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O quinto Elemento - Sopro

O quinto Elemento - Sopro

Autor:: E.J.L Spiekovski
Gênero: Romance
Anna é uma jovem de 16 anos que cresceu em uma numerosa família, porém sem a presença dos pais, sua mãe a abandonou no hospital logo após seu nascimento, ou pelo menos, foi o que lhe foi contado quando ainda era criança... Porém, nem tudo é verdade, ao ouvir uma conversa secreta dos avós ela descobre que sua mãe acabou falecendo, mesmo nunca tendo tido contato com ela, Anna se entristece, ao questionar sobre ela nota certa frieza e distanciamento dos avós, isso a deixa em alerta para pesquisar sobre o assunto, porém é novamente através de uma conversa secreta que ela acaba descobrindo não ser neta verdadeira deles, assim como sua mãe nunca pertenceu a aquela família, ela também não. Desesperada ela foge de casa e é em meio a essa fuga que acaba abrindo um portal para outro mundo, um mundo antigo, cheio de magia e com muitos segredos, um mundo onde bruxaria é comum e estranho é ser normal, um mundo onde ela é uma bruxa, uma princesa e também a herdeira de um trono amaldiçoado, um mundo onde existe Kaarl, um príncipe de tirar o fôlego por quem ela se apaixona instantaneamente, mas que carrega o fardo de ser filho da sua mais nova inimiga, a rainha Maiju do norte, criadora da maldição que ela precisa quebrar para sair viva desse lugar.

Capítulo 1 1º Capitulo

Sabe aquela sensação de liberdade que as pessoas costumam dizer que os órfãos sentem por não terem ninguém para lhe impor limites, pois é... Nunca tive. Talvez fosse por que eu não era uma órfã propriamente dita já que eu apenas não tinha sido criada pelos meus pais, na verdade eu nem os tinha conhecido, não sei quem foi meu pai, minha vó disse que não o conheceu, e minha mãe...

Bom, ela desapareceu do hospital no mesmo dia que eu nasci, uns dizem que ela surtou por causa do uso excessivo de drogas, outros dizem que ela apenas não queria o compromisso de limpar fraldas, eu não sei ao certo o que aconteceu ou por que ela me abandonou, mas apesar de tudo isso ter acontecido comigo eu nunca fui uma adolescente revoltada ou tive crises existenciais, na verdade eu era bem resolvida com isso.

Sentada em uma cadeira estreita demais para o meu traseiro, me senti desconfortável; mas não tão desconfortável como, com certeza, estava à diretora do colégio, que tentava se livrar de um professor pervertido que insistia em dançar com ela na frente de todos.

Levantei-me meio a contragosto, tentando passar despercebida pelos outros, e escapei pela porta dos fundos. Mais alguns metros e eu teria a bendita liberdade que todos os adolescentes almejavam. Olhei para os lados para ter certeza de que não estava sendo seguida, e então pulei no muro que dava acesso aos fundos da escola "Isso, liberdade!", minha mente gritava em êxtase pela minha primeira fuga da escola bem-sucedida.

Até que virei à esquina e deparei com meu avô; ele tinha as mãos nos bolsos da sua velha calça de sarja e usava sua boina verde escuro; e estava me observando com o rosto sério.

- Eu deveria ter imaginado que fugiria da aula.

- Vovô, essas festas de escola são muito chatas, eu não me enturmo fácil, sabe como é e, bom, tem os garotos eles preferem as meninas populares.

- Sua mãe era popular na escola.

- Sim, ela era, era popular, bonita, inteligente, tinha muitos amigos, a pessoa perfeita.

Meu avô soltou uma gargalhada.

- Tem razão, então ela saiu da escola para ir à faculdade, tornou-se hip e virou a cabeça da sua avó em um inferno. Vivia em bares declamando poemas sombrios e tristes e pelos cantos da cidade usando drogas até que conheceu seu pai, engravidou, e você nasceu.

- Aí, ela fugiu do hospital e me deixou para trás, e nunca mais ouvimos falar dela. Tem ideia de quantas vezes eu ouvi essa história? Por que a está contando pela milésima vez?

