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O príncipe da honra e a virgem

O príncipe da honra e a virgem

Autor:: renata medeirosM
Gênero: Romance
É cansativo não poder confiar em ninguém. É cansativo tratar cada aliado político como um inimigo em potencial, porque lealdade é um conceito há muito esquecido e a palavra de alguém não vale mais nada. Acordos assinados não valem mais nada, muito menos a suposta honra de um governante. Meus irmãos sempre me chamaram de paranoico quanto a isso. A atividade preferida de Stephen é pegar no meu pé com meu excesso de zelo e desconfiança constantes. Richard, o mais velho e rei de Delway, entende minha preocupação, já que, de nós três, é o que mais lida com politicagem, mas até mesmo ele teve certeza de que eu estava exagerando algumas vezes. Adivinha só? Eu não estava. Os filhos da puta que apareceram quando estávamos mais vulneráveis, jurando aliança e apoio, agora estão prontos para fazer demandas. É claro que estão. Nada vem de graça quando o assunto é poder. - De novo! - grito, mãos atrás das costas, olhos ferozes e atentos sobre os soldados que repetem a sequência de golpes na aula de artes marciais. Ninguém se atreve a reclamar de cansaço, mesmo que eu saiba que estou exigindo muito mais deles hoje do que o normal. É o que acontece quando estou puto. Não demoro a perceber que apenas assistir ao treinamento não vai ajudar a acalmar minha agitação. Mantenho os olhos atentos sobre eles enquanto enrosco ataduras nos nós dos dedos, sabendo que estão nervosos com a minha presença nem tão rotineira assim. Nervosismo esse que aumenta quando percebem que estou entrando no tatame também. - Não precisam parar - aviso, transitando entre as pessoas que depositam aqui cada gota de energia que têm para oferecer. Conserto algumas posturas, corrijo golpes feitos errados, dou mais meia dúzia de instruções. Quando a minha proximidade deixa de ser um problema e todo mundo está concentrado de novo no que deve fazer, começo a treinar também. Não demora para alguns soldados se animarem com a perspectiva rara de treinar comigo, e é um ótimo lembrete de que é aqui que me sinto em casa.

Capítulo 1 O príncipe da honra e a virgem

capítulo um

É cansativo não poder confiar em ninguém.

É cansativo tratar cada aliado político como um inimigo em

potencial, porque lealdade é um conceito há muito esquecido e a palavra

de alguém não vale mais nada. Acordos assinados não valem mais nada,

muito menos a suposta honra de um governante.

Meus irmãos sempre me chamaram de paranoico quanto a isso. A

atividade preferida de Stephen é pegar no meu pé com meu excesso de

zelo e desconfiança constantes. Richard, o mais velho e rei de Delway,

entende minha preocupação, já que, de nós três, é o que mais lida com

politicagem, mas até mesmo ele teve certeza de que eu estava

exagerando algumas vezes.

Adivinha só? Eu não estava.

Os filhos da puta que apareceram quando estávamos mais

vulneráveis, jurando aliança e apoio, agora estão prontos para fazer

demandas. É claro que estão. Nada vem de graça quando o assunto é

poder.

- De novo! - grito, mãos atrás das costas, olhos ferozes e

atentos sobre os soldados que repetem a sequência de golpes na aula

de artes marciais.

Ninguém se atreve a reclamar de cansaço, mesmo que eu saiba

que estou exigindo muito mais deles hoje do que o normal. É o que

acontece quando estou puto. Não demoro a perceber que apenas assistir

ao treinamento não vai ajudar a acalmar minha agitação. Mantenho os

olhos atentos sobre eles enquanto enrosco ataduras nos nós dos dedos,

sabendo que estão nervosos com a minha presença nem tão rotineira

assim.

Nervosismo esse que aumenta quando percebem que estou

entrando no tatame também.

- Não precisam parar - aviso, transitando entre as pessoas que

depositam aqui cada gota de energia que têm para oferecer.

Conserto algumas posturas, corrijo golpes feitos errados, dou mais

meia dúzia de instruções. Quando a minha proximidade deixa de ser um

problema e todo mundo está concentrado de novo no que deve fazer,

começo a treinar também. Não demora para alguns soldados se

animarem com a perspectiva rara de treinar comigo, e é um ótimo

lembrete de que é aqui que me sinto em casa.

Muito do meu trabalho é burocrático agora, cuido de estratégias

militares, coordeno equipes. Gosto da possibilidade de manter olhos

atentos sobre a minha família e garantir que estão bem, mas sinto falta

de estar aqui com mais frequência. Suado, com a pele quente, a

ansiedade e preocupações diminuindo conforme meus batimentos

cardíacos aumentam.

Desvio de alguns socos, esquivo de chutes precisos, mas,

eventualmente, um me acerta. A dor irradia pela minha mandíbula onde

Brian me acertou, e estou sorrindo quando volto a olhar para ele. Meu

segundo em comando sorri também, uma expressão provocativa no rosto

ao indicar com as mãos para que eu pare de enrolar.

A luta se torna entretenimento para os outros soldados, que deixam

seus próprios treinamentos de lado e passam a nos assistir com

entusiasmo. Brian desvia da maior parte dos golpes que desfiro, quase

me acerta alguns outros, mas, no fim, no resultado é o previsto e ele

termina com as costas no tatame, o peito subindo e descendo em uma

respiração ofegante depois que o derrubo com um gemido doloroso.

- Estão liberados - instruo para os demais enquanto estico a

mão para ajudar Brian a se levantar.

Ele aperta meu ombro e solta uma risada baixa quando está de pé.

- Eles vão falar disso a semana toda, você sabe - diz divertido,

afastando-se de mim em busca de água.

