.
- Buongiorno, signorina. - Eliza cumprimentou a atendente educadamente.
- Buongiorno. - A secretária de Giulietta retribuiu a saudação polidamente, deixando evidenciar claramente que estava entediada. Olhando para Eliza, perguntou. - Em que posso ajudá-la?
- Me chamo Eliza Villar, signora Pallot...
- Mas é claro... A estagiária. - A secretária a interrompeu abruptamente. Indiferente, acrescentou. - Sente-se e espere: signora Pallot está em reunião.
- Obrigada. - Eliza agradeceu por educação.
"Que mulher rude!" Ela pensou decepcionada com a recepção inicial e observou. "Espero que o restante dos empregados não seja um reflexo dessa secretária mal-educada".
De qualquer forma, como lhe foi informado, ela sentou-se numa confortável poltrona e esperou pacientemente por horas. Discretamente, ela aproveitou para observar o ambiente ao seu redor: tudo ali exalava riqueza e elegância. Este era o verdadeiro mundo dos bem-nascidos, o mundo ao qual ela não pertencia.
Eliza Villar era filha única, fato que a fazia se sentir solitária. Às vezes ela gostaria de ter irmãos - alguém com quem pudesse conversar, dividir problemas ou até mesmo brigar, de vez em quando. Algumas vezes ficava feliz em pensar na possibilidade de como teria sido sua vida se tivesse irmãos. Diante deste pensamento, ela suspirou melancólica: amava a sua mãe, mas queria ter outra pessoa ao seu lado.
Fernanda Villar - mãe de Eliza - ficou viúva muito cedo e não se casou mais. Desde então, ela se dedicava exclusivamente a sua criação e isso, de certa forma a incomodava, pois mesmo sem querer, sua mãe acabava sufocando-a.
Ela não teve uma infância feliz. Desde pequena aprendeu a conviver com o mínimo; o que sua mãe ganhava não era suficiente para suprir algumas de suas necessidades básicas e por isso, Eliza jurou a si mesma que um dia mudaria o curso de sua história e foi com esse propósito que ela mergulhou de cabeça nos estudos: a educação seria sua porta de entrada para um futuro melhor.
Desde sempre foi uma aluna inteligente e muito disciplinada, todas as suas atividades eram entregues no prazo - inclusive, fazia anotações para ajudar alguns de seus colegas de classe. Com muito esforço e sacrifício ela obteve excelentes notas e, graças à sua persistência, ganhou uma bolsa de estudos para concluir parte da graduação no exterior. Ela se lembrava desse dia com carinho: sua mãe ficou tão feliz que lágrimas banharam seu rosto cansado.
- Signorina Villar. Siga-me por favor.
Eliza foi conduzida para uma sala ampla e requintada. Os móveis eram revestidos de couro legítimo, telas colecionáveis de artistas renomados e objetos de arte de grande estética adornavam o local, tudo perfeitamente distribuído em um salão de aproximadamente sete metros quadrados. Detalhes como esse deixavam o ambiente sofisticado e aconchegante. Deslumbrada, ela admirou boquiaberta cada parte daquele enorme salão, além, é claro, da mulher ruiva de cerca de quarenta anos, sentada à sua frente, elegantemente vestida. A sofisticada senhora era linda, alta, cabelos medianos e grandes olhos verdes com algumas pequenas sardas emoldurando seu rosto pálido: sem dúvida, tratava-se de Giulietta Pallot, sua futura chefe.
- Sente-se, signorina Villar. - Giulietta pediu, indicando-lhe a cadeira à sua frente. Seu rosto estava ligeiramente curioso. - Fiquei muito impressionada com o seu currículo, mas confesso que não esperava encontrar uma garota tão jovem.
Eliza piscou aflita ante essa observação. Era verdade, que ela era muito jovem, mas não via nenhum obstáculo em sua idade que diminuísse suas qualificações e atribuições. Ela tinha plena consciência de seu potencial como conhecedora de arte e estava mais do que capacitada para estagiar lá, a menos, é claro, que fosse norma da galeria não contratar jovens.
Preocupada, perguntou-lhe.
- A signora não admite pessoas jovens?