- Porque achei que era uma boa hora para mostrar a você a sorte que tem em nos ter para lhe amparar pelo melhor caminho.

- Não vai me obrigar a voltar lá, vai?

- Não, mas deveria. Vamos dar uma volta, logo estará na hora de voltar para casa e sua avó não vai desconfiar que você fugiu.

Abracei meu avô. Ele era, sem dúvidas, o melhor avô desse mundo. Eu sabia que estava errada por fugir, ele também sabia que eu merecia um bom castigo, mas ainda assim ele entendia o meu lado.

"Olá, meu nome é Anna, Anna Elizabeth Rasmus, tenho 16 anos...".

E era assim todos os anos, quando os professores pediam para escrever um texto sobre nós mesmos. As palavras morriam logo na primeira frase: o que eu iria dizer? Que eu era criada pelos meus avós que, apesar de estarem juntos há 50 anos, viviam de pé de guerra? Que eu tinha tios completamente loucos e que em toda janta de família rolava uma guerra de comida? Que minha tia mais velha estava tentando me enlouquecer dizendo que havia outros mundos por ai e que eu certamente pertencia a outro lugar? Talvez eu devesse escrever sobre a vida louca da minha mãe, que tinha virado hip e fugido do hospital depois de dar à luz, ou falar sobre o meu pai que eu nunca conheci... No fim das contas, não havia nada que eu pudesse escrever de interessante.

A maioria dos textos dos meus amigos era algo como meu pai faz isso, minha mãe aquilo, eu vou fazer faculdade e me tornar um excelente profissional... E lá estava eu tentando pensar nisso e amassando mais uma folha de papel com um texto fracassado.

Eu moro na Finlândia, mais precisamente em Naantaly, aqui faz muito frio e no inverno pode chegar até a – 16 graus, com uma sensação térmica bem menor que isso, como se já não fosse o bastante...

O lado bom de ser quem eu era, era que ninguém ficava me cercando em casa porque achava que eu podia pirar assim como minha mãe tinha pirado e fugir de casa; então, meus tios não pegavam muito no meu pé. Vesti um casaco grosso e comecei a descer as escadas.

- Vocês precisam parar de mentir para ela, ela precisa saber quem é! Desde que ela nasceu, essa mentira tem feito dela uma refém. Não entendem que a estão prejudicando lhe negando a verdade?

- Estamos protegendo ela! Hely morreu porque não intercedemos, porque permitimos que ela soubesse da verdade. Não cometeremos o mesmo erro com Anna.

Morta? Minha mãe estava morta? Mesmo sem conhecê-la, senti um nó no estomago. Por que eles não tinham me contado? O que teria acontecido? Eu não era mais tão criança, tinha o direito de saber o que tinha acontecido com ela. Teria sido um acidente? Ou seria verdade o que todos falavam: que ela era uma drogada; será que era por causa de drogas que ela tinha morrido? Ainda assim, eu merecia saber a verdade. Aproximei-me para escutar melhor, porém, pisei em falso na escada e precisei me segurar com pressa no corrimão para não cair.

- Anna?

Minha avó me olhou séria, parecendo ficar preocupada com o que eu já tinha ouvido. Eu fiquei séria, engolindo minha saliva sem saber se eu corria dali ou se perguntava o que estava acontecendo. Minha tia rapidamente pegou a bolsa e saiu para a rua.

- O que estavam falando sobre minha mãe? – tomei coragem para perguntar ao meu avô, que suspirou longamente e passou a mão no rosto.

- Nada importante querida, sua tia apenas ouviu boatos na cidade e veio nos contar, somente isso.

Eu deveria ter insistido, ter dito a ele que eu tinha ouvido a conversa e que eu sabia que não era isso. Eu devia ter dito que tinha escutado sobre a morte de minha mãe, mas por algum motivo resolvi ficar calada. Durante toda a vida eles tinham feito de tudo para que eu tivesse uma boa educação, se estavam tentando me proteger de algo, então era porque era melhor eu não saber. Ainda assim, eu daria um jeito de descobrir a verdade; o meu jeito, é claro.

