Kathleen Émilie Devereaux
"A verdade raramente é pura e nunca simples."
Oscar Wilde.
Às vezes quando me olho no espelho não me reconheço, assumi outra identidade para servir ao meu país e aceitei fazer muitas coisas que jamais imaginei que faria, precisei esquecer meus princípios, minha moral e até mesmo ser fria e impiedosa com certos "clientes" para depois que ganhar sua confiança eu possa entregá-los a Interpol e eles serem direcionados a prisão.
Sim, já fui presa apenas para manter meu disfarce e nunca duas vezes seguida, pois se alguém descobrir minha identidade, estarei morta.
Confesso que no começo foi difícil, nunca é fácil dar as costas para o passado, mas com o tempo fui criando laços com os agentes que fizeram o mesmo sacrifício que eu, cada um com sua linha de atuação e alvos diferentes.
Não tenho suporte direto e as pessoas que trabalham para mim, acreditam que sou uma negociadora de armas.
Ao longo dos anos, fui entendendo a importância do meu trabalho. Aprendi amargamente que não conseguimos prever o que vai acontecer, muito menos se terei que me envolver com um alvo, além do profissional. É muito perigoso criar vínculos ou laços porque pode ser a ponta de um iceberg e ela pode destruir tudo que construí como agente infiltrada.
Eu não previ, não calculei as variáveis e acima de tudo fui tola em achar que poderia blindar sentimentos e seguir à risca o plano que fazíamos para pegar o próximo alvo.
Nada poderia dar errado...
É o que digo para mim mesma após sermos enviados para o próximo alvo. É como um mantra para me dar força e coragem ao ouvir certos horrores que os homens fazem. Fotos e vídeos ainda me surpreendem de maneira negativa, prendemos muitos homens cruéis, muitos agentes bons morreram no percurso, mas após cada prisão isso vale a pena.
Eu cresci em um orfanato, nunca fui adotada, mas eu era a mais inteligente e esperta de lá, não queria uma família que fingisse me amar para ganhar dinheiro do governo, era o que éramos, fonte de dinheiro para casais.
Ouvíamos histórias sobre crianças que não eram boazinhas e os pais faziam maldades terríveis, eles colocavam medo em nós.
O problema era que eu não tinha medo e isso chamou a atenção da madre superiora.
Quando completei doze anos sabia que eu era diferente das outras crianças, estudava várias línguas, culturas, artes marciais e até mesmo aprendi a atirar com exímio. Então certo dia eles chegaram em carros pretos enormes e me levaram.
Naquele dia tudo mudou...
Nos deixaram em uma espécie de castelo, crianças de diversas idades juntas, e foi quando conheci uma amiga que hoje chamo de irmã, a única verdadeira naquele lugar, que me protegeu das crueldades do nosso treinamento.
Ela era mais velha, me ensinou a não temer a dor e a esconder meus sentimentos, a mascarar tudo ao meu redor para que no final do treinamento fôssemos as escolhidas.
Estudávamos pela manhã, treinávamos a tarde e éramos torturadas à noite, tudo para testar a nossa resistência.
Sobrevivi ao inferno em nome do meu país, descobri desde muito cedo que nem tudo era o que parecia, as máscaras que as pessoas usavam era um refúgio para o sucesso.
Nossa vida, nossa escolha eram toda da agência, a qual nem sabíamos que pertencíamos, não possuíamos livre arbítrio e nem tão pouco tivemos infância.
Éramos agentes com um único propósito, destruir os inimigos.
O treinamento era árduo, por vezes, desejei desistir de tudo para ter uma vida normal. Mas sabia que se passasse por aqueles portões jamais voltariam a ver a luz do dia. Sabíamos bem o que eles faziam com desertores e não posso deixar minha irmã sozinha.
Com o passar do tempo, nossos instrutores e professores perceberam que éramos boas juntas, que talvez essa parceria pudesse render bons frutos e foi apenas por isso que em uma noite chuvosa fomos mais uma vez testadas.
Fomos levadas ao limite dos nossos corpos, deixadas na floresta para sobrevivermos sozinhas, com balas de borracha sendo disparadas a toda hora.