- Perdoe-me querida. Não foi isso que eu quis insinuar. - Giulietta sorriu amigavelmente aliviando a fina camada de tensão no rosto de Eliza. - Pelo contrário; será bom ter um rosto jovem desfilando pela galeria. Infelizmente, já não me encaixo mais nos moldes dos meus vinte anos.
Ela sorriu aliviada. Ouvir aquilo deu-lhe um novo ânimo, pois ela trabalhou duro para conseguir aquele estágio e não seria justo perdê-lo por conta de sua pouca idade.
Como observou Giulietta, Eliza era uma brasileira muito bonita. Ela era dona de uma beleza exótica: tinha cabelos castanhos, médio com nuances de vermelho, olhos cor de mel, pele clara e levemente bronzeada e pernas definidas. De longe, um bom físico.
- Posso chiama-la de Eliza?
- Sim, signora Pallot. - Ela respondeu feliz por ter sido aceita no trabalho.
- Minha querida, você foi altamente recomendado pelo Professor Salvattori. - Olhando para ela atentamente, acrescentou. - Você será a primeira estrangeira a ser contratada por esta empresa. Espero que você não me decepcione.
- Agradeço muito a oportunidade. Eu prometo não decepcioná-la.
- Assim espero. - Ela observou encarando-a nos olhos.
Depois de acertados todos os detalhes da sua contratação, Giulietta ligou para a recepção e em questão de minutos a secretária se encontrava no seu escritório. Após receber as instruções necessárias, Eliza foi encaminhada para o salão de exposições. Sem fôlego, ela admirou as obras da nova coleção de verão distribuídas no hall do imenso salão.
Quando a secretária a deixou ela arregaçou as mangas e se entregou à tarefa que deveria desempenhar - embora fosse etiquetar telas, esse trabalho era digno e a deixava orgulhosa.
O tempo passou rapidamente e, quando ela percebeu, já se passava das treze. Apressada, guardou o restante do material que estava a manusear, pegou sua bolsa e dirigiu-se a um pequeno restaurante. O almoço não durou mais de meia hora. A refeição foi simples, pois não podia ultrapassar as despesas, porém estava muito saborosa.
Assim que terminou o seu almoço, saiu do restaurante as pressas, e, ao se aproximar da entrada principal, ela avistou uma Mercedes prateada estacionada em frente à galeria. A julgar pela opulência do veículo, ela deduziu que se tratava de um cliente muito rico.
Assim que Eliza entrou na galeria, ela encontrou um típico homem italiano: alto, moreno, bonito em fisionomia e aparentemente na casa dos trinta anos. Ele estava elegantemente sentado em uma das cadeiras de espera da recepção. Contudo, ao julgar pelo seu porte sério e a inquietação da sua perna, ele provavelmente estava ansioso para falar com Giulietta Pallot. Era inegável: ele parecia tão opulente quanto o veículo que ostentava.
Como se um ímã o atraísse para ela, o estranho pousou os olhos em Eliza e ela sentiu-se capturada pela floresta mais selvagem, enigmática e escura do verde cintilante do olhar dele. Naquele momento ela percebeu que poderia fazer vários retratos mentais daquele homem e transformá-lo em uma pintura única e adorada.
No entanto, esse encanto se perdeu no momento em que ele, de maneira descarada, a olhou de cima a baixo - percorrendo cada centímetro do corpo dela como um cão faminto. Ela deduziu que aquele homem não valia o tempo de sua admiração, pois estava visível que ele fazia o tipo "conquistador de muitas."
Ele continuou a fitá-la descaradamente. O olhar tímido de Eliza era visível e ela sentiu o rosto pegar fogo de tanto constrangimento. Inquieta, ela cumprimentou-o por educação e dirigiu-se para o salão de exposições e, a medida que caminhava, sentia o olhar feroz dele seguindo-a.
Depois do desconforto inicial, ela respirou fundo e retomou as suas atividades a todo vapor. Porém, não demorou muito para uma nova onda de inquietação a atingir ao sentir-se observada novamente.
No primeiro momento ela ignorou-o e fingiu não perceber a presença dele, contudo não seria de bom tom agir com indiferença tratando-se de um cliente em potencial. Sem opções, não lhe restou outra alternativa a não ser virar-se e atendê-lo.