Arranco a camiseta suada pela cabeça e livro-me das ataduras das

mãos.

- Da próxima vez, não cai com tanta facilidade e isso não vai ser

um problema.

Brian me mostra o dedo do meio, balançando a cabeça. Sem se

virar para mim, mexendo em alguma coisa dentro da sua mochila, ele

pergunta:

- Você vai me dizer qual o problema agora?

Encaro suas costas, considerando o que dizer. Sua postura é firme,

rígida como a minha. A pele escura está coberta de suor, os ombros

estão tensos. Brian trabalha comigo há tempo o suficiente para saber que

alguma coisa não está certa. Não consigo explicar uma situação que

ainda não compreendo. Estou em um campo minado, tomando cuidado

com meus passos.

- Ainda não sei - ofereço por fim. - Richard e eu vamos nos

encontrar com o rei de Devondale em algumas horas.

Isso chama a sua atenção. Brian me olha por cima do ombro,

erguendo uma sobrancelha.

- O rei em pessoa? - pergunta devagar. Limito-me a erguer as

sobrancelhas em uma concordância contrariada. - O que esse filho da

puta quer?

Rio pelo nariz, jogando os olhos ao teto.

- É exatamente isso que quero descobrir.

Brian estreita os olhos e não precisa dizer nada. Estamos na

mesma página quanto a Elijah Denver: ele não confia no homem, eu

confio menos ainda.

Meus irmãos fizeram um ótimo trabalho em transgredir todas as

regras e tradições nos últimos anos. Stephen cumpriu o acordo político

feito por nossos pais e se casou com Louise, é verdade, mas nos colocou

em uma situação delicada com suas transgressões depois disso. E

Richard... O maior defensor das tradições seculares da nossa família

chocou a todos nós quando recusou o seu próprio casamento político e

fez de uma plebeia a rainha de Delway. Heather arrebatou seu coração

de tal forma que o rígido rei foi contra tudo o que acreditava até então,

por ela.

Louise e Heather trouxeram luz para a vida dos meus irmãos, e eu

mataria pela felicidade deles. Do mesmo jeito que eu faria qualquer coisa

para proteger minhas cunhadas e sobrinhos. Mas não vou negar que

ambos os casamentos trouxeram tensão política para o país. Stephen

ultrapassou alguns limites que os mais conservadores acharam

inaceitáveis, e Richard cementou o rebuliço ao trazer Heather para o

trono.

Foi quando sua competência como regente começou a ser

questionada. Muitos antigos aliados questionaram como poderiam confiar

em um governante que não seguia as regras do próprio país. O mais frio

e prático dos homens foi chamado de fraco e passional em mídia

internacional. E um governante fraco representa um país fraco. Um país

fraco se torna vulnerável.

É o meu trabalho impedir que isso aconteça.

Não demorou para que outros líderes mundiais emitissem suas

opiniões sobre o assunto - a favor ou contra, todos tiveram algo a dizer.

A balança pendeu para o nosso lado, no fim, quando a maioria dos

nossos parceiros comerciais decidiu que não podiam se importar menos

com o relacionamento de Richard desde que pudessem continuar tendo

todas as vantagens que alianças conosco proporcionam.

É aí que Elijah Denver entra.

O rei de Devondale nunca foi minha pessoa preferida, mas Richard

não quis quebrar mais essa tradição. São poucas as monarquias

restantes, e meu irmão segue à risca o código moral de apoio mútuo.

Então, aceitou a aliança oferecida. Aceitou o anúncio público de apoio

militar, de vantagens comerciais; aceitou os aliados que vieram a tiracolo.

E agora Denver quer alguma coisa em retorno.

O que, eu ainda não sei. Mas vou descobrir em breve.

Richard está nervoso. Meu irmão tenta disfarçar, mas as rugas que

se formam em sua testa não abrem espaço para dúvida. De pé ao seu

lado com os braços cruzados, assisto enquanto tamborila os dedos na

mesa, confere a hora no relógio de pulso, se remexe na cadeira. Elijah

está atrasado, e duvido que seja acidental.

Quando o homem finalmente chega, acompanhado dos seus

próprios guardas, tem um sorriso grande no rosto, como se estivesse se

encontrando com um grande amigo.

- Richard! - diz, abrindo os braços para um abraço que não vai

receber. Não acho que estivesse esperando um, de qualquer forma,

porque logo se senta na cadeira no lado oposto à mesa, cruzando os

dedos sobre o colo. - Theodore - estende o cumprimento a mim com

um aceno de cabeça.

Percorro o olhar pelo seu rosto, tentando desvendar o que ele quer

na expressão despreocupada. As rugas da idade começam a aparecer

pela pele escura, os olhos experientes podem até estar recobertos de

tranquilidade, mas não escondem o brilho malicioso.

- Fez boa viagem? - Richard pergunta assim que o homem

parece confortável no lugar.

- Ótima, Majestade - responde, levando a mão ao peito em uma

reverência que parece irônica demais e me faz estreitar os olhos. - Sei

que você é um homem muito ocupado, então irei direto ao assunto.

Richard assente, cruzando os dedos sobre a mesa, e espera.

- Como sabe, Devondale prestou apoio em um momento difícil,e

é de meu interesse que esse continue sendo o caso. Seria uma pena

terminarmos em lados opostos - começa, e arrumo a postura, jogando

os ombros para trás, tenso. Não gosto de onde isso está indo, da

ameaça velada na frase simples.

- E o que faria com que a situação mudasse, Denver? - meu

irmão pergunta, a voz seca indicando que também pescou o que ele quis

insinuar nas entrelinhas.