Não tinha medo do escuro, mas de quem se escondia nele. Não existia monstro embaixo da cama, apenas homens e mulheres cujos propósitos da vida era nos destruir, impedir que protegêssemos nosso país.
Foi o pior treinamento que passamos.
No final estávamos trêmulas de frio, com muito sangue em nossas roupas e eles com um sorriso enorme em sua face. Éramos as primeiras a retornar sem desistir na metade do caminho.
Todos os escolhidos eram enviados para a universidade. Depois éramos recrutados por alguma agência e lá aprendíamos a amar o nosso país e defender o mundo de pessoas sem escrúpulos.
Naquele momento, eu soube que nunca teria uma família de verdade, que o amor existia apenas em contos de fadas que somos encorajadas a esquecer e que ser uma boa agente era o necessário para sobreviver.
Aceitei meu destino, não posso reclamar de onde cheguei graças ao meu potencial. Mas posso, às vezes, ser tomada pela melancolia e desejar o que eu nunca teria, uma família de verdade.
No momento em que aceitei ser parte da agência entrei em algo muito maior e meu único refúgio é ter minha irmã sempre por perto, meu porto seguro.
Após a faculdade retornamos para a agência que nos recrutou, para mais um treinamento árduo, e diferente dos agentes que faziam carreira lá, nós éramos a elite que fazia a diferença no mundo.
Depois que terminamos nosso novo treinamento, as mulheres foram levadas até Anne, uma das agentes mais antiga e bonita. Ela nos tornariam damas, mulheres inocentes e cruéis. Iria nos inserir no mundo do crime e ensinaria como usar uma arma poderosa, nosso corpo a favor das missões.
Aprendemos a falar, a comer, a nos vestir e entender mais sobre cada papel que representaríamos.
Aprendi a ser uma boa mentirosa, elas sobrevivem...
Aprendi a amar meu país e morrer por ele, se necessário...
Aprendi a me vestir e usar a sensualidade a meu favor...
Aprendi a dar as costas a tudo e todos em nome da missão.
Eu só não aprendi a força devastadora que o amor pode possuir quando ele arrebata o seu coração.
Não era só mais uma missão, ela se tornou muito mais que isso no momento que nossos olhares se cruzaram e entendi que não estava preparada para o que iria sentir e viver.
Giovanni Matteo Barletta
"Dizem que amar é dar a alguém a habilidade de destruir você, mas confiando que não fará isso." Pensador desconhecido.
Meados de 2016...
Faz quase sete anos que administro o clã Ndrangheta, de certa maneira, com mãos de ferro. Em muitos pontos cruciais eu mudei a forma de ver, encarar e fazer negócios com os amigos e os inimigos.
Quando o Don me pediu para assumir os negócios e buscar vingança pela minha amada esposa, assim fiz. Tempos depois percebi que nada a traria de volta, então eu iria fazer com que todos se ajoelhassem diante de mim. Daria a última palavra e faria com que o mundo nos temesse, seriamos lembrados e reverenciados por muitos, e não iria sentir o menor remorso.
Estamos sentados na sala principal do quartel general, sempre gostei da lenda do Rei Arthur e aprecio a távola redonda, que nos permite olhar nos olhos enquanto discutimos o rumo do clã.
Uma vez por mês é apresentado um relatório mensal sobre como andam os negócios e a quantia que foi arrecadada. Duas vezes por mês, ouvimos a população e seus pedidos para que possamos resolvê-los. A polícia nunca serviu para resolver certos assuntos, por isso, os compramos para que estejam em nossas mãos quando precisarmos deles.
Enquanto todos se acomodam, começo a reparar nas reações dos soldados. Há vinte e dois lugares na mesa, cada clã tem seu devido lugar e os soldados que não possuem outro título, não podem se sentar à mesa. Eles ficam em pé ao lado do general, aguardando novas ordens ou preparados para morrer em nossa defesa.
Cada província da Calábria possui quatro clãs que comandam os legados da famiglia e cada clã reporta ao chefe da Ndrangheta. Nosso clã é responsável pelas armas, mas recentemente perdemos nosso fiel negociante de armas para o MI16 que o prendeu na Rússia. Por esse motivo precisei convocar uma reunião com certa urgência ou teríamos um prejuízo incalculável e nossos concorrentes iriam se aproveitar disso.