Passei o dia no quarto de minha avó procurando pelas fotos de família que eu sabia que ela tinha escondido lá em algum lugar, mas não tive muita sorte. J á estava desistindo, quando uma fotografia caiu de cima do roupeiro; era uma foto de um homem alto, segurando um bebe nos braços. Minha vó entrou no quarto e levou um susto a me ver ali.

- Anna, o que faz aqui?

- Estava procurando fotos de família, preciso de uma foto de minha mãe para um trabalho de escola.

Minha avó empalideceu sem motivo, era apenas uma foto de minha mãe, eu sabia que ela tinha sumido com todas as fotos, mas não era possível que não tivesse sobrado uma.

- Trabalho de que disciplina?

- Filosofia... Ora, qual o problema vovó, é só uma foto!

- Onde achou essa que está na sua mão?

- Ela caiu quando fui empurrar a caixa no lugar, mas não sei quem é.

- Deixe disso, vou encontrar uma foto para você. Agora, saia do meu quarto; não gosto de ninguém mexendo nessas coisas.

Dei de ombros, era melhor não insistir, mas a cada segundo eu ficava mais intrigada com tudo: por que tanto mistério? Por que tantos segredos?

À noite, jantei em silêncio, e quando minha tia se retirou eu fui atrás dela; ela poderia me contar.

- Tia Tarja?

- Diga querida.

- Por que eles não querem que eu saiba que a mamãe morreu?

Minha tia me olhou séria, largando o leptop no mesmo instante e o colocando para o lado.

- Como sabe disso?

- Eu ouvi enquanto conversavam, perguntei para minha avó e ela desconversou; qual é o problema?

- Querida, eu sou proibida de tocar nesse assunto, me perdoe, mas se eu lhe contar, seus avôs me colocam para fora daqui.

- Eles não fariam isso.

- Sim, eles fariam, sinto por não poder ajudar Anna, mas isso é algo que deve saber por seus avós.

- Eles nunca vão me contar a verdade.

- Sinto muito.

Eu me levantei com raiva. Não adiantava brigar com minha tia, ela não tinha culpa, ela não tinha escondido isso de mim, não tinha mentido para mim. Eram meus avós quem eu devia confrontar. Resolvi ir me deitar, porém, não dormi durante toda a noite pensando nos motivos que eles teriam para esconder a verdade de mim. Quando o sol entrou por trás da cortina e uma brisa soprou pelo quarto, eu levantei rapidamente; estava cansada de ficar na cama, queria perguntar a eles a verdade antes que meus tios levantassem. E dessa vez eu não descansaria até que descobrisse tudo.

Desci as escadas e, antes de entrar na cozinha, ouvi claramente quando minha avó reclamou com meu avô.

- Anna está desconfiada, não vai demorar muito para descobrir que não é nossa neta.

- Não seja louca velha, ela nem desconfia que Hely não seja nossa filha.

- Por favor, meu velho, eu a peguei em meu quarto ontem procurando as fotos de família. Eu e você somos ruivos, assim como as tias e tios dela, somente ela e a mãe têm aqueles cabelos pretos e a aquela pele branquinha. E os olhos? Já viu como os olhos dela lembram os da mãe? Azuis, azuis como duas pedras preciosas, qualquer um desconfiaria, é só uma questão de tempo para ela descobrir!

Meus braços caíram pelo corpo e fiquei sem ação. Tudo que eu tinha ensaiado até então não fazia nenhum sentido. Eu não era neta deles? Nem minha mãe sua filha? Então quem eu era? Quem era minha mãe?

- Eu não sou neta de vocês?

Consegui sussurrar tão baixo, que achei que minha voz nem tinha saído. Porém, foi o suficiente para que os dois se virassem e me olhassem assustados. Minha avó levou a mão na boca e deu dois passos para trás, sem saber o que fazer; meu avô veio em minha direção como se quisesse me amparar, porém, eu disparei para o outro lado da cozinha.

- Se eu não sou quem eu acho que sou, então, quem eu sou? Quem é minha mãe? E o que houve com ela?

- Querida, por favor... Acalme-se!

- Vocês mentiram para mim! Mentiram!