- Tudo o que peço é reciprocidade - responde. - Apesar de

estarem com a reputação balançada pelos últimos eventos, sua família

tem um histórico impecável, seu país é próspero. É de meu interesse que

essa aliança se amplie.

Seus olhos vêm até mim, e um arrepio me corta a coluna. Sei para

onde essa conversa está se encaminhando.

- Se o que você está pedindo são mais vantagens comerciais, nós

podemos...

- Estou pensando em uma aliança permanente - Elijah

interrompe meu irmão, o olhar ainda sobre mim.

Trinco os dentes, respiro fundo.

- Casamento - ofereço, cuspindo a palavra como uma praga.

O sorriso do velho aumenta, e ele anui.

- Se não estou enganado, Theodore está prestes a fazer trinta

anos e sei que não vai demorar muito para que seja a vez dele de

encontrar uma esposa. Gostaria que fosse Madelaine a ocupar esse

cargo - diz de uma vez, encerrando os rodeios.

Solto uma risada seca, a atenção presa a Elijah. Não preciso olhar

para Richard para que sinta o olhar dele sobre mim. Meu irmão não diz

nada pelo que parece uma eternidade, mas sei que não é. É possível que

apenas alguns segundos tenham se passado, mas é tempo o suficiente

para que eu construa todos os cenários possíveis em minha mente. Não

gosto de nenhum deles.

Quando finalmente fala alguma coisa, seu tom é profissional e

político.

- Madelaine Denver é a sua filha mais velha, a primeira na linha

do trono - Richard diz, a pergunta embutida no tom. Vasculho a

memória em busca de imagens da mulher em questão. Não encontro.

Tenho os nomes decorados, os títulos, o histórico, mas raramente perco

tempo decorando rostos. - Você está pedindo que eu entregue meu

general para se tornar príncipe consorte de outro país.

Elijah estala a língua, movendo a mão em um gesto impaciente e

irritadiço.

- Por favor, não. Madelaine não vai assumir o trono, nunca foi uma

possibilidade. - Elijah ameniza suas feições, deixando crescer no rosto

uma expressão amorosa ao falar da filha, que não tenho certeza de que

é verdadeira. - Tudo o que quero é uma vida segura e confortável para

ela. O que sei que ela terá aqui.

Outro momento de silêncio tenso cresce pela sala. Denver alterna o

olhar entre meu irmão e eu e, seja lá o que vê nos nossos rostos

impassíveis, é o suficiente para que dê o assunto por encerrado.

- Vou deixar que pensem no assunto. Não é realmente um grande

feito, se formos honestos. Theodore está fadado a um casamento por

conveniência de qualquer forma, não estou sugerindo nada que não

fosse ser feito em algum momento - declara, levantando-se da cadeira.

Coloca de novo aquele sorriso falso nos lábios, a mão indo ao peito. -

As portas da minha casa estão abertas quando tomarem uma decisão.

Richard apenas acena em despedida e espera que o homem saia

do escritório, acompanhado dos seus guardas, para que respire de novo.

Um palavrão escapa da boca do meu irmão assim que a porta se fecha,

deixando-nos sozinhos aqui.

- Não era isso que eu estava esperando - diz baixo, esfregando

o rosto. - Por que eu tive a impressão de que não é uma sugestão que

pode ser negada?

- Porque não pode - respondo, recostando na parede. - Não

pacificamente.

- Filho da puta - Richard murmura, largando o peso do corpo nas

costas da cadeira. - Não confio nele. Não confio de colocar alguém da

sua família dentro da nossa casa.

Assinto em concordância, os lábios pressionados em uma linha

reta.

A porta se abre em súbito de novo, e dessa vez é Stephen que

entra. Com o sorriso arteiro de sempre, os cabelos castanho-claros

caindo pela testa, ele traz uma lufada de leveza ao cômodo apenas por

se aproximar.

- O que ele queria? - pergunta, jogando-se na cadeira em que

Elijah estava.

- Theodore - Richard responde.

- Como assim o Theo? - Stephen pergunta, olhando de mim

para Richard.

- Você não precisa aceitar - Richard diz para mim ao invés de

responder Stephen, e isso é o suficiente para chamar minha atenção.

Olho para ele, as sobrancelhas franzidas.

Na minha frente, não é o meu rei falando, é o meu irmão.

Reconheço a mudança sutil no seu rosto, a preocupação no olhar. É um

cuidado fraternal, um que não é lógico nem racional. O rei sabe que

preciso, sim, aceitar. Meu irmão me oferece a chance de fuga.

Por mais que eu adore poder encher a boca para dizer que avisei,

essa não é uma situação em que estou feliz por estar certo. Meus

homens estão prontos, se for preciso. Meu exército é bem treinado, e eu

nunca fugi de uma boa briga, mas o que está em risco agora é muito

mais do que apenas uma aliança política.

- Eu preciso.

É da felicidade dos meus irmãos que estamos falando. A

tranquilidade dos seus casamentos. Posso oferecer paz de espírito a

eles. Tirar dos seus ombros o peso e a culpa pelas consequências que

vieram por seguirem seus corações, por buscarem sua felicidade pessoal

acima da obrigação. E por eles, eu faço qualquer coisa.

Até ir para a cama com o inimigo.

capítulo dois

Faz dois dias que cheguei em Devondale, depois de uma longa

discussão com Richard sobre o que faríamosagora. Como se houvesse

escolha. Não anunciei minha presença, não aceitei o convite do rei de me

juntar a eles. Vim conhecer o país, apenas, mas não me iludo achando

que Elijah não sabe da minha presença. Não duvido que esteja

mantendo o olho em mim. É o que eu faria em seu lugar.