- Senhores, agradeço por terem vindo, como muitos de vocês sabem estamos sem o nosso principal negociante de armas e precisamos contatar alguém para suprir nossa demanda urgente.
Todos fazem silêncio e continuo a falar:
- Preciso de um nome para fazer uma proposta. Não posso ficar esperando que Lucca seja liberado. Esgotei todos meus contatos, alguns temem o envolvimento do MI16 e outros não servem para a função.
Já faz quase duas semanas que procuro alguém para substitui-lo, não encontrei a pessoa certa e agora preciso da ajuda deles.
Não aceitamos qualquer um para ocupar o lugar do Lucca, mas circunstâncias especiais pedem certas resolutivas.
O silêncio é quebrado por uma única voz.
- Duvido que seja liberado, um dos nossos contatos mandou o relatório da prisão, parece que ficará muito tempo sem ver a luz do Sol. Infelizmente, não há o que que possa ser feito sem chamar a atenção deles para nós - diz Romeo, braço direito do clã Calderone. - Mas há um nome que me vêm à mente, Santiago Fontainelles, o famoso "Roi Noir". Há alguns anos quase fechamos negócio com ele, mas Lucca fez uma oferta melhor e Santiago não quis mudar os preços porque segundo ele a qualidade ofertada não estava em negociação. - Dá uma pausa e me lembro vagamente, sei que a famiglia Cosa Nostra está negociando com ele também. - Além disso, esgotamos muitos nomes de negociantes de armas que não se encaixavam nas necessidades do clã. Alguns amigos comentaram sobre seus negócios e como as armas possuem certa qualidade e entrega rápida. Ele é um dos negociantes de armas mais cobiçados de toda Europa e se pretendemos expandir nosso território, devemos contatá-lo. Para nossa sorte, ele está em no resort Pizzo Beach Club.
- Como um negociador está em nosso território e não fomos informados? - pergunto curioso e ele percebe que não gostei da informação.
- Ele veio para cá após nosso negociante de armas ser preso, acredito que assim como ele alguns vieram com o intuito de serem escolhidos, mas os outros foram dispensados.
É a explicação mais plausível, ainda mais que não ouvi falar de estar fazendo negócios, nem que um novo negociante de armas estava tentando fazer negócios conosco.
- Traga-o o mais rápido possível, quero saber se ele é bom como está dizendo.
Sou o homem que dá a palavra final, eu decido o que faremos ou não.
Após discutirmos alguns assuntos do interesse dos clãs e como os negócios estão indo muito bem, pergunto:
- Outro assunto pertinente?
- Senhor - diz o general do clã Fonezi. - Eu tenho um.
- Então fale, Dante.
Ele olha para os lados e depois diz:
- Os soldados do clã Mazzini. Estávamos de olho em uma nova boate que abriram em Corso Vittorio. Nossos olheiros enviaram fotos mostrando que as mulheres que lá trabalham chegaram em um barco e estavam acorrentadas umas nas outras.
Nunca proibimos a prostituição, afinal cada pessoa faz o que desejar com seu corpo. Sou contra aos que obrigam as mulheres a fazerem algo sem seu consentimento. É claro que há punição por traição de algum membro do clã, mas como é tradição e está na lei, as mulheres e filhas dos traidores podem se tornar prostitutas sem nenhuma escolha própria.
- Sempre há algum figlio di puttana que pensa que pode contrabandear em nossa casa sem pedir permissão ou autorização. Eles nos engaram dizendo que era uma boate e ainda negaram nossa parte no lucro extra. Quebraram uma das regras fundamentais do clã - diz um dos homens do clã Fontana.
- Então devemos ensinar a eles que não devem enganar os clãs e que respondemos à altura. Não machuquem as mulheres, mas podem fazer com que os donos e todos os envolvidos paguem com a vida - ordeno e eles batem na mesa em concordância. - O clã Mazzini e o Clã Fontana tem minha permissão para atacarem o lugar, apenas se certifiquem de não destruírem nada além da boate.