Capítulo 2 2º Capitulo

Eu estava cega de raiva, irada por ter sido enganada, me sentindo traída e ao mesmo tempo confusa. Tudo que eu queria era sair dali, fugir para bem longe. Meu vô veio ao meu encontro para me segurar, mas eu desviei dele e sai correndo pela porta dos fundos, cruzei o portão de madeira e corri pela calçada como uma doida. Nas ruas, as pessoas andavam para o trabalho e me olhavam assustadas, enquanto eu tentava desviar delas sem muito sucesso; devo ter trombado em uns três. Meus olhos estavam embaçados e minha garganta seca. Limpei o rosto com as mãos e segui correndo.

Olhei para trás tentando ver se alguém vinha trás de mim, mas meu avô ficara para trás.

Dobrei a esquina, entrando no terreno baldio da casa cinza, a casa abandonada que eu e meus colegas costumávamos morrer de medo de cruzar na frente quando eu era criança; mas eu não era mais criança e, para ser sincera, aquele me parecia um ótimo lugar para chorar em paz. Tinha neve sobre os meus pés e logo ali perto uma árvore seca, com galhos retorcidos, balançava ao vento fazendo um rangido estranho. Aproximei-me dela e cai de joelhos no chão, perto do lago congelado; o gelo refletia meu rosto vermelho e ofegante, eu estava tão exausta que tudo que eu queria era poder descansar e fechar meus olhos sabendo que quando os abrisse novamente tudo que eu tinha ouvido teria sido um pesadelo.

Nessa hora, ouvi alguém chamar.

- Menina! O que faz perto do lago? Afaste-se, não é permitido pescar aí...

Olhei para trás e vi o guarda se aproximando de mim. Respirei fundo, estava em uma enrascada, pensei em gritar de volta dizendo que eu não queria pescar, que estava em um momento ruim, mas acho que ele não entenderia.

Neste momento olhei novamente para o meu rosto refletido no espelho de gelo na minha frente e percebi que minhas lágrimas tinham derretido o gelo, confusa toquei o lago e entendi que não estava errada, como passe de mágica o gelo se desfez por completo e minha mão foi puxada para dentro da água, mergulhei nas águas sem querer, alguma coisa parecia me puxar cada vez mais para baixo, tentei lutar com todas as minhas forças para me livrar daquilo que me prendia, até que finalmente consegui me desvencilhar e escapar para a superfície, nadei emergindo nas águas do lago já não mais congelado, e foi aí que constatei que aquele não era o mesmo lago em que eu havia caído e que algo estava muito confuso ali.

Diante de meus olhos, um bosque escuro e cheio de árvores se fazia presente. Balancei a cabeça. De onde aquilo tinha saído? Não tinha bosques no meio da cidade de Naantaly. Olhei em volta, mas não vi a cidade; não havia casas, carros, ruas, nada... Apenas o lago, de onde eu supostamente tinha saído algumas árvores e o nada...

Pisei em alguma coisa que se mexeu embaixo do meu pé e reclamou.

- Vê se olha por onde anda sua gigantona!

Olhei para baixo e me assustei ao perceber que era uma flor. Uma flor tinha falado comigo; me apavorei e sai correndo dali, sem rumo. Para onde eu devia ir? Onde eu estava? Que lugar era aquele? Será que eu estava sonhando? Mas era tudo tão real! Onde estavam meu avô e minha avó? Onde estava a minha casa?

Parei e respirei fundo, fechando os olhos. Assim que eu voltasse a abri-los, tudo voltaria ao normal, eu estaria deitada na minha cama, o dia não teria amanhecido ainda e, é claro, eu ainda seria neta dos meus avós... Não, nem tudo era como eu gostaria que fosse. Assim que abri os olhos, o mesmo lugar estranho voltou a assombrar minha visão, deixando-me apavorada.