Não precisei de mais do que algumas horas após sair do aeroporto

para reconhecer o estado deplorável que Elijah deixou seu país chegar.

Devondale está caindo aos pedaços. Há um círculo de riqueza ao

redor do castelo e nada mais. O restante do país está pagando um preço

alto pelos luxos da famíliareal. Não é falta de dinheiro, eles não estão à

beira da falência. Só fica claro para quem quiser ver onde suas

prioridades estão - e elas residem da porta do castelo para dentro.

Como se eu precisasse de mais motivos para detestar o homem.

Estou ainda menos surpreso agora com a oferta de casamento. Se

a forma como governa o país reflete a forma como criou seus filhos,

Elijah colocou no mundo pessoas mimadas, egoístas e desonestas. É

claro que Madelaine está ansiosa para renunciar ao trono; para que se

dar ao trabalho de ao menos fingir que está disposta a governar um país

quando pode apenas continuar se banhando em ouro enquanto o resto

da população sofre?

Minha irritação aumenta por saber que seus confortos agora virão

do dinheiro de Delway.

Não vou ser hipócrita e fingir que não aproveito dos meus

privilégios e regalias, mas Delway tem um bom governo. Tem um rei

dedicado, um príncipe que se preocupa com o bem-estar dos mais

vulneráveis e um general dedicado. Richard, Stephen e eu, cada um ao

seu modo, cuidamos do nosso país.

Ao contrário da família que agora será unida a mim por casamento.

Esfrego o rosto, soltando um palavrão. Arranco a jaqueta e a jogo

sobre a cama do hotel, estalo o pescoço e respiro fundo a caminho do

banheiro. Apoio as mãos na pia, encarando-me no espelho. Meu cabelo

está um pouco maior nos últimos meses em que não tenho mantido o

corte militar perfeitamente alinhado e começa a cair pela minha testa.

Uma barba curta cobre meu rosto, e sei que minha aparência um pouco

desordenada é reflexo de como estou me sentindo por dentro agora. Ao

invés de resolver isso, decido me aproveitar da mudança de aparência

por um tempo.

Capítulo 2 O príncipe da honra e a virgem

Arranco a camiseta e jogo-a no chão, preparando-me para o banho.

Meu olhar cai para uma das muitas tatuagens que carrego pelo tronco, e

trinco os dentes ao ver as inscrições em persa que significam honra. Não

desvio meus olhos ao puxar o celular do bolso e discar o número de

Richard, mas o faço quando ele atende, encarando o teto ao invés.

- E então? - meu irmão pergunta do outro lado da linha,

apressado. Ouço uma conversa ao fundo, que diminui após alguns

instantes quando se afasta dos demais.

Digo para ele o que aprendi nos últimos dias, nada que fosse

inédito para nós dois, mas que é pior do que antecipei.

- Vou me encontrar com Elijah amanhã - digo quando termino o

relato conciso.

- Tem certeza disso? - questiona, a insatisfação palpável na voz.

- Tenho - garanto. - Vou aproveitar a noite hoje para repassar

algumas informações. Recebi o dossiê que pedi ao nosso detetive que

preparasse sobre Madelaine, ainda não tive tempo de abrir a pasta e...

- Você vaitirar a noitede folga - Richard interrompe. Solto uma

risada seca com a sugestão absurda em um momento crítico. - Seu rei

está te dando uma ordem, general - completa, prevendo meu protesto.

- Meu rei é um pau no cu - respondo, esfregando o rosto. A

resposta malcriada arranca uma risada dele, a primeira que ouço desde

que o problema começou, e é fácil me lembrar que é isso que estou

tentando garantir.

- Vou contatarElijah e programara reunião de vocês dois.

Confirmamosos detalhesde tudo quando acordar, mas, por hoje,você e

seus homens vão se divertir um pouco.

- Sim, senhor - respondo com ironia e posso visualizar Richard

revirando os olhos.

Despeço-me, mas, antes que desligue, ouço sua voz de novo.

- Você vai ficar bem?

- Já sobrevivi a guerras, irmão. Acho que consigo sobreviver a um

casamento indesejado.

Nego o copo de bebida que é estendido na minha direção. Estou

de folga, é verdade, mas a última coisa que preciso é estar de ressaca

pela manhã quando me encontrar com o rei. O bar do hotel não está

cheio - a combinação de ser dia de semana com o fato de o

estabelecimento ser conhecido por ser um lugar discreto ideal para

figuras públicas permite isso. Não tenho qualquer interesse em ficar aqui

por muito tempo, mas vim porque sei que meus homens precisam disso.

Deus sabe que eles precisam de um descanso depois dos últimos

meses.

- O senhor tem certeza de que não quer vir com a gente? - um

deles pergunta. Por cima do seu ombro, vejo os outros quatro

conversando animados como garotinhos sobre a boate para onde

querem ir, pela primeira vez em muito tempo.

- Não a menos que eu tenha uma arma apontada para a minha

cabeça - respondo. - Divirtam-se. Estejam prontos para sair às oito

amanhã.

Ele assente e se despede, depois de conferir muitas vezes que é

uma boa ideia me deixar sozinho.

- O que você tem contra diversão?

Sentado em uma cadeira alta do bar, os antebraços apoiados sobre

o balcão, viro o rosto em direção à voz feminina que vem de algum ponto

à minha esquerda. Encontro uma mulher sentada ao meu lado, a

algumas banquetas de distância, uma taça de vinho pela metade e olhos

travessos na minha direção.

- Nada. Só tenho um conceito diferente de diversão - respondo,

tomando alguns segundos para analisá-la com atenção quando ri.