- Sim, Sottocapo, iremos fazer com que paguem e assim mostrar a todos que não toleramos traidores.
Eles começam a discutir a melhor forma de atacar, mas meu foco agora é resolver o problema das armas. Decido deixar que Matteo conduza o resto da reunião, ligo o notebook e acesso a nossa rede, pedindo mais informações sobre o negociante de armas que Romeo quer trazer para os Ndrangheta.
Alguns minutos depois, estou lendo tudo que há sobre ele. Nosso homem que cuida da parte tecnológica é muito bom, diz que irei me surpreender com o novo negociante de armas e que ele pode ser muito melhor que o antigo.
Após a reunião resolvo ir ao escritório, ver se há novas solicitações e se Jamal fez os relatórios que solicitei. Tenho que rever os números e a quantidade que precisamos importar para daqui duas semanas e não podemos atrasar o carregamento.
Ouço batidas na porta, havíamos findado a reunião há menos de duas horas e mesmo sendo pouco mais de meio-dia não havia pedido nada para comer.
- Entra.
A porta abre, vejo Romeo com o olhar baixo e parece estar prestes a me contar algo ruim.
- Vai ficar aí parado? - pergunto e ele apenas olha para os lados antes de se aproximar.
- Desculpe, signor Giovanni, liguei para o número do senhor Santiago e descobri que ele se aposentou, mas a neta dele assumiu os negócios da família há mais de cinco anos. Como sei que não gosta de negociar com mulheres eu vim perguntar se a chamo mesmo assim? - pergunta com o medo estampado em seus olhos. - É ela que está aqui, de férias.
- Eu não tenho outra opção, não temos outro nome, não tão perto de casa. Embora não tenham registrado em lugar nenhum que ele havia se aposentado. Quero que ligue e peça o número dela, acredito que temos que conhecê-la e se for tão boa quanto dizem podemos fechar uma parceria.
Eu sei que quando o negócio fica entre a família é algo a se pesar com bastante zelo em um negócio.
- Sim, signor, irei trazê-la ainda hoje ou prefere que marque em outro lugar?
Penso um pouco, trazer formalidade ao negócio pode ser interessante. Mas por ser mulher e não haver nenhuma no quartel pode atiçar os homens e fazê-los perder a compostura. Por outro lado, ainda não a conheço para saber como lida com certos assuntos.
- Marque no Nereo às 19h30min e lembre a ela que aprecio pontualidade.
Ele concorda e se retira.
Dou ordens aos soldados sobre a vigilância desta noite, depois coloco o presente das meninas dentro do porta-malas. Elas queriam bonecas Barbie novas e confesso que é difícil comprar coisas de meninas.
Embora não deva, me preocupo em tomar um banho rápido, colocar camisa social branca, calça jeans, um terno da mesma cor da camisa e tênis, nada muito formal.
Entro no carro com dois soldados e seguimos para o Nereo. Assim que chegamos, peço para que eles fiquem do lado de fora invisíveis e que o motorista espere na outra quadra, vindo me buscar apenas quando ligasse.
Entro no Pub e procuro Romeo, ele irá nos apresentar, pois, já que teve contato com ela. Encontro o homem em pé e quando me vê, acena para que me aproxime.
Noto como muitos me olham em sinal de respeito e depois voltam ao que estão fazendo.
Quando me aproximo percebo que a moça é uma morena muito bela com um sorriso delicado que me faz estremecer. Seus olhos negros e expressivos me fazem sentir coisas que há muito tempo estão adormecidas e espero que assim permaneçam. Tento ser profissional e educado enquanto a analiso. Ela parece ser delicada demais para o cargo que ocupa.
- Boa noite - diz assim que paro na sua frente, se adiantando.
Gosto de mulheres com atitude, embora as prefira na cama.
- Buona notte.
Ela se levanta e estica a mão.
Ao invés de apertar, seguro entre os dedos e a levo aos lábios, sentindo a maciez da sua pele e imagino como seria senti-la nua em minha cama.
Ela está usando uma calça branca bem colada, blusa creme com manga até o cotovelo e um cinto em sua cintura por cima da blusa.