Tirei o casaco encharcado que pesava sobre meu corpo e o joguei no chão. Estava muito frio ali e eu precisava me proteger do vento até que encontrasse um jeito de voltar para casa, se é que eu voltaria. Eu já começava a pensar que havia morrido afogada no lago e que estava no Paraíso, esperando meu julgamento. Encontrei ali perto uma pequena caverna; não tinha muita claridade, apenas a penumbra clareava um pouco o chão, o suficiente para que eu pudesse andar. Mas, pelo menos, não tinha vento ali e o lugar estava mais quente. Senti meu corpo ficar mais confortável à medida que ia para o fundo da caverna, até que meus olhos visualizaram algo que me deixou paralisada! Devo ter piscado pelo menos umas dez vezes, sem acreditar no que eu via.

Sobre uma pequena rocha, a uns 30 cm do chão, havia um rapaz que parecia ter sido esculpido ali, se não fosse tão humano. Suas pernas estavam presas pelas raízes grossas de alguma árvore; as raízes brotavam das pedras, como se elas fossem uma terra fértil; suas roupas estavam sujas e rasgadas, porém, logo se via que eram boas roupas. A camisa de linho, que outrora havia sido branca, estava imunda, mas tinha corte acentuado e boa fazenda. E disso eu entendia, já que minha vó era costureira. O mais impressionante até ali não eram as raízes ou o rapaz, mas um punhal cravado em seu peito de onde as raízes pareciam brotar. Seu rosto estava virado para o lado e caído... Estaria morto? - perguntei-me; mas, se estivesse, como podia não ter apodrecido ali? Como podia não estar com mau odor? Mas, se não estava morto como podia estar vivo com um punhal cravado em seu coração?

Subi na pedra, ficando um pouco alta do chão, e me aproximei dele. Apesar de sujo, ele não cheirava mal, o cheiro era algo amadeirado, que se misturava ao cheiro da caverna; os cabelos, um pouco longos demais, cobriam-lhe a face escondendo seu rosto; passei a mão por seus braços; um deles estava livre e o outro estava sobre o punhal, como se ele tivesse tentado remover a faca.

Minhas mãos passearam pelos seus ombros e chegaram a seus cabelos que estavam tão sujos que mal meus dedos podiam penetrar entre eles. Acredito que eram de um tom de castanho, mas era impossível saber a verdade sem antes lavá-los. Tomei um pouco mais de coragem e toquei seu rosto, desenhando o queixo e passando o polegar pelos lábios, que pareciam um pouco ressecados; porém, ele estava quente, eu podia sentir sua respiração... Vivo, ele estava vivo! Balancei a cabeça desacreditando e comecei a empurrar o cabelo dele para o lado na esperança de ver como seu rosto era de verdade. Lembrei que meu celular estava no bolso da calça; tirei-o do bolso torcendo para que ainda funcionasse. Assim que a luz ligou, lembrei-me de agradecer ao meu avô por ter comprado um telefone à prova d'água. Era óbvio que ali não tinha sinal algum de telefone, mas, com a claridade da tela eu podia ver melhor o rosto do rapaz. Levantei a mão para aproximar o aparelho, e quando o fiz levei um grande susto:

Seus olhos com enormes pupilas dilatadas se abriram e encontraram os meus, a íris de um tom verde esmeralda tão claro me fez perder a respiração. Soltei um grito alto, dei um passo para trás me esquecendo de onde estava, e fui ao chão, caindo com tudo, de costas. O telefone caiu de minha mão e se apagou na mesma hora; meu coração estava tão disparado quanto um acelerador de carro de corrida. E eu não sabia se era a minha respiração que fazia todo aquele barulho ou se era a dele. Eu tinha medo até mesmo de me mexer, pois eu não tinha certeza se eu havia despertado a fúria de algum monstro das cavernas, apesar de que, para monstro, ele não servia, porque mesmo sujo e desleixado sua beleza era extasiante.

- Tiina? - Ouvi a voz aveludada cortar o silêncio e imaginei que fosse a dele.

- Tiina, é você?

Tentei controlar minha respiração e levantei meu corpo com os braços.

- Não, na verdade meu nome é Anna. E você, quem é? - tomei coragem em perguntar, mas ele ignorou minha pergunta.

- Anna? Então... Não é ela... – Sua voz soou triste quando ele disse a última frase, mostrando o quanto estava decepcionado por não encontrar a tal Tiina.

Levantei-me e voltei a encará-lo em meio à penumbra da caverna.