- Em que posso ajudá-lo, senhor...
- Vallone, Giulio Vallone. - Ele apresentou-se com um sorriso enigmático no rosto enquanto estendia-lhe a mão para cumprimentá-la.
O aperto de mãos foi caloroso, embora um pouco demorado para o gosto dela. Aproveitando a proximidade entre ambos, Eliza tomou um tempo para analisá-lo detidamente. Giulio Vallone era realmente um homem impressionante e uma figura marcante. Ele era bastante alto, tinha cabelos escuros como a noite de inverno, olhos verdes e altivos, pele bronzeada e um físico de dá inveja a qualquer atleta. Provavelmente, em sua adolescência, ele havia participado de alguma liga estudantil de voleibol.
- E então, signorina...? - Giulio tirou-lhe de suas especulações com um tom ligeiramente esnobe.
- Villar, Eliza Villar. - Respondeu.
- Gostou do que viu? Ou prefere que eu me sente naquela poltrona enquanto você faz meu retrato falado? - Perguntou com um sorriso tão cínico que não deixava dúvidas quanto a indiscrição dela em analisá-lo. Infelizmente ele parecia ser como a maioria dos homens bonitos: arrogante e egocêntrico.
Eliza piscou completamente desconcertada por ter sido flagrada por ele. Ela fingiu não entender a pergunta e voltou-se a limpar as telas demonstrando uma falsa ignorância. Felizmente, antes que ela tivesse tempo de esboçar qualquer resposta vazia, eles foram interrompidos por Giulietta.
- Meu querido, sinto muito fazê-lo esperar. - Giulietta desculpou-se abraçando-o carinhosamente a seguir. -Estava em uma pequena reunião de negócios, espero não ter feito você perder o seu tempo vindo visitar-me.
Eliza aproveitou aquela interrupção oportuna para se distanciar o máximo possível deles. Giulio era um homem envolvente e aparentemente sinônimo de confusão e, quanto mais distante ela se mantivesse de problemas, melhor.
- Você está linda, minha querida. Na verdade, você é a mulher mais bela de toda a Itália. - Ele a elogiou segurando-a nos braços. Pelo visto os dois eram bastante íntimos.
- Oh, pare de ser galanteador. Quase não acreditei quando minha secretária falou-me que você estava aqui. - Olhando-o sorridente, perguntou. - Quando chegou de viagem?
- Ontem à noite. - Respondeu-lhe sério e prosseguiu. - Confesso que fiquei surpreso com a sua decisão de contratar uma estrangeira, por isso vim verificar pessoalmente.
- Ela foi uma exceção. Eliza foi muito bem recomendada pelo professor Salvattori. - Giulietta respondeu entrelaçando o seu braço ao dele e, logo após, puxou-o para seu escritório.
Mesmo Eliza mantendo uma distância considerável dos dois, ela não pode deixar de ouvir o comentário preconceituoso de Giulio em relação a sua admissão. Era surpreendente que em pleno século XXI ainda existissem pessoas com convicções fortíssimas a respeito do desmerecimento de um estrangeiro em seu país. Ao acordar e levantar, Eliza sentia na pele o peso de ser estrangeira e todos os dias ela tinha que lidar com a indiferença e a desconfiança das pessoas pelo simples fato da sua nacionalidade. O estágio na galeria só foi possível graças aos esforços do professor Salvatoriano que foi um grande amigo de Giulietta nos tempos de universidade, senão fosse por ele, certamente ela não teria a mínima chance.
Durante o tempo que estava em Florença, Eliza viu muitas portas se fecharem para si e vários olhares tortos de descrença foram-lhe dirigidos assim que a sua pronúncia no dialeto falhava. Às vezes ela se esquecia e dirigia-se a alguém em português ou misturava os dois idiomas. Mesmo com toda a dificuldade e, graças a convivência, seu italiano estava melhorando.
Absorta em meio a tantos questionamentos, o tempo pareceu voar sem que ela percebesse; ela só foi se dá conta do avançado das horas quando a tarde deu lugar a noite e a secretária de Giulietta a despertou de seus devaneios.
- Está na hora de fechar a galeria, signorina Villar.
- Oh, desculpe-me! Não vi a hora passar. - Justificou-se recolhendo os materiais.