- Sottocapo, esta é a signorina Genevieve Fontainelles - Romeo nos apresenta e percebo como seu nome é belíssimo. - Signorina, este é o braço direito do chefe, signor Giovanni Barletta.
- É um prazer finalmente conhecê-lo.
Ouvir sua voz doce dizendo meu nome é sedutor demais, então solto sua mão.
- o senhor Romeo me adiantou o assunto e falou muito bem sobre o clã, por favor, sente-se.
Eu me sento e essa é a deixa de Romeo que eleva a mão esquerda da bela dama até os lábios e beija.
Não sei o motivo, mas aquilo me incomodou.
- Me perdoe, signorina, mas preciso ir, o dever me chama, com licença, senhor. - Ele se afasta de nós nos dando a privacidade que preciso.
- Confesso que fiquei surpreso, não costumo negociar com mulheres.
Ela sorri antes de levar a taça aos lábios.
- Meu avô dizia a mesma coisa até descobrir meu talento para os negócios da família. Ele me treinou pessoalmente para ser quem eu sou hoje. Mas não viemos para falar sobre mim ou o senhor, creio que viemos aqui para tratar de negócios.
Gosto quando vão direto ao ponto, mas quero apreciar sua companhia e ver se é tão boa quanto dizem.
Chamo o garçom e peço:
- Signor, o que deseja?
- Quero uma taça do que a bela dama está bebendo. - Faço o pedido e ele se retira.
- Romeo me contou que recentemente perderam seu negociador de armas, por isso estou aqui.
Posso jurar que ela está me avaliando com aqueles olhos curiosos.
- Apenas por uma feliz coincidência de estar de férias neste paraíso. Não foi passado nenhum pedido para que avalie custo e prazo de entrega. Sem contar que meu avô me contou como ele foi descartado pelo senhor alguns anos atrás.
- Ele foi preso, não é tão cuidadoso quando você. Por que não sabia da aposentadoria do seu avô, muito menos que o negócio foi passado para outro membro da família? - Olho curioso, quero ver sua reação.
Ela nada demonstra e o garçom então traz a minha bebida.
- Sou um homem de negócios muito bem-informado e tenho que agora rever meus informantes.
Ela sorri de uma forma adorável.
- Eles não têm culpa, não gosto de entregar minha identidade para qualquer um. Meu avô prefere proteger a netinha preferida dele - diz com naturalidade, parece até um anjo com certa inocência e isso a torna perigosa.
- Fiz uma pesquisa e você foi muito bem recomendada. - Noto um sorriso vitorioso em seu semblante. - Mas gostaria de saber por que La Reine Blanche?
- Mas aqui não é o lugar ideal para este tipo de conversa, não costumo negociar assim.
Ela parece me desafiar, talvez isso funcione com outros homens, mas não comigo.
- Aqui é um lugar impessoal que me torna imparcial em minhas decisões, vamos falar sobre preços, prazos, entregas, transporte e restrições. - Não quero perder o foco do que vim fazer aqui. - E não respondeu a minha pergunta.
- Bom, nem sempre usamos nossos nomes quando negociamos pelo mundo todo, meu avô era conhecido como Rei Negro e não quis nada semelhante. Mas princesa é uma posição muito abaixo do rei. Gosto de xadrez e todos sabem que a peça mais poderosa do jogo é a rainha, no caso, a branca porque ela começa primeiro e sempre têm que defender um rei fraco e impotente. - Ela sorri de uma forma misteriosa e audaciosa. - Meus preços são altos, mas oferto qualidade e alta demanda. Peço 45% do valor total do produto antes da entrega e o restante apenas quando estiver em suas mãos. O prazo varia de acordo com a quantidade de itens pedidos, o transporte é por terra, mar ou ar dependendo da disponibilidade dos meus fornecedores. - Dá uma breve pausa e leva a taça aos lábios. - Quanto as restrições, possuo apenas duas, não transporto drogas ou mulheres e não durmo com quem faço negócios.
Ai, essa doeu na alma.
Ela parece estar sendo muito profissional.
- De acordo, mas seu precisar de outros serviços, o que tem a me oferecer?