O vestido curto deixa à mostra sua perna quase inteira, em um rosa

delicado contra a pele preta. Um colar cai pelo seu colo, indicando o

caminho pelo decote. O cabelo cai em ondas pelos ombros, um sorriso

malicioso contorna os lábios quando minha inspeção finalmente alcança

seu rosto.

- E você é...? - pergunto. Um brilho de diversão cruza as íris

escuras diante da pergunta. Suas feições são familiares, mas não

consigo associar um nome ao rosto. Não é de se estranhar; é provável

que todas as pessoas hospedadas nesse hotel sejam conhecidas por

alguma coisa. Talvez seja alguma atriz ou modelo de quem

definitivamente não vou me lembrar.

Sem pressa, ela apanha a taça sobre o balcão e a leva à boca.

Demora alguns segundos antes de dar um gole minúsculo. Acompanho

com interesse o movimento da língua pescando uma gota no lábio

inferior.

- Isso importa? - responde por fim, apoiando a taça no balcão

antes de se voltar a mim de novo.

- Nem um pouco.

Ela sorri, levantando-se da banqueta. Alisa o vestido devagar,

concedendo-me a visão do seu corpo por completo. Tomba a cabeça

para o lado, piscando devagar. Enrosca os dedos ao redor da alça da

bolsa pendurada nas costas da cadeira. Tira os olhos de mim apenas

para mexer no celular. Ela franze o nariz, insatisfeita com o que quer que

veja na tela.

- Sentiram minha falta - diz com um suspiro, guardando o

aparelho de novo na bolsa. - Tenho alguns minutos.

- E o que você quer fazer nesses minutos? - pergunto,

desligando a voz que pergunta quem sentiu sua falta e o que vai

acontecer depois desses minutos. Estou de folga. A última para sempre,

já que amanhã serei um homem prometido a alguém.

Ela abre um sorriso de puro deleite e tomba a cabeça para o lado.

- Por que você não me mostra o seu conceito de diversão?

Solto uma risada, balançando a cabeça.

Quem é essa mulher? Sei que não vou ter a resposta para essa

pergunta quando ela vira as costas para mim, andando em direção à

saída do bar. Repreendendo-me pelo comportamento errático que não é

do meu feito, eu a sigo. Espero encontrá-la perto dos elevadores e me

surpreendo ao vê-la seguir em direção às escadas da saída de

emergência. Com a mão na porta, ela me olha por cima do ombro. Ergo

as sobrancelhas em uma pergunta silenciosa, e a mulher revira os olhos.

- Está louco se acha que vou me trancar em um quarto com um

homem desconhecido - diz, condescendente.

- Certo - concordo, estreitando os olhos para o tom que diz que

me acha um idiota por precisar de explicação para isso. - E como aí é

mais seguro?

Ela dá de ombros.

- Posso sempre te empurrar escada abaixo - explica,

empurrando a porta e entrando no lugar escondido.

Sorrio, surpreso e entretido. Sigo-a sem mais perguntas, sem dizer

que ameaças aos príncipes de Delway não costumam ser lidadas com

essa leveza toda. Abraço a anonimidade oferecida e fecho a porta atrás

de nós dois. Longe do luxo ostensivo do hotel, estamos cercados de

degraus de cimento e luzes fracas. Ela solta a bolsa no chão e apoia as

costas na parede. No rosto, um convite. Um que aceito com prazer.

Cubro seu corpo com o meu, apoiando uma mão na sua cintura e a

outra na parede ao seu lado. Minha boca paira sobre a sua, sua

respiração quente contra o meu rosto, os lábios entreabertos roçando na

minha pele. Escorrego a mão pela lateral do seu corpo, sinto seu sorriso

quando enfio a mão por baixo do tecido do vestido.

Hesito, confuso pela situação tão fora do meu normal. Tão fora do

meu controle. Então ela suga meu lábio inferior, eu aperto sua coxa

quente e meu juízo tira folga por alguns minutos.

Engulo o gemido de surpresa quando tomo sua boca. Sinto as

unhas na minha pele, dolorosas em meu pescoço quando puxa meu

rosto para mais perto do seu. Não sei o que ela está buscando de um

desconhecido, mas procura com afinco na minha boca. Agradeço por não

ter raspado o cabelo de novo quando os dedos afoitos buscam pelos fios.

Imito seus gestos, entregando a ela o que tenta tomar de mim, minha

mão puxando seu cabelo, conduzindo o beijo no ritmo que ela dita.

Prenso-a contra o cimento, puxo sua coxa para cima e encaixo-me

entre suas pernas. Sorrio satisfeito na sua boca quando ofega no mesmo

instante em que me esfrego contra ela. Repito o movimento, recebendo a

mesma reação.

Solto sua boca para descer ao seu pescoço, sugando a pele macia.

Subo os dedos pela parte de dentro da sua coxa e estou a centímetros

da sua calcinha quando o toque estridente do seu celular me para.

Ela solta um palavrão e escorrega as mãos pelos meus ombros.

Solto-a devagar, apoiando seu pé de novo no chão, mas volto a boca à

sua garganta depois que pega o celular de dentro da bolsa jogada ao

chão.

- Pois não? - diz para quem quer que esteja do outro lado da

linha em uma voz doce que não parece pertencer a ela. Ela suspira e me

aperta por cima da camiseta, eu subo a mão pela frente do vestido em

direção aos seus seios. Aperto um, subo a boca pelo seu queixo. Encaro

os olhos escuros nublados e desejosos. - Tudo bem, me dê um

instante, chego em alguns minutos.

Com um suspiro frustrado, encerra a ligação. Morde o lábio, as íris

dançando pelo meu rosto.

- Preciso ir - diz contrariada.