Minutos depois ela deixou a galeria e se dirigiu ao ponto de ônibus mais próximo, pois teria uma longa caminhada pela frente até chegar ao seu destino final. Se ser de outra nacionalidade já era difícil, imagine ainda ser estrangeira e pobre.
Eliza dividia um pequeno apartamento de três quartos com duas colegas que conheceu na universidade: uma chilena e a outra mexicana. O relacionamento dela com as colegas de quarto até o momento era agradável. Elas não tinham muitos atritos e basicamente, Eliza passava a maior parte do tempo sozinha. Ao contrário dela, suas amigas gostavam muito da vida noturna, - embora Mirella fosse enfermeira de plantão, ela quase nunca recusava uma balada no seu dia de folga. Como Eliza sempre foi uma jovem retraída e muito caseira, ela preferia o silêncio de seu quarto do que a agitação dos bares e boates de Florença.
Eliza fez o restante do trajeto até o ponto de ônibus, absorta. Inevitavelmente a figura de Giulio parecia ter vontade própria na sua mente e ele invadia os pensamentos dela numa proporção assustadora. Parecia que cada transeunte que passava por ela, era Giulio.
Fechada em seu mundo, ela caminhou a passos largos, receosa de perder sua condução das 18h 30 min. Ao dobrar a esquina uma Mercedes prateada chamou-lhe a atenção. Nesse exato momento o sinal fechou e o carro parou próximo a ela. Eliza reconheceu imediatamente o condutor do veículo: era Giulio Vallone acompanhado de uma estonteante loira. Mesmo sendo difícil ignorar a presença deles, ela continuou seu caminho fingindo não vê-los.
Aliviada, ela viu sua condução aproximar-se. Ver aquele homem arrogante ao lado de outra causou-lhe certo desconforto. Porquê? Ela não sabia. Tudo o que sabia e queria naquele momento era chegar em casa e se enfiar debaixo do chuveiro para lavar seus pensamentos controversos e sua alma. Ela não estava apenas exausta mentalmente, como também faminta.
Já se passava das dezenove horas quando ela chegou ao apartamento e para sua surpresa, foi recepcionada por Lúcia que, ao vê-la, foi logo iniciando o interrogatório.
- Como foi seu primeiro dia de trabalho, Eliza?
- Foi maravilhoso! A galeria é um sonho. Estou amando meu trabalho. - Respondeu numa euforia contagiante.
- Fico muito feliz por você. Sei o quanto você batalhou por essa oportunidade. Parabéns. - Lúcia a parabenizou enquanto caminhava em direção a porta.
- Vais sair, Lúcia? - Eliza perguntou mesmo sabendo o óbvio.
- Sim. Ao contrário de você, não tenho vocação para a solidão ou celibato.
- Divirta-se! - Ela desejou sincera diante do azedume de Lúcia.
- Alguém desta casa precisa fazer isso por nós duas. E, eu pretendo aproveitar. - Disse enquanto lhe lançava uma piscadela sapeca.
Lúcia pegou sua bolsa do sofá e saiu deixando-a pensativa. De fato ela era uma jovem solitária, porém cair na noite em uma balada não amenizaria em nada sua solidão; pelo contrário, ela continuaria a sentir-se só. Eliza conhecia muitas histórias de pessoas que, mesmo mesmo estando cercada por amigos, continuavam a sentir-se solitárias. Muitas vezes ela se perguntou se solidão era uma condição ou uma opção.
Mesmo com esse pensamento enraizado na memória ela entrou no banheiro e tomou um banho rápido. Refrescada e totalmente a vontade, saiu do quarto e foi em direção a cozinha para preparar uma refeição leve. Nada muito elaborado.
Enquanto seu jantar estava no fogo, ela ligou a televisão e sentou-se no sofá para assistir a programação local – nada interessante, mas faria seu tempo passar mais rápido.
Tão logo seu jantar ficou pronto, ela serviu-se. Após a refeição, pôs a louça suja na pia e as lavou. Depois de organizar a cozinha e deixar tudo limpo, ela voltou para a sala e concentrou-se em assistir ao filme que agora passava "As crônicas de Nárnia." Eliza jurou que tentou assisti-lo sem bocejar.