- Quem é você? – perguntei novamente, torcendo para não ser ignorada dessa vez.

- Sou Kaarl, e você, Anna, não é? – disse ele sorrindo, como se esnobasse meu nome. – Quem é e o que faz na minha caverna?

- Sua caverna? De onde eu venho às pessoas tem casas, engraçado. – Foi minha vez de esnobá-lo, mas ele fechou o rosto demonstrando não ter gostado da minha piada. – Na verdade, não sei como vim parar aqui, estou perdida. – Respondi por fim me sentindo vencida, quem sabe de alguma forma ele pudesse me ajudar.

- Disse que está perdida?

- Eu caí, ou fui puxada, para dentro de um lago congelado e quando acordei estava aqui nesse lugar estranho.

- Lago? Congelado?

- Dá para parar de repetir o que eu falo e me dizer onde estou?

Ele sorriu.

- Já vi que é nervosinha tanto quanto ela.

- Ela quem?

- Tiina, são realmente idênticas. Até o gênio parece ser o mesmo...

- Afinal, quem é essa tal de Tiina de quem você tanto fala? Onde ela está? E como pode estar falando comigo? Está com um punhal cravado no peito, não deveria nem ter forças para abrir a boca, ou pior, deveria estar morto.

- Foi você...

- O quê?

- Foi você que me deu forças. Normalmente, eu não falo, tenho me mantido vivo com a ajuda de um fiel súdito que me traz comida e água; ele cuida de meus ferimentos há pelo menos uns 60 anos, desde o dia que ela me prendeu aqui.

Anna balançou a cabeça.

- Ela? Está falando da tal Tiina, não é? Mas, como pode ser verdade? 60 anos? Você não aparenta ter mais que 20 anos.

- Realmente você não pertence à Taika, seria tolice tentar lhe explicar.

- Está me chamando de burra? – Eu cruzei os braços incrédula, quem aquele cara pensava que era talvez eu devesse sair dali e ir procurar por ajuda, como um homem preso a uma rocha poderia me ajudar de qualquer forma?

Decidi dar as costas a ele e voltar a enfrentar o vento frio em busca de ajuda.

- Espera! Aonde vai?

- Buscar ajuda, oras afinal logo se vê que você está impossibilitado de me ajudar.

Ele soltou um riso sem humor, em tom de zombaria e depois voltou a me encarar.

- Certo, será que pode me alcançar à jarra de água? Estou com sede.

- Claro.

Capítulo 3 3º capitulo

Peguei a jarra de água em minhas mãos. Logo ela começou a vibrar em uma intensidade grande demais para que eu pudesse segurá-la e sua água passou a se mexer dentro dela, saltando para fora. Soltei a jarra me assustando e ela caiu no chão e quebrou, fazendo cacos por todos os lados da caverna.

- Sinto muito, eu não sei como pude deixar cair, eu...

- Tudo bem, eu não estava com sede. Na verdade, apenas pedi que me alcançasse à água porque queria fazer um teste com você.

- Teste?

- Um teste de magia. Apenas aqueles que têm a magia no sangue conseguem dar vida aos elementos, e você tem. Isso faz de você uma bruxa.

- Ok, eu não estou ficando louca, eu não estou...

- Você é uma delas...

Pronto pensei, tudo que ele tinha de lindo ele tinha de louco.

- Uma delas? Do que está falando?

- É uma Rasmus, não é?

Parei para observá-lo. Ele sabia meu sobrenome, ele me conhecia, sabia quem eu era, isso fazia dele um pouco menos louco.

- Sim, como sabe que eu...

- Por que conheci sua mãe. Demorei em reconhecer os traços, o cheiro, a energia, mas agora posso ver que não estou enganado sobre você. Desde que atravessou a barreira e veio parar aqui, as coisas na floresta ganharam mais brilho, magia, luz, foi você quem trouxe tudo isso. Não sabe como esse povo vem esperando por esse momento; depois que Hely morreu, acreditávamos que nunca voltaríamos a lutar novamente.

Meu coração disparou e parou de funcionar por alguns segundos quando ele disse o nome de minha mãe. Sim, ele me conhecia muito melhor do que eu mesma, ele era a outra parte da minha família que eu não sabia que existia.