- Uma pena - sussurro em resposta, roubando um último beijo

antes de soltá-la.

Descolo meu corpo do seu, sentindo a frente da calça apertada e

dolorida. Recosto-me na parede onde ela estava, braços cruzados na

frente do peito enquanto a assisto arrumar o cabelo e limpar o batom

borrado. Pendura a bolsa no ombro e vai até a porta. Para com a mão no

puxador e me olha por cima do ombro.

- Você não me disse seu nome - diz. Distraio-me da pergunta,

encarando os lábios inchados que sei que vão atormentar meus sonhos

essa noite por todas as promessas não cumpridas.

- Isso importa? - devolvo a provocação, arrancando um sorriso

dela.

É um sorriso lindo.

Ela meneia a cabeça, usa a mão livre para brincar com o colar.

Atrai meus olhos para os seios, deslizando os dedos pela borda do

decote. Respiro fundo, sentindo meu corpo esquentar ainda mais.

- Faz com que seja mais fácil te achar - responde por fim, e volto

minha atenção para o seu rosto.

Nego com a cabeça devagar, sabendo que essa não é uma

possibilidade.

Ela franze os lábios.

- Uma pena - diz também, e concordo em silêncio. - Boa noite,

estranho.

Ela não olha para trás de novo; abre a porta e sai, deixando-me

sozinho aqui.

Percorro os dedos pela minha boca, ainda sentindo seu gosto aqui.

Arrependo-me imediatamente por não ter insistido em descobrir quem ela

é.

capítulo três

Ajusto os óculos de proteção no rosto e aperto o botão

vermelho ao meu lado, que faz com que um novo alvo de papel seja

colocado na minha frente, a muitos metros de distância. Recarrego

a arma e tomo meu tempo mirando à frente antes de disparar.

Erro. De novo. Hoje o dia não está bom para mim.

O estande de tiro que existe em algum lugar dos muitos

hectares que formam o jardim do castelo não está cheio hoje,

porque escolho vir em horários em que sei que os soldados não

estão treinando. Não importa que eu venha aqui há anos, eles

nunca se acostumam com a minha presença. Há apenas meia dúzia

de pessoas aqui que sei que estão usando seu dia de folga para

fazer o mesmo que eu: descontar a raiva em um objeto inanimado.

Disparo mais alguns tiros, o suficiente para esvaziar a arma,

sentindo o impacto de cada um nos pequenos solavancos que meu

corpo dá. Com um suspiro frustrado, aceito que não vou conseguir

fazer progresso hoje.

Retiro todo o equipamento de proteção e sigo todos os

procedimentos de segurança ao travar a arma e devolvê-la ao lugar

certo. Mesmo contrariada, aceito a ajuda de um dos guardas que

sempre me seguem por todos os lugares e deixo que abra a porta

para que eu saia da área de treinamento, passe pela segurança e

siga para fora do centro de treinamento.

Sou recepcionada por um sol brilhante demais. Parece

deboche do universo, considerando o quão sombrio é o dia que me

aguarda.

Caminho sem pressa pelo jardim, em direção ao castelo.

Imponente ao longe. Opressor. Apenas para postergar ainda mais a

chegada ao meu destino, desvio o caminho pelo labirinto criado com

arbustos pelo time de paisagistas que cuida de tudo por aqui. Não

me perco por entre os corredores, já sabendo de cor onde preciso

virar a cada curva, conhecendo em detalhes esse lugar desde que

eu era criança.

- Já se perdeu? - pergunto alto, sorrindo ao não ver Liam

atrás de mim. Tenho certeza de que ele não está longe. Posso não o

ver, mas seus olhos sempre estão sobre mim. Fiz do meu guarda-

costas um dos meus melhores amigos e confidente, mas isso não o

impede de levar seu trabalho muito a sério. Então sei que a minha

implicância não vai obter resposta porque ele ainda está furioso pela

minha escapada na noite passada. - Vamos lá, Liam. Quanto

tempo você vai ficar sem falar comigo?

Assim que termino de atravessar o labirinto e estou de volta

ao jardim, ele aparece atrás de mim. O semblante ainda está

fechado, a postura estoica dentro do uniforme oficial.

Imito sua pose, que aprendi há muitos anos, quando ele se

rendeu aos meus apelos e concordou em me treinar. Minha postura

é tão boa quanto a de qualquer um dos nossos soldados, e isso o

faz deixar escapar um sorriso pequeno. Liam suspira e passa a mão

pelo rosto.

- Você podia ter me avisado, Maddy - diz contrariado.

Ergo as sobrancelhas.

- Você teria tentado me impedir - aponto. Ele revira os

olhos e bufa. Ofereço o meu braço, e ele balança a cabeça em

repreensão antes de aceitá-lo e prendê-lo ao seu, conduzindo-me

pelo caminho que estou evitando cortar.

- É claro que eu teria tentado te impedir - diz, lançando um

olhar julgador sobre mim. - É meu trabalho garantir que você

continue viva.

- Eu estou viva.

- Por sorte! Francamente, Madelaine.

A repreensão está de volta à sua voz, o vinco profundo entre

suas sobrancelhas pouco tem a ver com as rugas trazidas pelos

seus quarenta anos que se aproximam. É apenas preocupação

genuína. Solto-me do seu braço e me coloco de frente para ele.

- Eu prometo que não vai mais acontecer - garanto com

uma voz doce que não me pertence.

Ele finalmente ri.

Capítulo 3 O príncipe da honra e a virgem

- Você está prometendo se comportar desde que completou

dezoito anos, Alteza - responde no mesmo tom. Indica com os

olhos para que eu volte a me encaixar no seu braço e retoma a

caminhada. Liam me solta apenas quando alcançamos a porta, para

abri-la e indicar o caminho para mim. - Pronta para conhecer seu

noivo?