Seus olhos buscam algo em minha face e não sei bem dizer o que é.
- Conheço os melhores falsificadores e, possuo contatos e recursos caso algum dos meus clientes precisem sumir ou mudar de identidade, além disso, ofereço garantia pelos produtos que oferto. Tudo é inspecionado e testado por homens de total confiança da minha família, sou a melhor no que faço e nunca tive nenhuma reclamação.
Ela é boa demais para ser de verdade, mas há uma credibilidade no mercado e isso junto a necessidade de um novo fornecedor, me faz erguer a taça e dizer:
- Será um prazer fazer negócios com a signorina.
Ela ergue a taça assim como eu e brindamos.
Será esse o início de uma longa e duradoura parceria, ou poderíamos nos beneficiar mutuamente com tudo?
Kathleen Émilie Devereaux
"Ame tudo, confie em alguns, não faça mal a ninguém."William Shakespeare.
Mal havia saído de uma missão em Praga e já fui convocada para retornar ao meu país.
Eles devem ter outro alvo em potencial para me tirarem das minhas férias merecidas.
Estamos sentados em uma sala com sede em Genebra, há duas fotos na parede e muitas informações sobre o próximo alvo, além de uma imagem grande com um desenho sem rosto. Eles não sabem a identidade do homem que unificou uma unidade da máfia italiana. Embora façam negócios obscuros, eu não os vejo como psicopatas, sociopatas, terroristas ou algo do gênero, há algo nessas informações que não batem com os alvos que persegui.
Alguns eram assassinos frios e cruéis, outros traficantes de pessoas ou órgãos e até mesmo terroristas, mas esse homem misterioso criou sua própria rede e eles se protegem através de um código.
Precisamos de um passe para entrar na Máfia, mas não pode ser qualquer coisa. Estamos revendo tudo de novo, atrás do elo fraco que comete erros, aquele que é fundamental ou o negócio desmorona.
Estarei sozinha em campo, o apoio tático é o último recurso após esgotar todas as tentativas e se eu for pega estarei sozinha e sem pátria.
- Bom dia, agentes, nosso alvo é Giovanni Barletta.
O alvo possui um semblante calmo, deve ser controlador ao extremo e muito perigoso em certas situações.
- Ele é o braço direito do chefe que é o homem sem rosto na parede. - Aponta para o desenho e sinto que este caso é muito mais complexo que ele quer apresentar. - Há mais de oito anos comanda com seu braço esquerdo, Matteo, toda a máfia Ndrangheta. O capo unificou todos os clãs, a uma única irmandade. Por assim dizer, eles recebem ordens, devem respeito e prestam contas ao braço seu direito, que é o único que sabe sua verdadeira identidade e por isso entramos.
- Qual a ligação dele com o chefe? - pergunto curiosa.
- Ninguém sabe, apenas se sabe que ele era um homem comum e soldado do chefe. Mas em uma emboscada mataram a esposa dele e seus dois filhos e ele mudou completamente, inclusive do dia para noite se tornou importante no clã, além de impiedoso. - Ele faz uma pausa e mostra várias imagens de carros metralhados e queimados. - Caçando todos os inimigos, abolindo tráfico humano e centralizando a prostituição a quem deseja estar nessa vida e a traidores.
- Ele mudou a forma que a máfia lida com tudo? - um agente pergunta
- Ele é metódico e organizado, mudou tudo e do dia para a noite transformou a Calábria em um único centro de poder, governado por um homem sem rosto que já existia. Nunca conseguimos chegar perto o suficiente para saber mais detalhes dele. Sei que nossa última missão foi há menos de duas semanas e todos estão exaustos, mas a própria CIA junto ao FBI entregaram este caso para nós. - Ele mostra alguns dos negócios obscuros deles e variam demais. - Os EUA ficaram preocupados com o crescimento alarmante no radar de todas as agências e eles são bons, porque ninguém foi pego e não podemos acusar nenhum deles de nenhum crime. Os advogados fazem com que a operação seja revertida para eles e os diretos humanos sobressaem aos crimes.
- Está insinuando que esta máfia está sendo inteligente e jogando conosco? Sem uma prova concreta de quem seja o chefe nada podemos fazer?