Cansada e sonolenta, ela desligou a televisão e foi deitar-se, afinal teria muito trabalho na manhã seguinte e não poderia se dar ao luxo de ficar acordada até tarde.
Assim que colocou a cabeça no travesseiro, ela caiu no mais longo e profundo sono.
Eliza acordou na manhã seguinte com o barulho insistente do despertador gritando em seu ouvido como se dissesse: "Levante-se, preguiçosa! Hora de acordar!"
A fim de se livrar do som insuportável do aparelho, ela tateou a mesinha de cabeceira buscando encontrá-lo. Eliza conseguiu, mas a sorte era fugaz como uma raposa e em um único descuido o despertador se vingou dela fazendo-a derrubar o celular e os livros de cabeceira no chão.
Como nem tudo é perfeito, há um velho ditado que diz que a pressa é inimiga da perfeição; em outras palavras, Newton tinha razão em sua análise: toda ação gera uma reação. Eliza recebeu a dela.
Conformada de que não começaria o dia com o pé direito, ela rolou desanimada para fora da cama. Finalmente desperta, ela rapidamente recolheu seu celular do chão – ou o que restou dele – e correu para o banheiro.
Em menos de meia hora, ela já estava na cozinha preparando seu desjejum. Depois de preparar pães, ovos e frutas, ela sentou-se e comeu, e como todos os dias, ela era a única ocupante da mesa, pois Lúcia sempre acordava muito tarde e Mirella, a essa hora, ainda estava no hospital para mais um exaustivo plantão.
Como tudo naquela manhã parecia conspirar contra si – para seu desgosto – Lúcia deixou algumas tigelas sujas da noite anterior espalhadas pela pia. Definitivamente sua colega de quarto não tinha a menor vocação para as tarefas domésticas. Eliza não a culpava, no entanto, pois os pais de Lúcia a criaram como uma verdadeira boneca de porcelana. Inevitavelmente, Lúcia era uma garota mimada cujo caráter egocêntrico foi moldado desde a infância. Culpa dos pais? Talvez. Não dava para apontar o transgressor, porque ao contrário dela, Eliza vinha de uma família pobre onde as tarefas domésticas eram divididas entre ela e sua mãe.
Ao analisar novamente aquela bagunça, ela olhou para o relógio e constatou que não teria muito tempo à sua disposição, o que significava que, se Mirella não lavasse a louça ao chegar em casa ela permaneceria no mesmo lugar esperando por ela, já que Lúcia dificilmente limparia a sua própria bagunça. Chateada, Eliza decidiu aliviar as responsabilidades de Lúcia - mesmo que sua amiga não merecesse.
Assim que a sujeira na pia foi resolvida, ela saiu correndo em direção ao quarto no intuito de arrumar-se o mais rápido possível - estava fora de cogitação chegar atrasada no seu segundo dia de trabalho.
De volta a seu "esconderijo" como Lúcia bem lembrava, ela maquiou-se casualmente e ficou surpresa com o resultado que obteve. Diante do espelho, ela visualizou a imagem de uma jovem confiante e segura de si: uma mulher linda e sensual, muito diferente da jovem retraída e tímida do dia anterior.
Naquela manhã, Eliza optou por uma camisa gola alta de seda estampada, pantalonas pretas e blazer bege de corte reto e retrô; tudo suave e harmonioso. Perfeito! Ela prendeu o cabelo em um coque alto e deixou algumas mechas soltas para emoldurar o seu rosto gracioso. O resultado final foi melhor do que o esperado e ela contemplou o nascimento de uma nova mulher. De fato, a maquiagem a deixou mais adulta, mais sofisticada. Ela normalmente não usava maquiagem, contudo, o seu estágio atual exigia dela uma postura profissional e boa aparência.
Satisfeita com sua imagem, calçou sandálias de salto alto, pegou a bolsa a tira colo e saiu.
Quando Eliza chegou à galeria, percebeu que seu dia desafortunado estava apenas começando, e isso se confirmou quando a secretária de Giulietta Pallot a cumprimentou com um humor taciturno mais perigoso que um tsunami.
- Bom dia, signora Vittoria, alguma instrução para hoje?