Solto uma risada seca e aponto para mim mesma.

- Acha que o principezinho enfadonho que meu pai

encontrou para mim vai gostar de me ver vestida assim?

Liam escaneia meu corpo com os olhos e faz uma careta. Sei

o que ele está vendo: a princesa mais descomposta da história

desse país. Calça jeans, camiseta, cachos cheios e armados.

- Não - ele responde por fim.

- Ótimo - decido. Afasto-me de Liam, seguindo em direção

ao escritório onde sei que meu pai está me esperando.

- Você deveria dar uma chance a ele, ao menos - Liam diz

atrás de mim, seguindo-me pelos corredores. - Nunca se sabe,

talvez seja alguém do seu agrado.

- Vindo de Elijah Denver? - pergunto, olhando-o por sobre o

ombro. - Posso apostar que ele fez questão de escolher o homem

mais entediante do planeta para mim.

Paro em frente à porta do escritório, lábios pressionados.

Envolvo a mão na maçaneta e estou pronta para girá-la quando

ouço vozes masculinas vindo de dentro do cômodo.

Travo no lugar.

Considero me trocar, por um instante. Esse casamento é do

meu interesse, afinal. Preciso que um desconhecido qualquer

coloque um anel no meu dedo antes que eu possa assumir o trono

que um dia vai ser meu. É um preço pequeno a se pagar para

conseguir o que mais quero, para que eu pare de ter que assistir

meu pai arrastar esse país às ruínas. Para que eu possa finalmente

governar.

Seja lá quem foi o homem que Elijah decidiu ser digno da

posição de príncipe consorte de Devondale, posso tolerá-lo. Alguns

herdeiros e sorrisos forçados, é tudo que preciso oferecer a ele.

É apenas o primeiro acordo político de muitos que farei no

decorrer da minha vida. Então por que estou tão nervosa? Por que

me sinto como se estivesse indo para o abate, e não como se

estivesse dando o primeiro passo para o futuro que almejo?

Alguma coisa está errada.

Foi esse mesmo sentimento que me fez fugir desse castelo

ontem, que me fez me vestir com o vestido mais escandaloso que

encontrei no meu armário, na esperança de que qualquer paparazzi

estivesse à espreita e me estampasse em todos os jornais hoje. Na

esperança de que uma noite errática com um completo

desconhecido nas escadas de emergência de um hotel fosse o

suficiente para sabotar esse casamento por conveniência com um

homem que sequer sei quem é.

- Você está tremendo. - A voz de Liam me tira do meu

estupor. Derrubo os olhos à minha mão e vejo o que ele enxergou

primeiro: dedos trêmulos.

- Eu sei - respondo, abrindo e fechando a mão na tentativa

de parar. Não funciona, então trabalho com o que tenho. Sem

permitir outro momento de hesitação, abro a porta.

Quando entro no cômodo, encontro meu pai sentado à mesa,

no lugar em que pouco o vejo e onde deveria estar na maior parte

do seu tempo. Seu olhar se estreita sobre mim, a repreensão

escorrendo pelas íris escuras quando vê como estou vestida. Àsua

frente, de costas para mim, há um homem sentado. Consigo ver

apenas o cabelo castanho daqui e fico onde estou.

- Madelaine - meu pai diz, meu nome saindo da sua boca

como uma maldição. Ele força um sorriso torto; quase posso sentir a

irritação emanando da sua pele. - Finalmente se juntou a nós.

Ele cruza os dedos sobre a mesa e volta sua atenção para o

homem que não se deu ao trabalho de olhar na minha direção.

- Theodore, permita-me apresentar sua noiva.

O homem se levanta, ainda de costas para mim. Toma seu

tempo, como se fosse uma decisão deliberada me evitar. Analiso

suas costas, as tatuagens coloridas pintando a pele clara,

escapando pela gola do uniforme muito parecido com o de Liam,

apenas em outras cores. Um príncipe militar? Isso vai ser um pouco

mais interessante. Um sorriso se forma nos meus lábios com a

perspectiva. Talvez Elijah não tenha me jogado no colo da pior

opção disponível.

O sorriso morre rápido. Dura poucos segundos, somente até

que ele se vire para mim. Empertigo-me, jogando os ombros para

trás, erguendo o queixo ao reconhecer o rosto que vi ontem à noite.

Sobrancelhas grossas emolduram um rosto muito bem

desenhado. Os olhos são azuis, do mesmo tom que vi antes, mas

agora não carregam a cor de um oceano tranquilo em um dia de

verão. O azul é gélido como uma noite fria e mortal de inverno, me

arrepia a espinha, promete caos em silêncio.

Seus olhos expandem-se no que parece surpresa, mas dura

tão pouco tempo que duvido ser o caso. Estreitam-se no instante

seguinte, dando espaço para um sorriso frio. Sua postura, até então

neutra, mostra uma rigidez austera, como se estivesse pronto para

uma batalha. E o alvo sou eu.

- Posso garantir que Madelaine tem mais modos do que isso

normalmente - meu pai diz, quebrando o silêncio sufocante que se

estende do meu noivo para mim. - Ela sabe se apresentar como a

princesa que é.

O homem - Theodore - ri, seco.

- Não tenho quaisquer dúvidas de que ela sabe se

apresentar muito bem.

A frase é ácida, insinuativa. Transborda acusação. A mesma

voz que, há poucas horas, estava quente e desejosa ao pé do meu

ouvido, agora não passa de um corte afiado. Não o ofereço uma

resposta. Desesperado para preencher meu silêncio, meu pai

oferece as apresentações.