Ele concorda balançando a cabeça.
- Sim, agente Devereaux. Infelizmente as leis estão "do lado deles", não há crime sem corpo, nem negócio obscuro sem provas. Todas estas imagens que temos jamais captaram os membros deles, usam mulas para se tornarem intocáveis. Por isso vamos fazer uma prisão elaborada coordenado ao MI16. - Ele sorri e mostra a foto do segundo negociador mais procurado pela Interpol, que até hoje não havia sido pego. - Este, senhores, é Lucca Giuseppe. Foi o único negociante de armas que conseguiu penetrar na fortaleza deles, mas não será fácil dobrá-lo. Ele sabe o que acontece com traidores e acreditamos que será morto na prisão e é aí que você entra agente. - Ele mostra a minha foto como Genevieve, procurada internacionalmente e a melhor negociadora de armas. - Seu "avô" conhece tudo deles, embora não saiba nada a identidade do chefe, irá te ensinar mais sobre a famiglia.
- Como o meu "avô" entrou nisso? - pergunto.
- Foi há mais de sete anos, eles estavam negociando armas e Lucca ganhou em relação a preços. Com ele fora do caminho, eles vão precisar de outro negociante de armas, então irá amanhã cedo para Calábria e se instalará em um clube. Estará de "férias", enquanto fazemos videoconferências para passar o passo a passo da missão. Em alguns dias, entrará em contato com ele e quando isso acontecer precisa fazer com que contrate seus serviços. Ele estará desesperado e você será indicada por um membro da máfia que está nos ajudando em troca de proteção para sua família.
É quase impossível alguém da máfia trair seu código.
- Esse vai indicar você para Giovanni. Ele não sabe que você é uma agente nem que colabora conosco. Apenas que vigiamos todos os negociadores e estamos próximos de prender os clientes, depois ele forjará a própria morte em uma emboscada, será enviado a um novo país com novas identidades em segurança. Nesse meio tempo irá fornecer tudo que precisamos para nos infiltrar na máfia.
- Ele não vai mudar de lado de novo? - um dos agentes novatos pergunta, e é uma dúvida razoável.
- Não, ele tem muito mais a perder se contar sobre a nossa aliança ao Giovanni, acreditamos que ele vai fechar com você não apenas porque é a melhor no ramo, mas porque primeiro ele gosta de mulheres com seu perfil e isso pode ser um ponto favorável a nós; segundo nenhum outro fornecedor conseguirá atender a demanda no prazo, apenas você tem contatos com agentes disfarçados.
Se ele pensa que eu vou dormir com um alvo está enganado.
- Não irei para cama com ele, quando aceitei esse cargo fui bem taxativa quanto a esse pequeno detalhe.
Ele sorri como se imaginasse que em dado momento poderia reivindicar esta pequena regra que me impus.
- Você poderá ser um interesse romântico, mas não precisa se envolver com ele, apenas um jogo de sedução bem intenso para ganhar a confiança e se tornar um deles. Se conseguir entrar no quartel general com um pequeno dispositivo podemos hackeá-los.
Parece fácil demais para ser verdade.
- Jogar é arriscado, e fazê-lo pensar que pode ter o que nunca terá é suicídio, você sabe, mas farei o que for necessário para que o peguem, mas tudo tem limites.
Ele sabe que jamais dormirei com um alvo, pois poderá comprometer meu disfarce.
- É claro, acreditamos que desta vez por ser uma máfia poderá ser algo lento. E se estender por no máximo seis meses, nesse meio tempo teremos alvos menores que nos ajudarão a pegar o cabeça. Mas o foco principal é ele, Kathleen. No momento em que se encontrarem estará por conta e sem comunicação direta. O suporte será apenas em necessidades estremas. - Aponta para uma velha conhecida, ela trabalha comigo em algumas missões e é minha irmã de coração. - A agente Chloé, será a ponte entre nós e o seu Ás na manga, mas deverá esperar duas há três semanas para trazê-la a organização, não queremos que comprometa seu disfarce. Depois um dos nossos entregará um pequeno dispositivo para ser colocado no sistema deles. Nossa analista adentrará na organização hackeando a segurança e todos os dispositivos tecnológicos que estão em um raio de cinquenta metros, somente conseguindo as informações pertinentes a primeira fase será concluída. - Ele faz uma longa pausa. - A segunda fase será de dois a três meses, juntando provas para colocá-los o resto da vida na prisão, então, agentes, estudem bem o caso porque vocês irão ser o suporte, os olhos e ouvidos da missão. E agente, Kathleen, seus homens estão na mansão em Paris, de lá você irá com eles a todos os lugares.