- Conheceu minha mãe?

- Sim, tanto sua mãe quanto sua avó; sua avó lutou comigo e foi quem me lacrou aqui. Sua mãe já me conheceu lacrado e não consegui convencê-la a tempo de me libertar, mas você é uma Rasmus, você pode me soltar.

- Isso não faz sentido algum, minha vó não... – Nessa hora eu me lembrei que minha avó não era quem eu pensava que eu era, lembrei que minha mãe tinha sido adotada e que provavelmente eu nunca tinha conhecido minha avó de verdade. – Desculpe, na verdade eu acho que não conheci a minha avó... – Olhei para o punhal que ele tinha cravado no peito. - E por que eu deveria soltá-lo? Se Tiina o prendeu aí é porque certamente fez algo contra ela; e se minha mãe não o soltou, talvez seja porque deve permanecer preso.

Novamente aquele sorriso de tirar o fôlego.

- Tem toda razão, vejo que é mais esperta do que eu pensava. Mas prometo lhe contar toda a história, se me soltar... – Ele parou de falar e olhou para a fenda: – Rápido! Se esconda, eles não podem vê-la aqui. Corra rápido!

Olhei para os lados, procurei algum lugar nas sombras para que pudesse me esconder e me coloquei atrás de uma rocha. Não demorou muito para que dois guardas entrassem na caverna.

- Parece que a magia da floresta também te atingiu Kaarl; vejo que está mais forte hoje do que nos últimos dias.

Dessa vez, ele não sorriu.

- São os bons ares desse lugar, meu corpo tem se acostumado à escuridão.

- Ou será que é por que uma energia muito grande foi libertada hoje, mais cedo?

- Não sei do que estão falando.

- A rainha sentiu essa energia, viemos averiguar. Tem certeza de que não sabe de nada?

Kaarl sorriu a contragosto.

- Estou preso aqui há 60 anos, como posso saber de alguma coisa?

Os dois guardas se olharam e um deles desferiu um golpe contra o estômago de Kaarl.

- Não subestime nossa inteligência, sabe muito bem que não tem poderes aqui e que se quiséssemos já poderíamos ter acabado com você há muito tempo.

Kaarl abaixou o rosto. Os dois correram os olhos pela caverna e se retiraram.

Esperei um tempo para ter certeza de que tinham ido embora e voltei para junto de Kaarl.

- Eles bateram em você, meu Deus! Está bem?

Dessa vez, ele sorriu.

- Vou sobreviver.

Porém, o punhal sangrava um pouco agora, manchando a camisa branca.

- Está sangrando.

- Acontece às vezes, não vou morrer por conta disso. Mas agora, sobre o que conversávamos? Vai me soltar ou não?

- Se eu soltar, você vai me contar sobre minha mãe e me ajudar a voltar para casa?

Vi um brilho se formar nos olhos dele.

- Sim, eu prometo, vou lhe contar tudo e, de quebra, te ajudar a ir para casa.

Aproximei-me com cuidado... Eu não deveria estar fazendo isso, mas ele era minha única esperança, tinha sido legal comigo e eu tinha que retribuir. Eu não sabia se estava fazendo certo ou não, mas eu não queria ficar naquela terra, eu queria minha família louca de volta.

Segurei o punhal com força entre os dedos e o senti vibrar. Kaarl me olhou e entreabriu os lábios, Deus, como podia ser tão belo?

Sem fazer muito esforço, removi o punhal que o prendia. A parede então tremeu e uma onda de calor dominou todo o espaço, me deixando tonta. Vi uma luz brilhar no peito de Kaarl e o corte onde o punhal havia estado antes começou a se fechar como em um passe de mágica. A luz, porém, não era clara como as outras que eu tinha visto antes, era em um tom vermelho alaranjado; meus olhos se fixaram naquela luz e mais uma vez eu fui apagando.

- Anna? Anna? - disse ele com um tom preocupado. Eu devia estar com uma cara estranha, porque ele me segurava pelo rosto e dava tapinhas na minha face. Meus olhos se fecharam lentamente e tudo escureceu.

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