- Madelaine é minha filha mais velha, como expliquei antes,

só dois anos mais nova do que você - diz, apontando para mim.

Estende a mão na direção dele e continua: - Theodore Thompson

é o filho mais novo da família real de Delway, general do exército.

Ele vai passar alguns dias conosco. Aproveitem para se conhecer

melhor. Podemos decidir a data do jantar de noivado mais tarde -

sugere no que parece mais uma ordem.

Theodore ergue uma sobrancelha e, tomando seu tempo,

deixa os olhos percorrerem meu corpo de cima a baixo. Sinto-me

exposta sob sua avaliação cirúrgica, mas é o olhar que me destina

ao encarar outra vez meu rosto que me faz estremecer.

Não há nada além de raiva ali.

- Eu não me preocuparia com isso - ele fala, desdenhoso.

- Já sei tudo o que precisava saber sobre ela.

Meus olhos queimam com lágrimas que me recuso a

derramar. É humilhação. O sentimento que corta meu corpo, que

embrulha meu estômago e machuca minha pele, é humilhação.

Como eu sou idiota.

Acreditei mesmo que ele não sabia quem eu era noite

passada? Que estava no lugar certo e na hora certa por acaso? Que

foi por interesse desapegado que me seguiu, que foi apenas

coincidência que fosse o tipo exato que chamaria minha atenção?

Theodore sabia quem eu era naquele bar. Não foi acidente,

nem um acaso infeliz que estivesse.

Mas por quê? O que ele poderia querer com isso?

Uma batida na porta me impede de perguntar. Olho por cima

do ombro a tempo de ver Liam abrindo-a, revelando outro guarda.

- Majestade, desculpe interromper. Temos um problema na

ala sul.

- Agora? - meu pai pergunta irritado. - Estou no meio de

algo importante.

Algo no rosto do homem mostra a urgência necessária para

que meu pai pragueje, mas se levante da cadeira.

- Perdoe-me pela interferência, volto logo - diz, dirigindo-se

a Theodore, porque sei que a mim não se daria ao trabalho de

justificar.

Não olho na sua direção, minha atenção ainda presa a

Theodore.

- Liam, pode nos dar um minuto, por favor? - peço assim

que meu pai sai. Ele hesita antes de obedecer, mas não demora

muito para que a porta se feche atrás de nós dois e estejamos

sozinhos aqui.

Umedeço os lábios, avaliando sua postura com atenção. Dou

poucos passos para trás, o suficiente para que eu recoste na porta,

usando-a como apoio. Cruzo os braços e espero. Não sei pelo que

estou esperando: se por uma explicação, por um ataque, por um

deboche. Mas espero. Quase um minuto inteiro se passa antes que

eu receba alguma coisa.

- Achei que falta de caráter dessa famíliase restringisse a

Elijah - diz, a voz rouca acusatória enquanto dá um passo firme na

minha direção. Não preciso conhecê-lo bem para saber que cada

traço seu externa uma irritação mal contida. - Qual é a verdade

aqui, Madelaine? Você é traiçoeira como ele ou apenas segue as

ordens do papai?

- Alteza - corrijo.

É a primeira vez que digo algo desde que cheguei aqui. Não

sei se o simples fato de eu ter respondido é o que o trava no lugar

ou se é a firmeza na minha voz que o pega desprevenido.

- A menos que não ensinem como respeitar hierarquia de

seja lá onde você vem, eu não deveria precisar lembrá-lo de se

referir a mim pelo meu título - completo.

- Madelaine... - ele quase rosna.

- Alteza - repito entredentes. - Se dê por satisfeito por eu

não exigir uma reverência, soldado.

Seus olhos pegam fogo. É com fogo que sei que estou

brincando aqui. Não conheço esse homem. Não sei nada dele.

Nada, além do fato de ter se colocado no meu caminho sabendo

quem eu era. Se esse casamento for para frente, é com ele que vou

precisar lidar ao meu lado no trono, e enquanto eu não descobrir

quais as suas intenções com aquele encontro de ontem, preciso

mantê-lo em rédea curta.

- Soldado? - pergunta e estala a língua.

Não respondo. Se sei alguma coisa sobre todos os generais

com quem tive contato, é que rebaixar sua patente é uma ótima

forma de atingir o ego frágil que o sexo masculino carrega.

Ou deveria ser assim, porque tudo o que ele faz é sorrir. Não

com o mesmo escárnio de antes, mas com uma incredulidade que

parece o divertir.

- Eu poderia me recusar a me dirigir a você a menos que

estivesse de joelhos - tento de novo, e dessa vez atinjo um nervo.

Ele respira fundo, joga os olhos para o teto e estampa um

sorriso impaciente no rosto.

- De joelhos? Para você? Nunca.

Theodore se aproxima um pouco mais, dando os passos que

precisa até me alcançar. Estamos de novo na mesma posição de

ontem, seu corpo pairando sobre o meu sem me tocar, a mão

apoiada na parede ao lado da minha cabeça. Travo os dentes

quando ele pousa a boca na minha orelha.

- Deixe-me ser claro, Alteza - diz, usando o pronome de

tratamento correto, e desejo que não o tivesse feito. O título sai

como um xingamento da sua boca, cuspido com desdém, diminuído

a uma pirraça. - Eu não sei o que você e seu pai estão planejando,

mas vou descobrir. E se você acha que tentar me seduzir...

- Te seduzir? - interrompo com uma risada involuntária pelo

ridículo que é sugerir isso.

Sua voz cai algumas oitavas, ainda mais grave quando volta a

falar.

- Preciso admitir que fizeram o dever de casa com afinco -

fala, o hálito quente correndo a minha pele.

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