- Sim, senhor.
Contrataram os homens do meu "avô" para continuarem os negócios, embora deva ser de fachada são realistas para que continuássemos com as aparências.
- Veja da seguinte forma, agente, poderá curtir as férias que perdeu. Até breve, agente Devereaux.
Eu me levanto, pego minhas coisas e vou para o apartamento depois trocaria de roupa e como uma mala já está pronta irei voar direto para o Egito. Será uma forma de reiniciar os negócios até estarem prontos para me infiltrar, o plano só está começando."
Viajei para algumas reuniões para retomar minha outra vida, somente após eles darem o aval pude viajar para Pizzo e durante semanas o sottocapo. Como é chamado, foi vigiado para que nada fosse perdido, mas não havia como chegar tão perto para pôr escutas. Saber tudo dele era crucial para investigação e para isso precisava estar dentro da organização. Descobrimos tudo da vida dele após a perda da família. Mas sua vida antes do casamento era uma página em branco, nada se sabe sobre ele, era como se ele fosse um fantasma ou nunca tivesse existido.
E mesmo que de fato seja justificável seu ódio com quem tirou seu bem mais precioso, não explica o fato dele ter virado um homem tão devoto na causa. Tanto que ele virou em alguns dias o homem mais importante de toda a máfia.
Estava andando na areia da bela praia, ouvindo horas de gravação de algumas conversas que o informante havia passado para nós. Mesmo que fosse útil e houvesse detalhes importantes, não podíamos agir no impulso, devemos seguir o plano e eu nem estava dentro ainda.
Eu me instalei no resort e fiz tudo que podia para parecer que estava de férias.
O lugar é lindo demais, calmo e exuberante.
Olhares lascivos são dirigidos a mim, mas com a vida que levo é impossível ter um relacionamento sério e saudável. Eu só tenho que relaxar e esperá-lo me procurar. Algo que poderá demorar algumas horas ou até semanas, mas nenhum concorrente é tão bom como eu, afinal ter várias agências ajudando a aumentar a minha eficiência e ego ajuda nos negócios obscuros.
Caminho até as cadeiras de praias azuis e um dos funcionários do club abre o guarda sol para mim, devo mostrar a todos que estou de férias e não esperando um convite para participar da máfia.
Estou fazendo tudo que uma mulher de férias faria.
Há cinco homens rondando o perímetro, eles não sabem que eu não sou neta de verdade de Santiago, muito menos que sou agente.
Ele convenceu todos seus homens que eu era a sua única herdeira e ele faria de mim a continuação do seu legado.
Dois homens ficam no perímetro do hotel buscando novas ameaças, não é só porque sou uma negociadora de armas que não tenho inimigos declarados.
Sempre confie desconfiando, um lema incomum embora eficaz.
Nunca creia que está tudo bem ou que está sob controle total de suas mãos. Infelizmente tudo pode dar errado e seu disfarce pode te expor como agente, por isso em certas circunstâncias é melhor a morte do que a prisão. Em outras ser capturado ajuda a capturar seus alvos, precisa apenas discernir o que é cabível em cada opção. No meu caso a morte será meu menor problema se toda a operação for comprometida. Por isso, estamos com a cautela redobrada, contato somente se for necessário, extração apenas em último caso e se não houver mais nenhuma possibilidade de êxito.
É fácil ser um agente, mas fica mais difícil quando infiltração é sua habilidade. Você precisa usar de todas as suas armas para obter um bom resultado, mas há uma regra básica, nunca ser pega e nunca se apaixonar pelo inimigo.
Até hoje nunca quebrei nenhuma delas.