- Como estagiária é seu deve conhecer sua função dentro desta empresa, não o meu.
- Eu só pensei que - Eliza tentou justificar-se, porém, antes que tivesse tempo de terminar seu raciocínio, Vittoria a interrompeu bruscamente.
- Você não é paga para pensar e sim para agir. - Com cara de poucos amigos, bradou. - Agora, vá encontrar algo para fazer e saia da minha frente!
- Desculpe-me.
- Pare de se desculpar. - Impaciente, a secretária alertou-a. - Eu já disse: desapareça da minha frente.
Diante dessa tremenda grosseria e falta de educação, Eliza agradeceu-a gentilmente e dirigiu-se para o salão de exposições como se nada tivesse acontecido. Ela já havia percebido que a sua presença na empresa incomodava Vittoria.
A princípio, ela até considerou a possibilidade de estar errada em seu julgamento, mas com todas as respostas agressivas que recebeu até agora, isso só vinha confirmar o óbvio: Vittoria não a suportava. Aliás, suportar era uma boa palavra em comparação a alguém que praticamente te odeia. Por isso, em meio aos avisos sólidos da secretária, Eliza achou mais conveniente manter-se longe, pois aquele tipo de pessoa costumava ser traiçoeira.
De qualquer forma, mesmo com a desagradável recepção, ela decidiu esquecer o ocorrido e procurou concentrar-se no trabalho. Eliza estava tão absorta em sua tarefa que não viu a figura de Giulio aparecer no corredor; ela só ficou ciente da presença dele, quando uma voz rouca soou um tanto cínica ao pé do seu ouvido.
- Ora, ora, signorina Villar, tudo isso é para impressionar-me?
Quando as palavras dele chegaram aos ouvidos dela, ela sentiu o estômago revirar. De alguma forma, o tom audacioso de Giulio mexeu com os instintos de proteção dela e lembrou-lhe velhas memórias.
Relutante, ela virou-se e o encarou. Controlando o tremor que começou a percorrer o seu corpo, ela respondeu-lhe o mais natural possível.
- Desculpe, acredito que não entendi a sua pergunta. Estás insinuando que eu...
Nesse momento, Giulio encurtou a distância entre os dois e disse com arrogância.
- Não fui claro o suficiente, querida? Pensei que fosse uma garota esperta para entender minha intenção.
- Lamento desapontá-lo senhor Vallone, mas não costumo me vestir para os outros. Muito menos para você. - Retrucou indignada.
- Assim fico mais aliviado, signorina. Tenho certeza de que você pelada é muito mais bonita. - Disse-lhe sem meias-palavras.
- Seu insolente! Como você ousa?! - Ela bradou consternada e acrescentou. - Com quem pensas que está falando?
O olhar visivelmente surpreso de Giulio chocou Eliza e ela percebeu que tinha ido longe demais ao afrontá-lo; ele provavelmente era uma pessoa influente e muito querida pela signora Pallot, o que não seria de bom-tom ofendê-lo. Diante desse fato, ela sentiu-se obrigada a consertar a situação e, mesmo sentindo-se ofendida, foi forçada a engolir a humilhação e desculpar-se.
Envergonhada, disse.
- Sinto muito, signore. Eu não tive a intenção de ofendê-lo.
- Assim é bem melhor, signorina Villar. Seria uma pena se Giulietta soubesse que você maltratou um cliente precioso. - Ele falou sensualmente arqueando as sobrancelhas e puxando levemente os lábios. - Felizmente para você, sou um homem generoso e perdoarei a sua insolência.
"Estúpido" Ela pensou mordendo o lábio em nojo. Odiava aquele tipo de homem, ainda mais ele, por estar importunando-a no seu local de trabalho. Se Giulio não fosse um amigo íntimo de Giulietta ela já o teria mandado a ver navios.
Contudo, como queria manter um bom relacionamento com sua chefe e clientes, ela pediu-lhe.
- Mais uma vez, sinto muito. Garanto-lhe que isso nunca mais voltará a acontecer.
- Espero que sim, garota. - Ele a advertiu sério e acrescentou. - Lembre-se de manter-se no seu lugar.
Uma coisa ficou clara para ela: Giulio Vallone era perigoso. Um homem lindo e perigoso.